A modernidade, ao acelerar as relações, e a vivência urbana, ao impossibilitar o galinheiro, tornaram a mulher dependente da fidelidade canina e a melhor cliente das lojas de animais. Há pouco mais de uma geração, o homem apaixonado lutava com o fantasma do amante ideal imortalizado nos romances cor-de-rosa. Hoje, o seu maior rival chama-se Bobby, Tareco ou - nos casos de pedantismo extremo - Napoleão Bonaparte. A mulher fez as contas à vida e percebeu que a esperança de vida de um cão é três vezes superior à do casamento. Alguns gatos vivem mais de 20 anos, quase umas bodas de prata. E um papagaio bem ensinado pode soltar tiradas como Humphrey Bogart mesmo após as bodas de ouro. Para alguns homens esta é a situação ideal. Quando se diz que não há nada melhor do que ser amante de uma mulher casada, esquece-se a condenação social, que pode frustrar os frívolos, impedidos de frequentar os bons restaurantes, bem como a cumplicidade com a mentira, que pode minar a consciência dos escrupulosos. Uma mulher livre e com bicho em casa é uma solução de compromisso. O homem sabe que terá sempre uma posição subalterna mas a presença do animal alivia-lhe as tarefas e a responsabilidade. Os amores estivais deixam assim de ter estação. Feita a ressalva, é inegável que para os românticos da linha ortodoxa o futuro não é risonho.
A imagem do homem nunca esteve tão má como agora. Parece que os livros de literatura feminina propagandeiam a ideia de um homem imaturo, egoísta e infiel. Artigos de vulgarização da ciência cimentam tal opinião, fazendo as escapadelas do macho tão inevitáveis como a estocada do escorpião no dorso da rã durante a tal travessia fluvial. Perante os factos, a mulher jogou pelo seguro, matando dois coelhos de uma cajadada. Não só trocou o homem, como na troca o deixou sem o seu melhor amigo, o cão.
A reacção do homem foi de desistência. Ele tinha já a preguiça natural e a capacidade de abstracção suficiente para preferir animais de estimação de baixo investimento afectivo. Ganhou depois a alienação que o levou ao cágado e daí, numa escalada vertiginosa, a qualquer exemplar de taxidermia, como uma cabeça de javali embalsamado. É verdade que ainda opta pelo cão, mas só o faz para atrair raparigas quando vai à rua passear o animal, mal sabendo que se sujeita invariavelmente ao papel de pau-de-cabeleira.
Do outro lado da barricada a obsessão por animais não pára de crescer. Por acidente, levou-me a cumprir a fantasia de muitos homens: dormir com duas mulheres. Só que tudo tem um preço e hoje apenas sobra o relato, um exemplo da incontornável decadência moral e - como se verá - física do macho. Vivi um curto idílio com A., uma adorável parisiense da Butte aux Cailles. A. tinha uma cadela, Marie-Dominique, que se movimentava sob os lençóis com o à vontade da toupeira em solo brando. Numa madrugada talhada para o erotismo, quando da rua vinha ainda a frescura da noite mas se sentia já a fragrância dos pólenes e a ténue luz da alvorada que embeleza os corpos, acordo num crescendo de prazer e quase toco nos estuques do tecto, sustentado pelos efeitos antigravitacionais do sexo oral. Quando regresso ao colchão e me viro para o lado, reparo que A. dorme como um anjo. Após este episódio, a relação não durou mais de uma semana. Via-me numa perpétua tortura por estiramento, de um lado puxado pelo bom senso, que me impedia de desiludir a rapariga, do outro lado agarrado pela verdade, que me açoitava com a lembrança de uma conversão acidental mas inegável à zoofilia. Anos volvidos, conheci um rapaz que me confessou uma história semelhante com uma mulata de Manaus, dona de um jacaré bebé. Senti-me tomado por uma compaixão imensa e não pude reprimir um abraço. Depois chorámos.
Como sair disto, admitindo que se saiu inteiro da primeira vez? Não tenho uma solução óbvia. Uma mulher economicamente autónoma numa sociedade ocidental está hoje mais perto do ideal de liberdade que é a existência solitária bem-sucedida do que o homem. Ela tem a competência biológica para gerar prole e atenuou a dependência passional, podendo olhar para o homem como um par de testículos ambulante ou um brinquedo sexual gratuito mas com zero anos de garantia. O homem, feito à imagem e semelhança de Deus, bem pode protestar, mas a autocrítica - é sabido - não é um dos pontos fortes do Senhor. Pois bem, se assim é, chegou a hora de o homem tomar o seu destino em mãos e usar outro modelo. Por exemplo, um Golden Retriever.
À vossa saúde.
Gosto de sentir o orgulho que Pacheco Pereira tem pelo seu trabalho e o gozo manifesto que a coisa lhe dá. Digo isto sem ironia. Repito: digo isto sem ironia. É verdade que Pacheco exagera e aquela esdrúxula série "Retratos do Trabalho", um elogio do trabalhador sem atender à qualidade da fotografia, já cansa. Há anos que Sebastião Salgado subiu a fasquia e, como se não bastasse, toda a gente percebe que o melhor elogio ao trabalho que se faz no Abrupto é a figura do próprio Pacheco Pereira, com o seu vigor e os "early morning", outra curiosa série cuja única missão é fortalecer o estereótipo do académico madrugador e laborioso (alguém lê aqueles poemas?). Este meu fascínio pela paz de Pacheco Pereira leva-me a extremos picarescos de culto da personalidade, como ter forjado esta máxima algo castiça: crescer é aprender a trocar a marmelada pela Marmeleira. Como se sabe, a Marmeleira é a vila onde Pacheco instalou a biblioteca, o escritório e - presumo - a luneta com que observa os astros. Percebemos que Pacheco está em harmonia com os elementos quando se encontra na Marmeleira. E queremos uma só para nós.
Devemos pois fazer um esforço para perceber os ódios de estimação de Pacheco Pereira: Louçã, oito nonos dos jornalistas e o futebol. À primeira vista, o ódio de Pacheco ao futebol parece ser puramente programático, visando fazer contraponto, velejar à bolina do entusiasmo das hordes bárbaras. Assim se percebe que Pacheco escreva sobre futebol como se o desporto só existisse em Portugal. Como se o fascínio pela bola explicasse o atraso de Portugal em relação a Inglaterra ou a Espanha. E como se a euforia que aí vem a propósito do Mundial na Alemanha fosse um sinal da "vitória póstuma do XVI Governo Constitucional" (Santana e os seus rapazes), uma ideia peregrina com o valor de uma metáfora. São exemplos que se acumulam, e é talvez caso para perguntar se esta obnubilação de Pacheco Pereira quando cresce o entusiasmo colectivo pela bola não terá raízes mais profundas, de tipo traumático. Ao discutirmos a psique do comentador é costume referir o passado maoísta, mas eu arrisco aqui uma tese inovadora e primordial: em criança, Pacheco era sempre mandado para a baliza e viveu a infância como um frangueiro.
À vossa saúde.