março 23, 2007

Só pelo m/ olhar magnético...

Esta facilidade de uma mulher, de um certo nível cultural (? ou que, na sua cagança, assim o julgue) flartar ou ir para a cama com um tipo afamado, de quem ouviu falar pelo menos repetidas vezes verdades ou mentiras ou leu e admirava, releva de um certo folclorismo. Turismo de almas, irrequieto e frívolo. Vaidade em conhecer e acompanhar o bicho, saber-se que, interesse humano para confronto com o escriba, aprender com ele alguma coisa se também tem pretensões de literata (e quase todas têm; agora, até a Ção quer publicar um livro de poemas, raio!); depois, a fama de libertino que só com a publicação de O libertino de Braga se complicou bastante - e pode, em muitas, despertar repugnância (conto com isso; é idêntica ao desdém que dedico às fressureiras, coitadas!) - atrai. Etc. Terei que me resignar a dar com mais tipas ou casos destes a não ser que mude de zona (para o Minho, o Minho!) e fale com desconhecidas de mim. Que venham a mim só pelo m/ olhar magnético...
Mas ainda há um mas. Com as bas
[caracter ilegível]bleu ou admiradoras babosas (isto acontecerá a todo o tipo de algum renome) o mais eficaz é ir-lhes logo para cima e passar à frente. Não criar complicações sentimentais; elas são coleccionadoras de trabalhos de vedetas? como as mais tolinhas de autógrafos? dê-se-lhes só isso e só isso. Luiz Pacheco, Exercícios de Estilo

março 18, 2007

Limites do Universo Inventado

Seys meses estuuo en la cama Tomas, en los quales se secó y se puso, como suele dezirse, en los huesos, y mostraua tener turbados todos los sentidos. Y aunque le hizieron los remedios possibles, solo le sanaron la enfermedad del cuerpo, pero no de lo del entendimiento, porque quedó sano, y loco de la mas estraña locura que entre las locuras hasta entonces se auia visto. Imaginose el desdichado que era todo hecho de vidrio, y con esta imaginacion, quando alguno se llegaua a el, daua terribles vozes, pidiendo y suplicando con palabras y razones concertadas que no se le acercassen, porque le quebrarian, que real y verdaderamente el no era como los otros hombres, que todo era de vidrio de pies a cabeça.

Para sacarle desta estraña imaginacion, muchos, sin atender a sus vozes y rogatiuas, arremetieron a el y le abraçaron, diziendole que aduirtiesse y mirasse como no se quebraua. Pero lo que se grangeaua en esto era que el pobre se echaua en el suelo dando mil gritos, y luego le tomaua vn desmayo, del qual no boluia en si en quatro horas, y quando boluia, era renouando las plegarias y rogatiuas de que otra vez no le llegassen. Dezia que le hablassen desde lexos y le preguntassen lo que quisiessen, porque a todo les responderia con mas entendimiento, por ser hombre de vidrio y no de carne, que el vidrio, por ser de materia sutil y delicada, obraua por ella el alma con mas promptitud y eficacia que no por la del cuerpo, pesada y terrestre.
(...)
Pidio Tomas le diessen alguna funda donde pusiesse aquel vaso quebradizo de su cuerpo, porque al vestirse algun vestido estrecho, no se quebrasse; y assi le dieron vna ropa parda y vna camisa muy ancha, que el se vistio con mucho tiento y se ciñó con vna cuerda de algodon. No quiso calçarse çapatos en ninguna manera, y el orden que tuuo para que le diessen de comer, sin que a el llegassen, fue poner en la punta de vna vara vna vasera de orinal48, en la qual le ponian alguna cosa de fruta de las que la sazon del tiempo ofrecia. Carne ni pescado, no lo queria; no beuia sino en fuente o en rio, y esto con las manos. Quando andaua por las calles, yua por la mitad dellas, mirando a los tejados, temeroso no le cayesse alguna teja encima y le quebrasse. Los veranos dormia en el campo al cielo abierto, y los inuiernos se metia en algun meson, y en el pajar se enterraua hasta la garganta, diziendo que aquella era la mas propia y mas segura cama que podian tener los hombres de vidrio. Quando tronaua, temblaua como vn azogado y se salia al campo, y no entraua en poblado hasta auer passado la tempestad.

Tuuieronle encerrado sus amigos mucho tiempo; pero viendo que su desgracia passaua adelante, determinaron de condecender con lo que el les pedia, que era le dexassen andar libre, y assi le dexaron, y el salio por la ciudad, causando admiracion y lastima a todos los que le conocian. Cercaronle luego los muchachos; pero el con la vara los detenia, y les rogaua le hablassen apartados, porque no se quebrasse, que, por ser hombre de vidrio, era muy tierno y quebradizo.
Novela del Licenciado Vidriera.

março 17, 2007

Auguste Piccard

Novo opus de Pedro Mexia.. Gosto da capa, num surpreendente registo optimista. Apesar da trajectória do submarino indicar uma eventual descida aos abismos da alma, não passa de um submarinozinho à Tintin. Ora, qualquer pessoa sabe que para se ir realmente ao fundo é preciso um batiscafo.

A propósito, há uma grande encadernação à espera de autor. Permitam-me um apontamento: o batiscafo foi construído pelos Piccard, o pai Auguste e o filho Jacques. Curiosamente, Auguste Piccard tinha antes inventado um balão para explorar a estratosfera. Ou seja, as engenhocas deste homem foram bem lá acima (23 000 m) e bem ao fundo (4 176 m), sendo por isso o par ideal para a capa e contracapa do diário de um ciclotímico. Podemos até pensar em inverter a 180 graus a imagem da contracapa, onde figuraria o balão (as profundezas da alma atraem mais leitores), bem como todas as páginas com a escrita em estratosférico pico de euforia. Folheando num sentido, teríamos o autor na sarjeta, no outro, o autor nas alturas, tudo entremeado num único volume, como dois naipes bem baralhados. Se ninguém pega nisto é uma oportunidade que se perde, mas amanhã posso ter mudado de ideias.

Lido sobre o Atlântico

Lisboa-Newark, 7 horas de voo passadas a dormitar, rememorando e lendo. Acabei por deixar o Saramago e o Peixoto em Lisboa - ficam adiados sine die - e ataquei a correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena. Excluindo os extras, que pouco acrescentariam se não incluíssem um belo texto de Sophia sobre a poesia de Sena, trata-se de um magro volume de 150 páginas que qualquer criatura de inteligência mediana e a salvo da DDAH consegue ler de um só trago. Foi o que fiz e teria terminado o livro sem desapertar o cinto de segurança não fosse o vizinho do lado, já com o Novo Mundo à vista, ter de verter líquidos.

Tendo em conta a envergadura dos autores, o livro desilude. Não nego que se trata de um documento de alguma importância, mas exagera-se na contracapa quando se escreve que o resultado é um "impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70". Impressionante em que medida, pergunto? No desprezo de Sena pelos intelectuais acantonados na pátria e, enfim, pela pátria em geral? Nada é aqui surpreendente ou original. Impressionante por uma mão cheia de tricas literárias? Não é sequer esse o tom do volume - e ainda bem -, pelo decoro dos correspondentes e mérito dos editores. Impressionante pela desilusão pós-Abril de Sophia? Pelas referências à censura e à PIDE? As cartas não são suficientemente ricas nesses detalhes.

Há no livro um problema que me parece óbvio e que explica as suas limitações: os autores nunca intensificaram a correspondência ao ponto de se ganhar momento. É verdade que tais dinâmicas são facilitadas quando o vínculo é passional e o que aqui temos é uma correspondência entre dois bons amigos. Mas talvez pela aversão de Sophia à escrita de cartas, ou pela impressionante actividade literária de Jorge de Sena, em vinte anos a correspondência entre ambos foi relativamente escassa e espaçada. O conjunto ressente-se, assim, de uma certa repetição de fórmulas e de anseios: as desculpas de um e outro quando tardam na resposta, os pedidos de textos que Sophia faz a Sena, a obsessão deste com a sua obra e a forma algo megalómana como a ela se refere; são sempre trabalhos para cima de 300, 600 páginas, bombas que abalarão a intelligentsia lusa, de resto pretensões actualíssimas (recorde-se que Saramago, para não ir mais longe, também reclamou antecipadamente a autoria de um atentado bombista aquando da publicação do seu Ensaio Sobre a Lucidez). O registo é, por isso, algo monótono no tom e na forma, mesmo se fica documentado que só a partir de 1969 Sophia e Sena começam a se tutoyer. Percebe-se ainda um respeito mútuo, um desejo de agradar - mas algo assimétrico, sendo Sophia mais generosa e menos egocêntrica - e um cuidado em não aborrecer que tornam certos comentários sobre a produção do outro demasiado cerimoniosos e sucintos.

O que fica, então? A começar, o estilo de cada um, livre de literatices, pois não se conclui que estas cartas foram escritas pensando numa publicação posterior; o contraste com o Livro do Meio (mas vou a menos de metade) é gritante. Ficam também belas passagens, como as descrições de Sophia da Grécia, uma polémica abortada sobre religião, o contraste das duas personalidades - a intranquilidade e ambição de Sena, a relativa calma e modéstia de Sophia - e as provas de amizade.

Enfim, um livro com substância sorvido num único dia é motivo de alguma satisfação e, a este ritmo, em ano bissexto despacharia 366.

Segue-se uma selecção de excertos:

Creio que não concordo com este conto [Amor?]: nem toda a realidade pode ser dita pois nem toda a realidade pode ser realmente objectivada. O "puro" vivido é irredutível a uma consciencialização directa. Por isso creio que o caminho que você segue no seu conto é errado." (Sophia, 1962, pág 39).

O primeiro prodígio do mundo grego esta na Natureza: no ar, na luz, no som, na água. É uma natureza mitológica onde as montanhas e as ilhas têm um halo azul que não é imaginado, mas sim fenómeno físico objectivo que segundo me disse o Padre [Manuel] Antunes (...) já era um fenómeno notado e discutido na antiguidade. Sob o sol a pique, numa claridade azul indescritível, o ar é tão leve que nos torna alados e o menos som se recorta com uma inteira nitidez. As enormes e constantes montanhas povoam tudo de solenidade. Cheira a resina e a mel e há uma embriagez austera e lúcida. Mas tanto como a natureza - e ligada à natureza - espantou-me a incrível religiosidade de tudo. Depois da Acrópole, São Pedro de Roma pareceu-me mundano e fútil e pesado. E uma religiosidade tão nua, tão funda, tão intensa, tão solena como eu nunca tinha encontrado. É uma atitude de ligação com o real que está presente em todas a coisas. Sophia, 1964, pág. 69

A impressão que cada vez mais tenho é a da que, de certa altura em diante na vida, nós começamos a viver como o Rilke dizia que os anjos se sentiam: sem saber se estamos entre os vivos ou entre os mortos, porque as pessoas desaparecem, transformando-se em memória, e a gente vai ficando numa cada vez mais estranha irrealidade em que a maioria dos vivos não faz parte do nosso mundo que atravessam como espectros secundários, enquanto o espaço vazio se acumula de espectros autênticos que precisamente são os que deixaram de existir. Jorge de Sena, 1968, pág 98.

Creio que o grande mal português será que sempre deixamos os gregos em paz. Por isso somos um país que não se reconhece. Um país que julga que a austeridade apagada e vil tristeza é a condição do homem. Fomos um país de grandes navegadores - mas nunca tivemos em frente do mundo aquele sorriso de espanto que tinham as estátuas dos navegadores jónicos. (...)
Aliás, há um detalhe espantoso da minha experiência das terras gregas: a luz grega torna as coisas belas mais belas, mas deixa a fealdade de lado, como algo que não faz parte do mundo. Por isso, as coisas feias não ficam só feias, mas aparecem como em conflito com aquilo que as rodeia, como fantasmas. Assim, nas cidades, as fábricas e certos "prédios de rendimentos" pareciam velhíssimos, pareciam ser eles as ruínas. Pelo contrário, os templos desmantelados e as colunas quebradas e as Corés de maõs partidas e pintura semi-desbotada pareciam recentes, novas, acabadas de criar. (...)
Tomámos há muitos séculos um caminho errado e não crei oque levar o erro longe seja uma forma de progresso. A questão está na forma como entendemos o Evangelho. Sophia, 1969, págs 105 e 107

Na tarde que anoitece o entardecer nos prende. Jorge de Sena, 1971, pág. 115

Decididamente, a antropologia, no sentido de fascínio pelos povos "primitivos" e apenas de refinada crueldade, não foi e não é "my cup of tea". E como não tenho no passado simbólico, as culpas de os haver assassinadso para civilizá-los ou suprimi-los, que é a dos latino- e dos norte-americanos, sinto-me perfeitamente dispensado da vertigem babada de admirar cocares de penas. Bastou-me na infância o Texas-Jack, e encheu-me a paciência na idade madura, a patacoada indianista do Brasil. Além de que a elegância física das raças pesa - e francamente os índios e as índias que tenho visto em realidade e em reprodução fotográfica, são uma espécie de chineses ainda mais tarrecos do que estes. Jorge de Sena, 1972, pág. 121

Que as filhas que se casaram erraram nos maridos que acabaram por largar, não há dúvida. Os rapazes bem americanizados como elas não tanto, vivem sugados pelas "girl-friends" que, neste país são a forma de prostituição santificada pelas igrejas e os costumes, apesar das "Women Liberation Movements" - e para cúmulo, até tenho uma delas , vivendo - virginalmente, oh sim - na minha casa. Jorge de Sena, 1978, pág. 139

Terminada a leitura deste livro, tive ainda tempo de começar a colectânea de contos Ficções Científicas e Fantásticas. Dos nove autores (todos portugueses e mais ou menos conhecidos), só li os contos de Rui Zink e de Clara Pinto Correia. Acreditem que ia predisposto a gostar mas não sou assim tão porreiro. Ambos os contos são sofríveis. Ou os autores não estavam para suar as estopinhas - aceito que uma editora de nome Chimpanzé Intelectual convide à preguiça - ou andam a perder qualidades. Zink não é propriamente um cultor da língua e tem uma taxa de graças conseguidas impressionantemente baixa, mas em regra a sua imaginação conserta-lhe a ficção. Não foi o caso. O conto que escreveu é uma fantástica bosta que vai buscar o mais batido dos expedientes - as viagens no tempo - e propõe uma solução desastrada. Quanto a Clara Pinto Correia, parece que não percebeu o TPC e em vez de escrever um conto fantástico fez literatura infantil, uma fábula falhada com três elefantes segundo o modelo das anedotas que metem o Aladino da Lâmpada ou outro profissional da prestação de desejos. Fiquei prostrado com tão pífio remate. Dando o benefício da dúvida aos restantes 7 autores, começo a irritar-me com este fardo de contemporaneidade e patriotismo que me leva a gastar tempo e dinheiro em produtos tão medíocres.

março 16, 2007

Do títulos de Possidónio Cachapa

Li o romance de estreia de Possidónio Cachapa, A Materna Doçura, que me pareceu partir de uma ideia original, depois bem desenvolvida e com apenas alguns desequilíbrios, toleráveis numa primeira obra. Fechado esse livro, nunca mais voltei a abrir outro do mesmo autor. A culpa é dos títulos. O Meu Querido Titanic (crónicas), Nylon da Minha Aldeia, Segura-te ao meu Peito em Chamas, Viagem ao Coração dos Pássaros sugerem-me excesso de sentimento. Admito estar a cometer uma injustiça, mas os títulos são feitos com um propósito e o estilo de Cachapa nesta arte não me atrai. Como não me atrai o que ele vai dizendo em entrevistas (por exemplo, aqui). Aprendo que no seu novo livro a personagem principal é Vera, uma escritora "del corazón", "pop star", publicitária, muito "fashion". Subtil, como se vê. Perante a pergunta óbvia de Viegas - Rebelo Pinto? -Possidónio teoriza. O livro procura responder a este paradoxo: por que razão o sucesso de Vera não lhe trouxe felicidade? Fiquei a arder de curiosidade, quase com o peito em chamas. Se há coisa mais irritante do que a literatura light é a exploração da literatura light. Curiosamente, Escadas Tortas do Coração, o romance da personagem Vera, provavelmente imaginado como caricatura do universo light, não se distingue dos títulos de um dos livros reais de Possidónio Cachapa. Enfim, a comparação fica pela capa.

Sobre a escolha do Brasil como cenário para a história, Cachapa refere a diversidade daquele país. Não duvido do tropismo que o Brasil exerce sobre os portugueses, mas depois de Agualusa, Miguel Real, Viegas (o único cujo livro conheço) e Cachapa (outros mais?), o romance recente de autor português passado no Brasil é hoje um subgénero literário. Não haverá aqui uma tentativa - legítima e que não envergonha, antes pelo contrário - de conquistar um mercado de leitores muito mais vasto que o nosso? A esta pergunta trivial Rio da Glória, o último dos títulos de Cachapa, parece dar a resposta.

março 15, 2007

Dos falos pudicos aos ditos públicos

Exceptuando valter hugo mãe (retratado na capa do seu mais recente opus, creio) e o meu companheiro do saudoso Bombyx mori (que mostrou arte), na blogosfera que leio há poucas imagens e referências neutras - ou outras - a falos. Não falta a ocasional piadinha em registo autodepreciativo, mas tal rotina está tão estilizada que resulta inócua. Esta ocultação da pila não surpreende tendo em conta o tipo de blogger que leio: homem heterossexual na casa dos trinta, das classes média/média-alta, sem grandes extravagâncias públicas e que assina pelo próprio nome. Mais importante do que a inibição social parece-me ser a idade. Enquanto tema, o falo só tem interesse para o próprio ao ponto de o tornar público na adolescência. De uma forma ou outra - excepto nos casos patológicos - todos acabam por moderar o fascínio pelo brinquedo e por resolver eventuais anseios não correspondidos pela resistência dos materiais, anatomia ou hidráulica. A coisa fica arquivada, um homem habitua-se: falo, questão que cada um terá eventualmente consigo próprio; e a dois, mas apenas nas teatralizações hiperbólicas de alcova. Depois dos trinta, os exibicionismos de adolescente desapareceram por completo e as míticas conversas de homens não passam por aí, caso contrário os meus amigos e eu somos bichos raros.
O curioso é que as conversas sobre falos na praça pública reaparecem. Entre a boa gente - esqueçamos os tarados da gabardine - voltam na velhice (tarde ou cedo). Há anos que vou coleccionando fragmentos de conversas de respeitáveis velhos sobre pilas, fanfarronices, despedidas com anúncio de que antes do fim da noite ainda vai sair punheta. Há motivação - o espectro da impotência - e também uma certa tolerância social - pela mesma razão. Mas é um jogo perigoso e só o humor autodepreciativo - finalmente legitimado - marca pontos. Lembro-me de Almeida Santos, num programa de televisão, diante de um painel de mulheres, em pleno magistério de sedução, a dizer que ainda tinha cordas vocais (a propósito dos fados) e lamentando-se com um sorriso de que outros órgãos não conservavam idêntica vitalidade. Já as declarações de que ainda se dá uma (ou até duas) sem (ou até três) ajuda (ou até três sem tirar) de adititivos químicos são sempre recebidas com um sorriso amarelo, como se viessem de um obscuro ciclista ainda suado de uma vitória no Tourmalet e já a defender-se de uma inexistente acusação de dopping.
Longa prosa, a propósito de um texto de Armando Silva Carvalho, autor que vim a conhecer no romance epistolar O Livro do Meio (escrito com Maria Velho da Costa). Silva Carvalho junta à correspondência uma curta comunicação - Cançoneta para um stent - lida num congresso de cardiologia. É um texto delicioso e custa-me citar apenas o fim, que em meu entender o destrói, mas escreve o seu autor:

O que posso dizer a concluir é que, por enquanto, outro órgão [além do coração] não menos importante nestas coisas de Eros, vai desempenhando com coerência a sua própria função. Sem truques e sem qualquer esforço suplementar.
Naturalmente, e sem aditivos.

Pode ser que daqui a umas décadas mude de opinião e nunca imaginei vir a escrever isto sobre o barão socialista, mas sem pretender ofender Silva Carvalho a chapelada só pode ir para Almeida Santos.

março 31, 2006

Nabokov e Freud

The other matter I want to dismiss is the Freudan point of view. His Freudian biographers, like Neider in The Froxzen Sea (1948), conted, for example, that "The Metamporphosis" has a basis in Kafka´s complex relationship with his father and his lifelong sense of guilt; they contend further that in mythical symbolism children are represented by vermin - which I doubt - and then go on to say that Kafka uses the symbol of the bug to represent the son according to these Freudian postulates. The bug, they say, aptly characterizes his sense of worthlessness before his father. I am interested here in bugs, not in humbugs, and I reject this nonsense. Kafka himself was extremely critical of Freudian ideas. He considered psychoanalysis (I quote) "a helpless error", and he regarded Freud´s theories as very approximate, very rough pictures, which did not do justice to details or, what is more, to the essence of the matter. This is another reason why I should like to dismiss the Freudian approach and concentrate, instead, upon the artistic moment. Lectures on Literature. Vladimir Nabokov

Com o devido respeito, o nonsense atinge o próprio Nabokov. É possível rebater o que o biógrafo escreveu sobre as intenções de Kafka com base na opinião de Kafka sobre Freud, mas apenas enquanto permanecemos no plano do consciente. Não é possível provar se num plano inconsciente os motivos referidos tiveram ou não importância, tal como não é por um evangélico da Geórgia discordar da teoria da evolução que deixa de partilhar um antepassado com o chimpanzé. Faço apenas notar a falha lógica, que me parece óbvia. Nada adianto sobre quão credíveis as teorias de Freud são, o que aqui é irrelevante, pois Nabokov não oferece nenhum elemento substantivo que as invalide. Mas é verdade que as ideias de Freud são mais insidiosas que as de Darwin, o que talvez explique a irritação de Nabokov e um raciocínio que me pareceu, com alguma surpresa, pouco nabokoviano.

Dei a volta ao contador

Acontece-me, mais vezes do que gostaria e com frequência crescente, pensar num post, desconfiar que já o escrevi, pesquisar com uma palavra-chave- como "esferovite" - dentro do blogue e dar com o post já publicado há meses ou anos. Depois desta experiência, nunca mais voltei a recriminar os meus amigos contadores de histórias por se repetirem ao serão.

março 01, 2006

Vergílio Ferreira

VF.jpg
Foi há poucos dias que um livro da biblioteca de meu pai atravessou o Atlântico no porão de um avião, naquela que ainda não terá sido a sua derradeira situação de aperto e desgate físico, mesmo se a lombada já está quebradiça e as folhas começam a trocar de posição. Um leitor não dá tréguas e as primeiras páginas de Para Sempre são a prosa portuguesa que reli mais vezes.

fevereiro 24, 2006

Massamá

Começa a haver material para uma tese sobre Massamá e o imaginário colectivo do lisboeta esclarecido. Até o pouco ortodoxo Alexandre Andrade cede ao atractor suburbano que é Massamá. Sempre que se inventa uma entrevista de rua, é seguro que aparece alguém de Massamá. A ocasião é oportuna para lembrar a notícia do suicídio de uma cançonetista. Parece que tudo se passou em Massamá e a simples invocação da terriola prolongou a reverberação da tragédia. Constato também que a passagem da adolescência à vida adulta faz-se de pequenos nadas, como substituir a Picheleira por Massamá quando se trata de pensar num cu de Judas. O que se passa com Massamá, afinal? Alguém já lá foi (tirando o Luiz Pacheco, que - se não estou em erro - até lá viveu)? Não me surpreenderia que Massamá fosse até uma localidade simpática, sem banda mas com um coreto pintado de verde escuro.

janeiro 10, 2006

Lição de vida

O texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso. O texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está...

janeiro 07, 2006

Cúmulo do umbiguismo

Tenho uma confissão que até num blogue dá mau aspecto e não é para me colar ao Kafka nem sequer para me armar aos cucos: às vezes, quando releio os meus textos, dá-me uma vontade incontrolável de rir. Acho que é só por ter má memória.

janeiro 04, 2006

Pequena nota

Censurei uma entrada que esteve disponível durante breve minutos. É a segunda vez que faço isto, creio, descontando as entradas que apago por azelhice. Explicação: após ter relido o texto que comentava e a discussão que se gerou mudei de opinião. Se tiveram a infelicidade de a ler e me deram razão, bem, eu discordo.

janeiro 02, 2006

E a minha está alugada

"Uma casa é a coisa mais séria da vida." - Ruy Belo

janeiro 01, 2006

Leitura acelerada

Depois de na adolescência ter devorado Saramago, a sua prosa parece-me agora exemplarmente aborrecida. Aquele narrador, que se dirige ao leitor com lições de retórica, é um dos mais poderosos page turners da nosssa literatura.

dezembro 21, 2005

Cortázar

Julio.jpgÉ sabido que Maria Filomena Mónica acaba também de revolucionar a forma como em Portugal as mulheres comentam publicamente a beleza dos homens. Este sopro de ar fresco deixa-me à vontade para definir o rosto de Cortázar.

Fascina-me muito mais um homem que não é bonito mas ficou perto de o ser do que os projectos acabados. Ficamos a salvo de um consenso entediante e cada mirada é uma descoberta. O rosto de Cortázar é um desenho de um homem bonito feito por um artista pouco talentoso.

setembro 06, 2005

Vargas Llosa

É absurdamente luminoso e rico o pequeno ensaio de Vargas Llosa sobre o Don Quixote de Cervantes que acompanha a mais recente edição da obra, a cargo da Real Academia Española e da Associación de Academias de la Lengua Española. O volume conta ainda com outros ensaios, que resolvi evitar para combater o hábito de encalhar nas extensas introduções e não chegar propriamente a iniciar a leitura os grandes clássicos. En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...

agosto 29, 2005

Sobre os escritores prolíficos

Primeiro entranha-se, depois estranha-se.

agosto 13, 2005

Dos meus erros

Dou essencialmente três tipos de erros nos textos que vou escrevendo aqui. O primeiro tipo é o menos interessante: as gralhas, os erros por distracção. O segundo tipo é o mais embaraçoso: erros que reflectem a minha ignorância. O terceiro tipo é o mais divertido: os erros que resultam de ter trabalhado e revisto o texto à pressa, deixando fragmentos de frases antigas junto da expressão nova que acabei por preferir. Por vezes surgem umas quimeras acidentais fantásticas e devia pensar em repescá-las para um bestiário de sintaxe.

junho 11, 2005

O tal canal

Tenho tido uma série de ideias razoavelmente originais nos últimos tempos. Enfim, será talvez mais adequado falar em ideias novas que, no fundo, são uma espécie de originalidade íntima, dispensando a prova ou a confirmação de primazia. A razão deste súbito afluxo criativo é óbvia e bastante prosaica: deixei de ver televisão. Não vale a pena exagerar, indo buscar Orwell e o seu telescreen. Seria também ridículo demonstrar piedade por quem continua a ver televisão. Dito isto, a verdade é que gozo esta mudança como quem recebeu um presente que não esperava. Ao pretender apenas ter mais tempo para outras actividades, fiquei com uma cabeça novinha em folha.
Nada de grandes descobertas, de rasgos. Falo de coisas simples, de tolices. Por exemplo, num claro sinal de quem ressaca a abstinência de televisão, é agora recorrente imaginar anúncios. Se bem me conheço, isto vai dar origem a mais uma série. São infinitas as formas de aborrecer os leitores do MI.

abril 22, 2005

Para acabar de vez com a autobiografia

Incomoda-me falar dos meus posts. Nunca sei se devo descrever o post ou enunciá-lo textualmente, num esforço de memória. Também não gosto de esclarecer se o que relato aconteceu mesmo. Para que conste: nada do que escrevo é autobiográfico, inclusive esta afirmação.

abril 02, 2005

Na hora da nossa morte

Creio que é numa das entradas do livro "Pensar" que Vergílio Ferreira faz um comentário mordaz a todos quantos não resistiram a soltar um comentário por altura do suspiro final. Do dúbio "Mais luz!", de Goethe (pedido para abrirem as portadas da janela ou revelação divina?), ao seco "levem daqui as mulheres", de Herculano, passando pelo reconfortante "Tudo está bem", de Kant, Vergílio Ferreira conclui que o mais avisado é resistir à tentação da grandiloquência terminal e nao dizer nada. No que me toca, a ideia das últimas palavras aflige-me pela impossibilidade de correcção. E se nos enganamos? E se a coisa não nos sai bem? Concordo com o escritor. A melhor solução é deixar para últimas palavras algo que não foi dito com essa intenção. Uma solução de compromisso é rematar a vida deixando um final em aberto, pouco assertivo, nada conclusivo e intrinsecamente inatacável, ao estilo de um dos romances de Agustina Bessa Luís: "Eis como se termina uma vida- deixando sempre alguma coisa por dizer." (paráfrase). Sucede que este é um luxo que o Papa Joao Paulo II não podia ter. Numa morte com relato em diferido para o mundo inteiro, era preciso reconfortar os fiéis. As palavras escolhidas terão sido: " Estou preparado. Preparem-se vocës também". Palavras corajosas, sábias e adequadas, cuja autoria ninguém se vai lembrar de pôr em causa, a menos que saia um livro sensacionalista sobre os últimos minutos do Papa, possivelmente da autoria de um enfermeiro pouco escrupuloso ou de maqueiro letrado. Verdade ou mentira, qualquer dos cenários pouco surpreenderia. Nunca uma velhice foi tanto dos outros e tão pouco do velho que a viveu.

fevereiro 17, 2005

Striptease

Há um estilo de escrita que está em expansão na blogosfera. O texto tem uma leitura aberta a todos, mas é também passível de uma outra leitura, mais completa, por parte do único leitor que está na posse do código. Os textos são exclusivamente de amor. Sou apreciador do estilo, mas é pouco provável que o venha a praticar, por causa de um nível adicional de leitura: o nível intermédio. Quem chega a esse nível é muitas vezes actor secundário no enredo que decorre. Amigo de um, amigo do outro, amigo de ambos, amante de um, amante do outro, amante de ambos (isto não é estilo, acontece mesmo), conhecido apenas, mas perspicaz, enfim, o grupo é heterogéneo. E vasto. O resultado é um striptease de emoções e dados íntimos feito para uma plateia de rostos familiares, coisa que requer alguma técnica. O jogo parece-me perigoso. Por isso, com o devido respeito por todos os praticantes do género, se não se incomodam muito, eu vou ficando no canto escuro da sala e só gostaria de ser incomodado pela menina que serve as bebidas.

As minhas desculpas por este regresso ao metabloguismo; como se sabe, é tabu.

fevereiro 08, 2005

As palavras dos outros

As palavras dos outros sempre me pareceram mais justas. Tudo o que os outros escrevem - os outros que admiro, bem entendido - me parece mais conseguido. Se eu quisesse ser absolutamente claro, não escreveria uma linha, calçaria umas luvas brancas de polícia sinaleiro e passaria o tempo a dar direcções. "Como estou hoje?" Lê o Para Sempre de Virgílio Ferreira, entre as páginas 10 e 14. Estou sempre assim. Se fui salvo pelo estilo? Lê o Os Passos em Volta, meu amigo. Está lá tudo; eu também resolvia equações do segundo grau e aprendi a gostar de Bach pelos Concertos Bradenburgueses. Os poemas de amor viriam sempre assinados por outros, por incompetência minha, claro, mas também por uma necessidade imperiosa de rigor. E nesta procura estaria também um certo génio, creio. Pedir emprestado, muito bem emprestado, é uma tarefa morosa e delicada. (Continua)


(1) As palavras dos outros é também um livro de Baptista Bastos, escrito num português absolutamente sedutor, que a todos recomendo.

fevereiro 06, 2005

Falando a quem me oiço

Nunca serás um bom poeta, meu amigo. Ao contrário do que tu pensas, não basta estar baralhado para escrever um poema decente. Sai fraca a versalhada e só aumenta a tua confusão. Da próxima vez que estiveres baralhado, em vez do poema tenta o fluxograma.

janeiro 29, 2005

Kosinski e eu (3)

Tema recorrente nas entrevistas: quão autobiográfica é a obra de Kosinski? Nas palavras do autor, a pergunta pode ser reformulada nos seguintes termos: quão autobiográfica é a ficção de Kosinski? Kosinsky vê a memória como o grande contador de histórias, ou melhor, como uma colecção de episódios que não chegam sequer a formar uma colectânea de contos. O contador de histórias recorre também ao esquecimento, claro. Esquecer é importante. Tudo isto é trivial, e só merece ser contado pelo próprio Kosinski. Se tomo nota, é apenas para criticar a obsessão que, nos finais de 60 e pelos anos 70 fora, jornalistas, críticos e público tinham em saber até que ponto os episódios vividos pelos personagens de Kosinski fazem parte da biografia do autor. Isto é "voyerismo puro, uma forma menor de experiência"(cito o autor, embora aqui ele se referisse a outro problema). É possível que as subsequentes acusações de que ele terá forjado detalhes da sua biografia resultem da mesma obsessão, agora virada do avesso. Hipótese de trabalho: se Kosinski caminhou entre a ficção e a realidade, de um e outro lados quiseram puxar-lhe o tapete.

janeiro 12, 2005

Kosinski e eu (2)

Em entrevista radiofónica: 1) Kosinski faz uma deselegante associação de ideias (a mulher dele e o 69)- tomar nota do carácter libidinoso da prosa e dos flirts com a numerologia, ambos claros após a leitura da primeiras 50 páginas de The Hermit of 69 th Street; 2) inconsistência no que toca ao domínio do inglês antes da chegada aos EUA; na rádio assume-se como sendo fluente quando ainda vivia na Polónia e numa colectânea de entrevistas lê-se que não tinha conhecimento prévio da língua- o discurso falado parece mais honesto (muita atenção à construção de Kosinski por kosinski);3) a comparação com Konrad surge no primeiro terço da entrevista; referência elogiosa a Konrad nas páginas iniciais do The Hermit of 69 th Street; 4) ski. O homem é louco por ski.
Lido com algum desconforto na contracapa do livro de entrevistas: Kosinski suicida-se em 1991. Terá escrito: "I am going to put myself to sleep now for a bit longer than usual. Call the time Eternity." A notícia de que a sua morte resultou de "asfixia auto-erótica" não tem fundamento (a explorar: as subtilezas da distinção entre "asfixia auto-erótica" e "auto-asfixia erótica").


Esta série não terá caixa de comentários

janeiro 04, 2005

Kosinski e eu (1)

A importância de se chamar Kosinski? Alguma. Um nome que corta como um gume de faca japonesa ajuda. Uma inteligência exuberante ajuda ainda mais. Há o fascínio do culto solitário, também.
Leio sugestões de livros por toda a parte. Estou receptivo ou de acordo com um quinto das sugestões (nos livros que conto ler e li) mas tamanha sintonia deixa um amargo na boca. Sempre evitei os clubes de discussão de livros. Há várias razões para isso, nomeadamente as minhas falhas de memória. Budapeste, de Chico Buarque, por exemplo, como acaba? Não sei. Não sei mesmo. Li o livro no Verão, podia juntar umas linhas de crítica não totalmente imbecil (digo eu) mas não me lembro como acaba. Vocês sabem: em que cidade está o personagem, se ficou com a mulher (havia mulher? Também aqui tenho dúvidas), se falava bem húngaro no final. Esta dificuldade em reter detalhes compromete qualquer discussão sobre livros. E se é assim, qual a vantagem de andar a ler os livros que todos lêem? Nenhuma. Seguir as sugestões de leitura das pessoas que respeito obedece a outros motivos e é algo que continuo a fazer. Mas invisto cada vez mais na exploração às cegas. Dar com uma capa apetecível, um título, um parágrafo bem esgalhado numa página aberta ao calhas, uma resposta num programa de rádio e ir depois à aventura, investir horas e horas num tipo de que ninguém alguma vez falou ou foi levado na enxurrada do tempo. Kosinski, por exemplo. Jerzy Kosinski. Sei que não vai tardar a aparecer na janela de comentários um iluminado, daqueles que já leram tudo, que vai desconstruir Kosinsky em três linhas. Fair enough. A minha empreitada é ir escrevendo sobre a experiência de o ir descobrindo.

junho 28, 2004

Conto-corrente: La auto pista del sur

La auto pista del sur, de Julio Cortázar (texto completo aqui), é um compêndio da arte do conto.

maio 10, 2004

Porque escrevo

A necessidade de me reencontrar? O truque de estar eternamente a virar e revirar ideias, como quem ficou apenas com uma camisola de lã num dia de Verão sem brinquedos nem amigos? A profilaxia para evitar a loucura completa? A necessidade de me sentir menos burro? O desejo de deixar uma marca no mundo? Nada disso. Escrevo porque não sei contar histórias ao jantar.

abril 16, 2004

Aquele abraço...

Há anos que me debato com o vício terrível de semear livros pelo mundo. A única forma possível de sublimação é esquecer o involuntarismo de tal prática, para poder concluir que, objectivamente, o bookcrossing começou comigo. Mas o consolo que daí retiro é fraco, sobretudo quando o livro que perco é o que estou a ler. No último voo Lisboa-Nova Iorque bati o meu record pessoal. De uma assentada, perdi um Saramago, um Prado Coelho e um Isaiah Berlin. Quando já estava conformado com a perda daquele trio bizarro, recebo uma mensagem electrónica de um funcionário da TAP. Por um acaso, tinha deixado o meu endereço electrónico num dos livros. O funcionário da TAP prontificou-se a enviar os livros pelo correio, sem custos adicionais para mim. Não sei se esta é uma prática comum, mas aqui fica um abraço e um slogan fatela: "eu voo TAP. E você, como vai?"

janeiro 24, 2004

RED ALERT

Quantas páginas são mesmo essenciais numa biografia? Quantos serões são precisos para que os amigos mais faladores comecem a repetir histórias e anedotas? Em quantos posts se esgota um blogger? Perguntas pertinentes estas, agora que reparo que os dois últimos posts têm links para posts anteriores, também publicados no Memória. Antes mesmo de chegarmos às 400 entradas, começamos a revelar sinais de desgaste. Ainda não é o fim, mas receio que seja o princípio do fim.
Em ecologia, quando se pretende analisar a biodiversidade de um determinado ecossistema, divide-se o terreno em quadrículas, que são depois inspeccionadas minunciosamente uma a uma. De início, o número de espécies diferentes que se vai descobrindo aumenta quase linearmente com o número de quadrículas analisadas. Porém, à medida que o estudo avança, o número de espécies novas que se encontram a cada nova quadrícula diminui; quando antes bastava uma quadrícula para adicionar 5 espécies novas, são agora necessárias 10, depois 20, depois 40, depois 100... A fragmentação do universo a estudar interessa por vários motivos. Por um lado, aumenta a minúncia da inspecção. Por outro lado, ajuda a perceber quando chegou a altura de parar. Por exemplo, se o ecologista se apercebe de que há mais de 100 quadrículas que não encontra uma espécie nova, o melhor talvez seja dar por concluído o estudo; ele não conhece todo o ecossistema (há inúmeras quadrículas por estudar), mas é desmesurado o esforço necessário para encontrar uma espécie nova e a amostra que já possui é provavelmente suficiente para que sejam cumpridos os objectivos propostos.
Aqui no Memória andamos à caça de impressões, lembranças, quimeras de realidade e fantasia e outras espécies. Cada post é uma quadrícula. Até há uns dias, a acumulação ia seguindo a marcha dos posts, mas recebemos agora um aviso. Se não tivéssemos mão nisto, os posts futuros seriam provavelmente ricos em referências a coisas já aqui contadas. Mas ter mão nisto é o que nos diferencia do exemplo anterior. Somos ao mesmo tempo ecossistema e ecologista. O que o aviso nos diz é que devemos começar a mergulhar mais fundo. Ou a ficar mais tempo lá em baixo. Em todo o caso, devemos tentá-lo. Ainda há alguma esperança. Afinal, a memória pode até ser finita, mas gostaria de acreditar que não se esgota tão depressa. Conto nisso investir um esforço desmesurado.


dezembro 28, 2003

PIRÓMANO E CANHOTO q.b.

Entro nas livrarias de lança-chamas na mão direita. Levo o extintor na mão esquerda.