
Ricardo Chibanga
Tudo rodopia em torno de um cartaz de touradas, não sei se pelo vermelho tauromáquico, o negro do touro ou o sorriso de Ricardo Chibanga. A impossibilidade física de edificar uma vila a partir de um cartaz desaparece dentro da cabeça. No fundo, trata-se de uma reconstrução que tem muito de restauro. Imagine-se no cinema. O cartaz aparece a voar, depois a rebolar amarrotado pelos montados, até parar num descampado com a certeza dos pioneiros, porque pressentiu a frescura de um riacho ou uma futura concentração de caminhos. O cartaz abre então como uma flor e fica a pairar à altura dos olhos, a pedir parede. E logo surge a parede, depois a casa que a justifica, a rua, dez ruas, o reservatório de água, mais ruas, antenas de televisão, a câmara municipal ao cimo da avenida que ainda não nasceu. O sorriso de Chibanga na canícula das três da tarde de Agosto é radioso, vence o branco incandescente da cal e permanece como o centro geométrico da vila, que alastra em todas as direcções. O desabafo do médico da vila-"Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel"- ecoa ainda, primeiro ampliado pela ignorância de quem levou muitos anos a entender tais palavras, e depois renovado, não em eco, antes como se o médico se tivesse cruzado comigo outra vez, ainda com o jornal debaixo do braço e a umas dezenas de metros do café: "Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel". Não fora pelo médico e Ourique podia ser uma vila de surdos, rica apenas nos sons dos animais: o latido do cão, o guincho final do porco a estilhaçar o frio de Dezembro, o chilreio das ninhadas das andorinhas nos beirais. O tempo passava e Chibanga, curtido pelo Verão e ensopado pelas chuvas, parecia agarrar-se ao cartaz com a tenacidade dos náufragos numa jangada à deriva. Mas a vila morreu aos poucos: primeiro os avós, depois a romãzeira, a pocilga sem porcos, a casa a acumular varizes, a distância que não parou de crescer. A morte de Chibanga está ainda envolta em algum mistério: teria sido uma criança a descolar o último farrapo de cartaz? Teria sido o desleixado dono da casa, quando ao fim de vinte anos voltou a caiar as paredes? Ou terão colado um cartaz por cima a publicitar algo alheio à planície (o circo Cardinalle)? Nunca mais voltei a passar naquela rua. Às vezes penso que Chibanga não teve um final inglório. Imagino o matador a morrer de pé, no momento em que a parede ruiu e não me apetece ir ver se tenho razão.
Uma história simples, para S.
Notre Dame, Paris
Depois da batalha, o alívio e a tristeza reinavam na taberna. A vitória sabia demasiado a sangue para que o vinho jorrasse em abundância. Bebia-se, mas em tragos lentos e as velas pareciam ainda mais ténues do que era costume.
- Eles vão voltar. Conseguimos rechaçá-los hoje, mas vão voltar pela manhã - era Afonso quem falava, um plebeu que ganhara autoridade pelo desempenho no combate, do qual os senhores dos feudos tinham desertado. Afonso expulsara os infiéis do telhado da igreja, último bastião dos aldeões, reorganizara os homens e com eles perseguira os inimigos pelas ruas até os deixar fora de muros.
Homens e mulheres ouviam-no agora desanimados e adormecidos pelo cansaço, preparando-se para o inevitável. Para lá da planície, recortando-se no contorno da colina, tinham avistado dez silhuetas de mouros para cada um deles. Afonso procurava o alento que também lhe faltava mas o silêncio voltou a tomar conta de todos. Passara-se minutos até que alguém irrompe pela porta com grande estrondo, a fazer lançar a mão às espadas.
- Desapareceram três gárgulas!
-Que dizes, homem ? ! Caíram ao chão com as pedras que os infiéis lançaram? - era de novo Afonso, lançando um olhar repreendedor ao aldeão esbaforido.
-Não, Afonso... Não estão no chão, ao pé da igreja. É como se tivessem fugido com a noite - Afonso sentia a sua gente em alvoroço e sabia que devia falar bem alto.
-Que disparate. Bebeste demais ou é o medo que te faz ter visões. Regressa a casa e descansa, que vais precisar de forças amanhã.
Sem demora, do fundo da taberna e quase na penumbra, alguém pareceu querer reacender a discussão:
- Cumpriu-se a profecia...- todos os rostos se voltaram então para o ancião e Afonso não falou.
-Há muitos anos atrás, ainda o avô do meu avô era apenas uma criança e a igreja acabava de ser feita, passou pela aldeia um homem, misto de adivinho e vendilhão, que, olhando para as gárgulas esculpidas no granito, disse: " quando escorrer sangue por estas pedras, de noite elas vão ganhar vida e libertar-se da parede e regressar no dia seguinte com a alma do sangue que por elas escorreu ". Cumpriu-se a profecia...
- Que mais disse o homem?- alguém perguntou.
-Mais nada. Não era pessoa bem-vinda e convidaram-no a partir.
Afonso ganhou o centro da taberna e disse :
- Virão pois pela manhã, para nos atacar?
- Não me ouviste com atenção, Afonso. Tudo depende do sangue que por elas escorreu. - Uma vaga de murmúrios encheu a taberna pela taberna. Afonso então gritou :
- Ide-vos todos. Há guarda para render e muito que descansar - para rematar, já mais calmo - E tu, velho, pouco nos ajudas com essas histórias. Vai-te daqui e fica em tua casa. Se não podes com o peso de uma espada de pouco nos serves agora. Lentamente, a taberna ficou vazia. Afonso teve ainda tempo de chamar a si um dos seus homens mais valentes e de lhe perguntar quantos dos seus tinham morrido no telhado da igreja.
- Morreram 5, Afonso.
- E quantos deles?
- Contei 7. Por que perguntas, Afonso?
Tocando-lhe no ombro, ele disse apenas :
- Lutaste bem. Conto contigo amanhã. Podes ir dormir.
A noite estava fria e a lua cheia. Não havia nuvens no céu. Alguns homens juntavam-se na praça e confirmavam o desaparecimento das gárgulas, como que arrancadas da parede por uma mão gigantesca. A chegada de Afonso dispersou o ajuntamento e ele demorou-se algum tempo por ali, contemplando a igreja. Procurou lembrar-se das gárgulas que ali estavam antes mas só deu pela falta de um cão aterrador. Olhou então para o carvalho centenário que dominava a praça, com os ramos mais altos tão finos que seria impossível trepá-los, desenhados a negro pela lua. Deles pendia um estandarte rasgado, que para ali voara durante a batalha. Era um estandarte cristão, que uma brisa por momentos agitou. Afonso viu ali um bom augúrio mas logo sacudiu tal ideia e apressou-se a refugiar-se num dos torreões da muralha, onde crepitava um fogo acolhedor. Poucas luzes havia agora na aldeia e os que não faziam guarda tentavam dormir. Todos menos uma rapariga, de nome Leonor, inconformada com a morte do seu amado na batalha e consumindo-se em choro e tristeza. Se fechava os olhos era ele que via, um corpo quase decapitado, empapado de sangue e rasgado de feridas. Por isso ali estava, de olhos bem abertos, aliviando-se com imagens passadas. Via-o de sorriso radioso, ao pé do ribeiro onde tantas vezes iam. Lembrava-se de como ele podia ser criança, nos sonhos e nos gestos, de como ficava a olhar os pássaros e os invejava por não poder voar. " Se pudesse voar, seria tão feliz ". " Levavas-me contigo? " - perguntava ela. E ele : " Ora, os homens não podem voar. Não digas tolices " Então dava-lhe um beijo e depois fazia a cabeça cair para a esquerda, para a direita, para a esquerda outra vez, muitas vezes, até ela se fartar e desatarem ambos a rir e a rebolar na relva. Leonor perdeu-se nestas recordações até ao amanhecer, antes de ceder ao cansaço e por fim fechar os olhos. O Sol começava então a despontar e Afonso chamou todos os homens. Apressaram-se a armar a catapulta, mas alguém deu conta de que apenas tinham uma pedra mais para lançar.
- Deixem-na armada, sempre serve para intimidar...
- Quando atacarão eles, Afonso?
- Como queres que saiba? Não sou adivinho...- Não terminara de dizer estas palavras quando, de pontos cardeais distintos da planície ergueram-se 3 figuras gigantes, estátuas de pedra animadas, correndo em direcção à aldeia. Afonso conserva lucidez suficiente para mandar chamar o ancião. E foi devagar, pela mão de um dos homens, que o velho sobiu as escadas que conduziam à muralha,. Já próximo de Afonso, desembainhou uma frágil adaga e disse :
- Vês como te podes enganar, meu bravo Afonso. Com esta lâmina ainda vou trespassar muitos mouros- remantando a provocação com um riso miudinho.
-Não há tempo para brincadeiras, velho. Já viste o que corre pela planície?
O velho, sem mesmo olhar, respondeu-lhe sem hesitar:
- Ora, rapaz, são as 3 gárgulas que desapareceram, como te falara...
- Como podemos vencê-las?- pela primeira vez, Afonso revelava alguma aflição.
- O fogo e o ferro nada podem contra a pedra. Só podes vencer a pedra com a pedra. Sobram-te muitas?
-Apenas uma.
- Então dá-lhe bom uso...
Homens mulheres e crianças estavam agora todos na muralha. Aquela visão tinha tanto de aterrador como de fantástico e o povo deixara-se por instantes embevecer pelo espanto, antes de o pânico se instalar. Só o ancião se mantinha calmo.
- Lembra-te, Afonso, que nem todas as gárgulas são más. Atingir a gárgula boa por engano pode ser a nossa perdição, pois só uma gárgula pode vencer outra gárgula.
- Vou apontar a catapulta ao cão, que parece ser o mais feroz. Nem o unicórnio nem o touro têm um ar agressivo - e logo Afonso deu ordem ao seu homem mais certeiro para executar a tarefa. A norte, o cão estava já a poucas dezenas de metros da muralha e dava passadas tão amplas que parecia poder transpô-la sem a menor hesitação. Mostrava-se feroz, com a fileira de dentes à mostra e músculos a brotar do granito. Mais distantes estavam o unicórnio, a Sul, e o touro, a Poente. A catapulta acumulava agora uma tensão brutal e a madeira, percorrida pelas forças invisíveis, rangia de impaciência. O alinhamento era perfeito e o homem, de mãos na alavanca, apenas esperava o sinal de Afonso. Este não tardou a baixar o braço. Porém, antes que a pedra pudesse partir, um corpo frágil mas veloz atingiu homem e catapulta, ao mesmo tempo que cortava o ar com um “não!” cavernoso... A pedra sempre partiu, mas com a trajectória irremediavelmente comprometida. Não chegou sequer a rasar o cão. O bicho estava então na iminência de galgar a muralha, mas Afonso não pôde evitar dirigir a sua ira a quem perturbara a manobra. Dos escombros, dorida, levantou-se então Leonor...
-Senhor, não faça mal ao cão, pois nele vive o meu amor...
-Que dizes, mulher ?
-O cão fez, ainda ao longe, os mesmos acenos de cabeça que...
Leonor não teve tempo de terminar. O cão estava agora sobre a muralha e espalhava terror. Ignorando os aldeões, dirigiu-se à ala Poente. Aí esperou a investida do touro, que embateu com violência contra a muralha, abrindo uma brecha por onde um carro de bois poderia passar. Mas antes de poder entrar, tinha já o cão a morder-lhe o cachaço. A luta foi feroz e as lascas de pedra saltavam como estilhaços e faziam faíscas. Porém, minutos depois, jazia o touro por terra, partido em dois pedaços que eram agora granito inerte, em tudo idêntico a outras pedras, não fosse pelo fio de sangue que se perdia pelo chão, já o cão seguia desenfreado, ainda que coxo, para a muralha Sul, ao encontro do unicórnio. Aí a luta foi ainda mais brutal, com o unicórnio a arrancar um lombo de pedra do dorso do cão, logo no primeiro embate. Só após um corpo a corpo que parecia não ter fim, ganhou o cão ascendente para desferir uma dentada mortal, que o deixou sem dentes a ele e sem vida ao opositor, agora simples estátua equestre sem cavaleiro, derrubada e empapando o solo de sangue. Da muralha, os aldeões tinham seguido os fantásticos confrontos com fervor e gritos de incitamento ao cão, então já plenamente convencidos de que tinham na gárgula mais feroz o seu único aliado. Corria agora como podia o animal, coxo, desdentado e exausto, em direcção à colina, onde espreitavam os infiéis. Estes ainda armaram os arcos, mas fugiram sem disparar uma única flecha, mal a distância encurtou e os fez ver o gigante de pedra, pleno de rachas e ainda mais ameaçador que antes. A batida em retirada dos inimigos fez com que os aldeões saíssem para a planície, numa explosão de alegria. Rodearam o cão de pedra e as crianças e as mulheres foram os primeiros a afagar o granito. O animal repousava sobre um dos lados, a respiração era cada vez mais espaçada, os olhos pediam descanso. As brechas começavam a abrir devagar, cedendo ao peso das partes. Desfazia-se assim o bicho em bocados, sem soltar um latido sequer, perante o olhar desconsolado de todos. Foi Leonor quem então se aproximou, abraçando-se à cabeça do cão. Murmurava algo muito baixinho, mas ia ouvindo o que à sua volta diziam. Soube que o seu amor combatera no telhado da igreja e que aí tinha morrido. Soube da profecia e ouviu as palavras elogiosas de Afonso ao ancião. É nesse instante que a cabeça do animal se separa definitivamente do corpo e do granito nasce um fio de sangue. Sem hesitar, Leonor faz das mãos a concha que recolhe o sangue e como se escutasse uma voz distante depressa se ergue, corre para a aldeia, sobe ao telhado da igreja e, não dando tempo a que o coágulo se formasse, faz escorrer o sangue pela goteira de uma gárgula.
Naquela noite houve festa. Alguém reparou que mais uma gárgula desaparecera. Leonor não festejou, mas apressou-se a adormecer, sem medos, ansiando pela manhã seguinte. Com a alvorada, subiu Leonor à muralha. Olhou o céu incessantemente durante horas mas só viu pardais e estorninhos. Foi com desânimo que desceu os olhos à terra. Só então reparou que tinha ao seu lado, quase imóvel, como se de pedra apenas se tratasse, uma águia colossal. Logo a abraçou e o granito pareceu-lhe morno como carne. Atravessando a aldeia onde bichos de pedra já não causavam surpresa, Leonor e a águia caminharam até ao ribeiro. " Se voasses, levavas-me contigo ? ... Que desgraça, meu amor, pensei que te faria feliz dando-te asas, mas esqueci-me que com asas de pedra não podes voar. Perdoas-me? ". A rapariga não se cansava de falar com a águia, que não lhe podia responder. De noite trouxe-lhe água e comida, que deixou à entrada de sua casa, onde a rapina pernoitou, pois tamanha envergadura não passava pela porta. Quando, na manhã seguinte, de novo se encontram, Afonso, que retomara o ofício de ferreiro e por ali passava, não pôde deixar de reparar...
-Bom dia Leonor. Ora esta, ia jurar que o estandarte que a nossa águia tem ao pescoço é o mesmo que voou para cima do carvalho- e olhando para a árvore- pois é, já lá não está. A verdade é que não soprou sequer uma brisa esta noite. Curioso... – E fez-se de novo Afonso ao caminho.
Os olhos de Leonor estavam já cheios de brilho. Percebendo tudo, agarrou-se ao estandarte com força, acariciou a águia e segredou-lhe algo ao ouvido. Então abriram-se as asas e os dois voaram.
Fotografia: Araantonak, 2006.
Lê-se na tabuleta: “PRIVATE PROPERTY. Hunting, fishing, trapping or trespassing for any purpose is strictly forbidden. Violators will be prosecuted.” Noutras circunstâncias, o incidente teria passado despercebido. Quantos adolescentes não estarão neste preciso instante a vandalizar casas de subúrbios abastados pelo simples gozo da transgressão, de tocar com a palma da mão no fundo de uma piscina, como quem espeta uma bandeira? Sucede que Holden Caulfield não era um adolescente e cumpria um plano detalhado. Sem álibi e sem demência, a sua honra ficou presa por um fio e o fio era o próprio nome.
Nascido numa cidadezinha da Nova Inglaterra, em 1974, não se sabe o que passou pela cabeça dos pais no momento de escolher o nome. Talvez a ignorância os desculpe: eram, como agora, gente humilde e de poucas leituras além da Bíblia. Também revelaria fervor persecutório assacar hoje responsabilidades a quem soube do nome antes do seu registo oficial, admitindo que a alguém se lhe avivou a memória. Quanto ao pároco, consta que só em plena cerimónia de baptismo se lembrou dos desabafos de uma das beatas da congregação sobre a cena do rapaz de 16 anos no quarto com uma prostituta. Talvez por julgar que quem leva o paramento vestido não deve sequer pensar em tal assunto, quanto mais discuti-lo, terá feito um sinal da cruz com a mão, encadeado com um movimento brusco do braço, encadeado com um movimento brusco do braço. E assim, como quem enxota uma mosca, se pôs em marcha um destino. Em rigor, para excluirmos a hipótese de uma fantástica coincidência, seria preciso enumerar os Holden Caulfield que andam por aí à solta, o que não seria difícil, e apurar se levam vidas normais, tarefa mais complicada. Sem ter folheado a lista telefónica, arrisco dizer que não existe outro. Sei-me refém da falácia da análise a posteriori, mas são várias as forças que nos EUA afastarão da órbita da normalidade alguém chamado “Holden Caulfield”.
É provável que Holden tenha crescido sem percalços de maior. Em todo o caso, a sua vida só lhe começou a fugir em Dezembro de 1980, no dia em que John Lennon foi assassinado. Recordemos: o criminoso, depois de disparar cinco tiros sobre o músico à porta de sua casa, sentou-se tranquilamente no lancil do passeio a ler o The Catcher in The Rye, de J.D. Salinger. A cópia do livro tinha uma inscrição manuscrita: “To Holden Caulfield from Holden Caulfield”, um sinal de que este desequilibrado mental se identificava com a personagem do romance. Alegadamente, Lennon fora morto por se ter deixado corromper pelo sistema, transformando-se num “phony”. O crime teve ampla cobertura mediática e os nomes de Salinger e Caulfield foram ouvidos como nunca, ainda que nenhum deles houvesse caído no esquecimento, longe disso. À época, o Catcher era vendido às 200 000 cópias por ano nos EUA, apesar de a primeira edição ser de 1951. E Salinger, fruto da sua intransigente reclusão e das obras que publicara vinte anos antes, conservava o estatuto de figura de culto. Só que a tragédia de Lennon daria ao livro uma dimensão quase maldita. Como se não bastasse, menos de 4 meses depois deste incidente, um outro demente, desta vez para impressionar Jodie Foster, tentou assassinar o presidente Reagan. Num dos bolsos, levava uma cópia do Catcher, maltratada pelo uso. A rematar esta série negra, em 1989, encontrou-se o mesmo livro entre os pertences do homem que mataria uma jovem actriz de televisão. Os anos oitenta não foram fáceis para o jovem Holden Caulfield.
Menos por iniciativa dos seus amigos do que dos pais destes, o rapaz começou a ser pouco apreciado. Não o votaram ostensivamente ao ostracismo, mas abriu-se caminho para uma existência solitária, interrompida por provocações pontuais, tão frequentes e repetidas que Holden foi construindo uma imagem precisa do seu homónimo pelos reparos que lhe faziam. Ficou a saber como ele usava o boné de basebol porque no dia em que resolveu pôr para trás a pala do seu, alguém lhe perguntou: “Não te chegava teres o mesmo nome?” Foi o suficiente para que, no futuro, desenvolvesse o reflexo condicionado de rodar a pala para a frente sempre que o apresentavam a alguém, num gesto curioso que desiludia os mais velhos, por instantes convencidos de que ele descobriria a cabeça. Esta era apenas uma das muitas idiossincrasias condicionadas de Holden. Todos sonhavam ficar altos e alguns até o pediam nas orações, menos ele, que estremecia quando um dos rapazes do bairro voltava espigado do campo de férias, porque sabia que, aos 16 anos, o outro Holden media mais de 1.85 m. E o seu hábito de fumar às escondidas não era sentido como transgressão e vício naturais, antes lhe pesando na consciência como mais uma aproximação incontrolável à personagem da ficção, que passa o livro a acender cigarros. Qualquer informação sobre o outro Holden punha em marcha uma sucessão de eventos que os aproximava. A consciência do paralelo parecia reforçá-lo, como se Holden estivesse sob efeito de uma força misteriosa, um tropismo de homonímia.
Por volta dos 14 anos, Holden desenvolvera uma relação estranha com o Catcher. Passeava-se com um exemplar do livro, mas era incapaz de avançar além da primeira página, que decorara e recitava a sós: “If you really want to hear about it, the first thing you´ll probably want to know is where I was born, and what my lousy childhood was like, and how my parents were occupied and all before they had me, and all that David Copperfield kind of crap, but I don´t feel like going into it, if you want to know the truth...”. Estava também a par da história, sabia que se tratava das desventuras de um miúdo de 16 anos, narradas na primeira pessoa, com uma capacidade de observação apurada, descrença e cinismo, mostrando-nos um duplo náufrago, num espaço – Nova Iorque – e num tempo próprio – a adolescência. Holden conhecia todos os episódios. Ganhara estima pelas freiras que encontrava na rua, e logo raiva, só porque o outro Holden as descreve com especial ternura. Mas o que conhecia era por dedução ou por prosa interposta. Temia, embora não o quisesse admitir, vir a ser possuído pelo livro se avançasse na leitura, quando era evidente que o livro já o dominava. Não terá reparado que, no hábito de se deslocar para todo o lado com o Catcher num dos bolsos, assemelhava-se aos criminosos que o marcaram.
O Catcher é a obra emblemática de Jerome David Salinger, uma figura de culto e o exemplo máximo do escritor recluso. Nascido a 1919, no seio de uma família nova-iorquina da classe média alta, viveu a infância e adolescência em Nova Iorque e arredores, abandonou os estudos universitários, esteve na Europa em 1937, fez nova passagem fugaz por outro College e frequentou um curso de escrita criativa em 1939, o que lhe deu menos os rudimentos da arte do que os contactos necessários para começar a publicar. Os seus contos não demoraram a ser notados, ao ponto de a prestigiosa New Yorker aceitar uma história sua para publicação em 1941. A história, Slight Rebellion off Madison, marca o nascimento literário de Holden Caulfield, mas não para o grande público. O ataque japonês a Pearl Harbor arrastaria os EUA para a Segunda Grande Guerra, adiando a publicação dos caprichos de um adolescente revoltado de um bairro fino. A personagem autobiográfica – como Holden – e o seu autor são um pouco como gémeos siameses. Têm uma convivência sobreposta e só quando separados pelo bisturi da escrita pode cada um ir à sua vida. Enquanto Holden se entediava na penumbra de uma gaveta dos escritórios da New Yorker, Salinger vivia o dia D, o desembarque nas praias da Normandia, e meses passados em França a contar pesadas baixadas entre os parceiros da Quarta Divisão. Regressado aos EUA, vê finalmente a sua história publicada na New Yorker. O fascínio de Salinger por Holden é evidente, pois a personagem voltará a aparecer noutras histórias ao longo da década de 40. O Catcher, publicado em 1951, recicla e expande alguns desses relatos e fará de Salinger um escritor célebre. Já nos anos 50, diz-se que em consequência da quebra de um acordo de cavalheiros, começam a ser notórios a intolerância e o desprezo do escritor pelo mundo editorial, comportamento que dura até hoje. O escritor deixaria de publicar em 1964, embora já antes houvesse começado a ausentar-se do mundo, ao proibir notas biográficas e fotografias suas nas edições dos seus livros. Sobre as causas profundas da decisão de Salinger, as opiniões dividem-se, havendo umas mais conspiratórias ou cínicas – incapacidade de lidar com a crítica? Truque publicitário? – e outras mais psicanalíticas, com referências à infância, aos traumas da Guerra, aos fantasmas sexuais “and all that kind of crap, but I don´t feel like going into it, if you want to know the truth”.
Interessa mais recuar a 1992, quando o jovem Holden Caulfield, regressado da Guerra do Golfo, vê uma fotografia de Salinger publicada num jornal. O escritor mudara anos antes para New Hampshire e fora já alvo das investidas de alguns paparazzi, mas era a primeira vez que o surpreendiam. A foto mostra um Salinger acossado, visivelmente incomodado, e é uma imagem poderosa, hipnótica quase, apesar da comiseração que também inspira. Para Holden foi um choque. Os crimes mediáticos dos anos oitenta já tinham ido na enxurrada da actualidade noticiosa, pairando apenas entre os aficionados de Salinger, gente que não se encontra ao virar de cada esquina. Holden abandonara o hábito de andar com o Catcher e poucas vezes pensava no livro que, de resto, continuava por ler. Arranjara forma de o tratarem por “H.C.” ou apenas “H.” A própria maioridade terá sido o melhor dissuasor para os reparos jocosos ou de simples surpresa que antes surgiam quando alguém associava o seu nome ao Catcher. Fizera-se, pois, homem com o trauma do seu nome atenuado. Só que nessa noite a imagem de Salinger parecia não o querer abandonar e ele viu-se tentado a abrir o Catcher, com a urgência de quem quer acalmar um remorso reavivado e a curiosidade de quem responde a um chamamento. Procurou então a sua velha cópia, de cantos quebrados e lombada pelas costuras. E de manhã ainda estava agarrado ao livro.
O Catcher é um romance sem resolução, com um final anticlimático, mesmo se o relato na primeira pessoa de uma experiência passada assegura o leitor de que nenhuma tragédia irreversível sucederá ao narrador antes do fim. Uma obsessão começou, nesta altura, a tomar conta de Holden. A obra de Salinger não oferece pistas quanto ao destino do Holden ficcional, antes pelo contrário. No conto This Sandwich Has No Mayonnaise, o irmão de Holden informa-nos que ele foi umas das baixas americanas da Segunda Grande Guerra. Mas seria impossível que, em 1949, o adolescente Holden tivesse participado na Segunda Grande Guerra, que terminou em 1945, como é improvável que andasse a deambular por Nova Iorque uns anos depois de ter morrido no Pacífico, mesmo sendo do conhecimento de todos que esta cidade tem o seu quinhão de excêntricos. Holden teve assim uma morte literária literalmente prematura que se explica sem dificuldade: o conjunto da ficção de Salinger sobre a família Caulfield forma um todo anacrónico e em que a mesma personagem pode trocar de nome. Ora, para Holden, o Holden genuíno era o de o Catcher. O que lhe teria acontecido, afinal? “O que acontecerá que lhe aconteceu?”, terá talvez brincado. Em 1992, o Holden do livro teria 59 anos e ele, 20.
Foi apenas há uns meses que escapou para as páginas da imprensa um depoimento de Holden Caulfield feito às autoridades americanas. O que se sabe dele e aqui se contou vem exclusivamente desse documento, mas os últimos dez anos são um mistério. Parece que, aos poucos, a ideia de descobrir a história da sua personagem o foi dominando, ao ponto de perder o emprego e abandonar os estudos a que regressara depois da Guerra, bem como de quase cortar relações com a família e com os amigos por nenhuma razão aparente. Não sabemos como chegou perto da casa de Salinger, apenas que por lá deixou dedadas. “Nunca pretendi assustá-lo, nem sequer falar com ele. Queria apenas encontrar o manuscrito, trazê-lo comigo para o ler e devolvê-lo mais tarde.” É verdade que Salinger afirma não ter visto Holden Caulfield. O escritor acrescentou depois que este novo Caulfield de que lhe falavam parecia ser uma personagem de ficção e que, como sucedia há mais de 40 anos com o Holden que criou, também não o interessava. Holden expressou outra opinião: “Quem inventa Holden Caulfield não o pode abandonar. Não tem essa opção. Eu nunca acreditei que Salinger se tivesse desinteressado dele. Salinger queria apenas que o deixassem em paz e mentiu. Vocês não viram o que eu vi”. Fez depois uma detalhadíssima descrição do estúdio de Salinger e das resmas de folhas dactilografadas que estavam cuidadosamente arrumadas nos favos amplos de um móvel a toda a altura de uma das paredes. “Demorei tempo a encontrá-lo. Há muitos textos sobre os Glass [uma outra família do universo ficcional de Salinger], mas por fim dei com o Holden e antes de fugir certifiquei-me de que tinha a história completa, lendo as últimas páginas na diagonal”. Ao todo, Holden terá estado umas duas horas no estúdio de Salinger, uma espécie de bunker afastado da casa principal. As breves declarações do escritor confirmam que naquele dia só saiu de casa depois de almoço, altura em que deu com o estúdio vasculhado e chamou a polícia. O que Salinger não confirmou foi se Holden lhe levou ou não um manuscrito. Não soube responder e quando interrogado especificamente sobre Holden, Salinger percebeu mal e foi como se repescasse um comentário seu numa das raras entrevistas que deu nos anos 70: “Read the book. It´s all in the book. There´s no more to Holden Caulfield. Over and over... I´ve just let it all go. I don´t know about Holden anymore”.
Não tendo sido dado como provado que levara algo da casa de Salinger, em pouco tempo Holden se viu livre das autoridades. What Took You So Long? (A Longa Espera, na tradução que agora se apresenta) surgiu meses depois, publicado por uma pequena editora e sem trabalho de promoção prévio. J.D. Salinger surge como o autor e, na versão original, o livro tem uma decoração espartana e nenhuma informação adicional sobre o escritor ou a obra, tal como as outras edições dos livros de Salinger. Depressa o livro foi notado pela crítica literária e pela imprensa, não demorando a esgotar. Desde então, têm sido publicadas novas edições. Salinger não fez qualquer declaração pública sobre o livro (ou sobre o que quer que fosse) após a sua publicação, o que só aumentou a especulação sobre a verdadeira autoria da presente obra. Há quem veja no seu silêncio uma legitimação do livro visto que, no passado, lutou com vigor contra uma publicação pirata de contos seus da juventude. Mas há também quem pense que, aos 87 anos, está apenas cansado, deixando que alguém aproveite o putativo roubo de sua casa para explorar o seu nome, uma acusação que os editores refutam, lembrando que Salinger receberá aquilo a que tem direito. E não faltam inclusive os especialistas do costume, que vêem Holden e Salinger como cúmplices num esquema arquitectado para assegurar a divulgação de um livro efectivamente de Salinger, mas num contexto que deixaria o escritor com a opção de rejeitar a autoria caso as críticas fossem negativas ou o sucesso comercial ficasse aquém do esperado. A hipótese, dizem, ganha algum peso dada a dificuldade de Salinger em lidar com a crítica e o hiato de mais de quarenta anos entre a publicação deste livro e a da anterior obra do escritor. Chegam depois ao ponto de sugerir que Salinger criou ambos os Holden, o que é da ordem do disparate. O certo é que a polémica cresceu e até psicólogos foram chamados à televisão. Como nada se pode esperar de Salinger e dos seus supostos editores, a chave deste mistério está com Holden Caulfield, que entretanto deixou os EUA e foi visto pela última vez no México. Ao contrário do Holden ficcional e invertendo a ordem natural da coisas, dir-se-ia que o Holden de carne e osso concretizou o plano de se evadir da sua vida, deixando-nos reféns de um mistério.
Se o interesse de A Longa Espera se esgota na rocambolesca história da sua autoria, a decisão pertence, em última instância, ao leitor, que se pode sentir incomodado com esta incerteza ou, pelo contrário, deixar-se seduzir pela oportunidade rara de ler uma obra cuja autoria é apenas uma probabilidade, com tudo o que isso traz de libertador. Sobre o livro, adiante-se somente que, ao escolher a narrativa na terceira pessoa, o autor parece ter tido algum pudor em entrar de novo na cabeça de um Holden Caulfield trinta anos mais velho. Persistem alguns dos vícios de linguagem do jovem Holden, entretanto filtrados pelo tempo e temperados por uma existência que foi cedendo à lei da gravitação social, fazendo dele o burguês previsível. Há em A Longa Espera uma tensão latente, uma espécie de energia potencial elástica que se acumulou em quem tanto se foi vergando e que faz deste livro uma obra potencialmente menos desencantada e mais explosiva do que o contemplativo e submisso Catcher. A pergunta que o livro coloca, e a que responde no fim, é esta: haverá uma solução de compromisso para Holden, uma bissectriz entre a demência e a acomodação que possa funcionar como um caminho para uma existência feliz? Não é certamente questão para fazer deste livro obra de culto entre a gente de meia-idade, até porque o putativo Salinger usa as ferramentas da literatura e deixa de lado a prosa de auto-ajuda e o seu, em tempos tão comentado, misticismo. Esta é a ressurreição possível para Holden e para Salinger, ensombrada pela dúvida e com uma sugestão de intemporalidade e omnisciência, três características próprias das ressurreições, incluindo a canónica.

Brick Wall, Terje Sørgjerd
A política de higienização da cultura não ficou pela proibição da pornografia, do palavrão, da mensagem subversiva e da escatologia, pois logo se seguiu a interdição de pintar, representar, fotografar, dançar, filmar, tocar ou escrever sob efeito não apenas de substâncias ilícitas mas também daquelas que, permitidas por lei, fossem capazes de induzir estados de alma à margem da decência, de alterar a percepção das coisas e dos sentimentos ou de outro modo transformar a pessoa, incluindo-se na lista o álcool, o haxixe, a heroína, os barbitúricos, a cocaína, o crack, as anfetaminas, o ecstasy, os antidepressivos, o LSD, a mescalina e outros alucinogénios, sendo a lista rematada por uma última alínea que estendia a aplicação da proibição a qualquer outro produto por descrever, desde que capaz de gerar os efeitos descritos, sendo irrelevante a sua origem - se sintética ou de remota tribo que o use em rituais iniciáticos. A lei foi depois endurecida, na pena e no espectro, passando a proibir todas as obras que, mesmo havendo sido produzidas num estado de consciência - digamos - natural e sem qualquer referência pornográfica, ordinária, subversiva ou escatológica, estivessem, no plano da inspiração ou por uma vaga sucessão de causas, ligadas a comportamentos censuráveis, não sendo atenuante o facto de o autor nesses enredos ter desempenhado o papel da vítima. Simplificando, se traumas sexuais de infância ou uma adolescência revoltada, entre outros motivos, estiveram indirectamente na origem de um inocente livro de culinária, a obra seria censurada. A estas leis foi depois dado um efeito retroactivo, que na prática acabou com a literatura, o cinema, o teatro e as demais artes. A queima de livros, cópias de quadros e de películas, bem como a reciclagem para a construção civil dos materiais usados para fazer cópias de estátuas, vagou inúmeras bibliotecas, teatros, salas de cinema e galerias, que aos poucos foram sendo ocupadas por uma numerosa equipa de censores com vastas habilitações literárias e recursos tecnológicos, frequentemente artistas eles próprios, que trocaram de nome, de amizades e até de rosto. De cada obra censurada só se guardou um exemplar, numa fortaleza inviolável. Por falta de espaço e algum preconceito, as instalações foram excluídas desta colecção, tendo sido perdidas para sempre.
Alguns críticos desenvolveram uma curiosa argumentação em defesa das novas medidas, sem que por isso tivessem escapado do prisão, pois logo foram acusados de instigar a agitação social. Escreveram eles que a eliminação completa da herança cultural e as novas regras de censura potenciariam a longo prazo a produção artística. Só então, e pela primeira vez desde o Paleolítico, os artistas estavam livres da influência paralizante dos modelos passados, bem como de mecanismos psicológicos primários. A ajudar, o espartilho imposto pelas novas regras forçá-los-ia a encontrar novos caminhos.
Continua no próximo Sábado, tipo folhetim. Até lá, laborem como se fosse urgente agradar a Pacheco Pereira.
- Oh, que linda. É para mim? Obrigada...
- Não é para ti, desculpa. É minha.
- Então por que a trazes? Vais-te encontrar com outra a seguir, é?
- Não. Recebi-a agora.
- De quem?
- De uma amiga.
- Tens amigas muito especiais.
- É o dia que é especial.
- Pois, parece que sim. E um bom dia para ir cada um à sua vida.
- Não sejas caprichosa. A história é complicada.
- Complicada? Agora estou curiosa. A tua imaginação sempre me surpreendeu.
- ...
- Anda, conta.
- Bem, quando eu era muito pequeno vivia-se no meu país sob uma ditadura. Houve depois um golpe militar e quando os soldados estavam a passar perto de uma florista alguém colocou cravos no cano das espingardas. Os cravos passaram então a ser o símbolo da revolução. Até hoje.
- Os soldados que faziam a revolução colocaram flores nos canos das espingardas?
- Sim.
- Então e se tivessem que disparar?
- Foi uma revolução quase sem tiros.
- É surpreendente.
- Sim. É uma história bonita...
- ...É surpreendente a lata que tu tens.
- Não acreditas? Contei-te a verdade.
- Desaparece daqui.
- Não sejas tola.
- Desaparece, não te quero ver mais.
- Sê razoável. A história é verdadeira. Vê no Google.
- Se não te vais embora, vou eu...
(E já alguns metros afastada, gritando)
- Vê se enfias a flor no cu, sacana. Usa uma espingarda para ajudar, se a tua amiga não estiver por perto. Não me voltes a ligar. Nunca mais. Ouviste?
(Depois de uns segundos de silêncio e com a população de transeuntes renovada, ele começa a cantarolar, baixinho, primeiro sua língua materna e logo depois num murmúrio)
- "Quis saber quem sou, o que faço aqui, quem me abandonou, de quem me esqueci, perguntei por mim, quis saber de nós", huummm hummmm hummm...
Imagem: Paulo de Carvalho, circa 1974
Há ideias para contos que fazem o meu coração andar mais depressa. Não sei se o coração é um bom avaliador destas matérias, nem se é objectivo. Sei que é consistente nas suas apreciações. O coração bate da mesma maneira pelas mesmas razões, o que é útil. Este aceleramento da pulsação acusa a percepção de algo original. Com o passar dos anos, aprendemos que a originalidade é apenas uma coincidência desfasada no tempo, de que daremos conta daí a uns dias. Mas o coração não tem juízo e insiste em responder como o cão de Pavlov. Há uma certa candura no entusiasmo dos ventrículos.
Tenho andado a namorar uma ideia para um conto que teve o aval do meu coração e resistiu ao sono de várias noites, cumprindo por isso os mínimos olímpicos nestas coisas da imaginação. A ideia é a seguinte: uma história passada em Lisboa, num futuro próximo (2054, por exemplo), em que as pessoas julgam que o insólito deixou de ter lugar e que há um ligeiríssimo aumento da probabilidade dos acontecimentos raros se concretizarem. Pareceu-me que este cenário geraria um rico filão para a narrativa e a reflexão. E, num pico de euforia, imaginei-me até a situar no tempo e no espaço esta epifania - "sabe, a ideia ocorreu-me quando visitava um mercado de peixe e...", num daqueles comentários à Saramago, quando interrogado sobre como lhe ocorreu a ideia para um romance. Ter-me convencido da originalidade desta ideia foi a mãe de todos os erros, é claro. Quantas vezes o insólito não foi já explorado pela ficção? O que é parte da obra de Paul Auster senão um exercício sobre o papel da coincidência, da sorte e do azar, obsessão que lhe ficou de um episódio de infância em que um raio fulminou um amigo e o poupou a ele? No fundo eu sabia que a ideia não era assim tão original. Difícil era explicar isto a um coração que ia já a galope...
Por azar - o que alude ao perigo de um acidente cardiovascular -, regra - que é como estes fenómenos se explicam -, ou sorte - o que exprime um desejo -, a tal coincidência desfasada reconcilou-se este fim-de-semana com o tempo, quando lia o Historias de Cronopios y Famas, de Cortázar. Um dos relatos é precedido da seguinte nota: Pequeña historia tendiente a ilustrar lo precario de la estabilidad dentro de la cual creemos existir, o sea que las leyes podrían ceder terreno a las excepciones, azares o imposibilidades, y ahí te quiero ver. O palerma do coração começou a acelerar de novo, e ficou num ritmo tão sincopado com o anterior que, na verdade, tinha parado, só que desfasado no tempo (assim se explica o mundo, já se viu). Lentamente, a excitação pela negativa foi-se atenuando, comecei a gozar a coincidência e, terminada a leitura do relato, percebi que afinal há uma diferença fundamental. Entre as duas manipulações da realidade - concretizando o insólito (à Cortázar) e alterando a percepção que dele temos - há um espaço para o onde o meu coração se mudou. E ainda bate.
(No enlace que se segue deixei o relato de Cortázar que é antecedido pela nota supracitada.)
.... confusión horrible. Todo marchaba perfectamente y nunca hubo
dificultades con los reglamentos. Ahora de pronto se decide reunir al
Comité Ejecutivo en sesión extraordinaria, y empiezan las dificultades, ya
va a ver usted qué clase de líos inesperados. Desconcierto absoluto en las
filas. Incertidumbre en cuanto al futuro. Pasa que el Comité se reúne y
procede a elegir a los nuevos miembros del cuerpo, en reemplazo de los seis
titulares fallecidos en trágicas circunstancias al precipitarse al agua el
helicóptero en el cual sobrevolaban el paisaje, pereciendo todos ellos en
el hospital de la región por haberse equivocado la enfermera y aplicádoles
inyecciones de sulfamida en dosis inaceptables por el organismo humano.
Reunido el Comité, compuesto del único titular sobreviviente (retenido en
su domicilio el dia de la catástrofe por causa de resfrío) y de seis
miembros suplentes, procédese a votar los candidatos propuestos por los
diferentes estados asociados de Ia OCLUSIOM. Se elige por unanimidad al
señor Félix Voll (Aplausos) . Se elige por unanimidad al señor Félix Romero
(Aplausos) . Se practica una nueva votación, y resulta elegido por
unanimidad el señor Félix Lupescu (Desconcierto). El Presidente interino
toma la palabra y hace una observación jocosa sobre la coincidencia de los
nombres de pila. Pide la palabra el delegado de Grecia, y declara que
aunque le parece ligeramente estrambótico, tiene encargo de su gobierno de
proponer como candidato al señor Félix Paparemólogos. Se vota, y resulta
elegido por mayoría.
Se pasa a la votación siguiente, y triunfa el candidato por Pakistán, señor
Félix Abib. A esta altura hay gran confusión en el Comité, el cual se
apresura a celebrar la votación final, resultando elegido el candidato por
la Argentina, señor Félix Camusso. Entre Ios aplausos acentuadamente
incómodos de los presentes, el titular decano del Comité da la bienvenida a
los seis nuevos miembros, a quienes califica cordialmente de tocayos
(Estupefacción). Se lee la composición del Comité, el cual queda integrado
en la siguiente forma: Presidente y miembro más antiguo sobreviviente del
siniestro, Sr. FéIix Smith. Miembros, Sres. Félix Voll, Félix Romero, Felix
Lupescu, Félix Paparemólogos, Félix Abib y Félix Camusso.
Ahora bien, las consecuencias de esta elección son cada vez más
comprometedoras para la OCLUSION. Los diarios de la tarde reproducen con
comentarios jocosos e impertinentes la composición del Comité Ejecutivo. El
Ministro del Interior habló esta mañana por teléfono con el Director
General. Este, a falta de mejor cosa, ha hecho preparar una nota
informativa que contiene el curriculum vitae de los nuevos miembros del
Comité, todos ellos eminentes personalidades en el campo de las ciencias
económicas.
El Comité debe celebrar su primera sesión el próximo jueves, pero se
murmura que los Sres. Félix Camusso, Félix Voll y Félix Lupescu elevarán su
renuncia en las últimas horas de esta tarde. El Sr. Camusso ha solicitado
instrucciones sobre la redacción de su renuncia; en efecto, no tiene ningún
motivo valedero para retirarse del Comité y sólo lo guía, al igual que los
Sres. Voll y Lupescu, el deseo de que el Comité se integre con personas que
no respondan al nombre de Félix. Probablemente las renuncias aducirán
razones de salud, y serán aceptadas por el Director General.
De Julio Cortázar, Historias de Cronopios y de Famas -"Material plástico"
Ediciones Minotauro Quinta Edic. (1969) Bs. As.
Um homem foi encontrado às gargalhadas num banco de jardim com uma pequena peça na mão, que era circular, cartonada e azul. Se alguém tivesse reparado e perdido algum tempo a acompanhar este homem a sua casa, teria descoberto uma imagem gigantesca de uma paisagem com um céu imenso e limpo de nuvens a cobrir todo o chão de uma sala espaçosa. Olhando com mais atenção, repararia depois que a imagem era um gigantesco puzzle, praticamente completo, à excepção de um espaço minúsculo de forma triangular e rodeado de céu por todos os lados.
Um homem foi encontrado a chorar num banco de jardim com uma pequena peça na mão, que era circular, cartonada e azul. Se alguém tivesse reparado e perdido algum tempo a acompanhar este homem a sua casa, teria descoberto uma imagem gigantesca de uma paisagem com um céu imenso e limpo de nuvens a cobrir todo o chão de uma sala espaçosa. Olhando com mais atenção, repararia depois que a imagem era um gigantesco puzzle, praticamente completo, à excepção de um espaço minúsculo de forma triangular e rodeado de céu por todos os lados.
Um rapaz tem um grande desgosto de amor e fica desgraçado. Passam-se anos e o rapaz acumula casos atrás de casos à custa da aura de romântico sofredor. Todas as mulheres querem salvá-lo do seu grande desgosto de amor. Todas falham. É o tempo que acaba por curar o rapaz, aliás, já homem feito e vivido. Tão vivido que percebera estar dependente do grande desgosto de amor para as suas conquistas. O grande desgosto de amor passa a embuste. Muitos anos depois, as modas mudam e o romântico sofredor torna-se uma espécie em vias de extinção, um tipo social muito pouco apetecível numa era em que impera a ditadura da alegria. O homem, entretanto algo enfadado das relações amorosas, volta a ver no seu desgosto de amor a solução ideal. Morre sozinho e em paz. No funeral louvam-lhe a fidelidade ao seu primeiro grande amor.
Um treino inovador para evitar os abismos da alma consiste em começar a cavar um buraco. Enquanto cava, imagine que está a cair. À vigésima pazada a sua inteligência deve perceber a metáfora, o seu bom-senso terá notado o absurdo da situação ou o seu humor fará com que se erga do buraco à força de braços. Em caso de dificuldade, o monitor pode estender-lhe a mão. Negamos qualquer responsabilidade por desmoronamentos cuja causa venha a ser atribuída à estupidez, insensatez ou tacanha seriedade do cliente.
Até tínhamos começado bem: tentar explicar a virtude, saber se as religiões são causa ou consequência, explicar a urgência de se estar em paz com a consciência. Ateus, agnósticos, crentes, os diferentes ângulos de uma discussão equilibrada. Até que me lembrei dos gansos verdes, em variante cromática de um argumento estafado, tantas vezes enunciado: a incerteza do resultado negativo, o "but can you say it did not happen?", a impossibilidade formal de equiparar, em veemência, a negação da existência de gansos verdes à afirmação de que existem gansos brancos. Tudo para ilustrar a importância que dou à possibilidade de haver um Deus. A existir, Deus não será tão irrelevante como um ganso verde. Porém, com base no que sabemos, discutir a existência de Deus equivale a discutir a existência de gansos verdes. Ninguém apanhou a subtileza do argumento. Mal se ouviu falar de um bicho absurdo, começámos logo a discutir sociobiologia, comportamentos altruístas e genética de formigas. Cada um tem a tara que merece. Quando suspendemos a discussão eu já tinha proferido heresias de elevado calibre, estilo " a evolução não explica a existência de Deus, mas prevê que tal existência venha a ser postulada". Por essa altura já não havia católicos na sala.
Há muitos anos fui mandado parar pela brigada de trânsito da GNR, soprei para o balão e: "ó amigo, você está com uma percentagem de mulherio no sangue acima do limite legal. O que é que tem a dizer?" O homem mostrou-me o aparelho, o balão ainda insuflado, com elas lá dentro, nadando (estilo bruços), minúsculas e felizes. "Parecem peixinhos de aquário", disse eu. Saiu coima.
Daqui a uns anos haverá patrulhamento ideológico nas estradas, polícias de retórica bem oleada, com mestrado em filosofia: "o senhor fez a aproximação à rotunda absorto nos problemas de sustentação da barca de Gusmão. Desta vez ainda passa."
Este ano o meu problema são os sinais de trânsito em Lisboa. Perco-me sempre, o que até não é mau. Campo de Ourique? Um bairro fanstástico, mas que só visito quando me perco por aí. O problema é outro e resulta de uma interpretação íntima da sinalética rodoviária. Uma placa para os Olivais nunca é apenas uma placa para os Olivais; começo logo a ouvir vozes ("chuta-me essa merda para a frente, foda-se!"). Uma interdição de virar à esquerda é recebida como uma provocação. Há dias em que os semáforos estão sempre verdes. Não me ter espetado ainda é para mim um mistério.
Estava quase morto e mandei chamar os meus amigos. Isto de estar quase morto tem as suas vantagens. Mandar chamar os amigos, por exemplo. Mais: os amigos aparecerem. Se pudesse, voltaria a estar quase morto. Como tinha pouco tempo, fui obrigado a seleccionar os meus amigos e descobri a lucidez dos moribundos. Não hesitei um segundo, soube precisamente quem mandar chamar. Ela também apareceu, digamos que numa posição do meio da tabela. Foi um pouco caprichosa. Queixou-se de que já não fazíamos amor. Tentei em vão explicar-lhe que estava ligado a um ventilador e que fazer amor era impraticável. Ela amuou, fez beicinho e bateu com a porta. Não fiquei particularmente irritado. A minha pulsação manteve-se estável e ainda pude despedir-me dos amigos da segunda metade da tabela. Morri em paz.
O três calhamaços que constituem a mais recente biografia de Graham Greene só podem tratar de duas vidas: a de Greene e a do seu biógrafo, Norman Sherry. A contrapor à fixação por biografias gordas, cheias de detalhes, deambulações e notas de rodapé, é tempo de fazer uma referência à autobiografia de Klaus Rajewsky, alemão metódico e menino-prodígio, que desde os cinco anos, depois de iniciado nas artes da programação, decidiu escrever a sua biografia como um fluxograma, acrescentado dia a dia. É uma autobiografia seca, literalmente esquelética, que se esgota num eixo do tempo e numa sequência gráfica de eventos, rica em nódulos de decisão, com perguntas formuladas em termos que apenas admitem uma de duas respostas: "sim" ou "não". A vida de Klaus apresenta-se, assim, como uma sucessão de decisões de tipo dicotómico, o que pouco surpreende. Sucede que Klaus, em vésperas de completar 50 anos, resolveu partilhar o seu esquema de vida com um departamento de informática e longas horas de ruminação computacional revelaram uma tendência surpreendente e um dado curioso. A tendência é esta: à medida que Klaus foi envelhecendo a frequência de decisões de tipo "sim" foi aumentando. O dado curioso remete-nos para o período em que Klaus foi dos 30 aos 35 anos de idade, que no programa surge muito pouco pontuado por nódulos de decisão; é uma linha longa, esparsamente interrompida por instruções que tendem a formar loops, como que iniciadas por um comando do tipo go to, e que sugerem ter Klaus andado a patinar durante alguns anos. Uma análise mais detalhada revela que a tendência para o aumento das decisões positivas é um artefacto; com o correr dos anos, Klaus terá passado a formular as questões pela negativa. Para os loops dos trinta anos ainda não foi encontrada explicação.
Quando me perguntam se sonho a preto e branco ou em technicolor, respondo sempre com uma outra pergunta que me parece mais relevante: os teus sonhos são episódios de uma série? Os meus sonhos são sempre peças únicas. Nunca se percebe a origem da primeira cena e nunca há efeitos especiais. Ninguém voa, ninguém se transforma e todos têm uma pigmentação normal. Os custos de produção dos meus sonhos são baixos e as obras não fariam grande receita de bilheteira, mas - atenção - não chegam a filme de autor. A estrutura narrativa é linear, sem rodriguinhos à nouvelle vague, sem tarantinadas, sem sequer um mísero flashback. Uma vez tolerada a ausência de justificação para a primeira cena, o que a seguir se passa é básico. Se passei por um trauma, recrio o trauma, sem máscaras. Não há ficção nos meus sonhos. Enfim, para sonho seria de esperar um enredo mais inventivo. Peguemos neste sonho, despido de símbolos e que se ocupa de uma questão típica na adolescência: estou numa festa em casa do Shaq O´Neal, consigo arranjar um caldinho, levo a rapariga à socapa para o quarto do Shaq, reparo que não tenho preservativos e começo a abrir as gavetas da mesa de cabeceira do Shaq, onde descubro uma caixa a tempo, já com a pequena em ponto-rebuçado, só que, de súbito, sou tomado por uma inquietação que não me deixa render o máximo, quanto mais assegurar os mínimos. Este sonho é da altura em que o Shaq estava a começar na NBA. Não voltei a sonhar com jogadores de basquetebol, mas com o passar dos anos afeiçoei-me ao base dos Lakers. Em todo o caso, é uma miséria de sonho.
PS: durante uns tempos não haverá comentários.
Os sites de online dating são um pouco como os supermercados: é grande a variedade de escolha e enganosa a publicidade. Na ausência de uma associação para a defesa do consumidor nesta área- sim, porque tudo não passa de uma transacção comercial, só que em regime de troca directa- fartei-me de enfiar barretes. Costumava marcar os encontros ao vivo em bares. A dada altura começou a ser sempre o mesmo bar. Depois comecei a sentar-me sempre no mesmo lugar, a pedir sempre a mesma bebida (a kind of blue) e, de acordo com a estação, a usar sempre a mesma roupa. Só as mulheres iam rodando. A isto chama-se uma experiência controlada. E esse é o grande problema do online dating. Tudo está demasiado controlado, demasiado orientado para um objectivo e, inevitavelmente, ficamos reféns desse pecado original. Ao longo de meses, lá ia eu, todas as semanas, com o meu discurso ensaiado, como um actor farto de representar a mesma peça noite após noite. Bill Murray em Groundhog Day? Às Sextas eu era o Bill Murray, só que um pouco menos engraçado. Comecei a prever tudo. Sabia exactamente quando a rapariga iria passar a mão pelo cabelo, quando arriscaria demorar o olhar dela nos meus olhos e quando decidiria ir à casa de banho, coisa que geralmente acontece entre a primeira e a segunda hora. Os encontros eram sempre longos. Cinco horas num bar, a falar, a falar, por interesse ou por piedade. Só o discurso não mudava. Como é que eu conseguia estar a falar cinco horas seguidas? Não aguentei mais de um ano naquilo. Ao fim de uns tempos, a rapariga que servia a minha mesa começou a perceber o meu esquema. Tornámo-nos cúmplices. Ela aproximava-se, enquanto a outra estava a retocar a pintura ou a falar para o espelho da casa de banho, e metia-se comigo. Começou a dar-me conselhos ou simples recados: "A da semana passada era mais gira", "a de hoje tem um pescoço demasiado comprido", "esta também aparece por cá às Quintas e escolhe sempre a mesma mesa, só que outra"... Um dia uma das raparigas não veio. Fui ficando. Bebi quatro a Kind of Blue. Quando o bar estava quase a fechar, a empregada veio ter comigo, já sem traje. "Uma última bebida? What can I get us?" É actriz, claro. Ainda estamos juntos. Entretanto arranjou um papel numa sitcom e deixou de ser empregada de mesa. Às vezes ainda voltamos ao nosso bar, mas costuma ser às Terças. Ah, agora bebo caipirinhas.
Certo dia, um homem de 50 anos alugou um canhão de confettis, "perfeito para espaços de pequena e média dimensão, tais como, teatros, bares, discotecas e auditórios". O canhão funcionava a dióxido de carbono e disparava até 30 metros de distância. O homem carregou o canhão, atou um cordel ao gatilho e colocou-se a um metro da boca do canhão. O disparo desequilibrou-o, sem o derrubar, e deixou-o com uma ligeira luxação muscular nos peitorais. Ainda nesse dia, o canhão seria a grande atracção na festa de Carnaval para as crianças do prédio. O homem passou a tarde a disparar confettis e impôs um perímetro de segurança de 2 metros de distância da boca do canhão. Consta que nunca mais lhe ocorreu recorrer a armas de ar comprimido ou outras.
Saímos juntos para a rua de braços mais que dados; para lá de abraçados, os nossos braços tocam-se em toda a sua extensão, adivinham-se nos movimentos, imitam-se em sincronia. Não me falhas, não te queixas. Podias falar um pouco mais, trocar de hemisfério no Verão. Essa tua fidelidade canina incomoda-me, sabes? Mas que digo eu agora? Protegeste-me tanto ontem. Dentro de ti, como uma marioneta sem fios, fico logo mais homem. Quando saímos juntos para a rua e reatamos o namoro, sei que o tempo passa, mas parece que desacelera. Sabe bem. Do frio já conversáramos, lembras-te? Então, nada de embaraços agora, meu fiel e quente sobretudo.
A importância que se dá à invenção da roda sempre me pareceu exagerada. A contrapor, à invenção da mesa redonda ainda não foi feita justiça. Não espanta pois que no hotel se tivesse optado por um design rico em ângulos obtusos. Numa das mesinhas triangulares sentou-se o primeiro cliente da manhã. O fulano vinha com uma indumentária estival mas trazia a tiracolo uma sacola de material sintético, que parecia rebentar pelas costuras com a papelada. Tinha um perfil semita, óculos de aros finos, uma magreza atlética e alguma tensão acumulada nas extremidades do corpo. Pediu um café. Aos poucos o local foi-se enchendo com gente de perfis variados, óculos e compleição física diversos, mas todos, sem excepção, traziam a tiracolo a mesma sacola de material sintético, nuns mais vazia, noutros já rebentada. Entre eles, tratavam-se cordialmente. Alguns conheciam-se e houve inclusive algumas trocas de posição entre mesas. A forma das mesas terá talvez criado um problema de geometria que reprimiu em alguns a tentação de as juntar mas a explicação, na verdade, é mais prosaica: o pé das mesas estava aparafusado ao chão. No máximo, formavam-se grupos de três. O primeiro cliente (chamemos-lhe A, para efeitos que em breve se tornarão evidentes), encontrara um colega (B) e tinham começado a conversar à mesma mesa. Era uma conversa desequilibrada, em que A falava e B sobretudo ouvia, pontuando aqui e ali o discurso do outro com interjeições e grunhidos mansos. Em breve deixou de haver assunto e os silêncios longos começaram a tomar conta da mesa; a colherzinha a bater na xícara teve então os seus 5 minutos de fama. Mas quando tudo parecia pedir o remate de uma despedida atabalhoada, surge C, que vendo A de frente e B de costas se aproxima cheio de entusiasmo. O entusiasmo desaparece no instante em que, aberto o ângulo, repara em B. Como era demasiado tarde para voltar atrás,C põe uma cadeira a jeito e senta-se à mesa com os outros dois. Cumpridas as palavras de circunstância, a conversa começou a desenvolver-se com um ritmo e uma dinâmica peculiares. A, B e C conhecem-se, mas A prefere falar com e ouvir B, enquanto B prefere falar com C, o qual -percebeu-se desde o primeiro instante- não está minimamente interessado em ouvir B e só se dirige a A, que parece só não o desprezar por ser uma pessoa educada. O discurso fluia num só sentido e sem atalhos, de A para B, depois para C, chegando de novo a A. Como nenhum dos que ouvem estava interessado em ouvir, cada interlocutor parecia funcionar como uma caixa negra em que o que entra tem pouco a ver com o que sai. Do pouco que ia apanhando, a conversa mudava constantemente, mantendo-se apenas o tom, cordato. Os três homens aguentam a rotina durante cerca de meia hora, até que, de repente, todos se sentiram incomodados a tal ponto que só lhes apeteceu abandonar a mesa. Foi o que fizeram, prontamente, como se à boleia de um daqueles círculos de progressão excêntrica que perturbam os planos de água. Na vastidão do café, o ângulo de 120 graus das trajectórias de cada um, enquanto se afastavam, fora a efémera prova matematica da repulsa que todos sentiram. De onde estava, pareceu-me óbvio que houve naquela mesa um momento de omnisciência síncrone que muito os abalou. Arrisco-me a dizer que A percebeu que B, o seu psiquiatra, fazia terapia com C, paciente de A, e que os outros dois tiveram a mesma percepção, no mesmo exacto momento. Do que falavam eles, seria matéria para tratar com enormes reservas. Por sorte não os ouvia muito bem da mesa onde estava, ou então teria agora que me debater com um problema bicudo de -arrisco-me a dizê-lo- sigilo profissional. Uma coisa é certa: aqueles três homens, vestidos com camisas de padrões exóticos e cores berrantes, com sandálias e folgadas bermudas de cáqui , não iriam gozar o resto da manhã livre do congresso internacional de psiquiatria.
Se não houvesse mentiras, uma cidade sem subterrâneos seria uma cidade sem segredos. Esta cidade, como tantas outras, está cheia de mentiras, de segredos e de subterrâneos. Para os mais ingénuos, as reportagens sobre um povo subterrâneo a viver em buracos e com acesso às linhas de metro foram, há já alguns anos, revelações espantosas. Para uns poucos, tudo não passou de uma manobra de diversão. É sabido que a melhor forma de afrouxar uma suspeita consiste em fornecer aquilo de que todos estão à espera, após se ter baralhado os dados.
Já quase ninguém se lembra de como começou o rumor das passagens secretas. Nos anos trinta do século passado o chamado caso Manhattan Underground andou pelo éter e pelas rotativas, mas a notícia foi prontamente desmentida. A imprensa da época e alguns velhos guardam os detalhes dessa história. Mas às hemerotecas já poucos vão e aos velhos também ninguém vai. Tive a sorte de me cruzar com um deles. O que ele me contou merecia um enquadramento de antiquário, entre objectos raros. Na verdade, tudo começou num supermercado, diante da secção de detergentes de máquina. Calhou jogarmos a mão à mesma embalagem. Ora, esta coincidência, perante a diversidade e abundância da oferta, só pode ser interpretada como um sinal. (continua)
Foi há muitos anos. Na altura ninguém podia ter desconfiado, mas durante uma semana ele só tivera uma pergunta na cabeça: qual o intervalo de tempo que inclui uma geração? O que veio depois é do domínio público e teve honras de manchete. Após o sinistro congresso de literatura que reuniu toda a gente, da geração dele só sobraram dois: ele próprio-um abstémio- e um outro escritor, claramente menor. Nunca se veio a saber quem tinha envenenado o Porca de Murça, o único vinho que por limitações de orçamento fora servido no jantar de encerramento. Com tão fraco álibi- "por quem nos toma?", terá perguntado o inspector da PJ- mas sem provas, nunca se viria a livrar da suspeita de que tinha sido ele o autor daquela monstruosidade. Com o tempo, o povo esqueceu; foi até uma questão de dias até que alguém dissesse: "eles, que são intelectuais, que se entendam..." O hiato geracional atraiu inúmeros estudiosos. Fez-se um filme em que ele aparece como um sujeito complexo, a viver uma tortura por estiramento moral. Os editores safaram-se com re-edições e edições póstumas de inéditos. O hiato geracional acabou mesmo por aumentar, pois para tanto inédito foi preciso recrutar principiantes talentosos com o pagamento da renda de casa em atraso. O nosso homem- a omnisciência não livra o narrador do in dubio pro reo- foi tentado a iniciar-se como escritor de policiais, coisa que interpretou como uma ofensa, ao que o editor terá respondido, entre dentes: "ias ficar rico a escrever n vezes a tua autobiografia, estafermo..." Escreveria depois um romance honesto, mas "Honestos são os vinhos" foi o título da única crítica literária que lhe fizeram. O romance vendeu mal e ninguém lhe quis dar um pseudónimo literário. A literatura do país demoraria vinte anos a recuperar, mas chegou-se lá. Notória foi a crescente e contínua explosão de talento que o outro escritor menor -o segundo sobrevivente do massacre do Porca de Murça (como o episódio ficou conhecido)- revelou nos anos seguintes. O fenómeno não chegaria a ser bem explicado. Este escritor sempre recusou entrevistas e só lia discursos, nunca improvisando. Alguns comentavam mesmo que ele não se recordava de alguns dos seus livros e personagens. O certo é que as as elites deixaram de conspirar e o governo abafou a discussão quando, perante a hipótese do Nobel, o assunto se tornou um imperativo nacional. Ao escritor menor viria mesmo a ser atribuído o galardão, que não chegaria a receber, pois faleceu na véspera da cerimónia de entrega, após um jantar de homenagem na embaixada de Portugal, em Estocolmo. O vinho servido nessa noite, apresso-me a revelar, não foi um Porca de Murça. Mas seria desonesto não mencionar a tese de um galego, em que se defende que a obra do mártir do Nobel tem sinais estilísticos que podem ser reconhecidos nos primeiros livros do outro sobrevivente do sinistro congresso, um escritor promissor, ambicioso, entretanto desaparecido de circulação, mas de quem alguns velhos ainda se lembram ter ouvido dizer: "um dia, serei o melhor escritor da minha geração"...
História verídica: amigo apaixonado, abandonado e obcecado (por esta ordem) fica apenas com uma fotografia da mulher com quem teve uma aventura. A obsessão levou-o a cometer algumas loucuras e explica um vasto leque de efeitos, que vão da perda de apetite a dois pulsos mal cortados. Aconselhado por toda a gente a "esquecer a gaja" mas sentindo-se incapaz de o fazer ("rasga essa merda [a fotografia]"), ele põe em marcha um plano original. Começa por pedir a um desenhador de rua chinês que faça um desenho a carvão a partir da fotografia. Satisfeito com o resultado, dá uma gorjeta generosa ao chinês, compara a cópia com o original e lança a fotografia para a sarjeta. No dia seguinte, com o desenho do chinês debaixo do braço, aproxima-se de um desenhador de rua japonês e pede-lhe que faça um desenho a carvão a partir do desenho a carvão do chinês. O japonês estranha, mas acata. A obra nasce. O meu amigo repete a comparação, mantém a gorjeta e mete o desenho do chinês num caixote do lixo. No terceiro dia, o desenho do japonês é copiado por um colombiano; que é copiado ao quarto dia por um vietnamita. A partir do sétimo dia, pressentindo que este ritual pode vir a resultar, o meu amigo deixa de comparar a cópia com o original. Consegue depois deixar de olhar para a cópia, que continua a levar, todos os dias, a um desenhador diferente de Manhattan. Passa-se um mês e começa a ser difícil encontrar desenhadores novos. O meu amigo resolve então parar. Convencido de que a purga gradual de uma imagem só funcionaria com efeitos duradouros se houver um confronto final, opta por enfrentar o rosto que conseguira esquecer mas que leva ainda, todos os dias, debaixo do braço. Está confiante, por saber que nos processos reiterados como o que executou a acumulação de erros faz com que, ao fim de muitos ciclos, a cópia se torne irreconhecível quando comparada com o primeiro original. É pois com confiança que afrouxa a cinta que prende o desenho, enrolado em canudo. E é depois com desespero que se depara com o rosto de Britney Spears, o mesmo rosto que em posters e outdoors domina a Times Square e tantos outros pontos turísticos da cidade. Ando agora a tentar consolá-lo ("Mas tu nunca gostaste muito da MTV, certo?"), sabendo que este meu amigo dará em eremita se até lá não tiver dado em doido.
Está ainda por escrever a história do homem que, ao acordar e até entrar na casa de banho, era um louco em potência. Em frente do espelho iniciava a metamorfose que faria dele um funcionário público afável, em tons de azul. E depois lá ia, ordeiro pelos passeios e a contornar as esquinas em ângulos rectos, saltando os dias e já esquecido das reentrâncias das paredes de tijolo desta cidade, as mesmas que durante os delírios matutinos o punham a fazer de homem-aranha, pleno de humor e com a segurança de quem sabe que tem a dimensão vertical das cidades na palma da mão.