Nos regressos ao país há a explicação oficial, a explicação íntima e a explicação verdadeira. É raro coincidirem. A explicação oficial seria algo como: regresso porque tenho saudades da família, da namorada, dos amigos, de Lisboa, de Portugal. Ou uma explicação oficial mais poética: regresso porque em nenhum outro lugar a minha memória é tão afagada quotidianamente. Ainda oficial e algo pacóvia: regresso porque tenho um futuro mais promissor em Portugal. A explicação íntima, que se partilha com um ou dois confidentes, geralmente é uma versão das anteriores mas com o elemento da dúvida. E a explicação verdadeira eu não sei qual seria.
A explicação oficial é quase sempre profundamente mentirosa. Não chega a ser imoral, sobretudo se é em resposta a uma pergunta. Quando em vez de "mete-te na tua vida" se diz "voltei porque o país precisa de mim", o que é uma mentira que nos cobre de ridículo, preserva-se alguma boa educação. Não tem muita importância. Pior é quando se responde que se regressa por causa de uma pessoa. As intenções até podem ser as melhores e por vezes é verdade, mas ninguém tem de suportar o fardo do retornado. Dizer que se regressa por uma pessoa é torná-la refém dos nossos fracassos futuros, uma profunda injustiça e um erro estratégico. Esta é a explicação verdadeira que nunca pode passar a explicação oficial e que nem na intimidade se deve arriscar.
Parte da motivação para regressar explica-se simplesmente pelo desejo de mudança. Nunca se regressa para o mesmo, ainda que seja o mesmo lugar. Há também sempre um lado de desesperança, de desistência, sobretudo para quem realmente saiu e em alguma altura considerou não voltar. A mágoa do salto que fracassou deve ser mais pesada que a frustração de nunca se ter sequer tentado o salto, mas agrada-me pensar que o instinto de sobrevivência mais depressa faz esquecer a primeira do que a segunda.
Haverá talvez uma lista de razões para se regressar, mas só um espírito pateticamente organizado as sente somando uma a seguir a outra. Isolar a razão verdadeira, que nunca é cumulativa, é algo que tenho enorme dificuldade em concretizar. Também foi assim quando saí. Ainda hoje não sei por que motivo o fiz; se calhar por simples imitação, pois era o que se fazia na altura, como agora sucede com os meus amigos que regressam. É claro que o ego não se conforma e procuro outra razão, vasculhando entre o que é pouco nobre e o que é prosaico. Ter saudades, por exemplo, é genericamente prosaico. Mas ter - por hipótese - saudades de açorda alentejana até não me desagrada, não me compromete nem compromete outros. E é verdade que tenho saudades de açorda alentejana, mesmo que não seja a explicação verdadeira. Para quê complicar mais? Sim, volto. Volto pela sopa. 2.06.07
Tenho algum orgulho em não me armar em especialista de temas sobre os EUA só por viver aqui. Quase todos os blogues de política e de cultura portugueses que leio percebem mais dos EUA do que eu. Creio que percebem pouco, mas percebem mais. Há gente que nunca aqui esteve e disserta longamente sobre a América e até há um cineasta europeu que faz filmes sobre americanos sem nunca ter atravessado o Atlântico. Não me parece imoral, nem contraproducente. O trabalho de campo não é importante. Viver aqui também não. Importa mais a inteligência, a capacidade de trabalho, a perspicácia, a cultura, a graça e o interesse que se tem pela coisa. Leituras, filmes e canais de televisão dão uma imagem da América mais precisa do que 15 dias de férias aqui ou 4 anos a viver em Nova Iorque. E no campo mais restrito da cultura, os erros de paralaxe geram efeitos curiosos. Uma América caleidoscópica, porque não?
Quase não privo com americanos. Vivo entre desterrados. E o que conheço dos EUA além desta cidade? Um bom restaurante em Chicago e os seus museus, algumas ruas de San Francisco, as tristíssimas Niagara Falls, umas pistas de ski (desporto que abomino) no Colorado, em Salt Lake City, no New Mexico e perto daqui, Miami e os Everglades, algumas estradas da Florida e Puerto Rico.
Passo por espanhol, italiano e por português, mas ninguém pergunta. Se estiver com barba e bronzeado, vou quase a magrebino, mas apenas se o interlocutor for ignorante ou trabalhar na segurança dos aeroportos. Na Europa sou latino, só que aqui os latinos são os pobres e a classe média-baixa do México e ao sul do México, incluindo ainda o Caribe, embora não os seus pretos, que esses são arrumados na deliciosa categoria de "afro-americanos". Experimento pois um certo anominato étnico que não resulta de miscigenação, apenas da indiferença dos locais. Por vezes tratam-me por europeu, mas creio que Bruxelas ainda não estipulou que sejamos uma tribo. "Europeu" aqui define um modo de vida e é uma forma sofisticada de dizer que alguém é preguiçoso e tira muitas férias.
Evito o recurso frequente aos estrangeirismos, mas sou muitas vezes tentado a abusar deles no texto, ao ponto de se deixar de perceber o que é estrangeiro. Um texto quimérico que funda duas línguas fica no alcance ao alcance de menos leitores e de ainda menos autores, mas expande o leque de recursos. Há por aí coisas preciosas. A minha maior frustração de não ser bilingue não é ser incapaz de falar fluentemente duas línguas sem sotaque, mas sim ser incapaz de as escrever e misturar de modo irrepreensível, mantendo o sotaque.
Sócrates dizia-se cidadão do mundo, mas numa altura em que o mundo era outra coisa. Quem hoje se diz cidadão do mundo - mas indo das palavras aos actos, bem entendido - só com muito talento e alguns passaportes não fica sendo cidadão de coisa nenhuma.
Saltar de país em país fez com que passasse a assassinar várias línguas sem sentir remorsos. Parte deste desprezo é vingança mal dirigida de quem sabe que é menos esperto e muito menos engraçado no estrangeiro. Perder inteligência aparente e sentido de humor é sempre uma tragédia, que se agudiza quando estas qualidades escasseiam já na língua-mãe. Uma solução possível é adoptar um registo lacónico e algumas rotinas de mímica e pantonima. Ou então ser paciente e esperar os anos suficientes até se chegar à fluência e ao domínio do tempo certo para soltar a piada. Até lá vamos sendo salvos pelo sotaque, que nos dá o benefício da dúvida e chega a inspirar alguma curiosidade zoológica entre os autóctones.
Quem sai do país fica com o ónus de dar notícia de si, de tomar a iniciativa. Na prática, é como se estivéssemos sempre a relembrar aos amigos (menos à família, reconheça-se ) a nossa morada e número de telefone. Ir viver para o estrangeiro não é natural e parece que, de algum modo, devemos pagar por isso.
Uma amiga de longa data reparou que antes eu não dizia tantos palavrões como agora. Justifiquei-me com o facto de viver no estrangeiro, embora não pelo motivo que geralmente se apresenta. Não é por estar rodeado de estrangeiros que mais facilmente solto uma asneira. É falta de educação usar uma expressão que mais ninguém entende. Ora, são precisos muitos anos para poder praguejar com propriedade numa língua estrangeira e não me sinto à vontade quando rogo pragas em inglês. Pareço um mau actor. Reajo também com embaraço quando oiço um potuguês a dizer "fuck you" e admiro os poucos compatriotas que o dizem como se tivessem crescido em Brooklyn. O resultado é que ao pé de americanos, indianos e alemães sou um tipo educado, mas que acumula alguma tensão. Só desabafo quando apanho um português a jeito.
O principal encanto de começar uma vida no estrangeiro é a ausência de passado. É muito fácil alguém ficar refém do seu passado, inclusive quando não se praticou um crime grave de forma descuidada.
Não cheguei à América com $10 no bolso. Não sou nem um aventureiro nem um desesperado. Vim com emprego para um país de língua familiar, onde sabia que encontraria muitos amigos entretanto estabelecidos em Nova Iorque e até uma namorada, que me tinha precedido e havia já desbravado algum terreno. Zero em aventura, como se vê. Ainda assim, há uma série de obstáculos e um número suficiente de situações novas, ambos impossíveis de reproduzir no país onde se cresceu.
A gente circunscritamente muito famosa fala das idas ao estrangeiro como um escape, uma forma de voltar a apreciar o anonimato. O cidadão anónimo experimenta algo diferente, mas não menos intenso (creio): o reforço do anonimato. Há poucas coisas mais libertadoras do que nos perdermos numa cidade estranha. Enfim, admito que nem todos estejam de acordo. É uma questão de temperamento. E de sentido de orientação.
Não é preciso chegar a adulto para perceber quão flexível a nossa consciência tem de ser a fim de preservarmos um mínimo de sanidade e qualidade de vida. Não pensei foi que a geografia contasse tanto. Aqui estou a ser pouco rigoroso. Nunca é a geografia, obviamente. Não há um sistema de coordenadas para a moral. São sempre as circunstâncias que o lugar cria. Quando na adolescência sentia impulsos cleptómanos incontroláveis ao pôr os pés em Espanha, respondia apenas à ocasião e ao chamariz (leche condensada), embora parecesse que tinha trocado de consciência ou perdido escrúpulos ao passar a fronteira.
Recordações comuns a muitos certamente, mas que não impediram que me surpreendesse nos últimos dias. Afinal, a falta de laços de amizade, de conhecimentos e de ligações a instituições faz também com que o meu comportamento se altere, ao ponto de ter um conjunto de valores diferentes. Por exemplo, em Nova Iorque não me incomoda nada o netwoking ("o tráfico de influências", "a cunha", ou qualquer outra designação mais eufemística, sem cairmos no extremo pueril que são os "conhecimentos"). Discutamos o tópico em termos relativos, para evitar a hipocrisia latente: tenho em Nova Iorque uma desenvoltura na busca de contactos que não consigo pôr em prática em Lisboa. Como entender isto? Só encontro duas explicações.
(continua)
"No man is an island entire of itself; every man
is a piece of the continent, a part of the main;
if a clod be washed away by the sea, Europe
is the less, as well as if a promontory were, as
well as any manner of thy friends or of thine
own were; any man's death diminishes me,
because I am involved in mankind.
And therefore never send to know for whom
the bell tolls; it tolls for thee."
John Donne
Não a vim a salto para aqui. Se algum salto dei, foi com rede. É verdade que há uma parte de aventura quando se começa a vida noutro país, mas não vale a pena exagerar o risco para apimentar a narrativa ou retocar a biografia. Cheguei já bem protegido, o que me diferencia de muitos outros emigrantes contemporâneos. Cheguei também noutro tempo, o que me distingue de quase todos os emigrantes de há uma ou duas gerações atrás, incluindo muitos familiares chegados. Mais pobres, menos instruídos, sem as facilidades de comunicação de que hoje gozamos, pouco tenho em comum com eles, na verdade. Seria desajustado tentar exibir como cicatrizes as privações que tradicionalmente associamos a quem tenta a sorte no estrangeiro, tal como seria ridículo reclamar-me herdeiro do mesmo espírito de sacrifício, do mesmo instinto de sobrevivência. Só partilhamos uma dor: sentir que muitos daqueles que amamos estão longe e que, por maior que seja a frequência de telefonemas, cartas, mensagens electrónicas ou visitas, mais tarde ou mais cedo há um momento em que percebemos que estamos do lado de fora. Porque os momentos cruciais, aqueles que anos depois serão recordados, sobrepondo-se às férias, jantares e telefonemas em que nada se passou ou disse, ou surgem de repente ou, de tão delicados, fazem com que do outro lado não venha notícia enquanto não for uma boa notícia.
Percebo as razões que levam a tais práticas censórias. Sei que são gestos bem intencionados. Mas ao cortar pela raiz a previsível sequência de acções que incluiria uma travessia transatlântica a fim de dar um abraço, beber de alívio e depois partir, deixa-se sempre uma ferida que não sara. Boas notícias são boas notícias, mas são melhores quando conquistadas. Por uma vez, gostaria de ter sido claro e que honrassem este pedido.