junho 17, 2007

Compadres


Lembro-me de ter visto isto em directo, no solstício de Verão de 1990. Paco de Lucia e Manolo Sanlúcar representaram a Espanha num programa com ligações em directo para momentos musicais em diferentes países de todo o mundo; Portugal entrou com uma guitarrada (Verdes Anos) de Carlos Paredes, tocada no claustro do Mosteiro dos Jerónimos. Este vídeo tem um valor sentimental porque desde então passei a gostar de Flamenco. Mas guardo alguma objectividade para reconhecer nesta actuação um dos melhores duos de guitarras flamencas que ouvi até hoje. E aqui também se prova que Manolo de Sanlucar é um guitarrista que nada deve a Paco. Peço-vos, ainda, que reparem na fina qualidade do tecido das camisas que os mestres vestem.

maio 27, 2006

Paco de Lucia (1947-)

Texto para breve, que este senhor merece empenho.
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maio 07, 2006

Some of the less musically inclined

woody Allen.jpg The worst thing is the waiting. Arturo has a guitar but can only play "Cielito Lindo", and while the men rather liked to hear it at first, he seldom gets any more requests for it. (...) Those of us who were not in the raid set around camp while Arturo favored us with some "Cielito Lindo". Morale remains high even though food and arms are virtually nonexistent and time passes slowly. Luckily we are distracted by the three hundred degree heat... (...) I, of course, remain loyal to the cooking but the men still do not seem to appreciate the dificulty of that assignment. The fact is, my life has been threatened if I don´t come up with an alternative to Gila monster. (...) Meanwhile we sit around the camp and wait . Vargas is pacing in his tent and Arturo sits playing "Cielito Lindo". (...) Finally, with frustrations at peak, Arturo struck up "Cielito Lindo" and some of the less musically inclined ones in the group took him behind a rock and forced-fed him his guitar. Viva Vargas!, de Woody Alleen, história originalmente publicada na Evergreen Review e depois na colectânea Getting Even (1966).

Não consigo argumentar que Viva Vargas! seja a melhor das histórias do Woody Allen de 1966-1975, mas posso explicar a preferência. Qualquer músico medíocre sabe que a sua vontade de tocar é superior à vontade que os outros têm de o ouvir. Este desajuste é causa de grande sofrimento. Daí eu gostar tanto de Arturo, o músico dos revolucionários que só sabia tocar o Cielito Lindo. A tragédia deste guitarrista funciona para criar tensão (efeito que se perde quando junto todas as referências a Arturo) e não é essencial à história, que conta em registo de diário as desventuras de um anti-herói sob as ordens de Emilio Molina Vargas. A história lembra um filme de Allen posterior, Bananas (1971). Por causa da espera, a frustração cresce entre os revolucionários. Eles torram sob o sol do México, estão forçados a uma monótona dieta à base de carne de lagarto ("Gila monster"), acumulam derrotas e sentem-se tentados a desertar. O final acaba por ser feliz para os revolucionários, que conquistam acidentalmente o poder, mas Allen não nos informa se Arturo recuperou da tortura e chegou a ministro da cultura. Reli hoje a história, na sua língua original. O "forced-fed" é uma expressão poderosa e não tenho presente qual a opção que o tradutor tomou na versão portuguesa que li na adolescência. O certo é que me marcou, ao ponto de ter andado anos com sal e pimenta dentro do estojo da guitarra, não fosse o diabo tecê-las. É claro que os anos vão limando estes desvarios; hoje em dia faço-me acompanhar de um boiãozinho com moutarde de Dijon e entretanto aprendi a tocar mais duas canções.

abril 19, 2006

Air conducting

M.jpgO air guitar (playback digital sobre o braço de uma guitarra virtual) não morreu, mas definhou quando o guitar hero e o virtuosismo pelo virtuosismo passaram de moda. Confesso que gostava do vício. Desintoxiquei-me a tempo, porque alimentava a ilusão de poder vir a ser um bom guitarrista a sério e o air guitar era coisa de adolescentes sem talento e sem os talentos para a guitarra. Mas é verdade que a prática democratizava o solo e nos anos oitenta todos tínhamos um Yngwie Malmsteen dentro do peito.

Entretanto engordei, rapei o cabelo, só já toco guitarra acústica e tenho vergonha de escutar Heavy Metal no carro. Comecei também a ouvir música clássica de outros períodos que não o Barroco. Enfim, aburguesei-me e o air guitar está morto e enterrado. Sucede que trabalho agora à bancada - como um talhante, mal comparado - com um colega melómano. Falamos dos últimos quartetos de Beethoven e outras preciosidades. Mas quando não falamos, e enquanto ele vai mexendo nos tubos e na maquinaria, sempre que fica com um braço livre, o membro anima-se com uns compassos da grande música. Há ali talento, o gesto seguro. O homem tem todos os naipes na mão e quando enrija as falanges eu vejo o acorde mais tenso. É absolutamente hilariante. E é também de um grau de dificuldade apreciável, porque ele até trabalha bem. Duvido que o Furtwängler fosse capaz de semelhante multitasking.

março 16, 2006

"Manitas de Plata" e BB

As minhas desculpas aos puristas, mas este vídeo vale pela parceria. O pedido de desculpa - esclareço - não é por mostrar a Bardot, mas antes por incluir o Manitas entre os grandes guitarristas de Flamenco.

Camarón e Tomatito (II)

Camarón e Paco (II)

Morente e Pepe Habichuela

março 15, 2006

Camarón e Tomatito

Vicente Amigo tocando Vicente Amigo

John Williams toca Albéniz

Gostaria de ir deixando uns apontamentos sobre os guitarristas e as peças, mas de momento "não tenho tempo".

março 14, 2006

Irmãos Assad tocam Piazolla

Bream (alaúde) toca Vivaldi

Bream toca Villa-Lobos

Bream toca Bach

Segovia toca Albéniz

março 09, 2006

Paco e Manolo

fevereiro 16, 2006

José Peixoto

peixoto2.jpgTive o privilégio de escutar José Peixoto de ouvido encostado à porta de um dos pequenos estúdios de guitarra da Academia de Amadores de Música, num sótão mágico com vista sobre Lisboa. Peixoto é um guitarrista introspectivo de um bom gosto extremo, que se manifesta também nas capas dos seus discos e nos títulos dos temas.


O andamento do tempo (As Vozes dos Passos, 1996)

fevereiro 12, 2006

Um homem feliz

vicente 25.jpgVicente amigo é um guitarrista de indisfarçável fotogenia e a imagem do lado só não era a minha preferida por parecer demasiado encenada. Erro meu. Amigo, ao vivo, está sempre a oferecer a jugular à assistência.
Dando de barato que discorrer sobre vidas alheias a partir de uma mão cheia de impressões revela alguma presunção e é um exercício condenado ao fracasso, pela forma como Amigo goza o palco e pela modéstia com que se dirige ao público, só posso concluir que ontem estive diante de um homem feliz. Há nele uma descontracção sem espalhafato que seduz antes da primeira nota. A primeira nota, convém precisar, foram várias, uma cascata de sons arrancados a solo e de rompante, numa afirmação de pirotecnia de quem se sabe virtuoso mas prefere prová-lo de imediato. Seria dispensável, mas nele o virtuosismo surge com naturalidade, alguma urgência e serve quase sempre a música. Amigo é o melhor guitarrista da sua geração, o mais premiado e o mais requisitado. Mesmo quem não gosta de Flamenco provavelmente já o ouviu (o solo sobre o tema da banda sonora de Hable con ella que acompanha o genérico final, por exemplo, é dele).
Tirando alguns temas com um som demasiado "EMC" (acompanhamento a baixo eléctrico, pianola e falsete à Milton Nascimento), foi um concerto irrepreensível. Não sei se me fascinou mais a complexidade rítmica que habita a mão direita de Amigo ou a fluidez das suas falsetas, mas trata-se de uma dúvida irrelevante. Bom foi testemunhar a alegria com que se tocou, bailou e cantou a buleria final, um encore memorável. Benditos sejam os ciganos da Andaluzia.

(Town Hall, noite de 11 de Fevereiro, sozinho entre muitos espanhóis.)

fevereiro 06, 2006

Béart

beart-1.jpgO pai da Emmanuelle é um senhor (se calhar faleceu, não faço ideia) que toca guitarra e canta, o Guy Beárt. Era (se for vivo ainda é) chato na quinta casa (estas coisas não melhoram com a idade). Ora, quando eu vivia em Paris, vi vezes sem conta os escândalos televisionados do Serge Gainsbourg, já finado, mas nem por isso deixando de piorar com a idade. Não por culpa dele, o pobre. É que aqueles arquivos eram explorados à exaustão: o Serge a queimar a nota, o Serge a dizer em directo à tonta da Whitney Houston que a queria papar, um grande plano sobre um Serge prestes a chorar diante de um coro de mini-Serges, miúdos mascarados com a barba de três dias e o requinte do copo na mão, a entoar a La Javanaise (seria?). Na semana seguinte, repetia. Rival à altura, só as imagens do Maio de 68, mas o Daniel Cohn-Bendit carecia de versatilidade e ficava-se pela oftálmica em exoftalmia ao polícia. O Serge, não; tinha um cânone completo. E, de quando em quando, lá entremeavam uma raridade dos arquivos. Como um debate (os franceses são imbatíveis na arte do debate, ao ponto de dispensarem o tema) entre criadores, que juntou o Serge e o Guy Béart. Gainsbourg devia ter acordado mal disposto, ou já tinha bebido, ou ainda não tinha bebido (e nenhuma das hipóteses exclui as outras, em França é assim). O certo é que resolveu embicar com o Guy, que estava no estúdio de guitarra ao colo. Não fazendo por menos, disse que quem cantava acompanhado à guitarra não podia ser levado a sério. É sabido que o Serge era um pianista competente embora frustrado, bem como um provocador, mas o Béart levou aquilo a peito e tentou argumentar. Não foi bonito. Pobre Guy. Emmanuelle teria uns 16 aninhos quando aquilo aconteceu. O que andaria ela a fazer? Bem, ficamos assim. A ideia era colocar esta foto da filha do Guy, que aprecio de sobremaneira, mas como já não tenho idade (ou o estatuto do Mexia) para mostrar fotos de mulheres por dá cá aquela palha, senti necessidade de juntar uma nota mundana. Fui bavard, o que até calha bem.

janeiro 31, 2006

Celebrar Mozart

Prelude.jpegViva Mozart, que nasceu há 250 anos. A propósito, Johann Sebastian Bach nasceu há 320 anos e 316 dias. Estamos pois em data oportuna para deixar aqui, directamente da minha discoteca, uma gravação da música de Bach por Andrés Segovia. Trata-se de uma preciosidade de 1952, digitalizada entretanto pela rapaziada da Deutsche Grammophon. O mestre toca uma versão do Prelúdio da Suite Número 1 em Sol Maior para Violoncelo (BWV 1007), transposta para ré maior, que é a tonalidade natural da guitarra.

janeiro 18, 2006

Irmãos Assad

Assadbro.jpgA probabilidade de se encontrar uma citação de Chopin nos livrinhos que acompanham os CDs de música para duos de guitarra é elevadíssima. O pianista terá dito que nada é mais belo do que uma guitarra a soar, excepto talvez duas guitarras. Melhor, só por encomenda.
Há dois duos para guitarra (clássica) incontornáveis: a parelha Julian Bream - John Williams e os irmãos Sérgio e Odair Assad. Os primeiros já não tocam juntos, mas os brasileiros Assad estão activíssimos. Para mim - e aqui não sou original -, são o melhor duo de guitarra de todos os tempos. Cheguei a ouvi-los na Gulbenkian, há muitos anos. Não sei se passam regularmente por Portugal, mas desconfio que não. Se fosse responsável por um calendário de concertos, não hesitaria em trocar muito pianista pelos Assad. Sucede que a guitarra clássica, apesar de tudo e de Chopin, ainda é coisa só para aficionados. É verdade que o instrumento tem uma limitação intrínseca - o baixo volume -, mas é a única. As outras estão na cabeça de quem só tem ouvidos para Sonatas de Beethoven e quartetos de cordas. Escutar os Assad uma vez por ano não é um privilégio, é um dever. Discografia? Todos os discos dos irmãos Assad.

setembro 08, 2005

Gismonti

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Escolher o tema musical preferido é uma tarefa condenada ao fracasso. Porque confiamos demasiado na memória e nos traímos. Porque revelamos a nossa ignorância, também; quanta melodia não andará por aí que teria a minha preferência se a tivesse ouvido? Dito isto, sem tempo para escrever sobre um dos meus músicos brasileiros de eleição, o colossal Egberto Gismonti, deixo-vos aqui o tema instrumental para guitarra que mais vezes consigo ouvir de seguida sem que me canse: Memória e Fado, a faixa sete do álbum Dança dos Escravos.

agosto 20, 2005

Dave Matthews

1 Dave Matthews.jpgO trabalho de Dave Matthews tem dois problemas que não são verdadeiramente questões de música. O primeiro é o tipo de letras que ele escreve, ora cheias de piscadelas de olho a sexo e drogas, muito ao gosto dos adolescentes, ora pesadas e depressivas, muito ao gosto de algumas pessoas. Este é um problema que não me afecta, porque geralmente não ligo às letras quando ouço pop. O segundo problema -oiço dizer- resulta do grau de excitação dos seus fãs nos concertos, sempre a gritar para o palco e com a mania de cantar os temas. Haverá talvez um terceiro problema - o facto de agora toda a gente ouvir Dave Mattews - mas seria estúpido perder tempo com esta questão. O que interessa em Dave Matthews é a forma como ele toca guitarra.

julho 26, 2005

Um guitarrista teria obviamente escolhido o ré.

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Chema Madoz

A imagem foi roubada do Letteri Café, que tem o melhor combinado de textos e imagens da blogosfera lusófona.

junho 24, 2005

Ana Vidovic

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Ouvi há minutos, pela primeira vez, a guitarrista Ana Vidovic. Com uma técnica absolutamente prodigiosa - ligados, legato, destreza e limpidez impossíveis de superar- só lhe faltou alguma maturidade e volume na transcrição da primeira sonata de Bach para violino. Estamos na presença de um talento excepcional.

Haveria muito a dizer sobre Vidovic e a escola de Zagreb de guitarra clássica, mas terá de ficar para mais tarde.

maio 29, 2005

BnO (42)

Um dia perguntou-me se eu não era ainda muito novo para ler Eça. E eu, já ciente de ter falhado a precocidade em tudo na vida, fiquei a gozar o momento, esquecendo por instantes que se alguma anormalidade havia, era coisa para um trimestre; o livro fazia parte do currículo do ano lectivo que se anunciava logo a seguir ao Verão. Este mesmo homem gostava de me ouvir estudar guitarra no patamar, vício que alimentei durante umas semanas, encantado com as propriedades acústicas do lugar. Ia para lá depois do jantar e tratava o instrumento com a destreza de um ungulado, mas ele apreciava. Se estivesse no elevador, parava de propósito e vinha ouvir. Era um fulano em paz com a vida e de enraizados hábitos, que praticava com uma impressionante regularidade (o Kant local), como passear o cão e passear sozinho, de mãos atrás das costas. Gozava o bairro, ao contrário de outros magistrados, sempre soterrados nas resmas de processos e entrincheirados nas lombadas da jurisprudência. Muitos anos depois, no mesmo local que já não era a minha casa, cruzei-me com ele. Um olhar imensamente triste, uma morte que lhe pesava, os dois no átrio do prédio. Eu agarrado à porta, não sabendo quando nem como fechá-la, debitando palavras de consolo sem grande jeito, a tentar o golpe de rins esperançoso mas sempre a deslizar para as memórias comuns. Desejei ter à mão uma guitarra, para tocar um chorinho ou qualquer coisa de improviso.
No “nada é mais inabitável do que o lugar onde se foi feliz” está implícita uma vivência infeliz e posterior noutro local. A expressão foi bem burilada, mas na altura pareceu-me o cúmulo do egoísmo. Ou coisa de misantropo. Com o devido respeito, muito mais inabitável é o lugar onde fomos felizes com quem deixou de o ser, fórmula que remete para uma felicidade presente de súbito virada contra nós. Poucas vezes estive num lugar tão inóspito como aquele átrio, naquele dia. Apressemos o futebol, então: o senhor jogava mal, mas tratava a bola com inteligência; vestia-se de branco como se fosse para um court de ténis e nos raros golos que marcou festejava com alegria pura, sem as manias do craque que faz disso uma rotina.

maio 07, 2005

Gilberto: voz e guitarra

gilberto2.tiffO Ivan verdadeiro oferece um bom ponto de partida para se perceber o encanto da voz de João Gilberto. Põe-se Gilberto a tocar e parece que ele está mesmo da sala de estar, sentado no sofá. A julgar pelo legado histórico, desde as gravações dos anos cinquenta, a construção de um canto depurado foi feita sem grande esforço. Gilberto continua a cantar quase como sempre cantou. Só os rumores de um feitio difícil e de um perfeccionismo obsessivo perturbam a imagem de um caminho tranquilo. Quando se faz o contraponto entre a voz de Caetano e a voz de Gilberto, é incontornável não mencionar o vibrato e ornamentos arabescos do primeiro, mas creio que a diferença principal começa na ausência de dinâmica em Gilberto. O seu volume de voz surge quase inalterado, não numa canção em particular, mas em todo o seu repertório. Há uma explicação provisória: os temas da canónicos da Bossa-nova fazem alusão a um universo nos antípodas do sangue e sofrimento do tango e do flamenco, por exemplo, prestando-se ao sotto voce gilbertiano. Esta ausência cria e exige espaço para um respeito absoluto do texto (dicção e acentuação) e põe a nu a espécie de baixo-contínuo invertido que é a linha melódica gilbertiana, bem como o tratamento rítmico de discreto virtuosismo (oiça-se a fabulosa versão de Sampa, tão distante das interpretações de Caetano e Gilberto, tão estranhamente natural). Ao celebrado Desafinado, que remete para os acordes dissonantes da Bossa Nova, podia ter sucedido um Arritmado, que homenageasse as brincadeiras rítmicas que João Gilberto faz com o texto. Ora, estas duas características do cantor devem muito ao instrumentista.
O baixo-contínuo invertido de Gilberto é a expressão do seu entendimento vertical da música. A complexidade harmónica da Bossa Nova perturba o guitarrista principiante, habituado aos quatro acordes quadrados com que se domina os grandes temas dos Pink Floyd. Uma canção de Bossa Nova faz-se acompanhar por 10, 15, 20 posições diferentes na guitarra, que exigem uma coreografia digital contra-natura, até ao momento em que se percebe a lógica de economia de esforço subjacente. Esta complexidade harmónica seduziria os adeptos do jazz os princípios dos anos 60, fechando um círculo. Na verdade, a Bossa Nova tinha ido buscar muito ao jazz e à enorme riqueza da música popular brasileira dos anos cinquenta, nomeadamente ao samba-canção. Os arranjos para a guitarra de João Gilberto são de uma sucessão de escolhas nem sempre típicas mas em que tudo parece fluir naturalmente. É aqui oportuno realçar que João Gilberto é mais do que um intérprete superlativo, porque a forma como se acompanha à guitarra faz dele um arranjador brilhante. Ele não existe sem a sua guitarra e é inútil tentar perceber se é a sua voz ou a forma como toca que o tornam excepcional. A guitarra de Gilberto, no seu ascetismo aparente, sintetiza uma série de elementos da música popular brasileira e é quase orquestral (ou coral, se se preferir, dada a preponderância dos acordes de quatro notas).
O depurado tratamento rítmico da melodia é indissocável da batida da(s) batida(s) de Bossa Nova na guitarra, um jeito sincopado de pulsar as cordas que foi roubado do pandeiro e surgiu nos seminais Chega de Saudade e Bim-Bom. A batida de João é hoje indissociável da música popular brasileira e contagiou inúmeros outros estilos, da pop ao jazz. Nas palavras de um entendido:"... os dois princípios articulados na batida da bossa-nova são a regularidade, que rege os baixos, e a não-regularidade, que orienta os acorde na variação de uma base que, algumas vezes, é realmente tocada. Ressalte-se que essa articulação soa sem qualquer conflito pois, no fluxo da canção, a não-regularidade se constitui a partir da regularidade, e a regularidade é reforçada pela não-regularidade." A ausência de harpejos (as notas do acorde tocadas individualmente) ajuda a fundir ritmo e harmonia e consolida o ascetismo da Bossa Nova.
Lê-se com frequência que no final dos anos cinquenta o fenómeno João Gilberto ajudou a popularizar a guitarra (o violão) junto das elites. Há aqui algum exagero. Se é verdade que o violão sempre foi o instrumento das classes populares, "coisa de vagabundo", muito antes de João Gilberto já as elites (inclusive as elites musicais) haviam mostrado interesse pelo instrumento, sendo Villa-Lobos - com os seus estudos para guitarra, a suite popular brasileira, o famoso choro, etc - o melhor de muitos exemplos. Inegável é a influência de João Gilberto em quase todos os compositores brasileiros que depois vieram. O sucessor de João Gilberto tem sido o próprio João. Por reverência ou incapacidade, ninguém se apropriou do estilo dele. Mas há hoje pedaços de João Gilberto por todo o lado.

Já quase no fim de escrever este texto deparei com um artigo que diz tudo o que eu pretendia escrever. É algo embaraçoso para mim, mas aqui fica o enlace. Quem tem conhecimentos de música poderá apreciar este outro artigo.

abril 28, 2005

De um certo ponto de vista

A minha evolução como guitarrista tem consistido em aumentar o repertório de peças que não consigo tocar até ao fim.

abril 06, 2005

Encontro com Manuel Reyes

1974_Reyes_Negra_labe_[1].jpgChego à oficina de Manuel Reyes ainda de manhã, depois de ter andado perdido pelo labirinto que é a judiaria de Córdova. Trata-se do rés-do-chão de uma casa modesta, na Rua das Armas. Não foi a sua primeira morada, como se pode ver na etiqueta de guitarras mais antigas. Reyes abre-me a porta. Dir-me-á mais tarde que anda a passar para o filho a arte, mas eu nunca chegarei a ver o rapaz (homem crescido?). Uma Reyes é instrumento que pode custar acima de 10 000 dólares e o mestre tem uma lista de espera de 22 anos. Que ansiedade habita um homem de 70 anos com uma lista de espera de 22 anos? Viverá ele com uma sensação de incompletude ou, pelo contrário, olha a lista de espera como uma reclamação antecipada capaz de o resgatar à morte? Reyes topou-me logo: mais um curioso do flamenco, mau guitarrista certamente, à caça de autógrafo ou história para contar aos amigos. Foi cordial, porém. "Não tenho muito tempo. A família espera-me", disse-lhe eu, com algum embaraço. "Eu também não tenho muito tempo", retorquiu ele, sem acrescentar que a elite dos guitarristas vai esperar por ele até ao fim dos seus dias. Até ao fim de seus dias. Mostra-me depois umas guitarras de estudo, provavelmente umas Reyes com pouco mais de Reyes que a etiqueta. Fraude? Respeitinho, por favor. Manuel Reyes é um senhor. Fala daquelas guitarras com algum desprezo, percebe-se logo tudo. São instrumentos que receberam o toque de Reyes, suficiente para fazer das madeiras mais ordinárias o mais raro pau-santo, pelo menos na cabeça de quem as compra. Isso paga-se. É então que reparo nas mãos de Reyes, algo papudas, com unhas de guitarrista no tamanho, mas quebradas e gretadas pelas rotinas do artesão. "E Vicente Amigo, toca com uma Reyes?" Ele diz-me que sim e torna-se irresistível não lhe sacar um cumprimento, gesto que ele concede com alguma irionia e magnânimo orgulho. Nessa noite, enquanto oiço uma Soleá tocada por Amigo, não posso deixar de pensar na cadeia de ligações que só a mente de um fanático pode conceber: a minha mão direita, a mão de Reyes, a guitarra de Amigo, os dedos de Amigo e o acorde final, na palma da minha mão esquerda.

fevereiro 13, 2005

Morente e Tomatito

Tomatit1.jpg
Estou sem tempo. 6 apontamentos apenas sobre o concerto de ontem no Carnegie Hall:
1. Há um universo de flamenco mau, feito de rumbas açucaradas e de espanholadas - a guitarrada da praxe - enxertadas noutros géneros; há ainda o grande equívoco de equiparar o Flamenco a Sevilhanas. Estes elementos explicam a deserção de alguns ignorantes após os primeiros vocalizos de Morente. Ficou mais limpa a sala.
2. Morente tem a figura do Joe Pesci. Felizmente, não ficou com a irritante voz do actor, mas não é tanto o timbre de Morente que impressiona, antes a técnica e a interpretação. Demorou algum tempo a soltar-se, e depois foi em crescendo, até ceder à tentação de ir comer os bocadillos que, segundo o próprio, os esperavam nos bastidores. Morente falou pouco, mas sempre em castelhano e só fez uma piscadela de olhos para americano ouvir (dois ou três versos de um tema de Gershwin, num inglês quase indecifrável).
3. O que se ouviu ontem foi flamenco puro. Não é fácil gostar do flamenco cantado. É preciso aprender. Eu cheguei ao flamenco pela guitarra e demorei anos a começar a gostar do cante, mas os prazeres conquistados depressa se tornam nos mais saborosos.
4. Tomatito é um guitarrista sólido, portentoso e generoso. Sólido: o Carnegie intimida os mais experientes, como Caetano Veloso, que se esqueceu de uma letra e massacrou o público com um discurso sem pés nem cabeça; Tomatito entrou sozinho, com a descontracção e altivez dos ciganos, e arrancou para 10 minutos de grande virtuosismo. Portentoso: a mão direita de Tomatito devia ser clonada. O Flamenco é sobretudo ritmo e Tomatito, embora versado em harmonias complexas e melodias insipiradas, sabe tratar a guitarra como um instrumento de percussão. Dos guitarristas que ouvi ao vivo nos últimos tempos - incluindo Paco e Almodovar - Tomatito foi o que mais me impressionou pelo ritmo. Generoso: os guitarristas de flamenco conseguem atingir uma popularidade internacional que está vedada aos cantores, mas no flamenco o guitarrista é apenas o acompanhador, mesmo tendo em conta que o diálogo que se estabelece entre ambos é mais complexo do que, por exemplo, no fado. Tomatito foi discreto, minimal até, não se alongando nas falsetas, contrastando com o festival de guitarra com que nos brindara momentos antes, a solo ou com os percussionistas. Cedeu claramente o palco a Morente.
5. Grande momento da noite: os cinco músicos de pé, em roda aberta, quase em cima da plateia e praticamente sem amplificação, cantando e patendo palmas à desgarrada, com Tomatito a fazer umas linhas melódicas que mais parecia virem de um alaúde árabe.
6. O público foi entusiasta. Silêncios pontuados por provocações amistosas para os músicos, "Olés" de aficionados, explosões de palmas e gritos no final de cada tema, particularmente violentas após as bulerias. Não me escapou também o bilhetinho atirado para o palco, no final, que o percussionista do cajón, rapaz de extensa coxa, guardaria no bolso com um sorriso maroto (este deve ter dispensado os bocadillos). Assim por alto - e do alto do segundo balcão- , pelos narizes de ave das mulheres, pela qualidade da roupa - vestem-se bem, raios - e por alguns cromos com estilo excêntrico e retro, que pareciam vir directamente da movida madrilena, arrisco dizer que um terço da sala esteve por conta de espanhóis. Grande música, grande povo. Qualquer dia mudo-me é para Madrid. Ou para Sevilha.

janeiro 09, 2005

Pariscópio (3)

Na rue du Château comunicava-se em música triste. A vizinha do 1° esq tocava Satie num piano herdado e era sempre o mesmo Satie, provavelmente o primeiro Satie que lhe ocorre a si agora; isso, naaaaã, nã, nã, nã, nã, nã ,nã, nã, naaaã... A Gymnopédie Nº 1 para Mlle. Jeanne de Bret aparecia nos dias úteis, ao princípio da noite , terminava com poucas fífias e parecia que era para mim. Do 2º esq vinha música de câmara ao Sábado, coisa de crianças educadas, que estudavam violino, flauta e violoncelo e parecia que tocavam para a mãe delas. A vizinha do 3° esq fazia da música profissão e estranhamente não tocava em casa, mas desceu uma vez para me pedir que não cantasse na casa de banho. É claro que fiquei ofendido. Valeu-me ser ela bonita. Em dois anos foi a única vez que falámos. De resto, pouco mais disse à vizinhança daquele prédio na rue du Château. As escadas e os patamares costumavam estar bem encerados, mas nunca percebi quem se ocupava do condomínio. Naquela altura ainda pensava ser possível vir a tocar Villa-Lobos na guitarra. Tudo isto agora soa a metáfora. Soa mesmo.

dezembro 12, 2004

Urge ouvir Manolo

Poucas devem ter sido as formas musicais de raiz popular que registam uma evolução comparável ao que sucedeu com a guitarra de flamenco no último quartel do século passado. É impressionante ouvir os mais consagrados guitarristas de princípios e meados do século XX (Ramon Montoya, por exemplo) e escutar depois a geração actual. A diferença deve muito à qualidade da gravação, mas isso não explica quase nada, porque logo notamos, com algum espanto, a evolução que houve na técnica de tocar: os guitarristas actuais são mais seguros e mais rápidos, são capazes de um leque de timbres muito mais vasto e conseguem efeitos de dinâmica mais subtis. Em comparação com as diferenças registadas na história recente da guitarra clássica, a evolução da técnica da guitarra de flamenco parece quase uma improbablilidade. Andrés Segóvia (a referência histórica dos guitarristas clássicos) ainda seria hoje um guitarrista fora de série, sem que a sua técnica o envergonhasse diante dos discípulos dos seus discípulos. Já sobre Montoya, se tocasse agora como antes tocava, atrevo-me a dizer (até porque isso não o diminui) que não ficaria para a história. Em paralelo com os progressos técnicos, os guitarristas de flamenco atingiram também uma sofisticação harmónica e rítmica impensável em 1950. Melodicamente as falsetas não terão evoluído muito, mas o suporte harmónico enriqueceu-se, roubando acordes e encadeamentos sofisticados ao jazz, no seguimento de experiências de música de fusão que terão começado em força nos anos 60 e 70. A complexidade rítmica aumentou também, com a contínua experimentação e incorporação de ritmos das Américas Central e do Sul, enriquecendo ainda mais uma forma de música que inventara já preciosidades como a Buleria, ainda que por vezes apenas em bolsas de resistência, que felizmente souberam evitar essa praga- essa tentação faustiana, na verdade- que é a Rumba. A história do flamenco, com os seus períodos de estagnação de revolução, reflecte a história de um país, a Espanha, e da população cigana da Andalucia. Pioneiros na epopeia da guitarra de flamenco houve muitos, mas sobressaem dois gigantes: Manolo de Sanlúcar e Paco de Lucia. O segundo já todos ouviram. Oiçam agora o primeiro. Oiçam-no primeiro.

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abril 21, 2004

Caetano sem Byrne

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Houve uma altura em que alguém me passou de novo os binóculos e, daquela vez, por puro engano, espreitei por eles ao contrário. Se disser que parecia que a luz andava para trás, ninguém vai acreditar, mas era como se espreitasse através de um caleidoscópio e presenciasse um festival de luz insuspeitado. Como poderia não prolongar aquele momento? Ouvi toda a canção com os binóculos invertidos. O já franzino Caetano, lá ao fundo, a uns bons 80 metros de distância, reduziu-se então a uma insignificância microscópica e tornou-se, todo ele, literalmente canto. De uma estranha forma, os binóculos ajudaram-me uma vez mais a ver melhor.
É preciso lembrar que o palco do Carnegie Hall faz lembrar o salão de festas de um palácio neoclássico depois da visita de uma quadrilha da ladrões. As paredes têm um ar desolador e austero; pedem quadros com moldura de talha dourada e dão-se mal com o Tropicalismo. Esclareço também que o fundo de paciência que reservo para tudo o que o Caetano Veloso diz apresenta um saldo negativo há já uns anos. Para mim, como para tantos outros, o cantor sofre de excesso de opinião. Registe-se ainda o péssimo trabalho de luminotecnia. Das duas uma, ou o técnico de luzes era incompente ou vinha do Midwest e treslera o comentário aparentemente elogioso de Caetano à aparência de Bin Laden. Para rematar, a mania que Caetano tem de cantar em inglês é algo que apenas tolero. Trata-se de mais uma manifestação do Zelig que há em Caetano; não é que ele cante mal em inglês, mas aborrece vê-lo reduzido a um irrrepreensível cantor do circuito dos bares, sabendo que aquela voz é absolutamente genial noutras línguas. Impunha-se dizer tudo isto, porque o que se segue é puro elogio.

Ao contrário de quase todos os meus amigos, cheguei tarde à MPB. Aos quinze anos ouvia Iron Maiden e seria capaz de perguntar, convictamente: “quem é o Bossa Nova?” Comecei depois a estudar guitarra. A ideia inicial- tornar-me um
guitar hero- não tardou enredar-se na lentidão dos meus dedos e fiquei nas covas, a decifrar partituras obscuras. Uns anos depois, o agora respeitado compositor de música contemporânea João Madureira, que então alinhava comigo num coro, propôs dar-me aulas de “composição”. O método do João era pouco ortodoxo, mas muito interessante (não produziu grandes resultados porque eu era um cábula). Em vez de usarmos o material do costume (corais de Bach e coisas desse estilo), escolhíamos standards da bossa nova e da MPB. A primeira música harmonicamente esmiuçada tinha um nome assustadoramente profético: Insensatez. Insensatos ou não, a verdade é que há naquele material pano para mangas e o João, que aliava já um conhecimento teórico muito sólido à mestria com que sacava de ouvido as malhas de João gilberto, perdia-se em explicações enquanto me abria os ouvidos para a música do Brasil. Meses depois, terminado aquele efémero período de formação, resolvi dar descanso ao tema Travessia, de Milton Nascimento, e, sem o saber, encontrei uma canção perfeita: Coração Vagabundo, de Caetano Veloso. Esta é, para mim, uma canção insuperável, objectiva e intrinsecamente perfeita. Persiste na memória sem o insidioso legado da adolescência que nos transforma em cães de Pavlov. Longe de tudo isso, o meu Coração Vagabundo não se compromete com lembranças de namoradas, do tal slow, do tal beijo, do tal fim de semana ou de qualquer outro acontecimento relevante. Em suma, não faz de marco biográfico. Ali está, sempre presente e a chamar por mim quando há uma guitarra por perto, para me lembrar que não há uma sílaba a mais e que o seu ritmo é uma prisão sem grades... (continua)

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fevereiro 24, 2004

Zeca

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Felizmente há blogosfera. Assim mesmo, quase analfabeticamente. Porque os jornais têm obituários prontos de antemão mas depois esquecem. Também eu me tinha esquecido, mas na ronda dos blogues fizeram-me recordar de novo, do Redondo Vocábulo que nem me atrevia a cantar, mas lia baixinho, aos acordes com ginga de A Morte Saíu à Rua. Naquelas tardes a vinil, o ré menor na guitarra ainda era de execução transcendental... Muitos anos depois, domesticado o ré menor, vai apetecer tocar e cantar qualquer coisa do Zeca em terra de gringos e a uns quarteirões apenas do Kissinger.

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janeiro 17, 2004

100 temas

5. Tauromagia (Manolo Sanlucar)


6. Caminos (Suite Andalouse, Pedro Soler e Renaud Garcia-Fons)


7. Córdoba (soleá) (Vicente Amigo)


8. Rio Ancho (Rumba) (Paco de Lucia e F. Sanchez)


9. Gua 'iras de Lucía (Paco de Lucia e F. Sanchez)


10. Adelita (Francisco Tárrega))


11. Canarios (Gaspar Sanz)

dezembro 20, 2003

100 temas


Roubei sem vergonha uma ideia do 1bsk. Aqui, peças do repertório de guitarra clássica e de flamenco substituem filmes e, em vez dos títulos inspirados do Alexandre, descreverei pequenas cenas.

1. La Última Canción (Agustín Barrios Mangoré):

um homem avança por um descampado, esmagando flores rasteiras, formigas e tocando ainda em minas fora do prazo de validade a cada 10 passadas. Vem um aguaceiro e o homem queixa-se da sorte.

2. Berceuse (Leo Brower):

ao pressentir que estava a chegar ao fim da inteligência, contava encontrar um espaço de nevoeiro, ou um vácuo escuro de temperatura amena e regido pela impoderabilidade. Deparou com uma parede verde, como as que os tenistas usam para bater bolas. Aproximou-se dela, sacou um pau de giz do bolso e pôs-se a desenhar planos para uma catapulta.

3. Prelúdio I (Heitor Villa-Lobos)


4. Adios Nonino (Astor Piazolla)