agosto 06, 2006

Conversa de bar (Domingo)

jack-daniels.jpg- I don’t remember my dreams. Tell me about yours, what's a typical plot?
- Mostly people trying to kill me.
- In color?
-Technicolor, wide screen. When did you stop remembering your dreams?
- A long time ago.
- But as a child you would remember them, right?
- Yes.
- So, you’ve actually lost your dreams as you grew older.
- Literally and metaphorically, I’d say you’re right.
- How sad. We have to find the hole in your conscience from where they are escaping and sew it.
- I think I prefer to leave it as it is. Maybe there’s a reason they’re running away.
- You could be right. God bless you.
- I´m an atheist.
- Oh, don´t worry about that. I've a feeling God will find a way to sneak in through that same hole.

agosto 04, 2006

Nashville (Sexta)

I fell into a burning ring of fire
I went down, down, down
And the flames went higher
And it burns, burns, burns
The ring of fire
The ring of fire

June Carter and Merle Kilgore

julho 16, 2006

O pequeno farol vermelho (Domingo)

redlight.jpgCom os seus cinco grandes bairros, Nova Iorque é uma cidade disforme ligada por pontes, que a prolongam até New Jersey, fazendo destes hectares os mais densamente povoados da América do Norte. A imagem de um canadiano da província agoráfobo subitamente largado em Times Square às 6 da tarde é um cúmulo do horror, mas a própria praça - que na verdade é apenas uma confluência de ruas - já é por si horrorosa e dispensa a evocação de distúrbios raros. Só que andamos sempre à procura de um princípio para as coisas e decidi fazer de Times Square o ponto de partida simbólico desta viagem. Cheguei às sete da manhã de um Domingo, não havia vivalma, aproveitei um sinal vermelho para pôr as milhas do bicho a zero - são gestos destes que aproximam as pessoas - e depois tive um instante de sobressalto. A cabecinha acelerada: como saio daqui? Meto pela Broadway e vou sempre para cima, não viro na primeira, nem na segunda, nem na quinquagésima, vou sempre direitinho - "siga, siga, siga" - fazendo da Broadway a route 9 até Albany? Seria uma ideia, caso a Broadway, naquela zona da cidade, fosse de dois sentidos. Não é. O trânsito segue para Sueste. Não vi na gaffe sinal de incompetência rodoviária, antes uma última demonstração da vocação atlântica reprimida. Eu a querer romper para Oeste e a cabecinha a engodar-me: mete pela Broadway, mete que vais para baixo, vai sempre, vai, vai e quando te faltar o chão confia no instinto do bicho, que ele flutua e ao preço da gasolina neste país tens tanque até aos Açores, bastando ires dando uma guinadas para a esquerda, assim coisa ligeira, atenção às correntes, ventos, marinha mercante, fragatas, periscópios, embarcações de recreio e ao maluco do costume que tenta a travessia a pedalar uma gaivota, tem cuidado, põe os piscas ao lusco-fusco, para que possas entrar na ilha do Corvo subindo a rampa do cais e sejas recebido em apoteose pelos locais, agradecidos por lhes teres animado o dia e aumentado consideravelmente o parque automóvel. (Continua)

Imagem

Notas sobre estes escritos:

1. Decidi que não ilustrarei estas entradas com fotografias tiradas por mim. Há uma explicação prática - a minha máquina não é digital - e outra mais programática. Não há paisagens virgens na América. O canyon mais inacessível é sempre comparado com a imagem necessariamente equivocada que dele tínhamos. E um bom teste é ver se a internet não é já o repositório de todas as imagens que me esperam.

2. A publicação destes textos será irregular. Aproveitarei alturas em que terei acesso wireless para poder copiar para o blogue o que vou escrevendo offline no portátil; serão momentos raros pois os motéis em que pernoito estão ao nível das pensões de uma estrelinha só. Colocarei a data que corresponde ao dia descrito no texto, que pode não corresponder ao dia em que o texto foi escrito e quase nunca coincidirá com a data real de publicação do post .

julho 15, 2006

O bicho

thelma.jpgPlaneei fazer esta viagem com umas sete ou oito pessoas diferentes. É mania que dura há anos, talvez desde o Thelma & Louise. A primeira parceira foi Geena Davis, só que a moça depois cresceu um bocadinho demais e para todos os lados, como se um soprador de vidro a tivesse insuflado pelo umbigo, mas apenas com o volume de ar que enche as bochechas. Logo a troquei pelos meus amigos. S., T., H., um pequeno alfabeto de homens e mulheres, promessas reiteradas, sonhos partilhados. Ninguém. É difícil sincronizar o desejo e poupem-me ao exemplo do orgasmo simultâneo, esse truque fácil para o reforço da empatia. Sobrei eu e o bicho. Fui passeá-lo ontem de madrugada. Fiz a FDR com o vidro aberto, gozando no rosto a aceleração aparente desta atmosfera quente e estagnada. As superfícies metálicas, como os corpos suados, gozam da propriedade ambígua que é rechaçar a luz deixando marca. São reflexos com direito de autor. Relembro-o por causa do anúncio gigantesco da Coca-cola em letras encarnadas de néon do outro lado do rio, ali na fronteira entre Queens e Brooklyn, que não passa cartão aos táxis amarelos mas gostou do azul-escuro do bicho e andou a brincar pelas arestas da carroçaria, mesmo se o East River - não sendo um rio - é caudaloso e em tempos quase afogou um surfista australiano (factual).
A cidade muda quando se guia, o que ontem aconteceu pela segunda vez em 5 anos. Na primeira, andei por aí com uma carrinha de mudanças desconjuntada que fui buscar ao Harlem. Agora foi de Mustang. Dá ares de sonho americano, só que é tudo uma ilusão, como ilusório parece ser arrumar o carro na East Village, uma zona da cidade que só atrai estudantes e remediados mas que deve ter moradores em número suficiente para saturar os lugares de estacionamento. Ignoro se a regra de ter de mudar o carro de sítio todos os dias ou ao segundo dia ainda existe, mas às duas da madrugada tudo me pareceu estagnado. Voltei a casa sem sair do carro e a ouvir os The Young Turks. Serviu o passeio para me acostumar ao bicho, tomar-lhe as medidas. Ganhei o golpe de vista necessário e experimentei no fim um certo orgulho por não o ter riscado, sobretudo porque me cruzei com vários taxistas paquistaneses.
Já em casa, não resisti a descer à rua uma última vez, sob pretexto de verificar se havia recolhido o espelho reflector. O que queria era sentir o bicho mais uma vez. Coloquei as mãos perto motor, senti um vestígio de trepidação e a chapa morna, morna como um mamífero de verdade.

julho 14, 2006

Navegação de cabotino

Parto amanhã. Não resisti a folhear Tocqueville, como se em vésperas de um exame. A verdade é que só o fiz para queimar tempo. Se há tarefa que não percebo é a de fazer as malas. A julgar pelo tempo que as pessoas tiram para fazer as malas, a descrição parece literal, sugerindo que se deve ter em conta o quão difícil é encontrar uma vaca ou cabra de onde sacar um bom couro. Na era da Samsonite, o lusitano continua a pensar como um artesão de marroquinaria medieval. E eu, que fiquei com este reflexo entranhado, na verdade faço as malas em 10 minutos e sempre dispenso o plural, sobrando-me depois tempo que talvez devesse ocupar com essa outra tarefa de proporções hercúleas que é o planeamento da viagem. Mas aí nem é uma questão de ser despachado, é mesmo por teimosia que não abro um mapa, quanto mais um guia. Li uma vez um Lonely Planet e só curei a depressão quando estava já de regresso. Agrada-me a improvisação. É preciso estar em San Francisco no dia 13 de Agosto? Aponto para o dia 10 e vou andando para Oeste, de motelzinho em motelzinho. É uma navegação de cabotino, passo o trocadilho.

julho 13, 2006

Livre de estilo

Mustang.jpgJá tenho as chaves do bicho. Vai apetecer ir deixando aqui impressões desta bela terra. Nada de grandes fôlegos à Natália Correia. Se há coisa que devemos evitar é um europeu a explicar a América. Serão as impressões possíveis. Posts curtos, cenas impressionistas, aguarelas 20 cm x 15 cm, esquissos a lapiseira, instantâneos digitais. Uma opção estilística? Isso. Isso e o carcanhol, que o aluguer dos terminais de internet está pela hora da morte. Relato de um coast to coast, pois claro, o grande clássico. Direcção oeste, como um Lucky Luke sem pileca. E em modo lonesome cowboy intermitente, que sempre se encontra companhia pelo caminho. Vou de Mustang e nem sequer pago por esta abundância de estilo. Se vissem os estofos... Sou um homem com sorte, mas não posso é riscar o bicho. Logo me avisaram que o dono, lá em San Francisco, é do tipo temperamental.