janeiro 28, 2006

Pasteur, Instituto

A última mulher que nunca sorria, fui descobri-la um dia estatelada no asfalto. Não me custou encontrá-la, bastou seguir o vulto que passou em frente da minha janela, já bem acelerado. Os vidros duplos pouparam-me ao estrondo da queda, um barulho que imagino seco e profundo, a ressoar nos nossos ossos de quem ouve. A ambulância não demorou a chegar, mas foi para recolher um cadáver. Naquele tempo, uns viam o instituto como uma casa assombrada e os outros como um hospício. Em menos de 4 anos, três tinham conseguido matar-se, uma rapariga tentara envenenar-se e havia uma série de histórias mal esclarecidas, como a do homem que sucumbira a um cancro induzido por manipulação indevida de radioactividade. Eu olhava para os lados e só via casos clínicos: aquela mulher ainda nova que lavava as mãos de cinco em cinco minutos, a mulher deixada ao abandono, que todos os dias me lembrava das suas 38 publicações e me deixava com um verso de Leopardi, o homem a comer pistácios como um macado amestrado e a rabiscar experiências geniais com a lapiseira, o suiço inseguro com uma branca monumental no grande anfiteatro, o homossexual recalcado a dizer-me quase eufórico, com um ratinho na mão de ventre para cima, que “un mâle, voyez-vous, c´est bien un mâle…”, a secretária que procurávamos logo pela manhã, antes que o álcool tomasse conta dela, o tímido a querer ser excêntrico, que durante os seminários nos oferecia trapezismos de cabaret numa cadeira. O tipo mais saudável que conheci naquelas bandas chama-se Gabriel e espero que ainda hoje sirva pizzas na cantina. (reciclado)

janeiro 08, 2005

Pariscópio (2)

Volta agora a bailarina que dança em pontas nos espigos banhados a ouro do gradeamento do jardim do Luxemburgo. De onde vem esta mulher? Junto alguns elementos para a decidir entre memória plantada, sonho, visão, alucinação e outras possibilidades:
1. facto: em andamento costumava passar os dedos mão no gradeamento do jardim, conseguindo um efeito paradoxal de escala torrencial (pelo movimento da mão) de uma nota só;
2. facto: dois amigos de orientação sexual oscilante beijaram-se perto do gradeamento numa madrugada primaveril.
3. dúvida: onde está a fotografia tirada a um rosto irrepreensível que espreitava entre as grades, enésimo pretexto para brincar com a profundidade de campo?
4. que importância joga uma imagem real de alguém em equilíbrio precário sobre um outro gradeamento, como um marginal pouco dotado que arrisca o escroto a altas horas da noite e à chuva?
5. a reter: detesto ballet clássico.

dezembro 02, 2003

PARIS AQUI


Tenho com Paris, cidade que me roubou um molar e a inocência, uma relação de ódio e indiferença. Tudo em Paris escorregava permanentemente entre os meus dedos, à excepção das mulheres, claro. Não consegui lidar com o leque de preconceitos que adivinhava nos franceses e demorei a dar-me conta da falácia que alimentava. Com o seu quê de mediocridade, ganhei ódio à cidade, que não tem culpa das minhas fraquezas. Mais tarde domei o ódio com a indiferença. Enfim, enfin. Porém, sem que o consiga explicar, há momentos raros em que me lembro daquela cidade com ternura. Por exemplo, protesto com Nova Iorque por não ter a linha 6 do metro parisiense; em rigor, a linha 6 entre as estações Pasteur e Bir Hakeim. É um percurso de superfície, para fazer ao lusco-fusco, quando a luz do interior das casas já ganhou força e as fachadas ainda têm sombras ténues e azuladas. Um filme vivo de histórias paralelas. Gente pouco dada a cortinas, os franceses mostram tudo, dos podres domésticos aos melhores óleos. E com a carte orange, era uma pechincha. Ivan