Um brilho nos olhos é ainda um brilho nos olhos, mesmo se alimentado a néones, certo? É que do outro brilho nos olhos, o brilho que durou a tarde toda, não sobrou nada. E tinha sido um brilho tão intenso... Um brilho de demente, admito, uma daquelas expressões de exoftalmia clinicamente descritas, se esquecermos o pormenor da luz a deslizar pelo cristalino aguçado. Brilhar agora à custa do néon, procurando ali o conforto que o crepúsculo não dava, parecia uma forma pouco nobre de acabar o dia. Reparei a seguir no porto-riquenho que limpava o chão com uma daquelas vassouras largas que não varrem, empurram. Julguei ter visto a minha senha perdida no monte de talões que se acumulavam e avançavam como a babugem de uma onda na praia, mas tive vergonha de me ajoelhar para vasculhar no lixo. E os $10 000 lá foram, entre os copos de plástico, os papéis amarrotados e alguns cabelos de etnia incerta. Ou então foi apenas uma impressão. Tinha sido uma tarde de ilusões.
Chegámos cedo. Th. repetia-me "We must find a system. If you have a system you can´t lose." Th. sempre foi assim, um concentrado de ironia, perfeito a misturar optimismo e fatalismo. Tínhamos encontro marcado com S., um matemático. Th. continuava, entusiasmado: " Juntos temos mais de 10 anos de estudos doutorais... Dois biólogos e um matemático... Nós tratamos de avaliar os cavalos e o S. calcula as probabilidades. Entendes de cavalos, não? Só pode funcionar. We have a system, my friend. We can´t lose".
Há na manhã uma frescura que facilmente se toma por esperança. O corpo descansado, os cabelos molhados, um hálito fresco restaurado a pasta dentífrica e detalhes acidentais, como o contacto com um corrimão de metal ao sol mas ainda frio, tudo contribui para um estado de optimismo. Raras vezes passa do meio-dia, mas ainda não eram nove quando o ascensorista nos levou até ao último andar. Demos com um restaurante em socalcos, com janelas enormes que mostravam a pista oval de terra batida. Comia-se em família ou entre amigos. A probição de fumar preservava o ar e os perfumes e fazia do lugar um aquário de água limpa. Nos guichets a aposta mínima de $50 foi motivo para a primeira troca de olhares com Th., em jeito de quem pensa mas não diz: "somos um erro de casting". Um tipo enorme que tresandava a riqueza e crime miúdo passou por nós com ar altivo e quase escondemos as mochilas, envergonhados. Foi então que percebemos que tínhamos subido demasiado alto e lá fomos descendo sem elevador nem ascensorista, descendo, descendo até ao piso térreo, onde escasseavam os brancos e os que havia tinham mau aspecto. Pretos, hispânicos, white trash e a aposta mínima de $5 contribuíram para que nos sentíssemos em casa. O lugar tinha ainda o encanto de um oásis de pecado. Nova Iorque era uma cidade higienizada, mas ali, a uma hora de comboio de Manhattan, fumava-se e bebia-se a sério, dentro de portas e ao ar livre. Tínhamos álcool, fumo e jogo; só faltavam as mulheres. Corrijo: S. irrompeu da multidão cheio de mulheres, mas era um daqueles grupos impenetráveis como uma formação tartaruga de legionários romanos. Todos se conheciam há muitos anos, falavam com os seus códigos, vinham aos pares ou faziam referências constantes a amigos e namorados ausentes. Muito ao seu estilo, Th. apressou-se a resumir a situação: "prefiro perder meu dinheiro nos cavalos". Em rigor, Th. referia-se ao meu dinheiro. Apercebendo-me do estado de desolação financeira da carteira dele, propusera-lhe, já imbuído do espírito de jogador, dar-lhe $60 na condição de ter direito a metade dos eventuais lucros que ele viesse a ter. O dinheiro serve para estas coisas e ser estúpido mas magnânimo é uma condição que prezo. Bebemos, bebemos e depois consultámos as tabelas com todas as estatísticas e o histórico dos cavalos naquela e noutras pistas. Decidi-me por dois cavalos do meio da tabela; S., com a Argentina em chagas, apostou em jockeys com nomes alusivos à sua terra e Th., com a sua queda condescendente para a cultura popular, no cavalo Elvis. O empregado do guichet topou que éramos estreantes naquelas andanças, mesmo depois de eu ter praticado a frase com que compraria as minhas apostas (a ideia é transmitir a informação da forma mais condensada que se consiga, pois qualquer palavra a mais denuncia o novato).
A dinâmica das corridas de cavalos é pouco subtil, um longo crescendo do princípio ao fim, que atinge o clímax antes da meta e se sustenta no limite das forças no último terço. Não admira que haja nas bancadas tanta gente com tiques nervosos...
(Continua)