fevereiro 23, 2006

Últimas palavras

As últimas palavras não são bem palavras. Se são ditas, não devem ser escutadas; se as ouvimos, o melhor é acreditar que chegaram extraviadas. Às últimas palavras só podem suceder últimas palavras. Há um silêncio que se aguenta melhor quando ainda sobram palavras. O melhor, então, é poupá-las. E em caso de desespero, escrevê-las numa carta sem remetente para a Posta Restante de uma cidade longínqua.

janeiro 24, 2006

Um galope que vem do fundo

Há histórias que fluem nos troncos das árvores genealógicas, indiferentes aos rudimentos da cladística. É uma seiva elaborada que deixa os primos dos ramos mais distantes infinitamente próximos. Não é uma omnisciência, porque para cada história há pelo menos dois segredos. São memes, memes familiares. (Sabes o que são memes?) O teu bisavô a raptar a tua bisavó a cavalo, um meme brutal. Um meme que se imagina com requinte cinematográfico, o jovem montado à mongol ou à índio da América do Norte, abraçando o animal com as pernas e a moça com os braços, arrancando-a do chão e aos trisavôs. Todos novos, na altura, num Portugal rural, sem subúrbios. O problema é quando falta o álbum de família ou um deserdado rancoroso que evite a deriva mitómana. Rapto da bisavó a cavalo? Uma pileca, talvez pela calada, a coisa combinada em segredo, os trisavôs no sono dos justos. Não se sabe. Fica a reverberar aquele galope de cascos em terra fértil, a bisavó num vestido branco sujo de lama, o trisavô do alto de uma colina, a armar a espingarda e a hesitar, por falta de um tiro limpo que fizesse tombar o homem. Ao jantar, alguém sempre conclui o relato, dizendo: "não estaríamos aqui hoje". Raios partam o bisavô, que pôs a fasquia do romantismo a uma altura impossível. Nem tentei aprender a montar.

dezembro 05, 2005

Portos escondidos

Para Puerto Escondido voa-se. De carro só vão os remediados. E os tolos. E os enamorados. Éramos tudo isso e eu voltaria hoje a alugar o mesmo carro. Porque chegar a altas horas da noite, depois de horas a serpentear na montanha, foi abrir os ouvidos às ondas do mar e deixar todos os outros sentidos de vigília. Para uma ceia de camarões grelhados, com os pés assentes na areia fria, a fitar o oceano Pacífico pela primeira vez, pensado em todos os monstros do mar. E para te olhar depois pela enésima vez. Estavas debaixo de uma das lâmpadas do bar de praia e aquela tripa incandescente sobre ti, filtrada em auréola pela gordura que a lâmpada acumulara, dava-te um ar de anjo áptero e triste. Devia ter pedido ao homem que apagasse a luz para que a lua tivesse chegado aos teus olhos, mas lembro-me sempre destes gestos com anos de atraso.
Não sei se chegámos a molhar os pés no mar. Diria que sim, mas há coisas que só recordo por dedução. Ensinaram-me a chegar a uma cidade, vila ou aldeia e a dá-la por conquistada só depois de visitar o templo local. Aprendi também a não me sentar na areia da praia nova até ter sentido a temperatura da água. Só que era de noite e eu pensava nos monstros. A visão de um tentáculo rápido a arrancar-te da praia talvez me tivesse assustado e feito inventar uma desculpa para irmos ao mar apenas quando amanhecesse. Também não sei se fizemos amor no quarto do hotel e aqui não há regra que me ajude nas deduções. Mas é um dado adquirido que adormecemos encaixados um no outro; duas peças de Lego em Puerto Escondido.

novembro 29, 2005

Morse

Tenho o vício de inventar nomes para instrumentos que meçam o que realmente conta. Mas não há unidade, nem escalas, nem ponteiros. Estas coisas não são passíveis de mensuração. Sobra um nome, que exprime um desejo. Tomo sempre por modelo o sismógrafo, porque me parece um instrumento rico e com sentido do tempo. Aquela agulha sobre o rolo de papel conta uma história, coisa que os desmemoriados relógios não são capazes de fazer; medir o tempo é deixá-lo fugir a cada instante. O que faço, perguntas? Ora, pego no sismógrafo, arranjo uma complicação de fios que torne o embuste credível e ponho-me a registar, sei lá, a alma, a alegria, o desencanto. Se calhar devia usar um estetoscópio, mas não saberia onde o encostar.
Ontem, enquanto ainda dormias, inventei o onirógrafo, um detector de sonhos. Na verdade, não o inventei, limitei-me a descobri-lo. O sol rasteiro entrou pelo quarto muito devagar (não é da latitude, mas quase apetece dizê-lo), inundando-o de luz, como naqueles dias de Inverno em que na nossa casa o sol espreitava por uma brecha entre dois prédios e a luz era o raio preciso dos monumentos megalíticos, só que no tempo e no local errados. Nesse momento uma sombra ténue, delicada mais precisa, projectou-se na parede. Chamou-me a atenção pela forma como se movia, às vezes com o lento baloiçar das algas fundeadas, outras vezes mais agitada e irregular, como se transmitisse sinais de Morse de um qualquer posto avançado sob ataque. Olhando-te de frente, era evidente que sonhavas, mas se não fosse aquela sombra jamais teria dado com o que as tuas pestanas iam relatando. Deixa-me pensar agora que o fazias inconscientemente, por saberes como eu gostava de ouvir os teus sonhos e teres receio de me desiludir se ao acordar deles não te lembrasses.

novembro 26, 2005

O suor pelas costelas

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Eu disse "não". A polícia então tentou negociar. Aí eu disse "não" outra vez e exigi falar com o superior hierárquico. Nesse momento a polícia fugiu.

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. Vinha cansado da viagem. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Eram dois. Tentei argumentar mas dei-lhes a minha carta de condução. Um dos polícias entrou para o branco traseiro e disse-me para começar a guiar. O seu colega seguiu-nos no carro da polícia. O polícia, do banco traseiro, pediu-me $120. Então eu disse "não". Começámos a discutir e fiquei um pouco exaltado. O polícia tentou negociar. Perguntou-me quanto é que eu estaria disposto a pagar para que resolvêssemos ali o assunto. Aí disse "não" outra vez e exigi falar com o superior hierárquico. Para me acalmar o polícia devolveu-me a carta de condução. Eu continuei, de dedo em riste, falando para trás. Nesse momento o polícia pediu para eu parar o carro, insultou-me e fugiu.

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. Vinha cansado da viagem e lixado por ter enfiado o carro contra uma carrinha, num cruzamento de um pueblo miserável. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Tentei argumentar mas cedi a minha carta de condução. Eram dois polícias. Um chamava-se Jesus e o outro era alto para um mexicano. Jesus entrou para o branco traseiro e disse-me para começar a guiar. O seu colega seguiu-nos no carro da polícia. Jesus arrancou um discurso moralista e vagamente xenófobo, antes de me pedir $120. Então eu disse "não". Começámos a discutir e fiquei um pouco exaltado. Jesus tentou negociar. Pelo espelho pareceu-me que afagava a coronha da pistola, enquanto falava comigo. Reiterei o "não". Jesus perguntou-me a seguir quanto é que eu estaria disposto a pagar para que resolvêssemos ali o assunto. Aí disse "não" uma vez mais e exigi falar com o superior hierárquico de Jesus. O polícia pediu-me calma, mas eu só lhe dizia que ia pagar "nada", enquanto guiava e gotas de suor galgavam as minhas costelas. Para tentar controlar a situação o polícia devolveu-me a carta de condução. Eu continuei, falando para trás. Algo enfadado e frustrado, Jesus cortou-me o entusiasmo e pediu para eu parar o carro. Abriu a porta, largou um insulto e dirigiu-se calmamente para a viatura do colega, que viera colada ao meu carro.

(continua)


O sal nas asas

Não sei que lembrança guardas das borboletas, se as vês em três cores apenas - brancas, alaranjadas e amareladas - e se, como eu, pensas que um salpico de mar as deitaria ao chão, mas só depois da água se evaporar e um cristal de sal de arestas afiadas lhes rasgar as asas. Talvez te recordes daquele bicho que recolhi com mãos em concha e, após peneirar a areia afrouxando os dedos, coloquei sobre as tuas costas nuas, para vos espiar de perto: ao bicho, quase desfocado, como um animal numa pastagem; a ti, à tua tão discreta penugem dourada, que o sol transformava numa auréola a envolver todo o teu corpo, e ao teu respirar, que fazia um ritmo complexo com a cadência das ondas. Parecíamos descansar depois de fazer amor, mas sem nos termos tocado, porque tudo à nossa volta nos tocava já em comunhão. E quase juro que a minha pele, sem que precisasse de ajuda, seria hoje capaz de desenhar a fronteira entre a parte exposta ao sol e a sombra que por ela avançou naquele dia, agora com a lentidão certa do meio-dia e já sem o artefacto da aceleração do tempo que é próprio dos momentos perfeitos.

junho 23, 2005

ONCE UPON A TIME IN MEXICO

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Eu disse "não". A polícia então tentou negociar. Aí eu disse "não" outra vez e exigi falar com o superior hierárquico. Nesse momento a polícia fugiu.

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. Vinha cansado da viagem. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Eram dois. Tentei argumentar mas dei-lhes a minha carta de condução. Um dos polícias entrou para o branco traseiro e disse-me para começar a guiar. O seu colega seguiu-nos no carro da polícia. O polícia, do banco traseiro, pediu-me $120. Então eu disse "não". Começámos a discutir e fiquei um pouco exaltado. O polícia tentou negociar. Perguntou-me quanto é que eu estaria disposto a pagar para que resolvêssemos ali o assunto. Aí disse "não" outra vez e exigi falar com o superior hierárquico. Para me acalmar o polícia devolveu-me a carta de condução. Eu continuei, de dedo em riste, falando para trás. Nesse momento o polícia pediu para eu parar o carro, insultou-me e fugiu.

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. Vinha cansado da viagem e lixado por ter enfiado o carro contra uma carrinha, num cruzamento de um pueblo miserável. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Tentei argumentar mas cedi a minha carta de condução. Eram dois polícias. Um chamava-se Jesus e o outro era alto para um mexicano. Jesus entrou para o branco traseiro e disse-me para começar a guiar. O seu colega seguiu-nos no carro da polícia. Jesus arrancou um discurso moralista e vagamente xenófobo, antes de me pedir $120. Então eu disse "não". Começámos a discutir e fiquei um pouco exaltado. Jesus tentou negociar. Pelo espelho pareceu-me que afagava a coronha da pistola, enquanto falava comigo. Reiterei o "não". Jesus perguntou-me a seguir quanto é que eu estaria disposto a pagar para que resolvêssemos ali o assunto. Aí disse "não" uma vez mais e exigi falar com o superior hierárquico de Jesus. O polícia pediu-me calma, mas eu só lhe dizia que ia pagar "nada", enquanto guiava e gotas de suor galgavam as minhas costelas. Para tentar controlar a situação o polícia devolveu-me a carta de condução. Eu continuei, falando para trás. Algo enfadado e frustrado, Jesus cortou-me o entusiasmo e pediu para eu parar o carro. Abriu a porta, largou um insulto e dirigiu-se calmamente para a viatura do colega, que viera colada ao meu carro.

(continua)