Há um puto que trabalha no balcão da Tap do aeroporto de Newark que é muito esperto. Não é chico-esperto, é mesmo esperto. (Segue-se uma pequena deambulação que o leitor apressado deve ignorar, retomando de imediato a leitura na palavra a negrito). É certo que quando se faz um comentário destes há um problema de referencial, o que não ajuda muito. E há também aquelas teorias que fazem da inteligência uma entidade multifacetada, complexa, difícil de testar, numa palavra, uma coisa inefável. Sem querer ofender os académicos, isto sempre me pareceu uma forma dissimulada de não ofender ninguém, de criar uma ilusão igualitária. Combinados, estes dois elementos fazem da inteligência um quase-tabu. Ora, a inteligência é uma qualidade como outra qualquer ou, se preferir, a falta dela é um defeito normal. Sei perfeitamente quando estou na presença de uma pessoa muito mais inteligente do que eu, muito menos ou tão inteligente. Os primeiros fascinam-me mas deixam-me alerta, os segundos incomodam-me e os terceiros levam-me a procurar uma posição confortável no sofá. A interacção obedece às regras de uma boa jogatina de ténis (pronto, de ping-pong; um blogue que apela ao voto no PCTP/MRPP deve mencionar "ping-pong" em vez de "ténis", por dois motivos que ficam por esclarecer). O rapaz passa muito tempo a olhar para o céu. Percebe-se o drama: sonha com o cockpit mas deram-lhe o guichet. Fala português como felizmente eu nunca falei e inglês como infelizmente nunca falarei. As nossas interacções resumem-se ao essencial mas topei-lhe a inteligência pela forma como interage com os outros e como parece arrumar todas aquelas tarefas no cérebro reptiliano, deixando o córtex a pairar noutros mundos. Há uns dias, enquanto usava o polegar oponível para o gesto modesto de colar um autocolante na minha mala, reparou nos vermelhos do céu e soltou uma exclamação de júbilo. Ontem, quando eu regressava, apanhei-o num dos corredores a olhar a neve que caía com a melancolia que a contemplação das quedas lentas sempre induz. É nestas alturas que um certo défice de sociabilidade me custa. Devia ter-lhe dito algo, metido conversa. Já vai sendo altura. Um dia destes acumulo milhas para uma viagem à Patagónia e ainda não sei nada sobre este rapaz... Mas voltemos ao céu. O céu avermelhado estava deslumbrante. É claro que escrever sobre o poente é ainda mais complicado do que tirar uma fotografia original de um pôr-do-sol e opto por evitar o desafio. Onde queria chegar era a outro poente, cenário para um verdadeiro recital de um bando de estorninhos, quase uma provocação da passarada nas ventas do pesados e estacionados boeings. Em pleno espaço aéreo controlado, à vista desarmada dos controladores de voo, a nuvem de estorninhos deve ter baralhado os radares com a fluidez dos seus movimentos. Quebradiça, imprevisível, recortada a negro num fundo escaldante, não havia ali lugar para a melancolia. A coisa foi mesmo arrebatadora. De tempos a tempos, aparecem por aqui umas dádivas do céu, como a visão félix-fuentiana de um falcão a debicar a carcaça fresca de um pombo no parapeito de um arranha-céus ou este bando de estorninhos. Uma dúvida que não posso partilhar com os meus amigos ornitólogos assaltou-me também: estaria a trocar morcegos por estorninhos? Erros destes são indesculpáveis, excepto quando se permanece dentro da mesma classe (taxonómica) e se faz do erro um condimento para a História. Sucede que já não há arquipélagos por aqui e mais depressa se vai de um milhafre a um açor que de um morcego a um estorninho.
Três grandes aeroportos servem Nova Iorque. Onde moro o som da rua protege-me do barulho dos reactores, mas é muito difícil varrer o céu com a vista sem identificar pelo menos um avião, a qualquer altura do dia. Ora, o céu visto de Manhattan tem duas particularidades: é um céu lindíssimo, quase sempre limpo ou com poucas nuvens, e é um céu parcialmente emoldurado por arestas de prédios altos, como que visto através de uma enorme seteira. Antes de desaparecer no infinito, cada avião desaparece primeiro atrás de um prédio. Logo a seguir ao 11 de Setembro de 2001, sempre que via um avião a aproximar-se de um prédio ficava em sobressalto. Sabia que estava a experimentar um efeito óptico, mas nem com um professor de educação visual a sussurrar-me ao ouvido "Giotto, Giotto" esta apreensão teria desaparecido. Foi preciso deixar o tempo actuar. Meses depois, sempre que o nariz de um avião tocava na aresta de um prédio situado num plano mais próximo, ainda me lembrava do 11 de Setembro, mas já sem sobressalto. Há dois dias, de madrugada, enquanto fazia tempo e me deliciava com as nuvens rosa (umas cúmulo-nimbo, seria?) num céu azul, três aviões cruzaram os ares, traçando linhas que se interceptavam todas, cada uma delas com duas das outras. Pensei de novo no 11 de Setembro, imaginei de imediato o horrendo festival pirotécnico que seria um choque entre dois aviões. Só que, logo a seguir, comecei uma lenta aprendizagem- creio que bem sucedida- para conseguir voltar a ver o céu limpo outra vez, como antes. Tudo aconteceu no intervalo de tempo necessário para que os rastos de fumo se tivessem esbatido de vez e na cabeça de um traumatizado ligeiro não houvesse forma de saber se aqueles aviões estiveram ou não em rota de colisão. A última imagem que guardo é a de três aviões dourados pela luz do sol nascente, que criava reflexos na fuselagem; uma imagem de anúncio de televisão, logo, normal, banal, sadia, propícia para fechar um ciclo que começou, também para mim, na CNN.
Vi hoje no chão uma gravata, suja e amarrotada. Tinha alguns tiques de estátua maneirista, uma certa dignidade, mas também podíamos pensar na imagem de uma cascavel baleada nos ossos parietais e, então, não havia ali contorcionismo que pudesse salvar esta gravata de um fim miserável. Resta o simbolismo da coisa. Primeira hipótese: jovem de sucesso, com carreira promissora na alta finança, experimenta uma epifania de tipo ONG, afrouxa primeiro o nó da gravata, hesita um pouco, mas decide-se finalmente a atirá-la ao chão, com alguma teatralidade, um pouco como se chicoteasse o seu passado (enfim, algo na linha do masoquismo redentor). Nesse mesmo dia compra um bilhete de ida apenas para África (textual: ele terá dito "arranje-me lugar no próximo voo para África"). Porreiro. Há uma segunda hipótese: um sulista evangélico a estudar em Nova Iorque e a viver numa residência de estudantes sai à rua com uma cesta de roupa suja e dela acaba por cair a gravata do fatinho dominical. A análise dos motivos da gravata e da qualidade do material sugere ser esta a hipótese mais plausível. Maldita objectividade.
Viajo enquanto janto. O meu atlas tem manchas de gordura na Mongólia e há arroz seco no Canadá. Ontem enchi-me de altruísmo e mudei o bago de arroz seco para África. Hoje o arroz ainda lá estava e optei por não consultar os dados demográficos daquele continente. Não se pode pedir de um atlas mais do que o atlas pode dar... Consta que a muralha da China pode ser vista do espaço e que o Everest não é difícil de escalar quando faz bom tempo. Disseram-me que Machu Pichu é deslumbrante. Já confirmei a beleza do mar das Caraíbas e tirei as medidas a um Anapurna. Falta quase tudo. A Europa não conta. A Europa é para visitar quando já não temos forças. Fiquem com os museus e a descobrir minúsculas diferenças entre os povos. Enquanto esta sobremesa durar vou andar pela amazónia e conto não voltar.
Gosto da simbologia na berma das nossas estradas e sinto falta dos nossos sinais de trânsito, nomeadamente dos que têm moldura vermelha. Aqui, nesta terra onde tudo é proibido por defeito e impera o pragmatismo, os sinais de trânsito são surpreendentemente simpáticos e palavrosos. Trocava já o sinal com uma vaca desenhada pelo sinal com veados que tantas vezes vejo aqui. E lembro-me agora do sinal que anuncia a passagem de nível. Lembro-me também daquele que indica a inclinação em percentagem, a branco, preto e vermelho. Nos EUA os sinais são escassos em desenhos e quase sempre amarelos, o que só pode ser um anticipadíssimo prenúncio de alerta terrorista. De vez em quando aparecem uns avisos desgarrados que fazem um tipo pensar duas vezes ("aquilo é comigo ou com o meu carro?") e induzem umas guinadas introspectivas: "Dead end" e "Road narrows", por exemplo. Mas tais deslizes poéticos são logo compensados pelo sintético e horrível "E-Zpay", a anunciar a via verde ("via verde", que maravilha de nome) local. Se conduzir não beba, deleite-se com os nossos sinais. É sabido que um sinal de trânsito lusitano serve para muito pouco. Mas são bonitos, acreditem.
De uma cidade em quadrícula só me lembro das esquinas. Todas as fachadas dos edifícios são comprimidas na memória à dimensão de uma folha de papel, mas as esquinas não. As esquinas guardam-se em vários tomos, para levar e consultar nos lugares inóspitos, sem esquinas, como os desertos, os prados e o mar. Passeio pela cidade durante horas, entro em casa e só recordo o café da esquina, o anúncio luminoso a ameaçar entrar no cruzamento pelo enfiamento da aresta, o vício de antecipar os encontros fortuitos topando a rua perpendicular através das montras, o espanto e a surpresa sempre que abro o ângulo ao dobrar as esquinas opacas. Prostitutas, polícias, vendedores de fruta, gente perdida ou à procura de táxi, todos gostam de esquinas. Os delinquentes sofrem da mesma apetência. A esquina oferece múltiplas possibilidades de fuga e algumas oportunidades de negócio. É também um lugar ideal para confrontos urbanos.
A polícia chegou com o proverbial atraso. Até a assistência já tinha dispersado. O criminoso voltaria instantes depois ao lugar do crime, de novo livre de polícias. Continuemos com os clichés. O mau da fita foi um preto e estávamos acima da rua noventa. A vítima foi um porto-riquenho, feio e gordo. Havia uma rapariga, que não saiu do carro. Não se chegou a esclarecer o que fez com que o preto tivesse amolgado duas das portas laterais do carro à custa de violentas cacetadas com um taco de baseball. Também não se ficou a saber se a arma que o porto-riquenho tinha quando saiu do carro e tentou assustar o tipo do taco era verdadeira. Eu digo que sim. Motivos? Dois: quando disparou parecia barulho de arma de fogo e quando ele apontava a pistola para a frente, inclinava-a a noventa graus para um dos lados, ao jeito dos marginais da televisão. Não houve feridos nem mortos. O incidente durou cinco minutos. Cacetadas na porta do carro, ameaços do porto-riquenho, que saía e voltava a entrar, um tiro disparado, o carro em fuga e um gesto técnico impressionante do agressor, com o taco a ser lançado pelo ar animado por um movimento de rotação e a atingir o carro em andamento, já ao fundo de uma das ruas. É impressionante como a excelência técnica, mesmo quando usada para fins condenáveis, me leva imediatamente a ganhar uma certa simpatia pelos canalhas. Essencialmente foi isto o que aconteceu. Estava com um amigo e as nossas companheiras. Assistimos sem intervir do outro lado da rua, obviamente por causa das mulheres, que era necessário proteger. Que mais? Alguns elementos cénicos: o preto tinha um corpo enxuto e a musculatura jogava bem com as luzes. Às vezes parecia um marginal, outras vezes um herói da Marvel. Estas maravilhas da luminotecnia ligam bem com outra perplexidade: foi preciso encontrar um tipo pequeno e enfurecido numa das noites bêbadas das Sextas para dedicar alguma atenção a um taco de baseball. A minha aculturação prossegue, suave e imprevísivel...
Do que mais gosto em Nova Iorque? Dos semáforos. As luzes são tão intensas que de noite parecem estar desfocadas e de dia ligam mal com a paisagem, dando-lhes um ar de fotomontagem. O clímax atinge-se quando apanho uma avenida de suave inclinação (2%), que prolonga o enfiamento de semáforos até se perder a vista. Então, ao fim da tarde, testemunhar a mudança do sinal vermelho para verde enquanto avança pela avenida fora como um dominó fotónico, é um augúrio de bonança desconcertante e que vicia. Ao esquema inverso- a passagem do verde para o vermelho- não chego sequer a reagir. O corolário desta observação é que, afinal, andei enganado estes anos todos e só posso ser um optimista.
Natfalina pelo ar e novas colecções, magnólias em flor, peitos desabrochados, mamilos espetados, bebedeiras de T-shirt, janelas escancaradas, tardes lentas, sombras longas, bronzeados de solário reabilitados, pôr do sol às tabelinhas pelas ruas, pé de atleta na relva virgem do Parque com atletas, tatuagens no lombo e nos tornozelos, rabos de cavalo e mini-saias sem brisa, umbigos que brilham, barrigas contra-naturalmente chatas, gajos ricos ainda mais ricos e até à pele, gajos pobres ainda mais pobres até à ponta dos cabelos, coisas artificialmente frescas, fruta enterrada no gelo, pernas longas dos calcanhares à contra-luz, barulho de insectos, smoking ao lusco-fusco com o olhar perdido num whisky aguado, avenidas ensombradas, respiração ofegante depois de uma corrida, respiração ofegante, respiração, respingo de fonte, pingo de suor a deslizar pelas costelas sem nervoso miudinho...
Entro no átrio do meu prédio e reparo: à esquerda, o pinheiro de Natal, iluminado; à direita, um chanukah (o candelabro de oito braços) eléctrico, desligado; ao centro, Mohamed, o porteiro, sorrindo sempre.
Às duas da tarde de um dia de Inverno, visto de perfil e em contra-luz, o delgado edifício sede das nações unidas lembra o monólito do 2001, Odisseia no Espaço. Só a seguir me dei conta de todas as implicações que a comparação encerra.
De dia, a vista da margem de Queens e Brooklyn banhada pelo East River é dominada por um arranha-céus solitário e por algumas torres de igrejas, que também se destacam do casario rasteiro. De noite, a paisagem fica refém de uns dois ou três anúncios com letras de néon gigantescas. Quando se desce pela marginal do lado Este de Manhattan é difícil descobrir pontos de interesse na paisagem do outro lado, mesmo se, tentando uma inspecção mais minuciosa, recorro às sucessivas pontes para cortar a paisagem em talhões. Aceito que o melhor da marginal do lado de lá é a vista para o lado de cá. Começo depois a inventariar as excepções. Por exemplo, há um quarteirão fantasma na transição de Queens para Brooklyn que me fascina. Já o tinha visto antes, mas só há pouco tempo lhe dei alguma importância, certamente devido a uma conjugação acidental de elementos, que inclui a altura do sol e a minha disposição momentânea. O que aquela paisagem tem de especial é o aglomerado de volumes e a colecção de fachadas, que se ignoram mutuamente. É uma paisagem que se reinventa a todo o momento e que parece fazer das três dimensões do espaço uma tela, só para gozar o capricho de a poder furar ao reintroduzir a profundidade. É a mesma paisagem que absorve tudo o que a circunda, tal é a sobrecarga de pontos de fuga. A mesma paisagem que só tem castanhos e sombras, mas que um pintor amador que a quisesse pintar do outro lado do rio não conseguiria domesticar. E são apenas armazéns abandonados, placas de zinco enferrujadas e janelas sem vidro a abrir para a penumbra. De longe não vejo as seringas que adivinho terem ficado pelo chão e concentro-me nas formas, que continuam a fugir.

Uma vinheta
Há algum tempo que tenho vontade de escrever sobre o Riverside Park, um lugar que fez com que tivesse percebido a força do baseball neste país: são centenas de miúdos aos Sábados de manhã, equipados a rigor e com os pais a sonhar à boleia. É também o lugar de um encontro inesperado com o Cotton Club, que persiste. E com o grand danois que cavalga pelos relvados em busca de uma bola de borracha, deixando indiferentes os pescadores negros e os mexicanos que viram e reviram tortilhas nos assadores portáteis. A pedalar para norte, vejo barcos a bombordo e a ponte Washington ao fundo, que abriga um farol de brincar. Em suma, é uma paisagem meritória, digna de figurar em qualquer colecção de postais ilustrados desta cidade. Nunca pensei foi que a paisagem pudesse tomar conta de mim. Há dois dias, quando me virei para Sul, a imaginação disparou. Começo pelo céu, de fazer milagres, com as nuvens a deixar passar o Sol apenas por umas abertas, criando a ilusão dos holofotes celestiais às quatro da tarde. Cá em baixo, um Hudson de prata irrequieta, e tudo o resto meio acinzentado e cheio de reflexos, a pedir filtro para luz polarizada. A língua da ilha estendia-se até ao fim da ténue neblina e os arranha-céus, à esquerda, perdiam-se de vista. Lembrei-me de uma vinheta qualquer, não sei se pelas cores ou pelas formas. O certo é que por momentos tive mesmo de travar pois daí a instantes estaria a pedalar pelos ares. Certas paisagens partilham com os aromas raros da infância a força mobilizadora irresistível, mas não nos transportam de volta ao passado; enviam-nos antes para lugares difícil de cartografar, perdidos no espaço e vagos no tempo. No Domingo passado, era como se a paisagem entrasse por um olho, como matéria-prima e fosse saindo pelo outro, já processada. Como se o olho direito recebesse informações exactas conformes às leis da física e o olho esquerdo, que me parece mais vivido, devolvesse uma paisagem deturpada, que o olho direito voltava então a absorver, com inocência. Foi estranho. Às quatro e meia da tarde, voava rasante ao Husdon, ia fazendo leques de água com os dedos dos pés e sentia a maresia a dilatar-me as narinas.
Tarde e a más horas
Por volta das três da madrugada (a fazer norma do que vejo da minha janela) a cidade atinge um equilíbrio dinâmico com o número de carros que entram a igualar o número de carros que saem. A esta hora ainda não cantam os pássaros (entram às 5 horas e 30 minutos). Não estamos no Inverno e das várias frinchas da rua já não vem o vapor que tanta ajuda dá no momento de furtar mais um cliché. O quarteirão nunca chega a fervilhar como um bazar durante o dia, mas de noite transfigura-se num deserto de candeeiros, semáforos e inúteis passadeiras para peões. Perante a desolação de uma paisagem em que as sombras não se cruzam, quase sinto saudades dos matutinos americanos apressados e dos vagarosos ciclistas mexicanos em contra-mão. Nesta madrugada não vi vagabundos nem ouvi as vozes bêbadas das noites de Sexta-feira. Confirmei que não temos rafeiros e que quase não há gatos. Sobram os ratos, que da janela apenas adivinho (são pequenos e para ver ratazanas é preciso apanhar o metro e chegar a Brooklin). De noite tudo se torna mais claro: é um bairro de gente conformada que vive de fora para dentro (a família como cidadela). A pirâmide etária tem pouco de pirâmide; assemelha-se mais a uma silhueta de mulher de fina cintura ou apertado espartilho. Temos muitas crianças, muitos casais e muitos velhos mas não há gente nova. As ruas não acumulam sinais de crises de adolescência e não há grupos abancados no lancil dos passeios. A um bairro residencial em plena cidade falta sempre o nervo dos subúrbios. Aqui não há tensões sociais: os americanos brancos são servidos pelos mexicanos de bicicleta (a fast food demora a chegar), os japoneses preparam sushi, os coreanos dominam a restauração tex-mex, os afro-americanos colocam as compras de supermercado dentro de sacos de plástico. Um bairro assim deita-se cedo. Até por volta da uma da manhã ainda é possível passar o tempo a descobrir formas na distribuição de janelas iluminadas do prédio que tenho à minha frente (uma espécie de firmamento dinâmico, bem a calhar numa cidade sem estrelas). Porém, depois das duas sei que apenas vou poder contar com o tipo do oitavo andar com a casa mais a Sul (excluo dois apartamentos com a luz azulada do televisor ligado). Ponto final a uma madrugada que não funcionou.
A ponte de Queensboro
De todas as construções que mudam as paisagens, escolho as termiteiras e as barragens dos castores. Das coisas que o homem faz, prefiro as pontes e tolero as torres. Necessariamente altivas, tantas vezes fúteis, subo os degraus das torres armado com a desculpa do fulano famoso que detestava a obra do Eiffel e desfez o aparente flagrante lembrando que só subindo à torre a podia evitar, pois em qualquer outro lugar de Paris seria forçado a vê-la. Sem grande queda para a vertigem e com os olhos saturados das vistas de promontórios, miradouros e montanhas de neves eternas, subir a uma torre só para espraiar o horizonte parece-me um absurdo. Por isso, quanto mais subo mais aprumo o olhar, para que perceba enfim o labirinto das ruas ou o inteligência do plano urbanístico. É claro que tão nobres propósitos logo degeneram no espiar das indiscrições que têm lugar nos terraços, no contar das carecas que despontam no alto das cabeças dos homens altos, na invenção de histórias em que a trajectória de alguém que vestiu uma camisola vermelha se transforma num desafio ao talento narrativo. Mas até esse jogo cansa. Na cidade as pessoas andam depressa e em ângulos rectos, sem hesitações. Às vezes apanho alguém mais aluado, que hesita, deixa cair um embrulho, volta atrás, pergunta as horas duas vezes em menos de cinco minutos. Então sim, dá gozo inventar-lhe uma voz, arriscar um flashback, atirar-lhe com uma paixão quando o semáforo muda de cor. Porém, estes são momentos raros. Já não subo às torres com a inocência de quem pensava ir ganhar o olhar dos pássaros. Lá em cima é estar a meio caminho de nenhum lugar. Sim, uma torre cumpre sempre algum desígnio, nem que seja obedecer apenas à vaidade dos homens. Entendo as torres de menagem e a torre da igreja; aceito até as torres do Trump, tão fálicas quanto monolíticas; e gosto até dos faróis, com aquele sábio equilíbrio de poesia e luminotecnia. Mas prefiro as pontes. Nada supera a união de duas margens. Reconheço que não estou a ser objectivo. Quem escreve pensa que o melhor refrão da música portuguesa pertence aos Jáfumega. Ao contrário das torres, que me chamam para que as perca, prefiro ver as pontes de uma das margens. Isto vai parecer uma pequena perversão, mas não há no corpo da mulher uma forma que ultrapasse em beleza a suave curvatura do tabuleiro de uma ponte. Julgo também que enquanto uma queda na calçada de quem anda pelos andaimes de uma torre em construção é um acidente de trabalho, um mergulho involuntário nas águas tranquilas de um rio depois de uma queda de centenas de metros já é morte para mártir. São opiniões fortes de quem tem todos os dias encontro marcado com a ponte de Queensboro. Não é a ponte mais famosa de Nova Iorque, nem sequer a mais importante. Não atrai turistas nem nunca foi a construção mais alta feita pela homem, como chegou a ser a ponte de Brooklin (de novo a influência nefasta da culto das torres); está até fora da mnemónica que os guias turísticos ensinam a quem quer decorar o nome das pontes: BMW, para Brooklin, Manhatan e Williamburg. Ainda bem. Fica a ser a nossa ponte, da gente de Queens e da gente do Upper East Side, malta algo imiscível, mas unida por uma ponte. A ponte tem dois tabuleiros e uma renda de ferro que parece simultaneamente sustentá-la e aprisioná-la com uma chave que não consta dos manuais de luta greco-romana. É uma malha apertada e pesada, a deixar a ponte bem longe da sofisticação de outras obras mais recentes, que escaparam ilesas aos entraves da engenharia e são ainda cópias fiéis dos esquissos do autor, livres e sonhadores. Paciência. A verdade é que a ponte tem uma certa elegância e ganha com uma escolha criteriosa do ângulo de observação. Fica também muito bem na paisagem, a todas as estações do ano e a todas as horas do dia. Em resumo, pode não ser uma ponte bonita, mas é uma ponte com carisma. De resto, parece que não sou o único a gostar dela. Num dos cartazes mais famosos de promoção do Manhatan de Woody Allen percebe-se que o filme conta com um elenco razoável e uma ponte magnífica.
As entranhas da minha rua
Como todos os miúdos do meu tempo, também eu queria ser bombeiro. Até hoje convivi pacificamente com tal desejo, que via como parte de uma infância bem cumprida. Mas esta tarde, enquanto almoçava e ia reparando nas obras de reparação de um cano de água que rebentou na minha rua, experimentei uma sensação anacrónica. Pareceu-me óbvio que só quer ser bombeiro quem nunca viu uma retro-escavadora a trabalhar. Não há melhor manifestação de força, técnica e engenho. O artrópode gigante escavou o asfalto com a facilidade de uma colher a quebrar a película de chocolate de um bolo de encomenda. Em alguns minutos tinha aberto um burado do tamanho de uma cave. Ergueu depois um cano enorme, dentro do qual um skater anão talvez fosse feliz. Encostando a pá no topo de uns tarolos, enterrou-os bem fundo num gesto firme e lento (ocorreu-me que o uso da expressão "força tranquila" teria sido aqui bem mais pertinente). A salvo de derrocadas, puderam assim os trabalhadores descer à cova para continuar a reparação. Um homem saíu então da retro-escavadora e, embora parecesse um troglobita, olhei para ele daquele ângulo que reservamos para os heróis. E com o artrópode amarelo finalmente a repousar, ainda apoiado nos braços laterais que durante o esforço o equilibram, tentei perceber se esta súbita sensação de ter vivido toda a infância enganado fazia algum sentido. Conclui que foi melhor assim. Afinal, eu nunca quisera ser bombeiro e limitara-me a desempenhar o meu papel de criança. Porém, se tivesse visto esta retro-escavadora aos cinco anos, não saberia responder pelo meu futuro. E ainda que as coisas tivessem corrido de feição e o troglodita agora fosse eu, não será melhor ter um herói do que ser o herói de outros? Sei que a razão está comigo, mas por agora a vontade ainda é rebentar com o asfalto da minha rua a golpe de retro-escavadora até que fique com as entranhas ao luar.
Paisagens de NY
Desde que cheguei aqui, tenho ficado muitas vezes a ver navios. E não me canso. A minha janela abre sobre o East River e esta é uma vista que tão cedo não será corrompida pelo postal ilustrado. Falta-lhe beleza convencional e é preciso aprender a gostar dela, ver como lhe assentam as estações. Se não fosse a circunstância de ser a minha vista, não lhe daria importância. Hoje gosto do que vejo como quem descobriu algum encanto num rosto banal trazido pela rotina. A paisagem é futurista, mas à imagem daquele futuro da arquitectura que surgiu em meados do século passado e não há forma de deixar de estar sempre uns anos à frente. É uma Brasília a ir ao fundo, com um enquadramento estranho de duas pontes. Já a vi de noite, de madrugada, durante as manhãs ventosas, nos finais de tarde pacíficos e, claro, ao crepúsculo. Já a vi a todas as horas do dia e a quase todas as horas da noite, com a persistência de um Monet e sem o talento do pintor. Os batelões, quando passam, de tão carregados agitam o fantasma de Arquimedes, ou não lançassem suspeita sobre o Eureka velho de mais de dois mil anos. Os veleiros dilatam as pupilas do Daniel, que também espreita da janela, deixando-o a pensar "eu devia era ter tirado a especialidade..." . Ontem vi um autista em braçadas lentas, embalado pela corrente. Hoje foi um galeão de velas enfunadas que desceu o rio. Amanhã as pontes ainda estarão ali· ao fundo mas não sei o que trarão as marés e a correnteza. É que entre a foz e a nascente, olha-se para um rio e é sempre presente. Pelo menos parece.