- I don’t remember my dreams. Tell me about yours, what's a typical plot?
- Mostly people trying to kill me.
- In color?
-Technicolor, wide screen. When did you stop remembering your dreams?
- A long time ago.
- But as a child you would remember them, right?
- Yes.
- So, you’ve actually lost your dreams as you grew older.
- Literally and metaphorically, I’d say you’re right.
- How sad. We have to find the hole in your conscience from where they are escaping and sew it.
- I think I prefer to leave it as it is. Maybe there’s a reason they’re running away.
- You could be right. God bless you.
- I´m an atheist.
- Oh, don´t worry about that. I've a feeling God will find a way to sneak in through that same hole.
I fell into a burning ring of fire
I went down, down, down
And the flames went higher
And it burns, burns, burns
The ring of fire
The ring of fire
June Carter and Merle Kilgore
Com os seus cinco grandes bairros, Nova Iorque é uma cidade disforme ligada por pontes, que a prolongam até New Jersey, fazendo destes hectares os mais densamente povoados da América do Norte. A imagem de um canadiano da província agoráfobo subitamente largado em Times Square às 6 da tarde é um cúmulo do horror, mas a própria praça - que na verdade é apenas uma confluência de ruas - já é por si horrorosa e dispensa a evocação de distúrbios raros. Só que andamos sempre à procura de um princípio para as coisas e decidi fazer de Times Square o ponto de partida simbólico desta viagem. Cheguei às sete da manhã de um Domingo, não havia vivalma, aproveitei um sinal vermelho para pôr as milhas do bicho a zero - são gestos destes que aproximam as pessoas - e depois tive um instante de sobressalto. A cabecinha acelerada: como saio daqui? Meto pela Broadway e vou sempre para cima, não viro na primeira, nem na segunda, nem na quinquagésima, vou sempre direitinho - "siga, siga, siga" - fazendo da Broadway a route 9 até Albany? Seria uma ideia, caso a Broadway, naquela zona da cidade, fosse de dois sentidos. Não é. O trânsito segue para Sueste. Não vi na gaffe sinal de incompetência rodoviária, antes uma última demonstração da vocação atlântica reprimida. Eu a querer romper para Oeste e a cabecinha a engodar-me: mete pela Broadway, mete que vais para baixo, vai sempre, vai, vai e quando te faltar o chão confia no instinto do bicho, que ele flutua e ao preço da gasolina neste país tens tanque até aos Açores, bastando ires dando uma guinadas para a esquerda, assim coisa ligeira, atenção às correntes, ventos, marinha mercante, fragatas, periscópios, embarcações de recreio e ao maluco do costume que tenta a travessia a pedalar uma gaivota, tem cuidado, põe os piscas ao lusco-fusco, para que possas entrar na ilha do Corvo subindo a rampa do cais e sejas recebido em apoteose pelos locais, agradecidos por lhes teres animado o dia e aumentado consideravelmente o parque automóvel. (Continua)
Notas sobre estes escritos:
1. Decidi que não ilustrarei estas entradas com fotografias tiradas por mim. Há uma explicação prática - a minha máquina não é digital - e outra mais programática. Não há paisagens virgens na América. O canyon mais inacessível é sempre comparado com a imagem necessariamente equivocada que dele tínhamos. E um bom teste é ver se a internet não é já o repositório de todas as imagens que me esperam.
2. A publicação destes textos será irregular. Aproveitarei alturas em que terei acesso wireless para poder copiar para o blogue o que vou escrevendo offline no portátil; serão momentos raros pois os motéis em que pernoito estão ao nível das pensões de uma estrelinha só. Colocarei a data que corresponde ao dia descrito no texto, que pode não corresponder ao dia em que o texto foi escrito e quase nunca coincidirá com a data real de publicação do post .
Planeei fazer esta viagem com umas sete ou oito pessoas diferentes. É mania que dura há anos, talvez desde o Thelma & Louise. A primeira parceira foi Geena Davis, só que a moça depois cresceu um bocadinho demais e para todos os lados, como se um soprador de vidro a tivesse insuflado pelo umbigo, mas apenas com o volume de ar que enche as bochechas. Logo a troquei pelos meus amigos. S., T., H., um pequeno alfabeto de homens e mulheres, promessas reiteradas, sonhos partilhados. Ninguém. É difícil sincronizar o desejo e poupem-me ao exemplo do orgasmo simultâneo, esse truque fácil para o reforço da empatia. Sobrei eu e o bicho. Fui passeá-lo ontem de madrugada. Fiz a FDR com o vidro aberto, gozando no rosto a aceleração aparente desta atmosfera quente e estagnada. As superfícies metálicas, como os corpos suados, gozam da propriedade ambígua que é rechaçar a luz deixando marca. São reflexos com direito de autor. Relembro-o por causa do anúncio gigantesco da Coca-cola em letras encarnadas de néon do outro lado do rio, ali na fronteira entre Queens e Brooklyn, que não passa cartão aos táxis amarelos mas gostou do azul-escuro do bicho e andou a brincar pelas arestas da carroçaria, mesmo se o East River - não sendo um rio - é caudaloso e em tempos quase afogou um surfista australiano (factual).
A cidade muda quando se guia, o que ontem aconteceu pela segunda vez em 5 anos. Na primeira, andei por aí com uma carrinha de mudanças desconjuntada que fui buscar ao Harlem. Agora foi de Mustang. Dá ares de sonho americano, só que é tudo uma ilusão, como ilusório parece ser arrumar o carro na East Village, uma zona da cidade que só atrai estudantes e remediados mas que deve ter moradores em número suficiente para saturar os lugares de estacionamento. Ignoro se a regra de ter de mudar o carro de sítio todos os dias ou ao segundo dia ainda existe, mas às duas da madrugada tudo me pareceu estagnado. Voltei a casa sem sair do carro e a ouvir os The Young Turks. Serviu o passeio para me acostumar ao bicho, tomar-lhe as medidas. Ganhei o golpe de vista necessário e experimentei no fim um certo orgulho por não o ter riscado, sobretudo porque me cruzei com vários taxistas paquistaneses.
Já em casa, não resisti a descer à rua uma última vez, sob pretexto de verificar se havia recolhido o espelho reflector. O que queria era sentir o bicho mais uma vez. Coloquei as mãos perto motor, senti um vestígio de trepidação e a chapa morna, morna como um mamífero de verdade.
Parto amanhã. Não resisti a folhear Tocqueville, como se em vésperas de um exame. A verdade é que só o fiz para queimar tempo. Se há tarefa que não percebo é a de fazer as malas. A julgar pelo tempo que as pessoas tiram para fazer as malas, a descrição parece literal, sugerindo que se deve ter em conta o quão difícil é encontrar uma vaca ou cabra de onde sacar um bom couro. Na era da Samsonite, o lusitano continua a pensar como um artesão de marroquinaria medieval. E eu, que fiquei com este reflexo entranhado, na verdade faço as malas em 10 minutos e sempre dispenso o plural, sobrando-me depois tempo que talvez devesse ocupar com essa outra tarefa de proporções hercúleas que é o planeamento da viagem. Mas aí nem é uma questão de ser despachado, é mesmo por teimosia que não abro um mapa, quanto mais um guia. Li uma vez um Lonely Planet e só curei a depressão quando estava já de regresso. Agrada-me a improvisação. É preciso estar em San Francisco no dia 13 de Agosto? Aponto para o dia 10 e vou andando para Oeste, de motelzinho em motelzinho. É uma navegação de cabotino, passo o trocadilho.
Já tenho as chaves do bicho. Vai apetecer ir deixando aqui impressões desta bela terra. Nada de grandes fôlegos à Natália Correia. Se há coisa que devemos evitar é um europeu a explicar a América. Serão as impressões possíveis. Posts curtos, cenas impressionistas, aguarelas 20 cm x 15 cm, esquissos a lapiseira, instantâneos digitais. Uma opção estilística? Isso. Isso e o carcanhol, que o aluguer dos terminais de internet está pela hora da morte. Relato de um coast to coast, pois claro, o grande clássico. Direcção oeste, como um Lucky Luke sem pileca. E em modo lonesome cowboy intermitente, que sempre se encontra companhia pelo caminho. Vou de Mustang e nem sequer pago por esta abundância de estilo. Se vissem os estofos... Sou um homem com sorte, mas não posso é riscar o bicho. Logo me avisaram que o dono, lá em San Francisco, é do tipo temperamental.