maio 06, 2007

Posts de Lisboa (série limitada)

franciscolazaro[1].jpgA minha futura casa é ladeada pela Rua Francisco Lázaro, o atleta português que faleceu horas depois de ter abandonado a maratona dos jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Consta que foi vítima de uma insolação por correr sem chapéu e ter tido a peregrina ideia de se untar com sebo, o que terá impedido a sua pele de transpirar. Lázaro não foi um herói e não consigo vê-lo como um mártir. A tragédia salva-o do cinismo e sobra uma personagem difícil de definir, que inspira mais compaixão do que admiração e também uma discreta reprovação. O apelido completa com a ironia. Eis um bom nome para uma rua.

junho 24, 2006

Mais olhos do que barriga

Lisboa. Amigos com quem quase não falo nem me correspondo falam-me com entusiasmo do MI. É um contraponto curioso aos outros amigos, mais presentes, que insistem para que lhes envie um texto meu e passam depois semanas a inventar desculpas por não o terem lido. Eis mais uma vantagem dos blogues: o feedback do leitor é espontâneo.

março 16, 2005

Posts de Lisboa (série limitada, edição especial*)

Jovem florista no Rossio afugenta mendigo embriagado com um chapéu de sol cor de laranja fechado.
Rapariga em pose maneirista, envergando vestido de chita com padrão à papel de parede dos anos 70, fotografa fachada na rua Brancamp empunhando uma Nikon.
Cigana que vendeu castanhas diante do hospital de Santa Maria tem uma orquídea sobre o assador apagado.
Prostituta sem escorbuto, com grosso crucifixo ao peito, botas caneladas e saia de padrão axadrezado (que deve ter um nome estrangeiro e não pode ser apenas um padrão axadrezado) não arranja cliente.
Com sotaque a transparecer alguma confusão babélica, a rapariga serve uma entrada de endívias na mesa do lado, sem comprometer a irrepreensível silhueta do terço superior de seu tronco e os olhos de rainha egípcia.

(continua)

*Notas sobre Lisboa com tolerância zero para a reflexão, a indução, a dedução ou qualquer outra manifestação da razão que não assente nas impressões imediatas que os sentidos vão recolhendo.

Sempre na vanguarda da invenção, o MI inaugurou aqui o conceito de post âncora. No post âncora recria-se um blogue dentro do post. A inspiração na estrutura dos fractais é óbvia. Com algum talento, conseguiríamos recriar o blogue no parágrafo e, num estadio subsequente, o blogue na frase. A distância que vai desta elaboração teórica ao resultado final põe a nu a incapacidade que as artes modernas têm em vencer o cepticismo popular: na prática, estamos apenas a falar de um post que vai sendo acrescentado.

março 09, 2005

Posts de Lisboa (série limitada)

À quarta aula repetida, o centro organizador do discurso migra para a língua. É então que a cabeça, liberta de produzir retórica estafada, começa em congeminações muito pouco académicas, que extravasam as paredes da sala. Para bem de todos, a mesma aula nunca chega a ser dada cinco vezes.

março 05, 2005

Posts de Lisboa (série limitada)

Os locais mais cosmopolitas de Lisboa devem ser os andaimes das obras. Na noite, tirando a enxertia dos turistas, a homogenia étnica só é quebrada por ocasionais olhos azuis, não raras vezes falsos, de resto.

Posts de Lisboa (série limitada)

Oliver Twist, A floresta, 15 Grandes Explorações, Aldeia Nova, Uma Ilha de Sonho, 20 000 Léguas Submarinas, A Cabana do Pai Tomás, O Fogo e as Cinzas, A Invenção do Amor... Este quarto já não me merece, mas ainda sou daqui.

março 04, 2005

Posts de Lisboa (série limitada)

Das muitas diferenças entre a noite de Lisboa e a noite de Nova Iorque, a mais pessoal e preferida é poder encontrar em Lisboa um rosto que me transporta 15 anos atrás, sobretudo aqueles rostos de pessoas com quem nunca falei, a quem nunca despertei o menor interesse e vice-versa, mas que sempre marcaram presença, como objectos incompletos na periferia do campo visual. Dá-se o encontro, o rosto passa e fico depois com o problema de como voltar à superfície. Sou um peixe de águas profundas.

janeiro 20, 2005

Posts de Lisboa (série limitada)

Percebi que sou desta cidade quando a deixei. Típico. A minha paixão por Lisboa é da ordem do deslumbramento incondicional. Sei que sou um mau lisboeta. Não consigo conceber um mau presidente da câmara de Lisboa, por exemplo. Ninguém consegue estragar a cidade completamente e isso basta-me. Ao longo dos anos fui deixando de olhar para os jacarandás em flor do parque Eduardo VII, para os desenhos nas calçadas ou para o Tejo ao fundo das ruas íngremes dos bairros velhos. Cheguei a um estado lastimável. O poeta canta o para lá de Marraquexe, mas esteticamente estou é para lá de Massamá. Ainda ontem, quando avançava pela segunda circular, emocionei-me ao reparar na luz do nascente nas marquises dos prédios de Alfragide. Por instantes apeteceu-me morar ali.

outubro 04, 2004

Posts de Lisboa (série limitada)

No Algarve descobri que sou francamente bom a fazer carreiras. Nas praias perto de Nova Iorque confirmei que se trata de um talento à escala planetária. Se a carreirinha fosse modalidade olímpica teríamos mais uma medalha. De ouro, obviamente. Bem, talvez tirasse prata, mas a pátria continuaria a ganhar, pois só o meu irmão ficaria à minha frente. O meu talento natural para a carreirinha leva-me a desprezar gente que se faz à custa do talento natural. Mas também sei que se um dia a carreirinha passar a modalidade olímpica vou perder esta doce ilusão, extrapolada de uma frágil hegemonia bairrista e familiar (sendo que esta é, para mais, polémica). O problema da aldeia global é que os lugares de topo já estão todos tomados. O louco da aldeia, por exemplo, é um personagem respeitado, lembrado e retratado. Só que não há literatura nem cinema que honre o trigésimo quinto louco da aldeia. Moral da história: toca a preservar a estrutura fractal das sociedades e das relações.

maio 05, 2004

Posts de Lisboa (série limitada): o que vem nos rostos

É quase certo que se trata de mais uma pretensão infundada, mas em Lisboa as pessoas não têm segredos para mim. Vejo um tipo na rua, que passeia o cão, e sinto que apanho a sua biografia à primeira vista. Sei o que faz e de onde veio. Com os dedos de uma mão enumero os seus passatempos e com as duas mãos conto as suas fobias. Por isso, muitas vezes reprimo o impulso de dar uma palmada nas costas de um desconhecido; outras vezes, rosno um "cabrão" em surdina. Ciente da injustiça destes julgamentos sumários, a eles consigo resistir em quase todos os locais do mundo, excepto em Lisboa. Parte deste comportamento reflecte a ambição de continuar a sentir-me lisboeta. Como deixei Lisboa há 10 anos, entre os meus amigos de Lisboa tento ser o mais lisboeta de todos.

abril 13, 2004

Posts de Lisboa (série limitada): lista exaustiva de coisas boas

O inventário das coisas boas é extenso, mas depois de censurado para efeitos de prevenção de lamechice ficou bem curto. Aqui fica (a ordem é aleatória):
1. Secretos de porco;
2. Queijo alentejano;
3. Mar algarvio a entrar por uma varanda alta;
4. Seis abelharucos que brincavam junto da ribeira do Cotovio (Alentejo);
5. A população de cegonhas do Baixo-Alentejo;
6. Pôr-do-Sol visto da Via do Infante (perto de Boliqueime);
7. Um quintal na Mouraria, tipo enclave.

abril 09, 2004

Posts de Lisboa (série limitada): esparregata social

Uma cidade rica em regueirões permite-me a perspectiva de planta sobre um grupo de toxicodependentes que se injectam com heroína a céu aberto, nos Anjos. Horas depois, laços familiares multiplicados por laços de amizade atiram-me para o banco traseiro de um Rolls-Royce, e aí faço da flying lady a mira com que aponto às coisas que desfilam.

Posts de Lisboa (série limitada): Regressos a casa

Houve um tempo em que tinha uma casa. Os regressos e as partidas sucediam-se com uma naturalidade de estação ferroviária. Houve depois um tempo em que tinha duas casas e o regresso e a partida começaram a ser postos na balança, tentando ver qual pesava mais em importância. A solução chegava quando estava muitos metros acima do solo, numa posição razoavelmente equidistante das duas portas. Mas era uma solução que não resolvia a tensão, apenas dava uma primazia precária a um dos sentimentos. Veio depois um tempo em que me fartei da balança. É este tempo. Com uma dose de estilo (senão bom, pelo menos eficaz), conclui que a minha casa é uma coisa única, mas fluida. Não a levo às costas, como o caracol (às costas costumo levar uma mochila da Adidas). Não a reconstruo cada vez que resolvo parar, como o nómada. A minha casa é o lugar onde precisam de mim e onde me sinto bem. Esta definição, pouco surpreendente e até aborrecida, é a única que faz sentido. Traz-me também alguma paz, sempre que viajo. Desapareceram a melancolia e a excitação com que me debatia enquanto voava. Consigo harmonizar dois sentimentos contraditórios, sem os converter em apatia. Na verdade, não se trata de harmonizar mas antes de tamponizar (no sentido químico do termo, mas sem químicos). Agora, uma partida e uma chegada somam sempre dois regressos.

janeiro 15, 2004

Posts de Lisboa (série limitada)

País real Sei hoje que as agências imobiliárias de Lisboa empregam um vasto espectro de gente, diversa na orientação sexual, na etnia, no percurso profissional, na forma como se entrega ao trabalho ou dele se furta, no modo de falar, na compleição física e no mau gosto em escolher fatos. Impressionou-me sobretudo um alentejano cinquentão, sujeito com o avermelhado do rosto e a textura da pele a levantarem a suspeita de que o bagaço há muitos anos destronou a meia-de-leite, e que não devia fazer o que fazia, pois a sua falta de ânimo chegava a ser contagiosa. Lembro-me de ter entrado numa casa da Ajuda e de o ver a olhar para o parquet como quem recorda a planície. Não ficámos lá dentro mais de cinco minutos. Deixei-o, apressado, ao encontro de outro reciclado da vida. Mas sempre que recordo aqueles dias, penso no alentejano; Lisboa fica então encoberta, o dia mais cinzento, e o verde seco da camisola que ele levava começa a confundir-se até à desintegração com o verde das paredes da Ajuda, esse bairro triste, que por volta das 4 da tarde está cheio de bêbados nos cafés.

janeiro 14, 2004

Posts de Lisboa (série limitada)

Racionalizar é preciso... Mas, afinal, o que se quer de um bairro? Que hipocrisia essa de se gozar a decadência nas páginas de um romance lido no conforto de um T3 de uma zona residencial moderna, com faias podadas, kiddergarten e telepizza no rés-do-chão? Então, como é? Se é ficção, diz-se prostituta e aguça-se o cristalino, mas se é vizinha passa logo a puta e sai um esgar de repulsa? E os patamares mal iluminados, aqueles que cheiram a mijo de gato, com o corrimão descascado e o soalho descaído, são coisa para cinema de autor, não é? Bairros de lata, só por cima do cadáver do Ettore Scola, está visto... Isto já para não falar do cosmopolitismo de Lisboa, a evoluir depressa para mais um melting pot (melting pot novaiorquino, entenda-se, a mais conseguida das mentiras urbanas). Pois, pois: chineses, africanos, ucranianos e indianos são bem-vindos, mas também não é preciso abusar da hospitalidade, não é? Um gueto aqui, outro acolá; com esforço e paciência ainda temos chinatown com portas guardadas por dragões (é só divisas a entrar). E com algum investimento, fazemos até o Estrangeiro dos Pobrezinhos (em escala natural, já agora). OK, Ok, vou estancar o cinismo. A verdade é que um propietário, antes mesmo do reconhecimento legal, adopta logo o discurso da classe. Instalo-me nos Anjos e o primeiro pensamento, pleno de arrogância e egoísmo, é: quando é que levam dali a malta da pica? Vamos, Ivan, só mais um esforço. Já conseguiste racionalizar a compra; só falta agora sublimar o impulso.

janeiro 11, 2004

Posts de Lisboa (série limitada)

XL LX O discurso de um patriota é um chorrilho que mentiras, um amontoado de idiossincrasias forjadas por um autista. Mas sempre se salva alguma coisa. A luz de Lisboa, por exemplo. É mesmo verdade.

Posts de Lisboa (série limitada)

Nos Anjos Metro a dois minutos a pé e heroína a cinco, a Almirante Reis um pouco acima daquela zona que parece uma avenida da Budapeste de finais dos anos oitenta, um bairro onde nem todos querem morar e a bússola que faltou para adivinhar o sol em dias encobertos. Ainda me lixo.

janeiro 06, 2004

Posts de Lisboa (série limitada)

Época de caça Entro na vida de gente estranha em trânsito para outras vidas. É com algum pudor que passo revista às casas que me querem vender. Não devia conhecer a cor da escova de dentes de alguém que me viu pela primeira vez instantes antes, ao abrir a porta. Mas já que é assim, fique o leitor a saber que há um tipo nos Prazeres que faz negócios na América do Sul e lê agora um livro em castelhano, sobre a arte de bem falar. Tem também um cassete VHS do Elvis Presley. Um casal, ainda na fase ascendente da curva do amor, algures na Estefânia, fotografa-se com bom gosto e ligeira insistência. Ela é bonita, ele cumpre os mínimos; o conjunto resulta, sobretudo a preto e branco. Numa fotografia identifico a torre Eiffel, desfocada e em segundo plano; noutras, mais elementos de Paris. Olho à esquerda e meço a palmo as lombadas de álbuns de banda-desenhada. São seis palmos e um indicador, o que reforça a hipótese da francofilia. Uma edição de bolso da Folio dissipa todas as dúvidas. Começo a perguntar-lhe, de várias maneiras, mas sempre mudo como um busto: "a menina esteve/estiveste em Paris? Sabe/sabes, vivi lá...". Não esclareço a dúvida. Estou agora em Santos e vou ao encontro de uma família com demasiadas avós. Pretendem despachar uma casa exposta a Sul e com vista desafogada, mas paradoxalmente sombria. Desejo-lhes boa sorte. A cara do netinho dominava um quarto, pendurada na parede. Remato a manhã em Campo de Ourique, esse bairro em câmara lenta. No quarto andar, sou ignorado por uma empregada preta que vigia uma panela com água a ferver. Uma menina de quatro anos e olhos imensos agarra-se às minhas pernas e ainda mais incomodado fico ao dar com um quarto cheio de bonecos de pelúcia mas sem uma única janela (que olhos tão sub-aproveitados; por onde andam as assistentes sociais?).

janeiro 05, 2004

Posts de Lisboa (série limitada)

Ser beeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiinnnnnnnfiquiiiiiiiistaaaa É ter na bagageira o farnel, estacionar o carro no parque de estacionamento do centro comercial Colombo e fazer o pic-nic com a família ali mesmo, indoors, para gozar a vista e o ar, tão puro.

Posts de Lisboa (série limitada)

E a blogosfera ali tão perto Na passada Terça-feira estive a algumas dezenas de metros de uma previsível concentração de bloggers. No São Luiz decorria o «É a cultura, estúpido!» e eu, à porta, tentava argumentar, mas sem grande chama. Uma rapariga explicava-me que a organização iria respeitar o limite máximo de ocupação da sala. Falou-me até do velho que quase morreu de ataque cardíaco num outro evento, por falta de ar ou coisa parecida. Foi escusado. Eu começara a discussão já vencido. É claro que ela tinha razão. Enquanto outros ainda discutiam, fui-me afastando. Um amigo meu, sujeito pontual e pouco versado nesta coisa dos blogues e dos saraus culturais, aceitara o meu desafio e estava lá dentro. Encontrei-o alguns dias depois e ele fez-me um retrato com olhos virgens de afinidades e embirrações acumuladas. Sem entrar em grandes detalhes, pareceu-lhe que toda aquela gente que pisava o palco era muito inchada. Perguntei-lhe depois pelo número de stand up comedy do Ricardo Araújo Pereira e ele: "Acho que não vi esse gajo. Pensei que todo o espectáculo era uma stand up-comedy, assim em contínuo, percebes? Fartei-me daquilo e saí antes do fim". Descobri a seguir que era capaz de ficar com ar de missionário frustrado.