outubro 14, 2007

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stjohnmap_small.jpgSt. John, 29.09.07 Demorei-me sob o alpendre do restaurante. Era pouco tentador entrar no que parecia uma barraca de paredes mal rebocadas e janelas acolchoadas de improviso, com almofadas e tapetes de campismo do lado do fora. Ainda fazia claro quando entrei mas no interior a luz era artificial. As duas meninas, os polacos, um velho com pinta de Papa Hemingway, o casal com a mulher bonita e mais umas dez pessoas- poucos alugam as tendas em altura de tornados- ocupavam algumas das mesas. Sentado a meu lado, Papa ainda perguntou para o ar se se podia ir beber para o bar, mas sem que viesse resposta. Virou-se depois para mim (cito de cor):

Papa: sabe quem se parece comigo?
Eu: com o devido respeito, sei que se parece com ele.
Papa: mas ouviu falar dele?
Eu: claro que sim.
Papa: queira desculpar-me... os jovens hoje desconhecem tudo.
Eu: e antes era diferente?
Papa: como quer que lhe responda se nesse tempo eu era jovem?

(risos)

Eu: ora, eu deixei de ser jovem vai para uns anos, devia antes testar uma das meninas.
Papa: sim, o amigo ("yes, my friend") iniciou a travessia do deserto, lamento.
Eu: pensava que os sofredores eram os adolescentes e os velhos.
Papa: errado. Os adolescentes sabem que os espera algo de muito melhor e os velhos algo de muito pior, isto ajuda ("it does wonders") a vencer a ansiedade dos primeiros e a fortalecer o conformismo dos segundos. Mas tu [depois de um toque no ombro, o "you" transfigura-se], se revelas ansiedade ou conformismo estagnas. Deves estar sempre a andar, enfim, sempre a nadar...
Eu: como os esqualos.
Papa: If you're going through Hell, keep going.
Eu: Uma tirada de um livro dele?
Papa: Churchill, Churchill.
Eu: Ah, pensei nele, claro. Sabe, sinto-me mal a discutir os problemas da idade consigo.
Papa: por eu ser mais velho?
Eu: sim.
Papa: novo erro. Resolvi todos os problemas que te apoquentam. Bem ou mal, arquivei-os. Estou agora de folga, sou o melhor conselheiro que podias encontrar. Informado, experiente e desinteressado. Trust me.
Eu: Should I?
Papa: aposto que sei o que te preocupa. Vieste sozinho para esta ilha e creio que sem grandes perspectivas de turismo sexual.
Eu: se fosse o caso, teria escolhido Cuba.
Papa: nem mais. Divorciado?
Eu: nunca casei.
Papa: eu casei-me quatro vezes, mas na altura era preciso.
Eu: pois, mas ainda vai sendo preciso. Cada vez mais, creio. Certas pessoas julgam-se superiores ao casamento, ao que tem de fachada, mas comportam-se da mesma maneira e atingem um grau superior de hipocrisia.
Papa: defendes o casamento?
Eu: claro, como dissuasor de infidelidade. Desde quando se pode confiar nas juras de amor, nas promessas? precisamos da sociedade para impor a monogamia.
Papa: se a monogamia te parece importante...
Eu: a monogamia em si, nem por isso, um relacionamento longo, sim. Mas este depende daquela, por mais voltas que queiramos dar ao problema.
Papa: tiveste algum relacionamento longo?
Eu: nunca. enfim, alguns anos. Hoje ao fim de uns meses as pessoas pensam que podem escrever o novo grande opus de amor, anda tudo apanhado dos cornos.
Papa: dos cornos?
Eu: ah, desculpe. Foi acto falhado. "Apanhado da cabeça".
Papa: um caso complicado, o teu...
Eu: bah, a fome, sim, isto nem tanto.
Papa: mas resolves o teu problema da fome com um donativo e o outro vai ficando.
Eu: Eh, e por vezes basta apenas pensar no donativo. Quanto ao casamento, creio que o problema se arrasta e sempre vai ser assim. Sabe por que motivo as pessoas se embebedam nos casamentos?
Papa: por ser de borla?
Eu: por algo mais. Os casais separam-se tanto agora que a boda se inicia como festa e com o passar das horas vai ganhando tiques de ressaca de funeral. A forma como as pessoas falam, os olhares vagos, a desordem das cadeiras, a bebida. Nunca reparou?
Papa: desde 1988 que deixei de ser convidado para casamentos.
Eu: pois tem lugar cativo no meu, quando acontecer, para que confirme o que lhe digo. As pessoas embebedam-se porque pressentem a ruptura. O casamento recapitula os anos futuros do casal, antecipando-os e comprimindo-os em 4 ou 5 horas. E olhe que estas leis em que se recapitula algo acertam sempre, apenas precisam de ser afinadas.
Papa: estudaste Filosofia?
Eu: Biologia.
Papa: Ah... I like tropical fish. Bem essa tua ideia tem a lucidez do desencanto, o que nada garante.
Eu: o que vou vendo basta. As pessoas felicitam os noivos com constrangimento, como se estivessem a aplaudir um vencedor do Tour de France que pode vir a ser desclassificado no futuro por dopping.
Papa: tanto cinismo...
Eu: cinismo seria confirmar que preciso de me fingir aflito, preocupado e surpreso quando algum dos meus amigos se separa.
Papa: confirmas?
Eu: era apenas um exemplo. E o raio do tornado? Ouve alguma coisa?

(continua)

agosto 21, 2007

5

stjohnmap_small.jpgPassei o resto do dia de ontem em terra. Os polacos tinham tomado conta do jacuzzi e uma delas fazia topless - tantas saudades da Europa. Cumprimentei-os de longe, senti que queriam ficar sozinhos. Como eu. Enfiei-me na tenda com um plano: desenhar Coral Bay. Fosse mais ambicioso, tentaria uma aguarela, mas o jeito para o desenho cristalizou quando fiz cinco anos e, se um homem bom adequa os meios aos fins, o homem sensato ajusta-os ao talento. Um Odocoilues virginianus - um Bambi - apareceu de repente no topo de uma colina, cruzou o olhar comigo e logo desatou numa corrida nervosa. Os animais foram introduzidos na ilha em mil setecentos e tal, para satisfazer a fome de gatilho dos colonizadores, mas vi naquele breve encontro um sinal aprovador do Criador para que desenhasse. Pois bem, foi o que fiz.

Desisti de tirar fotografias com veleidades de artista por volta de 1992, quando me roubaram a Nikon em Praga. Como tantos jovens enfermos de paralaxe geracional, queria ser um Cartier-Bresson, apesar de as minhas melhores fotografias serem invariavelmente a poentes. Embora ainda goste de fotografia como apreciador passivo - Ansel Adams, belo,Jeff Wall, belo, Mapplethorpe, belos corpos - friso que desconfio daquela arte, no mesmo grau em que desconfio da arte abstracta e por diferentes motivos. Mas sobre isto sinto-me agora incapaz de um dar um contributo e creio que estamos conversados.

Duvido que reconhecessem Coral Bay em St. John depois de verem o desenho e vice-versa, mas estive entretido com a paisagem durante umas horas e resisti ao impulso de rabiscar gaivotas em contraluz, o que constitui um progresso. Rematei a coisa com gatafunho e data, no preciso momento em que uma das meninas da Florida fez truz-truz e me avisou - sem que eu tivesse chegado a abrir a porta - que esperavam um tornado mais para o fim da tarde e que o melhor era eu ir ter com eles ao restaurante - de pedra e cal -, assim que tivesse recolhido o pano da tenda e o oleado que faz de tecto. Confirmei que o horizonte se transmutava lentamente e que Turner em breve encontraria ali substrato para um belo quadro. Dobrei depois o pano, a simular o uivar de um vendaval.

agosto 20, 2007

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stjohnmap_small.jpgCumpri os dez metros finais da subida em crescendo de ritmo. Recortada pelo jogo de luzes na interface do mar com o ar, a silhueta brincava. Quase me senti predador, culpas para o Spielberg, mas foi coisa passageira, que o meu intento era salvar a menina. Os esqualos apertavam o cerco, a qualquer momento um podia atalhar caminho e abocanhar-lhe uma perna. Apenas perto dela me apercebi que iria perder a oportunidade de brilhar; de repente, um corpo volumoso furou a interface e pegou na menina pela cintura. Percebi depois que me esticara na bravura; os dois corpos brincavam. Brincavam despreocupados, e eu, desacelerado pela meloncolia, contentava-me a reparar no reverso do seu chapinhar. Se os pais a deixavam nadar ali, o que fazer? Habituar-me, pois claro. Dez metros bastam para se passar de destemido a palerma.

Partimos ao nascer do Sol, com mar raso. Cabral ao leme, sua filha de cinco anos em acrobacias na proa, a mulher obesa de um lado para o outro, palradora, eu e um casal de americanos com coletes salva-vidas, como mercadorias preciosas. Os polacos tinham reservado lugar, mas a ressaca deixara-os prostrados. Navegou-se umas quinze milhas antes de Cabral ancorar o barco sobre uns baixios. Ao longe ainda se via St. John e ao perto, o fundo arenoso do mar. Senti-me obrigado a mergulhar antes dos outros, mas estaquei quando o Cabral jogou umas valentes pazadas de engodo pestilento pela borda fora. "O primeiro a ver uma dorsal leva a lancha de volta", disse.

Tenho medo de esqualos desde o primeiro mergulho na praia da Ponta do Sol, na Madeira. Auxiliar o meu pai na apanha de mergulho de lapas era uma honra e um desafio. Visto com a viseira, o mar, paisagem sem horizonte, um escuro iluminado que alberga todos os vultos... Eu olhava para todos os lados, mas sobrava sempre um. E os sons dali - o ir e vir dos seixos perto da babugem, o ronronar de um motor distante, o bater das barbatanas - eram abafados por um respirar ofegante, mesmo quando parado. Anos nisto, menino, rapaz, sempre o mesmo medo e um travo a cobardia que demorava a passar, quando tentava nadar entre o meu pai e o mano, usando-os como escudo. E nada. Nunca vi um esqualo. Ouvi boatos de um ataque na costa norte da ilha, mais selvagem, agreste, feita para acidentes sanguinolentos, mas nem sei se foi verdade, se o homem morreu, se ainda coxeia pelas ruas de S. Vicente com menos uma dentada de carne na barriga da perna.

Fiz-me ao mar a seguir ao Cabral, que olhando para baixo e com o polegar ainda enxuto armado confirmava a chegada dos primeiros esqualos. Encontros muito desejados ou temidos, mais vale ir adiando ad eternum; o que se foi construindo quase sempre ultrapassa a realidade e, ou ficam por cumprir as expectativas, ou nos damos conta, com alguma raiva, de que o medo que nos tolhia era despropositado. Sucede que esta regra, de provas dadas com as mulheres, de pouco vale para outros predadores. Como o Carcharhinus perezi. Vi o primeiro e logo depois todos os cinco. Cabral ao meu lado, fazia-me o sinal de “ok”. Oh, o catano, pouco faltou para mijar o fato de mergulho. Apenas ele me obrigava a ficar ali. Cabral, protector? Antes: Cabral, testemunha potencial da minha cobardia. Procurei mexer-me pouco e preocupava-me a possibilidade dos esqualos conseguirem cheirar o medo; suava, por dentro era um cocktail de adrenalina. Ainda assim, respondia a Cabral com o sinal de “ok”. Dois sinais de “ok”. I’m cool… How to top that? Isso, two thumbs up, os esqualos passam bem pelos blockbusters do mundo animal… I’m super cool. Mas apressei-me a voltar aos punhos cerrados, a ideia de oferecer os polegares como hors d’oeuvres… Cabral, quanto tempo mais?

Devem ter passado apenas alguns segundos, quando o casal megulhou. Os esqualos nem acusaram as ondas de choque e eu comecei a pensar como um cardume: agora somos quatro, talvez me safe. Nisto nem me dei conta da descida, por cima de mim uns bons quinze, dezassete metros. Ar, precisava de ar. Os bichos apertavam o cerco. Cabral? As bestas olham para mim, de soslaio. Olham sempre de soslaio? Cabral, repara naquele. Cabral? “ok”? Ok, Cabral, tudo ok. Foi nesse momento que olhei para cima e vi a menina, esbracejando como um anjinho a peneirar.

No regresso, o homem do casal assumiu o leme. Pareceu-me despropositado tentar explicar a minha subida intempestiva, que todos interpretaram como uma retirada. Cabral e a mulher olhavam-me com alguma ternura, devem estar habituados a cenas destas. E a menina brincava comigo, sem perceber os jogos da gente crescida. Enfim, se conseguisse aturar a fanfarronice do homem do leme, o meu regresso seria triunfante e dispensava os louros. Pobre tipo, a crescer para todos explorando o meu momento de fraqueza. Pobre tipo, a arrastar um casamento infeliz.

Como se topa um casamento infeliz? Quando falando um deles para uma terceira pessoa, o outro mostra desprezo ou enfado. Foi por isso que reparei nela e ela reparou em mim, porque o Cabral e a mulher davam troco ao marido. Ao esposo. Ainda me tramo, por causa da sua beleza pouco aparente. Como apenas nos pressentimos e a menina adormeceu apoiada numa das minhas coxas, entretive-me em pensamentos. Eis uma tese para as massas urbanas: a beleza absoluta funciona como um handicap. As mulheres bonitas vivem obcecadas com a ideia de que apenas lhes valorizam a imagem, sentem-me inseguras. E a agravar, dois efeitos cumulativos: a beleza traz-lhes uma volatilidade passional e, sendo perfeitas, o amante pouco ou nenhum impacto tem sobre a coisa amada, que sem metamorfose fica por colonizar. Irrepreensivelmente bonitas e sensuais, parecem cartoons animados das mulheres do Milo Manara, boas para a punheta ou para platonismo. Ora, uma mulher que valha realmente a pena tende a estar a meio caminho entre a punheta e o platonismo, como as criaturas do Hugo Pratt. A aprendizagem sentimental cumpre-se quando se foi do Manara ao Pratt. E o rosto desta mulher, anguloso, magro e com os cabelos despenteados, podia ter vindo de uma prancha do Pratt. Ainda me tramo.

agosto 19, 2007

3

stjohnmap_small.jpgOntem os polacos convidaram-me para jantar na tenda deles. Percebi logo que estava entre epicuristas radicais, completamente embriagados. Um preparava linhas de coca sobre a viseira de mergulho, outro uma arrozada de marisco enriquecida com enchidos e pickles - ah, a gastronomia da Europa Central, esse cataclismo ainda em busca do seu historiador. Elas flirtavam na varanda e pareciam treinar beijos na boca, ora uma tomava a iniciativa ora a outra, mas procurei desviar o olhar - e pensei no sapo, que capta a paisagem como se tivesse uma lente olho-de-peixe, passo o quimerismo. Lembrei-me depois do Lech Valesa e se teria sido para isto que ele andou a lutar. No fundo - e apesar da bebida - sou um puritano e tenho medo de drogas, vi muitos agarrados no meu bairro naquela altura da vida em que colhemos ensinamentos com facilidade. O lesbianismo soft, enfim, tem a sua piada, mas exposto daquela forma parece coisa de americana mimada do college.

Jantou-se ao relento, procurei manter a conversa animada, dos peixes tropicais aos manos Kaczynski, mas enfiei algumas argoladas, baralho as datas e o retrato mais recente deles que vi foi o Decalogue. Faltou ainda o arco de humores que faz os grandes jantares, talvez porque os polacos estavam de bebedeira velha quando a comida veio para a mesa. Sem brigas, sem grandes segredos revelados, sem uma perna a tocar na minha - mas quase juro que... -, se dissesse a quem chegasse no fim que antes houve coca por ali, duvido que acreditasse.

O firmamento estava estrelado e antes de adormecer reconheci os gritinhos de uma das polacas.

Nenhum morto me visitou de noite e tavez por isso acordei algo desapontado, de madrugada. Os donos deste complexo de ecoturismo estavam despertos e cruzei-me com eles numa das passadeiras, um agregado familiar de estrutura matriarcal e com apenas um homem, o pobre Cabral, com ar de pirata de baixa patente, que atinou comigo quando se apercebeu que partilhamos um apelido. Cabral casou-se com a filha da mulher que reina por aqui, uma americana acima dos 70 anos, de coxas poderosas e uma cabeleira desgrenhada que podia aninhar caranguejos eremitas e outra bicharada. Disseram-me que a senhora circunda a ilha em snorkeling sem barbatanas todos os fins de tarde e eu acredito, parece a mulher do Neptuno. Combinei com eles um passeio de barco para ver nurse sharks e outros esqualos. O plano deixou-me paralisado para o resto do dia. E agora que faz escuro, ainda tremo de medo, mas penso que um forcado no Caribe estaria como eu agora, o que me reconforta. Falta menos de um dia.

agosto 18, 2007

2

stjohnmap_small.jpgJuntei-me ontem de manhã a dois casais de polacos e fui mergulhar em Coral Bay. Desconhecia que os polacos mergulhavam. De resto, ignorava que os polacos viajam. Mas tenho daquela gente um entendimento tão fragmentado que a corrente apenas passou quando me lembrei de discutir uma jogada do Boniek no Espanha 82, em que ele desprezou a baliza e se aproximou da bandeirola de canto, para conservar a posse de bola e a vantagem no marcador. Copernicus, Chopin, Polanski, Kieslowski, Kosinski? Tenho um colega polaco que ouve Chris de Burgh, aprendi a nivelar por baixo. De resto, o Boniek foi um jogador de fino recorte e como cultura franca temos o futebol e nada mais. Enfim, uma vez submersos tendemos para o laconismo. Antes assim.

Os polacos mergulham bem e ensinaram-me uns truques. Regressaram frustrados por nem um nurse shark ter aparecido; eu vim empolgado pelo encontro com uma tartaruga e percebi que o animal foi feito para o mar, tem uma graciosidade que morre na praia. A polaca mais pequena consumiu menos de metade da botija e ocorreu-me que Mozart, com os seus 163 cm e uma morte prematura aos 35 anos, deve ter gasto muito pouco ar, epifania que - por um qualquer reflexo de ecologismo bacoco - teve impacto no respeito que nutro pelo compositor.

Almocei na varanda, sozinho. A tenda mais parece uma casa, tem uma estrutura de madeira que sustenta paredes de lona, redes de mosquiteiro e um telhado de oleado. Se chove, o barulho deve ser ensurdecedor mas ontem o sol estava forte e nem uma nuvem se via. Espreguicei-me depois na rede, tentei ler o Naipaul, mas como a perna assente no chão me ia embalando avancei pouco. Acordei ao fim da tarde, ainda acusando a fadiga da viagem. Creio que sonhei com E., a caseira de Ourique, que me adorava. Pressinto que este lugar convoca os meus mortos e ainda bem que a vida me poupou a um Big Chill, os mortos queridos eram todos mais velhos, nenhum amigo que cresceu comigo, ainda nenhum de nós.

Fui jantar a um restaurante de estrada, no jeep que aluguei. O lugar atrai muitos americanos com avarias evidentes: dentes estragados, alcoolismo, uma descompostura de quem perdeu o brio, traumas por curar, velhos impacientes com a vida. Apenas o jovem empregado de mesa mostrava pressa de sair dali, aposto que tinha farra alinhavada. Sorte dele, que eu recolhi a casa cedo. Ainda tomei um duche, desta vez sem o sapo.

agosto 17, 2007

Diário no Caribe (1)

stjohnmap_small.jpgSt. John, uma das ilhas virgens americanas. Estou numa tenda de ecoturismo. As meninas do guichet são duas americanas da Florida que estudaram em Barcelona. Decoraram a sala com um poster do Obama, lado a lado com imagens da fauna marinha local, e despacham a trautear uma melodia do Manu Chao. Ontem partilhei o banho com um sapo, o que me pareceu um sinal de uma estadia plena de oportunidades sexuais. Mas percebi logo que as americanas da florida se dedicam ao lesbianismo, sou perspicaz nesses assuntos.
De madrugada o vento enfona a lona virada a noroeste - como se chama o Mistral deste lugar? - e produz um silvo e uma corrente de ar fresco, que entra rasteira pela tenda, pelo que acordei cedo, apesar da cansativa viagem de ontem. Existe net, num casebre que fica no topo da colina e vim aqui ao nascer do Sol. Da janela vejo um mar imenso, com manchas azul turquesa perto das praias. Penso no meu pai e no tio M., apetecia-me estar agora a velejar com eles. "Preferes uma tarde com as meninas da Florida ou um dia de vela com o pai e o tio M.?", pergunta o diabinho. Nem preciso de chamar o anjo, mas o meu pai foi para o Brasil e o tio M. para parte incerta, morreu.
Trouxe Nietzsche e V.S. Naipaul.