Cada quarto tem a sua paisagem sonora. Os sons da rua. Privilegia-se o silêncio, mas um quarto demasiado silencioso não chegou a existir. Foram os pardais (Olivais), os alarmes e as buzinas dos carros (Lumiar), o burburinho do Periphérique, primeiro, depois as vozes dos loucos do hospital psiquiátrico vizinho (creio que as inventei, na verdade), por fim o trânsito normal de uma rua normal e a Gymnopedie n 1 de Satie, tocada incessantemente pela vizinha do andar de cima e que agora desperta violentas rememorações, nenhuma particularmente nostálgica (Paris). Aqui em Nova Iorque é o apito dos camiões em marcha à rectaguarda, vozes bêbadas nas noites de Sexta e as sirenes das ambulâncias. Se me concentro, ainda oiço o aquário, um som de cascata que vem da sala, um kitsch acústico que dizem induzir alguma tranquilidade. Dizem o mesmo da Gymnopédie n 1, de resto, como se o contexto não bastasse para até Beethoven se transformar numa tortura.
Ver cinema em condições sem sair de casa era um sonho antigo, recentemente concretizado com a compra de um projector, colunas a preceito e amplificador. Não entro em detalhes técnicos. Há uma parede branca, sem quadros, que faz de écran. Há também um futon cheio de almofadas onde nos instalamos. Confesso com algum embaraço que tenho adormecido várias vezes diante de obras primas. Há alguns ajustamentos óbvios: não ver três filmes de enfiada, por exemplo, sobretudo quando se começa à meia noite, nem anteceder a sessão de uma jantarada substancial. Mas desconfio também que o excesso de conforto do futon não ajuda nada. E ao pensar nisto lembrei-me de um dos meus heróis de estimação, Charles Lindbergh, o primeiro homem a voar sobrevoar o oceano Atlântico. Conta-se que a sua preocupação em não adormecer enquanto pilotava era tão grande que escolheu a cadeira menos confortável que conseguiu encontrar. Se o desconforto serviu a Lindbergh, talvez seja essa a solução para prolongar a vigília cinéfila. De resto, o antigo Éden, com as suas cadeiras sem estofos, aplicou de forma involuntária o mesmo princípio.
As paredes de uma casa alugada são menos importantes que a pele do corpo. Deixamos a casa e escamamos da pele, mas a tatuagem - da gótica à buarquiana - não desaparece quando a pele escama e o que fizemos às paredes de uma casa que se abandona não fica, nem connosco nem com ninguém, desaparecendo nas duas demãos de tinta branca que os mexicanos passarão sem olhar aos acabamentos finais antes que se instale o novo inquilino. Se se faz tábua rasa de uma casa, a casa não tem assim tanta importância. Mais um prego, mais uma prateleira, que importa isso? Um certo desprezo por uma casa alugada não deve ser confundido com falta de amor-próprio. O tecto da sala acumula pequenas rachas que parecem varizes? As paredes da cozinha perderam o branco imaculado? O chão de ladrilhos falsos tem os cantos encaracolados? Há azulejos para voltar a colocar na parede, retirados há meses para consertar um cano? É deixá-los ficar. É deixar tudo ficar, ser testemunha da decadência física do lugar. Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade, escreveu Ruy Belo, mas a casa deixa de nos interessar quando desaparece o interesse pela intimidade que proporciona. Eu, senhor do meu destino e o senhorio do destino da pilha de azulejos da casa de banho. Toda a caução tem a sua margem de manobra.
A minha manteiga fica sempre rançosa. O frigorífico está à temperatura certa e a manteiga é de boa qualidade, mas não há embalagens para solitários. Há os pacotes tamanho família, mas o pacote normal não é individual, é para uma família pequena ou para um casal. Sempre que me desfaço de mais uma embalagem inacabada lembro-me que talvez devesse cortar a barra ao meio e congelar uma das metades, fazer rações. Mas decisão de passar de um frigorífico com ilusórias doses familiares ao congelador atafulhado de doses individuais encalha num bloqueio: sabendo qual é a justa medida, não pretendo eternizá-la a -20 °C. A minha manteiga continuará a ficar rançosa.
Aprendemos com Lavoisier que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. É pois caso para perguntar no que se vêm transformando as minhas cuecas. Eu sei onde as comprei, mas depois não sei mais nada. Uma peúga tem vida própria, pode largar o pé com alguma cinética e uma vez no chão é como um animal rastejante, que nos soalhos de tábua corrida cobre longas distâncias e nas alcatifas ainda arranja forma de se arrastar para debaixo da cama. Por isso, com as peúgas estou sempre de sobreaviso. Acresce que, funcionando a peúga aos pares, a presença de apenas uma denuncia a falta da outra. A cueca, não. A cueca - ou qualquer seu sucedâneo - é bicho pachorrento, solitário e anónimo. Chega ao chão na vertical e onde toca é onde fica, como um pára-quedas murcho. Nas noites de festa brava, só temporariamente se perde no reboliço dos lençóis; em último caso será encontrada quando se lava a roupa da cama, as mais das vezes recupera-se na manhã seguinte, sobretudo quando se dorme fora e não estava previsto, pois aí só nos sobra uma. E de pouco vale contra-argumentar com a tentação da gaveta da cómoda quando em cúmplice adultério, pois mais depressa se mostra disposição para partilhar a mulher do outro do que a sua roupa interior. Sem ofensa. De resto, tenho uma vida pacata em Nova Iorque e apenas especulo.
Sobra a hipótese de um extravio na lavandaria. Agora extrapolo: é que tendo eu já descoberto, durante as lides domésticas, cuecas com pano suficiente para se cortar um pijama ao meu tamanho, é natural que outros encontrem as minhas cuecas na sua pilha de roupa, ainda que não em esquema de troca recíproca. As lavandarias comunitárias têm destes caprichos. O que me espanta é isto acontecer, já que inspecciono demoradamente o tambor da máquina de lavar e depois o da máquina de secar. Enfim, a rotina faz da raridade uma inevitabilidade. É a moral desta história. Por mais que me esforce, ao longo dos anos as cuecas vão desaparecendo. Por mais que nos esforcemos, não se consegue evitar o erro, apenas atenuá-lo. E qualquer plano de vida - tomem nota, jovens - tem de incluir a margem de erro. Não comprem 20 cuecas. Comprem 30. É com orgulho que deito para o lixo cuecas despedaçadas, rotas ou com o elástico bambo de tanto uso. São as minhas veteranas, mas uns ilusórios troféus de zelo. É no desaparecimento prematuro das cuecas, discreto como James Dean não foi, notado apenas pela lenta diminuição do efectivo e sem qualquer evocação nominal, que está a verdadeira metáfora.