A empatia que um tímido a quem somos apresentados revela por nós durante um jantar com outras pessoas é um dos contactos humanos mais gratificantes em circunstâncias que não comprometam o decoro. Percebemos que o tímido se ri com as nossas piadas, que nos observa e que à sua maneira tenta comunicar. Por respeito, não o podemos interpelar, mas o tímido, estritamente pela sua condição de tímido e pela sua empatia, acaba por nos controlar. Nem sequer precisamos de nos sentir fascinados pela pessoa, basta o fascínio da sua timidez.
Esta noite [2.07.07] jantei com 3 alemães, uma rapariga (figurante neste relato) e um casal. A namorada do alemão, que praticamente não abriu a boca, foi achando graça sempre que eu me metia com o namorado, um tipo excêntrico, meio disparatado e trapalhão, mas muito simpático e curioso. Em suma, um alvo fácil. Passei então metade do jantar a tentar seduzir a namorada dele, não no sentido de quem faz a corte, apenas pelo gozo puro de agradar ao tímido. Na despedida ela sentiu-se na obrigação de dizer que tinha falado pouco ao jantar e eu desculpei-a já não sei como, aproveitando para lhe descrever o namorado como um tipo bizarro. Riram-se ambos -contrary to popular belief, os alemães têm sentido de humor, está é mal afinado - e ela fez-me um efusivo adeus enquanto nos afastávamos. Naturalmente, fiquei a pensar que um misantropo é alguém que nunca beneficiou da empatia de um tímido.
O período multiblogues não deixou saudades, mas tenho estado a salvar alguns textos. O MI vai andar em autofagia durante uns tempos pois não há tempo para mais.
I can't listen to that much Wagner. I start getting the urge to conquer Poland. Woody Allen
Entrei no Met às 6 da tarde, saí depois da meia-noite, comi uma sanduíche de salmão e não frequentei os lavabos. A música foi sublime; o segundo acto, um dos raros momentos de bom teatro em Ópera; a deriva nacionalista lá para o fim, não propriamente uma surpresa. Consta que era a Ópera preferida de Hitler. Ao regressar a casa, não acusei qualquer vontade de conquista, talvez por a minha vizinha ser russa.

- Do you want to join me for a Butch Cassidy/Sundance Kid excursion to Bolivia?
- Pá, contigo vou até ao fim do mundo. That´s not the point. When? How? For how long?
- Acho que nao fui claro: this would be forever babe, you, me, 4 six-guns and 1/2 of the bolivian army. You can pick, Newman or Redford, I don't mind.
- Em princípio diria "Newman", mas o Redford tem bigode nesse filme, certo? Não resisto a um bigode loiro.
- Great, I get to say “Kid, the next time I say: 'Let's go someplace like Bolivia,' let's GO someplace like Bolivia”. You get to say:”you just keep thinking Butch, that's what you're good at". And you get the moustache of course, but I get the funny hat. Something for everybody.
- …
- O roteiro do Bo Goldman é uma das pérolas do cinema. O gajo tem momentos de gênio e também escreveu, anos depois, o Princess Bride. A cena toda é ótima, isto é diálogo como não se escreve mais em Oliúde:
-Sundance: What's your idea this time?
-Butch: Bolivia.
-Sundance: What's Bolivia?
-Butch: Bolivia. That's a country, stupid! In Central or South America, one or the other.
-Sundance: Why don't we just go to Mexico instead?
-Butch: 'Cause all they got in Mexico is sweat and there's too much of that here. Look, if we'd been in business during the California Gold Rush, where would we have gone? California - right?
Sundance: Right.
Butch: So when I say Bolivia, you just think California. You wouldn't believe what they're finding in the ground down there. They're just fallin' into it. Silver mines, gold mines, tin mines, payrolls so heavy we'd strain ourselves stealin' 'em.
Sundance: (chuckling) You just keep thinkin', Butch. That's what you're good at.
Butch: Boy, I got vision, and the rest of the world wears bifocals.
-Can you reimind me of the woman I´m getting?
-Katherine Ross, em grande forma.The catch is, we share.
-Who goes first?
-I think it´s you. But I get to do her on a bicycle.
-That´s fine. Keep the bike as a consolation prize.
Da Patagónia ao Alasca, das praias da Baía às de Goa, dos projectos incontornáveis - Machu Pichu, Ilha da Páscoa, Expresso do Oriente - à única peregrinação que importa - as Ilhas Galápagos -, passando pelas cidades que são como as nossas cidades - Buenos Aires, Roma, Edimburgo, Rio de Janeiro, Berlim, Estocolmo -, pelas outras - Pequim, Tóquio, Deli, Istambul, Cairo, Cusco - e por tudo o que é paisagem - as florestas da Costa Rica, o Quilimanjaro, o Blue Hole do Belize, Yellowstone, o Nilo, o Amazonas, Moçambique, Fernando de Noronha -, visito em planos todos os lugares e chego até a bisar - "Ah, Patagónia, foi bom voltar".
O problema das férias passa por três fases, a saber: 1) quando se é novo falta dinheiro; 2) quando se tem dinheiro falta tempo; 3) quando há tempo e dinheiro começa a falhar a saúde. Uma das escapatórias possíveis é sonhar. É por isso que combino férias com toda a gente. 2007: tenho dois meses programados para a Baía e um tour do Brasil, uma ida ao Peru, o Bloomsday em Dublin se até lá acabar o Ulisses, um casamento na Índia, que com alguma sorte acontecerá e um pouco mais de sorte ainda incluirá elefantes, uma Viagem a Buenos Aires com a família, uma ida aos Açores e uma passagem meteórica por Quioto, estando ainda a ponderar explorar as Filipinas, se os diapositivos de uma amiga que por lá andou se revelarem convidativos. Dinheiro para isto? Não há. Tempo? Também não. Saúde? Toda. Aliás, desconfio que chegarei à fase 3 sem ter passado pelas anteriores.
Há dois tipos de amigos que contribuem para alimentar estas fantasias: os que são cúmplices - como o rapaz com quem tive o levemente babélico diálogo supracitado - e os que nos inspiram, isto é, os amigos que efectivamente viajam - como a moça dos diapositivos. Os cúmplices são uns tristes, como eu. Culturalmente bulímicos e até viajados, a verdade é que passam a vida a limar planos megalómanos que nunca levarão a cabo. Quando lêem no New York Times um texto de Edward Albee - o dramaturgo que escreveu Who´s Afraid of Virginia Woolf - sobre uma visita à Ilha da Páscoa à beira do seu 78º aniversário, comovem-se e sentem-se aliviados. Eles não sonham com a eternidade, apenas reclamam por uns vinte aninhos vigorosos de bónus. No fundo, anseiam pela chegada em vida de uma pílula que revolucione o turismo como o Viagra prolongou o sexo. Não querem excursões a Veneza enfiados com outros reformados num autopullman, antes um todo-o-terreno para, como dois mongóis, sujarem as ruas de Budapeste com a lama seca da Ásia Central.
O outro grupo de amigos é aquela malta que surge bronzeada no Inverno, mas não à custa de um fim-de-semana na Serra Nevada. A coisa envolve sempre troca de hemisfério terrestre, um mês de aventuras e os malfadados diapositivos, que deram entretado lugar às ainda mais virulentas fotografias digitais. Eles mantêm o sonho e seriam à partida seres estimáveis. A verdade é que os odeio, porque não se distinguem dos demais a não ser na sua prodigiosa capacidade de tirar férias. São bem-sucedidos nas suas carreiras, ninguém os deserda e dão-se ao trabalho de escrever da Birmânia postais aos amigos. São impecáveis, cheios de vida, gente com quem adoraria viajar e que até me convida para isso. Só que nunca vou e por isso ainda os odeio mais. Como os odeio quando me dizem que quando vierem os filhos não vão poder continuar a fazer o que fazem. Mas até este ódio é descabido. Bem vistas as coisas, para um turista de sonhos acordados a chegada de uma criatura que não o deixa dormir só irá contribuir para que viaje ainda mais: " ding dong, última chamada para o voo 736 das 3 da manhã com destino a La Paz". Enfim, I just keep dreaming, that´s what I´m good at...
Imagem: do filme Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969)
Não creio que Portugal se importará se 10 quilos de areia da praia da Arrifana desaparecerem nas próximas semanas. A possibilidade de poder dizer aos meus convivas americanos, diante do aquário, algo do calibre de um "this sand is my land" justifica o esforço. Querendo Deus ajudar na alfândega, o homem sonha, a obra nasce.
Imagem: manscrito de "This land is your land" (1956), de Woody Guthrie.
Uma pessoa que deixa o seu país para se estabelecer noutro é um emigrante. Quem se estabelece num país que não é o seu, um imigrante. Sucede que estas definições, sendo feitas para uso do povo que se deixa ou que acolhe, coincidem no indivíduo que muda de país. O emigrante sente-se também imigrante, e vice-versa. Por sorte, a proximidade fonética entre as palavras é tal que numa conversa ninguém repara neste nosso instante de atrapalhação, mas vou preferindo recorrer ao termo "migrante", que é menos intrusivo e evoca os voos migratórios das aves, a coisa alada (passo a EPCiana).
Se um emigrante é um cidadão com menos direitos e a um imigrante sucede o mesmo, o migrante é duplamente lesado na sua cidadania. Quando tentei arranjar um segundo emprego, não tive hipótese, porque o meu visto de trabalho quase gera uma situação de exclusividade (para obter outro emprego é necessário um novo visto, que custa dinheiro à entidade patronal, fazendo de mim um candidato menos competitivo do que os cidadãos deste país). É claro que este lamento soa a autismo social, tendo em conta a quantidade de imigrantes ilegais que trabalham em condições por vezes de total exploração. Mas mesmo nesta aparente integração social em que vivo, não deixam de se acumular exemplos de diminuição dos direitos. Estou é limitado à minha nada heróica experiência e a barafustar por circunstâncias apenas aborrecidas, como não poder ausentar-me do país durante os meses em que o visto está a ser renovado.
Recebi há poucos dias uma intimação para ser jurado num julgamento. É possível que talvez me viesse a aperceber da estucha de tal função, mas por momentos fiquei entusiasmado. Fazer parte do júri de um julgamento na América, eis uma missão de cidadania que me interessava, rica, possivelmente única, plena de material para reflexão futura e, como se não bastasse, capaz de confundir o mundo do cinema com a realidade. Na cartinha assustavam-me com o aviso em letras garrafais de que estava obrigado a responder em 10 dias úteis, reparo inútil, pois a minha vontade era fazê-lo na volta do correio. Só que durou pouco o entusiasmo. Ao perceber que aquela brincadeira de adultos não era para mim, por não ser cidadão americano, quase me esqueci de mandar a carta dentro do prazo. Talvez o envio às cegas destas notificações seja inerente ao processo de selecção aleatória de jurados, mas não custava nada que o estado se limitasse a incomodar os seus cidadãos, em vez de deixar alguns dos imigrantes que acolhe ligeiramente amuados. Enfim, antes assim, para bem da justiça. Nesta minha ânsia de fazer de Henry Fonda, o mais certo seria ter contribuído para um erro judicial.
Imagem: fotograma do filme 12 Angry Men (1957)
Já devia ter vindo a Laboratórios de Cold Spring Harbor há mais tempo. É um lugar mítico, a Meca tolerável da Genética Molecular, que tem funcionado como ponto de encontro há várias décadas para todos os grandes nomes da ciência que pratico. Há algo que irrita em Cold Spring Harbor: o culto da personalidade do seu director, James Watson. Mas foi também por um desejo de legitimação histórica - mais generoso - que se foi criando um fabuloso conjunto de fotografias dos grandes cientistas que por lá trabalharam, ensinaram ou apresentaram os seus trabalhos. Houve aqui um pressentimento de que se estava a documentar as décadas mais importantes da Biologia, desde Darwin; desde sempre, na verdade, se pensarmos nas implicações futuras destes trabalhos. As apresentações dos simpósios costumam ser reunidas e publicadas numa série que faz parte de qualquer biblioteca de Biologia decente. Quando estudei em Gif-sur-Yvette, nos arredores de Paris, por vezes dava comigo a folhear aqueles volumes e a demorar-me na secção das fotografias dos cientistas, instantâneos dos beberetes e das cavaqueiras que decorriam num dos relvados do instituto. Reconhecia os nomes, associava as caras, via quem se dava com quem, registava as excentricidades. Numa palavra, comportava-me como um leitor da Hola, gozando a frivolidade. Ao pisar finalmente um daqueles relvados, muitos anos depois, ainda houve um sobressalto e um sopro de ânimo. Um arrebatamento.
Imagem: Alfred Hershey, em primeiro plano
Vi hoje uma invenção que gostaria de ter assinado: um capacete para putos endiabrados, aqueles que estão sempre a colocar em risco a sua integridade física e as finanças da família, nomeadamente quando dão uma marrada na mesa com a terrina Companhia das Índias. Conheço casais que atenuam todos os vértices e arestas da casa com espuma. Apesar das boas intenções, trata-se de uma má prática. Não só há sempre algo que fica esquecido como, em boa verdade, parece que estão a proteger a mobília das crianças e não as crianças da mobília. Posso estar a ser injusto, mas é a ideia que fica e isto é perfeitamente inadmissível, sobretudo com o mobiliário IKEA. Se estivermos a pensar num contador decorado a laca da china, embutidos de madrepérola e decoração fitomórfica, enfim, hesito sem ceder; o que há de melhor neste mundo são as crianças. O capacete emerge, assim, como a solução ideal. Aquele que encontrei, numa das minhas deambulações, era impressionante. Chegava a dar ao miúdo um ar de cosmonauta, o que é menos uma maçada em que se pensar no Carnaval. Estava aderente à cabeça como se fosse uma máscara rebelde, que esconde toda a cabeça menos o rosto. E o puto ia feliz, posso garantir. Sorria como um sacana. Com a babysitter por perto, compreenderão que tivesse optado por não lhe aplicar um calduço. Reconheço que é essencial para completar este relatório técnico mas terá de ficar para outra ocasião, se entretanto encontrar um modelo para o meu tamanho que me proteja das pretas calmeironas que passeiam os miúdos branquinhos do Upper East Side.
No último ano escrevi apenas duas cartas. Fui ontem deixá-las no Correio. São praticamente iguais, embora com destinatários diferentes. Parece falta de educação minha, mas limitei-me a responder ao que me pediam e as pessoas pedem quase sempre o mesmo.
Faço revelações incríveis, que não ficaria bem mostrar aqui. E ambas as cartas me obrigaram a um exercício de síntese que desembocou em introspecção. O que fiz eu para ajudar as vítimas do furacão Katrina, por exemplo? Nada. Ajudei alguma criança desaparecida? Algum ecossistema? Não. Nem mesmo quando sou parte mais interessada, como nos combates ao cancro da próstata e à doença de Alzheimer, me comovi. Custou-me um pouco. Já me tinha esquecido destas derivas que por vezes surgem quando escrevemos uma carta. Não sei se a culpa é do envelope selado, que parece menos violável do que os agora habituais emails, mas não é costume expor-me tanto. Como se não bastasse, acedi a revelar que não tenho filhos e que vivo sozinho. Sei que serei penalizado por isso e é um pedido meio caprichoso da parte dos meus destinatários, mas eles são pouco tolerantes. Se há coisa que não quero é ter chatices com aquela gente. Seguiram ontem, as cartas; uma para o Internal Revenue Service, a outra para o New York State Department of Taxation and Finance.
Começo finalmente a gostar de ópera, um espectáculo que sempre me pareceu demasiado rico para poder ser apreciado sem cometer injustiças. Sucede que o meu recém-adquirido fascínio não resulta de um apuramento do gosto; apercebi-me, muito simplesmente, que o Met é dos poucos recintos nesta cidade onde ainda estou abaixo da média etária dos frequentadores.
Para um anfitrião uma festa é sobretudo uma sucessão de conversas interrompidas, mas o melhor fragmento que recordo última festa nem sequer surgiu no decorrer de uma conversa. Cito de memória, a partir de legendas em inglês projectadas na parede: "não é preciso ler todos os livros que temos. Os livros fazem-nos companhia. São como os cães, só que dão menos trabalho". É uma das deixas de um diálogo de Vai e Vem, de César Monteiro. Não estou a insinuar que convidei pessoas aborrecidas para a festa. Descobri inclusive um iraniano embriagado a um canto, o que me parece ser um bom indicador.
A Ferry Street de Newark é aquele sítio feioso onde se vai ver a bola, comprar Sumol e comer açorda de marisco com os amigos. Mas eis que hoje alguém se sai com uma ideia peregrina: I would really suggest a great portuguese place in Newark, mas isto talvez [seja] melhor depois. She seems like she has been to the 'it' spots, but looks to be a lady who might enjoy an ethnic touch, you know, you speaking to the maitre in your own mysterious dialect, full of jungle rhythms, she can almost hear the waters of the mighty Congo rushing through Coimbra...
Encontro-me com amigos e conhecidos na midtown, num local acima das minhas possibilidades económicas, que me recordou uma série de restaurantes parisienses onde nunca cheguei a entrar. Em conversa de circunstância no bar, enquanto esperamos por uma mesa, digo a minha idade. Compasso de espera e previsível veredicto: pareço mais novo. É verdade. Não ao ponto de me pedirem um documento de identificação quando compro cerveja, mas com um ar ainda jovem. Fico sempre é sem saber se serei apenas demasiado velho para a cara que tenho ou se o comentário cobre também a vida que levo.
Vi o Al Pacino a fazer de Herodes num reading da Salomé de Oscar Wilde, há já uns anos. Pacino é sempre genial, mas é sempre o mesmo Al. Disseram-me até que há um argumentista que se ocupa da alpacinação das deixas do actor antes do começo das filmagens. Soa a calúnia, mas por vezes é o que parece. Há duas semanas, vi o Gabriel Byrne numa peça de Eugene O´Neill, A Touch of the Poet (a única peça do ciclo Possessors self-dispossessed que O´Neill concluiu). Byrne interpreta Cornelius Melody, um oficial megalómano, apaixonado pela sua imagem ao espelho, por glórias passadas e por um copo de whisky . Os primeiros instantes dele em palco causam alguma apreensão. Byrne parece não saber muito bem o que faz. Só depois percebi que a falha foi minha. Não era o Byrne de The Usual Suspects, nem de Miller´s Crossing. Era Melody, Cornelius Melody.
Há mulheres que, não sendo minhas amigas e com quem não tenho grande contacto, quando se despedem por escrito enviam-me um abraço. Suponho que o abraço substitui o "beijo" como uma saudação menos íntima. Sucede que eu distribuo menos abraços do que beijos. Para abraçar alguém (sóbrio) preciso de estar à vontade e de gostar muito da pessoa. É possível que se procure uma saudação neutra. Mas aos meus ouvidos parece-me uma liberdade excessiva e, como se não bastasse, que se masculiniza o cumprimento. Se é para fintar o "um beijo", prefiro que me mandem "beijinhos" ou o asséptico "até breve". Enfim, depois deste desabafo, o mais certo será receber um "vai bugiar".
2005 foi um ano importante. Com alguma pena, percebi que nunca serei um bom pedagogo e comecei a orientar a vida noutro sentido. Agradeço a todos os maus professores que me formaram, pelo exemplo em que me reconheci. Se não deixo aqui uma lista longa é para evitar um lapso de memória que pudesse ofender alguém.
Conheci uma rapariga que trabalha na Foreign Affairs. Digo-lhe que em Portugal não há think tanks, apenas think chaimites. Não percebe, claro. Mas ri-se, tem vontade de gostar de mim. Dizem-me depois para ficar longe dela, que despacha homens como quem (a rare breed, talvez) muda de roupa interior. Só que ela tem cabelos arruivados, um olhar de contida sacanagem. Para mais, aprecia tipos da América do Sul e eu, sem esforço, cumpro. Lá está, falamos de um foreign affair.
Surgiu a oportunidade de publicar um texto do MI numa revista de literatura. O texto iria sair na secção blogues, a indicar que se tratava de literatura de segunda, abaixo de Lobo Antunes, da poesia, da prosa poética e de toda a prosa que gasta tinta e papel de qualidade, embora hoje, com boa vontade, se equipare à prosa dos jornais - João César das Neves, Vera Roquete, aquele abraço - e esteja ligeiramente acima da literatura medicamentosa. Queria lá saber da secção. Estava orgulhoso. Senti-me eufórico. Pedi então a duas amigas que fizessem a purga necessária de gralhas, erros ortográficos e opções gramaticais de mérito duvidoso. Ficou uma coisa enxuta. Gosto daquele texto. Foi há mais de um ano. A revista morreu por falta de verba e antes que o número com o meu texto pudesse ter sido feito.
Num bar em Chelsea um homem e uma mulher beijam-se apaixon desenfreadamente. Ao fim de uns minutos, são abordados por um dos empregados de mesa. O rapaz diz-lhes que tinha ficado tão animado que até telefonara à namorada. Por trabalhar num bar gay, sentia-se muito desacompanhado. A ornamentar a cena: dois mojitos.
Dedicado a todos os que não entendem a dinâmica das minorias.
Cidade que é cidade tem salas suficientes para alimentar 24 heures sur 24 et 7 jours sur 7 um dos seus habitantes subitamente necessitado de cinema.
Tem ciclos sobre realizadores obscuros de países obscuros organizados por tipos magros com casacos escuros.
Conheces as salas de cinema às quatro da tarde nos dias de semana? Aquele cheiro a remédio no ar, os dois casais de velhos enamorados e os trios de viúvas?
Eu sei, eu sei. No fundo apenas sonhas secretamente com uma rapariga que goste de se sentar nas filas da frente.
Diz-me: já tiveste vontade de esmurrar a tela? Vi tal coisa, mas era um jogo de futebol projectado numa parede branca, por isso não conta. Foi um argentino, que lixou os metacarpos... e a imagem do sacana do sueco saiu depois do buraco da parede com a leveza dos espectros. Sobrou a dor de um povo a latejar na mão, essas merdas.
Quando o filme é mau, pões-te a pensar se não haverá uma criança do outro lado, que nunca dali saiu, vê o mundo trocado e tem os cabelos desgrenhados como um selvagenzinho, mas fala um inglês irrepreensível e decifrou sozinha o alfabeto, a ler da direita para a esquerda o mau português das legendas ? Ou entras em raciocínios absurdos - quantos declives de sala de cinema são precisos para escorregar do topo do Everest até ao mar?
Nao faz sentido abandonar uma sala de cinema quando o filme é mau. As salas de cinema são os únicos espaços públicos íntimos. Fico sempre até ao fim da sessão. E se não gosto do filme, aproveito para dormir.
Leio, no Mil Folhas de hoje, uma entrevista a Colin Firth, feita por Helen Barlow e traduzida por Cristina Silva. Arrisco uma conclusão: Cristina Silva não tem mais de 28 anos. A passagem reveladora é esta: Porém, as maiores esperanças de Grant em Hollywood foram temporariamente despedaçadas, quando o actor foi apanhado com um travesti num carro (...) Façamos uma nota introdutória. Como se sabe, este episódio marcou uma geração, ao ponto de ainda hoje se perguntar: "onde estavas tu no dia em que o Hugh foi apanhado com a Divine?" Eu deambulava por Londres e nunca mais esqueci que antes de passar uma noite sobre a notícia já andavam uns rapazes a vender T shirts com a chapa de actor tirada na esquadra de L.A. e o título "Hugh: sucker". Piccadilly Circus, bons anos. Seria tentador vergastar na lusa pátria e na sua proverbial incapacidade de iniciativa com o espírito empreendedor destes moços britânicos, mas é de justiça recordar aquele outro fulano - um anónimo português - que, no auge do escândalo sexual com um arquitecto famoso da nossa praça, teve a luminosa ideia de plastificar um exemplar de determinada revista e de o alugar ao minuto no Rossio, para satisfação do transeunte sedento de imagens. Década de oitenta, bons anos. Mas voltemos à citação. Aqui nos EUA, o escândalo de Grant ainda é mencionado regularmente na TV e tornou-se referência incontornável na pop culture. Como se diz na entrevista citada, a carreira de Grant foi apenas momentaneamente abalada. O actor acabaria por se safar com brio e singrou em Hollywood. Ninguém sabe ao certo o que terá levado Grant a recorrer à prostituição de rua, tendo ele na altura uma namorada como a Elizabeth Hurley. Mas a vida faz-se disto: rotinas e mistérios insondáveis. A verdade é que - para efeitos de estilo - a história é sempre contada frisando a beleza de Hurley e o físico pouco atrante de Divine Brown, pese embora o seu nome de guerra. Não sei se foi também para efeitos de estilo, assim ao jeito da hipérbole, que Divine vem descrita no Mil Folhas como sendo um travesti. Curioso abuso, para o qual existirá seguramente uma explicação psicanalítca profunda. Ficamos a aguardar as notas de protesto do associativismo GLBT.
Na hora da nossa morte desce sobre os homens um pudor excessivo. Leio a notícia do falecimento de Cáceres Monteiro no Público, na Visão e na TSF. Recordam-nos aspectos da vida do jornalista, o que agradeço. Mas fico sem saber a causa da morte. Será que não é importante? E que, ao invés, é fundamental ficar a par da hora a que nos deixou? Com eufemismos ou por omissão, é assim que geralmente se resolve este problema. Como se houvesse um problema.
Fala-se tanto na tal "doença prolongada" que mais parece ser algo indigno. E sei de outros relatos vagos, que se alastram aos cochichos, deixando a pairar no ar a hipótese nunca resolvida do suicídio. Como se o suicídio fosse humilhante. São casos de pessoas demasiado próximas para que fique indiferente. Nestas coisas, como em quase tudo, o silêncio é um vácuo que não demora a ser preenchido, quase sempre com insinuações e mentiras. Mais vale falar antes, e dizer a verdade.
(As minhas desculpas aos familiares e amigos do jornalista, por aproveitar este dia para abordar tão melindroso assunto).
Tenho 34 anos e nunca passei um Natal sem a minha mãe. As outras datas, do dia do meu aniversário (e de quase toda a gente) à passagem do ano, trato com indiferença ou até desprezo. Entrei em 2006 a dormir, aproveitando a desculpa do jet lag. Mas ninguém marca uma viagem transatlântica para dia 31 de Dezembro sem ter um plano.
Se a quase todos agrada a ideia de organizar o tempo de um modo discreto, sempre preferi o contrário, o contínuo, um tempo com o menor número possível de marcos, para que as lembranças não se prendam a datas e as datas não embaracem o futuro.
Como duvido que haja alguém da Continental Airlines que leia o Memória, aproveito para dizer que não fiz as malas que levo. É importante frisar que nem as malas nem o grosso do que lá dentro se encontra me pertence. Na eventualidade de um acidente, quem depois conseguisse salvar as minhas malas ficaria a pensar que levei uma vida dupla em Nova Iorque e que o pacato rapaz de Lisboa seguiu por um caminho de perdição e aderiu ao travestismo. Volto por isso a insistir: os 20 pares de sapatos de mulher que carrego não são meus. Mas há mais. Levo uns calhamaços de literatura académica sobre sexualidade e relações íntimas - The Role of Theory in Sex Research, The New Science of Intimate Relationships, the Handbook of Sexuality in Close Relationships, etc. Como se adivinha, estes livros também não me pertencem e não creio que os fosse compreender. Tenho sobre estas matérias apenas um precário entendimento empírico. De resto, defendo que é inútil importar literatura estrangeira sobre sexo e relações íntimas, pelo menos desde que me disseram que Maria Filomena Mónica (MFM) acaba de revolucionar o género. A ser assim, urge traduzir para inglês a autobiografia de MFM e exportá-la (o livro, note-se), com isto se dando uma valente guinada no fiel da tão desequilibrada balança de transacções intelectuais com o estrangeiro. Enfim, as minhas amigas pedem-me favores e como burro de carga até não me saio nada mal.
No dia 10 de Janeiro irei até à detestável Quinta Avenida votar antecipadamente para as eleições presidenciais em Portugal. Eis o que terá lugar, em prosa de consulado:
(...)iii. Introduz o envelope branco e o documento comprovativo do impedimento no envelope azul, que fecha.
iv. O envelope azul é depois lacrado e assinado pelo eleitor e pelo funcionário diplomático.
4. Recibo comprovativo: O funcionário diplomático entrega ao eleitor um recibo comprovativo do exercício do direito de voto.
5. Envio: O funcionário diplomático envia o envelope azul, pelo seguro do correio e pela via mais expedita, à mesa da assembleia de voto do eleitor, ao cuidado da respectiva Junta de Freguesia em Portugal.
Imaginar o envelope azul a chegar à antiga escola preparatória Fernando Pessoa é reconfortante, apesar da inconsequência do gesto.
Na escola e na faculdade fartei-me de fazer trabalhos de grupo e a coisa dava-me muito gozo. Desde que acabei o curso, apesar de continuar a trabalhar dentro de instituições académicas, só tenho tido colaborações e parcerias; as primeiras tendem a ser esporádicas e as segundas desequilibradas (como entre o orientador e o estudante). Por outras palavras, nunca mais voltei a fazer trabalhos de grupo e o meu percurso tem sido essencialmente a solo. A excepção é um projecto a longo prazo com o meu amigo Santiago, que considero um trabalho de grupo a sério, apesar de ser um dicionário de ciência a brincar.
Momento memorável da noite: quando dois alemães sugerem e tentam demonstrar que o 11 de Setembro foi arquitectado pelo governo dos EUA. É difícil ser-se menos previsível (visto serem europeus), mas a coisa até teve graça, e isso foi surpreendente (visto serem alemães).
Há cerca de um ano resolvi acrescentar um "M." ao nome com que assino artigos e outros textos. Já me perguntaram se não seria influência do escritor Gonçalo M. Tavares. Na verdade trata-se de uma singela homenagem a Ana Maria de Oliveira Temudo e Melo, minha mãe.
Há um capital de esperança associado à promiscuidade que não tem merecido a devida atenção.
Não sei se o leitor também tem o hábito de pela madrugada fora, ou logo quando acorda, rever tudo o que disse na festa da véspera, tentando perceber até que ponto e diante de que pessoas foi ridículo ou simplesmente inconveniente.
Gosto de consultar listas de fobias. Há fobias verdadeiramente desconcertantes. Creio que a explicação se deve à própria natureza humana, já de si desconcertante, mas desconfio que há também um desenfreado ímpeto de catalogação entre os psiquiatras. Enfim, serão talvez as exigências da profissão. A fobia que mais me fascina é a agorafobia, o medo dos espaços abertos (que inclui também o medo das multidões). Ora, eu não tenho medo de multidões. Pelo contrário, adoro perder-me num mar de gente, porque gosto de observar as pessoas e porque me sossega sentir que sou apenas um entre milhares. Curiosamente, nos últimos tempos tenho vindo a detectar um comportamento que, de modo algo leviano, definiria como agorafobia de tipo nostálgico. Refiro-me a eventos sociais que juntam pessoas que se conheceram há muitos anos e depois perderam o contacto umas com as outras. O exemplo mais elucidativo é o fatídico jantar de curso. Nunca fui a um jantar de curso e, com alguma sorte, nunca irei. O facto de viver no estrangeiro aliviou a obrigação social e não fui forçado a explicar por que motivo nunca apareço. A verdade é que mesmo se vivesse em Portugal não me veriam num jantar de curso.
Tive bons colegas. Tenho boas recordações. Tenho 3 ou 4 amigos que conheci na faculdade e saudades de algumas pessoas. Dito isto, entrar num restaurante sabendo que vou encontrar 30 pessoas 10 anos mais velhas, cujos nomes já não arrisco e cuja biografia recente desconheço, é para mim uma cena de horror. Não se trata de misantropismo, nem de elitismo. Não me move um ódio especial à sociedade e noutras circunstâncias adoro o convívio. Interessa-me também saber o que andam a fazer os meus colegas. E gosto de os encontrar, desde que seja um de cada vez e por acaso. O que me aflige - e é mesmo pânico o que consigo antecipar - é a sobredosagem de memórias, aquele efeito sinergístico e de conseqências devastoras quando à mesa alguém solta o inevitável "lembras-te?". Tenho alguma curiosidade em saber qual será a minha posição daqui a uns 20 anos, mas o mais certo é até lá ter deixado de receber convites, coisa que me parece inteiramente justa.
Entre os meus amigos arrisco-me a ficar para a História como o gajo que ergueu uma parede de esferovite. Isto não é metáfora, é factual.
Regresso do teatro com uma amiga. Passamos perto do Rockefeller Center e damos com um palanque, um monitor gigante e uma assistência cabisbaixa. Discursa o presidente da câmara de Paris, com garra, confiança e um tom assertivo. Concluímos que Paris acabara de ganhar a corrida para a organização dos jogos olímpicos de 2012. A imagem do francês triunfante no centro de Nova Iorque é irresistivelmente anacrónica. Na manhã seguinte lemos na imprensa que afinal ganharam os ingleses. Foi como se alguém tivesse passado a noite a virar as páginas de um calendário esquecido.
Quando a reencontrei de novo partilhámos as aventuras, sem o entusiasmo dos coleccionadores de cromos. Houve pudor e prudência. Antes de irmos para o quarto passámos pelo chuveiro e eu toquei-lhe nos genitais com o afinco e distanciamento de uma enfermeira velha. Ao fim de 10 minutos senti que ela era minha outra vez e que o passado se afunilava e perdia pelo ralo da banheira. Então fomos para a cama. Na manhã seguinte despedimo-nos definitivamente, quase não dissertando. Sem perder um dia, ao fim da tarde aluguei a minha primeira prostituta. O tempo esgotou-se antes que eu desse o banho de imersão dela por terminado. A rapariga estranhou mas fez-me um desconto, não sem antes ter recomendado outra marca de amaciador.
Perdoa-me. Não é improvável seres avó. Não é improvável que passes ao lado da beleza. Não é improvável que me aplicasses um par de tabefes - e bem dados seriam - se este postal chegasse a Cuba na volta do correio sem que me lembrasse de falsificar o endereço do remetente. Deliro: não seria bastante a tua raiva para arriscares a travessia.
Quando leio "La Havana" parece que não és real ou, a existires, pertences a outro tempo. Culpemos as canções. A propósito, podes esbofetear o Sílvio se o encontrares por aí. É que ele canta Cuba com uma carga lexical que me afunda num romantismo serôdio, Gertrudis. E "serôdio" liga bem com "Gertrudis", com o devido respeito.
Deves ignorar estas palavras. Ou então mudar de nome. Gertrudis é seguramente o mais bonito dos nomes feios. Daí esta vontade de te inventar, como se ainda valesse a pena o conserto, ainda houvesse esperança. Percebes?
Começo sempre pelos teus calcanhares. As mulheres devem ser desenhadas no sentido ascendente, disse-me um dia um desenhador sem currículo. Perdoa-me, uma vez mais, se caio na boçalidade do turista e ponho uns salpicos de ondas nas tuas pernas nuas enquanto passeias pelo Malecón. Lembra-te que todo o lirismo desajeitado é culpa do Sílvio. Daqui a nada começo a dizer que és canção, verás.
Resisto a imaginar-te mulata e de olhos verdes, mas não é fácil. Culpemos o Carnaval brasileiro e a mania de comprimir as latitudes mais longínquas como se fosse tudo a mesma aldeia. Culpado também é um amigo com fantasias recorrentes sobre mulatas de olhos verdes, confessadas com tal nostalgia que o comentário ao tal vigor híbrido surge inócuo, sem graça ou - acredita se quiseres - ponta de racismo. Em todo o caso, jamais te revelarei o paradeiro deste amigo, Gertrudis. Dá uns sopapos no Sílvio.
Diz-me, Gertrudis, que cuidados devo ter para não fazer disto uma elegia acidental? Que tipo de adjectivos devo escolher para que fiquem a reverberar sem o eco das palavras estafadas? Irei contigo à praia Giron, se quiseres, mas responde na volta do correio. Me urge tanto.
A gente que sai à Quinta tem o ar satisfeito de quem começa a sair à Terça.
Na Privamera-Verão de 2005 os seios usam-se fartos.
Ainda há homossexuais com menos de 40 anos que não fazem musculação.
Na restauração as tarefas estão geneticamente determinadas à maneira dos formigueiros: os pretos são porteiros, actores brancos servem à mesa e os mexicanos limpam as mesas.
Privilégio: beber com um sérvio.
Pesadelo: beber como um sérvio.
A minha ciência tem sido um hino reiterado à uniformidade do mundo natural. Nunca descubro diferenças.
A minha melhor amiga no local de trabalho (estranho título) disse que eu sou cobarde, hipócrita e que não tenho vergonha na cara (em inglês isto pode ser dito com economia). Um outro grande amigo escreveu-me a dizer que sofro de uma "pseudo-moralidade um bocado psicótica". Foi um dia porreiro. Ainda bem que não me cruzei com nenhum dos meus inimigos. Na melhor das hipóteses seria apenas baleado. Gostei particularmente da "pseudo-moralidade psicótica". Gosto de insultos elaborados. Um bom insulto deve ser apreciado sem estados de alma. Foi o que tentei fazer, mas sem sucesso. Confesso que estranhei vir o comentário de um amigo que há uns anos ridicularizava alguém por usar a expressão "é um tipo muito honesto", como se a honestidade pudesse admitir diversos graus. Como se houvesse tipos honestos, que só mentem, digamos, 3 vezes por mês, e tipos muito honestos, que mentem menos de 2 vezes por ano. Enfim, da próxima vez que tentar fazer as pazes com a consciência recorrerei a um confessionário. Sempre é mais discreto e inconsequente.
Soube ontem do suicídio de um fulano que devo ter cruzado três vezes. A primeira foi quando li a tese de licenciatura dele (a única tese de licenciatura que li na vida). A segunda foi quando ele me deu uma aula extraordinária (duplamente). A terceira foi quando ambos concorremos a um programa de doutoramento. Chovia muito nesse dia e eu entrei numa sala onde ele já estava. Vi depois uma máquina de fazer gelo e - armando-me em esperto- coloquei a gabardina na parte traseira da máquina, de onde vinha calor. Sorrimos um para o outro e um de nós terá dito: "são as vantagens da termodinâmica". Ainda hoje não sei de quem falou assim. Ele parecia ser mais capaz de dizer uma coisa daquelas, mas eu tenho muito de Zelig e, como conhecia a sua reputação, talvez me tivesse querido aproximar do seu registo. Podia adiantar mais qualquer coisa, mas correria o risco de cometer alguma inconfidência. O suicídio é a única morte que julgo merecer alguma discrição.
Voltei a trazer mobília da rua para casa. Trata-se de uma cadeira acolchoada de costas largas e que roda, perfeita para atacar os grandes romancistas russos. Isto de trazer mobília da rua é uma coisa muito nova-iorquina. Quando gosto da peça, só a excluo se for fácil imaginar que foi palco de práticas sexuais. Já perdi colchões, sofás, pufes belíssimos e até uma bancada de cozinha. Só isto explica não ter a casa atafulhada de mobília gratuita.
Antes de ser a língua, é a certeza do lugar onde quero estar depois de morto. Os anos passam e, cada vez mais, sinto-me um vencido da pátria, numa insípida derrota por falta de comparência.
Vi ontem coisas fantásticas, lá do alto: o Pico, Faial e São Jorge - todas com uma coroa de nuvens à sua medida - rivalizaram com a menina da cadeira 21B. Vi depois a sombra de uma nuvem minúscula perdida na imensidão do azul e esqueci a menina da cadeira 21B (já esquecera as ilhas). Como é possível ter medo de andar de avião? Arranjem fobias decentes, por favor: a aracnofobia, o pavor do bungee jumping. Entro num avião com a prosa do dia e uns livros de poesia. Sento-me, aperto o cinto e só o volto a desapertar quando o avião aterra. Leio a prosa do dia e destruo por acidente os cantos dos livros de poesia, que ficam sempre aos meus pés. Da janela vem uma monotonia de azul, o tédio mistura-se com o leve tremor da carlinga e lá surgem as imagens do costume - eu a passear na asa do avião, depois sentado na borda da asa, com as pernas a baloiçar -, misturadas com as imagens de circunstância - eu a ensaiar uma abordagem à menina do 21B. Às vezes durmo e raramente me perco em pensamentos. A ideia de que a alma não pode viajar mais depressa do que um cavalo (coisa de índios da América do Norte, seguramente) exerce sobre mim o fascínio das noções erradas. Transportada para a actualidade de velocidades supersónicas, qualquer homem no átrio das chegadas dos aeroportos, com a sua alma ainda a atravessar o oceano num crawl esforçado, seria presa fácil para demónios durante horas, talvez dias. Enfim, tretas. O que eu experimento é um reajustamento imediato à nova cidade, sem períodos de transição para reflexões sobre a efemeridade da vida ou a impossível busca de ubiquidade. Estou com a cabeça em Lisboa, ainda a ver o ponteiro que indica o nível de gasolina no depósito do meu carro e, de um momento para o outro, aparece na minha cabeça a chave do cadeado da bicicleta que uso em Nova Iorque. A passagem é sempre brusca e geralmente está associada a um som. Ontem, por exemplo, foi o barulho dos carimbos a serem impressos no meu passaporte pelo tipo dos serviços de imigração. Tchân, Tchân... tchân, tchân, olá cá estou eu. No átrio das chegadas, não há demónio que me possua. Porém, a ideia dos índios continua a fascinar-me: será que ao menos a minha alma conseguiria nadar num decente estilo mariposa?
A menina da recepção, no acto de me vender o bilhete, experimentou a urgência de me dizer que o Porto empatara com o Milão, assim out of the blue. Muito azuis eram os olhos dela. Tamanha consistência cromática deixou-me algo perturbado e não aproveitei para a convidar para um café. Minutos depois, numa sala imensa, a vigilante começou a cantar em registo operático. Aparentemente era para mim, pois não havia mais ninguém nas imediações. A performance demorou só alguns instantes e foi rematada em recitativo, mas não percebi o que ela me disse. Sorri, claro, mas desta vez não me passou pela cabeça convidar a mulher para um café, nem sequer a posteriori. São gostos.
Um museu como Serralves é sempre um museu, mesmo que o que tenha lá dentro seja mediano ou medíocre. É esse o problema Serralves coloca aos curadores: como assegurar que o quadro pendurado na parede vai despertar mais interesse que a vista da janela sobre os jardins ou as linhas do edifício. Voei sobre Grosvenor e keyser com a desenvoltura de um ignorante. Demorei-me nos textos de João Penalva. Tenho com as artes plásticas uma relação complicada.
Tenho um amigo que costumava deixar momentos de puro humor no meu gravador de chamadas. Por mais elaboradas que fossem as mensagens dele, na variedade de sotaques que conseguia produzir, no encadeamento das ideias e no efeito surpresa, o propósito original era sempre banal: ir jantar fora, por exemplo. Tenho um outro amigo que é também especialista nesta arte, mas que a pratica num nível superior de sofisticação. Ele telefona propositadamente para fazer rir e, no fundo, nada propõe ou pergunta. Ontem, por exemplo, tinha uma mensagem que abre com ele a cantar os Parabéns (pessimamente), parando depois a meio, para encenar uma certa confusão e dizer: "Ai (efeminado), que cabeça a minha, eu é que faço anos hoje..." A mensagem morre instantes depois. Não é que ele estivesse a insinuar que eu me esquecera dos anos dele (não funcionamos assim). Aquilo mais não foi que uma demonstração de egocentrismo generoso. Cada vez mais, vou reparando que me rodeio de pessoas violentamente egocêntricas. De resto, deve ser por isso que gosto da blogosfera. Enfim, no limite, quase todas as interacções - da amizade ao enamoramento - se explicam como exemplos de egocentrismo generoso. E assim se conclui que esta designação não vale um chavo: parece explicar tudo, mas apenas porque não discrimina coisa alguma.
Gosto do Natal. A apropriação por comodismo de rituais que nada me dizem no plano espiritual não me incomoda. Em noites boas cheguei até a murmurar umas linhas de baixo-contínuo na missa do galo de Ferreira do Alentejo. Um homem precisa de rituais e há muitos anos aceitei a metamorfose mais parcimoniosa: o Natal é a festa da família. Esta decisão evita o ridículo de um ateu americano que, na televisão, queria substituir o Natal por um ritual pagão obscuro. Creio que ele falava da celebração do Inverno (?), mas não me recordo bem; instantes antes um rabi falara da teoria da Evolução em termos pouco elogiosos e fiquei perturbado. A anteceder o rabi coube ao católico de serviço referir-se ao vazio espiritual dos ateus com fel a escorrer da boca. Com espectáculos destes, o telecomando impõe-se naturalmente como o melhor amigo do homem.
Em 2004 o meu Natal foi atípico. A família voou em formação de missing man e não havia tinto alentejano à mesa do restaurante de uma cidade costeira de Marrocos. A ideia de um Natal abstémio suporta-se mal sem álcool. Certas ausências, também.
East Village, 2 da manhã.
Caminho sozinho pelas ruas. Um grupo de miúdas adolescentes aproxima-se de mim, em animada discussão, e eu preparo-me para ser violentado verbalmente pelo uso e abuso do "like", a bucha para todas as hesitações que pontua o discurso das moças cá da terra. Baixo os olhos, acelero o passo e solto uma melodia em assobio baixinho. Depois oiço um fragmento de conversa e não consigo pensar em mais nada, ou sequer continuar o assobio. "...This void of loneliness..." O que é que estas pitas sabem do "void of loneliness"? Telepatia de passeio público, só pode ter sido.
paralaxe cronológica No Inverno não há nada como deixar o relógio na hora de Verão. Apercebi-me disto por acaso, o que é bom sinal. Não equivale ao truque da gente pouco pontual que, cheia de boas intenções, adianta o relógio 10 minutos. A ideia não é chegar a horas, mas experimentar a sensação de que se ganhou uma hora. Ao deitar e ao acordar os respectivos "afinal ainda não e tão tarde" e "afinal ainda tenho mais uma hora" dão imenso gozo. Daqui a uns meses os astros corrigem a coisa, mas no Verão ninguém se preocupa em ir cedo para a cama e acordamos já tão tarde que ninguém quer ganhar mais uma hora de ronha.
Alíquotas de cerveja Eis a revelação menos máscula desde que o MI começou. Se o meu colega irlandês lesse isto deixaria de me falar. Aqui vai:comecei a fazer alíquotas de cerveja. De uma garrafa de 33 centilitro faço seis porções, despacho uma e guardo as restantes cinco no frigorífico. A explicação? O prazer do primeiro gole de cerveja gelada só é anulado pela desilusão do segundo gole da mesma cerveja. Defendo que as garrafas de cerveja deviam ser muito mais pequenas, como as garrafinhas de whisky dos aviões. De três em três horas apetece-me um gole de cerveja, mas apenas um, daqueles que fazem a boca explodir de satisfação. Durante anos derramei litros de cerveja choca pelo ralo da pia da cozinha. As canalizações da minha casa viveram em permanente embriaguez até ontem. Agora tenho alíquotas de cerveja no frigorífico. O mundo parece-me um lugar mais lógico.
A cidade às cinco e meia da madrugada e as canções erradas na cabeça: o Dutronc e Paris, o Godinho e Lisboa. São canções de boémios que chamo para mim, mas eu não sou um boémio. Regresso a casa, é certo, mas vindo do escritório. Não fica bem falar do cansaço bom de um fim de serão de trabalho. A malta prefere discorrer sobre o caudal de cerveja da garrafa tombada misturando-se no passeio com a cerveja mijada contra a parede. O Dutronc e o Godinho falam dos travestis, mas no meu bairro só vejo mulheres que são mulheres, que passeiam cães e comeram uma taça de cereais, já meio frenéticas embora a 3 horas do nine to five. É a milha e meia de jogging, os miúdos ainda por acordar e vestir, as instruções a dar à colombiana, o beijo na testa do marido, a rotina dos quatro vestidos e combinações antes do eureka e a meia hora de produtos de beleza. Perante isto, o Dutronc só se lembra de dizer que os travestis vont se raser. E o Godinho não se lembra do Dutronc e sai-se com o Necas que julgou que era cantora, que as dádivas da noite são eternas e mal chega a madrugada tem que rapar as pernas para que o dia não traia Dietriches que não foram nem Marlénes? Então ninguém canta a alvorada num bairro aborrecido e incaracterístico? Um motorista a bocejar com a amplitude de um hipopótamo não serve para versejar? A minha rua não cheira a pão fresco, não há carrinhas do leite, nem um guarda-nocturno cambaleante, nem putas espancadas. São cinco e meia da manhã e só penso na minha cama (sem travestis). A propósito, a letra do Godinho é melhor, mas é o ritmo da do Dutronc que agarra a trepidação crescente que acompanha a alvorada. Percebeste, Sérgio?
Em Novembro de 2003 fui assistir à projecção do documentário Under Strange Skies, de Daniel Blaufuks. Sob um ângulo muito pessoal, o Daniel relata a experiência dos judeus que chegaram a Portugal durante a segunda grande guerra. O documentário tem um tratamento de imagem muito cuidado e desvenda uma história que é uma miríade de histórias pouco conhecidas entre os portugueses. Ainda assim, o momento mais memorável da noite aconteceu já depois da projecção. Discutia-se o trabalho do Daniel. Perguntou-se, por exemplo: "por que motivo não recorreu a testemunhos de pessoas ainda entre nós que viveram aquela experiência? Será que evitar o testemunho foi uma forma de preservar a juventude dos intervenientes na história que, caso contrário, teriam aparecido como velhos..." Com outras perguntas ainda a ecoar, uma senhora levanta-se, pede a palavra e começa um relato, num inglês fluente mas com um ligeiro sotaque. Aos poucos fomos percebendo que tinha fugido de França para a Península Ibérica, embarcando depois para Nova Iorque. A senhora não se cansou de elogiar o documentário, pela forma rigorosa como evocava experiências com 60 anos mas que estavam bem presentes na sua memória. Terminou a agradecer ao Daniel. Daqui a 20 anos não haverá ninguém no mundo capaz de proferir proferir tais palavras de gratidão e aquele comentário, longo, terno e tenso foi um remate tão perfeito que parecia coisa combinada. Lamento que não possam partilhar a experiência que relato mas se puderem ver o documentário (ainda que incompleto), não deixem de o fazer.
Passo dois dias nos arredores de Nova Iorque, numa casa de amigos, gastando o tempo em caminhadas, braçadas no lago, churrascos e conversas. A paisagem, paradisíaca, não deixa de trazer à lembrança cenas de filmes; o inevitável assassino em série parece esconder-se por detrás dos carvalhos e o cadáver esbranquiçado pode emergir a qualquer momento do negro das águas. Na casa, modesta e de madeira, com uma colecção de discos de vinil e prato ainda no activo, a atmosfera também é familiar, por causa dos filmes (The Big Chill?) e da música (Talking Heads, U2... Michelle Shocked?). Conheço a rapariga que mais vezes lavou a loiça há 15 anos. Partilho com outra rapariga os planos para a casa de campo possível, num lugar distante. Um tipo estica o espaço, vive os serões como se fizesse uma revisão, atira-se para desconhecido a dois e julga que conseguiu agarrar o mundo. A seguir o disco chega ao fim e a agulha do prato fica a insistir num trilho sem música.
Para os amigos das Caraíbas é o tubarão-gato. Nós chamamos-lhe peixe-gato. Mas é um tubarão a sério, apesar de pacífico. O tipo que nos alugou o material de mergulho disse-nos que os podíamos ver na Salt Pound bay e eu fiquei a balançar no fulcro (então, Ivan, não te vais amedrontar agora, pois não?). De noite tive um sonho estranho: dois homens excêntricos e ricos discutiam sobre qual seria o predador mais temível, se o tubarão branco ou a leoa. O argumento de um era que um tubarão branco abandonado na savana não resistiria muito tempo e seria carne para hienas e abutres, ao passo que a leoa jogada ao mar daria nobre luta ao tubarão, antes de morrer. O argumento pareceu-me absurdo, mas acordei antes de ouvir a resposta do outro rico excêntrico. Cheguei a Salt Pound bay de manhã. A água é azul-turquesa, como nos postais das ilhas tropicais. Calcei as barbatanas, ajustei a máscara e o tubo e mergulhei. Tentei não me concentrar no barulho da minha respiração, que soava um tema famoso de John Willliams. O medo do tubarão talvez explicasse os rodopios que espaçadamente ia fazendo dentro de água, tentando dominar os 360 graus do espaço circundante. Tudo isto até ver o primeiro peixe tropical e depois o segundo, até à trintena de espécies diferentes. Eu, que me encanto com os reflexos do sol no dorso da tainha, não tenho recursos para explicar aquele espectáculo. Imaginem-se a nadar dentro do aquário tropical mais bonito que viram até hoje, mas sem nunca chocarem com o vidro. O tubarão que nadava dentro de mim foi minguando e ficou inofensivo como uma sardinha. Não cheguei a ver o Ginglymostoma cirratum, mas deixei de vê-lo em Salt Pound bay.
Distingo dois tipos de surpresa nos caminhos que percorro todos os dias. Há uma surpresa mais espectacular, menos pessoal e que, por não se destacar do acidente, tem pouco de construção. Surge geralmente associada a objectos em movimento, pessoas raras com quem me cruzo ou episódios insólitos (uma equipa de filmagem que grava uma cena na minha rua, por exemplo). Há depois um outro tipo de surpresa, mais subtil e idiossincrática, muito difícil de partilhar com os demais. São as surpresas que prefiro e presumo que quase toda a gente pensará o mesmo.
Ontem regressei a casa pelo caminho de sempre. Já o fiz mais de 1000 vezes mas só ontem, por um acaso que o crepúspulo e a água a correr de uma fonte não desmontam completamente, reparei na porta envidraçada de um edificio que deixa ler, na penumbra do interior, a palavra "exit". Sucede que aquelas letras vermelhas e luminosas estão ali para serem lidas por quem se encontra dentro do edifício. Ler a palavra da rua é lê-la pelas costas. Associado à semântica, aquele reflexo sem espelho que faz um "E" insólito deixou-me com um princípio de enjoo a depois num estado vagamente contemplativo. Não cheguei a parar, mas abrandei o passo. A brisa deixou de ser a mesma brisa, de repente o ar livre pareceu viciado e houve lugar para a tolice mística de começar a ver sinais naquele aviso de segurança. Passou-me depressa, mas o enjoo ainda durou umas passadas.
Julgando-me refeito daquela armadilha óptica, percebi hoje de manhã que não estava preparado para o colega russo, que vestiu a T-shirt com as costas voltadas para a frente e se passeava com um bolso cosido na omoplata esquerda. Como o rapaz é novo e muito branché, hesitei no reparo. Não só não excluira de todo a possibilidade do efeito ser intencional, coisa de estilista ou improviso do miúdo, como, de novo mareado, só me apeteceu procurar o refúgio na paisagem segura que é um céu limpo, sem assimetrias, sem nuvens e sem aviões.
Voltemos então ao terraço e ao 4 de Julho que passou. Em matéria de fogos de artifício esta gente deixa muito a desejar. Há uma China Town por aqui mas nenhuma pirotecnomestria . Em Portugal qualquer aldeola produz uma fogo de artifício que envergonharia Nova Iorque, se bem que à custa de uns quantos mártires por ano. Salvou-se assim o terraço, pouco iluminado pelos foguetes, a parecer menos precário do que ao meio dia.
Na East Village é impossível não reparar na má qualidade da construção. Salta à vista. Menos óbvia é a sujidade, mas bastaria olhar para os cantos ou passar os dedos por superfícies pouco acessíveis. E dos tijolos tento chegar às pessoas, passando pelo lixo, correndo o risco de cometer uma enorme injustiça. Porém, a precaridade das relações na East Village antecipa-se logo. Há demasiado cosmopolitismo, muitos sonhos pendurados nas paredes dos quartos, um exagero nas amizades e um prolongamento impossível da adolescência. Sei que faço uma quase apologia da burguesia, por exclusão de partes, mas às vezes escreve-se para se ficar livre dos pensamentos e não propriamente para os guardar.
De manhã, ao sair de casa, cruzei-me na rua com um homem de bolsa de couro a tiracolo, que se dirigia para o coração da cidade. Ao fim do dia, quando regressava a casa, voltei a cruzar-me com o mesmo homem, que parecia fazer o caminho de volta. Resgato para aqui esta coincidência pouco espectacular por um motivo, provavelmente também muito pouco espectacular. É que eu sei uma série de coisas sobre aquele homem. Sei como fala, algo do que pensa, que foi premiado com um Nobel, que tem sentido de humor, que há 10 anos atendeu um telefone no meio de um corredor de um instituto de Londres (a acreditar num amigo) e que ganha $1 000 000 por ano. Sei onde vive e uma série de episódios mais ou menos rocambolescos, bons para apimentar as biografias que se lêem sem esforço. Em contrapartida, o homem não sabe nada sobre mim. Ao fim da tarde provavelmente nem se lembrava que se cruzara comigo de manhã. Perante estas assimetrias acidentais que ocorrem nos passeios públicos fico sempre algo embaraçado. Mais tarde posso até divulgar ou escrever sobre o ocorrido, com a excitação de um caçador de autógrafos. Mas durante o encontro, acabo invariavelmente por baixar os olhos. O reverso deste comportamento ocorre quando me cruzo com um energúmeno anónimo que berra ao telemóvel as desgraças da sua intimidade. Aí o pudor cede à irritação e nunca, mas nunca, consigo deixar de olhar. Esforço-me é por não ouvir.
Reparando que o corpo ainda guarda pulsões juvenis, dei lugar à esperança e apressei-me a descartar a surpresa. Ao largo de Brooklyn, o mar e a ondulação fraca, feita de vazios côncavos e massas convexas com a textura imprevisível e tolerante da matéria líquida, lembraram-me um relevo acidentado de seios, um longo manto de mamas que se roçavam umas nas noutras até ao infinito, sem braços, sem pernas e sem rostos. Não foi metáfora, foi alucinação.
Alguns corpos conseguem proezas impensáveis: tocar piano como se tivessem cinco mãos independentes, dançar em pontas durante três horas, jogar e vencer 30 partidas de xadrez em simultâneo, etc. Estas coisas pouco naturais causam espanto e admiração. A notoriedade vem logo a seguir; ficará um dia condenada ao Guinness ou será reabilitada pelos livros de História. Há outros talentos, talentos domésticos, familiares ou de bairro. São pessoas que, beneficiando e/ou vítimas de uma série de contingências, adquirem uma reputação local nas artes de todos os dias, que dispensam a edição e os auditórios. Uns cortam fatias de pão à faca delgadas como o fiambre, outros preparam um arroz de passas como ninguém, dão dez voltas à praceta sem lançar as mãos ao guiador da bicicleta, fazem um mortal encarpado da prancha da piscina municipal, etc. Os que assistem são uns privilegiados, mas é um privilégio corrompido, porque calha a todos. Cada um constrói a sua caderneta de heróis e, por uma vez, ninguém está interessado em trocar cromos.
Longo preâmbulo este, para agora escrever- sem a menor hesitação- que o melhor contador de histórias à face da Terra chama-se Alexandre Estrela. O Alexandre não escreve porque, segundo o próprio, dá muitos erros de ortografia. O que ele não diz, por modéstia, é que a escrita seria um veículo inadequado para extravasar aquele talento. Infelizmente, o Alexandre já não mora aqui e o vazio que deixou pesa sempre mais ao serão. Voltei a lembrar-me dele há uns dias, quando tive em casa alguns amigos e se passou o jantar na cavaqueira. Dois desses amigos- o Jorge e o Scott- são também exímios a contar histórias, cada um à sua maneira. Sabendo eu há já muito tempo que ambos são amigos próximos do Alexandre, só ao jantar percebi o que liga estes três artistas. É a Arte, sim, mas a outra, a de contar.
Um amigo do Zimbabué, provavelmente o tipo mais cosmopolita que conheço, por falar 5 línguas e ter amigos de infância em três continentes, contou-me que enquanto se ensaboava num balneário público no Japão um nativo se aproximou dele e, naquele inglês nipónico em que cada palavra soa a uma afirmação convicta, terá dito: “Yours is bigger, but ours is harder”. Percorrendo meio mundo, observemos agora os átrios do Met, entre dois actos de uma Ópera, para concordar com P., que não pôde deixar de reparar ser aquele o único lugar do mundo em que a fila de espera masculina para os lavabos rivaliza com a das senhoras. A explicação está na próstata e na peculiar melomania em pirâmide etária invertida que caracteriza o recinto quando os preços- ilibe-se Wagner, por uma vez- se tornam proibitivos. Encerro em registo melancólico, lembrando a confissão de E., que antes dava muitas e agora já não vai à segunda. O rapaz anda fascinado com os efeitos do óxido nítrico no crescimento do tubo polínico das plantas, forçando o paralelo acidental, enquanto assobia o tema The Secret Life of Plants do saudoso Stevie Wonder. Enfim, "who am I to doubt or question the inevitable being"?
Um brilho nos olhos é ainda um brilho nos olhos, mesmo se alimentado a néons, certo? É que do outro brilho nos olhos, o brilho que durou a tarde toda, não sobrou nada. E tinha sido um brilho tão intenso... Um brilho de demente, é certo; uma daquelas expressões de exoftalmia, clinicamente previstas, se esquecermos a nuance do cristalino aguçado. Brilhar agora à custa dos néons, procurando ali o conforto que o crepúsculo não dava, parecia uma forma pouco nobre de acabar o dia. Reparei a seguir no porto-riquenho que limpava o chão com uma daquelas vassouras largas que não varrem, empurram. Julguei ter visto a minha senha perdida no monte de talões que se acumulavam e avançavam como a babugem de uma onda na praia, mas tive vergonha de me ajoelhar para vasculhar no lixo. E os $10 000 lá foram, empurrados pela vassoura. Ou então foi apenas uma impressão. Tinha sido uma tarde de ilusões e aquela podia ser mais uma.
Chegámos cedo. O Thiago repetia-me "We must find a system. If you have a system you can´t lose." O Thiago sempre foi assim, um concentrado de ironia, perfeito a misturar optimismo e fatalismo, que depois serve com fluência verbal desconcertante. Tínhamos encontro marcado com o Sebastian, um matemático. O Thiago continuava, entusiamado: " Juntos temos mais de 10 anos de estudos doutorais... Dois biólogos e um matemático... Nós tratamos de avaliar os cavalos e o Sebastian calcula as probabilidades. Percebes de cavalos, não percebes? Só pode mesmo funcionar. We have a system, my friend. We can´t lose".
Há na manhã uma frescura que facilmente se toma por esperança. O corpo descansado, os cabelos molhados, um hálito fresco restaurado a pasta dentífrica e detalhes acidentais, como o contacto com um corrimão de metal ao sol mas ainda frio, tudo contribui para um estado de optimismo que raras vezes passa do meio-dia. Talvez isso explique que tenhamos subido tão alto, mal ali chegámos. O homem do elevador, que parecia saído de uma história de cinema americano independente com acção num estado difícil de apontar no mapa, levou-nos até ao último andar, sem nunca tirar os olhos de uma revista em que todas as páginas tinham mais de 5 cores. Em rigor, o último andar era uma espécie de dinner em socalcos, com janelas enormes que mostravam a pista oval de terra batida. Comia-se em família ou entre amigos, de fato de treino ou fato apenas. A probição de fumar preservava o ar e os perfumes e fazia do lugar um aquário de água limpa. Nos guichets a aposta mínima de $50 foi motivo para a primeira troca de olhares com o Thiago, em jeito de quem pensa mas não diz: "somos um erro de casting". Um tipo enorme que tresandava a riqueza e crime miúdo passou por nós com ar altivo e quase escondemos as mochilas, envergonhados. Foi então que percebemos que tínhamos subido demasiado alto e resolvemos descer um andar, para logo concluir que ainda estávamos a pairar. Após termos repetido este exercício mais umas duas ou três vezes, chegámos ao piso térreo e então sim, a aposta mínima de $5 fez-nos sentir (como direi?) em casa. O ambiente mudara. Escasseavam os brancos e os que havia tinham mau aspecto. Pretos, hispânicos, white trash e nós, tecnicamente entre o hispânico e o white white trash, da etnia ao paycheck. Deambulámos por ali. O lugar tinha o encanto de um oásis de pecado. A higienização da vida nocturna de Nova Iorque trouxe a qualquer ida à Europa a excitação do adolescente que se estreia num bordel, mas a verdade é que ali, a uma hora de comboio de Manhattan, fumava-se e bebia-se a sério, dentro de portas e ao ar livre. Tínhamos álcool, fumo, jogo e só faltavam as mulheres. Corrijo: Sebastian irrompeu da multidão cheio de mulheres, mas era um daqueles grupos impenetráveis como uma formação tartaruga de legionários romanos. Todos se conheciam há muitos anos, falavam com os seus códigos, vinham aos pares ou faziam referências constantes a amigos e namorados ausentes. Muito ao seu estilo, o Thiago apressou-se a resumir a situação: "prefiro perder meu dinheiro nos cavalos". Para efeitos práticos, Thiago referia-se ao meu dinheiro. Apercebendo-me do estado de desolação financeira da carteira dele, propusera-lhe, já imbuído do espírito de jogador, dar-lhe $60 na condição de ter direito a metade dos eventuais lucros que ele viesse a ter. O dinheiro serve para estas coisas e ser estúpido mas magnânimo é uma condição que prezo. Escusado será dizer que o Thiago não hesitou, soltando um "Oba!" como se ainda vivesse no Rio. Bebemos, bebemos e depois consultámos as tabelas com todas as estatísticas e o histórico dos cavalos naquela e noutras pistas. Após cinco minutos de consulta, resolvi apostar na intuição, por uma questão de preguiça. O Sebastian e Thiago fizeram o mesmo, mas todos desenvolvemos tácticas diferentes (a hipótese da sinergia morreu antes da primeira aposta). A minha táctica consistia em apostar em dois cavalos do meio da tabela. O Sebastian, com a Argentina em chagas, apostava em jockeys com nomes hispânicos. E o Thiago, eternamente deslumbrado, apostava no cavalo com o nome mais inspirador (no universo dele, qualquer lista de nomes de cavalos por ordem decrescente de poder de sugestão começa em Elvis e acaba em Reagan. Ronald Reagan). O empregado do guichet topou que éramos estreantes naquelas andanças, mesmo depois de eu ter praticado a frase com que compraria as minhas apostas (na prática, a ideia é transmitir a informação da forma mais condensada que se consiga; qualquer palavra a mais denuncia o novato). Voltámos para perto da pista, ao ar livre e esperámos pelo toque da partida... (continua)
Estive hoje ao telefone com um amigo que se mudou para Roma. Este moço é compositor e anda agora a escrever uma Ópera. Seria deselegante revelar aqui pormenores sobre o projecto mas lembro-me perfeitamente de, há uns 5 anos, ele ter partilhado comigo a sua ideia. Foi numa tarde solarenga, em Paris, enquanto carregávamos mobília pelas escadas, até umas águas furtadas no sexto andar de um prédio perto de Saint Michel. Estávamos ofegantes, desidratados, cobertos de pó e com as mãos cheias de vincos, mas à custa do entusiasmo dele sentámo-nos numa cómoda, para que ele pudesse falar e eu pudesse ouvir. Por vários motivos, alheios à nossa vontade ou nem por isso, houve uma altura em que não passavam 3 ou 4 meses sem que um de nós não mudasse de casa. Transportar mobília tornou-se assim quase um ritual e é hoje uma referência aos anos de Paris bem mais impressiva que o acordeão. Bastam algumas horas de conversa para que nos lembremos da Amaral & Barreto, démenageurs, com a cumplidade e bonomia de quem, à falta de uma tatuagem ou de um brinco para celebrar uma amizade, sabe que partilha a origem da escoliose que hoje nos martiriza. Esperando que este episódio anedótico sirva para cortar a gravidade do remate que se segue, atalho já para dizer que na conversa de hoje, para lá da voz do interlocutor vir de Roma, apreciei a manifestação de uma tranquila persistência, em quem sabe que as ideias mais grandiloquentes evoluem naturalmente para desafios concretizáveis. Conheço cada vez menos pessoas assim, mas na verdade basta conhecer apenas uma.
A gripe perdeu todo o encanto que tinha. De pouco valem as torradas e o chá que, de resto, já não existem. Quando havia todo o tempo, ter gripe era uma forma de adiar a vida. Um gajo era puto e não o sabia, mas estava a abrir um parêntesis que só fechava quando voltava aos 37° C. Não nos pediam nada, apenas que ficássemos bons. Eram uns dias em que o tecto branco do quarto se transformava numa tela para inúmeros rascunhos de metafísica; os calhamaços das colecções de banda-desenhada eram vistos e revistos até ao rebentar das lombadas; achava-se graça a fazer dos lençóis e cobertores a lona de uma tenda. Acima de tudo, o estado febril não induzia a menor irritação, nem suscitava grandes críticas. Vinte e cinco anos depois, mudou tudo. O tecto do quarto ainda é branco, mas só consigo reparar na fraca qualidade do trabalho de pintura; não consigo ler, porque me dói o olho esquerdo ou então dói-me a cabeça; um édrodon é um edredão e não se fala mais nisso. Quero trabalhar, mas como não posso começo logo a ver os prazos limite através de uma tele-objectiva. Perco os dias a arrefecer em banhos de chuveiro com água a escaldar, para depois ir dos 37°C aos 39ºC nas meias horas que gasto a ver televisão (mais três dias nisto e tornou-me fã de uma telenovela americana). Como se não bastasse, ainda tenho que fingir algum fairplay quando fazem pouco do meu sistema imunitário. É a mesma gente que me deseja as melhoras, deixando sempre a impressão de que me criticam por ter adoecido. E assim, dominado pela lógica do paciente (refém de alguma paranóia e inveja, reconheço), mente cínica em corpo são faz muito mais sentido, como expressão, do que a versão que se popularizou, que me parece tão falsa como um slogan de campanha eleitoral...
Os mais atentos lembrar-se-ão do meu paupérrimo currículo de observador de celebridades em circunstâncias acidentais. Em mais de dois anos a viver numa cidade farta em gente famosa, David Byrne era a única celebridade que eu tinha visto até há umas horas atrás. Cruzei-me hoje com a segunda presa. Infelizmente, não era nenhuma top-model, mas sim o maestro James Levine, irrepreensivelmente desgrenhado e algo ofegante, no cruzamento da rua 63 com a Avenida Madison. Continuo sem perceber como é que todos os amigos que me visitam conseguem ver tanta gente conhecida em apenas uma semana. Chegam a casa excitadíssimos e eu lá tenho que camuflar um misto de inveja, estupefacção e aborrecimento, quando me falam (e os exemplos são factuais) que viram o Cruise, o Rushdie, o Anan, o Cage, o Bowie, o Freitas do Amaral, a Sarandon, o Robbins, os Coen, as Arquette, etc... Quando tinha a mania que gostava de ornitologia acontecia a mesma coisa. Concluo que um tipo fraco a ver pássaros também não se safa com passarões.
Ao longe vejo Hadjic, amigo sérvio, que se apresenta a toda a gente como "o criminoso de guerra". Um físico de partículas com 2 metros dá claramente a entender que não quer investir na noite e não despirá o pullover. Há um bom par de pernas às 6 horas (estou virado para Oeste). Toca uma música boa. A cada cinco minutos aproximo-me da mesa e corto uma fatia de queijo. Um tipo recentemente desempregado lê um livro a um canto. Outro que ficará desempregado em menos de três meses já vai na sexta Heineken. Duas raparigas enfiam os braços num sofá, à procura do tubo com marijuana que perderam. Há fotografias tiradas pelo dono da casa em todas as paredes. São boas fotografias. O fumo na sala respira-se com uma certa saudade. Uma espanhola, por fim livre do tunisino que ainda a ama, pratica exercícios de sedução com um asiático, que a deseja. Há uma parede vermelha na sala, que no jogo de olhares cumpre a função do gengibre no sushi; limpa a vista e a memória, antes da oftálmica seguinte. O naco de queijo adquire entretanto uma forma que permite vários planos de corte. Hesito. Um palerma de Chicago canta Milton Nascimento ao meu ouvido (mal). Antes dissera a uma amiga minha que ela devia ter sido uma criança lindíssima (daí ser um palerma). Comento a combinação de riscas no colete de um tipo que é claramente homossexual, mas que ainda está em conflito. Corto agora os últimos bocados de queijo, a milímetros da casca. Uma mulher que se fechou na casa-de-banho é surpreendida por outra mulher, que apenas pretende usar o lavatório para vomitar. Ignoro como terminou a interacção. A minha namorada é a miúda mais feliz da festa. Namoramos de cócoras, ao pé da mesa dos queijos, já sem queijo. Perdemos uma hora nessa noite. Sem êxito, procuro nos pulsos alheios um relógio com ponteiros, para poder vê-los a avançar e não ter que lidar com a impressão exclusivamente digital do salto no tempo. Consolo-me nas copas das árvores, lá fora, com os seus rebentos primaveris. Saímos às 6 da manhã (nova hora) e adormeço no táxi, entre três amigos e um paquistanês.
Frankfurt, Francoforte, francamente estou-me nas tintas. É uma cidade horrível, terraplenada à bomba e com um aeroporto desenhado por um arquitecto pouco inspirado. Como se não bastasse, não falo alemão. Na adversidade, preparei-me com optimismo para enfrentar uma madrugada de oito horas no aeroporto de Frankurt. Tinha leitura e coisas em que pensar. Admitia uma qualquer epifania, pela simples aplicação da lei das probabilidades; oito horas a ler e a pensar é muito tempo. Três horas depois, farto das leituras, passeava-me como um analfabeto diante dos escaparates. As mamas da Gisele Bundchen eram a única coisa das capas das revistas que conseguia soletrar. A minha germanofilia acabava e aconchegava-se ali. A partir da quarta hora tudo se complicou. Fiquei impaciente e cometi um crime de lesa-livro. Os bibliófilos devem abandonar neste momento a leitura. Dei comigo a comprar uma esferográfica, com o requinte de ter trocado o preto pelo azul. O detalhe é importante e mostrará que o crime foi premeditado. Sentei-me depois à mesa de um café, tirei um romance da mochila e comecei a escrever sobre as páginas abertas. Isso mesmo, num livro novinho, oferta de um amigo e cuja leitura ainda ia a meio. Escrevia sem pensar e sem perceber a minha letra. De vez em quando, formava-se um pequeno edifício de lógica e coerência que durava três quatro, talvez cinco linhas, mas a prosa apenas se endireitara; continuava ilegivel. A esferográfica avançava veloz pelas páginas já escritas a caracteres negros (percebe-se agora que "Não tem antes azul?" era para ganhar contraste). Sempre fui cruel com os livros. Perco prosa do Herberto Helder em Nova Iorque, dobro os cantos página sim página não, deixo livros em posição de esparregata, só para stressar as lombadas, e, enquanto leio, como até torradas de pão bem fermentado barrado com manteiga. Os meus livros estão todos desgraçados. Livros em bom estado são livros que ainda não li, livros condenados. Dar cabo dos livros é a minha violência doméstica. Mas jamais me passara pela cabeça fazer de um romance uma sebenta de rascunhos. O romance até não era mau, adianto. Duas horas depois estaria a devorar as páginas que me faltavam ler e que tinham sido poupadas à minha demência momentânea. O fim da história é um pouco frouxo, mas o romance cumprira. Eu é que falhara. E foi com embaraço que voltei a folhear aquelas primeiras páginas, todas gatafunhadas. Por pudor, não revelo o nome do autor do romance que maltratei. Conto até encontrá-lo um dia em Lisboa e dizer-lhe algo como isto: "Uma vez, em Frankurt, quase perdi um avião por causa de um livro seu..." São estas as minhas verdades preferidas: verdades que substituem mentiras, sem prezuízo. Enfim, oito horas depois continuava o mesmo palerma, mas não tinha cedido ao sono e deu mesmo para apanhar a passarola da Singapure Airlines.
Homem lendo o jornal à sombra de um chorão. Nenhuma vontade de ler as Dernières Nouvelles d'Alsace; no que sobra, a inveja é total.
Rapaz pedalando bicicleta que chia. Lembrança do burburinho, do vento na pedra rosa, da água nos canais, mas antes a bicicleta, em cadência regular.
Deficiente motor em cadeira de rodas jogando petanque. Só compensa ser-se velho em França se a surdez ainda não se instalou, para que na penumbra do quarto se possa ouvir o chamamento do choque das bolas. A petanque começou na praia, comigo ainda criança e sem ver nas demais coisas arredondadas interesse que me desviasse das bolas coloridas. Um segundo momento regista a percepção da lógica do jogo de equipa, com um parceiro a preceito-velho e francês- a afastar a bola adversária para bem longe, dando a vitória à nossa equipa, pois a bola que ficara mais perto do cochonnet era de novo a minha nossa bola. Um terceiro momento de petanque leva-nos ao encontro de um professor de filosofia, a dissertar sobre a arte da boa trancada (enquadramento teórico que vinha precedido de fama e proveito), enquanto imprime um notável efeito de backspin na bola que lança em arco alto, tipo campânula, de modo a fazê-la cair quase na vertical, a milímetros do cochonnet, sem que ressaltasse ou deslizasse na terra batida, como se fosse uma gota de tinta a cair numa toalha de mesa. O cabrão comia-nos as mulheres e limpava-nos o sebo à petanque. Era um homem da renascença e espero que esteja desempregado.
Gosto da Sexta-feira. Sempre gostei da Sexta-feira, mas aqui ainda gosto mais. Começo o dia tarde (15 minutos mais tarde), a acusar o cansaço acumulado ao longo da semana. No laboratório as pessoas parecem ou relaxadas ou ainda mais excitadas com o trabalho. Ao meio-dia há um concerto. No último ouvi uma interpretação soberba das variações Goldberg. Às quatro da tarde há uma conferência dada por um craque local ou outro cientista de renome. A última foi sobre os telómeros (os telómeros são as extremidades dos cromossomas). Foi uma Sexta-feira simplesmente prodigiosa. Bach ao meio-dia, telómeros às quatro da tarde, um almoço pelo meio numa cantina decente. O programa parece estudado para que ninguém trabalhe à Sexta, o que é quase um paradoxo num país tão virado para o trabalho e numa universidade tão preocupada com a imagem da excelência. Estou-me nas tintas. São dias únicos. Por mim, a semana teria sete Sextas: Bach e telómeros, Bartok e hipermutação somática, Mozart e exclusão alélica, Piazolla e códigos neuronais, Stravinsky e evolução, Tárrega e epigenética, Shubert e diferenciação celular. Perfeito, perfeito não seria. É até (como é que se diz?)... Contraproducente. Mas já que estamos no terreno da invenção, force-se um pouco mais as regras do tempo e da memória para que nos seja permitido viver cada uma das sete Sextas plenamente. Feitas as contas, o mais importante de cada Sexta-feira é a certeza do Sábado que virá.
Os habitantes desta cidade andam em êxtase com o começo da Primavera. Mantenho-me céptico. Até encontrar a primeira barata ninguém me convence. Devo confessor que esta metamorfose do voo das andorinhas dos Olivais no andar rastejante das baratas da rua 63, em Nova Iorque, deixa-me algo nostálgico.
Olhos no olho, o primeiro encontro face a face que tive no regresso à América foi com uma máquina fotográfica, que me "fichou". Afinal, o big brother é um tipo de fraca figura que até precisa de tripé para pedir meças. Antes do tête à tête convidaram-me a digitalizar as minhas impressões digitais numa máquina pós moderna. Podia vociferar agora contra os porcos imperialistas, mas a coisa não me incomodou muito; foi até rápida, indolor e provavelmente útil. Por regra, as minhas impressões digitais vão pelo ralo da banheira no banho do corpo que amo, gozam de uma ilusão de imortalidade quando mudo o pneu do carro ou recoloco nas rodas dentadas a corrente da bicicleta, perdem-se na multidão das notas de um dólar. Se alguém as quer preservar, que lhes dê bom proveito. Dito isto, é claro que quando o ciclope bonsai me galava pensei em Alcácer do Sal, puxei ao máximo o negro dos olhos e fiz um ar de terrorista.
Tem estofo para teoria peregrina, esta ideia de que a boémia das madrugadas de 26 de Dezembro é alterada por uma urgência de descompressão em quem andou a acumular tensões familiares ao longo de dois ou três dias. A verdade é que, ao passear sozinho pelo Bairro Alto, não pude deixar de reparar no modo sôfrego como os charros eram fumados e a cerveja era bebida. O hipotético desequilíbrio osmótico induzido pela doçaria e pelos enchidos é uma explicação apenas parcial para tamanha ânsia. O desequílibrio é seguramente outro. Sem pretender escrever um parágrafo anticlimático, um Natal de saltimbanco, a cumprir os mínimos familiares e a gerir a agenda só pode mesmo despertar nostalgia, sensação que deixa de ser trivial quando misturada com visões de um futuro possível e quase redentor, ao alcance de quem nele pensa.
Experimentei um medo curioso na semana passada. Num dos cais da estação de Princeton, a céu aberto e à meia-noite, como convém, tentava sem êxito telefonar a uns amigos que tinham ficado de me vir buscar. Não se via ninguém na estação e tinha nevado o dia todo. O telefone público insistia em não colaborar, quando um comboio irrompe da escuridão. Atrevo-me a dizer que passou a mais de 200 km/h diante de mim com as carruagens às escuras, partindo placas de gelo e rasgando a camada de neve que escondia os carris. . A buzina dopplerizada perdeu-se depois na noite. E quando o polvilhado de neve voltou a assentar, a estação continuava deserta. Senti então o medo de quem teme ser atacado pelas costas a qualquer instante. Nessas alturas costumo pensar em figuras vampirescas, mas certamente por se tratar da estação de Princeton, sempre cheia de estudantes, só alimentei o medo com imagens de filmes americanos de suspense ou terror, quase todos maus, mas que têm por cenário um qualquer campus universitário. Para os psicólogos a explicação deve ser trivial, mas este cuidado em ajustar o enredo que alimentava o medo ao lugar onde estava deixou-me surpreendido e um pouco menos assustado.
Entrar em contacto com uma figura pública que se desconhece é bem mais fácil do que se poderia pensar. O mundo é mesmo um lugar pequeno, se tivermos presente que a probabilidade de se conhecer alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece o nosso desconhecido é elevadíssima. Tudo isto já me foi pacientemente explicado por um amigo que sabe muito de teoria de redes, um rapaz que me assustou ao provar que estou a quatro apertos de mãos de Saddam. Talvez haja aqui um certo exagero. Duvido que com um esquema destes se conseguisse chegar perto do miúdo tibetano que neste preciso momento faz bonecos com o indicador nos vidros embaciados de um mosteiro de Lassa. Mas quando o meio é mais restrito e o alvo é alguém famoso, tudo se simplifica. Há ainda outros mecanismos, que facilitam o processo. Por exemplo, um português no estrangeiro atrai imensos portugueses no estrangeiro. Só isso explica que, de um modo passivo, eu tenha contactado com o Pedro Paixão, o José Luís Peixoto e o Jorge Colombo. Falhei o Cid, mas já me conformei. O mundo é também um lugar cheio de imperfeições.
Só não consigo ainda aceitar a ideia de que, por minha exclusiva culpa, não conheci o Ricardo Araújo Pereira (RAP). Espero que ele me perdoe por me ter esquecido do que lhe prometera, a propósito de uma vinda dele a Nova Iorque. Uma coisa é certa: jamais me perdoarei. Como conviver com a lembrança de que desprezei o único homem que permanece invicto na blogosfera? Sim, porque RAP tem um currículo digno de Ali, ou será que já nos esquecemos das derrotas que infligiu aos pesos-pesados Pedro Mexia (KO ao terceiro assalto), Nélson de Matos (KO ao segundo assalto), Pacheco Pereira (vitória por falta de comparência), Pedro Rolo Duarte (três vitórias por KO aos cinco segundos do primeiro assalto e uma vitória por auto-KO do adversário) e um honroso empate (técnico) com JPC? Melhores dias virão.
Quando eu casar preparem as latas, rompam em saltos e aos pinotes, cacem moscas com chicotes, tragam ministros e trajem de acrobatas. Em suma, se forem meus amigos, criem qualquer coisa absolutamente ridícula e sejam os bombos da festa, para dar cobertura à minha antecipada e incontornável humilhação pública... Nada disso. Não vou por aí. Respeito o casamento e, até prova em contrário, não vejo nos noivos um par de condenados. Também não pretendo fazer doutrina. O problema em questão é pessoalíssimo. Apercebi-me de que em 3 dos quatro últimos 4 casamentos para que fui convidado vivi alguns dos piores momentos de pura humilhação pública por que tenho passado nesta vida. Sem mais demoras, recuemos no tempo e avancemos depois cronologicamente.
Algures no Alentejo, 1997.
Chego sozinho. Entro no casamento como um predador, apesar do fraque. A jogar a meu favor, apenas os fraques dos outros, igualmente ridículos. Controlo os decotes. Em Agosto, a canícula da planície alentejana deixa no ar a fragância do desejo. Distraio-me com os rosas e fico espicaçado por um discreto rego, que nasce e morre em ritmo de diafragma. Algumas tias abanam leques chineses. Há empregados que serpenteiam com tabuleiros de hors d’ouvres. Pergunto se têm alcagoitas mas só me oferecem ovas de salmão. Vou tomando notas mentais para não me esquecer das presas futuras; sei que o vinho tanto nos liberta como nos torna menos criteriosos. Sou um balão de arrogância. Avanço depois para as formalidades. A noiva está lindíssima, exibindo os seus cabelos cacheados, onde brincam os últimos reflexos do crepúsculo. Os olhos, normalmente anormalmente bonitos, têm o brilho normalmente anormal, feito de uma parte de repouso e uma parte de esperança. O vestido assenta-lhe bem, sobretudo quando ela se vira e por momentos reproduz poses maneiristas. Tem também uma elegância cinética insuperável, que afasta todas as lembranças dos cortinados ambulantes, costumeiros nestas cerimónias. Quando sorri para mim derreto-me em décimas de segundo. Lembro-me depois que se trata do casamento do meu melhor amigo, que está mesmo ali ao lado, vestido de noivo e com um mau penteado. Sou o padrinho. Enfim, sou 1/3 de padrinho, o que já é honra de sobra para um amigo tão pouco generoso no tempo e na geografia. Os 2/3 restantes são também amigos. Algumas irrelevâncias depois, encontro-me perfilado ao lado dos noivos, como extremo direito do trio de padrinhos, para quem nos observa da plateia. Nem todos cabem dento da capela. Distraio-me com o exagero de gravatas vermelhas mas logo regresso ao verbo do pároco, incisivo e reverberante. O homem é um orador nato, capaz de rematar a homilia com uma piada arriscada sem acusar baixas no rebanho. Acompanho depois algumas leituras, na tranquilidade de quem ouve e não é chamado a comentar. Mas de súbito, sem que estivesse previsto, as atenções viram-se para os padrinhos. Cravam-nos uma leitura. O primeiro terço de padrinho passa a batata quente ao segundo terço, que num ápice a transfere para mim. Aquilo parecia uma movimentação da linha avançada da selecção de râguebi da Nova Zelândia, tão depressa a palavra do Senhor passou de mão em mão. Só me restava ensaiar a leitura; teria depois tempo de desancar os dois cobardolas que não tinham estado à altura do título que estavam prestes a assumir. Comecei cauteloso. Mas logo dei conta que era uma daquelas leituras interactivas, que incitam a plateia a responder em uníssono acéfalo. Cedi pois à embriaguez da palavra. Apercebi-me que tinha a plateia na mão, dos 7 aos 77 (um avô de78 anos ressonava). Compreendi também a felicidade de Freddy Mercury em Wembley, a dominar 100 000 almas com vocalizos absurdos. Acelerei o ritmo, em crescendo fervoroso. Mal sabia que corria em direcção ao abismo. Em instantes, tinha diante de mim a pior palavra que a nação produziu: “ESPOSO”. Lembro-me como se tivesse sido ontem. O segundo de pausa estendeu-se para lá dos limites normais, enquanto eu hesitava na pronúncia. Tinha passado a vida toda a evitar pronunciar tal palavra, cuja sonoridade me repugna. Tudo me ofende, da forma obscena como os lábios se projectam, à sugestão das duas primeiras sílabas, que é cobardemente resolvida. Pior do que a palavra “esposo” só mesmo “pachacha”, mas “pachacha” é palavrão, o que faz do feio uma qualidade. Como se pronunciar tal palavra em público não fosse castigo suficiente, alguém armadilhara o texto com mestria. A palavra vinha no plural. Os anos de Paris não contam, eu sei; como não é desculpa ouvir gente a dizer “acôrdos” e outros que dizem “acórdos”; e é também irrelevante a já referida repulsa que a palavra me causa. A verdade, nua e crua, é que na cerimónia pronuncio “espôsos”. E antes que pudesse avançar, oiço o que de mais parecido com uma intervenção divina experimentei até hoje. Atrás de mim, implacável, o padre corrigi-me diante todos, ligeiramente irritado e vingativo: “espósos!”. Engulo em seco. Algumas gotas de suor brotam do sovaco esquerdo e começam a escorregar velozes pela pele, como pontas de punhal nas mãos de um sádico. Sinto a angústia do cavaleiro depois de derrubar o primeiro obstáculo, mas concluo a leitura sem acumular mais falhas. Abandono o palco de ombros caídos. Uma última gota de suor ainda galga o relevo das costelas, mas já vai sem ímpeto. O resto da noite não tem grande história. Foi a lenta agonia de um homem que definhava enquanto mantinha a compustura à mesa e procurava ter presentes as regras de etiqueta. Conformara-me com o erro, mas a falha tido sido o catalisador que agigantara outras desilusões. Senti-me impotente, no duplo sentido literal do termo. Senti-me depois ainda pior, possuído por uma impotência sistémica, a toda a extensão do corpo. Desinteressei-me dos decotes e acabei a noite dentro do carro, sozinho como quando chegara, mas como um balão murcho e, para cúmulo dos cúmulos, em sintonia com a Rádio Nostalgia. Nem sequer tive a decência e a esperteza (era excepcional a selecção de vinhos) de me embebedar.
No Sábado de manhã meti-me no comboio e fui para os lados de Yale, ao encontro de um colega polaco. Voltei ao fim da noite e meti-me noutro comboio, que me levou até Princeton. Para quem fique com a ideia errada de que tenho uma vida académica muito atarefada, adianto que o almoço de cozinha polaca estava excelente e foi bem regado. Sobre a festa de Princeton realço o sortido de queijos, a circulação constante de substâncias ilícitas e um champagne anónimo que a partir das 3 da manhã comecou a saber bem.
A famosa peça 4’ 33’’, de John Cage, foi em tempos um manifesto, e passou depois a curiosidade, antes de se perder no caudal das excentricidades subsequentes. Ouvi o relato há muitos anos: um pianista entra em palco, senta-se ao piano, abre o tampo do teclado e fica imóvel durante 4 minutos e 33 segundos, concluindo-se a peça com o fechar do tampo que indicara o princípio da execução. Tive hoje a oportunidade de ouvir a peça (ou ver, se se preferir). Num auditório cheio, a pianista entrou em palco, sentou-se ao piano, abriu o tampo do teclado e ficou imóvel durante 4’ 33’’. A interpretação foi segura e corajosa e não o escrevo com ironia. Tratando-se de um recital colectivo, a cargo da turma de piano da Julliard School, não deixa de revelar algum carácter quem, diante de colegas e do público, abdica de peças mais ortodoxas, que seriam uma ocasião para exibir virtuosismo. Infelizmente, a peça foi precedida por uma outra intitulada Suicide in an airplane. Alguém tivera a ideia de fazer com o encadeamento uma alusão ao 11 de Setembro... Se é certo que algum pudor me impede de discutir as subtilezas que distinguem suícidio de assassínio, bem como de explorar a confusão óbvia (afinal, quem estivéramos a homenagear?), não posso esconder alguma consternação. Tenho a minha dose de minutos de silêncio, cerimónias que respeito escrupulosamente, na inacção e nos pensamentos, procurando que as reflexões que me povoam durante os 60 segundos estejam de acordo com a natureza da homenagem que se presta. Gosto desse tipo de cerimónias, especialmente se estou no local a partilhar com milhares de pessoas um momento de silêncio. Porém, 4’ 33’’ é demasiado tempo... Ou melhor, é muito tempo se se começa contrariado, como foi o caso. Irritou-me aquela usurpação do silêncio que Cage escreveu. Todos os 4’ 33’’podem ser 4 vezes um minuto de silêncio mal contado, menos os 4’ 33’’ do Cage. Curiosamente, durante a execução da peça seria provável lembrar-me do 11 de Setembro, que vivi já aqui e que me marcou também. Bastava que não o tivessem sugerido.