M. engravidou, que Deus a tenha, mas não foi uma concepção imaculada. Houve russo na história. Topava-se logo pela forma como se encavalitavam um no outro pelos corredores que, não havendo pílula, aquilo não se controlava a preservativo. Ou então rebentou. Trojan. Os americanos têm uma marca de preservativos que se chama Trojan. Só lembra ao Diabo. Haverá quem pense na muralha antes de pensar no cavalo? Enfim, talvez tenha o russo em excessiva boa conta. Belo rapaz, bons bíceps, olhos rasgados, muita estepe deve ter passado por aquela retina antes da vinda para a América. E ela, com um corpo de holandesa, linda como uma boneca de porcelana. Os olhos: pequenos e arredondados. A pele: rósea e delicada. O cabelo: castanho com reflexos ruivos (naturais, creio, mas sem consultar o álbum de família nunca se sabe). Tudo banal, mas numa combinação feliz. O todo superior às partes, o mistério da beleza. Pronto, já chega. Falou comigo duas vezes. Dizem-me que é irritante, sobretudo na forma como se demora quando veste o cachecol. Quero lá saber, se só me lembro dela na Primavera. Nós não conversávamos; eu contemplava-a. Mas pronto, agora é agregado familiar. Vivas a M. e ao russo. Gosto destas miscigenações discretas. Paz na terra e nos corredores.
Vive no meu prédio, cruzo-me com ela todos os dias, é a mulher mais bonita da minha rotina. Deve saber o que penso dela, tudo por causa daquela fracção de segundo extra em que o olhar se demora. Tento ser discreto. Ela vive com um homem, espanhol também. Percebi que era espanhola à primeira vista. Aliás, não lhe conheço a voz, isto é tudo golpe de vista. Foi pelas roupas e pelo porte, a forma de se mover altiva mas sem arrogância. Parece-se com outra espanhola que conheço, o que também deve ter influenciado o palpite.
Hoje encontrámo-nos na cave. Ela dobrava a roupa lavada e eu enfiei a minha no secador e sentei-me a ler um livro. Ali nos demorámos uns 15 minutos. Não dirigimos a palavra um ao outro e fiquei entrincheirado nas páginas. Só no fim, quando ela estava de saída, cruzámos o olhar. Fui incapaz de sorrir. Provavelmente pensa que sou antipático, mas não me pareceu correcto dirigir a palavra a uma mulher que dobra roupa interior. As lavandarias públicas são lugares tão ou mais embaraçosos do que balneários comunitários. Perdoem a inconfidência: o companheiro dela tem umas cuecas com cabecinhas do rato Mickey. Fiquei algo esperançoso, mas a verdade é que eles parecem felizes. Em matéria de gostos a discussão é possível, mas há um reduto inviolável.
Conheço um rapaz com a cabeleira certa para revolucionário, que inclusive priva com o Gael García Bernal, moço seu conterrâneo e cuja presença ele por vezes anuncia - mas é bluff -, como se nós não soubéssemos que o Bernal, apesar de bem-apessoado, parece um gnomo quando de pé numa sala de média dimensão. (continua)
Retomo aqui a série "Cromos", após um longo interregno, em parte explicado por um decréscimo - entretanto anulado - na capacidade de me impressionar com as pessoas que vou conhecendo e, também, pela publicação de um livro homónimo da escritora Rita Ferro, que descreve tipos de figuras da sociedade, num exercício diametralmente oposto deste que aqui pratico, pois limito-me escrever sobre indivíduos, notoriamente atípicos.
Há uns tempos li um conto de Agustina Bessa-Luís, cujo título não consigo recordar, sobre as desventuras domésticas de um homem que tenta livrar-se de um rato. O conto é isto, mas não argumentarei se alguém achar a descrição demasiado prosaica e quiser ver no conflito entre o homem e o roedor uma alegoria que abarca os temas nobres da literatura. Eis o que importa: não achei a menor graça ao conto. E o conto tinha sido escrito para divertir o leitor. Ora, isto está sempre a acontecer e nem mereceria reparo se não me tivesse apercebido, a cada linha, do gozo que deve ter dado à autora escrever aquele texto. Reproduziu-se então em diferido - entre quem escreve e quem lê, bem entendido - a situação constrangedora do contador de anedotas que não consegue arrancar uma gargalhada, mas que disso não se apercebe, pois vai rindo convulsivamente enquanto fala. Tratando-se de Agustina Bessa-Luís, unanimamente tida como uma mulher de grande espírito (coisa que se percebe em todas as suas entrevistas e - dizem-me - em todos os seus romances), o seu riso convulsivo subliminar parecia exigir um riso meu, compulsivo, portanto. Terminar o conto foi um alívio.
Não sei se o sentido de humor é uma qualidade masculina. Poderia destrunfar Jane Austen com Bierce, lembrar que a vasta maioria dos comediantes profissionais americanos são homens e que o Ricardo Araújo Pereira não usa saias. Somos hoje obrigados a ver os homens e as mulheres como seres feitos a partir do mesmo molde, e que diferem apenas nos acabamentos finais, isto é, nos órgãos genitais e nas características sexuais secundárias. Diferenças no desempenho entre homens e mulheres - mas só as que sugerem uma diferença de personalidade ou propriedades cognitivas - são imediatamente explicadas pelas pressões sociais. Há mais homens do que mulheres nas Produções Fictícias? A ser verdade, a culpa é do Nuno Artur Silva, esse misógino. No debate nature vesus nurture geralmente chega-se a um consenso, mas porque os dois oponentes nunca atingem sincronizados o estado de exaustão. Há uma forma de salvar os calcanhares no último ensaio: quando um homem diz que o humor é uma qualidade essencialmente masculina, pode dar-se o caso do pobre coitado não ter os meios necessários para alcançar a superioridade do humor feminino.
Pescar exemplos pontuais na literatura e entre os profissionais de humor é uma má técnica de amostragem. Usar ferramentas estatísticas para extrair uma lei de um vasto conjunto de dados, um exercício demorado. Acresce que seria difícil definir o que é o bom humor de uma forma que superior à do reconhecimento público. E de que público, afinal? Se me dei ao trabalho de pensar no assunto foi por causa de T. e dos seus olhos de desespero puro quando me disse que não conseguia encontrar mulheres com sentido de humor. Só então comecei a pensar nos meus amigos mais engraçados. E o resultado a que cheguei é curioso.
Se penso nos meus 20 amigos/conhecidos chegados mais divertidos, os homens predominam numa proporção devastadora. Mas o amigo com o sentido de humor mais apurado é - de longe - uma mulher.
(continua)
Pepo tem a fama e o proveito do playboy. Os amigos intímos referem-se sempre às namoradas como a nova "semi-namorada". O duplo qualificativo diz muito do tráfego que circula pelos lençóis de Pepo. E um homem pergunta, ao princípio da noite: "o que tem este tipo que eu não tenho?" Objectivamente tem uma top model, linda de morrer e magra como quem regressa da morte. Mas tem mais: um ar de mosteteiro belo e um talento brutal como pintor. Os quadros de pepo são murais emoldurados, com o traço de um Cisneros obcecado pela lingerie do Jean Paul Gaultier. Seios à Monte Fuji parecem querer furar as duas dimensões das telas e eu depressa aprendi a ver a pintura de Pepo com as mãos prudentemente guardadas atrás das costas. Mas isto é trivial.
O momento revelador veio depois. Pepo no corredor, o olhar dele cruzando-se com o meu, a top model entre os dois, de costas para mim, e a fracção de segundo que se seguiu ao beijo. Pepo parecia dizer-me: "mas tu esperavas o quê? Ainda acreditas na monotonogamia? Deixa-me dizer-te três coisas sobre as relações eternas: ou a começas antes dos vinte e poucos anos, ou a vais traindo, ou não tens oportunidade de a trair, porque és feio e pobre. Para elas funciona mais ou menos da mesma forma". Ah, afinal Pepo tinha um sistema. Pena é que parecesse tão desesperado. Houve naquela fracção de segundo um desencantamento aterrador. Mas ele continuava: "... isto que vês é do Gin. Eu estou bem, apenas bêbado e cansado. Não tenho culpa que continuem a fazer de mim o bastião que o ideal do amor eterno tem de conquistar." Confere. Pepo, como outros amigos mulherengos, despertam sempre um interesse mais complexo do que se julgaria à partida. Uma namorada que resista mais do que 1 mês é logo vista como a mulher que lhes mudou a vida e insulfla toda a gente de uma patética esperança. "... A tua malta quer à força que eu seja como eles, mas eu nada posso fazer pelas inseguranças dos teus amigos. É para mim claríssimo que jamais estarei com uma única mulher até ao fim da minha vida."
Há vários indícios de que nunca serei amigo próximo de Pepo. Mas com alguma sorte conseguirei levá-lo à Europa para que me pinte um mural.
O melhor exemplo que posso dar de um campo de forças erótico, daqueles que podemos representar com vectores e dois pólos, não é propriamente uma surpresa; a coisa pressupõe tensão, pelo que não se pode concretizar, o que exclui desde logo alguns meios e veículos - como a pornografia- e também os povos particularmente dados às manifestações públicas de afecto - como as gentes do Caribe. Alguma surpresa, que é mais uma fina ironia, virá talvez do local: um jardim botânico. A lógica da flor, a mobilização dos insectos, o fruto, enfim, tudo parece fazer parte de um grande esquema que se realiza na união dos gâmetas e é rico em segredos perversos, mas a associação do jardim ao sexo é quase sempre cândida: o jardim é o local do sexo em público autorizado, o namoro. Ora, no Ocidente o namoro é hoje uma arte em decadência. Que interesse tem o banco de jardim se ambos os pais trabalham e o quarto está à disposição nas longas tardes dos dias úteis? (continua...)
Um conhecido meu, a viver aqui há muitos anos, transformou uma inclinação natural, nunca antes testada, numa verdadeira obsessão. O vício deste homem é a mulher judia. Não uma mulher judia qualquer, mas quase todas, que ele vai trocando com assombrosa ligeireza. Judias de cabelos lisos e negros, nariz delicado, traços finos; judias de tez morena, cabelo castanho claro e frisado, feições exóticas. Às judias de geração zero ele torce o nariz, apenas porque as mulheres de leste - aqui como em tanto lado- têm a reputação de caça-maridos. Pensava eu. "Judia nova-iorquina a sério"- diz-me ele- "nasceu e cresceu aqui. Só assim se chega a um apuramento de inteligência, sentido de humor sarcástico e independência de espírito únicos. Tem também uma agressividade contida que faz disto um desporto radical, percebes?"
Há um puto que trabalha no balcão da Tap do aeroporto de Newark que é muito esperto. Não é chico-esperto, é mesmo esperto. (Segue-se uma pequena deambulação que o leitor apressado deve ignorar, retomando de imediato a leitura na palavra a negrito). É certo que quando se faz um comentário destes há um problema de referencial, o que não ajuda muito. E há também aquelas teorias que fazem da inteligência uma entidade multifacetada, complexa, difícil de testar, numa palavra, uma coisa inefável. Sem querer ofender os académicos, isto sempre me pareceu uma forma dissimulada de não ofender ninguém, de criar uma ilusão igualitária. Combinados, estes dois elementos fazem da inteligência um quase-tabu. Ora, a inteligência é uma qualidade como outra qualquer ou, se preferir, a falta dela é um defeito normal. Sei perfeitamente quando estou na presença de uma pessoa muito mais inteligente do que eu, muito menos ou tão inteligente. Os primeiros fascinam-me mas deixam-me alerta, os segundos incomodam-me e os terceiros levam-me a procurar uma posição confortável no sofá. A interacção obedece às regras de uma boa jogatina de ténis (pronto, de ping-pong; um blogue que apela ao voto no PCTP/MRPP deve mencionar "ping-pong" em vez de "ténis", por dois motivos que ficam por esclarecer). O rapaz passa muito tempo a olhar para o céu. Percebe-se o drama: sonha com o cockpit mas deram-lhe o guichet. Fala português como felizmente eu nunca falei e inglês como infelizmente nunca falarei. As nossas interacções resumem-se ao essencial mas topei-lhe a inteligência pela forma como interage com os outros e como parece arrumar todas aquelas tarefas no cérebro reptiliano, deixando o córtex a pairar noutros mundos. Há uns dias, enquanto usava o polegar oponível para o gesto modesto de colar um autocolante na minha mala, reparou nos vermelhos do céu e soltou uma exclamação de júbilo. Ontem, quando eu regressava, apanhei-o num dos corredores a olhar a neve que caía com a melancolia que a contemplação das quedas lentas sempre induz. É nestas alturas que um certo défice de sociabilidade me custa. Devia ter-lhe dito algo, metido conversa. Já vai sendo altura. Um dia destes acumulo milhas para uma viagem à Patagónia e ainda não sei nada sobre este rapaz... Mas voltemos ao céu. O céu avermelhado estava deslumbrante. É claro que escrever sobre o poente é ainda mais complicado do que tirar uma fotografia original de um pôr-do-sol e opto por evitar o desafio. Onde queria chegar era a outro poente, cenário para um verdadeiro recital de um bando de estorninhos, quase uma provocação da passarada nas ventas do pesados e estacionados boeings. Em pleno espaço aéreo controlado, à vista desarmada dos controladores de voo, a nuvem de estorninhos deve ter baralhado os radares com a fluidez dos seus movimentos. Quebradiça, imprevisível, recortada a negro num fundo escaldante, não havia ali lugar para a melancolia. A coisa foi mesmo arrebatadora. De tempos a tempos, aparecem por aqui umas dádivas do céu, como a visão félix-fuentiana de um falcão a debicar a carcaça fresca de um pombo no parapeito de um arranha-céus ou este bando de estorninhos. Uma dúvida que não posso partilhar com os meus amigos ornitólogos assaltou-me também: estaria a trocar morcegos por estorninhos? Erros destes são indesculpáveis, excepto quando se permanece dentro da mesma classe (taxonómica) e se faz do erro um condimento para a História. Sucede que já não há arquipélagos por aqui e mais depressa se vai de um milhafre a um açor que de um morcego a um estorninho.
São três da manhã e há instantes cruzei-me com Zoran, ele de um lado da rua, paciente, esperando que o cão se aliviasse, eu no passeio oposto, impaciente, sem cão e sem trela. "What are you doing here?", perguntei, para que não tivesse que responder, à falta de um alibi sólido como o de quem passeia um Labrador.
A julgar pelo que fui ouvindo nos noticiários ao longo dos anos noventa, Zoran não pode ser Sérvio. Falamos de um homem bom e, como consta, não há homens bons na Sérvia. Se Zoran fosse minimamente cínico, estenderia a mão com um sorriso franco e diria: "Zoran Y., war criminal, it´s a pleasure to meet you". Sucede que o sentido de humor deste homem não precisa destas muletas.
Quando se percebe que se aprecia mesmo a companhia de alguém? No caso de Zoran houve alguns sinais evidentes. Por exemplo, gostar de beber com ele. Andar nos copos com alguém que não se suporta é um tormento. Nessas alturas costumo dar de beber às plantas (discretamente, vou regando a Guinness o vaso mais a jeito). Com Zoran o problema consiste em ter sempre presente a distinção entre o beber com ele e o morrer nos braços dele. O álcool que um sérvio (dimensão da amostra=4) consegue gerir antes de começar a fazer coisas insensatas chegaria para me arrumar com um coma alcoólico irreversível. Um segundo sinal- mais uma confirmação que outra coisa- ocorreu há uns dias. Víamos Revíamos o Le Charme discret de la bourgeoisie em casa dele, depois de um farto repasto- cozinha bem, a criatura- e Zoran, ainda com o reflexo filosofante que lhe ficou de uns anos de universidade em Belgrado, entendeu ser oportuno explicar o filme, demorando-se longamente na enigmática caminhada da trupe de burgueses pela estrada deserta. Explicar um filme é um desporto radical; explicar um filme em tempo real um convite ao crime. Mas, surpreendentemente, fiquei deliciado a ouvi-lo. Isto é amizade, só pode ser amizade, até porque a explicação dele era uma boa treta.
Werner fuma cigarrilhas à janela. É o homem mais desejado que conheço. Desejado pelas mulheres e desejado pelo homens novos. Elas querem estar com ele; eles querem envelhecer como ele envelheceu. Seco de carnes, cabelo de um branco imaculado a contrastar com a pele queimada do rosto, Werner aguenta nas calmas opções estéticas arriscadas, como uma camisa enfiada para dentro de umas calças sem cinto. Apaixonou-se por Portugal e vive na Linha. Todas as manhãs vai nadar, no Inverno como no Verão. Pergunto-lhe se a poluição não incomoda e ele responde: "Não, de todo. Aliás, há umas semanas, estava eu a nadar e fui surpreendido por uma barbatana [ele disse "triângulo"] fora de água. De início assustei-me mas depois vi 3 golfinhos a saltarem à minha frente. Foi inesquecível". Werner costuma sublinhar o seu discurso abrindo muito os olhos e quando disse "inesquecível" ficou durante largos segundos exoftálmico. Voltaríamos a conversar naquela noite. A propósito de qualquer coisa, e tentando esboçar um argumento de conformado, disse-lhe: "é a natureza humana". A frase entrou num qualquer loop dentro do cérebro dele e até nos despedirmos ele terá dito "It´s human nature" umas 20 vezes, por tudo e por nada. Não sei se o incomodei ou se o impressionei e na dúvida fico na dúvida. Já depois dele ter saído resolvi medir o efeito Werner num grupo de 3 raparigas de vinte e poucos anos que estavam ainda na sala. "Lindo de morrer", "que homem", etc. É o costume. Há pelo menos 10 anos que é assim. Isto não é a natureza humana. É sorte pura. Como o encontro com os golfinhos, de resto.
Não o conheço. Seria uma contradição. Este homem não conhece ninguém, mas não se queixa. Às vezes procura uma grande escadaria, que desce lentamente com o dedos a tocarem levemente o corrimão; com a discrição controlada bons bons actores apressa-se a ganhar o lugar que vagou no autocarro, só para receber o calor dos estofos aquecidos por outro corpo; faz roçar o seu reflexo numa poça de água no de uma mulher também parada na calçada; demora-se nos vidros das montras de lingerie à procura da dedada que recebe as suas impressões digitais com um encaixe perfeito; lembra-se com saudade dos hálitos alheios que respirou. Mas é só às vezes que se alimenta das sobras de uma cidade com 10 milhões de almas. E esta frugalidade social- que outros se apressariam a qualificar de patológica- basta-lhe. Se houvesse necessidade, não lhe custaria fazer umas contas de cabeça e admitir que os momentos mais felizes que teve aconteceram quando estava sozinho. Para lá se caminha, mas isto ainda não é confissão de crime.
Uma coordenada a reter para quem não quer manchar umas férias em grande estilo nesta cidade: o cruzamento da rua 64 com a Primeira Avenida. Aí o turista incauto encontrará um mendigo sem pernas, homem velho e magro, equilibrando-se pelo pélvis numa cadeira de rodas. (Percebendo que este post irá puxar o fio de um gordo novelo, o blogger adia a continuação da prosa para momento mais oportuno, em horário pós-laboral, deixando apenas as linhas introdutórias. Isto não é um post, nem sequer mais um post inacabado; é um post it amarelo).
Anda por aqui um pequeno marinheiro cubano teso como um carapau e quase tão pequeno como um anão grande. Percebe-se que foi marinheiro pelo chapéu, apesar do seu ofício ser agora o de despejar caixotes do lixo ao fim da tarde. Este homem ama a América como ninguém que tenha vivido o sonho americano pode amar. É um amor incondicional, que prolonga a esperança até ao infinito. Às vezes tem tiradas espantosas. Enfim, tiradas espantosas para quem despeja caixotes do lixo. Na sexta-feira passada, por exemplo, dizia-me: “a minha memória é má. Lembro-me de tudo. Mas trago comigo as chaves da tristeza e da felicidade. É tudo uma questão de montagem, como no cinema. Escolho os melhores momentos da minha vida, percebes? Aqueles instantes em que tive espírito, fui generoso, corajoso, humilde ou magnânimo. Os instantes de paixão, também. Mas a paixão não basta... Bem, ponho tudo numa sequência de 30 segundos em circuito fechado e aquilo dá-me uma força bestial. É uma tela para a felicidade. Só assim consigo mergulhar os braços no lixo sem perder o sorriso. Há o outro lado, claro. O filme negro: os instantes em que fui canalha, mesquinho, mentiroso, fraco. Aí faço uma montagem de apenas 20 segundos. Não que não haja material para mais. Não estás a olhar para um santo, rapaz. Não sou é masoquista; 20 segundos são suficientes. O filme negro surge nas alturas mais inconvenientes: no casamento do meu filho, durante a visita de familiares, quando os Yankees ganham. Mas só podia mesmo aparecer nessas alturas, caso contrário... Bem, o resultado final sou eu, um tipo equilibrado, que põe as mãos no lixo com compostura e não se desmancha de alegria no dia do casamento do meu filho. Deve ser por isso que gosto do futuro. Em relação ao futuro posso ser desequilibrado. A esperança para mim não tem reverso...”
Não gosto de relvados ondulados. Um relvado ondulado é a marca de um capricho. Também não gosto de vidas onduladas. Uma vida ondulada desperta-me uma certa desconfiança. A minha vida tem sido ondulada. Por isso gosto de ficar a ouvir Z. O relato de uma vida depende muito da vida em si e de quem a conta. Z. faz um relato com economia de palavras e gramática, o que o torna mais verdadeiro. A sua vida desenrolou-se em ângulos rectos. Guerra, filhos, 700 dólares no bolso, América, trabalho duro numa padaria, trabalho mais decente depois, filhos crescidos e a preocupação com a educação deles, Belgrado cada vez mais longe, mãe e irmã cada vez mais longe, um labrador bem alimentado que se passeia com a trela em horário pós-laboral pelo Upper East side e 3000 páginas perdidas em Nova Iorque, escritas numa língua estranha. Serão aquelas boas páginas, merecedoras de editor? Não quero saber, a menos que as publiquem de facto. Admiro em Z. uma série de coisas, mas sobretudo a possibilidade de ensaiar o sonho americano e a técnica nos grelhados. Como ele, gostaria de ter começado de novo, verdadeiramente de novo, com um país destruído atrás de mim e 700 dólares no bolso. Gostaria também de saber escolher e salgar a carne para um bom churrasco sul-americano. Z. é sérvio e sabe fazer estas coisas. Tudo isto me ocorre numa festa ao ar livre no meio de Nova Iorque. Há uma banda de covers que toca muito bem. Num relvado ondulado, há crianças chinesas nascidas nesta cidade que brincam com crianças alemãs, aqui nascidas também. Há um tipo com pinta de aristocrata italiano decadente; chego a dizer-lhe que tem pinta de aristocrata italiano, mas censuro o "decadente". Há uma portuguesa que viveu em Salamanca e me tenta explicar como enrolar o "r" para dizer "rioja" como a rapariga de Madrid, que está mesmo ao lado. A dez passos de mim, em todas as direcções, tenho um representante de remotas regiões do globo terrestre. Em três trocas de palavras, posso ficar a saber inúmeras coisas sobre os subúrbios de Wellington, na Nova Zelândia. Mas a sabedoria é essencialmente a noção de que podemos aceder ao conhecimento em qualquer momento, o que me faz insistir no "r" de "rioja" e desprezar Wellington, como antes desprezei Joanesburgo e uma exposição sobre o Apartheid. Estar no num grupo de gente tão diferente de mim e, ao mesmo tempo, tão igual, leva-me muitas vezes a querer baixar a guarda e perguntar o que nos fez vir para aqui. Há uma resposta standard, que evito, como se esperasse que alguém me esclarecesse sobre aquilo que não fui capaz de resolver por conta própria. Felizmente, quando fico suficientemente bêbado para entrar neste registo, ainda estou suficientemente sóbrio para perceber o ridículo que é andar a perguntar estas coisas a pessoas demasiado embriagadas para perceberem o ridículo da pergunta. Volto sempre ao "r" do "rioja". Não faço progressos assinaláveis, mas como se diz por aqui, "it builds character"...
Como resolver o caos acústico de uma cidade em hora de ponta? A solução mais radical é, obviamente, o feriado. De entre as soluções de compromisso, destaca-se a janela de vidro duplo, tão eficaz como vazia de poesia. Não se deve por isso estranhar que fique a pensar muitas vezes em paisagens com neve. Gostaria de acreditar que uma paisagem com neve tem propriedades acústicas distintas das da mesma paisagem, sem neve. A neve, como o cartão das caixas de ovos coladas nas paredes de um estúdio de amador, seria capaz de acamar os sons. Assim se explicaria a sensação de paz que tenho quando, ao acordar, descubro a cidade coberta de branco. Sucede que a poesia de tais paisagens é uma ilusão fraudulenta, que só sobrevive porque preferi esquecer a interdição ou, no mínimo, o abrandamento do trânsito que geralmente vem com os nevões. E é um vício pouco indiossincrático, isto de querer decidir sobre a beleza das coisas. Felizmente, pelo menos no que toca à acústica das horas de ponta, tal problema de consciência resolveu-se nos últimos dias. Com alívio e orgulho, declaro ter encontrado uma solução que conjuga honestamente a eficácia do vidro-duplo com a poesia da paisagem nevada: um casal de idosos chineses fazendo Tai Chi Chuan às sete da manhã. (já volto)
Invariavelmente, mesmo algumas horas depois de mais um fim de tarde passado numa exposição, 678 permanece desconfiado. É quase certo que vai implicar com o empregado de mesa que lhe serve o jantar; só uma noite bem dormida lhe devolverá a inocência. A exteriozação mais prosaica da desconfiança de 678, encontrâmo-la nos seus olhos, esbugalhados pelo pânico de poder vir a pagar $10 000 por uma tela com um rabisco de um artista que não chegará a singrar. Por isso, antes de entrar numa galeria 678 procura um canto resguardado e recorre a complexo esquema de exercícios respiratórios, como se preparasse um longo mergulho em apneia. Para se condicionar, enquanto sustém a inspiração murmura: "todas as peças são más, os artistas medíocres e os galeristas uns aldrabões". O exercício repete-se as vezes necessárias, em função do perigo potencial que cada exposição representa. Eis segundo problema de 687: o que fazer numa exposição, depois de consumida a arte? Há várias opções, mas nos últimos tempos 687 viciou-se em planos-sequência altmanianos. É para ele um gozo saltar de conversa em conversa e tentar compôr uma discussão em tempo real. Da última exposição ainda recorda alguns fragmentos de diálogos: , "... Vou é já para casa pintar uns quadros...", "Gosto desta cama. Gostas da cama?", "Por que é que não me ligaste ontem?", "Gosto das pregas dos lençóis sobre o fundo negro. Não gosto da cama. Mas gosto das pregas. Parecem de pedra...", "... Chega-te mais para aqui...", "... gostava de ter a camisa que auquele gajo tem", "... A arte? Morreu. " 687 é o primeiro a reconhecer a impossibilidade de fazer uma discussão inteligível em tempo real a partir de colagens sonoras. Disse-me, a rir, "Pelo menos eu tenho essa desculpa...". Confessou-me depois que essa coisa pomposa dos planos-sequência altmanianos é apenas uma desculpa para poder bisbilhotar. 687 está sempre a fazer batota; demora-se na conversa se a conversa lhe interessa. Como aquela em que alguém disse: "detesto aqueles escritores que abreviam os nomes dos personagens, chamando-os por letras. K. , L., M., H. J., N., U., K., T., K., W. e K. O leitor sente-se excluído porque fica logo a pensar que aquela letra faz referência a uma pessoa real que o escritor conhece. As duas Anas do círculo de amigos do escritor pelam-se por saber qual delas era a "A". Kafka encolhe os ombros... Enfim, só equívocos. Eu corria tudo a números. O número do telemóvel, claro... Não o número inteiro que isso quilha a narrativa, mas, digamos, uns três dígitos, transformados por um algoritmo simples. A vantagem é que o leitor médio não ia ficar incomodado e o círculo de amigos também não. Continuaria a haver um código, que pode ser decifrado, mas com esforço ". Enfim, como a aprovação de 678 costuma ser consequente, trato-o aqui por 678, em jeito de homenagem (mas não há nenhum código por decifrar).
Chegámos tarde à exposição de Daniel Blaufuks... Do Daniel Blaufuks... Chegámos tarde à exposição do Daniel. Se calhar devia antes tratá-lo por D. 243 também não ficava mal. Perceba-se o problema: o Daniel conhece-me, assim como conhece o 678. Passámos umas tangentes um ao outro nesta cidade; a oitava cabeça a contar da esquerda naquele jantar com muita gente era a dele, tenho agora a certeza. O Daniel escreveu-me até uma dedicatória muito simpática num dos livros dele. Falámos já e conversámos um pouco até. Se nos próximos 10 anos nos encontrarmos por acaso na rua, creio que ainda nos lembraremos um do outro; eu, porque me interessei pelo trabalho dele; ele, porque sendo fotógrafo deve ter boa memória visual. Daqui a 30 anos tudo será mais complicado. (continua)
Este título, mal talhado para elogio, devia em boa hora ter sido substituído pela seguinte interrogação: o que queres ser quando fores velho? De vez em quando alguém se lembra dos velhos. De tempos a tempos lá surge uma crónica pejada de sentimento, que leio com um aceno de cabeça de concordância. Minutos depois, ainda arrebatado pela leitura, tento comunicar com o velho que cruzo no corredor. Mas é só de vez em quando. É verdade que pratico os rudimentos da boa educação nos transportes públicos e sinto até uma ligeira pontada de remorso sempre que, com uma passada vigorosa, ultrapasso um velho no passeio. Mas já (e ainda) não há velhos na minha vida. Não me apetece pensar na velhice dos outros nem na minha. Para quê, se o velho que idealizo é um produto da publicidade que consumi? Pensar naquela quimera de velhotes dos anúncios da televisão, com os cabelos de um branco prateado, a camisola de lã, a lareira a crepitar e um netinho a espalhar-se ao comprido no soalho encerado? Pensar numa vida tirada de um enredo para plano poupança-reforma? "Corta!". Pensar nos passatempos, escrupulosamente iniciados 30 anos antes da reforma, para prevenir o aborrecimento? Pensar duas vezes, antes de dizer terceira-idade, idoso, velho, velhote, ancião, velhadas, veterano, cota? O que irrita no tratamento que damos aos nossos velhos e, em particular, ao nosso velho (aquele que seremos), é a oscilação entre o total esquecimento, a negação, e uma súbita e logo sôfrega apreensão, o "e agora?".
Em tempos alimentei a teoria peregrina de que Portugal é uma terra de velhos prodigiosos. A teoria foi cilindrada com pelos meus companheiros de discussão. Tentei ressucitar a teoria noutras mesas, noutros serões. E o resultado era sempre o mesmo. Pensava em Saramago e Manuel de Oliveira, duas figuras de proa, que construiram o essencial das suas carreiras numa altura da vida em que o comum dos mortais começa a abrandar e a alinhar pedras de dominó. "Não sejas parvo", diziam-me. Tinha ligado a observação à ditadura, que via a funcionar como uma panela de pressão para cozinhar talentos. Mas sempre soube que era uma teoria desastrada e não cheguei a nfazer os trabalhos de casa. Pode até ofender alguns, aquela gente hiper-democrática, capaz de descobrir a fresta rara de onde se espreita mais uma tentativa de branqueamento do Estado Novo (consta que está na moda). Enfim, pouco se pode pedir de uma teoria que não nasce de uma observação, antes de um desejo. Porque a imagem do velho a falar do seu passado sempre me pareceu sobrevalorizada e cruel...
Vale pois a pena escrever sobre Dino, 68 anos, a caminho da velhice, físico, grego, cabeleira à Einstein e pedalada vigorosa, personagem com uma obsessão nipónica pela fotografia, bom vaidoso, comunicador nato e camaleónico no jeito de se misturar com outras gerações. A cidade, com a Dino´s Pizza e o pronto-a-vestir Dino´s, espicaça-lhe o narcisismo. Dino fala demais e não ouve os outros. Em rigor, é um pouco chato. Gosta de si mais do que nós gostamos dele (e já gostamos muito). Escrevo-o à vontade, pois não consta que ele fale português e entre dois elogios não fica mal uma pequena crítica. Nova-iorquino exemplar, à moda antiga, vive aqui há 30 e muitos anos e tem outros 30 anos num país distante. Não é cosmopolita (abusa-se do termo), mas manifesta-se nele a complexidade do emigrante imigrado, sempre a confundir-se com o imigrante emigrado. E no Verão, às voltas pela cidade, a vencer lombas a pedal, fico-lhe com um enorme respeito. À sombra das copas dos parques públicos, deixo até que ele por instantes passe por ancião. Sei que segundos depois estará a cantar desafinado um tema estafado da Broadway, que sairá uma anedota e virá depois o itenerário para próximo passeio. E quando o Dino fala do futuro, sinto-me bem.
O fulano em questão parece-me ser um tipo com substância, mesmo depois de já o ter visto e ouvido. Concretizando, tem um ar de personagem queirosiana e um risinho irritante. Em tempos fez história em Portugal, a desenhar para um jornal. Agora está aqui e não se tem saído nada mal. Cruzamo-nos em tangentes. Reformulo: eu cruzo-me em secantes e ele em tangentes. Trocado por miúdos, conheço-o mas ele não sabe quem eu sou, apesar de já termos falado. Mostrei-lhe até o meu umbigo.
(Façamos uma pequena digressão). A comunidade portuguesa em Manhatan tem algumas pretensões. São artistas, cientistas e advogados divididos entre a ambição cosmopolita e o desabafo saudosista. Quando por aqui há uma formação espontânea de portugueses, ficamos reféns de um sentimento de culpa, coisa impensável nos clubes e sociedades recreativas de Newark e da banlieu de Paris, mais acomodadas mas seguramente mais francas. Também já joguei ao fintar o tuga; joguei depois ao topar o tuga e fugir. Com o tempo fui desistindo de ambos os jogos. O primeiro é muito desagradável para quem é fintado; o segundo é demasiado fácil de jogar. Agora gosto de encontrar compatriotas e de estar com eles. Chego a ouvir entrevistas na TSF duas vezes seguidas. Leio demasiadas crónicas de colunistas portugueses . Recebo até a Visão pelo correio, só para ter o prazer de ler uma revista sofrível na casa de banho
Antes era bom ter conhecidos estrangeiros para compôr as festas. Um australiano valia 15 pontos; um americano loiro valia 10 pontos; um afro-americano valia 20 pontos; um senegalês, 25 pontos; uma japonesa, 30 pontos; um japonês 15 pontos; um israelita, 50 pontos; um palestiniano, obviamente 50 pontos; um indiano 30 pontos; etc. Agora valem todos o mesmo. E entre os poucos amigos que fiz nesta cidade, os portugueses estão em maioria. Como cidadão do mundo sou uma fraude.(Acaba aqui a digressão).
Enquanto esperava que o fulano me fotografasse o umbigo, experimentei uma certa inveja. Não que me interesse muito pelos umbigos alheios (ou sequer pelo meu, no sentido literal), mas a ingenuidade do projecto e a simplicidade de meios e talento necessários para o desenvolver punha a tónica na ideia. A inveja resultava, assim, da facilidade com que este tipo concretizava boas ideias. Isto devia deixá-lo com imenso tempo para continuar à procura de mais ideias boas. Tal esquema parecia-me ideal. É claro que não lhe perguntei o que queria ele transmitir ao mostrar 100 fotografias digitais de umbigos. Há perguntas que não devem ser feitas aos artistas. Também não lhe fiz perguntas sobre o bigode. Mas com esta mania de não fazer perguntas já deixei escapar muita gente que estava mesmo à mão.
A negra encanta
Para minha grande pena, os ruídos deste laboratório não fazem justiça à imagem do laboratório imposta pelo genérico de uns desenhos animados que a minha geração consumia em doses diárias nos anos setenta. Quase nada aqui soa a laboratório. Não temos retortas, nem líquidos em persistente ebulição. No preciso momento em que escrevo, os ruídos são subprodutos degenerados da electricidade, como o ronronar dos congeladores e o zumbido de uma lâmpada fluorescente mal atarraxada; ou então são demasiado modernos e incaracterísticos, como os avisos sonoros de floresta tropical no computador de alguém a precisar de férias. E teria preferido nem sequer mencionar o meu colega grego, que grita em grego agarrado ao telefone. Mas há uma hora do dia em que o laboratório, fugindo de ser laboratório, transcende-se na acústica. É preciso chegar muito cedo. Então, sem grego à vista, concentro-me no burburinho das máquinas, que vem de todos os lados, quase sem harmonia; são coxos os acordes e pouco temperados os intervalos. Adivinho uma evasão de entropia pelos corredores. Fico atento aos acidentes. O erlenmeyer sujo que flutuou a noite toda numa tina com lixívia resolve ir ao fundo; sai um som redondo. O plástico do encosto da cadeira cede ao meu espreguiçar. A borracha dos ténis guincha baixinho no oleado. São sons que não ficam para a história. Olho depois a paisagem amordaçada pelos vidros duplos; a fila de carros ordeiros, as copas agitadas, o plano de água do East River com os seus baixíssimos relevos feitos por ventos e remoinhos. Tudo lá fora está em silêncio. E tudo cá dentro está à espera. Mais uma vez, ela não me desilude. É pontual como kant. E canta. A negra começa a encantar quando ainda não se vê. A voz precede-a, a 340 metro por segundo e com enorme competência no dobrar das esquinas. Canta sempre espirituais, mas julgo que na mesma semana não chega a repetir um tema. E logo vem a imagem dos campos de algodão que só conheço dos livros e da televisão. E tudo faz sentido. A começar, porque é negra (sim, preta, não me lixem) e porque canta enquanto mergulha os braços na tina com lixívia. Mas, logo depois, apenas por cantar maravilhosamente bem. Deixo de pensar nos campos de algodão. A senhora deve ser de Queens. Não tem um vozeirão. Ou talvez tenha, mas então canta em surdina. E enquanto canta e resgata os erlenmeyers, reparo que tem uma peruca de cabelos lisos e um rosto que fica bem com a canção. É já uma velha. Na Europa estaria reformada, a cantar lenga-lengas junto de um aquecedor a óleo. Aqui canta para objectos inanimados e ocasionais madrugadores. Mas é provável que brilhe aos Domingos. Só uma vez meti conversa. Elogiei-lhe a voz e ela devolveu-me um sorriso de menina envergonhada. Foi há muito tempo e nunca mais voltámos a falar. A rotina cumpre-se com ela a cantar e eu calado; não há lugar para saudações. Fico a ouvi-la na sala durante uns minutos, até ela partir com o carrinho cheio de loiça por esterilizar. A sua voz escoa-se depois em decrescendo geográfico. Então sou eu quem arregassa as mangas e se prepara para atacar o dia, já tomado por outra voz, distante e quase indistinta, que canta também: Bal... Bal... Baltazar(1). Este momento morre quando me precipito num daqueles sorrisinhos idiotas à actor de telefilme. E a imagem do grego ao fundo do corredor, de caixa torácica impressionante e telemóvel armado, não augura nada de bom. (1) início da canção dos tais desenhos animados, que nos anos 70 passavam na RTP.
Dois loucos
Este ano cruzei-me poucas vezes com o maluquinho do Upper East Side, um travesti que corre pelas avenidas quando o temperatura começa a ficar amena, mas que aparenta demasiado rimel na cara e gordura nas coxas para que alguém o leve a sério como fundista. É uma figura patética, quase televisiva. E é praticamente o único maluco público do bairro, se aceitar excluir dois ou três vagabundos por falta de provas dadas no que respeita à demência. Sobre a loucura que se esconde atrás das persianas nada posso adiantar. O maluco público parece ser um indivíduo extremamente territorial e solitário, embora a memória dos que o rodeiam ajude a vincar ainda mais as fronteiras e a exclusão. Afinal, de cada lugar recordamos apenas o maluco mais louco. O maluquinho da aldeia, por exemplo, resultado de acasos que o endocruzamento e o isolamento tornam menos raros, domina sozinho a praceta e as ruelas adjacentes. Não tem parceiros de dominó e fala para a lua. Uma aldeia não aguenta 5 loucos, pois um só chega para esgotar a caridade das gentes. O mesmo se passa nos bairros urbanos. Nos Olivais havia um caçador-recolector de tabaco, que percorria as calçadas a pedir cigarros e apanhar beatas. Era um homem de biografia incerta, inofensivo mas asustador, porque lembrava Rasputine. Ganhara o estatuto de maluco do bairro, fazendo esquecer um vasto leque de figuras secundárias, das quais agora apenas recordo, com algum esforço, o paraquedista de barriga transbordante e olhar vago, que fazia a carreira do 21 todos os dias só para se poder encostar às raparigas. Vem tudo isto a propósito de mais um encontro furtuito que acabo de ter com outro louco do Upper East Side. Este distingue-se do travesti em tudo. Não corre e é até invulgarmente vagaroso. Não é espalhafatoso, tem antes um misto de autismo e timidez que o anulam nos corredores. Desloca-se encostado às paredes e demora uma eternidade para contornar uma esquina. Anda geralmente com imensa papelada entalada entre um dos braços e o corpo. Às vezes fica largos minutos a olhar para coisas que não despertariam interesse ao mais excêntrico dos fotógrafos. É muito alto, com um sotaque que podia ser romeno. Curiosamente, há algo de vampiresco no personagem, pois anda sempre a deambular a altas horas da noite. O travesti é o maluquinho do bairro, mas o rapaz que agora descrevo não tem queda para louco do campus da universidade. Não tem a alegria tonta que se desejaria. Olho para ele e apetece-me devorar um calhamaço de psiquiatria. Olho para ele e assusto-me um pouco, porque é um louco consciente e amargurado, quando no estreito corredor me passa ao lado. Também por isso, quando ele nos passa ao lado vamos todos passando-lhe ao largo
Poppe
Falo do Poppe. Da pop? Não, do Poppe, com p grande. Popper? Não, apenas Poppe. Um tipo que diz poesia, escreve poesia, vive para a poesia e não vive da poesia porque ninguém vive da poesia. O Poppe não é transpiração, todo ele é inspiração. Nunca li um poema dele, mas repito que o Poppe é só inspiração. Podia também dizer que todo o Poppe é expiração. Numa palavra: respira poesia. É o verbo certo. O homem funciona sem tempos fracos e reinventou o diafragma. A métrica do poema ressente-se um pouco, mas não ouvi ninguém refilar. Poppe também repete versos, como se apalpasse o poema antes de decidir avançar. Disse-me ele que é uma forma de sentir o ritmo da poesia, o que foi um esclarecimento inútil pois já me tinha convencido que aquilo não era falta de memória. O Poppe não tem brancas e se as tivesse improvisaria. Naquelas noites que têm muitas noites, e depois da primeira, rumámos para um bar que tinha uma banda a tocar. Fizemos as coisas que se fazem nos bares, mas o Poppe parecia pairar como um abutre em torno dos músicos. No intervalo do gig percebi tudo: era fome de microfone. O Poppe apanhou um micro a jeito e de olhos fechados mostrou-nos que um poema é também um acordeão. Com a voz entaramelada, o português tornou-se ainda mais estranho para os ouvidos virgens da RDP. Não fora pelas oscilações rítmicas e seria uma ladainha. Neste momento convém referir que o Poppe estava nas últimas, depois da sessão de poesia que tinha organizado no Bowery Poets Club. Sem cair no ridículo, o Poppe conseguiu resgatar aquela noite do esquecimento a que estão condenados os serões de Segunda-feira. Por outras palavras, o evento foi um sucesso. Poppe fez de mestre de cerimónias e apresentou americanos raros, que estudam a nossa língua. Lá os fomos ouvindo, às vezes com aquele fascínio pelas coisas circenses, outras vezes genuinamente comovidos e só algumas vezes a agrafar os lábios com os dentes para que não saísse uma risada comprometedora. A verdade é que, se já quase tinha esquecido a americana gordinha que lançava poemas dentro de garrafas como se o Atlântico fosse um charco, lembro-me ainda da coragem daquela malta, falando um português sofrível mas dando o que tinham e não podiam ter para terminar um poema de Pessoa. O bizarro da situação de os ter a pisar o meu território, quando quase sempre sucede o contrário, teria bastado para ganhar a noite, mas houve muito mais que isso. O Poppe esteve bem. Declamou inúmeras poesias, com aquele misto de à vontade e atrapalhação de quem não preparou muito bem as coisas, mas tem infinitos versos na cabeça. E nele os versos estão sempre a querer sair… Como naquele dia em minha casa, cheia de gente satisfeita (o jantar estava bom), quando me desafiou para que começasse a tocar. E então lá peguei na guitarra, a pensar no desastre que tudo aquilo ia ser. Comecei a tricotar um ensopado harmónico e o Poppe, com os dedos também a mexer, arrancou um Herberto Helder que não soava nada mal em Mi menor. Apressado, falou de casas como quem fala da sua alma,/entre um incêndio,/junto ao modelo das searas,/na aprendizagem da paciência de vê-las erguer/e morrer com um pouco, um pouco. Creio que não houve fusão, pois eu não tenho unhas nem recursos para acompanhar o Poppe. E ninguém nos ligou nenhuma importância. Mas o Poppe é um verdadeiro artista e o verdadeiro artista é aquele que não precisa de público. Sem ser arrogante ou lunático, parece ficar sempre com a satisfação de um dever cumprido, pouco lhe importando o que os outros pensam. Quando me lembro do Poppe, ele está a dançar sozinho no palco do Bowery Poets Club, de olhos fechados e braços abertos, ao som de Elis Regina. Foi essa a forma que escolhera para rematar a sessão, não me perguntem porquê...Ivan
Masilami
Avisado por um amigo que é um fino observador da condição humana e acumula um vastíssimo currículo de interacções com elementos ainda jovens (mas já dentro do prazo, esclareça-se) do sexo feminino, tenho vindo a confirmar um certo declínio da língua inglesa falada pelas jovens americanas. Não sou grande apreciador de rap e ao fim de duas horas a ouvir Beastie Boys quase adormecia no estádio dos Giants, mas reconheço mérito em algumas letras. Com raras excepções, prefiro ler rap a ter que escutá-lo. Se esse é um legado dos bairros desfavorecidos que convém preservar, o contributo das meninas da classe média americana coloca-nos perante o desafio oposto. A questão é complexa. Em primeiro lugar, as americanas falam sempre uns 10 decibel acima do comum dos mortais. De início ainda as ouvia com algum desportivismo e lembrava-me de uma cena hilariante no incontornável Spinal Tap (a discussão sobre a idiossincrasia do amplificador do guitarrista, que tinha uma escala que ia até 11 ao contrário dos amplificadores de outras bandas, que ficavam no 10). Porém, rapidamente se tornou insuportável escutá-las. Elas começam a falar e eu imagino-me dentro da minúscula nave que no Fantastic voyage percorre o corpo humano, a ser açoitado por todos os lados e condenado a perecer numa laringe cavernosa. Em segundo lugar, estas meninas são excessivamente expressivas e abusam do rosto. Para gáudio dos cirurgiões plásticos, de seringa de botox na mão, já a gotejar, as raparigas desvalorizam o sorriso e fazem inúmeras caretas. A causa deste overacting permanente é o discurso directo. As americanas só sabem narrar uma história na forma de diálogo. Recorrendo ao "he(she) goes like…", fazem as vozes todas. A frequência com que a palavra "like" aparece é, deste modo, um óptimo indicador do grau de degenerescência do discurso. Não me preocupa muito saber que Shakespeare escrevia manejando 4000 vocábulos e o cidadão comum apenas recorre a 400, mas a morte da narrativa oral entristece-me. É por isso que gosto tanto de ouvir a Masalanami. Indiana, Masalanami distingue-se das indígenas muito para além da cor da pele. O inglês dela é um autêntico bálsamo para o espírito. Tem vinte e poucos anos, mas a India deu-lhe o domínio de cinco línguas, permitindo-lhe tirar partido da sólida formação que recebeu num colégio indiano ao velho estilo britânico. Não espanta pois que o inglês de Masalanami seja melhor que o inglês dos ingleses. Ela gosta tanto de falar e eu gosto tanto de a ouvir, que às vezes, perante uma tarefa rotineira que só convida à preguiça, peço-lhe que venha ter comigo e comece a falar, sobre qualquer coisa. Então, enquanto o meu corpo brinca aos robots, a mente diverte-se um pouco. Quado era miúdo, uma velhinha contava-me histórias ao lado de um fogão de lenha. Agora é a Masalanami quem me entretém ao lado de um bico de Busen. No fundo, estamos sempre a tentar fazer o que já fazíamos antes. Ivan
O velho que lê revistas de pornografia
Produto híbrido do cruzamento de um voyeurismo camuflado com o costumeiro pragmatismo americano, o museu do sexo aqui do burgo é patético. Senti-o quando reparei na pose dos quatro ou cinco homens que comigo seguiam o vídeo de uma Vanessa del Rio em pleno acto de tripla penetração: todos estavam de pé, tinham óculos, pinta de Wim Wenders e apoiavam o queixo na palma da mão do braço que a outra mão segurava pelo cotovelo. Só de relance, a imagem daquela gente reabilitou todas as recordações antes censuradas das tardes de pornografia alemã com a malta do bairro. Éramos putos (o que agora soa a tirada de burguês cinquentão e ex-maoísta, mas é meramente factual). Desde então o meu contacto com a pornografia tem sido algo tangencial. É claro que inspecciono sempre os cartazes dos Olímpia deste mundo, mas escolho depois outro cinema, como antes optava pelo Bruce Lee que passava no Éden. É uma espécie de reflexo atávico que ficou do tempo em que as calças de ganga ainda tinham algo de imaculado, incompatível com uma mancha de esperma alheio que tivesse sobrado da sessão anterior. A pornografia parece despertar apenas reacções extremadas- a censura completa (misturada com vergonha ou indignação) ou a defesa acérrima- mas a minha opinião é algo pífia: em doses moderadas, como quase tudo na vida, não faz mal nenhum. Quando se abusa dela, torna-se uma grande chatice. Como em tantos outros grupos, também constatei que cabia ao amigo mais inteligente e eloquente a apologia da pornografia. Gostava de o ouvir, mas da mesma forma que aprecio a defesa de um caso difícil. Os filmes pornográficos não primam pela invenção narrativa e a banalização do sexo diminui-lhe o interesse. Mais fazem as beatas pela continuação da indústria pornográfica do que os libertinos exaltados. Para mais, entre as mentes permeáveis, desconhecedoras dos rigorosos critérios de selecção da indústria pornográfica e de que quase todos os parâmetros antropométricos obedecem a uma distribuição gaussiana, uma colagem excessiva ao universo da pornografia pode ser fonte de grandes frustrações. Vem tudo isto a propósito de um fulano aqui do quarteirão. Em rigor, desde a última Quinta-Feira, do fulano só restam as cinzas dele e as lembranças nossas. Trabalhava numa Deli, algo que se define grosseiramente como uma mercearia de bairro. Os indianos e os paquistaneses dominam o negócio das Deli, que aqui são também “lojas de conveniência”. Este tipo já era velhote quando o conheci e estava sempre a ler pornografia. Ao balcão, o velho cobria as revistas com a edição diária do New york Post. Foi preciso esperar umas três semanas de visita quase diária à Deli para que eu ganhasse coragem e soltasse a piada que tinha engatada desde que topara o esquema dele: “Sabe, devia usar a revista para esconder esse jornal e não o contrário...” Uma piada armazenada é um produto bem mais perecível do que qualquer enlatado, mas a verdade é que o homem riu em abundância. Reparei então que parecia a negação de um coelho: faltavam-lhe os incisivos. É claro que não lhe disse nada. Enquanto a piada ainda ressoava, fui metendo conversa. A ideia que faço da Índia peca por escassez de referências: algumas leituras avulsas, muitos preconceitos e 5 horas no aeroporto de Nova Deli, com o medo dos mosquitos, ao ponto de fazer da roupa uma trincheira e deixar a descoberto apenas os olhos, que lá iam seguindo os telediscos do melhor da pop indiana. (continua) Ivan
Os Nobel no elevador
Quando subo com eles no elevador, até chegar ao quarto andar penso em algo de fundamental para dizer. Nunca sai nada. Às vezes lembro-me das perguntas menos elegantes: “o que fez ao milhão?”, “mas a ideia foi mesmo sua?”, “acha que merecia ter ganho?”. Outras vezes apetece-me perguntar-lhes sobre o momento da descoberta e o instante da sua percepção, aqueles 4 ou 5 segundos que justificam uma carreira. Invariavelmente, fico só a olhar com discrição para eles. Respiram como toda a gente, têm o rosto vincado por rugas. Não procuro nenhum traço característico. Que raio, a frenologia foi desmascarada a tempo e contaram-me já um número suficiente de anedotas para saber que também eles têm ausências de inteligência. Um Nobel é um tipo provavelmente esperto e capaz, que teve sorte. Esta definição, algo desencantada, pode levantar a suspeita de um certo ressentimento premeditado. Não comento. É impossível ter um discurso lúcido sobre um prémio Nobel. O premiado vive nas nuvens, levita sobre o mundo com o ego transformado em zeppelin ou desfaz-se em exercícios de genuína ou falsa imodéstia. Os colegas distribuem-se por um espectro que vai da inveja verde à admiração mais babada. Há uns faróis de lucidez no meio do caos de opiniões que um Nobel suscita. Por agora, assinalo que um dos Nobel que sobe comigo no elevador tem uma cabeleira de um branco imaculado e o outro tem cara de vilão e passeia-se com um cão sublime.
Bob
Bob não publicou um único artigo nos últimos 7 anos. A acreditar na regra académica do publish or perish, para morto-vivo o meu companheiro Bob até está com muito bom aspecto. Não publicar nada em 7 anos é uma pequena catástrofe pessoal. Não sendo ele mentecapto nem preguiçoso, é difícil acreditar em tanto azar. A verdade é que as carreiras científicas se fazem muito à custa de faro político e de alguma sorte. O talento e a persistência também contam e acabam sempre por fazer a diferença, mas no caso presente não pretendo relativizar o sucesso dos outros. Trata-se apenas de enquadrar o fracasso de Bob. Não sei se Bob é talentoso. Confirmo a sua garra. Sei que gosta de beber cerveja, que tem uma colecção de T-shirts que seria invejável se os tira-nódoas funcionassem realmente. Sei que não tem aquilo a que se convencionou chamar "vida pessoal", conceito de definição escorregadia mas que passa por ter uma companhia em casa (recebendo-se ainda bonificações por cada filho que se fez e uma menção honrosa por cada cão que se alimenta) e actividades extra-laborais, como praticar desporto ou participar em cursos de pintura. Ficar em casa a ver televisão é uma actividade extra-laboral penalizada e ficar em casa a ler é um passatempo ignorado. Investir horas a cuidar da avó doente desperta alguma simpatia e nenhuma inveja, pelo que não dá direito a muitos pontos. No fundo, a "vida pessoal" é a vida que cada um sonha para si próprio. Recorrendo a estes critérios, Bob é o típico loser. Como não é muito atraente, não tem muito dinheiro nem uma carreira promissora, dificilmente arranjará namorada em Manhattan. A solidão leva-o a trabalhar mas, como a frustração não é boa conselheira, facilmente se entra numa espiral de derrocadas. Esta é a versão corrente sobre a vida de Bob. É claro que sobre este assunto ninguém se lembrou de consultar o visado.
Bruce
O porteiro é um homem avariado. Ninguém tem paciência para o aturar, mas ele gosta de mim e costumo dar-lhe 15 minutos de atenção, aos Domingos, com um pé no elevador e o outro ainda no patamar. Que se lixem os vizinhos. A avaria de Bruce é sistémica e tem causas múltiplas. Segundo o próprio: ter fumado arbustos de marijuana, abusado da bebida e fornicado a torto e a direito. Não vale a pena discutir com ele. É um homem de inteligência flutuante. Às vezes conta coisas com uma lucidez desconcertante, outras vezes chega a ser constrangedor. Se há uns tempos ainda se dizia que ninguém era de Lisboa, em tempos ainda mais remotos ninguém era de New York, mas Bruce é um produto desta cidade. Aqui nasceu e aqui vai morrer. Desconfio que nem sequer foi de férias à terra dos pais, que emigraram da Grécia para aqui, há mais de 60 anos (tomo nota: será tópico de conversa nos próximos 15 minutos dominicais). Conta-me histórias do Bronx, de como eram os parques da cidade nos anos 70, das suas idas ao museu de história natural, do conto de ficção científica que escreveu há 30 anos (tema recorrente). É o Bruce no seu melhor, ocasião para reparar que ainda se ri como um miúdo. Mas fala-me também das suas proezas sexuais de outros tempos, do número de mulheres com quem dormiu, da duração da folia (a ser verdade, Bruce era um “tântrico natural”). De início ainda achava graça a tais histórias, que agora se repetem e me aborrecem, ocasião para reparar na boca cavernosa e na magreza de quem quase fura a farda com as clavículas. Em suma, Domingo sim, Domingo não, ou aprecio o Bruce ou talvez não.