dezembro 07, 2004

Explicação da insónia (19 de 47)

Durmo aos bocados. É de manhã a todas as horas do dia. Tenho a pineal à nora, apetece-me comer cereais ao meio-dia e experimento a insónia de quem quer dormir uma sesta e não consegue. Ninguém respeita uma insónia destas, ninguém a cantou. Quem disse que a insónia é para ser vivida de noite? É nestas alturas que me apetece encontrar um guarda nocturno, daqueles que pareciam de brincar, vestidos de cinzento, barrigudos e com um metro e meio. Ou então um taxista que pegue às 7 da tarde e termine o serviço às 5 da manhã. O problema é o futebol. Já não sei falar de futebol (nunca soube, na verdade).

setembro 11, 2004

Explicação da insónia (18 de 47)

"No fundo és de direita", diz-me um amigo. "No fundo ainda gostas dela", disseram-me em tempos. "No fundo sou um palerma", vou dizendo às vezes. "No fundo, ele é bom tipo", dizemos de um canalha. Que fundo é esse? O âmago do ser? Uma praia remota onde vão dar os destroços dos sucessivos naufrágios? Tal fundo não me interessa. Venho do fundo para a superfície e quero aqui ficar, num megulho em apneia invertido. De noite é mais fácil. Qualquer luz azulada de apartamento com a televisão ligada deixa-me colado à janela. Mas é sabido que as lulas também se pescam de noite, com lâmpadas fortes.

Explicação da insónia (17 de 47) reciclado

Da janela do meu quarto fujo muitas vezes de casa. Acontece de noite, muito depois do fecho da emissão televisiva. Ato as pontas dos lençóis com nós cegos, confiando no tacto e na luz que vem da rua, que traz para o quarto uma atmosfera de sépia soturna. O reflexo do meu rosto no vidro da janela entreaberta apaga-se à passagem dos carros dos noctívagos mas volta sempre a reaparecer, com uma dureza de ângulos artificial. Ao espelho tenho cara de bom rapaz mas a imagem no vidro da janela é a de um marginal. O meu plano é simples: amarrar a corda de lençóis a um dos pés da cama, pela corda descer até à rua e da rua chegar ao mundo. É um exercício que pratico depois de lavar os dentes. De dia só me lembro da criança que se projectava para fora da janela, confiando nos lençóis. Depois começam as dúvidas. Nunca me lembro se a criança alguma vez chegou ao chão. E de que fugia ela, se era feliz ali? É pouco provável que tivesse tido coragem de descer de um terceiro andar por uma corda de lençóis, a altas horas da noite. Mas lembro-me dela a dar aqueles nós gordos, do barulho que o lençol fazia a roçar na trave de madeira da janela. Lembro-me de sentir o relevo da tinta areada da fachada do prédio nas palmas dos meus pés nus e lembro-me de me sentir vulnerável, vestido de pijama num bairro suburbano, confiando a vida a uma corda de lençóis, imóvel entre dois andares, a uns metros de um chão de cantos mijados por onde passavam ratazanas. Aqui as paredes são de tijolo exposto, não há cães nem bêbados, nem ratos; apenas as lesmas cruzam o passeio. Se foi sonho a lembrança só chegou muitos anos depois. Se foi memória plantada, quem a plantou? De manhã, ao compor os lençóis da cama, penso se alguma vez voltei a desatar aqueles nós, mas nunca são os nós da última madrugada.

setembro 02, 2004

Explicação da insónia (16 de 47)

De dia em dia até à desilusão final, há semanas assim. Busca-se energia, faz-se o necessário, mas na hora que se segue ao fim despacha-se o antecipado gozo do prémio de consolação e só então se fica livre outra vez. É preciso alguma experiência para chegar aqui, para gerir os humores e espaçar estas provas com o discernimento com que um maratonista olha para o calendário. A batota permitida acontece de noite. Um pouco de sonho acordado, só um pouco, uma pitada de especiaria, umas moléculas de perfume, um fotão da luz do túnel, como se a luz dobrasse as esquinas. Eis o nosso dirty little secret. Enfim, falo por mim.

agosto 28, 2004

Explicação da insónia (15 de 47)

Aprende-se a olhar no escuro. A luz é para ser gozada da penumbra para fora. Comecemos pelo reverso de uma pálpebra de súbito fechada. Há ali mil imagens que nos fogem: cornucópias efémeras de um psicadelismo discreto e círculos excêntricos que lembram fogos-de-artifício. De onde surgem estas visões? Provarei um dia que são as sombras em negativo das imagens da memória. Que são sinais de rebelião. Dentro da cabeça comandamos as imagens como marionetas, menos o espectro delas, que brinca no reverso das pálpebras e parece querer rasgá-las.

julho 01, 2004

Explicação da insónia (14 de 47)

Uma jarra com girassóis, as flores desorientadas e suas sombras na parede, vivendo da luz amarelada dos candeeiros públicos, imóveis, protegidas dos faróis dos boémios e madrugadores por prédios altos. Uma lesma que atravessa o passeio deserto e demora três minutos e doze segundos a percorrer 2 metros. Ele gosta da lentidão da noite, das possibilidades infinitas da noite. Entre as três e as quatro da manhã os relógios são mais lentos. É quase uma evidência, mas complicada de testar (...pega em dois aviões supersónicos e deixa-os a voar à mesma velocidade de Este para Oeste -nem precisa de ser a velocidade da luz, bastando que se iguale a velocidade com que a luz vai iluminando a superfície da terra-, de forma a que um esteja sempre entre as quatro e as cinco da manhã e o outro, por exemplo, entre as 2 e as 3 da tarde. Terminado o voo, se o relógio que voou entre as 4 e as cinco... ). O nascer do sol, bem como o poente, são períodos de aceleração e desaceleração do tempo, respectivamente. É por isso que ele só usa "crepúsculo", uma palavra lenta, para o poente. É por isso também que é sempre dominado por algum nervosismo quando espreita o nascer do sol, pois há um momento em que o astro, já amarelo e agressivo, espalha a azáfama. Os girassóis na jarra, quase mortos, condenados e desorientados são, na verdade, livres e felizes de noite.

junho 29, 2004

Explicação da insónia (13 de 47)

É verdade que não estando ninguém ali se torna mais fácil não ter medo de cometer infracções ou revelar fraquezas. Os objectos da sala, imóveis e desmemoriados, são testemunhas ideais das representações dos sonhos que vai fazendo, como se o sonho tivesse necessidade de sair para fora, não na forma de palavras, mas através da mímica e da construção das personagens. Costuma correr os cortinados, numa rotina adequada, ou não fosse o espectáculo que se segue um encadeamento de inversões que não se anulam mas constroem um mundo às avessas. Ele actor, representando-se; os sofás vazios e uma plateia dentro da cabeça; um ensaio cada vez mais afinado, que se eterniza como ensaio geral. Se houvesse pancadinhas acordaria o vizinho de cima. Mas já lhe chega trocar o riso pelo choro. Se o objectos da sala falassem muito teriam para contar. Mas nem todos estão dispostos a fazer o sacrifício daquela jarra chinesa que na manhã seguinte estava feita em cacos espalhados pelo parquet.

junho 28, 2004

Explicação da Insónia (12 de 47)

Uma forma de resistir ao ataque à solidão, também. Uma resistência aparentemente cobarde, é certo, mas a tal vitória por falta de comparência do adversário parte de um pressuposto belicista que nem a todos se aplica. Um tipo que se mete debaixo do chuveiro, às escuras e a altas horas da noite, só quer que o deixem em paz. Foge das excursões turísticas, dos assentos nos transportes públicos que recriam o ambiente de sala de estar, dos telefones por todo o lado e da ladainha contra a internet e outros vícios solitários. Não desabafa, mas pressente-se que se queixa da falta de lugares ao balcão nos restaurantes bons, que se aborrece com os fóruns de discussão, com as discussões e com os diálogos. Gosta de monólogos e de entrevistas bem feitas, que no fundo são monólogos telecomandados. Acredita que o melhor dos homens se manifesta em solidão, de forma pouco espectacular mas consequente. Acredita que a construção da humanidade tem sido uma generalização contínua de labores solitários. Tudo isto lhe parece evidente e não lhe inspira grandes angústias. Apenas a constatação de que tem instantes de pura felicidade quando está sozinho, e simplesmente por estar sozinho, o deixa perplexo, porque não se enquadra com a definição de misantropo. De madrugada a solidão por defeito é, afinal, uma qualidade.

junho 24, 2004

Explicação da insónia (11 de 47)

As crianças querem ser adultos, alguns adultos gostariam de voltar à infância e ninguém quer ser velho. A frase resume bem o trânsito de desejos e invejas entre as gerações, mas há sempre lugar a excepções. Ele, por exemplo, gostaria de ter todas as idades ao mesmo tempo. Em todas reconhece virtudes e não hesita em destruir alguns lugares-comuns. "Ai o sorriso das crianças, o sorriso das crianças... Quem espalhou a ideia do absolutismo do sorriso das crianças deve ter tido avós muito carrancudos. Um velho a sorrir é uma conquista da humanidade". Mas se reconhecer qualidades em todas as idades é uma virtude, não conseguir optar por uma tornou-se um problema. As crianças que brincam no parque puxam-no pela mão para um lado, um casal de velhos em cumplicidades de elevador toma-lhe a outra mão, um tipo que se mete num veleiro aos cinquenta anos enlaça-lhe o tornozelo com um lás-de-guia e o jovem pai à saída da maternidade e tonto de alegria abraça-o com violência pela cintura e arrasta-o como se o quisesse placar. Tudo isto ocorre com os estímulos de um mesmo dia. Estar acordado de madrugada não obedece tanto a uma pulsão do espírito como a uma necessidade física, de relaxar os tendões e reaproximar as vértebras. Parece que de manhã as pessoas são mais altas que ao princípio da noite. Com ele acontece o contrário, mas é de uma tortura que falamos, de uma tortura por estiramento. Os cavalos são os outros.

junho 12, 2004

Explicação da insónia (10 de 47)

São muitos os anos e pouca a experimentação. Ninguém gosta de se tomar por cobaia. Prefere-se a intuição e insiste-se nas certezas, na rotina, no conformismo. Quando tudo falha, prolonga-se o mistério. Estranhamente, a altas horas da noite ele sente-se tocado por uma omnisciência que lhe dá uma ilusão de coragem. Tudo fica ainda por explicar, mas não há zonas interditas. "O insondável desaparece com a generalização da sombra" é uma tirada que tipifica a sua produção das madrugadas. Veja-se outra: "é preciso desmontar a eternidade do amor sem recorrer a caprichos pirómanos". Há ali uma certa dose de loucura e desprendimento que liga mal com o dia e os horários. "Aprendi depressa que não devia tirar apontamentos. Nada resistia após uma noite bem dormida. De dia acho ridículas as minhas noites e vice-versa. Percebes a armadilha em que me meti?"

junho 11, 2004

Explicação da insónia (9 de 47)

A técnica também conta. Cedo se livrou do inocente contar de carneiros. Fascinado pelo raciocínio, viciou-se em esperar o sono praticando a série de Fibonaci. 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34... Meses depois, apercebendo-se de que até ao número 75025 a sua memória já levava de vencida o cálculo, mudou para os números primos. Estas práticas, reveladoras de uma íntima arrogância intelectual, eram francamente estúpidas. Ainda criança, não percebera que o exercício de contar carneiros deve ser aborrecido, para que cumpra a sua função. A atracção por um virtuosismo contemplativo afastá-lo-ia depois ainda mais do sono. Adolescente, fascinado com a descoberta do sexo, fazia listas das coisas em que reconhecia algum potencial erótico e, sem o saber, inventariava o mundo. Anos depois, mais calmo e exigente, passava em revista todas as mulheres bonitas que conhecia ou gostaria de conhecer. A lista encurtou-se. Porém, ainda com os vicíos de sempre, começou a arranjar forma de entrar pelas madrugadas construindo mulheres quiméricas. Versado que era no cálculo combinatório, o sono voltou a tender para o infinito. Há uns dias perguntei-lhe no que pensa agora, mas ele apenas sorriu.

junho 10, 2004

Explicação da insónia (8 de 47)

Justificar pela negativa é uma forma menor e pouco respeituosa de ordenar o mundo, mas devo assinalar o seu lapalissiano "durmo, para poder estar acordado". Sempre o sono, um deserto de tempo que para alguém impaciente e desmemoriado de sonhos só vale nos instantes raianos. "Ceder ao cansaço, experimentar a preguiça, e que mais, diz-me?"

junho 09, 2004

Explicação da insónia (7 de 47)

Como interrupção de vida sempre lhe pareceu uma aproximação grosseira. Não se rouba tempo à existência, nem se pode suspendê-la. "Onde está o botão do pause?", costuma peguntar-me, percorrendo as mãos pelo corpo. A sua teatralidade levou-o um dia a pegar num pequeno leitor de cassetes e a atirá-lo com violência ao chão. Hoje já não usa adereços, mas ainda ensaia o mesmo monólogo quando falamos destas coisas. "Só um idiota pensa no botão do pause. Como sabes, uma pessoa avisada procuraria o do rewind". A sua insónia não é a pausa possível, é um regresso rotineiro a um outro registo. "Pela noite dentro, vejo a cobra de luzes na via rápida e aquilo nunca pára. Mas com o tempo percebi que o que me sobressalta de dia acalma-me de noite".

junho 06, 2004

Explicação da insónia (6 de 47)

De manhã, ao acordar, é um psicopata em potência. É só diante do espelho que se inicia a longa metamorfose que fará dele um funcionário público afável e em tons de azul. À medida que o dia avança vai melhorando na disposição, mas também como pessoa. Os instintos e impulsos que o dominam, quase todos condenáveis, são domesticados com o passar das horas. Por volta do meio-dia, já não será difícil encontrar quem o queira ter por amigo. Às cinco da tarde experimentou alguma bondade, a onda boa a subir pela espinha que vem com as ideias promissoras, uma certa paz em quem julga ter percebido o mundo. Mas será de noite que igualará o seu máximo. Como não aceitar que ele queira prolongar o momento, se sabe que na manhã seguinte terá de se refazer? De se refazer de novo. Os dias? Os dias são penedos.

junho 05, 2004

Explicação da insónia (5 de 47)

O rosto que ama dorme. É um rosto branco na escuridão dos lençóis de cor. Vigia-lhe a respiração, beija-lhe a face levemente. Afasta-se depois até à sala, encosta a testa à vidraça e ali fica, como se tivesse montado guarda e o turno fosse eterno. No quarto, respira-se por ele, sonha-se pelos dois. A vidraça não cede. Ele fica.

junho 03, 2004

Explicação da insónia (4 de 47)

E como não? Se gosta de sentir o corpo extenuado e de o provocar com o descanso que vai adiando. Se sabe que foi de madrugada que viu as paisagens mais belas e as pessoas enfim nuas. Se, acreditando na tal regra de que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes, faz notar o seu carácter geográfico, só para pôr a salvo todas as madrugadas futuras.

Explicação da insónia (3 de 47)

Disse-me que é uma aproximação à imortalidade, a que não é real mas também a única que se pode gozar; uma forma de atrasar o tempo, apressou-se a esclarecer. Para tal aconselhou-me treino específico e alguma crença. Antes de mais, é preciso acreditar que só o tempo psicológico importa, o que não custa nada, garantiu-me. Mais difícil é manter a cabeça arrumada e dividida em duas partes, fazendo com que uma controle a outra, que obedece sem saber estar a cumprir ordens. Este exercício já não é para todos, adiantou-me. Creio que o percebi. A parte que dita ordens deve permanecer discreta, tão discreta que logo se esquece. A outra parte pode então gozar em função do que dita a razão, julgando estar a passar por estados de alma. É um esquema complicado e difícil de explicar, que só mesmo de noite se pode ensaiar. A noite convoca o silêncio e a solidão necessários para uma empreitada destas. O foco da luz do candeeiro de mesa, perdido na penumbra e debruçado sobre a sua própria luz, é uma imagem da concentração que se deve atingir. Quando funciona é muito bom, como uma bebedeira sem ressaca. Mas só de noite, só de noite, ou ainda se corre o risco de nos estranharem. Sim, disse-me ele a experimentar um certo nervosismo, às vezes dá para fazer umas caretas estranhas. Enfim, não estou a ser nada claro, mas ele também não ajudou muito. Lá está, falávamos de dia. Talvez voltemos a tentar mais tarde.

junho 02, 2004

Explicação da insónia (2 de 47)

Nunca se lembrando dos sonhos, dormir surgia como uma miraculosa catástrofe aeronáutica, em que o avião se despedaça, todos acordam ilesos e a caixa negra nunca chega a ser encontrada. A catástrofe concretizava-se por falta de opção, mas sempre com resistência.

junho 01, 2004

Explicação da insónia (1 de 47)

Porque quando estava muito excitado não conseguia acalmar-se o necessário para adormecer e quando estava muito frustrado alimentava a ilusão de que o dia ainda não tinha chegado ao fim. Vivendo entre estes dois estados de alma, dormia pouco.