dezembro 13, 2007

Mónica

Infidelidade: uma abordagem prática (21)

Há um sofrimento que, não dando prazer, reconforta. Chorar a morte de um ente querido confirma o que sempre se julgava sentir. Mas há um outro sofrimento que quando se experimenta causa revolta, por revelar uma fraqueza ou defeito que se desconhecia. A tendência natural é para contrapor estes dois sentimentos, subsistindo a ideia de que raramente coincidem num mesmo indivíduo e de que se subtraem quando tal sucede, como se os estados de alma obedecessem às regras do cálculo vectorial.

Pressentindo pela atitude de ausência do marido que a separação era inevitável e capaz de a destruir, Mónica experimentou uma epifania que a deixou primeiro prostrada, mas logo resoluta. Passou então a viver para um único objectivo: promover a decadência moral do homem que amava. Era a sua única salvação. Mas como se quebra um homem íntegro? Com a lucidez própria de quem passara a vida numa companhia de seguros, Mónica sabia que bastava aumentar as oportunidades para a transgressão. Este entendimento estatístico da condição humana, que escapa a todos os fundamentalistas, faz dos homens criaturas mais parecidas e vítimas da circunstância do que muitos gostariam de pensar, mas nem sequer nos tempos idílicos Mónica tivera grandes ilusões. "Ninguém é absolutamente fiel, a menos que seja absolutamente feio", murmurava ela agora entre dentes, com a raiva de quem espreitou o destino e não gostou do que viu.

Como ele resistiu às suas armadilhas iniciais - os encontros a quatro em que ela e o marido da outra se atrasaram, as festas em que o embriagou, para depois sair com a desculpa do telefonema desesperado de uma amiga, etc. -, Mónica foi obrigada a procurar a ajuda de uma profissional. A infidelidade mesmo assim não veio, e foram tantos os meses que Mónica quase desesperou por antecipação. Mas um dia aconteceu e lá arranjaram forma de ela os surpreender. O resto decorreu como nos outros divórcios.

Mónica pensara que uma dor poderia anular a outra e vice-versa, mas deu-se depois conta de que experimentava as duas ao mesmo tempo sem que se misturassem. Não sabia se era mágoa e remorso ou mágoa e frustração, mas parecia que uma das dores lhe tomara conta da parte direita do corpo e a outra da parte esquerda. Em todo o caso, tal fenómeno explicaria a recente crispação nos dedos sempre que entrelaçava as mãos.

dezembro 09, 2007

Artur e Manuela

Infidelidade: uma abordagem prática (20)

Artur prostituía-se por vocação. Tinha talento e uma deontologia própria, quase um espírito de missão: não aceitava servir mulheres atraentes e das casadas exigia prova de que o marido sofria de disfunção eréctil ou que, por qualquer outro motivo, elas se encontravam em abandono sexual. O sexo pago justificava-se por imperativos superiores. Ele não criara ainda família, mas sabia-se responsável pela harmonia de mais de duas dezenas de lares. Trazia inclusive na carteira algumas fotos das crianças das suas clientes, não por suspeita de paternidade, era ainda o zelo. E chegava ao ponto de falsificar a sua declaração de impostos para que o dinheiro que ganhava fosse tributável.
Artur prosperava. Órfão e de hábitos solitários, o seu único problema era o amor. Impedido de se apaixonar pelas suas clientes e obrigado pela sua consciência a revelar a profissão, só lhe restavam as vadias e as caprichosas. Mas ele buscava alguém com idêntico entendimento do mundo, que não se risse, não se escandalizasse, percebesse e apoiasse a sua actividade profissional, enfim, alguém que, perante as suas ideias mais recentes sobre sexo com o apoio do Estado, não reagisse como a última - "a queca comparticipada?"
Alguém como Manuela. Casaram-se em três meses, em seis meses ela engravidou e nove meses passaram até o filho nascer. Foram dezoito os meses de felicidade no lar e alegria no leito, mas nem mais um dia após o primeiro choro do bebé, que exacerbou o sentido de responsabilidade de Artur de forma irreparável. Ele passou então a fazer horas extraordinárias e quase duplicou o número de clientes. Como chegava a casa exausto e a pouca energia que lhe sobrava era para brincar com o filho, quem sofria era Manuela. Mas só quando a criança começou a dizer as primeiras palavras é que Manuela resolveu falar, também balbuciante. Artur não só percebeu o problema, como se penitenciou pela falta de atenção; logo lhe ocorreu uma solução.
Nunca chegaram a discutir um eventual desconto, pois partilhavam o vencimento dele (Manuela era doméstica). O único requinte que os elevava acima das outras transacções era ela usar sempre a mesma nota para, na pensão, lhe pagar, pois ao chegar a casa ele sempre lha devolvia. Cúmplices neste circuito fechado, não havia lugar para fantasias ou jogos teatrais. Artur prostituía-se com uma mulher em abandono sexual e assegurava-lhe a estabilidade conjugal. Que fosse também a sua, não lhes criava a menor perplexidade, prova última de que eram feitos um para o outro.

setembro 28, 2007

Amílcar

Infidelidade: uma abordagem prática (19)

"Uma puta". Se não chega a impressionar como corolário, havia ali reflexão profunda e frustração, por sentir que perdera o timing para o crime passional, para a indignação e até para o direito à dor. Estas coisas prescrevem e convém delas usufruir a devido tempo. O crime? Aos 5 segundos. A indignação? Válida até aos 5 meses, dependendo das circunstâncias. A dor? Teoricamente pode chegar aos 5 anos, embora após alguns meses já não haja grande pachorra para aturar o queixoso. A vida é finita. Se ao menos ele pudesse recuar cinco meses e escaqueirar-lhe o serviço Companhia das Índias... "Uma puta" saía-lhe agora sumido. A expressão nem era dele, aproveitara-a de um seu amigo que a soltou quando inteirado dos detalhes, não fazia justiça aos argumentos que aguentou no ar, à malabarista, nos limite de elasticidade da lógica e, o que era pior, não reflectia o que sentia, apenas o que lhe parecia correcto pensar. "Puuutaaaa", desta vez com as vogais bem demoradas. E depois quase brincando, à Nabokov: "Puu. Uuu. Taaa". Não havia sinal mais claro de que Amílcar era um encornado complacente.

O problema agravava-se porque a presença ainda insinuante dela criava a possibilidade de uma dor de corno futura que se juntava à dor presente. Se deste perigo ninguém pode à partida estar salvo, no seu caso talvez não fosse capricho exigir garantias de que a parelha infiel não fosse recidiva. Só que “Trai-me, mas com outro” foram palavras que não lhe chegou a dizer. Amílcar não era dado a subtilezas nem a rasgos de imaginação e atalhou, vingando-se. Uma vingança preventiva, justificada pelos eventos passados mas em que se tenta salvaguardar o futuro. Daquela última vez, “puta” saiu-lhe de novo sumido, enquanto lia a frase desenhada a fumo lá no alto. “a…t...u...p”, um artigo indefinido, o verbo curto, dois pontos (a vírgula era mais cara) e o nome dela, por fim, apenas o nome próprio - tudo soletrado pelas caudas dos aviões em formação. As letras esbateram-se depois lentamente no azul, sem que ele tirasse os olhos do céu. Esperou, para que se pudesse despedir já sem o insulto a pairar, acompanhando apenas a morte da letra com que por escrito a tratava. Mas não havia forma de saber se ela olhava o céu naquele momento e foi coisa para ter durado só alguns segundos.

maio 28, 2007

Mário

Infidelidade: uma abordagem prática (18)

Mamas fartas ou juvenis, marmóreas ou acolchoadas, divergentes ou convergentes, em ninho de andorinha ou como nos documentários da National Geographic, de mamilos pequenos, médios, grandes, passivos ou reactivos, com a auréola rosácea, escura ou indistinta, mamas que aprisionam odores quentes junto ao tronco e que os libertam quando se lhes toca, mamas apertadas em corpetes, soutiens high-tech, emolduradas por fundos decotes, revelando cavernosos regos, ou então soltas no trote de alcova, mamas que são seios, seios que são tetas que são mamas, mamas fartas ou juvenis.
Mário gostava tanto de mamas que lhe dava vergonha. Gostar de mamas é de homem, mas temia que o seu caso fosse da ordem do distúrbio. Queria as suas namoradas inteligentes, cultas, dinâmicas, carinhosas, íntegras, simpáticas, mas com boas mamas. Queria-as com sentido de humor, diligentes, sensuais e corajosas, mas com boas mamas. Ele sabia que a única condição necessária, embora não suficiente, era o par de mamas. Envergonhava-se da inclinação, que interpretava como um vestígio do cérebro reptiliano e apesar do anacronismo filogenético - a mama surge com os mamíferos -percebe-se o sentido. No fundo receava tal obsessão, que via como uma ameaça ao seu futuro promissor, ele, jovem quadro-superior de boas famílias e com ambições políticas. Como manter um casamento? Como evitar um escândalo sexual divulgado em todos os jornais? Como contratar uma secretária segundo os parâmetros de competitividade e exigência tão essenciais ao desenvolvimento do país e à convergência europeia? Não que fosse famoso ou sequer casado, projectava-se apenas no futuro. Passava o tempo a imaginar cenários e acusava uma certa megalomania. Pressentia-se ministro.
Perdido em tais pensamentos, Mário andava pelas nas nuvens, na verdade, sobre as nuvens, cadeira 23A do voo Lisboa-Nova Iorque-Los Angeles. Tinha pela frente mais de 12 horas e ia já angustiado. A viagem surgira na pior altura. Julgava-se apaixonado pela primeira vez e custava-lhe deixar Lisboa. A sua namorada despertava-lhe uma imensa ternura, um alvoroço tranquilo que para ele era novidade. Sabia que estava perante a mulher da sua vida, embora se tratasse de uma feminista. Dificilmente a conseguiria levar ao altar, até porque também era ateia. Ou integrá-la na família, porque era de extrema-esquerda. Mas sabia-a uma preciosidade, uma mulher de aguda consciência social e com um sublime par de mamas. Talvez por isso preferiu omitir o destino final da sua viagem. Ia para Las Vegas, a uma despedida de solteiro de um amigo americano que conhecera na adolescência durante um curso de Verão e que recebera já em sua casa.
A mentira por omissão não lhe causava grande transtorno e era até um bom treino para a sua vida profissional; no que ele não conseguia deixar de pensar era na ida ao clube de striptease. Como seria capaz de resistir a tais encantos? E se houvesse por ali fotógrafos de um tablóide português? Uma lap dance é sexo? Sentia-se atraiçoado pelas próprias questões que colocava, derrotado moralmente, um fraco, indigno de representar um eleitorado. Então e o amor? Não o deveria preocupar mais o respeito que a sua namorada merecia? Era também uma questão, talvez não prioritária. Entristecia-o chegar a tal conclusão. Mas talvez a amasse de verdade, um amor só ultrapassado pelo seu patriotismo. Como se esta explicação nem o próprio convencesse, sem mais pachorra para tantas dúvidas, adiou o problema com dois comprimidos para dormir.
Mário entra decidido no clube. Ao jantar notara que metade da rapaziada estava já casada e na outra metade quase todos comprometidos; se se mantivesse dentro do pelotão, não estaria a fazer nada de censurável ou pelo menos haveria uma justificação, digamos, estatística. A sua primeira impressão é de desilusão e alívio. Nada do deboche que imaginara,: salão amplo e moderno, a meia-luz, neónes, alguns espelhos, sofás espaçosos, muitos obesos e carecas isolados, raparigas seminuas ao balcão, dois gorilas de tuxedo em pontos estratégicos. Não havia música, mas logo percebeu que tinham chegado entre dois actos. Instalam-se todos, começa a tocar Madonna e uma rapariga sobe ao palco para iniciar o seu número. Mário resolve testar-se olhando de imediato para ela. Nada. Nenhuma excitação incontrolável. Seios perfeitos, sim, mas o que lhe chama a atenção é o extremo enfado com que ela dança. “Uma última réstia de orgulho”, pensa Mário. Em vez de excitação, ele sente empatia, apetece-lhe salvar aquela rapariga. A noite começara bem, mas as mulheres circulavam agora pelos sofás, metendo conversa. Uma preta de olhos verdes e seios hirtos pergunta-lhe de onde ele é. Mário responde a medo, ela afasta-se sem insistir, talvez à espera que a bebida faça efeito, ignorando que ele se hidrata a gasosa. Alguns dos seus companheiros não perdem tempo e Mário tem finalmente oportunidade de observar os detalhes da lap dance. Um requisitara os serviços de duas mulheres ao mesmo tempo, uma mulata e uma loiraça. Mário via-as de costas, debruçando-se sobre um homem que nem perante os movimentos mais insinuantes delas levanta as palmas das mãos do sofá; parecia estar agrilhoado. Apesar das nádegas proeminentes e das costas nuas, a Mário a cena evocava sobretudo um episódio de necrofagia em que duas criaturas debicam um cadáver. Só mesmo ao seu lado não pôde deixar de reparar que o joelho de uma rapariga friccionava o escroto de um outro companheiro. “Lap dance é sexo”, apressou-se a concluir, no preciso momento em que cruzava as pernas.
A noite foi avançando, as raparigas viam-no defensivo e deixavam-no em paz. Aos poucos vai dando conta que ao excesso de oferta não correspondia um estímulo proporcional, antes pelo contrário. Tanta mama à solta desmotivava-o. Mário volta inclusive a pensar na primeira rapariga, que lhe apetecera salvar e não mais voltou a encontrar. Os seus valores cívicos levavam a melhor sobre o cérebro reptiliano, aquela experiência fortalecia-o. Nem a pressão dos outros homens o levaria a ceder – não que alguém se preocupasse com ele. E quando a preta dos olhos verdes vem de novo em sua direcção, Mário engole a seco mas sabe-se tonificado. A sua preocupação não é resistir-lhe, antes não a magoar. Ele sente o seu instinto politico a emergir, ali, no bas-fonds. Preocupa-se em agradar aos outros, mesmo às franjas excluídas da sociedade. Las Vegas preparara-o para enfrentar de futuro qualquer mercado popular. Mesmo se a preta exalava sexo por todos os poros e se sentara com languidez no braço do sofá, Mário toma a iniciativa e apenas lhe diz, quase segredando: és muito bonita e atraente, mas eu sou… sou gay, percebes? Só estou aqui por causa dos meus amigos". A preta agradece-lhe o elogio, mas sobretudo a explicação, que lhe restaura o brio profissional. Uma desculpa perfeita. Mário olha para os lados, procurando alguém a quem contar o seu triunfo, mas a visão do noivo encontra-se perturbada pelos seios da morena que tem ao colo e todos os outros estão a ser atendidos. Opta então por comemorar sozinho, vai até ao bar e pede um Jack Daniels. Finalmente descontraído, protegido pelo seu estatuto forjado e pela língua materna, ao terceiro Jack Daniels vai comentando em voz alta as raparigas que sobem ao palco - “sublimes”, “um pouco exageradas”, “boas, mas falsas” – e acaba por ser o último a sair do clube. Adormece dentro do táxi e só acorda com o barulho dos freios de aterragem. Chegara a Los Angeles.

(Até Sexta, 11:30 PM, hora local de Nova Iorque)

Para mais infidelidades...

maio 26, 2007

Sandra

Infidelidade: uma abordagem prática (17)

Sandra lê com irreprimível gozo que na Malásia, ao abrigo da Sharia, um homem pode divorciar-se da mulher por SMS, desde que a mensagem seja clara. Comenta a notícia com a mãe, que se indigna com a reacção da filha e aproveita para lhe dar um sermão sobre a violação dos direitos das mulheres nos países de maioria islâmica. A resposta de Sandra sai torta - "Mas têm telemóvel, mãe..." - e ela pela porta fora.
Sandra crescera entre as novas tecnologias e via no SMS uma forma de comunicação com os seus códigos próprios. SMS enviado era SMS recebido e lido naquele preciso momento. Em todo o caso, a responsabilidade passava para o receptor. Nisso se distinguia da carta, do postal, do bilhete escrito e até da mensagem de correio electrónico. Nem extravio, nem tempos de espera. Uma certeza instantânea. O SMS atingia sempre o alvo, como aqueles mísseis com detectores de calor que perseguem os aviões. Por mais voltas que a pessoa desse, a mensagem chegaria ao seu bolso ou à mala e para Sandra era natural partir do princípio de que seria imediatamente lida, mesmo na ausência de resposta. Se esta percepção pode ser geradora de desnecessária ansiedade, para Sandra trazia vantagens óbvias.
Namorava um homem mais velho, divorciado, com muitas responsabilidades profissionais e que gostava de se deitar cedo. Como ela era noctívaga e esperta o suficiente para poder faltar de manhã às aulas sem que os seus liberais pais a maçassem, os seus horários eram pouco compatíveis. Sandra tinha ternura pelo seu homem, apreciava o conforto emocional e material, bem como o que ele lhe ensinava. Via na diferença de idades - e o que são duas décadas numa vida? - um atractivo. Ele amava-a perdidamente, por todas as razões que são do conhecimento geral. Pernoitavam amiúde, embora com irregularidade, e muitas vezes ela enfiava-se na cama sem o acordar.
Sandra apreciava a noite e era uma rapariga cortejada que lidava bem com a dinâmica passional da sua geração. Rara era a semana em que na escuridão de um bar ou numa pista de dança não se sentia tentada a ceder a um flirt. E raro era o mês em que não concretizava esse desejo. Ao contrário de algumas, tinha escrúpulos. Mas como gostava de viver, desenvolvera também um ritual. Nisso se distinguia de muitas outras.
Na cronologia fina do desejo, há um instante que antecede a fronteira em que se deixa de ter mão na realidade, uma última oportunidade em que a decisão ainda é possível. Sandra aprendera a reconhecer esse instante e a certificar-se de que onde quer que estivesse a rede não faltaria. O que fazia então era enviar um SMS ao seu namorado, sempre a mesma mensagem, em que pensara aturadamente: "é melhor estarmos afastados por uns tempos". Parecia-lhe a fórmula ideal, que interrompia o namoro sem fechar portas e que apesar de tudo demonstrava algum respeito pelo companheiro, por vir sem abreviaturas. Enviada a mensagem, entregava-se livremente aos prazeres que a esperavam. Tentava depois regressar a casa do namorado antes que amanhecesse. Abria a porta com cuidado, descalçava-se, entrava no quarto, procurava o telemóvel dele, certificava-se com alívio de que a mensagem não havia sido lida e apagava-a. Deitava-se depois, só que sem o abraço do costume e guardando algum lençol de distância.
Não é de supor que este ritual de Sandra, cujo ridículo que vem por definição era amplamente frisado pela prática, eliminasse nela todo o mal-estar, mas ajudava-a. Isso chegava. Ela comportava-se como um católico pecador a quem basta o conforto do confessionário. E assim se passaram anos. A sorte acabaria por abandoná-la numa noite de insónia do seu namorado. Ao chegar a casa, ele tinha os olhos inchados de tanto chorar, mas parecia já recomposto e envergando a armadura do orgulho. Percebendo tudo de imediato, cabisbaixa, a rapariga pediu que ele a aceitasse de volta. Foi quanto bastou para que a armadura caísse por terra sem que houvesse interrogatório. Só na cama ele lhe perguntou com alguma ansiedade: "estavas a brincar, não estavas?", ao que ela respondeu: "não, querido, mas hoje de manhã já tinha mudado de ideias. Foi uma precipitação minha". Havendo nesta frase duas verdades e uma mentira, não escandaliza concluir que o saldo na consciência de Sandra ainda era positivo. Com saldo positivo e anúncio nessa semana de cobertura de rede total para o país, o futuro dos dois parecia ainda mais promissor.

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Bruno

Infidelidade: uma abordagem prática (16)

Bruno, 40, professor primário zeloso e curioso compulsivo, acumulava um conhecimento enciclopédico na vastidão mas de amadora espessura, embora se distinguisse dos diletantes pelo genuíno prazer e nenhuma intenção de impressionar. Frequentava agora um curso de introdução ao Direito. Antes andara pelo Desenho e tinha já em mente a Arquitectura Paisagista, sempre no mesmo instituto, sempre às Quintas. Mas todos os outros dias eram tempo de descobertas, de novas paixões.
Na sala de aula, Bruno partilhava a mesa com uma senhora da sua idade, que fazia esquissos de vestidos no caderno de apontamentos, dando mostras de grande aborrecimento. Ele rotulou-a logo de ociosa da vida, a quem o curso fora sugerido e pago pelo marido, provavelmente um advogado, com a desculpa de que talvez assim ela viesse a perceber a exigência da sua profissão e a tolerar melhor os seus serões no escritório. Não era uma mulher deslumbrante e foi só quando as pernas de ambos se tocaram por acaso que ele começou a sentir-se tentado.
Atraía-o o estatuto de amante. Bruno tinha demasiados interesses para manter uma namorada e trocava de esposa alheia com frequência e escrupulosa regularidade, apenas para não se criar uma cumplicidade excessiva que pudesse colocar em risco as suas rotinas. Uma sequência de três mulheres era-lhe na verdade menos interessante que o Desenho, o Direito e a Arquitectura Paisagista, mas a sua colega de carteira aparecera-lhe quando a troca ia já com dias de atraso e o contacto durante o curso havia tornado tudo muito fácil. Bruno, tão voluntarioso para a vida quase toda, era um conquistador preguiçoso. Ao fim de umas semanas ela deu o primeiro sinal claro, quando fingindo brincar com a aliança fez do anel um minúsculo arco que rodou equilibrado pelo tampo da mesa até embater no mostrador do relógio dele, com um clique e depois um rufo em crescendo de frequência e diminuindo de intensidade. Ele teve então uma hesitação breve, mas decidiu-se por dar ares de não ter reparado em nada. Foi ela que com mão a cair pesada sobre a mesa recuperou o anel. Nessa noite não se despediram como já vinha sendo costume.
O circuito de manutenção sempre o ajudara a pensar. O ritmo da passada certa e a respiração controlada disciplinavam-no, os troncos das árvores próximas desfilavam numa ilusão de velocidade que lhe dava uma sensação de urgência e a mente ia fazendo pausas retemperadoras à custa das visões que o animavam: a loirinha de rabo de lycra espetado e que quase o levava a abrandar o ritmo (à Segunda), o velho à beira do AVC no fato de treino Adidas ruçado (Terça), o gordo que corria sempre em sentido contrário (Quarta), os lobitos muito pouco disciplinados, desequilibrando-se mutuamente na travessia da trave de madeira (Sexta).
Naquela Sexta sentia-se muito agitado. Estava quase ofegante e ainda não conseguira perceber a sua reacção da véspera. Fora um instinto de sobrevivência, mas que devia obedecer a uma lógica por materializar. Tal mistério obrigá-lo-ia a dar uma volta extra ao circuito. E foi só ao crepúsculo que encontrou um princípio de explicação: a chave do enigma estava nas matérias leccionadas durante o curso, em como lhe causara surpresa o artigo 133. Aprendera que os 8 a 16 anos da pena de prisão por homicídio - agravados nos actos mais perversos ou especialmente censuráveis para 12 a 25 anos - são reduzidos nos casos de homicídio privilegiado. Num feito raro de memória conseguiu resgatar uma versão quase fiel do tal artigo e disse-o em voz alta: quem matar outra pessoa dominado por compreensível emoção violenta, compaixão, desespero ou motivo de valor social ou moral, que diminuam sensivelmente a culpa, será punido com pena de prisão de 1 a 5 anos. Para ele, o artigo 133 era revoltante. Imaginou as cenas de cama com as suas inúmeras amantes, subitamente interrompidas por um homem desvairado que os fulmina a tiro de caçadeira. Um cenário de horror. Ele e ela esvaziando-se em sangue e o assassino livre ao fim de 5 anos. De onde vinha este absurdo? Da ideia de paixão, claro. E experimentou então o pequeno triunfo de quem encontra uma ideia que lhe agrada. A paixão, na lei como na mentira, tem o mesmo efeito: tanto protege o criminoso como o mentiroso. Comparada com outras desonestidades, também a mentira passional vem com atenuantes, para a consciência de quem a comete e para a sociedade que julga. Uma pessoa apaixonada pode matar e pode ser desonesta, quase impunemente. O apaixonado é tratado como um louco, pela sociedade e, enfim, pela poesia. O mais curioso é que o epíteto passional, atenuante para o mentiroso, é agravante para a vítima da mentira, como se fosse preciso respeitar uma qualquer lei da conservação da indignação. E esta observação parecia-lhe ainda válida para o crime. O problema, claro, é não haver forma de perguntar ao defunto a sua opinião sobre o assunto. Posto perante estas conclusões e condicionado pela possibilidade de ser vítima de uma guerra que não era a sua, Bruno começou a encarar um desafio que havia até então adiado por manifesta falta de tempo: a construção de uma caravela de fósforos.

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maio 19, 2007

Júlio e Patrícia

Infidelidade: uma abordagem prática (15)

O diálogo entrava agora por um caminho conhecido, em que cada um procurava saber o número de parceiros que o outro já tivera. Júlio, 32 anos, julgava que ter estado com 8 mulheres a impressionaria, pois faria dele alguém experiente sem dar a imagem de promiscuidade. Mas ao olhar para a perversa beleza angelical dela, teve um momento de hesitação e disse: "7". Ela mostrou então algum embaraço, que não era propriamente de decepção, mas que também o deixou mais nervoso e naquele exacto momento da sua axila esquerda brotou uma gota de suor que foi escorrendo muito lentamente, como que esticando ainda mais o tempo psicológico criado pela pausa dela. O número lá saiu, bruscamente, só que em rigor era uma estimativa: "60 e tal".
Júlio havia encontrado Patrícia numa festa de amigos comuns e ficara siderado com a beleza da rapariga. Alta e esguia, quase sem peito, era no rosto que se concentrava todo o seu encanto. Um amigo comentou com ele que ela parecia vinda de um quadro de Botticelli, mas Júlio afastou o amigo com delicadeza e nem procurou que ele o ouvisse enquanto avançava para ela e murmurava: "Botticelli, Botticelli, desde quando o O Nascimento de Vénus dá tesão?".
Dois dias depois tomavam café juntos. Júlio era bem-parecido e divertido; ela escolhera-o entre os 4 ou 5 outros homens desemparelhados que na festa também lhe lançaram olhares. A conversa progrediu rapidamente. Ele engenheiro, ela designer, ambos a comprar casa, curiosamente vivendo muito perto um do outro, o que despertou sorrisos cúmplices. Júlio ficara ainda mais fascinado quando a viu de perto. A sua pele era de uma cor indefinível e de uma ausência de textura que tentava o toque. Três sinais na cara, em perfeita constelação, contribuíam para o encanto e quando ele conseguia desviar os olhos dos olhos dela - verdes? Azulados? Cor de mel? Jamais se lembraria - era nos sinais que descansava a vista, pois fixar-se na sua boca seria denunciar-se ainda mais. Como se ela não soubesse. Patrícia tinha uma boca conspicuamente imoral, com o lábio inferior humedecido e polpudo, que incitava à mordida, o lábio superior como arcada acolhedora e uma língua que se adivinhava capaz de todos os contorcionismos.
A resposta de Patrícia fez com que Mário soltasse um esgar. "60 e tal?" Ela confirmou. "Mas falamos de pessoas com quem tiveste relações sexuais?" Nova pausa. Ela pensara que se tratava de qualquer pessoa que tivesse beijado na boca. Júlio sentiu então algum alívio, mas nem por isso deixou de fazer o seu cálculo segundo tal critério (23). Patrícia tinha 28 anos e fora beijada na boca por mais de 60 miúdos, rapazes e homens. Naquela boca que tanto o fascinava. Um fascínio plural, ficava provado. Acusando alguma tristeza, não deixou de reformular a pergunta. "Bem, respondeu ela, nesse caso não foi ninguém". Disse-o com segurança, mas levantou-se de seguida para ir à casa de banho. Ele ainda procurou interpretar as palavras dela de modo a concluir que não estava na presença de uma virgem, mas em vão.
Jamais lhe passaria pela cabeça que uma mulher tão atraente, independente e numa grande cidade pudesse ser ainda virgem, embora tivesse logo acertado na explicação: a religião. E era seguramente uma vingança de Deus por ele se ter lentamente transformado num ateu. "Ou então foi o Botticelli, rancoroso", lembrou-se, esboçando um ligeiro sorriso no exacto momento em que ela regressava ao seu convívio.
Na verdade, a revelação não acelerou a corte de Júlio nem o desencorajou. Dias depois beijavam-se pela primeira vez; Mário sentiu um êxtase profundo. E passados mais uns dias foi convidado a subir. Aos poucos ele foi percebendo que estar com uma virgem melhorava a sua técnica sexual, era um estímulo permanente à imaginação. Júlio habituou-se a dispensar a penetração e viciou-se na sua virgem. Era aquela boca que o fascinava e um simples beijo valia por qualquer das tórridas farras sexuais com as parceiras anteriores. A sua nova sexualidade fascinava-o, dava-lhe uma excentricidade que julgara para sempre perdida desde que se formara em engenharia. Só que Patrícia começava a ficar irritada...
Ela habituara-se a levar os seus parceiros quase ao desespero por recusar entregar-se completamente. Um beijo dela e as suas pernas cruzadas era um autêntico martírio, que acabava por desmoralizar os amantes e que lhe dava a ela um gozo perverso e uma sensação de poder. O imperturbável fascínio de Júlio após meses de cama acabara por frustrá-la. E não havendo o gozo do poder, Patrícia viu-se tomada por um desejo incontrolável de ser possuída por Mário. Porém, ele recusava-se a penetrá-la, queria preservar a sua virgem a todo o custo. E ela, consumida em excitação naqueles momentos, sentia que em breve enlouqueceria. Decidida a agir, uma noite, no pico do entusiasmo, põe Júlio fora de casa às 3 da manhã e bate à porta de um vizinho que vivia sozinho e a devorava com os olhos todas as manhãs.
Aquele gesto precipitado passou a ser a sua rotina. Começava as noites com Júlio, pois mais ninguém a levaria ao grau de excitação que precisava para fornicar com o vizinho; à perda da virgindade não correspondeu a perda de inibição. Júlio contentava-se com aquela boca e suportava a humilhação de ser posto fora de casa a meio da noite. Afinal, morava perto. É claro que Patrícia não lhe contava o que fazia depois. Para Júlio, ela continuava a ser a mulher imaculada da boca promíscua.
Muitos anos depois, quando a vida os havia separado e mantinham algum contacto intermitente e amistoso, ele veio a saber do antigo estratagema dela. Sem acusar grande indignação, a sua única preocupação foi saber se ela também beijava o vizinho ou se apenas fodiam. Então Patrícia mentiu, por misericórdia e também em sinal de gratidão.


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maio 18, 2007

Sónia e Artur

Infidelidade: uma abordagem prática (14)

Houve um momento em que Sónia não pôde mais conter uma risada de nervosismo e lhe perguntou com malícia se ele estaria tão exaltado caso o objecto fosse de dimensões mais modestas. Foi um desabafo durante uma discussão de horas por todas as divisões da casa, com Artur tão fora de si que mais parecia ter surpreendido a mulher no quarto em intimidades com dois vizinhos. Afinal limitara-se a abrir uma das gavetas da mesa-de-cabeceira. Se para sónia era estranho que Artur tivesse ciúmes de um objecto, a acusação de traição parecia-lhe inconcebível. Mas Artur levou a situação a peito e deu mostras de um tresloucado tropismo para o dildo; ponteava o seu discurso exaltado com uns tabefes na glande do pénis de borracha, estrangulava-o a duas mãos, projectava-o violentamente contra a parede, tentando depois recuperá-lo sem o deixar cair no chão, obedecendo a um deslocado reflexo lúdico. A dada altura, caiu pesado no colchão da cama, como um judoca; imobilizado naquela posição, em que um testículo parecia querer esgueirar-se do lombo de Artur e a cabeça do pénis se perdia no excesso de braços com que ele a abraçava, fez uma série de perguntas num crescendo de ansiedade, mas aquele era um número de ventríloquo em que o boneco se recusava a cooperar. Sónia assistia atónita ao desenrolar da cena.
Artur não era uma criatura normal, como sucede com tantos ex-seminaristas. Para mais, entrara por convicção e não para se remediar, embora tivesse saído por causa de Sónia, que dele engravidara. Como se penitenciava pelo pecado cometido e a vocação perdida, havia desde o casamento um notório défice de fogosidade da parte dele. Ela fizera-se uma mulher despachada e lia as revistas femininas. Amava Artur mas o que ele lhe dava pontualmente nas manhãs de Sábado não chegava. O dildo foi uma revelação, que chegou pelo correio. Vinha com livrinho de instruções e as figuras eram muito didácticas, pelo que Sónia se iniciou em segredo. Com o correr dos anos foi-se tornando menos cuidadosa e passou a não fechar a gaveta da mesa-de-cabeceira à chave. Naquele dia Artur procurava aspirina para uma dor de cabeça.
Discussão propriamente não houve. Artur estava tão obcecado com o dildo que já mal argumentava. Primeiro tentou ver-se livre do seu inimigo pela retrete, mas de cada vez que descarregava o autoclismo, o pénis reemergia lentamente, ora pelos testículos, a lembrar o focinho de um enorme rato de água, ora pela cabeça, como uma moreia a sair do buraco. Seguiu-se uma sessão na cozinha, transformada em sala de tortura, mas o objecto revelou uma resiliência notável e só ao ver o bico de gás aceso Sónia tentou agir. Cada um puxava então o pénis para seu lado, que ficou ligeiramente mais delgado e comprido, com uns quase imperceptíveis veios esbranquiçados, mas logo retomando a cor e forma originais quando Sónia cedeu. Legitimado pela força, Artur encheu-se de coragem e quis atirar o maldito objecto do nono andar para a rua, não reparando que a janela estava fechada. O pénis fez ricochete, rachando o vidro, e aterrou no axadrezado preto e branco que os ladrilhos da cozinha desenhavam. Ele ainda se aproximou embalado pela raiva, mas depois estancou: o bicho movia-se e emitia um zumbido. Perante tão inesperada manifestação de animismo, Artur cedeu aos nervos, as suas pernas fraquejaram e também ele se deixou ficar no chão de ladrilhos. Sónia não hesitou em socorrer Artur; foi com habilidade que esticou a perna e usando os dedos do pé desligou o dildo, sem nunca folgar o abraço com que consolava o seu homem.
Nunca chegaram a aprofundar as causas últimas do problema, mas Sónia estava decidida a resolver a situação. A solução viria também pelo correio e as instruções eram explícitas, excepto para Artur. Ele não percebia nem a lógica de funcionamento da boneca, nem a lógica da sua mulher. Ela explicou-lhe então que se ele também tivesse o seu brinquedo sexual, talvez viesse a tolerar o brinquedo dela. Foi tal o alívio de Sónia ao reparar na reacção de Artur que não se apercebeu ser a natureza do seu súbito entusiasmo profundamente infantil. Sabendo-o pudico, Sónia saíu do quarto, para que ele explorasse o brinquedo sem inibições.
A vida dos dois restaurou-se. Continuaram a fazer amor apenas ao Sábado, sem que ela tivesse notado qualquer acrescento de fantasia ou motivação da parte de Artur, mas ele não mais a incomodou por causa do pénis de borracha, que ela continuou a usar. Também Sónia não lhe fazia perguntas sobre a boneca, mas sabia que ele mexia nela. Nunca veio foi a perceber a razão da paz de Artur. Numa rotina de vago proxenetismo, quando brincava com a boneca Artur usava exclusivamente o brinquedo de Sónia. Aquele exercício dava-lhe a estranha sensação de ser ele o único homem lá em casa que era verdadeiramente fiel e digno da sua mulher.

Para mais infidelidades...

maio 13, 2007

João

Infidelidade: uma abordagem prática (13)

Ainda criança, João já gostava dos vilões com códigos de honra. O seu modelo não era Robin Hood, no fundo um fora-da-lei de uma lei má, nem o mafioso, oprimido por uma organização. O que o fascinava, sem que disso se tivesse apercebido, era o exercício individual de criar ordem na desordem, princípios dentro da transgressão.
Fez-se homem sem grandes atribulações. Emprego, casa, mulher, filhos, uma vida a passar por todos os marcos nos tempos certos. Profissional competente, bom esposo, bom pai, respeitado entre os amigos, tremendamente aborrecido no dia em que completou 40 anos.
Em retrospectiva, podemos localizar o início da epifania que salvou João no dia em que o elevador que o levava todos os dias ao oitavo andar do arranha-céus da companhia de seguros fez uma paragem no quarto andar e nele entrou Sandra. João vinha a conversar com um colega e mal reparou nela. Dois dias depois, a mesma paragem e Sandra de novo. Então trocaram olhares. À terceira vez, Sandra sorriu-lhe, João nem por isso. Havia sido abalado por um pensamento curioso. Passou-se mais uma semana e o elevador não voltou a parar no quarto andar. Mas logo na Segunda-feira, Sandra voltou a entrar. João sorriu-lhe dessa vez, com a tranquilidade de quem encontrara um caminho.
Passou a andar com um caderninho em que apontava o número de encontros com mulheres não impostos pela rotina. Se se cruzasse com a mesma mulher 4 vezes e ela lhe parecesse interessante, tentaria seduzi-la. A regra não foi pensada com muito cuidado. João evitou o critério dos 3 encontros por pretensões de originalidade, mas ignorou que fasquia dos 4 lhe daria cabo da vida. O número de mulheres potencialmente interessantes com quem nos cruzamos casualmente pelo menos 4 vezes numa grande cidade só é pequeno até ao momento em que se começa a prestar atenção. João apercebeu-se disso ao fim de uns meses, mas pareceu-lhe pouco correcto afinar a regra ou interpretá-la em seu proveito, por exemplo, definindo a gosto as mulheres que caíam no grupo dos encontros rotineiros e que por isso seriam excluídas.
Regido pelo seu princípio como um autómato, começou a faltar ao emprego, a dar menos atenção aos filhos, a ignorar os amigos. A sua vida foi resvalando aos poucos e dela ela só tentou salvar o casamento. De um certo ponto de vista, era essencial para que continuasse a cumprir um sonho de infância.

Luís

Infidelidade: uma abordagem prática (12)

A relação aberta é um pouco como o comunismo: uma fórmula perfeita mas impraticável, em choque frontal com a natureza humana. Luís dizia-se libertino com sentido de justiça, pelo que pedia da sua parceira a mesma libertinagem. Tudo começava às mil maravilhas, com a excitação renovada por cada experiência entremeada. Mas cedo os sinais se agigantavam. Desapontamento na cama: presença de um parceiro mais capaz; pressa para que terminassem: suspeita um encontro mais interessante a seguir; uma forma de acariciar diferente e com os olhos fechados: a mente noutro lugar. Instalava-se então uma certa insegurança, desconfiança e frustração. E Luís acabava por seguir obcecado todos os passos da sua parceira, tentando perceber com quem ela se deitava e o que tinham eles que ele imaginava não ter. Sem que o percebesse, Luís era sempre infiel à ideia de uma relação aberta, apesar de insistir.

Pedro

Infidelidade: uma abordagem prática (11)

Pedro havia concluído que a aventura não tinha tido importância. Ou melhor, dependia dele dar-lhe ou não importância. Não contando, tudo continuaria na mesma, desde que conseguisse viver com o segredo. Contando, era impossível prever como ela iria reagir. Haveria certamente uma quebra de confiança. E como se restaura uma quebra de confiança? Investindo ainda mais confiança, mas a fundo perdido. Subindo a parada, arriscando uma queda ainda maior. Seria ela capaz de tal gesto? Teria o amor suficiente? A loucura? A coragem? Pedro não sabia. Mas esperava que contando podendo não contar sempre daria mostras de lhe ter algum respeito. E alimentava a esperança que ela tivesse guardada uma história semelhante. Se assim fosse, o ascendente passaria a ser dele, por ter tomado a iniciativa. Mas se ela tivesse mesmo uma história semelhante, como poderiam eles restaurar a quebra de confiança? Haveria alguma vantagem na simetria de comportamentos ou apenas um perigo redobrado? Tudo então parecia resumir-se a saber quão provável era ela ter uma história semelhante por contar. E se aproveitaria a oportunidade para também com ele se abrir ou não. Em síntese, o que procurava Pedro, realmente? Determinar, para que ficasse em sossego com o seu segredo, quão alta teria de ser a probabilidade de, tendo ela tido uma aventura, não lhe contar. Não havendo fórmula fixa e sendo os parâmetros de estimativa algo incerta, logicamente Pedro encontrou um valor adequado e acabou por ficar calado. Calado e tranquilo, por ter formulado uma regra que talvez ainda lhe viesse a trazer conforto outra vez.

Jaime

Infidelidade: uma abordagem prática (10)

geodesico_aereo0044.JPGJaime tem orgulho em ser fiel. A namorada não lhe chega, o que na sua lógica ainda o torna mais nobre. É verdade que a família dela é endinheirada, tradicional e poderosa, mas nisso ele prefere não pensar quando se analisa. Se o carácter de Jaime levanta algumas suspeitas, o seu método não deixa de causar alguma admiração. Jaime mantém a namorada à custa de 12 quase-namoradas. O número denuncia a sua megalomania e um certo anseio de legitimação histórica. 12, como os Apóstolos ou os Cavaleiros da Távola Redonda. Mas Jaime possui também alguns rudimentos de geometria e sabe que pode fazer daquelas 12 mulheres uma armadura, dispostas em volta dele e da sua namorada como vértices de um icosaedro. A tarefa de Jaime é manter a estrutura estável, evitar que alguma das 12 conheça outra, cortejar uma sem nunca sair da esfera de atracção de pelo menos um outro vértice, não chegar verdadeiramente a tocar neles nem a sair para fora da armadura. No centro deste campo de forças, que trespassa a namorada de Jaime sem que ela se aperceba, ele sente-se equilibrado e seguro, numa sucessão de tensões por resolver logo substituídas por outras. Tal equilíbrio instável permite-lhe encarar a fidelidade como uma possibilidade provisória e impedi-lo de cometer uma argolada que possa comprometer a boda, cada vez mais próxima. Dentro de que poliedro passará Jaime depois a viver ninguém pode responder, mas consta que a casa dos futuros noivos é apalaçada.

Andrade

Infidelidade: uma abordagem prática (9)

Quando todos previam para o aluno Andrade uma ascensão fulgurante, capaz de o fazer catedrático antes dos 35, uma melancolia crescente foi-se nele instalando ao longo do curso, culminando num desinteresse pela academia e o mundo em geral que o deixaria para sempre no lugar de assistente. Mas esta é apenas a explicação oficial.
Andrade foi um caso exemplar daquelas pessoas que encalham por nelas existir uma pulsão e um princípio irreconciliáveis. Casado desde os 19 anos com a namorada da adolescência, percebeu ao chegar à Universidade que jamais iria querer sair dali e que iria ficar viciado no sexo no local de trabalho. Havia porém um princípio, que interiorizara e conseguia defender: nunca usar o ascendente hierárquico para seduzir. Por outras palavras, quanto mais alto ele subisse na carreira menores seriam as suas opções de parceiras sexuais. Esta tensão acompanhou-o durante todo o curso. Seria a visão de uma caquéctica e jubilada Professora, arrastando-se pelos corredores à Segunda-feira e todos cumprimentando com uma bênção, que precipitaria no jovem e brilhante Andrade uma resolução, embora o tivesse consternado ao ponto de quase violar o seu princípio com uma das contínuas cabo-verdianas que ao fim da tarde vinham encerar os patamares.
A solução pareceu-lhe inevitável: uma recusa da glória académica, a posição de assistente para a vida, com uma tese infindável, a crescer todos os anos uma resma de 300 páginas, a manutenção de uma imagem de génio excêntrico, para que lhe tolerassem o capricho e despertasse interesse nas professoras. Doce solução. Com a tese nas 1200 páginas, entre as recém-contratadas professoras auxiliares apenas uma ou duas lhe eram apetecíveis; com a tese nas 3 600 páginas, todas as recém-contratadas professoras auxiliares lhe pareciam sublimes. Andrade foi um caso único em que a estagnação académica foi a base da sua felicidade e paz. Às 12 000 páginas houve um incêndio na Universidade que lhe consumiu a tese. Nunca se soube exactamente sobre o que andara ele a escrever a vida toda. Sem tese, a sua posição tornou-se indefensável e forçaram-no a reformar-se, o que ele aceitou com agrado; aos 63 anos já era difícil seduzir na Universidade. Nesse seu último dia, enquanto vagarosamente descia as escadas e pensava nas implicações éticas da sua nova condição de reformado, Andrade viu uma contínua que por imperativos da labuta empinava na sua direcção um traseiro perfeito como um pêssego. A instantes de deixar para sempre o edifício da Universidade, aquele seria o único momento numa carreira académica de 40 anos em que Andrade se descontrolou. Muito tempo depois do traumatismo craniano provocado pela esfregona ter sarado, ainda se debatia com a questão de ter ou não violado o seu princípio e discutia incessantemente o caso com a mulher, criando obviamente cenários hipotéticos, pois ainda era um homem brilhante.

Maria

Infidelidade: uma abordagem prática (8)

Diz-se que a excepção confirma a regra, mas em rigor a excepção mantém a regra. A receita para germinar uma cidade debochada é fazer um país puritano, as religiões dominam porque os crentes esporadicamente não cumprem as suas obrigações, a infracção é pedagógica. A excepção de Maria era o mês de Maio. Há muitos anos que o marido se deslocava ao estrangeiro nessa altura e ela encontrava algum conforto na ideia de que em Maio a natureza parecia renascer. Não que fosse dada a paganismos ou modas requentadas da New Age. Maria era quadro superior, vivia na Lapa, dizia-se católica não praticante e herdara inúmeros crucifixos, que por vezes usava.
Iniciava actividades logo no dia 1. Da rua vinham as palavras de ordem e no quarto do hotel na Avenida da Liberdade a desordem era total. Maria conseguia aproveitar o feriado porque era uma mulher muito cortejada. Durante todo o ano mantinha manobras de sedução de baixa intensidade com uma dezena de homens, entre colegas e amigos. A 30 de Abril escolhia o eleito desse ano. Passavam depois as noites em encontros secretos na capital, em bons hotéis e também pensões modestas, que a excitavam. A festa acabava a 31 de Maio, pela manhã. Maria gostava de passar a noite de 31 em casa e sozinha, para poder receber o marido que regressava no dia seguinte. Curiosamente, também nesse dia, em vésperas de viajar, o marido se recolhia a sós.

Julião

Infidelidade: uma abordagem prática (7)

Julião dedicava parte substancial do horário de expediente à procura de uma explicação para os seus actos e não deve causar surpresa que só fosse promovido por antiguidade. Casado e com três filhos, era um predador pouco ortodoxo, que ao entrar na sala via o mulherio como um rebanho (quando estava sóbrio) ou um cardume (quando estava ébrio e tinha a ilusão de que elas ensaiam em conjunto manobras de desnorte). O sucesso de Julião assentava na sua tenacidade e em padrões de exigência ausentes das histórias de cinema, mais por força das suas limitações - nada atraente, remediado, um pouco gago - que do suposto programa de genuína heterossexualidade com que antes procurava justificar as suas conquistas mais medíocres e mais tarde já nem o próprio convencia.
Julião era feliz no casamento. As suas práticas não lhe traziam encargos de consciência e estavam perfeitamente integradas na sua vida doméstica. Ele percebeu cedo que a ausência de remorsos apenas explicaria um comportamento passivo e não a sofreguidão com que conquistava. Leu depois - andava à procura de literatura médica sobre o tema - que talvez sofresse de donjuanismo, mas a descrição não o convenceu por completo; é verdade que ele raramente reincidia na mesma conquista, mas sabia que era por falta de oportunidade. Chegou-lhe depois aos ouvidos a resposta de um escritor famoso que disse fazer o que fazia por não servir para mais nada. Não lhe fixou o nome, mas andou dias a pensar naquilo, para concluir com alguma frustração que também não lhe convinha. Ele não era bom a conquistar, como não era bom em coisa alguma. Só que Julião viu ali um princípio de resposta: um hábito que nasce não se sabe como e que depois se instala porque não há motivo nenhum para o mudar. Ficou por perceber a causa primeira, mas sabemos já que Julião não era bom em nada, embora desde aquela sua última reflexão tivesse começado a despachar muito melhor.

maio 09, 2007

Sara

Infidelidade: uma abordagem prática (6)

Como todas as mulheres, Sara aprendera a higiene íntima na adolescência, rotina que não se alterou durante décadas e que realizava maquinalmente. Só a sua outra higiene a levava a constantes mudanças. A higiene pública de Sara, o acto de se lavar entre o momento passado com os amantes e o regresso à cama com o marido, começou por acusar um afinco maníaco que lhe deixava as coxas em carne viva, o sexo dorido e a boca numa confusão de elixires, pastas medicinais, outros dentífricos e pastilhas. Dias mais desaustinados houve em que Sara experimentou com o sabão azul, os detergentes da cozinha, a palha-de-aço e outros esfregões, como se fosse um electrodoméstico. Aos poucos acalmou, sem que chegasse a dispensar o demorado banho de chuveiro e um olhar para o ralo da banheira que pedia demasiado da água que se escoava. Certo dia, percebeu que envolver o marido no ritual a ajudava. Fez com que lhe lavasse as costas, depois o corpo todo, mas desencorajando o menor sinal de entusiasmo da parte dele, que nada percebia. O ritual de Sara completava-se com um inclinar de cabeça para trás, recebendo na cara e na testa a água do chuveiro, que depois lhe escorria pelos cabelos, alisando-os. Foi há pouco tempo que o gesto deixou de fazer o efeito pretendido e ela passou a tomar banhos de imersão, de novo sozinha, renovando várias vezes a água da banheira, para que no fim possa executar uma imersão total naquela água já sem o menor vestígio de impureza, emergindo lentamente, renascida como um crente.

* Escrito no aprazível espaço que é a sala de espera da EPAL

maio 08, 2007

Paulo e André

Infidelidade: uma abordagem prática (5)

Paulo confiava em André e confessou-lhe que era infiel à sua mulher. André mostrou-se calmo, como se já o soubesse. Disse-lhe que era fiel à sua mulher praticamente desde que se tinham casado. E explicou: "é essencial que cometas a pior das infidelidades quanto antes e que o teu remorso te iniba de reincidires, mesmo nas pequenas escapadelas. Ficas condicionado, percebes? No meu caso a solução foi enrolar-me com uma das madrinhas entre o copo de água e a primeira noite de núpcias. Desde então só a ideia de ser infiel à minha mulher deixa-me angustiado". Paulo ficou meio abalado pela confissão e resolveu não perguntar se a madrinha em questão era a sua irmã; perturbava-o mais saber como podia ele, já casado, igualar tamanha sacanice. Durante dias várias ideias desfilaram pela mente de Paulo, mas todas lhe pareceram demasiado inócuas ou horrendas. A oportunidade surgiu com a gravidez da sua mulher. Logo na noite após o parto, Paulo procurou uma antiga amante. Na manhã seguinte, era um saco de remorsos e jurou nunca mais ser infiel à sua mulher. A verdade é que o estratagema não funcionou. Desesperado, pediu o divórcio, sem nunca lhe contar as suas múltiplas aventuras. E logo procurou novo casamento, escolhendo a noiva com tanto afinco como as madrinhas. Tamanha fé no protocolo é rara de igualar.

Manuel

Infidelidade: uma abordagem prática (4)

Manuel julgava-se fiel mas era assaltado pela dúvida de saber se a masturbação era uma zona franca para a libertinagem em pensamentos. É verdade que nunca pensava na namorada para tais práticas. Aconselhando-se com um amigo mais velho, aceitou que a infidelidade só acontece quando se pensa em alguém em concreto e agradou-lhe o conceito da diluição de responsabilidade. Segundo o amigo, na fantasia a mulher deve ser quimérica: um joelho da actriz que se descobriu aos 13 anos, mamas da miúda do anúncio ao automóvel, boca daquela que come um gelado, etc. Uma mulher feita de múltiplas partes não existe, logo não há infidelidade em pensamento. Manuel sentiu-se salvo e resolveu experimentar logo nessa noite. Mal sabia ele que lhe faltava a abstracção necessária para compor as imagens quiméricas. Na fantasia de Manuel as mulheres só se fundiam com ele e o que houve foi uma exacerbação de responsabilidades, um autêntico bacanal. O que o acabaria por salvar foi o incentivo para melhorar a técnica.

Pedro

Infidelidade: uma abordagem prática (3)

Católico e casado, Pedro debatia-se com um problema que já nem a confessionário se amenizava. Foi então que se lembrou de trocar as colegas do escritório por prostitutas. Pedro convenceu-se que a única forma de as salvar era fazendo-se passar por cliente, salvando-se ele também pois a sua infidelidade seria então um sacrifício necessário. Teve o bom senso de não discutir esta solução com o pároco, fez o necessário e, na primeira vez, houve ainda presença de espírito para triplicar o valor pedido, dando à transacção uma dimensão caritativa. Fez depois o seu sermão, enquanto ela se vestia. Sem grande certeza sobre o efeito das suas palavras e com receio de se confrontar com o resultado, Pedro foi procurando serviço em bairros e até cidades diferentes. Com os anos acabou inclusive a regatear o preço com as raparigas.

Sofia, João e Carlos

Infidelidade: uma abordagem prática (2)

Sofia amava João e desejava Carlos. Carlos era um grande amante e João abaixo de sofrível na cama, apesar de ser adorável. A solução de Sofia foi compensar a frustração que João lhe causava chamando de imediato Carlos. Com a imagem do desacerto de João ainda fresca, a arte de Carlos sobressaía ainda mais. Por amar João, Sofia entregava-se depois a longos períodos de abstinência, marcada pela culpa. Mas quando voltava a chamar João, Carlos aparecia logo a seguir. Como se desaparecimento do remorso andasse só umas horas dessincronizado com o ressurgimento de um desejo incontrolável. E assim se reiniciava o ciclo.

João, Maria e Sofia

Infidelidade: uma abordagem prática (1)

João amava Maria e amava Sofia. Maria preferia os boxers justos e Sofia os mais folgados. João tinha exactamente o mesmo número de uns e outros, o que o reconfortava, como se fosse uma prova de que amava uma tanto como a outra. Como vivia sozinho e nunca sabia quando e com qual delas se encontraria de noite, levava uns boxers vestidos e uns do outro tipo no bolso. João sentia-se mais confortável nos boxers folgados, o que reduzia o volume a transportar no bolso e nunca foi por ele interpretado como prova de uma maior empatia com Sofia. Curiosamente, encontrava-se mais vezes com Maria, mas ele preferia acordar pensando que havia idêntica probabilidade de nessa noite se deitar com Maria ou Sofia. Ao escolher o critério do conforto, João sentia-se um homem mais justo e romântico.