
A educação grega era sobretudo Ginástica, Música e Retórica. Fast forward para o Quadrivium, que incluía a Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música. Mas eu, quando criança, apenas aprendi a tocar o Hino da Alegria numa flauta de bisel de plástico, ensinado por uma senhora velhota que deixava o bocal dela com marcas de batom, isto é, que tocava como muitas mulheres bebem uma bica, detalhe que muito me desgostava e me afastou da música durante os anos críticos. A isto se chama, creio, o declínio da Civilização Ocidental.
Estou sem tempo, mas adianto já o essencial: ponham os vossos filhos a estudar um instrumento. Perguntem à criança de que instrumento gosta, mas tenham presente que é uma pergunta retórica. Se a criança não gosta de nenhum instrumento, escolhem os pais. Se a criança se manifesta contra a ideia, leva uns calduços. Até aos 7 anos, como se sabe, as crianças têm emoções mas não sabem o que é melhor para elas.
Um instrumento só se aprende quando se é novo. Depois escasseia a plasticidade neuronal e o tempo. Comecei a aprender guitarra só aos 16 anos e ainda hoje não sei tocar. É a minha maior frustração.
Vem isto a propósito de um momento musical sublime. Na despedida do laboratório de um colega, um outro colega tocou violoncelo, ontem. Bach na biblioteca da universidade, para um grupo pequeno, em ambiente de estudo, paredes forradas de livros, alcatifa esverdeada, tudo a cheirar e a parecer a anos 70. O Acácio conseguiu algo que não está ao alcance de nenhum músico consagrado: surpreender. Aqueles primeiros segundos, quando atacou o violoncelo, vão ficar na memória de toca a gente. Eu já sabia que ele só podia ser um bom instrumentista, porque quase se tornou um músico profissional, mas ignorava que tocasse assim tão bem. E os outros nem isso sabiam. Não sabiam que Acácio tem um som superior nos movimentos lentos e que nas passagens rápidas, se é verdade que por vezes não consegue abafar uns sons parasitas, ainda guarda a agilidade dos virtuosos.
Acácio é excepcional a vários níveis, talvez por ser alemão. Na família todos tocam. Fazem música de câmara durante as férias do Natal e garanto que não é para entoar a Noite Feliz. Acácio ao violoncelo, sua mãe ao violino, sua namorada ao piano. Reparem: Acácio tem uma namorada que lhe dá apoio harmónico, ou seja, a sua vida é praticamente perfeita.
É também excepcional por continuar a tocar. Ele já não tem o apuro de outrora, perdeu o pico de forma, mas toca para os outros e com outros. É para isso que a música serve. Em Portugal, convivi com muitos estudantes de música, que simplesmente deixaram de tocar quando perceberam que nunca chegariam a concertista e foram estudar - sei lá - Gestão. Percebo a frustração de se perder o som que se tinha, mas faz algum sentido passar os anos formativos a tocar 7 horas de piano por dia e o resto da vida sem um único acorde? Acácio tem a resposta.
Não percebo nada de ensino. Não sei que matérias são hoje leccionadas na instrução primária, mas eu incluiria a música e as línguas estrangeiras. Olho para trás e percebo que fui obrigado a decorar antes dos 12 anos informação que não serve para nada, que não forma um sistema, que não dá uma linguagem. Não aprender uma linguagem quando o cérebro funciona como uma esponja é quase criminoso. A música e o Inglês são linguagens; a Catequese e o nome dos rios não são linguagens. Bach, meus amigos. A terceira suite para violoncelo. Que se lixem os vendilhões do Templo e os nomes de todos os apeadeiros.
Sobre estes textos: a série "Os Grandes Aviões da Minha Vida" é feita de fragmentos repentistas, geralmente escritos a altas horas da noite ou baixas horas do dia, na cama ou deitado no sofá e sem grandes revisões. Para o nome da série não tenho explicações, mas é preciso dar trabalho aos biógrafos
Detesto ténis. O mundo do ténis, os aficionados do ténis, os ídolos do ténis. Wimblendon? Um desperdício de pastagem. Roland Garros? Um desperdício para a construção civil. O ténis é uma ritualização do combate levada a um extremo absurdo, porque não há contacto físico entre os jogadores. Já não sei onde li isto, mas é verdade que qualquer desporto em que os oponentes estão separados por uma rede não merece respeito. No ténis ninguém se lesiona por causa do adversário, é preciso que o jogador dê um mau jeito qualquer ou então que desça alguém da bancada com vontade de cravar uma faca nas costas do tenista, um impulso compreensível e até estimável, que garante espectáculo, só que aí já não estamos no domínio do desporto. Entregue aos seus próprios meios, os grandes momentos de tensão no ténis surgem - rufo de tambor - quando a vedeta mais temperamental refila com o juiz de linha, um fulano que ama o jogo, ou com o busca-bolas, uma criança. Uuuuuuui, é coisa viril, estremeço de excitação... Até a Fórmula 1 consegue ser menos entediante, sempre há a possibilidade de alguém sair a voar.
Entristece-me ver dois dos meus bloggers preferidos a perder tempo com o ténis. Enfim, um está claramente viciado em todos os desportos que a televisão transmite, não encontro outro denominador comum, e o outro talvez também aposte nos jogadores de ténis como faz com os cavalos. Mas Federer é aposta a fundo perdido e se é verdade que investir em qualquer outro jogador deixa em aberto a possiblidade de se acordar multi-milionário, trata-se de uma hipótese meramente matemática.
Se isto não bastasse, o ténis é um desporto sinistro. Sinistro, sim. Como se explica que os jogadores de ténis sejam em regra muito mais giros do que os praticantes de outras modalidades*? Alguém tem uma teoria? Uma sugestão: apesar do esforço de democratização, o ténis continua a ser um desporto para as elites e as elites são, em regra, mais esbeltas que a plebe. Isto revolta-me, sou um gajo de esquerda. O ténis é também o único desporto que sai beneficiado sempre que falta o som. Transmitido décadas a fio durante as tardes de Domingo, não vingou como espectáculo para toda a família. Se até o Júlio Isidro conseguiu tal feito, o que se passa com o ténis? Não sou freudiano, mas creio que o marido associa aqueles gemidos de esforço - eeaaaaaaaaaaaaahhhh - ao serão de Sexta em que esteve a fazer horas extraordinárias no escritório, enquanto a mulher - sem rasgo criativo - apenas se lembra do instrutor de ténis (invertam a gosto, não quero perder as feministas que aqui chegam vindas do Womenage a trois). Em suma, não há condições para o convívio conjugal diante de uma partida de ténis.
Imagino que o leitor esteja agora a pensar que não percebo nada deste desporto. Erro crasso. Nos anos oitenta, fui um jogador razoável. Frequentei as escolas de ténis do Sport Lisboa e Benfica e tinha uma esquerda a duas mãos escapatória. Encarem isto com uma confissão pública. Um sportinguista de esquerda frequentou as escolas de ténis do Benfica. Como justificar esta nódoa dupla na biografia? Nada posso argumentar, mas esclareço que fui sempre um outsider. Gozavam com o meu nome, faziam piadinhas que metiam o Vasco Gonçalves e o Vasco Lourenço. Reaccionários de merda, só mesmo o corpo docente das escolas de ténis do SLB para cuspir na herança de Abril. Foi um erro não termos nacionalizado o Estádio da Luz logo em 1975, nem teria sido preciso gastar dinheiro em tintas.
Um dos meus adversários regulares era um ídolo do ténis. Não sei se venci alguma partida com ele, mas arrancar um set era motivo de orgulho. Eu via-o todos os fins-de-semana na televisão a esmagar adversários, numa epopeia de meses como não havia memória de ter acontecido na história do desporto em Portugal. Dizíamos que era o nosso John McenRoe porque nos faltava a presciência para saber aquele homem era na verdade o nosso Federer. Não sei como lhe consegui ganhar alguns sets. É verdade que ele brilhava num programa do Luís Pereira de Sousa como campeão de Mach Point, uma simulação primária de ténis para ZX spectrum , mas despediram ou colocaram o Pereira de Sousa na prateleira sem que o meu adversário tivesse perdido a invencibilidade.
Creio que desisti do ténis quando me apercebi que me realizava plenamente sempre que vencia um set de ténis a sério ao campeão português de Match Point. Teria sido preciso mais amor-próprio e mais talento para continuar a praticar um desporto que, no fundo, vai contra os princípios que me regem. Isso e o facto de o branco não me favorecer.
* Adenda: não fui claro. Quando me refiro à beleza dos desportistas, não penso na perfeição dos corpos como resultado da selecção natural para um determinado desporto e/ou da sua prática. É evidente que o timoneiro de uma equipa de remo nunca será tão alto e espadaúdo como um jogador de Volleyball,, tal como é evidente que o corpo de um xadrezista tende a ser menos apelativo que o de um nadador. Mas isso é irrelevante para aquilo que apelidei de "sinistro". Referia-me apenas às linhas do rosto, que em princípio não dão ao tenista qualquer mais-valia para o jogo propriamente dito. E nem sequer pensava nas tenistas. O fenótipo russo não me atrai minimamente porque uma mulher bonita terá necessariamente de ser morena - um dia demonstrarei este teorema - e desde a Gabriella Sabatini o melhor que apareceu no ténis foi o par de pernas da Steffi Graf. Por acaso pensava mais no homens, mas admito que tudo isto seja ainda resquício de uma paixoneta de adolescente por Mats Wilander. Em todo o caso, Shyz, estiveste bem, correspondeste às expectativas e impunha-se este esclarecimento.
Muitos anos depois, vim a saber que Charles Lindbergh, um dos meus heróis anacrónicos heróis de infância, havia sido um simpatizante dos nazis (Roth fez há uns tempos um exercício de história virtual partindo daí, The Plot Against America). Que impacto teve esta informação na memória do meu fascínio de infância por Lindbergh? Nenhum. Continua intacto. O que conta é a construção que dele fiz com base nos elementos de que dispunha: um livreco em que se contava as façanhas do aviador.
Se esta resistência ao revisionismo (académico) funciona com Lindbergh sem custos, com pessoas a sério é inevitável pagar-se um preço. O problema é o presente. Lindbergh está bem arquivado, mas quando o presente colide com o passado, lá está, sacrifica-se o futuro. Tudo para preservar a construção. No fundo, sou um negacionista por norma.
Imagem: Spirit of St. Louis
[Entrada corrigida às 4:15 PM]

Estou febril quando me queria fabril. Trocadilho fácil mas rigoroso. Ando pelos 39 C e precisava de trabalhar. Sinto o corpo a arder mas sem labaredas, mais como uma fosforescência capaz de brilhar no escuro e fazer-me fantasma. Mas luz é o que não falta, tenho estores que apenas me resguardam do olhar dos vizinhos. Estar acamado depois dos 10 anos, sem torradas nem chazinho nem mimo materno, não compensa. E a doença potencia a necessidade de afecto, raios.
Vou saltando de livro em livro, hábito frequente em quem lê para esquecer. É o meu caso, o que também explica esta sensação de triunfo pateta sempre que termino um volume. Como hoje aconteceu com o O Livro do Meio. Não posso garantir que interiorizei todas as páginas, mas assegurei uma cobertura acima dos 4/5. Há parágrafos de Armando Silva Carvalho, no registo vencido da vida em sublimação, que galguei. Maria Velho da Costa pareceu-me mais sólida, na prosa e nos humores, o baluarte daquela amizade. O que me traz a P. Tenho pensado muito nela, nos nossos serões em sua casa, nas sestas - digamos - cinéfilas, nas leituras em voz alta – foram só duas noites, mas das boas. Priceless. A amizade é uma almofada de penas (Agustina B.L.) mas é sobretudo um talento que se cultiva. Tenho amigos talentosos e sinto-me como barro nas mãos deles. Ao menos isso. O mais nobre dos sentimentos? O menos volátil - esta arrisca-se a levar a palma da trivialidade.
O apartamento de P. era mesmo nova-iorquino, um vigésimo sexto andar. E agora aqui, obrigado a ter as janelas do meu quarto abertas, percebo que o que me encantava da sua janela não era a vista de postal, era o silêncio, capaz de me deixar a contemplar o trânsito sobre a Queensboro Bridge durante largos minutos e ser visitado por aquele desejo de omnisciência: no que estarão a pensar todos aqueles condutores? Esta cidade, à altura a que vivo – trabalho e moro num quarto andar – é uma cacofonia de buzinas, sons de camiões que nunca transportam materiais acusticamente inertes, como o algodão, motorizadas, apitos de marcha à retaguarda, canalha a brincar no jardim e passarada, tudo sobre um fundo por identificar mas que não é silêncio. O silêncio aqui está muitas camadas debaixo destas demãos sonoras e - enfim, deliro – quase parece que se acumulam com o tempo e que se as fosse calando sucessivamente talvez chegasse aos estrondos do 11 de Setembro de 2001, depois aos ritmos dos tijolos da break dance e por aí fora. Nada disto faz muito sentido pelas leis da física, mas esta massa acústica não se fez em três dias, é o que voz digo. Espanta-me que ande há quase 6 anos a apanhar com isto sem protestar, 24 horas por dia. Não admira que tivesse deixado de tocar guitarra, o rácio de som organizado/ruído consumido desequilibrou-se e começa agora também a pôr em risco a melomania. Como sobrevivem os músicos de Jazz nesta cidade é para mim um mistério, mas é verdade que de noite isto acalma um pouco. A propósito, obriguei-me ontem a ouvir o Köln Concert do Jarrett – tá tá tá táaaaaaaa -, como quem coloca turcos humedecidos sobre a testa. Preciso de sair daqui quanto antes e foi bom ter encontrado mais uma justificação; qualquer dia já só oiço punk e percussão nipónica. Mas é melhor parar. Armando Silva Carvalho também polvilha a sua prosa com referências musicais e não o quero imitar, até porque acusaria o tal declínio lexical.
A imagem é de um Supermarine Spitfire.
Chegou o Verão e tenho o ar-condicionado avariado. Da rua vem um barulho que não é ensurdecedor mas não me deixa dormir. Se fecho os vidros duplos, sufoco. Se abro os vidros, não durmo. Não cedo à tentação de adormecer sufocado por um acaso: o aquário perdeu água e faz agora um barulhinho digno de acompanhar uma daquelas cascatas chinesas com efeitos ópticos a sugerir correnteza, que me irrita ao ponto de me deixar alerta o suficiente para não sufocar. Só por isso abro os vidros de novo, sem pensar nos mosquitos; há um buraco na rede por onde têm entrado e soam como stukas*, os cabrões. Isto já não se resolve tapando o buraco, é preciso electrificar a rede e atraí-los com um lampião, como se andasse às lulas. Vingança. A única coisa que se salvou esta noite - isto sem contar o que aconteceu entre as 20:00 e as 00:04, pois também tenho vida privada - foi a leitura do texto que copiei para aqui antes que desapareça. Estava a ler o Armando Silva Carvalho no O Livro do Meio, passei para o texto em foco e notei um acréscimo de graça e engenho, mesmo se acompanhado por um ligeiro declínio lexical. Parece que este fulano já escreve na imprensa, mas é preciso que chegue à imprensa de referência (excluindo o semanário Expresso, que assino mas normalmente esqueço-me de ler). Falo-vos do maradona, pois claro. Ora atentem:
Estou [advérbio de modo à escolha] a ficar velho
Não sou grande apreciador de livrarias. Apertam-me o peito e causam-me ansiedade, o que me leva directamente à cerveja, e a cerveja engorda. Se José Sócrates decidisse, de hoje para amanhã, fechar a Buchholz e todas as dependências da FNAC por se desviarem da linha estratégica do governo, ninguém me ouviria protestar (até porque seria uma medida correctíssima).
Se formos a ver bem, com os CTT, a Amazon e o Choque Tecnológico, não há nenhuma necessidade de ainda subsistirem tais estabeleciementos. Para começar (e, já agora, também para acabar), roubam tempo à leitura.
Na maioria dos casos, o pessoal anda ali de um lado para o outro a ver e a folhear nem os próprios sabem bem o quê. É que não há nenhuma necessidade, e muito menos justificação, para as pessoas passearem pelas livrarias: uma pessoa lê que quer um livro e encomenda o livro e o livro chega a casa pelos pateticamente eficientes CTT e ponto final. É esta merda ou não é esta merda? O que é que se vai fazer à livraria propriamente dita, pergunto-me eu sempre que entro na Bertrand, na Buchholz e na Fnac? Nada, pá, nada!
Em todo o caso, eu gostava da Alcalá. Quando li este post não fiquei nada preocupado. Mas hoje, ao passar ali naquela rua (depois de ter ido à FNAC comprar um livro, visto que não tenho aqui 67 livros por ler empilhados), e ao constatar que o Pitta falava da Alcalá, tive um desgosto imenso (enfim, nada de especial, fiquei mais desgostoso por ver o Nani partir).
A verdade é que lhe passei à frente para aí dez mil vezes, mas só a penetrei umas vinte ou trinta vezes. Mas, e talvez por isso, dava para ver que era uma excelente livraria, uma daquelas poucas que se auto-justificam.
Em primeiro lugar, nunca me senti ali bem. A simpatia da senhora mais velha era evidentemente postiça, e as meninas novas que lá se empregaram ao longo dos tempos ocupavam o seu tempo a tentar sintonizar um rádio insintonizável.
Cheguei a pensar que aquilo fazia parte do projecto internacional para apanhar sinais rádio de civilizações extra-terrestres. Naquele silêncio sepulcral, o ruido do espaço interestelar arrepiava a espinha e era uma metáfora perfeita para a pequenez humana no universo infinito, o sentimento que, precisamente, é a razão de ser dos livros e da literatura.
Em segundo lugar, entrar na Alcalá e não comprar nada só queria dizer uma coisa: que se estava a roubar. Até neste aspecto aquele local era superior aos outros: não era preciso estar efectivamente a roubar para este sentimento prevalecer. Bastava, simplesmente, que não se trocasse uma barbaridade de notas de conto por um livro pequenissimo de merda.
Não sei se pela mirabulante facilidade com que se poderia colocar um livro por baixo do casaco num dos seus inifinitos ângulos cegos, ou se por outras circusntancias que tornavam a Alcalá a livraria com mais personalidade de Lisboa, nunca me consegui extrair daquele espaço sem estar possuido por uma enorme vontade de me purificar moralmente (o que de maneira nenhuma acontece, por exemplo, na FNAC, com o seu merdoso conceito de estar ali à nossa disposição de carinha sorridente e incapaz de nos julgar como merecemos).
Chamo a nossa atenção que esta situação moral dominava mesmo muito antes de lá ter efectivamente roubado um livro. Foi o "Criaturas Del Aire", do Fernando Savater, que precisava inexoravelmente de ter nesse preciso instante. Tenho tendência a escapar deste episódio, mas hoje foi impossivel. Tal qual como naquela tarde de verão (ou manhã de inverno, sei lá), logo no primeiro milímetro após o furto, quando fui empalhado num inacreditável sentimento de culpa, que, se fosse hoje, não tenho dúvidas me levaria a votar "no Zé" apenas para expiar a situação.
Mas como tinha 21 anos (ou 31, já não sei bem), a coisa foi-se. E não é que se foi também a puta da livraria? Vai-se tudo, já lá dizia o outro que chorava. Não precisava dela mas faz-me falta.
* Peço imensa desculpa por poluir a blogosfera lusa com iconografia nazi, mas o MI é seguido por jovens com menos de 30 anos que provavelmente não sabem o que é um stuka. Faço esta polémica afirmação depois de ter lido na obra supracitada uma afirmação de Mário Cláudio à revista Ler, que repesco de memória: "se tivesse de empregar uma palavra para definir Portugal nos dias que correm, seria boçalidade". Lutemos, pois. No que me toca, fui ao ponto de encontrar um registo áudio de um stuka em vertiginoso mergulho. Os meus mosquitos soam exactamente assim e quase dá vontade de armar um bateria anti-aérea de perdigotos, mas ter lavado os lençóis ontem desarma-me. Adianto que não posso garantir se este som é fiel ao do stuka, porém, dentro de dias vou assistir a um combate de boxe entre Günter Grass e Norman Mailer (cujas idades somadas ultrapassam Old Parr) e prometo conferir com o primeiro, caso - bem entendido - ele não esteja a sangrar e haja rede.
Boa noite.