maio 16, 2007

O aprendiz do Carrasco

Na orla da floresta, onde antes havia uma nogueira desirmanada, um homem e um rapaz de trajes acastanhados e modestos estão diante de um cepo enraizado, com uma superfície lisa de quase um metro de diâmetro e a meio metro de altura, escurecida pelo sol e a chuva, mas ainda com os anéis concêntricos bem definidos, aqui e ali feridos por lenhos pouco profundos. O carrasco segura um imponente machado numa mão e uma melancia na outra, amparada pela sua barriga. Atrás deles há uma pilha de melancias e a paisagem é verdejante até se perder de vista. O homem equilibra a melancia pelo equador no cepo e ergue o machado com as duas mãos. A lâmina só não brilha porque o dia está enublado, mas percebe-se que brilharia à mais pequena aberta. O carrasco diz algo ao rapaz, com o machado sempre no ar. Desfere então um primeiro golpe, depois um segundo e um terceiro, sem dar mostras de querer parar, aumentando inclusive a cadência. Ao fim de um minuto, sobre o cepo está uma melancia branca, sem uma única sobra de casca verde e sem que se note - pelo menos a esta distância - o vermelho vivo do interior. Em redor do cepo e sobre a sua superfície há inúmeras lascas de casca, finas como se alguém tivesse cortado uma pêra abacate com uma navalha. E nem a base da melancia escapou da lâmina, embora esteja ainda no mesmo lugar, não se percebendo daqui se o homem desferiu um golpe horizontal pela base tão rápido que deixou a melancia imóvel ou se a cada golpe a foi imperceptivelmente rodando sobre o seu ponto de apoio.

(Continua de noite: não percam o empolgante final que de momento não me ocorre; se quiserem enviar sugestões, tentarei fazer múltiplas conclusões, que serão votadas, habilitando-se o vencedor a um prémio a divulgar em ocasião oportuna)

maio 15, 2007

Tema e variação

4 homens jogam à roleta russa na mesa de um pátio. O jogo dura há 5 dias, com pequenas pausas para a higiene pessoal e sestas curtas, sem uma única morte. A notícia começa a espalhar-se. Há um ajuntamento. Surge a suspeita de que não há nenhuma bala no canhão e pedidos para que abram a arma, mas os jogadores recusam e desafiam quem deles duvida a sentar-se à mesa para jogar também. Ninguém o faz. Passam-se mais dois dias, a assistência não arreda pé. Mais três dias. Dois dias. Um dia. Alguém da assistência decide juntar-se. O jogo prossegue a 5, sem alterações. Passa outro dia e senta-se um novo elemento. Ao fim de mais alguns dias há 11 jogadores e a assistência não parou de crescer. Mais alguém decide tentar a sua sorte, puxando uma cadeira mesmo ao lado direito do que acabou de jogar. A pistola vai passando de cabeça em cabeça no sentido horário e o recém-chegado sente cada clique com impaciência. Quando recebe a arma, simula que a aponta à cabeça, mas com um gesto rápido tenta abrir o tambor. O revólver rebenta-lhe de imediato nas mãos. Um estilhaço do cano corta-lhe a carótida direita, o tambor da arma, ainda sólido depois da explosão, fura-lhe a caixa torácica e rompe-lhe o coração. Há mais surpresa que pânico. Ninguém se aproxima do corpo imóvel. A assistência começa a dispersar. Ficam os 4 jogadores. Depois de se certificarem que não há mais ninguém por perto, contam as cadeiras em volta da mesa. Três deles colocam então uma quantia indeterminada de dinheiro sobre o pano verde. Após uma pausa, o que não havia jogado a mão ao bolso recolhe o dinheiro todo, com um largo abraço que varre a mesa por inteiro. Em seguida abandonam o pátio, sem arrumar as cadeiras.

junho 19, 2006

Hilário

Hilário tinha sido um crápula, o maior dos crápulas da aldeia e o mais diversificado, capaz de encher sozinho uma nova História da Infâmia, sobretudo se de tipo regional. A forma como estrangulava? Um primor de técnica. A sua motivação? Sem justificação e insondável, mas aparentemente variada. Morto o crápula, não se deu vivas a nenhum outro. Passaram-se anos. "Hilário" era nome proibido nos baptizados, mas ouvia-se por todo o lado, a propósito de tudo. Servia para assustar as criancinhas, para as lições de moral e para os relatos ao serão. Passaram-se décadas. "Hilário" acabou por perder o rosto (nem sequer um daguerreótipo havia sobrado). E perdeu o Norte. Sempre se descobria um modo, mais ou menos rebuscado, de usar aquele nome. Quem com "Hilário" injuriava, com "Hilário" era injuriado. Nem o indivíduo mais íntegro da aldeia estava a salvo; tarde ou cedo, alguém se lembraria que também a infância de Hilário fora imaculada. Passaram-se séculos. De tanto uso, o nome quase deu em verbo, mas falhou o assalto aos obsoletos "hilarizar" e "hilariar", salvos pelo adjectivo. Antes assim. Em toda esta história - e sem perguntar a Hilário (tudo leva a crer que ele se divertia com as torturas)- , só mesmo o uso que tinham feito do seu nome era hilariante.

maio 19, 2006

O segredo

Vivia na aldeia um homem discreto, com quem os outros homens simpatizavam, por ser cordial e ter bom ar. Pelo mistério, teria também atraído as mulheres, isto - claro - se chegasse a ir aos bailes. Mal se dava por ele em grupo, mas na companhia de outra pessoa era capaz de ficar a falar pela noite fora e a conversa era depois retomada passado um dia, ao relento se era Verão, a um canto da taberna se fazia frio. Dependendo da cumplicidade, ao quarto ou quinto serão ele sempre falava do "terrível" segredo sem grandes rodeios. Contado o segredo, experimentava um certo alívio, vergonha e total desconforto, sempre por esta ordem. No dia seguinte, faltava ao encontro e não tardava a descobrir outro parceiro para reiniciar o ritual. Passaram-se anos, até que chegou o momento em que todos os homens da vila estavam a par do segredo. Virou-se então para as mulheres e começou a ir aos bailes, mas havia poucas raparigas solteiras; em poucos meses todas elas estavam a par do segredo "terrível". Na impossibilidade de encontrar a quem contar o segredo, o homem emigrou. Por ser ainda novo e não ter de voltar a mudar de lugar, escolheu uma grande cidade.

março 07, 2006

O semanário

Um homem acende um cigarro e pousa o jornal sobre a mesa. É Sábado de manhã. Vai passado pelas páginas em diagonais, lê as gordas, não se demora nas fotografias. A cadência é constante, remadas de papel no ar. O fio do fumo de cigarro não tem tempo de se recompor. Só perto do fim hesita, não chega a largar o canto da folha, volta atrás. O título familiar de uma coluna chamou-lhe a atenção. Ignorava que o cronista tivesse voltado a escrever. Dizia-se que estava doente. Antes assim. Lê a crónica inteira, com um gozo que reconhece. Depois apaga o cigarro, paga o café que antes pedira e sai, deixando o jornal sobre a mesa. Encontra um colega na calçada, cumprimentam-se e antes a despedida fala-lhe do jornal do dia, conta-lhe as novidades: "Mas ele voltou a escrever?" No almoço com os amigos, a mesma surpresa, multiplicada por seis. Fica na dúvida, dirige-se a um quiosque, abre um exemplar do jornal, o homem do quiosque refila, ele paga, acende um cigarro, não encontra a crónica. Passa-se uma semana, novo Sábado, o homem entra no café, outro café, outro cigarro, nova edição do semanário, perplexidade: uma fotografia na primeira página mostra a praça que ele contempla, mas em ruínas. Fora um terramoto. Olha então para os lados com um sorriso nervoso, joga a mão a um outro jornal, deixado sobre outra mesa. Desilude-se: era um semanário desportivo. Volta ao seu jornal, confere a data. Nova surpresa: a data era futura, precisamente daí a uma semana. Guarda segredo até Terça-feira, é internado à Quarta, enlouquece à Quinta e na Sexta despacham-no para um asilo longe da cidade. No Sábado morrem metade dos habitantes da cidade. Fora um terramoto. O homem recupera ao fim de uns meses e recomeça a vida noutra cidade. Novo Sábado, novo café, outro cigarro, o jornal sobre a mesa, mas agora virado para um rapaz, a quem ele paga para que leia as notícias em voz alta e confira sempre a data no cabeçalho.

fevereiro 23, 2006

Os Espantalhos

Não se sabe como começou o hábito dos amores vagos. Parecia claro que era uma forma de espantar um desgosto de amor passado e de prevenir o desgosto futuro. A moda pegou. Por toda a cidade, nunca se amara tanto e de forma tão vaga. Um dia passou por lá um sábio, que num ajuntamento festivo a todos se dirigiu: "lembro-me bem de um campo de cultivo que resistiu durante anos à passarada e aos gafanhotos. Era a melhor terra das redondezas e os aldeões faziam tudo para a proteger. Até que alguém se lembrou de colocar um espantalho no meio do campo. No ano seguinte, colocaram dois. Não demorou a que todos quisessem demonstrar o seu apreço por aquele campo. E foi uma praga de espantalhos que acabaria por matar as culturas. De tanto insistirem em espetar espantalhos, não sobrou um palmo de terra arável. Esta cidade é um pouco com aquele campo. Perdoem-me, mas tenho diante de mim uma multidão de espantalhos. Reparem nos vossos braços, abertos mas hirtos. Como espantalhos. Ainda se lembram como se abraça?" Fez-me silêncio e depois ouviu-se uma voz, tímida e anónima: "vagamente..."

janeiro 26, 2006

O chafariz

Era uma vez um homem desconfiado, num deserto como os desertos de dunas dos países subdesenvolvidos, mas com rede de canalização subterrânea que substituíra todos os oásis por chafarizes. Depois de ter caminhado durante três dias ao sol, o homem desconfiado avista um chafariz e precipita-se para ele. Curva-se para abocanhar o repuxo, mas depois hesita. Nunca tinha usado um chafariz, por desconfiar que a água recolhida no ralo é reciclada e volta a sair pelo repuxo. Ainda pensou que fazia provavelmente muito tempo desde que a última pessoa usara o chafariz e que qualquer perigo, que ele não conseguia imaginar muito bem, se teria entretanto diluído ou atenuado. Mas reparou depois numas pegadas que não eram as dele. Com o vento que fazia, só podiam ser recentes. Por isso não bebeu e por ali ficou, sedento. No dia seguinte, chegou um leproso. O homem desconfiado explicou-lhe como funcionam os chafarizes e o leproso entendeu que não tinha o direito de beber. Ficaram por ali os dois, sedentos, olhando o repuxo que brilhava sob o sol incandescente. Ao terceiro dia chegou um homem razoável, que ouviu o homem desconfiado e escutou depois o leproso. Tentando fazer-lhes ver o absurdo da situação, virou-se para o leproso e disse-lhe: "bebe tu primeiro, que eu beberei a seguir e assim ele perceberá que não há perigo e beberá no fim". O homem inspirava confiança e o que dizia fazia sentido. O leproso aproximou-se do chafariz e ainda molhou os lábios, mas naquele preciso momento houve um corte de água. No último diálogo que travaram, já com o leproso morto e enterrado, o homem razoável lamentou o progresso e desejou ter um poço por perto, ao que o homem desconfiado respondeu: "seria seguro beber do mesmo balde que usamos para ir buscar a água ao fundo?"

janeiro 22, 2006

A trompete (alegoria)

Não se sabe ao certo como se disseminou o vício de tocar trompete em todo lado. Ninguém aguentava mais de cinco minutos sem aproximar o bocal dos lábios. Conversava-se, mas entre fraseados melódicos. Às vezes era só um trilo, mas que bem que aquilo parecia fazer. Jazz, Telemann adorado como uma estrela de rock, melodias lânguidas entre os lençóis, depois do amor. As festas eram cacofónicas e nas ruas já nem se buzinava. O cidadão comum tinha pelo menos três trompetes. Gente abastada, três trompetes em cada assoalhada. A iconografia subjugava-se ao instrumento, da publicidade às galerias. Qualquer escritor aspirante fotografava-se abraçado ao seu trompete, com a bochecha encostada à trompete, jogando a trompete ao ar. Fizeram-se fortunas. Os grandes empresários da trompete concordaram em produzir instrumentos tão medíocres quanto tecnicamente possível. Não havia trompete que durasse mais de três dias, com o uso frenético que lhe era dado. Alimentar tal vício tornou-se então um problema para os agregados familiares mais necessitados. Houve penhoras. Nas lixeiras, mas depois nos parques e por todo o lado, acumularam-se trompetes enferrujados. Qualquer criança aprendia a tocar na rua como o Arturo Sandoval antes de saber a tabuada. Passaram-se décadas. Um dia provou-se que o trompete matava. Era do verdete. A conclusão demorou a chegar porque toda a gente tocava e morria sincronamente. Perante esta revelação, alguns conseguiram cortar com o vício. Era um grupo minoritário, olhado com algum desdém pelos trompetistas, que os viam como traidores, gente patologicamente sadia. Passaram-se anos. Trompetistas e não-trompetistas conviviam sem grandes atritos, apesar de tudo. Mas um dia provou-se que o barulho do trompete ensurdecia. E que arreliava ao ponto de chegar a matar. Deixou de haver paz. Alguém ainda conseguiu enriquecer com a venda de surdinas, mas era uma solução precária. Como conciliar o direito à trombetada com o direito ao silêncio absoluto? O trompetista começou a sentir-se perseguido. Com aqueles dedos sempre à procura dos pistões, os lábios deformados, as bochechas caídas, era a imagem do homem fraco, vergado pelo vício. Ou pelo menos era assim que pensava que os outros o viam. Coisas complicadas. A verdade é que investiu tempo e energia em alguma produção panfletária curiosa, onde reclamava o seu direito à trompete. Tudo isto se passou há muito tempo. Não há hoje trompetes enferrujados nas ruas. As crianças continuam sem saber a tabuada, mas por outros motivos. Toca-se trompete em casa, às vezes com amigos, uns que tocam também, outros que apenas escutam. A cidade recuperou o silêncio. Há agora um outro vício, em plena expansão: pintar. Anda tudo a pintar ou desenhar, mesmo quando falam uns com os outros. Ninguém dispensa a sua latinha de spray, para cumprir o graffiti diário. É coisa para durar, com tanta parede virgem e o hábito deselegante de pintar por cima. Vão também passar muitos anos até que alguém prove que o spray é tóxico. E mais anos ainda, até se perceber que a agressão pictórica em níveis saturantes pode levar à loucura. Ascensão e queda. Habituemo-nos.