junho 09, 2007

Afinal é possível gostar de musicais

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Once.

março 22, 2007

Grandes Mistérios Contemporâneos: a Eastwoodmania

LB0119_iwo1_01-19-07_S1401BM.jpgLetters from Iwo Jima e Flags of Our Fathers são filmes supostamente reconciliadores e eu confirmo que havia duas japonesas na sala a chorar convulsivamente - quase escrevia "compulsivamente" - no final do primeiro, mas não são filmes corajosos. Os gestos magnânimos estão sempre do lado dos vencedores e qualquer filme entre Japoneses e Americanos sobre a Segunda Grande Guerra Mundial que não aborde Hiroshima ou Nagasáqui não pode ser um filme corajoso.

Letters from Iwo Jima é uma história de guerra banal, que ganha seguramente à filmografia para efeitos de propaganda e recrutamento, mas perde para os clássicos da catarse do Vietname (The Deer Hunter e Full Metal Jacket, por exemplo). Pode talvez emparelhar-se com Saving Private Ryan na composição das personagens com uma pitada de complexidade, sem exagerar na decomposição da - hum - natureza humana. Adormeci a ver este filme, fui vê-lo uma segunda vez e quase adormecia de novo. Há algo de soporífero no segundo quarto de Letters from Iwo Jima. Depois começa a guerra e as metralhadoras já não deixam ninguém dormir, o que denota algum respeito por quem compra o bilhete ($11+$11=$22).

Flags of Our Fathers é uma história revoltantemente fraca. Ao fim de 15 minutos percebemos que estamos perante os conflitos internos e de consciência de um grupo de soldados promovidos e vendidos como heróis por um feito de mérito duvidoso. É de aplaudir a subtileza e ironia de tratar de um não-trauma de guerra, de uma falsificação menor - Paths of Glory trata de uma falsificação maior -, mas não chega. O filme desbobina sem que aconteça alguma coisa que não se pudesse antecipar. Não é uma história feita pela ausência de acontecimentos, como o recente Jarhead. Flags é simplesmente um filme aborrecido e é um mistério não me ter posto a dormir também.

Os últimos 4 filmes de Easwood que vi foram experiências frustrantes: Mystic River (falha como thriller e tem um final estapafúrdio), Million Dollar Baby (violinos) e agora o épico do inimigo ( Letters from Iwo Jima, is ) e o anti-épico (Flags of Our Fathers, ). Continuo a preferir Bird, Unforgiven e, sobre todos os que conheço, A Perfect World. Falta ver The Bridges of Madison County e outros mais obscuros, mas esta excitação crescente pelo realizador Eastwood, que pode até ser coisa de homem, passa-me ao lado.

Adenda: "A tua critica ao Clint is very misleading to those who don't know you. Dependendo da hora e do que jantaste, poderias adormecer ao lado do amplificador num concerto do Sepultura or during sex with Monica Belluci." De um leitor devidamente identificado.

junho 07, 2006

Down in the Valley (2005)

downvalley.jpgDown in the Valley é o Midnight Cowboy do novo milénio. E as três mudanças de cenário que fazem a meia hora final são do melhor cinema recente que tenho visto.

janeiro 09, 2006

Tie-break

36841match_point.jpgO protagonista que tratará uma velhinha como dano colateral faz-nos retrospectivamente antever o seu futuro quando, logo no início do filme, lê Dostoievski. Assiste depois às óperas La Traviata e Rigolleto, e ambas encerram parte do destino que começou então a cumprir. É possível que esta opção seja apenas uma forma de Allen admitir, antes de todos e para desarmar a crítica, a falta de originalidade do argumento de Match Point, que é uma colagem de situações exploradas já à exaustão. Percebe-se a preocupação. Ainda que seja possível reduzir toda a ficção a uma mão cheia de enredos, aqui o plot aproxima-se perigosamente da telenovela. Mas fica também a pairar outra hipótese: numa história que pretende pôr a nu a importância do acaso - o ressalto de uma bola de ténis na tela da rede abre o filme - as pistas que apontam para o futuro talvez não sejam um paradoxo, antes se pretendendo irónicas.

Nota: esta entrada marca o recomeço das cine dia, que interrompi por inibição, desde que comecei a ler os superlativos textos sobre cinema com que o Alexandre Andrade (ver 1bsk na lista dos enlaces permanentes) nos vem brindando. Como o MI é um espaço de puro amadorismo, tal inibição não faz qualquer sentido.

dezembro 10, 2003

21 GRAMS

Desconfio sempre que há um coração a trocar de personagem. Em Todo sobre mi madre Almodóvar escapa in extremis a esse atractor de emoções, dando uma guinada na história com a ida da protagonista para Barcelona. Em 21 grams sucede aquilo que temia: a imposição dos temas fortes, dos personagens fortes, das emoções fortes. Como seria de prever, vem tudo empacotado numa narrativa pseudo-virtuosística e forçada, sem o génio de Godard ou de Tarantino. A crítica acaba aqui, pois reconheço ser a prova viva de uma das teses do filme; aquela em diz que quando morremos perdemos exactamente 21 grama, o peso da alma. Comecei por me sentir mais leve pouco depois que o filme ter começado. Por momentos fiquei incomodado, como se a súbita leveza indicasse que me tinha transformado num cínico e sádico, incapaz de interiorizar o peso das trágicas existências que definhavam à minha frente. Mas notei também, com enorme alívio, que recuperara o peso à saída da sessão. A explicação só pode ser uma. A minha alma, que não pratica o benefício da dúvida nem se verga a compromissos sociais (fui ao cinema com um grupo de amigos), saíra logo após o começo do filme, mas esperava-me pacientemente à porta do cinema. Resistindo à tentação do salto para o corpo desalmado de algum dos tubarões de Wall Street que por ali terão passado, a prova de fidelidade desta pobre alma reconciliou-me com a vida.

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