Letters from Iwo Jima e Flags of Our Fathers são filmes supostamente reconciliadores e eu confirmo que havia duas japonesas na sala a chorar convulsivamente - quase escrevia "compulsivamente" - no final do primeiro, mas não são filmes corajosos. Os gestos magnânimos estão sempre do lado dos vencedores e qualquer filme entre Japoneses e Americanos sobre a Segunda Grande Guerra Mundial que não aborde Hiroshima ou Nagasáqui não pode ser um filme corajoso.
Letters from Iwo Jima é uma história de guerra banal, que ganha seguramente à filmografia para efeitos de propaganda e recrutamento, mas perde para os clássicos da catarse do Vietname (The Deer Hunter e Full Metal Jacket, por exemplo). Pode talvez emparelhar-se com Saving Private Ryan na composição das personagens com uma pitada de complexidade, sem exagerar na decomposição da - hum - natureza humana. Adormeci a ver este filme, fui vê-lo uma segunda vez e quase adormecia de novo. Há algo de soporífero no segundo quarto de Letters from Iwo Jima. Depois começa a guerra e as metralhadoras já não deixam ninguém dormir, o que denota algum respeito por quem compra o bilhete ($11+$11=$22).
Flags of Our Fathers é uma história revoltantemente fraca. Ao fim de 15 minutos percebemos que estamos perante os conflitos internos e de consciência de um grupo de soldados promovidos e vendidos como heróis por um feito de mérito duvidoso. É de aplaudir a subtileza e ironia de tratar de um não-trauma de guerra, de uma falsificação menor - Paths of Glory trata de uma falsificação maior -, mas não chega. O filme desbobina sem que aconteça alguma coisa que não se pudesse antecipar. Não é uma história feita pela ausência de acontecimentos, como o recente Jarhead. Flags é simplesmente um filme aborrecido e é um mistério não me ter posto a dormir também.
Os últimos 4 filmes de Easwood que vi foram experiências frustrantes: Mystic River (falha como thriller e tem um final estapafúrdio), Million Dollar Baby (violinos) e agora o épico do inimigo ( Letters from Iwo Jima, is ) e o anti-épico (Flags of Our Fathers, ). Continuo a preferir Bird, Unforgiven e, sobre todos os que conheço, A Perfect World. Falta ver The Bridges of Madison County e outros mais obscuros, mas esta excitação crescente pelo realizador Eastwood, que pode até ser coisa de homem, passa-me ao lado.
Adenda: "A tua critica ao Clint is very misleading to those who don't know you. Dependendo da hora e do que jantaste, poderias adormecer ao lado do amplificador num concerto do Sepultura or during sex with Monica Belluci." De um leitor devidamente identificado.
Down in the Valley é o Midnight Cowboy do novo milénio. E as três mudanças de cenário que fazem a meia hora final são do melhor cinema recente que tenho visto.
O protagonista que tratará uma velhinha como dano colateral faz-nos retrospectivamente antever o seu futuro quando, logo no início do filme, lê Dostoievski. Assiste depois às óperas La Traviata e Rigolleto, e ambas encerram parte do destino que começou então a cumprir. É possível que esta opção seja apenas uma forma de Allen admitir, antes de todos e para desarmar a crítica, a falta de originalidade do argumento de Match Point, que é uma colagem de situações exploradas já à exaustão. Percebe-se a preocupação. Ainda que seja possível reduzir toda a ficção a uma mão cheia de enredos, aqui o plot aproxima-se perigosamente da telenovela. Mas fica também a pairar outra hipótese: numa história que pretende pôr a nu a importância do acaso - o ressalto de uma bola de ténis na tela da rede abre o filme - as pistas que apontam para o futuro talvez não sejam um paradoxo, antes se pretendendo irónicas.
Nota: esta entrada marca o recomeço das cine dia, que interrompi por inibição, desde que comecei a ler os superlativos textos sobre cinema com que o Alexandre Andrade (ver 1bsk na lista dos enlaces permanentes) nos vem brindando. Como o MI é um espaço de puro amadorismo, tal inibição não faz qualquer sentido.
Desconfio sempre que há um coração a trocar de personagem. Em Todo sobre mi madre Almodóvar escapa in extremis a esse atractor de emoções, dando uma guinada na história com a ida da protagonista para Barcelona. Em 21 grams sucede aquilo que temia: a imposição dos temas fortes, dos personagens fortes, das emoções fortes. Como seria de prever, vem tudo empacotado numa narrativa pseudo-virtuosística e forçada, sem o génio de Godard ou de Tarantino. A crítica acaba aqui, pois reconheço ser a prova viva de uma das teses do filme; aquela em diz que quando morremos perdemos exactamente 21 grama, o peso da alma. Comecei por me sentir mais leve pouco depois que o filme ter começado. Por momentos fiquei incomodado, como se a súbita leveza indicasse que me tinha transformado num cínico e sádico, incapaz de interiorizar o peso das trágicas existências que definhavam à minha frente. Mas notei também, com enorme alívio, que recuperara o peso à saída da sessão. A explicação só pode ser uma. A minha alma, que não pratica o benefício da dúvida nem se verga a compromissos sociais (fui ao cinema com um grupo de amigos), saíra logo após o começo do filme, mas esperava-me pacientemente à porta do cinema. Resistindo à tentação do salto para o corpo desalmado de algum dos tubarões de Wall Street que por ali terão passado, a prova de fidelidade desta pobre alma reconciliou-me com a vida.