Sob pressão e sem superstição, a série A Bola no Olival (BnO) atinge a entrada cem e fica agora arquivada. Para uma explicação anedótica de como isto começou, ver 1, 2 e 3. Algumas considerações, mas só mesmo para aficionados, podem ser lidas aqui.
Não queria terminar sem agradecer o incentivo que recebi de algumas pessoas, a saber: Rui Martinho, o amigo que apostou em mim apostando contra, Inês Setil, Paula Duque Magalhães, meu pai, "maradona", Pedro Paixão, leitores que me escreveram e com quem cheguei a ter animadas discussões. Pelas referências simpáticas, agradeço ainda aos autores dos seguintes blogues: Apenas mais Um, Aviz, Blogue de Esquerda (José Mário Silva), Complexidade e Contradição, Límpida Medida, A Montanha Mágica, Pitau Raia e Quatro Caminhos.
Éramos quatro amigos no lancil de um dos passeios da Praça da Figueira, com a euforia dos suburbanos no centro da cidade. A assistir tal felicidade, vários copos de ginjinha, consumidos duas horas antes numa pequena taberna. Na praça cuspíamos para o ar os caroços, até então guardados num lugar da boca que não atrapalhava a fala. Por volta das duas da manhã de um princípio de Verão, bêbados e com o ano escolar resolvido, não se podia pedir muito mais. Com o mesmo grupo havia já conquistado o castelo de Nodar e lá pernoitado. Lembro-me que nos trancámos por dentro e de urinar com eles do topo de uma das muralhas, todos virados para o pôr-do-sol, de costas para uma lua gigantesca e alaranjada. Coisas destas reforçam a camaradagem. Foi com a mesma malta que ganharia o hábito de andar depressa e o vício de viajar. Chegámos ao ponto de criar um nome para o nosso grupo ("Solas"), um logótipo e um poster. O poster mostrava uma fotografia com a pegada de Armstrong na lua, encimada pelo slogan "Por todo o lado" e era a preto e branco, um trabalho enxuto, coisa fina. É agora claro que por essa altura comecei a descolar do futebol. As urgências era outras e infinitas as possibilidades do comboio. Recusara já entrar em peladinhas, o que só me fizera confusão até à segunda nega. E com aqueles amigos, más companhias que nunca tinham experimentado o vício da bola e nem sequer viviam no prédio, tudo se facilitava. Viajar aparecia como uma tentação e eu, ignorando que pôr a paisagem a desfilar é um truque fácil para vencer o tédio, trinquei a maçãzinha com gosto. Nem nesse instante me ocorreu -assim ao jeito de uma revelação - que o futebol é a mais sublime das distracções. Estava frustrado com a bola, farto de ser defesa esquerdo e de não conseguir enviar um petardo do meio da rua ao poste com a bola sempre a meia altura. Viajar parecia até vir com o bónus do vazio competitivo e não podia antecipar o dia em que seria humilhado por um inglês, num posto da guarda nepalesa, a uns 3000 m de altitude, com ele libertar do polegar as páginas do passaporte - o pulha - enquanto enumerava em voz alta todos os países onde estivera. O mais grave foi não me ter apercebido do encanto das coisas depuradas: uma mão-cheia de regras elementares que não custara decorar e seria impensável esquecer, um descampado, quatro pedras, 8 amigos e uma bola garantiram horas, dias, semanas acumuladas de puro gozo. Nunca nos ocorria que o golo de cabeça a partir de um cruzamento do flanco esquerdo repetia a papel químico uma jogada da semana anterior. Parecia sempre que fazíamos tudo pela primeira vez. Estávamos em paz, é o que era. O frenesim das viagens, a ânsia absurda de novidade, só pode responder a um qualquer desequilíbrio.
Não havia forma de o autocarro chegar e optámos por apanhar um táxi de regresso aos Olivais. A caminho do Rossio, um de nós deu inadvertidamente um pontapé numa lata de cerveja vazia, fazendo-a entrar aos trambolhões na grande praça, numa cacofonia que encheu a noite e teria acordado a vizinhança se por ali vivesse gente um pouco menos surda. Aquele som convocou-nos de imediato. Esquecemos o táxi e avançámos ao pontapé na lata. É coisa de rapazes, isto de responder a um objecto que foi posto em movimento com os pés. Estará aqui resolvido o mistério do futebol? Ovo? Galinha? Restauradores. Lisboa era uma cidade praticamente deserta; até as prostitutas da Avenida da Liberdade pareciam ter dado a jornada por terminada. E fomos subindo pela afrancesada Avenida, gozando os passeios como se aproveita um corredor esquerdo livre de defesas. Sentíamos a cidade como o centro do mundo e íamos com a confiança de quem nunca hesita numa encruzilhada, falando cada vez menos uns com os outros, mas sempre ao pontapé na lata. Ninguém nos importunava, nem sequer o guarda-nocturno com a sua farda cinzenta infeliz. Foi neste estado de graça que contornámos o Marquês (três voltas) e nos enfiámos pelas Avenidas Novas. A lata era já mais disco do que cilindro, depois de um de nós lhe ter saltado em cima- "a aderência melhora e o pontapé sai menos caprichoso". O som que fazia tornara-se também mais simpático para a vizinhança.
Há uma hora certa para se dar por encerrado um jantar de amigos. Não sei se é pelo prenúncio de ressaca ou porque um excesso de confiança tende a inquinar o convívio prolongado. Lembro-me que um longo pontapé deixou a lata a dezenas de metros, estávamos já perto da Praça de Touros do Campo Pequeno. "E agora, dizemos o quê?", devemos ter pensado. Eu invejava o jeito para as mulheres de um, o bom senso de outro e a excentricidade tranquila do terceiro, um certo jeito de se conseguir viver num mundo que é só nosso. Eles teriam as suas invejas, também. Numa partida de futebol haveria uma solução fácil. Mas a altas horas da noite, quase sóbrios, num princípio de Verão e sem o futuro resolvido, tudo se complicou.
Acabei sozinho. Eu e a lata. Há coisas que não podemos dizer. Às vezes não nos percebem, outras vezes somos nós que não as entendemos. Não primei pelo raciocínio claro naquela noite. Uma lata ressalta mal e faltou-me a tal cadência da bola contra a parede, que disciplina a mente. Senti ali, talvez pela primeira vez, que todas as amizades são projectos inacabados e que um excesso de sinceridade pode ser contraproducente. A cumplicidade é isso: a mútua percepção da dúvida no outro, por dizermos e ele nos dizer sempre menos do que aquilo que pensamos. Eis uma conclusão que não teria agradado ao Padre Janela: mentir por omissão é um dever. Sorte minha a Igreja não ficar no caminho de regresso a casa. É que fiz ponto de honra de seguir com a lata até ao bairro, e vinha com fúria suficiente para usar a cruz enferrujada como mira e alvo.
São José, com os seus enfermos parqueados nos corredores e as paredes a pedir uma nova demão, só não passava por hospital de campanha de tempos idos por míngua de amputados e de gritos lancinantes. Reinava uma atmosfera de anestesia geral, apenas perturbada pelas reclamações de quem ficava horas à espera. Fazia um mês que por ali andávamos e cruzávamo-nos então com total economia nas saudações. Uma simples negação com a cabeça a responder à pergunta que pairava no ar: "acordou?" Montáramos um plantão com turnos de 3 horas. Duas idas à cidade, quatro módulos das Carris e duas tardes de futebol comprometidas, tudo por solidariedade e difusa penitência. Solidariedade com o rapaz em coma, projectado por um táxi num voo aparatoso. Solidariedade também para com B., que atirara a bola à estrada. Fazíamos as viagens de autocarro sozinhos, ensimesmados em exercícios autopunitivos de história alternativa. De paragem em paragem, íamos num delírio crescente. "E se eu não tivesse passado a bola a B., que a rematou para a estrada? E se eu não tivesse subido tanto e trocado de posição com ele? Falhando eu o jogo, não teria sido outro o encadeamento das jogadas? Na véspera, com o capricho de dormir na cama de cima do beliche, perturbei o campo gravítico e alterei o mundo". A culpa apresentava-se tentacularmente retroactiva.
Fosse como fosse, é um pouco paradoxal que um comatoso puxasse por tanta conversa, e menos paradoxal que a orientássemos em proveito próprio. O sentimento de culpa atenuava-se com a chegada ao hospital. Bastava depois que o familiar de serviço se ausentasse para fumar um cigarro, que logo saía confissão. Mas não procedíamos como se estivéssemos num penedo ou diante de uma campa. Todo o segredo sério encerra um desejo de exposição, que se a sós não é puxado para fora, diante de uma multidão é impedido de sair. Só ali, perante a ínfima probabilidade de o nosso amigo poder acordar sem abrir os olhos, este jogo de forças pendia para a confissão. Por isso contávamos tudo, sem sequer ligar ao mais que provável carolo ou rasteira com que no passado importunáramos o moço que dormia à nossa frente. E em poucas semanas começaram a faltar segredos novos para lhe contar. Foi coisa rápida, talvez por sermos novos e miúdos com alguma instrução e poder de síntese.
Um arranjo perfeito. Até ao dia em ele acordou. Aí fomos da alegria ao sobressalto em fracções de segundo. Houve festa e abraços, claro. A pergunta engatada só saiu mais tarde, em algum elevador: "ouve lá, tu não te lembras de nada?" Como se demorássemos a acreditar no que ele nos dizia, insistimos - "nem daquela vez em que te belisquei a mão?" - e começámos a testar as suas recordações de eventos passados. Com a excepção do acidente com o táxi, ele lembrava-se de tudo para trás. Só do período em que esteve em coma é que não havia registo na sua memória. Porém, a dúvida persistia: "e se não fosse assim?" Ou se, lentamente, ele começasse a recordar todas aquelas vozes? Foi este temor que aos poucos nos afastou dele. Uma injustiça, creio agora, que não conseguimos contrariar. O rapaz isolou-se cada vez mais. Poderia ter acabado mal, no mundo da droga ou pior ainda. Curiosamente, tornou-se seminarista. Ainda me lembro da resposta que o pai de um amigo deu, quando fui jantar a casa dele e o filho lhe perguntou se os padres estavam também obrigados ao sigilo quando as confissões precedem a data da ordenação: "tenho o direito canónico esquecido. Vá, vê se acabas a sopa".
Ao abusar da carga de ombro caí com P. A bola foi recuperada por outros e um contra-ataque deixou-nos isolados e por terra, numa das metades do campo. Por um acaso a minha mão ficou sobre o flanco de P. e foi então que senti no seu corpo uma curvatura inesperada, uma reentrância que cinzelava as suas ancas, tudo isto se passando sem que ele soltasse uma palavra, me agarrasse a mão ou se afastasse de mim, embora a sua respiração se fosse sobrepondo aos gritos longínquos dos atacantes. Julguei-me legitimado para avançar e em segundos a minha mão estava sob a T-shirt de P., tocando uma textura estranha, que talvez fosse gaze e parecia estar húmida de suor. Antes de perceber o que se passava, P. fez-me um pedido, com grande altivez, como se reclamasse os dividendos da minha ousadia: "Não digas nada a ninguém, prometes?" Só então entendi a razão dele jogar sempre com calças de fato de treino e de a sua audácia ultrapassar em muito a sua força física.
Era ainda o tempo em que acreditava numa certa ordem natural das coisas. Deliciava-me com o duelo entre a vilã Kratochvilova e a graciosa Marita Koch, por quem partilhava um fraquinho com o bom do Luís Lopes, o especialista em atletismo da RTP. E apesar do cavalos com arções, a ginástica desportiva era naturalmente mais espectacular quando praticada por mulheres. Só que o futebol estava num patamar diferente e a ideia de ter mulheres em campo parecia-me contranatura. Eu sabia que se tratava de um preconceito, porque aceitava a presença de G. e o rapaz era o pior jogador entre todas as formas vivas, incluindo mulheres e até manatins. A única atenuante era a paixão dele por futebol. Lembro-me de discutirmos este assunto e alguém ter dito: "Somos cúmplices de um crime sempre que deixamos G. jogar, mas ele gosta tanto disto que se trata de um crime passional". Nas mulheres jamais identificara sinais de tal paixão. Pediam-nos para jogar por capricho ou por pretenderem chamar a atenção de um dos nossos craques. Não era coisa séria.
P. mudara-se para o prédio fazia pouco tempo e, por ser filho de pais zelosos e exigentes, era o único a frequentar um colégio em regime semi-interno. Desaparecia nas madrugadas de Segunda e regressava na Sexta, já de noite. Na verdade, só o víamos aos Sábados de manhã, pronto para jogar, com calças de fato de treino, uma T-shirt larga e um boné de basebol, como aqueles que apareciam nos filmes americanos e mais ninguém no bairro usava. Era de poucas falas e um jogador razoável, que não falhava um passe e nunca arriscava uma finta.
O seu "prometes?" final saiu já com a voz absurdamente fina, mas depois P. recompôs-se, eu calei-me e continuámos a jogar. Durante um ano guardei segredo, até que P. se mudou para o liceu do bairro (apertos financeiros?). Percebendo que seria impossível continuar a enganar a rapaziada, compensou a frustração abraçando o basquetebol. E, da noite para o dia, apareceu como mulher, com umas calças de ganga justas, muitas alças sobre os ombros e os cabelos soltos e compridos. A metamorfose de defesa esquerdo em ícone sexual do bairro pode ter sido a sua vingança acidental. Sempre que por mim passava eu voltava ao dia em que caíramos juntos sobre a relva e ficava por momentos a imaginar como teria sido ajudá-la a livrar-se da gaze em que se enrolava para anular as curvas do seu corpo. O futebol é um desporto de contactos e só alguns - os mais lentos de raciocínio - não praticavam flashbacks semelhantes, porque tinham visto uma reportagem na televisão e para eles ela ainda era ele, um caso claro de travestismo.
Numa tarde, pela mão de A., o enciclopédico do futebol britânico, descobrimos a arte de George Best. A. fazia pause no vídeo, dizia "que desperdício de talento, pá...", depois soltava o endiabrado Best, deixava-o marcar um golo soberbo, para logo regressar à sua ladainha: "que desperdício de talento, senhores... Que pena, pá. Que pena este gajo não ter jogado no Liverpool". Da decadência de Best e dos seus problemas com o álcool ele só nos falou a seguir, mas como nota à margem. A. era tão fanático pelo Liverpool que a tragédia de Best não lhe despertava a menor curiosidade. Connosco passou-se o contrário, talvez justamente por culpa de A. e da malfadada cassete com os melhores momentos do Kenny Dalglish, que conhecíamos de cor e tinha a fita riscada como um filme velho. Fugimos a tempo de casa dele, a pensar na bebedeira do Best. De pergunta em pergunta chegámos então ao outro mártir da bebida, Garrincha. E foi assim que todos os bêbados da taberna do bairro se transformaram em velhos craques de futebol em potência e nós nos sentimos obrigados a investigar aquelas vidas.
Agora à distância, a taberna surge numa tonalidade esverdeada e sombria, parecendo que a cor do vidro das garrafas e a escuridão do tinto tomaram conta do estabelecimento; e dos velhos também, com os cantos dos lábios manchados, mesmo se não passavam a manhã a fazer escalas num trombone cheio de verdete. Só alguns olhos azuis brilhantes e um par de olhos escuros vivos ainda resistem, agora na minha memória como antes no corpo deles. Os olhos, pelo menos na aparência, nunca envelhecem, mesmo quando se espreita para dentro e já está tudo morto. Mas naquele tempo os velhos não eram assim tão velhos e por volta das 4 da tarde havia sempre alguém às gargalhadas. Da mão cheia de clientes habituais, 3 tinham pinta de jogador retirado. Enfim, dizíamos nós. Percebemos num homem novo o que é isso da pinta de jogador – o cabelo comprido atrás, a forma de envergar um fato e de abusar do “portanto” -, mas passados 30 anos, o que fica? Não havia forma de saber. Tirando uma exclusão sumária - o marreco da mesa do fundo - ficámos dependentes de palpites. E falhámos todos: um antigo estivador, que ainda fazia uns biscates com um canalizador amigo, um condutor da Carris reformado e um pobre coitado que não falou mas nos disseram ter sido guarda nocturno. Não conseguimos ter nenhuma compaixão por aqueles homens. Se tivessem sido glórias passadas caídas em desgraça... Não nos ocorreu que o condutor da Carris talvez tivesse atropelado uma criança e se consumisse em remorsos. Ou que então o vício se instalara sem causa próxima aparente, como forma de combater o tédio, ou a melancolia que se apodera dos homens de manhã. Sabíamos lá. Não sabíamos nada. Ainda contámos ao dono do estabelecimento o que buscávamos, não se desse o caso de termos falhado à Terça um craque que só se embebedava às Segundas, Quartas e Sextas, mas o homem ficou em silêncio. Depois abandonámos a taberna, conformados. E quando ouvimos, vinda de dentro, a voz do taberneiro, subitamente iluminado e quase a gritar -"Esperem lá, eu conheço um tipo que é amigo do Vítor Baptista..." - não voltámos atrás, dissemos adeus e apenas comentámos entre a malta: "Vítor Baptista? Quem é esse gajo?"
"Há três formas de atingirem a imortalidade no futebol, rapazes, sem contar com as que são infames." Quem o disse chegaria a ministro, mas na altura aproximava-se dos nossos serões passados ao relento apenas com a segurança da sua eloquência. "A primeira não depende de vós: o talento. A segunda deve-se aos caprichos dos Deuses e à vossa persistência: a sorte. Às vezes basta estar no sítio certo na altura certa, mas não há aqui grande mensagem, apenas que não devem desistir. E há uma terceira via: criar um gesto novo". Ninguém o estava a perceber, mas ele continuou. "Têm acompanhado o Mundial, certo? Toda a gente comenta o toque de calcanhar do Sócrates, não é? Daqui a 20 anos ainda falarão dele mas só por causa do calcanhar". Então entusiasmou-se: "... Aquiles é que não gostaria nada de saber desta reputação do Sócrates! Ah!" Como ninguém se juntou a ele na sua risada, apressou-se a retomar a exposição: "O Brasil pode não ganhar o Tetra, o Sócrates pode até retirar-se amanhã. Haverá depois quem diga que o toque nem sequer é dele, o que só aumentará a sua fama. Haverá também quem note que aquilo não é um duplo mortal, que qualquer um consegue fazer um passe de calcanhar, sem perceber que ao banalizar o gesto só engrandece o seu inventor. Descubram um gesto novo no campo, rapazes. Pode ser um jeito de fintar, um passe, qualquer coisa. Mas tem de ser útil, belo, dentro das regras e pouco circense, percebem? Não se lembrem de inclinar a cabeça e desatar a correr com a bola encaixada entre o ombro e uma das bochechas. Inventar é difícil, mas está mais dependente do vosso trabalho do que os outros caminhos para a imortalidade." Ninguém ousou comentar e o futuro ministro afastou-se tranquilamente.
O homem falara para uma roda de dez amigos. Nessa noite, já deitados, todos pensávamos em gestos originais e só um de nós divagava: "mas afinal, quais são as formas infames de atingir a imortalidade?" Nas semanas seguintes, sem que ninguém quisesse admiti-lo, passámos a jogar futebol experimental. Tudo se orientava para servir a criatividade. Um lançamento de linha lateral era logo um projecto. E as jogadas mais absurdas, os erros mais infantis, gozavam de um estado de graça de três segundos, na expectativa sincera de que o desastre se consertasse no último instante e emergisse como uma revelação. Os maus resultados não se fizeram esperar e as nossas várias equipas afundaram-se em todos os campeonatos de bairro. Por isso organizámos uma reunião de carácter urgente. Se houvesse acta, leríamos hoje: " foi aprovado por unanimidade que todas as ideias para novos gestos futebolísticos estão doravante sujeitas a aprovação por uma comissão avaliadora antes da sua execução nos jogos de treino e oficiais, sob pena de expulsão da equipa". É claro que não nos achando com competência e imparcialidade para integrar a tal comissão, fomos bater à porta do futuro ministro. Bem vistas as coisas, a crise tinha sido desencadeada por ele.
"Muito bem, podemos ir para o patamar. Deixem-me ir buscar a bola." E assim, aos Sábados de manhã, as nossas criações eram passadas a pente fino. Duas primeiras conclusões avassaladoras: quase nada do que inventávamos tinha utilidade prática e as poucas criações interessantes só eram originais entre ignorantes". O futuro ministro bem tentava ser simpático: "sim, J., excelente variação sobre o drible da vaca [passar a bola por um lado e contornar o adversário pelo outro], mas o Pelé fez isso ao Mazurkievicz, o guardião do Uruguai, em 1970, também sem tocar na bola. É uma finta magnífica, tão mágica que mesmo não tendo sido golo ainda hoje falamos dela". E depois ia a casa e voltava com livros abertos na página certa, para nos mostrar que falava a verdade." A nossa aprendizagem do acto criativo foi apenas isso: um banho de humildade. Após um mês daquelas sessões, regressámos ao campo com os truques do costume. À porta do futuro ministro só voltaria a tocar um miúdo, ainda ensimesmado com a tal questão. Nesse ano nós recuperámos algumas posições na tabela e muitos anos depois aquele miúdo chegaria a assessor de ministro.
Em rigor seria já a madrugada de São João. Passáramos a noite a saltar a fogueira e as brasas sufocavam nas cinzas. Ainda esvoaçavam pedaços meio queimados de folhas de jornal e eu vi o Pietra agarrado a uma taça e com uma cabeleira de meter medo ao nosso morcego. Eram os restos da espessa resma de edições d´ A Bola, que T. ia acumulando ao longo da época, para queimar em ritual naquela noite, a menos que o Sporting tivesse ganho o campeonato. E naquele ano, como no anterior, não foi difícil atear fogo aos madeiros com tanto jornal à mão. Só por isso o Pietra pairava entre nós, não como uma alma penada, antes simples instantâneo do Ferrari, sustentado pelas correntes térmicas que as lajes mornas ainda alimentavam.
Vi cadeiras herdadas serem consumidas naquele fogo, com os estofos aveludados a fazerem uma chama fugaz e depois o pau a arder devagarinho e a cola a escorrer dos encaixes, num prenúncio das desavenças conjugais que no prédio eram sempre silenciadas. Uns vinte casais e apenas um divórcio durante uma década? Eis uma poderosa estatística que só estalaria muitos anos depois. De vez em quando, lá aparecia uma rapariga a lançar à fogueira um molho de cartas de amor não enviadas e presas por um elástico, que depois um miúdo resgatava do fogo, desaparecendo no escuro como um estafeta da chama olímpica e deixando-a a pensar se fogo ateara pelo fim da carta ou pelo cabeçalho. Mas estes eram episódios pontuais. A rotina consistia apenas em ir saltando a fogueira, com alguns homens por perto, vigilantes. As roupas ganhavam então um cheiro forte e era fumados como enchidos que recolhíamos a casa. Só que naquela noite fiquei com um companheiro até mais tarde. Resolvemos reanimar o fogo e arrastar mais uns madeiros. Quando as labaredas surgiram de novo, sem trocarmos uma palavra, posicionámo-nos em lados opostos, com o fogo no meio. Depois começámos a fazer passar a bola a meia altura, sem a poupar das chamas.
Na véspera estivéramos até às tantas entretidos com o space invaders na televisão da minha sala. Quando desliguei o computador e voltou a imagem da RTP1, surgiu uma cena do filme O Caçador, em que Christopher Walken joga roleta russa, com aqueles olhos exoftálmicos de quem já levou um tiro nos cornos e não deu por isso, tal a sofreguidão com que ainda deseja o tambor do revólver. Ficámos congelados diante do televisor, a gerir a brutal passagem do espaço sideral onde tínhamos 3 vidas de sobra, para um casebre de Saigão em que a cada rodada a probabilidade de morrer era 1/6. E assistimos então à morte de Walken, sem sequer uma vida sobresselente, como se ele estivesse a jogar space invaders num nível já muito avançado. Não olhámos um para o outro, mas para o de Niro. Só ao fim de uns minutos o meu amigo disse: “pá, tu tens um sinal como o de Niro”. E eu: “e tu descansa, que não te pareces nada com o gajo que morreu”.
A bola atravessava a barreira de fogo sem dificuldade, mas ao fim de uma meia hora começava a ficar muito quente e sentíamos o seu calor quando a devolvíamos com o peito do pé. A tendência era para a passar tão devagar quanto possível, cortada , cheia de efeito, para que se demorasse nas chamas. Pela forma como ressaltava nas lajes, sabíamos que estava no limite das costuras. Quantos passes mais? Três? Dois? Um? E foi o meu. A bola não rebentou, mas a câmara de ar cedeu. Foi-se numa explosão pífia em pleno ar e ao chegar ao chão deformou-se logo em hemisfério. Deslizou três palmos antes de parar. O meu amigo olhou para mim, sem sorrir, e eu não sabia o que dizer. Foi então que ele sacou do bolso das calças uma bola de ténis, fê-la saltar como se fosse servir, mas passou-ma depois com o pé, soltando para o ar, quase aliviado: "ainda mexe". Já se ia ouviando a passarada...
A caminho da escola havia um largo com um chão em pedra da calçada, de onde emergiam umas bossas de simetria radial perfeita, regularmente espaçadas umas das outras. Aquele tipo de arquitectura sem arestas não era frequente no bairro. Então quando passou pelo largo um rebanho de ovelhas, um evento raro, fez-se ali um anacronismo duplo. Não sei o que teria passado pela cabeça do arquitecto, mas devia ser homem novo e ler revistas estrangeiras. Talvez ele tivesse imaginado uma representação do mar picado, como ouvimos uma vez de um marinheiro reformado. Mas nós preferimos materializar no empedrado outras ansiedades e apressámo-nos a baptizar o lugar de "largo das mamas". Em rigor, tirando os seios maternos, que para esta estatística não entram, os mais novos não tinham ainda acomodado o relevo de uma mama na palma da mão, nem sentido na ponta dos dedos o atrito da pele e a consistência da sua carne. A nossa ignorância e o desejo teriam então sido o motor da inspiração, pois nem os mais velhos - "isso pedia outro polimento, moços, um mármore rosa de Estremoz..."- nem as mulheres - "que disparate..."- se lembraram de tal nome para o largo. Mas Portugal era ainda o país onde um bispo mandara cortar o espadice dos antúrios usados nos arranjos florais dos altares, e é possível que a ausência de consenso quanto à mensagem subliminar daquela intervenção urbana a tivesse salvo da censura camarária.
As bossas não ultrapassavam a altura do joelho e estavam cerca de 5 metros afastadas umas das outras. Um berlinde lançado do topo de uma delas descreveria uma trajectória difícil de prever, pois aquele chão era feito de intersecções de concavidades suaves e amplas, um pouco como se olhássemos para um tecto invertido de múltiplas abóbadas e cada bossa fosse um capitel de onde cresceria uma coluna de sustentação. O berlinde teria depois falhado a conquista do cume da bossa mais próxima, ganhando momento para uma incursão ainda menos bem-sucedida na bossa seguinte, até morrer num rufo breve e quase inaudível no fosso de um lago artificial, coisa sobredimensionada e que nunca chegaria a encher-se com a água da EPAL, apenas de poças de água da chuva e de folhas secas das árvores circundantes. No curto período de dois ou três anos, a nossa relação com aquele lugar alterava-se. Um miúdo primeiro via os relevos como brinquedos inocentes, cenários improvisados para jogos de mini- golf com bola de futebol. No ano Inverno seguinte, o mesmo miúdo começaria a passar de bicicleta pelos bossas e a arriscar nelas umas secantes vagamente acrobáticas, reclamando depois como troféu a marca deixada na pedra pelos pneus enlameados, que despertaria comentários ordinários entre os colegas. Mas depois vinha um amor de Verão, uma tarde passada a dois no sofá de um apartamento sem pais e sem irmão mais novo, apenas o cúmplice periquito. E "largo das mamas" de súbito deixava de fazer sentido - " afinal os velhos tinham razão"-, soando a topónimo datado, que descartámos com a mesma prontidão com que nos livráramos antes de tantos diminutivos, num subtil sinal de aproximação à maioridade.
Quando um homem que tem a fama de jamais ter falhado uma grande penalidade encontra um guarda-redes com o hábito de as defender, quem arrisca um prognóstico? Naquele dia fizeram-se apostas e havia até raparigas junto ao lancil do passeio. Todos discutiam o momento. Alguns lançavam provocações para o ar. Mas ninguém mais ouviu o que o guardião disse ao craque, quando dele se aproximou: "marcas o penalty ao ângulo superior esquerdo, OK? O meu lado esquerdo, nada de confusões, certo? Eu faço uma estirada do caraças, mas deixo-te depois a bola a pingar e assim tens golo certo na recarga. Que me dizes? Ficaríamos os dois com a reputação intacta, hã?" O atacante não disse nada, estava perplexo. Logo a seguir o guarda-redes recuou até à linha de golo, para não levantar suspeitas. O craque sabia que lhe bastava piscar o olho se estivesse de acordo. Perturbara-o não ter rejeitado imediatamente a proposta. É verdade que tinha sido apanhado de surpresa e não houve tempo para reagir, mas enquanto recuava para tomar balanço, já se ia deixando seduzir pela ideia. Se houvesse dinheiro envolvido, teria provavelmente cuspido na cara do guardião, mas formulada daquela forma, com benefícios para ambas as partes e sem perturbar o espectáculo, a trafulhice parecia-lhe quase íntegra. Só a seguir lhe ocorreu que talvez o guarda-redes não honrasse a sua palavra e segurasse a bola à primeira. Como poderia ele reclamar depois, sem admitir estar a par de tudo? Mas era também claro que podia concordar com o arranjo e rematar depois para o lado oposto, num cheque-mate ao seu cúmplicet. De resto, nada o obrigava a respeitar um aldrabão. Recusar o acordo, por outro lado, teria sido a hipótese mais segura. Dada a possibilidade de traição do guarda-redes, não havia forma de saber se o golo estava garantido e, na dúvida, sempre se salvava a consciência. Mas havia algo que o tentava naquele esquema. Talvez fosse o risco. Ou então era simples curiosidade. Por isso piscou-lhe o olho, entre dois acenos de cabeça discretos. E quando arrancou, não sabia ainda para que lado remataria. O pé acabou a decidir por ele, enviando a bola para onde o guarda-redes queria, talvez por ser a única forma de prolongar aquela história. Seguiu-se uma defesa aparatosa, com o guardião a rechaçar a bola, deixando-a a saltitar diante da baliza escancarada, exatamente como dissera. O craque correu para matar o lance, mas com um nó na garganta. Passou-lhe pela cabeça rematar para as nuvens, como forma de se punir. Porém, sabendo-se punido de antemão, apelou a toda a sua técnica, que não o traiu. Simulou primeiro uma hesitação e deixou que o guarda-redes se levantasse do chão. Depois desferiu um remate assassino, na dose certa de velocidade para que a bola passasse por entre as pernas do seu cúmplice e o marcasse para sempre com um frango monumental.
Um homem apareceu com o filho pelo braço à porta de um seu vizinho. Não queria explicações, apenas vingança. Parecia-lhe justo exigir um ajuste de contas ao pai do miúdo que lhe esmurrara o filho, a tal justiça pelas próprias mãos, só que com mãos alheias. O homem era maneta, no sentido literal de lhe faltar uma mão, mas o que ele reclamava era impossível: que um pai batesse no seu filho, e o fizesse na presença do miúdo que tinha sido esmurrado. No momento em que a conversa decorria, à porta de casa, o olho esquerdo do miúdo começava a mudar de cor. Se espreitássemos com atenção, veríamos que um olho prestes a tornar-se negro tem infinitas cores, um espectro de verdes, amarelos e vermelhos, que logo se tocam nas margens para fazer outras cores, as quais se misturam e se recriam depois também, como um atilho cromático a arder devagar. Mas o agressor não via nada, não se atrevendo sequer a espreitar pelo olho mágico da porta. Tinha a protegê-lo o seu pai, que ia ouvindo vindo do patamar um relato cheio de vícios, feito por um outro pai em estado de choque e por um filho que não dizia duas palavras sem começar a soluçar. Fosse por feitio ou formação profissional, o homem tentava ir extraindo a informação relevante, na esperança de poder formular um juízo. Fazia-o reiterando o exercício de síntese e deixara de ouvir os queixosos, que se repetiam há vários minutos. Num estado de apuro já avançado, recordava os factos, quase murmurando: "durante a segunda parte de uma partida de futebol, o meu filho, que jogava ao ataque, foi empurrado na grande área por um miúdo mais novo e a seguir deu-lhe um murro no olho esquerdo". Limou ainda alguns detalhes, como um pai e um juiz de profissão teriam feito, antes de chegar à síntese derradeira: "o meu filho foi empurrado pela futura vítima e depois esmurrou-a num dos olhos". O veredicto parecia claro. Atenuantes? Logo depois do murro, ainda com as falanges a latejar, o rapaz mergulhou em apneia na sua consciência, em busca de uma justificação para o seu gesto. As vozes indignadas dos outros miúdos foram ficando mais longe, os adversários que pareciam crescer para ele perderam os contornos, mas a sua busca seria em vão. Como recordar aquela ligeira irritação, quando há uns anos o miúdo o superara a contar piadas numa roda de amigos? Que valor atribuir ao sorriso que a peste arrancara da rapariga por ele secretamente adorada? E aquela sensação de repulsa, quando o viu no elevador e percebeu que jamais viria a gostar de alguém com aquelas feições, de onde vinha? Há ódios órfãos que ficam a crescer por dentro e que saltam para fora quando menos se espera. Podíamos agora pensar no remate falhado com a baliza escancarada, ou no serão de estudo que o esperava naquele dia. Frustração, tédio, ansiedade, um empurrão como pretexto para um murro violento que sacuda o quotidiano. Culpado, claro. Mas a discussão parecia eternizar-se. O pai maneta insistia no castigo, que o outro pai recusava, reservando-se o direito de punir o seu filho como, quando e onde entendesse fazê-lo. A vítima deixara de chorar e estava visivelmente cansada. É perante tal impasse que o agressor resolve sair de casa empunhando um martelo de bater bifes. Antes que o pai o conseguisse agarrar e que os vizinhos se refizessem do susto e começassem a correr, o rapaz encosta a mão a uma parede e sem hesitar desfere um violento golpe no dedo médio. Um grito de dor toma então conta do patamar e fica a ouvir-se, enquanto o rapaz se enrola sobre a mão, deixando cair o martelo, que racha um dos ladrilhos do chão. Os vizinhos e o seu pai trocam olhares, incrédulos. Depois o miúdo consegue arrastar-se até casa, o pai fecha a porta, e os vizinhos regressam em silêncio ao seu andar.
É sabido que a magistratura não se dá bem com a tecnologia. Só por isso A. não fez relatos da casa para o bairro; o radioamadorismo não era passatempo que se cultivasse no prédio. Entre os pais, conto um pianista amador, um guitarrista recalcado que deixou marca em Coimbra, uma emulação da Florbela Espanca, um sujeito com gosto pela mecânica, um bom xadrezista e pouco mais. A haver por ali passatempos mais privados, é improvável que não os tivesse topado, se tantas foram as tardes passadas em casa de amigos e alguns os armários e portas abertos por engano. Não imagino poder encontrar algemas na cómoda quarto; penso mais numa bancada de aeromodelismo, numa biblioteca de ciências ocultas, num cavalete iluminado pela luz que vinha da janela. Os passatempos que por ali havia eram os de toda a gente – televisão, passeios ao Domingo, desporto, jornais – e ainda o bridge, que viciara dois ou três iluminados.
Também nós não primávamos pela excentricidade, excluindo o Gantes - que pintava - e um mago da electrónica - que quase não saía de casa. Havia um vasto leque de actividades lúdicas - o judo, a ginástica, o badminton, o ténis, algum instrumento de música e até a equitação - mas quase todas nos eram impostas ou, no mínimo, sugeridas. Por vontade própria, tudo se resumia a futebol, Subbuteo, bicicletas e ZX spectrum. Quem não sabia jogar, vivia o jogo à custa de outros talentos. A. mal sabia dar um chuto na bola, mas tinha uma memória prodigiosa, um débito verbal impressionante e um jeito raro para imitar sotaques, vozes e todo o tipo de sons. No campo divertia-se a comentar as jogadas e a relatá-las em diferido, enquanto esperávamos que alguém regressasse com a bola e a partida pudesse recomeçar. Tolerávamos o capricho a A., porque ele era bom e generoso nas comparações. Até eu tive os meus momentos à Zico, Sócrates, e vários à Zbigniew Boniek e à Karl-Heinz Rummenigge, referências recorrentes nos relatos de A., pelo gozo que lhe dava pronunciar tais nomes. No fim do relato de uma jogada que dera em golo, A. reproduzia a massa sonora de uma multidão em delírio, e aquilo era uma obra de arte de sonoplastia, cheia de sugestões de polifonia, frases distintas sobre o ruído ensurdecedor, buzinas, foguetes, o "gooooooooolo" esganiçado e distante do relatador da cabina do lado e os efeitos de batimento acústico provocados por gritos ligeiramente desafinados. Ninguém percebia como ele conseguia fazer aquilo, mas chegava a ser viciante. Um tipo marcava o golo e corria até junto de A. para encher o ego com o relato épico e ver quem acabara de ter sido: Ardiles ou Platini? A. só evitava fazer comparações com o Maradona, um pouco como o professor que resolve não dar o 20 porque pode sempre aparecer um aluno melhor no ano seguinte. O Maradona era o topo da escala, um nome inatingível... A menos que L. estivesse num dia endiabrado e pela frente encontrasse defesas suficientemente bons para não fazerem figuras tristes, mas incapazes de contrariar o seu drible. A menos que o fim de tarde estivesse de feição: um risco rosa sobre o mar da palha, a chaminé da Petrogal em repouso, um casal de andorinhas a fazer razias ao relvado, o ar quente mas agitado por uma brisa suave. O que dizer então de quem pega no jogo antes do meio campo, e num rodopio se livra de dois defesas e avança pelo flanco direito, rápido e em toques longos, de precisão milimétrica, a fazer a bola quase fugir do seu alcance, como se atirar a bola para a frente fosse menos uma forma de a guiar do que de a perseguir e que, depois de vencidos mais dois defesas, ludibria ainda o guarda-redes e remata para golo, completamente desequilibrado mas com o instinto de goleador alerta? Que dizer de tudo isto, se ainda nem a 1986 tínhamos chegado? "Maradona", claro. Azar o nosso não haver por perto um gravador naquele dia, pois A. esteve à altura do acontecimento, revivendo a jogada e atrasando o momento em que atribuiu a autoria, ciente de que iria quebrar uma regra. O problema surgiu logo a seguir: L. quase repetiu o lance, mas fazendo tudo ainda um pouco melhor: a finta simples deu lugar ao malabarismo - o gesto de encaixar a bola com os pés e de a largar num coice controlado, fazendo com que passe em balão sobre o defesa; a corrida hesitante passou a galope em ziguezague; em vez do corpo em desequilíbrio, vimos um bailarino a dançar sem esforço; e o remate final ainda saiu violento e ao ângulo, a pedir o aconchego de uma rede oficial. Corremos para L. e depois virámo-nos para A. Imperturbável, ele relatou o novo golo, ainda com mais graça, mas também com a precipitação de quem percebeu logo que nome teria de gritar. E, por uma vez, o nome que se ouviu não vinha nas cadernetas.
Podia ter morrido de tantas maneiras que dou comigo a puxar da calculadora para provar com confiança estatística que estou vivo. Quando me perguntam se acredito na vida após a morte, respondo: "naturalmente". O que não acrescento é que julgo estar já a gozar tal vida, desde que abandonei o futebol e agora as fobias me impedem de aderir a um desporto radical. As quatro linhas não são um local assustador, mas se começo a enumerar todos os episódios e a reparar nos pormenores, escapei da morte inúmeras vezes. Com olhos de predador na bola que fugia, fiz slaloms em hora de ponta pelos carros da avenida; por pouco não mergulhei para salvar bolas das rodas dos autocarros da Carris; havia arbustos mal podados, com cepos afiados e inclinados a 45 graus, perfeitos para dizimar uma carga de cavalaria num campo de batalha; algumas arestas do passeio tinham sido acidentalmente lascadas e eram afiadas como lâminas de sílex; dei saltos acima das minhas possibilidades acrobáticas e não sei como não parti o pescoço. Se calhar é mania minha. É verdade que também me ponho a pensar nas vezes em que estive na mira de um jovem com vocação para psicopata. Eram tantas famílias de polícias por ali, que não é difícil imaginar um miúdo à janela no "pum, pum, estás morto" usando a pistola do pai. Nos Olivais havia mortes trágicas, mas apenas uma a cada seis meses: o tipo que se esfarelou quando mergulhou da prancha dos 10 metros e caiu fora da piscina municipal, as velhotas atropeladas perto da Rotunda (episódio recorrente), o adolescente vagamente conhecido - "sim, esse, não te lembras? Suicidou-se"-, os drogados frequentadores dos "Candeeiros", que volta e meia abusavam da dose, o cabo-verdiano que era meu vizinho e comeu o fígado de alguém, o fulano que tombou de um sexto andar pelo vazio central das escadarias, ficando a baloiçar a dois metros do rés-do-chão com a barriga da perna espetada num ferro e que viria depois a morrer de tétano. Eu tinha as vacinas em dia, os cuidados de toda a gente, mas surpreendia-me, antes como agora, que não houvesse mais mortes espectaculares no bairro.
O nosso treinador às vezes fazia comentários crípticos, coisas como: "o equipamento é um equívoco". Ou então era de uma crueldade inusitada: "quem se sacrifica pela equipa bem pode ficar em casa a abrir os pulsos". Mas ele tinha uma visão e quem o conhecesse facilmente o percebia. L. não era rapaz de muita leitura, só que era habitado por uma intuição tramada. Cedo percebeu o poder do ciúme e como a ansiedade pode ser uma força motriz. Ele aproveitava tudo o que os jogadores tinham para oferecer, mas não olhava para eles como pedras de xadrez, objectos inanimados capazes apenas de executar gestos técnicos pré-estabelecidos, nunca se revoltando contra a sua natureza. L. conhecia a natureza dos seus, só que havia mais. Segundo ele, para que a imagem do jogo de xadrez funcionasse, os peões, os cavalos, os bispos e a realeza teriam de se relacionar como se viessem mesmo de um reino, com as intrigas da corte, as tensões sociais e os caprichos equinos. "O xadrez é para gajos pouco inteligentes e sem sensibilidade". Porque o cavalo nunca resolve começar a avançar pelas diagonais. "Viciei-me nas emoções alheias. Para mim não há melhor barro do que este". É verdade que L. era implacável, mas não se podia dar ao luxo do oleiro, que só tem olhos para a vasilha e joga a matéria-prima para o chão. Cada gesto de L. era para engatar o futuro. Jogador preterido fica com fome de bola para o próximo encontro. Uma crítica diante de todos ecoa sabe-se lá com que reverberação. O génio de L. era dominar a dinâmica de tais incubações e assim ir norteando a equipa ao longo da temporada, dando-lhe alento. Funcionava como um gestor de esperanças. E na véspera dos jogos, passava a maestro de almas. Profundo conhecedor do dia-a-dia no bairro, identificava qualquer atrito e aproveitava as tensões da semana para motivar os extremos, lixados um com o outro mas sem outra hipotése de canalizar a raiva senão pelos corredores respectivos. Pazes refeitas atiravam o par para a zona defensiva e não havia dupla de centrais mais unida. Se o guarda-redes adversário tinha roubado uma namorada, o avançado estava escolhido: o melhor amigo do cornudo, que este, com a cautela recomendada, ficava sempre no banco. A ciumeira entre os craques da equipa era usada para animar um triângulo que avançava pelo campo em tabelinhas desconcertantes e a uma velocidade vertiginosa, como se qualquer um dos vértices quisesse na verdade que os outros perdessem o domínio da bola. E no centro deste arraial de emoções, o armador de jogo, alguém que parasse pouco pelo bairro, sem grandes intimidades, capaz de entregar a bola a quem a merecia e sem as oscilações de temperamento e os estados de alma comuns num grupo de amigos.
"A bola ia com efeito. Rematei de um ângulo apertado e com dois defesas à minha frente. Foi um golo incrível, mas quando o poste é uma pedra e a bola é metida a um dos ângulos superiores a dúvida pode persistir. Passou por dentro do poste. Foi a impressão com que fiquei. Perguntaram-me se tinha sido golo e eu disse que sim. Os da minha equipa concordaram comigo; os outros nem tanto. Mas tinham dúvidas. Decidimos que tinha sido golo. Acredito naquele golo. Foi há tantos anos. O jogo contava para um... Sabes, às vezes a dúvida instala-se e é como uma coisa insidiosa. A dúvida vai então buscar um pouco a todas as outras dúvidas que trazemos connosco, revelando uma capacidade de mobilização impossível de igualar. Como se lida com um exército de dúvidas? Decapitando o general, claro.
Não sei o que se passou. A culpa pode ter sido de um pedreiro que tinha um fio-de-prumo caprichoso e fez as verticais do prédio ligeiramente oblíquas, más para referenciais. Gosto destas justificações fantásticas. Às vezes o estilo ajuda. Mas é verdade que me incomoda agora não poder saber se foi golo ou não. Felizmente não procurei deliberadamente esta incerteza, ou então desesperaria. Talvez não mereça a sorte de a dúvida estar lá desde o princípio, antes até de a bola ter transposto a linha de golo. Na altura pareceu-me golo, sim, mas logo hesitei. Não há nada mais corrosivo do que uma dúvida que perturba a ordem a que nos habituámos e disso estou livre.
Não chega a ser um fardo, isto que carrego. A propósito, nunca percebi muito bem a imagem do fardo. Para mim o peso na consciência tem a dinâmica do pêndulo: um movimento que se repete, com o pânico das acelerações e os tempos quase parados, numa ilusão de tranquilidade. Os anos vão carregando o pêndulo, reforçando-lhe a inércia. A tendência só de contraria com uma tesoura. E quando o pêndulo se solta, cai sem barulho. Ainda acho que foi golo. Foi golo seguramente. E um belíssimo golo."
Um jogo em que nenhum dos adversários pretende ganhar roça o absurdo, mas podemos imaginar enredos verosímeis que conduzem a tal desordem. Em regra são situações que tendem para a simetria: A equipa A é comprada para perder e o mesmo acontece com a equipa B; impera na equipa A um sentimento de culpa que se tenta atenuar forçando a derrota, mas a equipa B carrega fardo idêntico; num jogo de uma equipa de pais contra os seus filhos, os pais torcem pelos filhos e os filhos - enfim, depende das idades - têm pena dos pais. Percebe-se a ideia. A arte de perder é muito mais elaborada do que a de ganhar. Não faço aqui o culto dos vencidos, que me parece uma moda de intelectual um pouco tonta. Não discuto o diferencial moral que dizem existir por defeito entre quem ganha e quem perde. Limito-me aos requisitos técnicos: perder é mais difícil do que ganhar quando não se deseja propriamente a derrota, mas antes que o adversário ganhe e fique com a sensação de ter realmente conquistado a vitória.
No futebol tudo pode convergir na mente e consciência de cada um dos armadores de jogo. Eles são os pólos num jogo em que todos os outros desempenham um papel secundário. Um pequeno comentário para os guarda-redes: guardam a chave da derrota, mas não é fácil simular um frango. Também muitas vezes perguntei se não haveria nos registos das televisões imagens de guardiões dementes, que comprometem a equipa entrando pela baliza a passo, com a bola nas mãos. Nunca vi tal imagem. O guarda-redes que sobrevive aos anos de formação deve ter nervos de aço e uma mente sadia que não se presta a caprichos. Não era o caso de T. e O.
Uns anos mais velho que T., O. alimentava com ele uma relação mestre-discípulo que o outro negava. T., por seu turno, nutria por O. uma admiração doentia, razoavelmente assexuada. O. costumava dizer-lhe: "o dia chegará em que tu passarás a dominar os jogos. Então deixarei de jogar e arranjo outro entretenimento"; que na verdade já existia e era a fotografia. O. andava obcecado com as maravilhas da câmara escura, aquele momento mágico em que o nitrato de prata traduz o que viu e a imagem emerge da folha. Havia um interesse adicional, que se conciliava na perfeição com os tempos mortos do processo de revelação: Sofia, despida e iluminada pela sombria luz vermelha. O. queria perder, dar a T. a confiança necessária para assumir o comando da equipa e poder enfim dedicar-se à fotografia e ao amor. Era uma pretensão legítima e seria num jogo de treino, em que jogávamos entre nós, com T. e O. em equipas diferentes, que tudo viria a acontecer. Alguma economia narrativa faz com que assistamos nos filmes ao momento em que os dois inimigos se procuram no campo de batalha, como se todos os outros guerreiros não existissem e nenhuma outra espada contasse. No relvado sucede o mesmo. O. insistia em falhar os passes, mas com a mestria de quem consegue fazer parecer que foi o companheiro de equipa que não deu o seu melhor. Rematava muito, mas sempre a rasar a barra. T. logo percebeu e abrandou o ritmo. Começou a cometer erros clamorosos, mas que compensava depois com jogadas geniais e inconsequentes. Ambos mantinham o seu estatuto, mas nenhum deles ajudava a equipa. O jogo arrastou-se nesta arte do quase-bom-futebol, sem que os companheiros percebessem o que se passava. Já no fim do encontro, o resultado e um canto trazem o guarda-redes da equipa atacante para a zona de remate (era um bom cabeceador), mas o canto resulta em contra-ataque. Não me perguntem exactamente como, mas a dada altura eu só vi T. e O. correndo para a bola e mais ninguém entre eles e a baliza deserta. O. e T. teriam talvez mais vontade de trocar ideias do que de jogar futebol. O. que levava alguma vantagem, abrandou ligeiramente a corrida e nisto foi seguido por T. Não chegaram a parar porque um deles se apercebeu quão ridícula a situação seria. O. jogou então uma cartada forte e simulou uma cãibra, que o atirou para o chão, e o fez rebolar ao bom estilo do Manuel Fernandes. T. viu-se encurralado e sem outro destino senão marcar o golo do empate, mas resolveu abusar da sorte, desinteressar-se do lance e correr em socorro de T., como se a lesão fosse um caso de vida ou morte. A bola perdeu-se pela linha final, enquanto T. agarrava e esticava a perna de O. Percebemos que conversavam, mas ninguém sabe exactamente o que diziam um ao outro. Ambos sorriam.
L. gostava de futebol como ninguém, mas não sabia dar um chuto na bola. A sorte dele foi ter topado a sua vocação bem cedo. Jogava-se à conquista do mundo: dois canivetes pesados, o mundo representado por um círculo traçado na terra e o objectivo de conquistar território à força de espetar o canivete a menos de um palmo da posição onde se tinha enterrado antes, unindo depois os dois pontos como quem traça uma fronteira. Na altura de recomeçarmos um novo jogo, procurávamos terra incógnita, mas antes que alguém tivesse tido tempo de desenhar um círculo, L. traçou um rectângulo. "Oiçam-me por uns momentos". Este "oiçam-me por uns momentos" viria a torná-lo famoso no prédio. Rapidamente percebemos que quando L. pedia que o ouvíssemos ele tinha realmente algo para contar: tácticas, desdobramentos, notas à margem para os desempenhos individuais, dicas sobre como gerir o esforço físico e, claro, o discurso arrebatador que nos enchia de confiança e sede de vitória. "Sou um treinador sem contrato, imune à chicotada psicológica. Os jogadores procuram-me". Ao contrário do que se possa pensar, L. não esmagou todas as outras equipas. A explicação é castiça: quase por acaso ele acabou a treinar todas as equipas. A sua excepcionalidade fazia com que todos o procurassem; a sua generosidade, com que a todos desse atenção; a sua visão, com que o tacanho espírito competitivo não o aprisionasse- "estou no futebol para resolver problemas". Cada jogo era uma partida de L. contra L., como um xadrezista misantropo.
Só por uma vez este fora de série cedeu à vaidade e estimularia o culto da personalidade. Havia obras na rua, era já um fim de tarde e os trabalhadores regressavam a casa. Faziam a recuperação de um tanque de lavar a roupa comunitário que havia no bairro. O tanque estava praticamente em ruínas e era coisa de outros tempos, que já ninguém usava, mas alguém na câmara se lembrara de o transformar em monumento. Naquela altura as obras de reabilitação consistiam em cimentar os volumes. Os trabalhadores tinham deixado uma superfície lisa e de alguns metros quadrados com cimento fresco, protegida apenas por um cordel. A tentação cresceu, claro. Quem nunca gravou o seu nome para a eternidade que atire a primeira pedra. Só que M. chegou lá primeiro e disse: "oiçam-me por uns momentos". No dia seguinte o génio de L. estava gravado no cimento: vários campos, campos sobre campos, setas, setas sobre setas, enfim, havia ali a força do rascunho, do traço sobre o traço que parece dar vida aos desenhos. Nós contemplávamos a superfície do cimo do prédio e aquilo parecia-nos simultaneamente belo e profundo. Depois vieram os homens das obras, que disseram umas caralhadas, cobriram tudo de cimento outra vez e ficaram de plantão até o cimento secar.
Na única província anfíbia do país, a natureza híbrida parecia extravazar para todos os domínios do tempo e do espaço. Havia arrufadas e vendedores de barquilhos, mas também um toque de modernidade que vinha com as últimas criações das multinacionais da geladaria. Havia imprensa estrangeira e mulheres estrangeiras, que eram levadas para as enseadas recônditas entre a Praia da Rocha à Praia do Vau e depois reapareciam peladas em postais vendidos ao lado de ancinhos de brincar. Havia bólides alemães, que se cruzavam com carroças puxadas por burros. E em Setembro, durante a grande feira, freaks produziam artesanato moderno à base de arame e disputavam com vendedores de polvo assado a atenção dos turistas.
No Algarve fazia férias de verdade e, naturalmente, procurava ficar longe da bola. Respeitava o defeso. Havia outras atracções. Uma delas era entrar clandestinamente nas piscinas vigiadas e tocar com a palma da mão no fundo da parte sem pé, como quem espeta uma bandeira. Chamem-me purista, mas o futebol de praia não é coisa para se levar a sério. Provas? Todas. Jogava no areal da Praia da Rocha um moço pequeno e entroncado, quase como o Maradona, só que loiro. Era forte como um buldogue e comentava-se que iria ter uma grande carreira pela frente. Anos depois o moço já homem feito seria dispensado pelo Portimonense. Aquele hábito de levar a bola até à beira-mar? Não fica bem a um lateral consciencioso. A vocação marítima não passa seguramente por avançar no terreno com água pelo joelho. Sobre a tentação de jogar à baliza nem vale a pena falar: quando todos querem ser guarda-redes algo está errado.
As férias no Algarve eram um verdadeiro descanso. Quase não se pensava em bola. Às vezes vinha um desejo agudo de centrar, que podia surgir nas alturas menos apropriadas: quando se levava uma miúda de noite para a praia, por exemplo. As luzes dos barcos da pesca da lula ao longe, o joelho nu dela, aquele relento bom e a vontade de centrar, a mente a pensar se haveria rapaziada suficiente na praia, todos emparelhados e dispersos pelo areal, entretidos em jogos carnais, subitamente mobilizados para um encontro nocturno. Mas era coisa passageira, que não voltava duas vezes na mesma noite.
No regresso aos Olivais, naqueles Setembros sem aulas e em que se voltava a pegar na vida devagar, tinham lugar os melhores jogos. A fome de bola era imensa, o tempo infinito, os dias ainda longos, a temperatura propícia para a prática do futebol e -perdoem-me a vaidade - o bronzeado ainda vivo realçava o branco da camisola branco-pérola do Real Madrid. Por esta ordem.
Estamos a chegar a uma altura em que já se escreveu sobre tudo. Há duas décadas também seria essa a sensação e é assim há muitos anos, o que diz muito mais sobre nós do que sobre o incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandria. Mas parece-me deveras improvável que não exista por aí um tratado sobre a alcunha. Se calhar é edição de autor de um professor de instrução primária de um pueblo na periferia de Cusco, Peru. Sabemos lá. Se eu escrevesse tal livro - coisa que não farei - dividiria a alcunha em quatro tipos, a saber: 1) a alcunha auto-imposta, a mais ridícula de todas e que tende a ser um reflexo megalómano ; 2) a alcunha inspirada nas características físicas, geralmente a mais cruel e a menos imaginativa; 3) a alcunha que traduz características psicológicas, que pode ser muito castiça ou não; 4) a alcunha biográfica, isto é, aquela que surge na sequência de um episódio. É na infância e adolescência que a alcunha se estabelece. A explicação leva-nos seguramente para os mecanismos ontogénicos, mas há também uma rede de interacções sociais que promove este fenómeno. A cada um a tarefa de indexar as alcunhas que conhece. Aqui escreverei apenas sobre Panoramix.
Falamos de uma alcunha que dispensa chave dicotómica; é sem margem para dúvidas do tipo biográfico. O instante fundador aconteceu a meio de um dos nossos campeonatos. A nossa equipa perdia, essencialmente por falta de forma física. Há por aí a ideia de que as crianças e os adolescentes têm uma energia inesgotável. É uma ideia errada. Os outros corriam claramente mais do que nós. Talvez fosse resultado das nossas noitadas com o ZX spectrum. O certo é que naquele Verão não estávamos com força. Foi então que N. se lembrou dos suplementos vitamínicos. A equipa começou a tomar doses moderadas de vitamina C, mas em menos de uma semana tínhamos feito a escalada para o exagero: consumíamos doses inconcebíveis, em pastilhas efervescentes que coloriam a água. "O meu mijo já sai cor de laranja", queixou-se um a dada altura. Nada mudou: continuávamos a perder e sem fôlego. Só N. não desarmou e insistiu em explorar outras alternativas. Dos produtos orgânicos às afinações na dieta, nada parecia resultar. O eureka de N. surgiu numa tarde de televisão, durante um intervalo para publicidade: a Coca-cola. N. experimentara já o ligeiro frenesim que tomava conta dele depois de beber três Colas. O seu golpe de génio foi perceber que era preciso isolar do refrigerante o princípio activo que dava energia. Fosse outro o lugar e a época, talvez houvesse no prédio um engenhocas, ou um daqueles tipos com kits de química e microscópio. Não havia ninguém. As ciências naturais não entravam ali. Só que N. tinha um raciocínio escorreito e lembrou-se simplesmente de evaporar a água da Cola-cola. As primeiras experiências falharam mas ao fim de uns dias tinha o método optimizado: uma simples fervedura prolongada num caldeirão destapado. Ao fim de umas horas, 10 litros de Cola-cola estavam reduzidos a uma pasta caramelizada que cabia numa mão fechada. N. moldava depois a pasta com ajuda de uma forma, punha o produto no congelador e após algumas horas apresentava-nos uma tablete de aspecto duvidoso, que se trincava fria "para não perderem a energia vital nos dentes" e era insuportavelmente doce. Confesso que tomei aquilo. E funcionava. Consumida a meia-hora do encontro, entrávamos com fogo no rabo e com uma dose suplementar ao intervalo ninguém nos agarrava. Cada jogador ficava a 20 litros de Coca-cola por encontro, a época ia a meio e a equipa tinha 8 elementos. Basta fazer as contas para perceber que era uma brincadeira cara. Mas funcionava e ninguém tinha vontade de parar.
O volte-face veio de novo da televisão: escândalo de dopping na Volta à França. Os mais reflexivos acusaram o toque. N. ainda argumentou: "A Coca-cola não é uma substância proibida. Não sejam parvos". Mas a verdade é que nós tínhamos uma vantagem sobre os outros. Em poucas semanas passáramos para a frente. "Querem perder o campeonato, é?" ameaçou-nos N. Ninguém queria perder. Movidos a Cola-cola limpámos os jogos que faltaram e conquistámos a nossa primeira taça. Ficámos eufóricos nessa noite. Veio depois uma leve ressaca, que foi crescendo devagar. Como se nos quiséssemos livrar de uma recordação má, nos dias seguintes a taça foi passando de mão em mão, até acabar no quarto de N. E ele, que continuava feliz e em paz, percebeu finalmente o que decorria. Então todos chamou e disse: "Quem de entre vós não tem a colecção dos álbuns do Astérix?" Todos tinham, menos um. "Não te preocupes, empresto-te os meus. Queria que esta noite lessem o Astérix entre os Bretões. Amanhã voltamos a falar, está bem?". Assim fizemos. Ninguém percebeu a ideia de N., mas de manhã ele explicou-nos:
- Lembram-se de me terem dado dinheiro para as Colas? Bem, eu acabei por comprar uma bicicleta e para os últimos jogos aldrabei as tabletes. Aquilo era só açúcar. Açúcar castanho. Comido gelado nem se percebia a diferença.
- Tu compraste uma bicicleta com o nosso dinheiro?
- Sim, e peço-vos desculpa por isso. Mas não estão a perceber? Não leram o livro? O açúcar dos últimos jogos foi como o chá que o druida deu aos Bretões na falta de poção mágica. A malta não precisou daquilo para vencer os últimos jogos. Ganhámos com mérito, pá. Sem dopping!
As sensações ambivalentes provocam alguma azia e uma geral sensação de mal estar: queríamos esmurrar N. e queríamos abraçá-lo também, por nos ter devolvido o título. A taça voltou a ser um objecto cobiçado. Ninguém chegaria a ver a bicicleta nova de N., mas ou não nos lembrámos mais disso ou não houve coragem para colocar a pergunta. Panoramix é hoje o homem mais bem-sucedido de todos os que moravam naquele prédio.
Dois de nós conversam junto ao prédio:
-Já sabes o que aconteceu ao Jaime?
-O Jaime craque?
-Sim.
-Não.
-Sim, o Jaime craque.
-O quê?
-Teve um acidente de vespa e ficou tetraplégico.
Chega outro:
- Pá, sabem o que aconteceu ao Jaime?
- Sim.
-Sim.
- Agora os médicos vão-lhe pôr uns ferros pelos ombros.
- A sério? Não sabia que um tetraplégico podia voltar a andar.
- Bem, a ideia é transformá-lo em boneco de matraquilhos.
-...
-...
- Estás a gozar?
- Claro.
- Não tem piada.
- Pá, tem piada.
- Foste tu que a inventaste?
- Sim. As piadas não nascem por geração espontânea. Pá, é gira, não é?
- Não.
Chega mais um:
-Sabem o que aconteceu ao Jaime?
-Transformou-se em boneco de matraquilhos...
-Como é que te lembraste disso?
-Ele contou-nos a piada.
-Mas eu acabei de inventar a piada e ainda não a tinha contado.
-Pá, a piada é minha.
-Não, a piada é minha.
-Então conta lá a tua versão.
- O Jaime foi atropelado ontem, certo? Coitado, ficou tetraplégico. Bem, os médicos puseram-lhe uns ferros pelos ombros. Agora eu perguntava:"sabem para quê?". E vocês:"para quê?". Então eu dizia: "é para jogar matraquilhos".
- Pá, essa é a minha anedota, mas está mal contada.
- Bem, eu contei como a contaria, o que não é a mesma coisa que contar para fazer rir, mas a piada é minha.
-Devias dizer "boneco de matraquilhos" e não "jogar matraquilhos". O gajo não joga matraquilhos, é peça do jogo. Também não podes perguntar se sabem para que servem os ferros, meu. Isso mata a piada. Deves confiar no raciocínio das pessoas e só depois puxas o tapete. Não podes ter inventado a piada. Não a percebeste.
Chega ainda outro:
- Nem sabem o que aconteceu ao Jaime!
- Eh, bem, diz lá.
- Caiu do alto de uma escadaria e ficou paraplégico.
- Ah, Benfica ou Sporting?
- Não, foi nas escadinhas do Duque.
- Os matraquilhos, pá. Vai jogar pelo Benfica ou pelo Sporting?
- Eu acho que ele não volta a andar...
- Não sabes a piada do ferro?
- Ah, sei sei. A do craque de futebol que fica tetraplégico e depois atravessam-lhe um ferro pelos ombros?
-Sim, essa.
-Antiquíssima. Isso é anedota pré-Travassos.
Chega o Jaime:
- Já sabem o que me aconteceu?
-Sim, mas não há nada como ir à fonte.
-Hã? Já sabem do ferro?
-Mas tu estás bem!
-Anda alguém a gozar comigo. Telefonaram à minha mãe a dizer que um ferro das obras me tinha atravessado a cabeça.
- Estás a contar isso como deve ser? Não teria sido um ferimento ao nível dos ombros?
-Não. E que fiquei paralítico...
-Tetraplégico?
-Foda-se, quero lá saber. Mas tu estás a par disto?
-E os matraquilhos?
-O que é que tem?
-Não disseram à tua mãe que agora és um boneco de matraquilhos?
-Pá, eu não jogo a essa merda. Alguém me explica o que se está a passar?
Chega o último:
- Pessoal, vamos jogar matrecos?
Neste momento o Jaime esmurra o sexto de nós. Este responde e desequilibra o Jaime, que bate com a cabeça numa aresta de pedra.
-Foda-se, mataste o Jaime.
- Eu? Eu não fiz nada.
- Então como é que sabias dos matraquilhos?
- Hã?
Tanto quanto posso avaliar, esta anedota começou a circular em Portugal numa data muito posterior à da ocorrência destes diálogos, o que adensa ainda mais este mistério.
A imagem foi tirada daqui.
O sol de chapa nas caras suadas e a gota de suor a galgar as costelas, aos 10 minutos de jogo. O corpo a corpo? O corpo contra o corpo, a pele fria e o atrito dos gestos que surgem logo atrasados. O fio de cabelo depois colado às têmporas, uma gota de suor como uma jóia brilhante na ponta dos cabelos, um respingo de suor na pequena área e o suor a escorrer para a boca, aos 25 minutos. Um primeiro sinal a brotar da pele, vista como uma planície, quase desfocada. O suor dos outros no mano a mano, o suor na bola amansada com o peito e o suor novo a diluir o suor seco, no recomeço do encontro. A mão no peito, a palma dos pés quase húmida e o umbigo com um travo salobro. A grande mancha de suor nas costas, as manchas pequenas no peito e o suor perto da ferida, a meio da segunda metade. Um brilho novo nos ombros e em tudo o que é redondo, a luz em bicos de pés na penumbra do quarto. A terra a beber o suor do avançado, a roupa interior empapada e o suor que a T-shirt leva do rosto, sobre o apito final. O ventre a encharcar o ventre, até ao descanso que guarda um mar entre os corpos. O suor velho a arrefecer ao relento. Soltos os corpos, o suor morno a voar do teu corpo para a rua.
K., de kamikaze. Um tipo instável, maníaco-depressivo, um dia eufórico, na manhã seguinte de rastos. Constante na sua vida, só mesmo o futebol. É dos livros que a depressão suga a vontade, mas K. era tomado por uma pulsão suicida que tentava realizar no campo. Nós estávamos avisados e entre carregar pela vida fora o fardo de ver K. enforcado num abrunheiro e correr o risco dos cortes de carrinho suicidas dele, a decisão era fácil. As tendências suicidas de K. no campo tipicamente geravam três comportamentos, que passo a descrever por ordem crescente de perigo: colocar-se na ponta da barreira quando o livre directo era marcado pelo Samagaio; tentar entrar em voo de peixe pela baliza dentro; o exercício anterior, mas quando a baliza estava desenhada na parede do prédio. Havia outras manias dele, que nos podiam magoar. O já referido corte de carrinho, que era implacável e levava K. da relva ao empedrado, por vezes arrastando o avançado com ele. Algumas corridas desenfreadas também, que ele fazia com os olhos fechados, na esperança de ser plaqueado por uma faia, acabando quase sempre por lesionar um defesa mais distraído. E o volley com o corpo suspenso a meio metro do chão, que ele executava a pensar na queda desamparada, sem ligar ao pontapé nem aos adversários. O Kamikaze chegava sempre vivo ao fim do jogo e o seu rosto era uma expressão de alívio e de cansaço. Às vezes cuspia sangue da boca.
No dia seguinte, o Kamikaze aparecia radiante, inchado de optimismo. Tudo era positivo, o seu polegar perpetuamente arrebitado, as suas palavras de apoio aos colegas - "Vamos lá!"-, as palmas que batia sempre que cada ataque morria e a forma disparatada como festejava os golos, raros. O Kamikaze tentava jogadas impossíveis e tudo falhava, a tripar na megalomania: os slaloms de baliza a baliza que não passavam do meio campo e os remates estratosféricos do meio da rua. Só não perdia o entusiasmo. No fim do jogo o seu rosto era uma expressão de apreensão e de de cansaço. Mas ainda cuspia com confiança para o chão, de mãos nas ancas. E dizia: "Vamos lá!"
"Chutar a bola contra a parede pontua o meu raciocínio e organiza-o. Basta entrar na cadência certa e sinto-me mais inteligente. O som da bola na parede, a frequência com que armo o pé, enfim, tudo isso estrutura o pensamento. Antes de arrancar uma redacção vou sempre para a rua e fico diante da parede umas duas horas. A minha mãe chega, irrita-se comigo e diz-me para ir para casa fazer os deveres. Como é que lhe explico isto, diz-me? Ninguém percebe, soaria a desculpa. Insisto em ficar mais algum tempo, retomo o ritmo e depois subo. Em dez minutos tenho um texto pronto, que sai à velocidade da minha mão. O texto foi escrito diante da parede, a jogar à bola. Com as decisões passa-se o mesmo. A parede dá-me sempre a solução. Se há algo que a parede não resolve? Sim, claro. O conflito moral. Uma vez tentei usar a parede para esse fim mas fiquei a sangrar da testa e não foi bonito. Para o resto funciona sempre. Até nas discussões com mulheres sobre namoros e essas coisas. Elas tendem a ter uma inteligência emocional mais desenvolvida, o que é uma forma de dizer que nós somos algo primários a abordar tais matérias. Mas até a Sandra, que não só tem uma inteligência emocional superior como é bem mais veloz de raciocínio do que eu, até ela eu consigo anular se estiver a chutar a bola contra a parede. Olha, foi há dois dias. Sabes o que aconteceu? Parecia um jogo de xadrez entre tipos de níveis diferentes. Eu antecipei tudo o que ela dizia, por causa da parede, claro. Sim, foi a conversa em que acabei com ela antes de ela acabar comigo. Já te tinha dito, certo? O quê? Não me lixes. Achas? Tudo arquitectado por ela? Para não me deixar de rastos? Coisa que tu agora estás a tentar fazer, meu sacana...
-Então? E esta noite?
-Esta noite? Até te passas. Estava à defesa e vem uma bola em balão, a crescer para mim. Bem, eu pensava que era a bola que crescia, mas depois percebi que era eu que diminuía de tamanho...
- Andas a ler o Gulliver?
- Sim, porquê?
- Por nada, continua.
- Então eu estou minúsculo, a bola cai finalmente sobre mim e de súbito fica tudo mais escuro. Eu acabara de entrar pelo pipo para dentro da bola, percebes?
-...
- Estou dentro da bola e sinto-me a levitar, no meio daquele ar comprimido, ganho lentamente o centro do espaço e é quase como se a bola passasse a ser parte do meu corpo. Vista por dentro, num dia de sol, a bola é uma coisa fantástica. Está mais escuro do que lá fora, mas a luz entra pelas costuras e é depois filtrada pela câmara-de-ar cor de laranja. É como estar no centro de um sol que se está a pôr, hã? Só que a temperatura é amena, o ar denso e húmido. Os sons surgem adulterados, às vezes grotescos, outras vezes parecendo que as pessoas respiraram hélio e ficaram com aquelas vozes de desenho animado, sabes? Os gritos do Samagaio, lá fora, são um gozo de ouvir dentro da bola, só te digo. E quando alguém remata, tu sentes a aceleração, és momentaneamente projectado para trás, mas logo retomas o centro, como se estivesses aos comandos de uma nave, mas cuja rota não depende ti...
- ...
- Ah, há duas sensações que viciam. Uma é ficar a olhar para a câmara-de-ar quando alguém remata com efeito e a bola começa a girar sobre um eixo imaginário. Aquilo parece um caleidoscópio, pá. A outra é quando a bola fica a saltar e ninguém lhe toca até ela parar. Aí é como abrandar um trote...
-...
- Só tive um receio: que a bola fosse parar à estrada e um autocarro a rebentasse. Mas o mais certo era sair disparado a voar e aterrar numa daquelas flores encarnadas carregadas de néctar que o pessoal chupa. Já te imaginaste a mergulhar naquele açúcar e a ir depois à boleia, levado por uma abelha?
-...
- Bem, foi mais ou menos assim. Marcamos encontro amanhã à mesma hora?
-Sim. Posso pagar-te só no final da semana? Ainda não recebi a mesada.
- Sem problema. Mas, pá, não andas a abusar disto de ouvir os sonhos dos outros?
- Isso é lá comigo.
- O J. contou-me que agora também lhe pagas.
- Não te preocupes. Os teus sonhos continuam a ser os melhores.
- Bem, tem cuidado com isso. Agora preciso de ir. Até amanhã.
-...
A história da propriedade privada era algo que não dominávamos. Nenhum de nós se inquietava com a ideia de dar posse a alguém de um bem finito, nem de como seria paradoxal só dar direito de posse sobre os bens infinitos. Uma coisa pertence-nos mais quando os outros a reclamam também. Isso nós entendíamos e cedo o experimentámos na pele.
O campo era nosso, obviamente. Era nosso porque estava perto de nossa casa e nele jogávamos todos os dias. Isto até o pessoal do Norte do bairro resolver aparecer por ali a meio da tarde, a uma hora do dia em que o campo não era utilizado. Não se chegou a saber muito bem o que os levou a fazer aquilo, nem por que motivo estavam tão longe de suas casas. Tomaram-lhe o gosto, claro; era um bom campo. Os jogos deles começaram a ficar mais demorados e a ser mais frequentes. E o impensável precipitou-se: não poder jogar no nosso campo por causa da malta do Norte. Não os obrigámos a sair e fomos para um relvado distante, mas nessa noite muitos tentaram marcar o tema de conversa à hora de jantar e ouviram os pais falar da utilização dos espaços públicos e de uma série de obrigações e deveres, numa espécie de visita guiada ao lado negro da vida cívica. Só um de nós ficou fascinado com a palavra “usucapião”. Seduzia-o a sonoridade, primeiro, e a forma adequada como parecia reflectir o seu estado de espírito perante o problema do uso do campo. A usucapião foi uma daquelas descobertas que fazem uma pessoa sentir-se subitamente mais próxima de toda a gente, ao perceber que outros já antes haviam pensado da mesma forma.
A tolerância recomendada ao jantar não nos convinha. No dia seguinte discutimos o problema com a malta do Norte, já instalada no campo. É claro que a usucapião foi logo aplicado como argumento, mas sem surtir efeito “Mas o que é que eu tenho a ver com o capitão da vossa equipa e o uso que ele dá ao campo?” A aquisição de propriedade pela posse continuada não era coisa que os bárbaros do Norte pudessem conceber. Para eles a lei era a de quem primeiro tivesse chegado ao campo naquele dia.Talvez por pensarmos que podíamos tirar partido da proximidade ao campo, não prolongámos a discussão. No dia seguinte aparecemos à hora do almoço, mas eles tinham já uns 6 tipos de plantão, a fazer passes longos, cobrindo o campo todo. No outro dia chegámos de manhã, mas dois calmeirões deles jogavam baliza a baliza, imperturbáveis. Um de nós irritou-se e nessa noite demos com ele a sair do prédio com uma tenda às costas. Só nos disse: “sempre vamos ver quem chega mais cedo ao campo amanhã? Ajudam-me a montar a tenda?” Percebemos que se caminhava para a insensatez e resolvemos recuar. Nas semanas seguintes jogaríamos sempre no relvado mais distante, a Sul. Tratava-se de um campo plano, pouco frequentado por peões, sem árvores, praticamente rectangular, com a relva em bom estado. Numa palavra, era um campo fantástico, em tudo melhor que o nosso campo cheio de árvores, inclinado, atravessado por passeios, cheio de zonas peladas e com regos junto ao lancil que faziam a bola seguir encarreirada ao longo da linha lateral. A distância até ao relvado novo também se fazia bem. Só que a nossa terra era outra e não havia nada a fazer. Por aquela altura, ao serão, lembro-me de alguém ter comentado a propósito do conflito israelo-palestiniano: “estes gajos andam a matar-se uns aos outros por uma terra paupérrima que nem cabras alimenta”. As imagens que via na televisão vinham ao encontro do comentário - colinas nuas, vegetação pobre, um quase deserto, bairros degradados, nenhum campo decente-, mas a incursão da malta do Norte fez-nos ver quão idiotas eram aquelas palavras. Recuperar a nossa terra tornou-se então um desígnio e uma sucessão de eventos fez com que tudo se fosse decidir numa partida de futebol; nós contra os do Norte e quem ganhasse ficaria com o campo por um ano. O combate ritualizado não é a pior das soluções.
Tremíamos das pernas mas começámos com garra e passámos os primeiros minutos a carregar. A tensão fez-nos bem e parecia que nunca antes jogáramos tão bem. O bairro estava em peso connosco e até a nossa porteira -pobre senhora - mas a sorte tinha outro endereço naquele dia. Bolas ao poste, grandes defesas do guarda-redes adversário, falhanços à boca da baliza, zero a zero ao intervalo e o segundo tempo a começar da mesma maneira. O nosso domínio era avassalador, as jogadas fluidas, mas não havia maneira de marcarmos golo. Sobre o apito final, na única avançada deles, sofremos um golo e perdemos o encontro. Ainda hoje oiço o berro de M. inconsolável: "estou farto de vitórias morais, caralho!" Depois ninguém mais abriu a boca, nem sequer um tipo muito dado a trocadilhos e que deve ter pensado: "pior do que perder o Norte, só mesmo perder para o Norte." Abandonámos o campo a olhar para a relva e em silêncio.
Na tarde seguinte juntámo-nos na calçada, a espreitar o campo. Mas fez-se noite sem que a malta do Norte aparecesse. Seria assim no segundo dia, ao terceiro e durante toda a semana. Prurido de vencedor? Súbito desinteresse? Um gesto magnânimo? Nunca chegámos a perceber, mas aos poucos, sem grande glória, fomos colonizando o campo de novo. Quando deixámos de jogar lá, muitos anos depois, foi por vontade própria e fome de outros territórios.
Qualquer manifestação imprevista de alegria na praça pública deve ser rapidamente investigada com minúcia e discrição. Na justificação oficial para tal urgência invoca-se a imperiosa necessidade de assegurar que o protagonista de tal acto está na plena posse das suas faculdades mentais. A verdadeira explicação, porém, é outra: uma gargalhada inusitada é uma fresta por onde se pode espreitar a tal natureza humana. Ora, fica bem dizer que a natureza humana nos fascina. É coisa sem encargos e que traz dividendos, em função da inocência de quem nos ouve.
A meio de uma partida a feijões, vindo do outro lado do campo, G. correu a abraçar quem acabara de marcar um golo que colocava a sua equipa a ganhar por um a zero. A corrida foi feita com um sorriso triunfante e os braços prematuramente abertos. Tal euforia, que chegou a incomodar o avançado e mais parecia festejo de goleador numa competição europeia, nunca antes tinha sido vista em G. O rapaz não voltaria a recuperar a concentração e a sua equipa perdeu o jogo por três golos de diferença. O que se teria passado?
A resposta veio uns meses depois; entretanto G. tinha voltado à normalidade. A normalidade de G. era isso mesmo, a de um aluno mediano, com hábitos sociais comuns e nenhum passatempo controverso. Encontrei-o por acaso deitado na relva do campo, escrevendo com afinco num caderno de notas, daqueles com a capa dura e manchas brancas e pretas, como a pele da vaca leiteira. Não se sentiu incomodado quando me aproximei, nem sequer fechou o caderno. Versalhada de amor não era seguramente e de relance logo confirmei: o rapaz preenchia tabelas (o que, em rigor, não é uma prova irrefutável de escrita pouco passional, mas quase). Nem precisei de arrancar a conversa. "São as minhas estatísticas", disse ele com algum orgulho. "Estou a passar tudo a limpo e a fazer uns gráficos". Estatísticas para as aulas? Das suas notas? Daqueles jogos entediantes que fazíamos nas viagens até ao Algarve, a contar as marcas de carros que connosco se cruzavam? Nada disso. Estatísticas sobre o desempenho de G. em campo. Estava lá tudo: o número de cortes, discriminados em função da parte do corpo que foi usada, as assistências, o tempo de posse de bola, os golos, as faltas cometidas, as faltas sofridas, as falhas defensivas clamorosas, os penalties provocados e os que fizeram sobre ele, os livres marcados, os lançamentos de linha lateral, enfim, tudo o que não ocorreria nem ao mais obcecado adepto de Baseball, um desporto particularmente aborrecido como se sabe e que usa a estatística para assunto de conversa. O registo surpreendia pelo volume de observações: mais de 20 parâmetros seguidos ao longo de mais de 6 anos, cobrindo cerca de 700 jogos (incluindo os jogos a sério, as peladinhas, os jogos no patamar e as horas passadas a atirar a bola contra a parede). "Se não for eu a cuidar destes dados, ninguém o fará por mim". De facto, tinha razão, mas ficava por explicar tamanha dedicação. "Eu vejo o futebol como um desporto individual, sabes? No fundo toda a gente pensa da mesma maneira, mas criou-se esta ideia dos desportos colectivos, como se as equipas tivessem alma e vontade. É tudo uma mentira; uma equipa é uma soma de vontades apenas, sem qualquer propriedade acrescida (hoje teria dito propriedade emergente). O problema é que nem todos têm estofo para aguentar estas análises e o colectivo funciona como um amortecedor de choques para o ego. Por exemplo, andei 5 anos a carregar um goal average negativo. Isto mata um tipo. Qualquer outro preferia não saber e é assim que as pessoas vivem, numa doce ignorância. Só no mês passado consegui finalmente chegar a um valor positivo, mas foi coisa efémera. Acabámos por perder esse jogo e a soma dos golos marcados pelas equipas de que fiz parte continua hoje abaixo da soma dos golos sofridos. É tramado. Eu bem tento diluir-me no colectivo, mas o colectivo não é para mim, pá."
Os comunistas ainda não figuravam na lista das espécies em via de extinção. Mas já não se vivia a euforia do PREC e a tensão reaccionária abrandara também. Os comunistas eram então uns tipos porreiros, que organizavam uma festa catita e piquetes de greve; avivavam o telejornal, especialmente desde que a televisão passara a ser a cores. O comunista institucional e fenotipicamente mais rigoroso do prédio - era do partido e tinha a careca do Lenine - encaixou com tranquilidade e sem humor as bocas que lhe mandaram quando comprou um carro novo. Disseram-lhe que um comunista não podia acumular propriedade e ele respondeu, sorridente e sem se dar ao trabalho de argumentar: "Aí, fascista...". O terror comunista, com todos os seus detalhes sórdidos, foi algo que só viria a conhecer depois. Na época, o único comunista que eu abominava não era o Estaline, era o F.
F. não gostava de futebol. Era poeta e intelectual, e mau em ambos os papéis. Militava na JCP e passava os Verões na URSS, mas todos os anos regressava sem saber coisa alguma do Igor Belanov. Viria a tornar-se num daqueles tipos exageradamente cultos, que ficam enredados no número de associações que conseguem estabelecer e acabam involuntariamente por se transformar em forças da reacção desprovidas do humor e leveza dos conservadores de direita. Ele até sabia de futebol, como sabia de culinária. Sabia de tudo, mas gostava de quase nada.
F. não tinha por hábito assistir às nossas partidas. Era um homem afundado nas tarefas do partido e que passava o pouco tempo livre que tinha fechado no quarto. Viciara-se em cantigas de intervenção: Ibanez, Milanês, Jara, Zeca, por aí fora. Um súbito interesse por futebol só surgiu quando alguém lhe disse que iríamos defrontar a malta do prédio do lado. O prédio era de habitações sociais e na cabeça de F. só lá havia famílias de operários, gente trabalhadora e rectos, de feições nobres e o sólido antebraço das figuras dos murais. Nunca cheguei perceber muito bem quem morava naqueles prédios, mas era certo que havia por lá gandulagem. E sobre os filhos daquelas famílias não tinha dúvidas, apesar de não ter provas: muitos estavam na calha para a marginalidade. Havia pois duas lutas de classes no campo. A luta que fascinava F.: os burgueses contra a classe operária; e a nossa luta: as vítimas que desconfiavam estar a jogar contra quem de tempos a tempos lhes palmava as bolas. F. era claramente um miúdo com uma visão mais abrangente, mas nós não lhe perdóamos a simpatia que revelou pelos adversários. Vê-lo rejubilar com os golos deles era uma afronta e passar quase todo o jogo a perder e com F. a cantar em castelhano, irritou-nos. Talvez isso explique que no seguimento de uma recuperação espectacular a levar ao empate, o golo da nossa vitória, marcado já sobre o fim da partida, tivesse despertado no seu autor uma vontade desenfreada de correr na direcção de F., fazer depois uma chamada com os pés diante dele e gritar, exibindo-lhe a três dedos do seu nariz o punhado de relva que acabara de arrancar do chão: "a vitória a quem a merece, comuna de merda!"
C. só se queixava de não irmos para o balneário a seguir. Da natureza não tinha ele razões de queixa. Mas cada um tomava banho em sua casa e frustrava-o o facto de não poder exibir o avantajado apetrecho sexual em todo o seu esplendor. Não era um exibicionista de se esconder atrás das moitas à espera de presa, mas o rapaz experimentava um irreprimível desejo de esmagar os egos circundantes com a visão das partes íntimas da sua anatomia. A malta defendia-se como podia, inventando piadas que trocávamos quando ele não estava presente. Coisas tolas, como: "C. não pôde fazer de poste por causa da curvatura acentuada"; ou "vendo que o defesa se escapava, C. tentou derrubá-lo com uma erecção"; ou ainda esta:"sabes por que razão ninguém quer ficar ao lado do C. na barreira? Porque ele tem sempre falta de mãos para proteger as partes baixas e por hábito crava os vizinhos". Havia outras, ainda mais boçais, que agora não ficaria bem contar.
A reputação de C. fora estabelecida numa ida em grupo à piscina municipal. Aparecera de tanga e logo começámos a gozar com aquela volumetria, que só podia ser forjada. Mas ele manteve-se sereno e nadou toda a manhã nadava num perfeito estilo costas. Foi só no balneário que nos respondeu, despindo a tanga. Quase não acreditamos no que vimos. Quando C. começou a andar, entre as suas pernas parecia baloiçar uma tromba, com total independência de movimentos. Nem depois de um banho frio ele se aproximou da normalidade. Demorámos uns dias a encaixar aquela experiência e, não sei se por trauma ou castigo imposto por C., desde então parecia que ele tinha começado a jogar com calções mais curtos e a usar umas calças de ganga justíssimas. Nem uns anos depois, quando começaram as sessões de vídeos pornográficos em casa de um de nós, perderia ele o ceptro de besta sexual. Antes pelo contrário. Nós percebemos então que tínhamos entre nós um vizinho capaz de - passe-se a expressão - ombrear com as grandes vedetas da pornografia centro-europeia. Só um núbio com honras de participação especial nos pareceu francamente acima do tamanho de C., mas ele argumentou, sempre tranquilo: "é ilusão cromática, rapazes".
O livre directo devia ser um momento de gozo puro. Ninguém se lembra de um livre directo falhado e o golo que pode daí resultar é quase sempre belíssimo. Compare-se isto com a grande penalidade: ninguém perdoa um penalty falhado - todos nos lembramos do Veloso - e o golo de penalty não pode ser um golo bonito. Se alguém fizer algo bizarro, como marcar a falta com a cabeça ou o calcanhar, o golo será apenas espectacular, nunca bonito. Se um poeta entender cantar o penalty, percebe-se que escolheu um tema difícil, só para pôr à prova o seu talento. O contraste é óbvio: há uma leveza associada ao livre directo que nem as circunstâncias - o livre directo para lá do tempo regulamentar e que pode empatar a eliminatória - dissipam. Pensava eu.
"São tantas as opções. Posso ir por ali, como sempre fiz, ou então experimentar algo novo, percebes? Surpreendê-la... A barreira é sempre diferente. Nunca são iguais, sabes? Na essência, sim, mas depois há sempre uma mais alta, outra que nos mostra as mãos em lugares estranhos, aquela que apetece furar, de tão frágil, e a que sei que devo contornar, fazer a bola passarbem ao largo, cheia de spin, par que resista à sua atracção. Tu pensas na barreira como uma entidade homogénea e, enfim, normalizada pela soma das partes, mas cada barreira tem uma personalidade única. Há as barreiras caprichosas. Conhecem as regras, mas querem sempre chegar-se mais perto, dar mais um passinho em frente, entrar na zona proibida. A malta refila, entabula um diálogo com ela, tenta não envolver o árbitro na discussão. Prefiro ter uma relação amistosa com as barreiras. Nunca se sabe o que o jogo nos reserva. O mais provável é ela voltar a surgir-nos pela frente. O que a barreira às vezes não percebe é que nós temos interesses essencialmente opostos. A alegria do rematador não é compatível com a sensação de dever cumprido da barreira. Trivial, mas complicado ter sempre presente. Afeiçoamo-nos aos detalhes. Às vezes há umas expressões de medo que nos comovem. Outras vezes damos com o orgulho de quem se sabe superior mas tolera entrar no nosso jogo. Chega a ser sedutor, tirando os casos de insanidade, que também surgem. Há uma pulsão suicida na barreira. Enfim, aquilo está entre o mártir e o suicida. Heróis não há. Cumpre-se um desígnio, percebes? Mas não deixo de pensar nelas, de lembrar como reagem ao toque. Ao estoiro, sim, claro, o petardo que as destrói, mas sobretudo à simulação, que as destrói ainda mais. A barreira é profundamente inteligente, mas vê-se escrava da sua condição e então parece algo tonta. Aqueles saltinhos e os corpos que se contorcem em poses maneiristas... Isto não abona muito a meu favor, mas fiquei viciado, pá. Já deste conta da dispersão que surge logo a seguir, uma vez consumado o acto? De como aquelas partes se desmontam e parecem querer esquecer o que se passou? Ser actor daquele enredo é viciante, como te digo, mas trata-se de um jogo perigoso que nos consome devagar. Não há livres directos simples. Andam todos enganados."
Quando marcavam golo na televisão e minha mãe assistia ao desafio comigo, rara era a partida em que ela não dizia: "como devem ficar felizes". É verdade que a exuberância com que os golos são comemorados não passa despercebida e o exagero que alguns emprestam ao acto merece reparo, mas o comentário de minha mãe parecia um desabafo de menina a espreitar o recreio dos rapazes, como se aquela alegria lhe estivesse negada. Havia nela uma inveja sadia que jogava bem com a sua beleza e doçura. Eu era um miúdo e perante as palavras de minha mãe só via duas soluções: desacreditar a alegria alheia ou fazer com que ela, de algum modo, a partilhasse também. Depressa descartei a primeira hipótese, por me parecer pouco ambiciosa.
A oportunidade veio sem plano prévio. Jogávamos e numa das minhas incursões no ataque reparo que minha mãe espreitava lá de cima. Era uma conjugação de duas situações raras: eu ao ataque e ela à janela. Senti que o momento era especial e resolvi tentar a minha sorte, disparando de longe. O pontapé saiu enrolado, ao ponto de um dos defesas se desviar da bola para que o guarda-redes a pudesse recolher, mas um ressalto caprichoso desviou a bola da sua trajectória e deu-me um golo inesperado. Foi também um daqueles golos que se perdem sem lembrança nos marcadores de marcha já adiantada, o nono golo de um treze a oito ou qualquer coisa assim. Um golo feio e sem importância. Mas minha mãe estava à janela e eu resolvera aproveitar. O que então se seguiu foi um pastiche de todas as formas televisionadas de festejar um golo, dispensando as figuras mais acrobáticas, que não teria sido muito avisado tentar. O meu one-man-show durou mais de um minuto, ao ponto de ter aborrecido os meus companheiros. Então resolvi parar. Antes houve de tudo, da corrida desenfreada ao braço esticado, dos dois braços os ar, estáticos, ao movimento de braço tenso, em ângulo recto, como se tivesse a dar um soco no estômago de alguém, dos passos de samba ao grito de vitória de quem exulta uma multidão. Depois olhei para cima, mas minha mãe tinha desaparecido.
Nessa noite, ao jantar, puxei pelo assunto. Falei-lhe do meu golo e da alegria que fora marcá-lo. Ela apenas comentou, afagando-me a cabeça: "Não sejas tolinho. A alegria não se finge". Algum tempo depois, já após outras conversas, quando levava os pratos para a cozinha, vendo-me algo desanimado e envergonhado, teve tempo de me salvar, dizendo: "O amor também não se finge. A mãe gostou".
O futebol não é um desporto absolutamente democrático. Vigora uma tirania do corpo. Não direi que o futebolista é seleccionado ou se vai deformando como o lutador de Sumo, a ginasta, o jockey das corridas de cavalo, o timoneiro dos barcos a remos, o atleta do salto em altura e o boxer da categoria de pesos-pesados, mas o futebol "de Rui Barros a Rud Gullit" é uma fórmula feita a partir de excepções. Consideremos a arte da finta, por exemplo. Um executante demasiado pequeno pode até ter alguma vantagem em fintar, mas não consegue fazê-lo com elegância. A tentação de afagar com o joelho uma bola colada à relva está sempre presente no jogador com menos de 160 cm e o gesto não é bonito. O jogador pequeno é demasiado frenético. Falta-lhe altivez e não há nada que possamos fazer senão aplaudir-lhe o esforço inglório que até resulta em golo. É verdade que contamos excepções, mas há uma diferença entre saber fintar e fintar com elegância. A finta elegante não é forçosamente a mais eficaz. O caso do calmeirão é mais fácil de expor. Um jogador grande não precisa de saber fintar, mas geralmente também não o conseguiria fazer, mesmo que domine a teoria. Um fulano com 1,95 m não tem aceleração explosiva para arrancar uma finta quando está parado. Falta-lhe também coordenação e a garra que um corpo avantajado não estimula.
O meu irmão tinha o corpo ideal. 1,85 m, ombros largos, pernas longas e finas. Fazia fintas como um bailarino preguiçoso que tem o pé de apoio sempre no mesmo sítio. As fintas dele eram tão elegantes que a imagem precisa daqueles instantes foi sendo substituída por metáforas. É um problema. Imagine-se um compasso a meio do meio-campo, com um dos ponteiros espetado e o outro controlando a bola, fazendo semicírculos, pequenos arcos, ora no sentido dos ponteiros do relógio, ora atrasando o tempo. Imagine que ao fim da tarde a relva tem o registo daqueles movimentos e o campo - enfim, aquela zona a meio do meio-campo - faz lembrar as searas com círculos concêntricos a armar aos vestígios de extraterrestres. Ou então imagine-se um Manolete no relvado, parado diante das investidas, a fazer verónicas com a bola da Adidas e a trocar os olhos aos defesas. O meu irmão fintava assim e às vezes até marcava golos. Mas dos golos dele lembro-me eu sem delírios.
Há umas fotografias de África em que o meu pai aparece equipado a rigor. Na ilha da Madeira consta que jogava na dianteira, ao lado de um pescador, num campo de terra batida que todos os anos era feito sobre o calhau da praia. Divago. Não sei onde era o campo, nem sei a que posição jogava o meu pai. Nos jogos de Domingo no bairro o meu pai primava pela falta de comparência. Só a sua forma tensa de seguir um encontro pela televisão ficou bem gravada; aquele constante reajustar do corpo ao sofá, os joelhos a subirem e a ganharem tensão à medida que uma jogada perigosa se desenrolava, umas interjeições incompreensíveis e discretas. É verdade que me marcou alguns golos na praia, na fase fugaz em que me julgava guarda-redes, mas nada mais. O meu pai não me ensinou a jogar à bola, mas levou-me a pescar. É por causa dele que tenho na cabeça um aquário de água salobra, às vezes salgada, outras vezes quase doce. E os peixes que aqui nadam, estes fantasmas amistosos de um cardume em sortido, são peixes pequenos, peixes singelos, peixes sem peso nem arcaboiço, sem raridade nem a nobreza do tunídeo que nos Açores é um touro antes de estrebuchar como peixe. Falo dos 52 peixes tirados a miolo de pão de um charco lamacento numa aldeia perdida nos Pirenéus, e que foram prata viva sobre os castanhos tristes das ruas e do casario antes de acabarem em fritada. Falo das castanhetas, que com os seus violetas fizeram com que perdesse o medo dos tubarões imaginários. São os meus peixes, valiosos como os troféus de latão. O peixe mais precioso do cardume, só para que se perceba, é um simples robalo de 200 g, anzolado com isco de casulo caçado na mesma areia em que fundeei os pés e projectei a chumbada, teria eu uns 10 anos. À primeira garfada do meu avô, que comeu aquele peixe ao almoço, senti o fechara um círculo, iniciado muitos anos antes, com o paradoxo de ter sido um avô alentejano a ensinar as artes a um pai vindo das ilhas; primeiro a pesca vertiginosa nas falésias do cabo de São Vicente, mais tarde a pesca pachorrenta nas barragens espraiadas da planície, rudimentos que depois procurei aprender também, de início seguindo as pegadas do meu pai por leitos quase secos, em busca do peixe rei que servisse de isco para o achigã, depois já sozinho, entretido com os pedregulhos dos molhes algarvios, até ter ganho a coroa do reino dos cabozes e então me sentir confiante para reclamar uma cana de verdade, lançar finalmente aquela chumbada, sentir no zumbido de um carreto a largar fio uma razoável manifestação de poder e recolher o robalo que o meu avô comeria. Fechar círculos é uma forma de crescer. E descrever uma jogada em triangulação que envolvesse três gerações da minha família teria sido bonito, mas de todo inverosímil.
Na Zarolha, uma taberna sob umas arcadas que ficava perto do liceu, reunia-se uma amostra parcial dos bêbados do país. Eram homens de meia-idade, muitos deles desempregados, que passavam ali os dias, com o olhar meio perdido. Bêbados calmos, portanto, que não provocavam desacatos. Viria depois a perceber que há muitos tipos de bêbados e muitas formas de tratar cada um deles, o que atira a definição de alcoólico para o confortável campo da opinião pessoal. Íamos à Zarolha por causa das raparigas. Por um acaso mais azarado do que se poderia pensar, a minha turma congregava praticamente todas as sex symbols da escola. Eram raparigas emancipadas, que fumavam, ouviam as bandas britânicas da altura e namoravam os tipos mais velhos. Os colegas de turma eram apenas isso mesmo, o que deve ter causado grandes frustrações. A romaria das raparigas à Zarolha era a única altura em que nós podíamos alimentar algumas pretensões. Uma adolescente embriagada é um animal que apenas obedece aos seus impulsos mais primários e só precisávamos de assegurar que elas não perdiam o equilíbrio até nos amanharmos com uma num vão de escada, a um canto das arcadas ou ao abrigo de um arbusto frondoso. Bebia-se umas misturadas de vinho branco e bagaço, que batiam logo e eram baratas. A rapaziada acompanhava as miúdas nos copos, para ir ganhando coragem. Aqueles corpos já perfeitamente desenhados para a prática amorosa não nos deixavam propriamente à vontade e a desinibição etílica compensava largamente a inevitável agonia dessa noite. Tudo tinha lugar a meio da tarde, sempre que um professor faltava ou cedíamos a um pico de aborrecimento colectivo.
Depois da farra, ainda havia tempo para uma peladinha. Jogava-se francamente mal, mas em nenhum outro desafio se ria tanto à custa de um passe falhado. Um pontapé de bicicleta sob o efeito do álcool, por exemplo, é uma experiência inesquecível que provavelmente não deveria detalhar, sobretudo na presença de jovens, sob pena de os corromper, mas não resisto a descrever o momento em que se aterra no chão, como se regressássemos de uma breve viagem intergaláctica. Há um reajuste das meninges, um remoer do estômago que destila um derradeiro vestígio de álcool e então uma tontura boa toma conta de nós e oferece-nos o céu como se não pertencesse a mais ninguém.
G. não se deixava levar por aquelas experiências. Era do género aplicado e um jogador disciplinado tacticamente. Encarava o futebol com um ascetismo que não tolerava borracheiras. Apesar de lhe dar um gozo especial jogar contra bêbados "por causa da diminuição da visão periférica, o que facilita as subidas pelos flancos... Ah, e pela vossa [nossa] lentidão, também, pois simplifica a finta", G. condenava as curtições vespertinas. Em tempos chegou a dizer, sem esconder algum desdém: "isso de se aproveitarem delas bêbadas é pior do que a iniciação sexual dos meus tios, que aconteceu com prostitutas. Ao menos aí elas eram pagas, caraças..." Apesar desta postura intolerante, corria sangue no corpo de G. e ele alimentava uma paixão muito pouco original pela Milú, sua colega e uma das miúdas mais cotadas do liceu. Tratava-se de uma rapariga alta e morena, com o nariz afilado e o rosto exótico, o que lhe dava uma certa nobreza e a ajudava a exibir com classe um corpo abertamente pecaminoso. A Milú tinha também uma doçura rara de encontrar nas raparigas que subitamente se apercebem do seu capital sexual e, como se não bastasse, fazia umas composições para a aula de português muito elogiadas, o que agora soa a detalhe politicamente correcto, mas é factual.
Um dia conseguimos arrastar G. connosco, atrás das raparigas que haviam já partido para a Zarolha. A Milú tinha ido com elas e talvez G. tivesse acordado particularmente libidinoso. O certo é que nos acompanhou, embora sem abdicar de manter a guarda alta. Quando chegámos à Zarolha as raparigas levavam já uns copos de avanço, o que fazia parte do plano. Começámos então a beber, mas G. apenas fingiu e foi visto por uns a verter discretamente o copo, protegendo o gesto com o corpo. O álcool perdeu-se pelo chão de mármore sujo e G. permaneceu imaculadamente sóbrio. Depois começou o deboche, as fugas e as perseguições, com os velhos bêbados a assistirem impávidos àquela Primavera. A Taberna era um espaço exíguo, com um balcão e uma fila de mesas pequenas. Entre as mesas e o balcão os clientes bebiam de pé, mas algo apertados. Constatando que o álcool tomara conta dos acontecimentos, G. preparou-se para abandonar o estabelecimento. Mas foi então que se viu entre as longas pernas da Milú, que ficara sentada numa das mesinhas e, sem se levantar, apenas apoiando os pés na parede do balcão, o aprisionara. Num ápice aquela tornou-se na experiência erótica mais intensa da até então pacata existência de G. A rapariga denotava intenções de o desencaminhar e G., preso entre as pernas delas, logo se libertou dos princípios que defendia. Foi só depois de consumado o apelo da carne que a consciência de G. voltou a marcar presença. Eram seis horas, as lojas da nova zona comercial ainda estavam abertas e G. correu levado pelo impulso, pedindo a Milú que o esperasse. Voltou com uma prenda, que ela abriu a custo, já meio indisposta da bebedeira. Ainda foi a tempo de lhe agradecer pelo colarzinho de pechisbeque, antes de cair num sono pesado. Na manhã do dia seguinte, só se falava no despontar de uma história de amor, mas apenas porque a Milú ficara em casa, caso contrário teria logo desmentido o rumor. Para quem não o conhecia, G. era o herói do dia; para os seus amigos, o hipócrita do momento. Tentando defender-se referindo-se ao colar que oferecera à Milú, ainda foi a tempo de ouvir: "G., devias ter percebido que as nossas miúdas não são como as prostitutas que os teus tios frequentavam, pá. Não precisavas de ter dado cabo da mesada..."
A vontade de arrancar uma fachada ao prédio e ver a intimidade dos andares exposta como numa casa de bonecas deve ser pouco original, pois em breve a descobriria nos livros e nos desenhos animados. Coisa mais rara é esta ideia de escancarar a intimidade segundo uma perspectiva de planta, como se o chão - o soalho, os tacos, a carpete, os tapetes, a tinta, o betão armado e os posters de futebolistas que o A. do terceiro frente pregara ao tecto - fosse um vidro absolutamente transparente e, por um arranjo impossível de explicar, a mobília do andar de baixo, mesmo a de mogno ou nogueira, mas não cortasse a vista do andar de cima. Olhando do meu quarto até ao oitavo andar e depois para baixo até à cave, veria as vidas ligeiramente dessincronizadas dos meus vizinhos. Correndo as divisões da minha casa, poderia acompanhá-los no seu trânsito de T4, sempre que passassem de um quarto à sala. Teria então percebido que há uma força centrífuga, violentíssima na adolescência, que nos puxa para a diferença e várias forças centrípetas que nos banalizam, nomeadamente: os horários, as grandes empresas, a tirania do gosto e, claro, a televisão a dois canais. A gente que cresce em vivendas - ou em barracas, que para o caso é igual- não pode perceber esta vertical e opressora normalização da existência, em que nunca chega a dissipar-se a desconfiança de que somos cobaias numa vasta experiência arquitectada por sociólogos sem escrúpulos.
Correr as persianas não bastava. Como não bastava fechar o quarto à chave. Uma discreta paranóia levava-me a ter o quarto às escuras, a menos que quisesse ler. Cheguei a andar com uma lanterna, que usava com enorme economia; um Júlio Verne consumia 3 pilhas grandes. É claro que nunca vi propriamente através do tecto e ainda espero pela chegada dos super-poderes. Mas conhecia muitos quartos e salas, lanchara em muitas cozinhas, chegara a ver de relance alguns quartos dos pais dos meus amigos e até me escondera debaixo de algumas das grandes camas de casal, guardando para mim agora o que então vi. Ou seja, tinha o prédio razoavelmente apreendido, o suficiente para que qualquer barulho vindo de cima ou de baixo fosse logo enquadrado num enredo a que não faltava cenário.
O meu vizinho de cima costumava acordar-me de manhã e por vezes a meio da noite com um som repetido a intervalos de tempo de início constantes, mas cuja cadência tendia a precipitar-se ao fim de uns minutos. Parecia um ranger de cama e vinha em séries de 7 ou 8, cada uma com cerca de 4 minutos e espaçada da seguinte por 2 minutos ou nem tanto. O barulho era absurdamente sugestivo e eu vira já um número de filmes suficiente para associar o associar à cadência do acto sexual. É verdade que os tempos e a urgência com que o ruído depois recomeçava não cumpriam o cânone, mas tal apenas aumentava a minha admiração e curiosidade. Durante anos evitei abordar com ele este assunto ou sequer comentá-lo com outras pessoas. Só muito tempo depois, durante um reencontro fortuito num dos bares da capital quando ambos éramos já adultos, ousei inquiri-lo. Ele ouviu-me atentamente, sorriu depois com vontade e disse: "Ó meu amigo, eu devia ter vivido a minha adolescência na tua cabeça. O que fazia eram uns simples exercícios para os bíceps. Punha-me de joelhos aos pés da cama e levantava-a de um dos lados, deixando assentes no chão os dois pés do lado oposto. É verdade que a cama rangia bastante..."
O Jaime era juvenil no Sporting e fora já convocado para a selecção. Crescera no bairro e começara a jogar no Olivais e Moscavide, mas cedo um olheiro deu por ele e levou-o para Alvalade. Tinha contrato e recebia um salário razoável. O Jaime passeava pelos Olivais com estatuto de vedeta. Não direi que assinava autógrafos, mas era uma celebridade local, um pouco como o músico de rock que também por ali morava e era líder de uma banda que estava nos tops. Era bem tratado nos cafés, os miúdos por vezes iam atrás dele e as raparigas enviavam-lhe bilhetinhos. Há anos que não jogava à bola na rua, porque um jogador com contrato não pode arriscar-se a contrair uma lesão e provavelmente não tem muita pachorra para jogar com amadores. Para mais, o futebol era a sua profissão e talvez o Jaime preferisse entreter-se de outra forma nos seus tempos livres, embora eu não consiga imaginar muito bem do que poderia ele gostar (o que faz um jogador de futebol nas suas intermináveis horas vagas, afinal?) Foi por isso uma surpresa vê-lo na equipa adversária, num dos jogos mais importantes do nosso campeonato de bairro. Soubemos mais tarde que Jaime apenas aceitara jogar por estar interessado na irmã mais nova do capitão da equipa deles, um tipo calculista. A rapariga era de facto adorável, com os cabelos loiros aos cachos e uma boca vagamente imoral; no lugar de Jaime qualquer um de nós teria feito o mesmo. A questão era como vencer uma equipa que tinha o Jaime. Ao intervalo o problema cifrava-se em 10 a 2. O nosso melhor jogador cumprira, mas o Jaime era de outra dimensão. O que o distinguia dos outros era a força e velocidade que imprimia a cada jogada. Tecnicamente, se não estivessem no mesmo campo, o nosso craque aparentava estar ao nível do Jaime, mas quando em confronto directo um com o outro percebia-se o abismo que os separava.
Formávamos um círculo e discutia-se a táctica para a segunda parte. "É impossível cobrir o Jaime no homem a homem". Silêncio. "É impossível anulá-lo. O gajo vai buscar as bolas à defesa e depois arranca sozinho e leva tudo à frente". Silêncio. "Posso dar-lhe uma cacetada e o gajo não se levanta mais". Quem falou assim foi um tipo franzino que tínhamos mais ou menos arrumado a defesa direito, longe do Jaime, que investia pelo outro lado. Era um jogador fraco e um tipo insignificante, se me é permitida uma expressão tão violenta. Só mesmo alguma frustração explicava aquela sugestão, que de tão assertiva era praticamente uma declaração de intenções. Ninguém comentou. A tentação de o deixarmos praticar jogo sujo foi tomando conta de nós, subindo pelas pernas como um torpor bom. Então alguém disse: "Tu não tens estaleca para aguentar uma coisa dessas. Nem penses nisso." O franzino não percebeu e retorquiu de imediato, quase parecendo um galo de luta: "Não sou capaz, é? Queres ver, hã? Tu queres ver?" Mas o outro, que era infinitamente mais esperto, respondeu com calma: "se fizeres isso vais ser destruído pelo remorso, pá. Tu não tens arcaboiço para canalha, vai por mim". Só que o franzino não percebeu de novo e continuou a ouvir apenas uma provocação. Quando foi hora alguém disse: "Vamos dar o nosso melhor, sim?". Por outras palavras, reentrámos no jogo sem um plano definido.
Aos trinta segundos da segunda parte o Jaime voava aparatosamente, depois de ter sido ceifado sem bola pelo Franzino, que ficou agarrado à perna a contorcer-se com dores. O Jaime aterrou bem, mas do choque inicial resultou uma rotura de ligamentos e o joelho dele passou a fazer um som muito pouco tranquilizador. Não se conseguiu levantar e foi então que chamámos uma ambulância. Percebeu-se depois que a lesão era mesmo muito grave e o Jaime nunca mais voltaria a jogar à bola. Começou a demorar-se muito pelas ruas do bairro (afinal, o que faz um jogador de futebol quando acaba a sua carreira?), onde era acarinhado por todos. O Franzino passou a persona non grata e desapareceu de vista. Ora, como se sabe, o estatuto de vítima dura pouco tempo ou acaba por cansar quem dele goza e quem o aplica. Em poucos anos o Jaime derraparia para o mundo das drogas duras, sem que tivesse de ir para muito longe. Depois começou a circular a história de que no momento em que se voltou a cruzar com o Franzino eles partilhavam uma seringa, mas isto deve ser melodrama.
-Achas que nos iremos lembrar disto, daqui a uns anos?
-Do resultado do jogo de hoje?
-Não. Isso já esqueci. De estarmos aqui, desta colina, do cansaço depois do jogo e de como a relva sabe bem?
- Sim, da relva acho que sim.
- Mas vamos recordar o quê, exactamente? Que a relva nos sabia bem ou tudo sobre ela? Como a sentíamos nas pernas e nos cotovelos? Da sua cor? De como cheirava?
- Não sei. As lembranças são muito mais detalhadas do que pensamos e estão todas ligadas umas às outras, só que às vezes um tipo não as consegue puxar para fora e pode sacar as lembranças erradas. Ou então não temos paciência para ir puxando pelo fio até à ponta. Ou então temos medo. Outras vezes, não sei... Parece que são elas que nos encontram. Os cheiros, justamente.
- Os cheiros...
- Sim. São uns mobilizadores de memória do caraças. Estás no autocarro a falar com a tua miúda, passa uma matrona com o perfume da tua antiga namorada e por pouco não erras o nome dela, certo?
- Bem, eu só ainda tive uma namorada.
- E eu ainda não tive nenhuma; não espalhes, ok? Mas percebes a ideia, não?
-No outro dia, no Alentejo, estava no meio de uma seara, esmaguei os bagos de uma espiga madura e, pá, foi a primeira vez que pisei uma seara e nunca antes esmagara uma espiga, mas posso jurar que reconheci aquele cheiro. Os cheiros são pistas falsas, excepto para os cães.
-Pois eu acho que só os cheiros nos vão transportar de volta a este lugar. Isto vai tudo desaparecer. Em vinte anos tens aqui um centro comercial ou uma pista de aviões. Haverá uma via rápida que lavrou e destruiu o campo. Uma tragédia, vais ver. Se trouxeres aqui os teus putos será um novo subúrbio com o asfalto ainda fresco o que terás para lhes mostrar. É a segunda morte da aldeia, pá...
- Teremos fotografias.
- Mas as fotografias são uma espécie de mausoléu. São arquivos. Quem abre os arquivos são os estudiosos ou os desesperados. Os cheiros, não. Os cheiros são fragmentos do passado à solta por aí. São coisas incompletas, que te deixam com sede de recordar. Os cheiros não têm informação, são chaves apenas. As fotografias, não. As fotografias agridem-te com a imagem do que pensam tratar-se da tua memória. Têm um grau de detalhe absurdo e são quase sempre dogmáticas. O que interessa ter a imagem de uma fracção de segundo vista de um ponto no espaço segundo o ângulo x? É ridículo, mas uma fotografia não se presta ao diálogo e ou a rasgas ou a aceitas. Com isto do vídeo ainda vai ser pior.
- Então?
- As pessoas vão ter a sua vida toda documentada e a memória deixará de existir. Sabes, aquela zona definida pelo que aconteceu, o que tu julgas que aconteceu, o que tu gostarias que tivesse acontecido e o que receias que possa ter sucedido. A memória é isso.
-Ena. Se fosses no futebol como és a falar passaria a jogar na tua equipa.
- A sério. As memórias têm de envelhecer um pouco. As fronteiras têm de ficar esbatidas. E para isso não pode haver um registo muito detalhado. A menos que sejas biógrafo, mas quem é que quer viver uma vida a contar a vida de outra pessoa?
- Certo. Deixa ver: como já esqueci o resultado de hoje...
- Não abuses, hoje ganhámos nós. 14 a 12. Anda daí, vá. Amanhã quem se esquecerá do resultado serei eu.
F. tinha uma bola multicolorida, que foi perdendo as cores à medida que a película foi saindo, como uma pele velha sem outra que a subtituísse. É muito fácil uma criança afeiçoar-se a uma bola. Uma bola é como um boneco de pelúcia com utilidade. Joga-se futebol e, de noite ou na intimidade das quatro paredes do quarto, abraça-se a bola, usa-se a bola como travesseiro, acaricia-se a bola. Isso, a bola é mais do que um boneco de pelúcia e apenas um pouco menos do que um animal de estimação. Tal não explica a reacção de F. naquela tarde, mas é uma aproximação.
Uma criança que não gosta de estudar quando foi o estudo que abriu os horizontes ao seu pai arrisca-se a uma infância complicada. Por isso havia entre os dois uma tensão latente. A criança não podia escapar à sua natureza irrequieta. O pai não conseguia de deixar de pensar na importância de um curso superior (e apenas três, claro: direito, medicina e engenharia). Cada um percebia o outro, daí a tensão. Porque no fundo a criança queria agradar ao pai e o pai gostaria de ser mais carinhoso. Havia um território de afecto que ambos avistavam mas a que não conseguiam chegar. São coisas complicadas. Então naquele prédio, devia haver um caso destes por andar.
Talvez assim se explique a explosão de raiva de F. O pai ia a passar na calçada e foi testemunha impotente do roubo da tal bola multicolorida por três marginais. Eram tipos grandes e com tatuagens na mão, a denunciar domicílios passados muito pouco recomendáveis. Distinguiam-se dos habituais ciganos do bairro, a quem até os mais corajosos do nosso grupo faziam frente. Depressa se afastaram, aos pontapés na bola, e foi quando estavam já a umas dezenas de metros que F. se apercebeu da presença do pai no passeio e não se conteve: "então o pai não faz nada? Tem medo deles, é?" Toda a gente ouviu; os amigos de F. que com ele brincavam e alguns vizinhos que passavam. Deve ser duro para um pai ser acusado de cobardia pelo filho, para mais em público. O homem ficou imóvel. Talvez tivesse sido medo, sim. Ou apenas prudência. Ou o desejo inconsciente que roubassem a bola ao filho e lhe cortassem mais uma fonte de distracção. As palavras do filho devem ter causado uma profunda mágoa, pois ele ficou parado no passeio durante largos minutos. Os ladrões desapareceram com a bola e todas as testemunhas foram regressando a casa, lançando um último olhar, a ver se o homem arrancava finalmente um inglório sprint de perseguição.
Nele a honestidade e a decência chegavam sempre com um segundo de atraso. Não havia sarrafeiro mais consciencioso, capaz de um pedido de desculpa tão sincero e pungente. Parte do seu jogo era passada a fazer faltas maldosas e o resto a pedir desculpa. Tratava-se de uma rotina irmãmente repartida. Até que ponto um pedido de desculpa resiste? Tudo depende da sinceridade que nele se investe no momento e muito pouco do respeito que a pessoa nos merece. Daí o nosso conflito. Ninguém tinha coragem de o impedir de jogar. Ele era um sarrafeiro fenomenal, mas tinha bom coração. Sofria horrores com as dores dos outros; cinco minutos depois fazia a enésima entrada a pés juntos. Esclareço que não era um sarrafeiro por falta de técnica, daqueles que acertam na canela do adversário quando pretendem apenas chutar na bola. E tinha plena consciência do jogo que praticava. Ninguém conseguia explicar o comportamento dele, na verdade. J. chegou a avançar a hipótese de que se trataria de uma personalidade esquizóide e, com alguma malícia, J. divertia-se a pensar numa situação em que ele se agredisse e pedisse desculpa a si próprio, num loop de nonsense que depois ninguém interromperia, para que pudéssemos jogar em segurança.
"Que adulto iria dar tal criatura?" era uma pergunta que comecei a fazer por aquela altura, sempre que me cruzava com alguém que saía da norma. Em muitos casos a resposta não era difícil e agora, a uns 20 anos de distância, verifico que poucas vezes me enganei. Mas com este rapaz eu temia arriscar uma previsão. É preciso dizer isto: ele chegou a partir uma perna a um tipo, e logo a tíbia, um osso lixado de quebrar. Foi, digamos, o seu grande momento. À gravidade da lesão correspondeu um empenho na recuperação da vítima que chegou a ser constrangedor. O pobre coitado regressou com a perna engessada e ele fez questão de o levar ao colo para casa. Mas como tudo fazia com um grau de exagero adicional, carregou-o pelas escadas até ao Sexto andar em vez de usar o elevador. Havia nele um misto de penitência, sentimento de culpa e generosidade que se esgotava naqueles momentos. Ao fim da tarde podíamos vê-lo de novo no campo, destruindo jogadas e jogadores. Cheguei a pensar que ele facilmente seria um assassino em paz com a consciência. Ter-lhe-ia bastado deixar as vítimas por instantes moribundas, para que pudessem escutar o seu pedido de desculpa . O golpe fatal seria depois um simples pró-forma.
Houve uma altura em que fugi do flanco esquerdo e passei a entrar pela faixa direita, apesar de ser canhoto. De início foi complicado conseguir fazer centros decentes, mas acabei por resolver o problema, passando a usar a parte de fora do pé. A bola descrevia um arco de trajectória excêntrica, literalmente excêntrica. Fiquei viciado em centrar daquela forma, mas o que importa contar é a razão da fuga. No flanco esquerdo jogava também um tipo, meu amigo, que era patologicamente sincero. O rapaz não conseguia guardar segredos e sentia necessidade de revelar tudo o que fazia. Alguns não o podiam aturar - "pá, vai ao confessionário e não me chateies." - mas eu tinha paciência para ele; excepto quando estávamos a jogar, precisamente a altura que ele insistia em fazer as declarações mais bombásticas. A bola saía de campo, ele aproximava-se e segredava-me: "copiei o teste todo"; ou então, quase a soçobrar: "masturbei-me ontem"; ou ainda esta, que era recorrente: "não deixo de pensar na imagem da minha irmã nua". Podia estar a dar-lhe indicações para que não se demorasse tanto com o a bola, e ele: "está bem, mas acho que o meu pai não gosta de mim". Se aplaudia uma intervenção dele, ele aproveitava logo o momento: "ontem roubei uma cena da casa do Hugo". Aos poucos fui perdendo a paciência. Se naquela vez não estivesse já irritado por ter falhado um corte fácil, talvez nada tivesse acontecido. Se ele não se tivesse aventurado no flanco direito, o meu novo território, tudo teria continuado na mesma. Mas quando ele confessou ter passado a noite acordado com remorsos, por ter traído a namorada, não aguentei mais e gritei-lhe, ao ponto de ter sido distintamente ouvido pelos dois guarda-redes, :"ouve lá, isto de viver é assim mesmo. Cada um tem a obrigação de guardar para si um pouco da merda que vai fazendo, percebes? Faz parte da higiene do planeta. Não tens o direito de passar a vida a atirar para o colo de toda a gente as tuas asneiras. Por acaso tenho cara de lixeira a céu aberto, hã?" No fim do jogo ele não me falou e regressou logo a casa. De noite ressaquei as palavras que lhe gritara. E quando no dia seguinte nos encontrámos fortuitamente no elevador, descemos três andares em silêncio. Foi mesmo antes de sairmos para o patamar, com ele nas minhas costas, que ouvi: "se não tivesses gritado comigo, dizia-te que ontem tive pensamentos suicidas por tua causa."
Até então não havia memória de ele ter alguma vez falhado um penalty. Marcava-os com força, apesar do Jordão: uma corrida rápida, um tiro certeiro a fazer a bola entrar na baliza roçando a base de um dos postes, golo. Só que naquele momento hesitou. Ainda correra com confiança, mas depois parou diante da marca de grande penalidade, pediu desculpa ao guarda-redes, ajoelhou-se e ajeitou a bola com as mãos. Recuou outra vez, arrancou nova corrida, mas para voltar a parar diante da bola. Os adversários lançaram umas palavras de protesto e ele disse simplesmente que abandonava a partida e que o melhor era ser outro a marcar a grande penalidade. Foi o abandono menos dramático da história do futebol. Entrou tranquilamente no prédio e nos meses seguintes não voltaria a jogar. Tememos então que a sua carreira tivesse acabado. Tinha 15 anos e quase deixou de sair de casa. Não podíamos sequer imaginar, mas a vida dele passou a ser um compêndio de fobias e comportamentos maníacos. Certificava-se de que os bicos de gás estavam fechados umas 10 vezes antes de se deitar, não tirava as meias para dormir, passava horas na casa de banho a lavar os dentes e esfregava tantas vezes as mãos ao dia que as tinha sempre esfoladas. Na nossa inocência, tudo convergia para aquela grande penalidade e impunha-se fazer algo. Juntámos esforços. Conhecíamos um tipo com acesso aos arquivos da RTP e dois de nós tinham já vídeos. Ao longo de semanas, fomos acumulando imagens de grandes penalidades, que depois montámos artesanalmente, a tesoura e fita-cola. A cassete VHS depressa passou das duas horas. Penalties dos campeonatos do mundo, penalties no Maracanã, penalties da África Austral, penalties num campo pelado, de jogos da distrital em gravações raras e até de um desenho animado vindo do Leste (obrigado, Vasco Granja); penalties dos campeonatos nacionais e a preciosidade que era o primeiro penalty marcado no Japão. Centenas de grandes penalidades. E tudo apesar da ausência do Jordão. Porque o Jordão não falhava penalties e o que nós fizéramos fora uma colecção de penalties falhados. No momento de escrever o título na lombada da cassete, a marcador preto, alguém se lembrou "Não escrevas Penalties falhados, põe antes Todos os meus erros... Não, espera espera, fica assim: Todos os nossos erros. Isso, Todos os nossos erros". A sugestão pareceu-nos boa. A cassete foi então colocada a custo na caixa do correio. Depois esperámos. Um, dois, três dias. Ao quarto dia ele desceu. Vinha equipado e não abriu a boca. A meio do jogo surgiu um penalty. E nós ficámos a olhar uns para os outros e a olhar para o ar, evitando-o. Mas ele não hesitou. Pegou na bola, dirigiu-se para a marca de grande penalidade e rematou.
O Dirceu chegou no final dos anos setenta. Tinha sido adoptado, já menino feito, por uma família de magistrados que emigrara para o Brasil depois do 25 de Abril ("Então não sabes? Houve uns problemas com umas terras deles no Alentejo") e que por lá ficou apenas três anos. No dia em que vimos pela primeira vez aquele mulato espigado, sentimos a excitação das grandes contratações a custo zero e fomos a correr buscar uma camisola da selecção brasileira, só mesmo pelo capricho de compor a personagem. Vestido de amarelo, o Dirceu chegava a assustar. Ninguém nas redondezas parecia tão craque como ele. O campeonato estava quase a começar e o brasileiro foi logo convidado - "mobilizado" seria o termo certo - a integrar a nossa equipa. Vozes críticas? Só T., o nosso armador de jogo, mais por sentir o seu lugar ameaçado. "Pá, mas já alguém viu o gajo a jogar?" Era lá preciso... Os caniços longos de Dirceu e o seu ar veloz eram uma garantia suficiente. Dirceu chegava, tranquilo, e nós imaginávamos logo o moço logo num Samba miudinho, a festejar o hat-trick junto a uma das linhas de fundo. Falava pouco, o Dirceu, e por vezes não nos entendíamos muito bem. Mas T. insistia: "devíamos testar o gajo". Acabou por nos convencer e lá organizámos uma audição em jeito de peladinha. No final do encontro estávamos siderados. "Eu não sou bom de bola. Tem alguém aqui que gosta de xadrez?" Dirceu não era bom de bola, nem sequer mau. Era péssimo. O capital de esperança que depositáramos no rapaz volatilizou-se no momento em que Dirceu falhou uma recepção, tropeçou no esférico e caiu. Continuar o jogo foi depois uma agonia. No campo, Dirceu não era um craque e mais parecia um gafanhoto desajeitado. Quem rejubilou foi T. Só que depois, magnânimo e dando mostras de uma presença de espírito notável, foi ele a improvisar a solução que nos daria a vantagem competitiva sobre as outras equipas e que, sobretudo, seria a cura milagrosa para tamanha desilusão. "Vamos fazer do Dirceu a nossa arma secreta. Toda a gente vai saber que temos um brasileiro na equipa, mas ele ficará no banco dos suplentes, todo amarelo-canarinho. Apresentamos o tipo como estando a recuperar de uma lesão. A sua entrada estará sempre na eminência de acontecer, mas será constantemente adiada. Se eventualmente ele acabar por entrar, simulamos outra lesão e o Dirceu sai. O Dirceu vai exercer apenas pressão psicológica sobre os adversários". Brilhante. Faltava convencer o Dirceu. Não foi difícil. Mais complicado foi assegurar que ele tivesse sempre bem dissimulado o jogo de xadrez em miniatura com que o comprámos, e que ele insistiu em trazer para a zona dos suplentes, pois só assim podia suportar o tédio daquelas tardes de futebol intermináveis. Chegou a federado, o Dirceu, coisa que nenhum de nós viria a conseguir.
O terraço era um abrigo. A vista surgia desafogada, com o rio quase mar lá ao fundo, uma chaminé lançando as suas labaredas olímpicas e as copas das faias insinuando-se entre os telhados de prédios de quatro andares e cave, com lances de escadas a céu aberto e paredes de tijolo a lembrar uma história de Dickens, houvesse bruma, frio e uma luz menos branca e intensa. Era um lugar que ninguém reclamava: não havia cordas de estender roupa, nem uma bola esquecida a um canto ou uma beata de cigarro, uma declaração de amor riscada na pedra, nada. Se me tivesse acontecido alguma coisa ali, um desmaio, um tropeção que me deixasse inconsciente, tão cedo não teriam dado comigo. Talvez por isso tivesse subido tantas vezes, sobretudo de noite.
Deitava-me de barriga para cima e membros distendidos em simetria, como a figura circunscrita de Leonardo, espiando o céu a mudar de cor, até ao revelar das primeiras estrelas. De t-shirt no corpo e sobre o chão de pedra, gozava a inércia térmica, resistindo à brisa fresca que se levantava. Por vezes adormecia, ou ficava num estado de vigília, mas de olhos fechados. Quando acordava era noite cerrada. Numa fracção de segundo o universo parecia trespassar-me e deixar-me do lado de fora. Mas logo recuperava a consciência e abandonava o terraço, cedendo às exigências do corpo ou a outras obrigações.
Pouco fazia quando estava lá em cima. Teria sido o lugar de meditação ideal, mas nunca me lembro desses sítios, pelo que também não devo ter pensado muito por ali. Houve inclusive uns dias animados, quando passei por uma fase vagamente pirómana e me entretive a lançar no vazio modelos de caças Stuka em chamas. "Bem, até parece que usei um Spitfire...", foi o único comentário que soltei em minha defesa, quando a vizinha do quinto esquerdo me acusou de ser irresponsável. É certo que acabara de pegar fogo à sua roupa esquecida no estendal, mas duvido agora que a senhora fosse versada na aviação na Segunda Grande Guerra. Um outro momento de algum convívio foi quando procurei convencer um vizinho elitista de que o futebol não era um desporto só para a populaça. Este tontinho jogava badminton e ténis, e iniciara-se por engano no pólo aquático, porque o pai dele julgou que se tratava de uma variante mais econónica do pólo, mas igualmente nobre. A minha ideia era gozar com ele e fazer do futebol uma rotina de excêntricos, recriando-o com os elementos mais pitorescos dos desportos das elites. O jogo que praticámos durante dois dias consistia em pontapear violentamente a bola do terraço e vê-la depois cumprir aquela trajectória acrescentada por oito andares, com o objectivo de a fazer passar entre duas bandeirinhas, colocadas sobre o campo, bem longe. Para isto consegui juntar uma dúzia de bolas e assegurei que dois miúdos mais novos as recolheriam do campo e com elas subiriam pelo elevador até ao terraço, num vaivém constante. Estaríamos vestidos de branco e nas pausas beberíamos chá. Assim foi. Deixei-o ganhar, mas ele no fim percebeu a minha brincadeira e ficou ofendido. Deixou de me falar, tal como os dois miúdos, de resto, na altura em que ganharam alguma consciência crítica.
A importância que dei ao terraço teria merecido mais do que a recordação de simples brincadeiras. Acresce que o terraço oferecia todas as condições para encontros mais marcantes. Mas nem sempre podemos escolher os momentos que associamos a um lugar. Tirando estes dois episódios, o terraço continuou a ser durante muitos um local quase secreto que gozei a sós. Por vezes regressava lá no mesmo dia, já com a noite avançada. Lembro-me de ouvir os latidos de cães excitados pelo cheiro de uma cadela com cio, amplificados pelo eco das ruas desertas, que lhes juntava ressonâncias fantasmagóricas e transformava rafeiros escanzelados em bichos-de-sete-cabeças. Costumava também seguir com o olhar os transeuntes de sombra alongada, que cruzavam a calçada em passada apressada. Às vezes armava a mão e fingia dar-lhes um tiro. Depois não se via mais nada e eu deixava de espreitar a rua.
Na noite de Carnaval era costume percorrermos o prédio do oitavo andar à cave, batendo a todas as portas. Havia o incontornável Zorro, a minhota, o Super-homem, um moço vestido e pintado como uma mulherzinha. E depois havia o meu irmão, trajando à jogador do Benfica: "se é para vir de palhaço, mais vale ser o maior de todos". O sportinguismo dele continuaria por muitos anos envolto em mistério. Sem exemplo na família chegada que pudesse ter accionado um fenómeno de mimetismo ou simples tentativa de demarcação, a sua opção clubística era para mim o exemplo máximo de livre arbítrio. Tudo ainda me parecia claro e não podia prever quão desconcertante a discussão sobre o livre arbítrio pode ser. No Carnaval, para não ir mais longe, não havia como esconder um rosto contrariado por ter de usar o disfarce escolhido pelos pais. Aquilo era ressaca por falta de livre arbítrio. Livre, só mesmo aquele que realizava o seu sonho. Livres e felizes, só os tímidos que arrancavam os primeiros beijos, até ao derradeiro instante protegidos pelas máscaras, na penumbra que tomava conta das caves do prédio.
Eu gozava o Carnaval com entusiasmo, coisa que provavelmente me fora passada pelo meu pai, o único a ter percorrido aquelas ruas vestido de escafandrista, apesar das dificuldades que o cinto de chumbos e o par de barbatanas colocam à locomoção. Durante uns dias, punha de lado o pacifismo emergente e recuperava a pulsão belicista da infância. No calor do entusiasmo cheguei a sugerir que jogássemos mascarados e fui fulminado com os olhares que geralmente se reservam para os blasfemos.
O meu interesse pelo Carnaval foi depois abrandando. Numa fase, digamos, já terminal, no pico dos desajustes da adolescência, a grande ideia que perseguia era aparecer mascarado de nu. Sair para a rua sem uma única peça de roupa parecia-me um acto tão corajoso quanto original, capaz de marcar uma geração. É claro que não passei além da porta de casa. E era de noite. O frio foi a desculpa que me consolou. Seria um perigo para a saúde e uma tolice, tendo em conta o efeito do frio na volumetria dos genitais. Alguns meses depois, quando numa noite de Verão vadiávamos já a altas horas da madrugada pelo bairro, vimos um fulano completamente nu a sair de um prédio. Era já um homem feito, mas ainda novo, que se deslocava com a tranquilidade de quem traz roupa no corpo. Passou por perto, sem nos dar cartão e nós, sob efeito efeito da quebra gera de sensibilidade que atinge qualquer ajuntamento de rapazes, resolvemos seguir o moço, na certeza de termos a noite ganha. O espectáculo foi depois abruptamente interrompido por uma rapariga, que saiu a correr do prédio atrás do homem e, no momento em que nos ultrapassava, pediu-nos que não o seguíssemos. "Ele tem problemas..." Nunca cheguei a perceber que problemas seriam. O nosso grupo acatou logo o pedido dela, possivelmente porque nenhum de nós estava à vontade para seguir e fazer pouco daquela criatura e só começáramos por pensar que tal seria o comportamento próprio dos rapazes. É claro que um de nós ainda gozou com os tais "problemas" e eu juntei-me àquela última manifestação alarve com um críptico: "Problemas? Problemas, ´tá bem. Mas não deixou de escolher o mês de Agosto. Assim também eu".
Muito se aprende dentro dos elevadores. Duas pessoas que mal se conhecem, numa viagem do rés-do-chão ao oitavo andar podem não trocar uma palavra, mas o espaço exíguo e a monotonia da paisagem que desfila vão forçá-las a uma interacção silenciosa, feita de olhares que se evitam e de uma subtil redefinição do posicionamento de ambas, como se pisassem um tabuleiro de xadrez no chão e fossem pedras de um jogo em fase derradeira. A mais aguda dessas pressões viria eu a sentir quando tinha o hábito de subir até ao quarto andar à procura de um amigo e M. aparecia no último instante, não deixando que a porta se fechasse antes de se esgueirar para dentro do elevador. Nunca ninguém voltaria a entrar num elevador de forma tão graciosa e durante o percurso eu ia corando com os pensamentos pecaminosos que aquele corpo inspirava, um corpo mais velho e irrepreensivelmente cinzelado, ao ponto de não parecer dali. Aquilo nem no cinema se via, mas para minha grande pena ela tratava-me como uma criança. A minha vontade era que o elevador parasse e ficássemos presos, que a luz faltasse e eu então ganhasse coragem para lhe tocar. Iria depois ter ocasião de reparar que este delírio, julgado tão íntimo e pessoal, faz afinal parte do cânone das fantasias sexuais de adolescentes e outros, sendo esta mais uma daquelas constatações que causam primeiro alguma paranóia - como se alguém nos tivesse roubado o segredo – , depois alguma desilusão – pois não somos tão únicos como pensáramos - , e por fim algum consolo – visto percebemos que partilhamos uma perversidade universal. Como se sabe, por vezes a ordem destes estados de alma varia, podendo inclusive os três surgir ao mesmo tempo e havendo gente que experimenta apenas um e daí não chega a sair.
Pouco bafejado pela sorte, na única vez que o elevador encravou a sério, a pedir a intervenção de uma equipa de bombeiros, eu estava na companhia de D., um tipo catita e o melhor jogador do prédio, mas apenas isso. Vínhamos de uma peladinha e ainda algo animados pelo jogo. O elevador encravou precisamente entre dois andares, deixando-nos com a desagradável sensação do emparedamento, pois nenhuma das janelas das portas imediatamente acima e abaixo era visível. Não entrámos em pânico e eu consegui controlar um pico de claustrofobia. Como a campainha do alrarme estava avarida, limitámo-nos a lançar dois ou três gritos de alerta. A nossa situação não era dramática. Cedo deram por nós e sabíamos que em breve iríamos sair dali. É verdade que acabaríamos por lá ficar mais de três horas, mas estávamos acompanhados do lado de fora, por gente em dois patamares. A tentativa infrutífera de nos passarem algumas bolachas Maria pela frincha de uma das portas deve ser vista apenas como uma brincadeira. Não havia perigo iminente de passarmos fome, nem o oxigénio escasseava. Ainda assim, quando as circunstâncias forçam o convívio, há um pacto implícito que nos faz mais francos e que, uma vez reposta a normalidade, nos obriga a um voto de silêncio sobre o que se contou. Da conversa de circunstância, D. foi lentamente escorregando para zonas mais sombrias. "E se este é o meu momento de glória? E se depois acaba?". "O quê?". Ele insistiu: "Se isto é o ponto alto da minha existência... Se vou ficar para sempre como o melhor jogador do bairro e nada mais volta a acontecer na minha vida?". "Pelo menos foste o melhor do bairro. Muitos há que..." "Mas o problema é esse, pá. E se esta fama local me suga as energias e me deixa satisfeito?". "Bem, sabes que se guardares as taças tens sempre forma de provares as glórias passadas..." "Não gozes. Não quero ter o meu momento de glória demasiado cedo, percebes?" "Pá, essas coisas não se esgotam". "Achas?" "Acho". Talvez achasse. Já havia percebido que há uma certa tendência para reduzir uma pessoa de génio ao seu génio, tirar-lhe todas as outras dimensões e depois usar um juízo crítico implacável para a destruir, só porque nunca mais conseguiu chegar ao nível do passado ou entretanto apareceu alguém melhor. É esta a desforra dos medíocres. Mas nunca tinha pensado como a pessoa de génio se analisa e de que forma o génio lhe pode pesar. D., a partir da segunda hora era um tipo amargurado. Nunca mais esqueci aquele diálogo. Salvos pelos bombeiros, nos dias seguintes voltaríamos a jogar. D. continuou naturalmente a ser o melhor, só que eu passei a olhar para ele de outro modo e mal conseguia disfarçar o receio. Não havia forma de deixar de ver a tal espada de Dâmocles a pairar sobre D., sempre a apenas uns dedos de distância e ziguezaguendo com ele, mesmo durante os seus slaloms mais desconcertantes.
As faias têm ramificações aprumadas que são armadilhas para as bolas. As árvores podem ter a altura de um prédio de quarto andares e os ramos por vezes começam acima de três metros de tronco liso. Trepar a uma faia implica alguma técnica e ousadia; é um daqueles desportos sem taça apenas ao alcance de certos corpos: gente leve, que se pode aventurar pela copa sem correr o risco de quebrar os ramos mais delgados. Havia dois miúdos franzinos mas ágeis que cumpriam bem a função de ir buscar bolas ao cimo das árvores. Um de nós cedo alertou para a necessidade de comprarmos um macaco, pois depressa os miúdos ficariam caprichosos ou reféns do medo das alturas. Quem pensava assim tinha uma certa visão, mas era um teórico muito fecundo em ideias vistosas e pouco úteis, ou sequer praticáveis. Depressa o desarmámos. "Temos sempre a opção de umas pedradas certeiras. E quem é que iria tratar do macaco? Tu?" Certo dia, um pontapé em balão, daqueles que aliviam a pressão ofensiva, deve ter chegado a um quinto andar e logo no início da trajectória descendente encontrou os ramos altos de uma faia. A bola ficou no topo da copa. Tínhamos um dos miúdos connosco, mas o puto não se aventurava acima de um segundo andar. O outro miúdo era mais audaz mas estava de férias. Durante uma hora tentámos fazer a bola cair com pedradas, mas era um tiro quase impossível, tal a altura e o encaixe da bola, presa por três ramos. Em desespero de causa o dono da bola ameaçou ir buscar o cutelo que tinha na cozinha, mas não o levámos muito a sério. As fisgas também não funcionaram. Estávamos num impasse quando H. surgiu ao fundo da rua.
O bairro estava a passar por uma onda inédita de furtos: calças de ganga nos estendais da roupa. Esta moda começara quando surgiram rumores de que nos países de leste pagavam pequenas fortunas por calças de ganga de marca, mas os roubos provavelmente só alimentavam o mercado negro local. O mais misterioso era que mesmo os estendais mais altos eram alvos fáceis. Não havia noite em que umas Lois ou Levis não desaparecessem. H. era nosso conhecido. Já nos roubara algumas bolas e todos o temiam. Tinha um corpo possante e pinta de ciganão dado à violência. Foi com surpresa que o vimos acercar-se de nós, avaliar o problema e dizer: "quanto é que me pagam se eu sacar a bola dali?" Ele vinha com um blusão largo e parecia esconder algo lá dentro. Pensámos que talvez fosse uma pistola e que a ideia dele era fazer a bola descer a tiro. Ninguém teve coragem para a graçola: "ouve lá, isto não é um caso de procura-se morto ou vivo. Queremos a bola inteirinha, ouviste?" Ninguém ousou dizer coisa alguma, na verdade. A pergunta de H. era essencialmente retórica. Se ele conseguisse sacar a bola, seria para a levar com ele. Sem perder muito tempo, abriu o blusão e de lá saltou um gato preto. Segredou-lhe algo ao ouvido, apontou-lhe o olhar para o cimo da faia e largou o bicho na base do tronco. O felino subiu pelo tronco sem dificuldade e após algumas hesitações pelos meandros da copa, que mais parecia ser uma brincadeira do que más escolhas de itinerário, chegou perto da bola e com o focinho empurrou-a facilmente para baixo. A bola caiu a pique e ficou a saltar, uma, duas vezes – com H. a olhar em redor, triunfante – quatro, cincol, seis – H. a sorrir e a aproximar-se lentamente da bola – seis, sete – o gato a descer, veloz – nove, dez, onze, doze – H. a abrigar de novo o gato dentro do blusão – dezassete ressaltos, até a bola ficar imóvel e ser recolhida por H., que se despediu com uma surpreendente vénia, coisa que não esperaríamos de um ciganão. Ficámos em silêncio durante minutos, até que alguém disse: "Ouve lá, tu não consegues ter ideias simples, hã? Tinha mesmo de ser um macaco?"
A superstição não parava pelo bairro. Havia uma cartomante em morada clandestina e a igreja estava a umas centenas de metros do campo, mas a primeira associação que vinha à cabeça quando pensávamos numa galinha degolada era o arroz de cabidela. No futebol funcionávamos como positivistas sem conhecimento de si. E Newton bastava. O futebol explicava-se pela lei da acção-reacção e por equações simples, como as que descrevem a trajectória dos projécteis. A tal "força anímica" não nos era estranha, mas nós sabíamos que vinha da natureza humana, do desejo de vencer, de ser reconhecido pelos outros, de saltar a fasquia cuja altura cada um tratava de fixar. Mesmo entre os católicos havia um certo pudor em invocar o nome de Deus quando estávamos a jogar, certamente pela profusão de expressões vernaculares que pontuavam cada partida e que deixariam o Senhor em má companhia. Ninguém se benzia ao entrar no campo e era este o estado natural das coisas. Certo dia, J. calçou por engano uma meia de cada cor e então tudo mudou. O rapaz estava com pressa, possuído pelo frenesim de quem chega da escola já tarde e percebe que estão a jogar. Galgou as escadas, entrou em casa, jogou a mão à gaveta da roupa interior, tirou um par de meias enroladas uma sobre a outra, despiu-se, vestiu o equipamento (FC Barcelona), descalçou-se, trocou a meia do pé esquerdo e antes de tratar do direito foi interrompido pela mãe. Seguiu-se a costumeira discussão sobre os trabalhos de casa e, não querendo perder mais tempo, já visivelmente irritado, J. calçou as sapatilhas sem mudar a segunda meia. Galgou então de novo as escadas e entrou no campo com uma meia azul no pé esquerdo e uma meia branca no direito. O rapaz era um futebolista mediano, mas naquele dia fez um grande jogo. No final da partida alguém reparou nas meias e comentou: " Estou a ver que isso de jogar com uma meia de cada cor baralha os defesas no momento da finta, não é, J.?" Ele sorriu, mas ficou algo apreensivo. No dia seguinte, apesar de ter chegado cedo a casa e da mãe dele estar ausente, J. voltou a entrar em campo com uma meia de cada cor. Uma vez mais, o jogov correu-lhe de feição.
A superstição desconhece as probabilidades e a estatística. Duas coincidências fazem uma lei e a lei depois sobrevive –e até se consolida – à custa de um efeito placebo, que reforça a autoconfiança. A superstição tem também um potencial epidémico, difícil de controlar. Aconteceu o pior. Primeiro foram os mais próximos de J., que começaram a trazer amuletos para o campo. Depois os membros da sua equipa, quando passaram a beijar a cruz que traziam ao peito. M., filho de ateus, chegou a provocar uma crise familiar ao pedir uma medalhinha de Nossa Senhora de Fátima pelos anos. A febre atingiu também as outras equipas. Havia quem trouxesse sempre a mesma camisa, que não chegava a lavar. Uns entravam no campo de costas, outros com os pé direito e um excêntrico fazia-o a pés juntos. Contava-se que alguém arrancava um punhado de relva e, sem que reparassem, enfiava-a nos calções. No pico da loucura, um cabelo autenticado de um avançado perigoso era vendido a bom preço. No território nacional, a carga de sobrenatural que subjugava cada um dos nossos jogos só viria a ser ultrapassada quando surgiu um congresso de espíritas, em Vilar de Perdizes.
Fomos salvos pela epidemia geral e por sermos novos. Se tivesse restado alguém imune àquela febre, ou se fôssemos idosos, a loucura persistiria. Quando a "lei" começa a falhar, a crendice subsiste porque não se quer dar razão às vozes críticas, nem reconhecer que se hipotecou tanto da nossa existência e bom-senso. Só que naquele campo estávamos todos possuídos e éramos crianças com uma vida pela frente. Só assim a cura foi possível. Em pouco tempo, voltámos à normalidade e aqueles dias passaram a ser assunto tabu.
Sentado naquela colina, sempre gostei de contemplar o Mar da Palha, ao longe e bem lá em baixo. Aquele local viria a ser também um bom lugar para namorar, faltando-lhe talvez um arbusto alto que cortasse a vista da paragem de autocarro, mas eu ainda não namorava. A colina era relvada, só que a meio havia uma porção de rocha sedimentar exposta, que não tinha aprumo e extensão para formar um corte geológico didáctico e funcionava como uma espécie de pedreira, de onde retirávamos ou naturalmente se soltavam pedregulhos amarelados, óptimos para delimitar a largura das balizas. Talvez houvesse aqui algum capricho nosso. O contraste com a relva era ideal e o tamanho também, seguramente muito mais adequado que o das pedras da calçada, mas desconfio agora que alguém queria secretamente gozar aquele simulacro de efeito especial, quando a bola acertava com força na rocha e dela fazia soltar uma poeira que acrescentava potência ao remate. Eram uns pedregulhos cheios de interesse. De vez em quando aparecia um com uma amonite. Por aquela altura havia adquirido uns rudimentos de biologia e geologia; sabia da existência de fósseis, apesar de chamar amonite a qualquer caracol grande petrificado. Anos depois seria o David Attemborough a explicar-me pela televisão que o mar e a terra não tinham estado sempre no mesmo lugar, mas dei pela questão sozinho, numa daquelas tardes de contemplação. Afinal o Mar da Palha estava a uma cota pelo menos cinquenta metros mais baixa e não havia maré que pudesse ter trazido aqueles seres aquáticos para a colina. Debati-me com a questão durante uns minutos, até aparecer o P., que era o mais forte e voluntarioso do grupo, mas a quem faltava alguma agilidade mental. P. era também dos mais velhos e não havendo mais ninguém por ali, resolvi expor-lhe o problema. O rapaz não chegou a parar para pensar (era um fulano essencialmente físico e interromper uma tarefa para pensar devia parecer-lhe uma perda de tempo). Enquanto arrancava com os braços um enorme bocado de rocha já meio solta, feita de uma amálgama de conchas e com alguns bivalves maciços embutidos, disse-me apenas: "sei lá, pá, também não existem pedras destas no campo e nós vamos levá-las para lá, não é?". "Estás a dizer que foram homens como nós que as trouxeram para aqui?". E ele: "Não sejas tanso. O futebol só foi inventado uns anos mais tarde. Isto é coisa de outra gente".
Perder a bola no quintal do lado protegido por um muro intransponível é uma recordação de infância clássica, mas se enfiar bolas na casa de banho dos vizinhos ainda surge nos livros como excepcional, é apenas porque o grosso das recordações da infância nos subúrbios das grandes cidades está por ser escrever. Uma das nossas balizas tinha a parede do prédio logo atrás e na parede havia dez janelas, correspondentes às casas de banho dos dez andares. Seis dessas janelas eram alvos acidentais possíveis, e o número subia para oito quando se juntava a nós S., dono de um pontapé digno de um médio de abertura federado. Reconheça-se que tomar banho no quarto andar quando estávamos a jogar era infinitamente pouco perigoso, muito menos do que escorregar no sabonete, mas alguns de nós, escravos de uma imaginação de tipo cinematográfico, deliravam com uma câmara dentro da casa de banho que nos desse o ângulo de uma bola a crescer para o vidro, a estilhaçá-lo e a provocar um susto de morte em quem estivesse a tomar duche. A sequência seguinte provocava alguma discórdia. Havia os que preferiam um desenvolvimento no âmbito da fantasia sexual: um de nós subia até ao andar para reclamar a bola e era recebido por uma rapariga em trajes menores e cabelos escorridos, que convertia a fúria e o susto em desejo (inverosímil, claro, como convém às fantasias sexuais). Outros exploravam um cenário de horror: as lascas de vidro partido na loiça da banheira, um homem em agonia, o sangue a escorrer pelo branco dos azulejos e a coagular, sem chegar a ser levado pela água que continuava a correr para o ralo, algum vapor de água, vozes sumidas vindas da rua, um corvo no parapeito, enfim, por aí fora...
Excluindo a janela da porteira, que por nossa única e exclusiva culpa se viria a tornar praticamente blindada, nenhuma das outras janelas estava protegida. Em média partíamos dois vidros por época e os incidentes eram resolvidos de forma pacata; nem rapariga fogosa, nem homem com a jugular feita num repuxo. O autor do pontapé ficava apenas com a obrigação de pagar a reparação e a bola era posta em circulação sem grande demora. Só uma vez houve trama, mas uma que não antecipáramos. Num certo Verão, em plenas férias grandes, os poucos que não tinham saído de Lisboa jogavam aos cantos. A dada altura, um remate fulminante à queima-roupa sai por cima da barra e a bola aloja-se na casa de banho do terceiro frente, com a precisão de uma tacada de snooker. O som foi seco e nenhum dos dois vidros chegou a quebrar-se, pois a janela estava entreaberta. Cedo percebemos que a casa estava deserta. Era gente de Águeda. O caso complicava-se porque a porteira seria a última pessoa com interesse - ou obrigação moral- em nos ajudar, tal o martírio a que sujeitávamos a senhora com os nossos remates. Como recuperar a nossa melhor bola ocupou-nos então as horas seguintes e ia já alta a noite quando L. ganhou coragem para sugerir que podíamos simplesmente arrombar a porta. L. era um daqueles rapazes com indiscutível talento para a gatunagem, que tivera o azar de nascer filho de magistrados. Era dos poucos que os ciganos respeitavam e não havia semana em que ele não aparecesse com indícios de marginalidade: um rádio de automóvel, um calhau de haxixe, uma ponta-e-mola. Naquela noite surpreendeu-nos com uma chave-mestra e assustou-nos com o plano alternativo: um pé-de-cabra. "Não se preocupem, está tudo pensado: tenho até um alicate, para o caso de haver corrente".
Às três da manhã, vestidos como ninjas, encontrámo-nos diante da porta do terceiro frente. Para nossa sorte, todo o terceiro piso estava desabitado naquele Verão. L. trabalhou a porta com a chave-mestra durante alguns minutos, mas não tardou a decidir-se pelo pé-de-cabra. A porta cedeu logo. "Isto é uma brincadeira de crianças, rapazes", disse L., quase a salivar. A ideia era entrar na casa, ir logo buscar a bola e sair. Só que, uma vez lá dentro, sentimos a embriaguez do delito. L. estava em êxtase, o que seria de esperar, mas só o nosso medo nos distinguia dele. O delírio era igual, ou pior, pois vinha misturado com o encanto pelas coisas novas. Devemos ter ficado uns bons 15 minutos naquela casa às escuras. Sentimos os objectos com as mãos, adivinhámos os volumes dispostos na sala, fomos atrás do cheiro que vinha da dispensa. A bola ficou esquecida no bidé e só mesmo no fim da incursão a fomos buscar. Uma vez na rua, corremos até um monte e sentámo-nos ao abrigo de um chorão. Por lá ficámos a falar até aos primeiros raios de sol. L. sacou dos bolsos um pisa papéis que brilhava e ficou a pedir meças. Ainda hesitámos, mas logo apareceu um disco dos ABBA, depois uma reprodução em miniatura da Mona Lisa, a seguir uma almofada, até então escondida sob uma T-shirt. "Uma almofada, pá?" Combinámos então que iríamos enterrar o saque em local secreto, definido por um sistema de coordenadas que usava duas das oliveiras como referencial. Coisa de piratas, só que sem arquipélago. É claro que na noite seguinte não resistimos e fomos arrombar outra porta. Durante uma semana vivemos uma trip cleptómana. Nunca chegaram a saber quem tinham sido os autores daqueles furtos e não divulgaram o montante dos roubos. O nosso tesouro ainda se encontra debaixo da terra, em local que não posso revelar. Isto - adiante-se - partindo do princípio de que o L. não teve nenhuma outra recaída entretanto, o que me parece de um optimismo descabido.
No princípio do Verão chegavam uns homens envergando as fardas tristes dos empregados da Junta de Freguesia. Vinham com longas gadanhas, que usavam para aparar a relva do nosso campo. Anos depois estes homens seriam dispensados, reciclados, relocalizados ou sumariamente despedidos, por causa das segadoras mecânicas. Os meus amigos ficaram fascinados pelas máquinas, que eram vermelhas e pareciam uns karts lentos, mas eu desconfiei logo à primeira interacção, quando os vi a cortar a relva no sentido do comprimento do campo. Tanto o meu pedido para orientarem as máquinas no sentido da largura como a pergunta de saber se seria possível desenhar as barras de contrastantes tonalidades de verde dos campos oficiais - "ia ajudar no fora de jogo…" -, foram recebidas com enfado. Disseram-me para não os incomodar e que tinham ordens para poupar as máquinas e não abusar das curvas (se as orientassem no sentido da largura acabariam por ser obrigados a curvar mais vezes). Era gente nova e apressada, seguramente com um segundo emprego. Tive logo saudades dos segadores a força de braços, que eram homens de meia-idade e ali no nosso relvado pareciam rejuvenescer. Às vezes traziam as mulheres com eles, que colhiam a relva cortada e a punham em grandes sacos de serapilheira de plástico. Almoçavam sempre à sombra do mesmo plátano novo e comiam uma merenda preparada em casa. Impressionava-me a técnica com que cortavam a relva, os movimentos curtos, interrompidos sem cadência definida por um mais amplo, que cortava o silêncio com um silvo. A lâmina, enorme e curva como um sabre árabe, tinha já fendido inúmeras vezes a biqueira das bocas que calçavam. Um dia deixaram-me brincar com uma gadanha, sempre de olho em mim e vigiando os meus os movimentos. Mesmo assim experimentei uma irreprimível sensação de poder e no dia seguinte estava lá de novo, para brincar com eles outra vez. Creio que foi por causa daquelas tardes que depois demoraria tanto tempo a perceber a personificação da morte na forma da ceifadora de vidas. Para mim uma gadanha era, antes de mais, um brinquedo.
Brinquedos seriam também as duas das máquinas de cortar relva negligentemente abandonadas pelos técnicos durante uma pausa para umas cervejas. A oportunidade surgiu já após a minha desagradável interacção com eles e a tal justificação de evitar fazer curvas com as máquinas. O nosso plano inicial era usar as máquinas para cortar a relva no sentido da largura do campo, mas a sede de vingança acabou por tomar conta de mim e consegui convencer o meu parceiro a abusar das curvas ainda mais: "olha, pá, vamos antes começar no centro do campo e cortamos isto aos círculos concêntricos, não achas? Afinal, quando foi a última vez que alguém deixou de marcar um golo por estar fora de jogo, hã?
Os ídolos dos outros nunca são melhores do que os nossos, excepto se forem aqueles de quem nos é imediatamente mais velho. Nós éramos do tempo do Chalana e do Jordão e os nossos craques davam baile às velhas glórias: os Travassos, os Peyroteos e até o Coluna. O Eusébio não entrava nestas comparações, porque o Eusébio é intemporal. Acreditávamos na supremacia do Chalana porque os elementos que chegavam sobre os velhos craques não nos pareciam muito credíveis: umas gravações de rádio datadas, algumas imagens de arquivo, recortes de jornal, uma efeméride, a reportagem no telejornal quando morria um deles. Havia um défice de glória no presente, uma decadência física e financeira a que não ficávamos indiferentes e que nas nossas cabecinhas funcionava como prova de que eles não tinham sido assim tão excepcionais. Os mais espertos do grupo chegaram inclusive a teorizar sobre a questão. No passado seria mais fácil ser-se o melhor, porque o profissionalismo ainda era incipiente e os treinos pouco eficazes, de modo que os talentos naturais facilmente se notabilizavam. Diziam ainda que as imagens de arquivo passavam os fotogramas a uma velocidade instável, que tendia a acelerar as jogadas; o jogo ficava artificialmente rápido, mas de uma rapidez impossível, e os pontapés fulminantes, mas de uma violência sobre-humana ou, se preferirem, só ao alcance do Eusébio. Arrumados os grandes nomes de antigamente, quem fazia sombra ao Chalana eram os craques que por pouco não apanháramos ainda a jogar. O Teófilo Cubillas e o Yasalde seduziam-nos, pelo nome e pela aura. Venerávamos estes craques, que haviam partilhado o campo com os nossos ídolos, então muito novos, e que arrancavam dos nossos amigos mais velhos – e menos dos nossos pais – comentários elogiosos. Era um tempo que nos fugira, mas mesmo ali ao pé, a uma ou duas cadernetas de distância, onde dávamos com eles, já veteranos, mas ao lado dos nossos. Alguns do grupo sabiam que aquele respeito ia além do futebol. Aquelas vidas, que nós falháramos e que para os nossos pais tinham já sido carreiras de jogadores modernos, despertando paixões moderadas, eram mais um aviso da transitoriedade da existência. Teríamos de esperar por 1986 para vermos todo o edifício teórico que ergueramos cair pelos alicerces, a história fazer-se contemporânea nos pés de Maradona, e experimentarmos não só a certeza de por uma vez estarmos no momento certo, como - e sobretudo - a sensação que é ficar suspenso no tempo.
Ninguém quer saber dos bons alunos, excepto os pais deles. O próprio bom aluno - sobretudo o que é mesmo bom - despreza a sua condição. Ao fim de uns anos ele começa a desconfiar e pensa que o condicionaram para estudar. Estudar é contranatura. Há gozos muito mais imediatos. O tipo de bom aluno potencialmente mais trágico é o que é bom a tudo, da ginástica à geografia. Das duas uma: ou é movido por uma curiosidade infinita ou está programado para ter boas notas. Percebe-se a distância que vai de um ao outro, mas não os distinguimos na pauta. Mais reconfortante é encontrar o mau aluno que é brilhante apenas a uma disciplina. Esse vem com garantia de vocação. É o miúdo que acumula faltas e chamadas ao conselho directivo, está na iminência de chumbar o ano logo em Outubro e não faz os trabalhos de casa, mas depois tira sempre cincos a matemática e alimenta a rede clandestina de respostas às perguntas do teste que faz subir a média da turma.
Fui bom aluno a tudo e não me livro desse fardo. Era disciplinado e tinha uma caligrafia bonita, coisas que perdi antes de chegar ao liceu, mas sem nunca deixar de ter jeito para estudar. "Jeito para estudar" é uma expressão algo pateta, convenhamos. Preferia ter tido jeito para ir à baliza, como o A., colega de carteira cujo copianço eu tolerava de modo passivo. A. era um rapaz acidentalmente honesto, que perante a suspeita de ter copiado e depois da defesa em coro do resto da turma- "mas ninguém percebe a letra dele [a minha], stôr!" - não reprimiu o desabafo - "mas eu consigo, eu consigo!" - que lhe lixou o alibi. Conseguia, confirmo. A., corpulento, excelentes rins, na baliza como na vida, voluntarioso e trapalhão, mas também com o vício de guarda-redes de andebol que o fazia acidentalmente corajoso, capaz de oferecer o corpo e a cara antes de se lembrar das mãos. Nunca mais o voltei a ver e se nos cruzássemos agora não o reconheceria, apesar do seu nome resistir com todas as sílabas, perdido na multidão de rostos passados que decaem inexoravelmente para o anonimato. O "mas eu consigo, eu consigo!" comprometeu-lhe a nota mas salvou-o, pelo menos aqui.
Há quem prefira o campo enxuto, um verde em que se pode confiar como se fosse uma boa mesa de blihar, mas do que me lembro mesmo é da lama. A chuva na terra seca, o ar amarelado e o cheiro dos actinomicetos, alguém à janela a sonhar com África, outro a ressacar África com a cabeça ensanduichada no travesseiro, a lama a escorrer pelas pernas e as pernas a escorregarem pela lama, a lama a fazer de todos guerreiros, a relva afogada na lama, como uma floresta em miniatura destrruída por uma catástrofe natural, a bola com um leve travo a tétano, a bola a deixar lastro à saída do petardo, o respingo do avançado que ganha terreno, um biscoito de lama seca recortado pelos pitões e perdido nas escadas, o pontapé em balão que morre numa poça de lama e um remate a meia altura que parece acelerar ao primeiro ressalto e , a lama nas minhas luvas de guarda-redes, a lama na parede do prédio, a lama que reflecte o luar e a luz dos candeeiros de iluminação pública, a lama por fim seca na camisola da selecção, a bola a um canto e um punhado de terra espalhado pelo chão.
(Imagem roubada daqui)
O sistema de ensino público sempre fez questão de me forçar a reconhecer que tinha falta imaginação. Uma professora da primária ralhou-me por eu ter colorido um guarda-chuva a preto (o tecido) e castanho (o varão e a pega). Anos depois seria uma professora de Português a fazer-me a mesma acusação - não há outro termo -, preferindo a prosa mais delicodoce de umas meninas da turma sexualmente emancipadas. Essas experiências marcaram-me. Pensava que tinha imaginação no desenho e também para as composições. Onde sabia que me faltava a luz era no campo. Por isso acabei a defesa esquerdo. Um defesa é um tipo que reage. Um bom defesa reage depressa. Mas o defesa não deve ter imaginação, bastando-lhe apenas a disciplina táctica. Os ataques das minhas professoras marcaram-me ao ponto de ter desenvolvido um exercício que me sossegava quando comentavam a minha falta de imaginação. Era quase um reflexo, um pouco como jogar a mão às partes baixas depois de uma explosão, para assegurar que continua tudo no lugar (dizem). O que eu fazia era muito simplesmente pôr-me a imaginar. Percebe-se o ridículo da situação. É coisa de mecenas tosco: "Vá, pinta aí qualquer coisa..." Para mais, caí na armadilha de imaginar sistematicamente a mesma coisa, o que minava o exercício. Eram sempre as grandes faias do campo transformadas em foguetões, levantando-se do solo com as raízes, animadas não cheguei a definir como. Sei que havia imensas cores; a construção era algo psicadélica. Na minha tacanhez, por causa do maldito guarda-chuva e da reprimenda da Dona Natividade, quanto mais cores houvesse mais exuberante seria a minha imaginação. E insisti neste exercício tantas vezes que devo ter reflorestado uma parte considerável da Via Láctea. As professoras faziam um reparo e era automático, começava a ouvir a terra a tremer e a faia lá se arrancava do chão. Cheguei a temer ver um dia o campo cheio de crateras e revolvido, como um território de guerra onde rebentaram todas as minas. Mas nada, as faias não chegaram a sair do mesmo lugar. Sem grande surpresa, eu também não chegaria a abandonar o meu posto de defesa esquerdo.
Ficávamos agarrados ao futebol por volta dos 8-10 anos, quando ganhávamos alguma autonomia mas ainda não tínhamos desenvolvido outros interesses. O retardamento da maturidade sexual e o prolongamento da infância, que dizem ser uma idiossincrasia da nossa espécie, fez-nos criaturas mais interessantes. É preciso lembrar isto: se o desejo e competência sexuais surgissem por volta dos 3 anos, não seria apenas a indústria de brinquedos que implodiria. O efeito mais devastador nem sequer resultaria da compressão de gerações. Na verdade, assistiríamos ao colapso da nossa civilização. Adeus artes, adeus ciência, adeus religião, adeus bola. Aceite-se que o futebol é uma coisa menor. "22 gajos a correr atrás de uma bola", a famigerada definição que só ocorreria a uma mulher é, infelizmente, uma descrição rigorosa. Para fidelizar, ou melhor, para viciar, o futebol tem de ser apresentado cedo à criança. Refiro-me aqui à fome de bola, à vontade incontrolável de sair quando estávamos no quarto e sentíamos o prédio a absorver o embate de um balázio atirado (literalmente) do meio da rua. Comparado com tal gozo, o vício do futebol como substrato para desfrutes intelectuais é metadona, uma droga de substituição vagamente terapêutica. (incompleto)
Diz-se que se vê o filme da nossa vida nos instantes que precedem a morte. De todas as tolices à solta, esta é talvez a minha preferida. Muito me agradaria saber até que ponto a urgência pode espicaçar a capacidade de síntese. Enfim, não há pressa, por todas as razões e mais uma.
Sobretudo importa que o tal filme da vida não seja um derradeiro director´s cut. A julgar pela selecção de memórias que vamos praticando, não temos competência para organizar o filme das nossas vidas. Traumas, invejas e taras contribuiriam para uma selecção péssima, deixando de fora o melhor. A vida que não recordamos, a vida em cortes de película encaracolada e abandonada no chão da sala de montagem, só pode ser resgatada e colada de novo por outro. Alguém que trocasse a lembrança de uma sarrafada maldosa e brutal que apanhei pelo rosto de uma namorada pré-coito, pré-beijo, pré-Platão, uma moça sempre morena que anualmente reencontrava no Algarve e comigo entrelaçou os dedos de varanda a varanda, num prenúncio de efemeridade, que ela tratou de concretizar desaparecendo de um Verão para o outro sem aviso prévio. Já não me lembro do fato de banho dela mas sei a cor da T-shirt do sarrafeiro. Isto é mau cinema. Alguém que trocasse a imagem do sarrafeiro com a camisola da selecção brasileira, aquele pontapé amplo e a despropósito, pelos mergulhos na Ponta-do-Sol, o azul das castanhetas, um polvo pescado à mão. Ou que o trocasse pelas vezes em que, após um corte de carrinho, me demorei a cheirar a relva e a gozar a paisagem com a vista rasteira. Aceitaria até a troca por uma derrota inglória. Nada. Fácil, só mesmo convocar o calmeirão da camisola do Brasil, o seu pontapé amplo, a agressão inter-escalões etários, uma coisa que já não é sequer sede de vingança. Muitas vezes me pergunto se ele ainda se lembrará do pontapé, mas é uma pergunta retórica. O filme que trazemos cá dentro pode ser mau, mas é seguramente único. Fraco consolo este para tamanha perda de tempo.
ZX Spectrum o computador que quase matou a fome de bola, não entusiasmou o nerd do bairro. H. não devia ter mais de 12 anos quando começou a brincar aos deuses no computador do pai. Era uma daquelas máquinas com monitor em fundo preto e letras verdes. Mais não sei dizer. Na altura programava-se com uns cartões perfurados e H. fazia maravilhas. Inventou um jogo ao nível dos Space Invaders, o que lhe trouxe fama local imediata, mas era obra bastarda, que ele sempre tratou com desdém. Como todo o grande visionário, H. tinha um sonho. E, ao contrário do criador típico, não tinha angústias. Ele sabia que o seu sonho estava apenas uns anos à frente do seu tempo e que ainda em vida o concretizaria. Tal certeza não impediu que em qualquer conversa H. fosse inevitavelmente falar do jogo do século. A expressão tem sido maltratada, mas H. sabia que a usava com propriedade. O seu "jogo do século" teria na verdade pouco de jogo e seria mais um "quadro vivo para se contemplar em silêncio" (palavras do autor) que dispensava o joystick. H. sonhava com um jogo virtual de 90 minutos, em que cada jogada, cada toque na bola, cada bola perdida para fora das quatro linhas fosse uma cópia perfeita de um momento marcante na história do futebol. Numa palavra, H. queria fazer a grande síntese do desporto-rei, mas uma síntese dinâmica, fluida e universal, que enterrasse de vez a caderneta. Ainda hoje é fácil recuperar as palavras entusiasmadas de H. : "Pá, imaginem noventa minutos de bola sem passes maus, sem tempo queimado, com um número de golos à andebol, hã? 25 a 23, mas com os melhores golos, ou os golos mais importantes da história. E a melhores jogadas: Pelé a ludibriar o guarda-redes no Mundial do México de 1970, as galopadas do Eusébio em 1966, hã? A arte do Garrincha e do Cruyff juntas num jogador virtual, hã? O jogo transportado a um nível absurdo de técnica, mas tudo verdadeiro, pá... como é que se diz? Verosímil. Mais do que verosímil, documentado!"
(continua)
A aversão que tive por marcas chegou ao ponto de arrancar as etiquetas da roupa, um acto com uma ideologia subjacente e conscientemente estúpido. Um único nome resistiu a tal purga: Adidas. Era costume imaginar uma fábrica imensa da Adidas na Europa central, a regurgitar chuteiras e ténis Nastase 24 horas por dia. Os meus operários tinham a fisionomia e o arcaboiço bem torneado que via nos murais, mas não eram torneiros mecânicos da Lisnave nem gente da Marinha Grande; não sopravam o vidro, enchiam bolas de futebol. Muitas vezes sonhei que espreitava a fábrica do cimo de uma colina, ponto alto de uma aventura pela Europa a cravar boleia a camionistas e a enfiar-me dentro de carruagens de mercadorias. Consigo hoje imaginar sem dificuldade formas mais estimulantes de um miúdo gozar a clandestinidade na Europa Central. Em minha defesa só posso lembrar que não escolhemos os sonhos. De resto, não falo de uma idiossincrasia. O fascínio pela Adidas era epidémico. Um colega tinha uns Nastase perpetuamente imaculados e pregava longos sermões em quem tivesse estado perto de os sujar. Este rapaz falava com os ténis e dera-lhes não sei se um ou se dois nomes próprios. Conheço uma mão-cheia de outros casos a roçar a demência.
Pensar na Adidas comporta alguns riscos, como se alguém tivesse indexado uma série de recordações a esta palavra, sem discriminar entre as que são delicadas e aquelas perfeitamente inócuas. Fico agora a pensar nuns calções da Adidas azuis-escuros com riscas brancas. Foi no Verão, fazia um calor insuportável e jogávamos à bola na praia mas longe do mar. O tipo dos calções era alemão. Sem que pudesse perceber o que estava a acontecer, de repente pareceu-me tratar-se de um belo rapaz. Gostei de o ver com os calções, fixei-lhe as coxas bronzeadas, quase não mais olhei para os outros. Temendo que notassem o meu interesse, optei logo por abandonar a partida, inventando uma desculpa qualquer. O episódio perturbou-me. Ainda não tinha currículo sexual, provas dadas. Assumia-me como heterossexual, claro, gostava de raparigas, mas talvez como se gosta de bichos exóticos; do Mico Leão, por exemplo. Não havia propriamente tensão erótica. Era ainda um miúdo quando o Adónis da Bavária apareceu a estragar-me as férias grandes. No regresso à escola vinha com a atenção redobrada e muita apreensão. Por sorte, era tradição começarmos o ano lectivo logo com uma peladinha depois das aulas. A entrar pelo meu corredor surgiu então um tipo com os mesmo calções azuis da Adidas, um ar também germânico, forte e loiro, arianíssimo mas ainda bronzeado da praia. Só podia ser um teste e só não comentei a coincidência por falta de cúmplice. No momento capital envolvemo-nos numa disputa de bola em corrida e caímos um sobre o outro. Nos instantes de lucidez que se seguiram senti-me cientista e cobaia partilhando o mesmo corpo. Apressei-me a registar mentalmente todas as impressões daquele contacto físico: uma dor lombar, um insuportável cheiro a suor masculino, uma total falta de delicadeza, um desconforto geral, mas apenas físico. No resto, só indiferença. Sorri de contentamento quando ele ainda estava por cima de mim. O rapaz estranhou e levantou-se logo, a marcar-me com o sobrolho carregado. E eu a sorrir, sempre a sorrir. A minha orientação sexual resolveu-se naquela tarde. Daí a uns meses a Cristina entraria na minha vida e começaria a sofrer do desgosto de amor.
Fartei-me de fintar sobre um tapete de Arraiolos. A textura do tapete presta-se a realçar o efeito que damos à bola e um tapete é um tapete, capaz de amortecer uma queda. Não é descabido pensar no tapete como substituto da relva. Ainda hoje penso que a oficialização do tapete de Arraiolos nos jogos da primeira liga faria do futebol um jogo mais nosso e ressuscitaria uma indústria, tal seria a procura de metro quadrado de tapete virgem à Segunda-feira. Cheguei a esta conclusão por acidente. Na casa a divisão mais espaçosa era a sala, onde havia um belíssimo tapete de Arraiolos, de uns dois metros por três, que juntava em tons de azul animais com motivos geométricos. Estando sozinho, não resistia a encenar umas jogadas. O verbo é exacto. Sozinho ninguém consegue jogar à bola. Não que seja impossível. Podemos ficar a dar toques ou a chutar a bola contra a parede. O problema é o impulso megalómano, a fantasia que toma conta de nós. Na presença de outros a coisa fica refreada. A sós, inventamo-nos à medida de um Eusébio. Eu entrava na sala com uma bola meia vazia e submissa, em fintas à Chalana, a sentar russos no tapete, e armava depois um petardo à Sousa, apontando ao canto superior mais distante do sofá e ficando a gozar o risco de a bola poder deixar em cacos o tesouro familiar que era uma terrina da Companhia das Índias. Às vezes dava-me para ser mais subtil, à Jordão, e olhava para as almofadas como se lhes perguntasse: "para que lado querem?" Tudo era feito enquanto relatava a jogada e imitava o som ensurdecedor de uma multidão em delírio. Depois festejava e abraçava todos os meus companheiros inventados. Abraçava-me, claro. Foi um vício terrível, o dos abraços a mim próprio, mas que me deu uma envergadura de ombros apreciável. Por causa dos ombros tornou-se depois hábito perguntarem-me se eu fizera desporto. E eu dizia que sim, mas sem entrar em grandes detalhes. Perante o ar meio desconfiado com que ficavam cedo, comecei a mentir. Ainda hoje consta que pratiquei imensa natação. Não valia a pena complicar, não fossem descobrir que uma vez derrubei mesmo a terrina. O tesouro, se hoje ainda subsiste, é graças às propriedades de amortecimento do tapete de Arraiolos e a algum talento meu para manusear um daqueles tubos de cola de propriedades cientificamente provadas.
Há um momento a meio da tarde em que não se deve estar em casa, sobretudo se ninguém nos faz companhia e o dia está chuvoso, ou apenas tristonho, ou paira no ar o amarelado das chuvadas quentes vindas do Magrebe, ou da rua ainda não chegam os ecos da malta, ou não se tem planos para o fim de tarde, ou nos ocorreu que a estante pode ceder ao peso dos livros, ou se pensou que nada vai mudar depois da jogatana e que- alerta vermelho- crianças e outros continuarão a morrer de fome no Biafra, na Etiópia, no Sudão (riscar o que não interessa, em função da data de nascimento), ou se tem 14 anos e a súbita percepção de que nada conta além dos filhos que um dia talvez nasçam, ou se topou que não há salvação possível e que não adianta disparar do quarto tiros de pressão-de-ar e ficar depois à escuta do barulhinho do impacto do projéctil na cruz de metal da igreja, ou se percebeu que os nossos medos estruturantes- do tamanho da pila ao receio de falhar- afinal são pouco originais e um amigo imaginário, cinco anos mais velho, nos teria explicado a existência poupando-nos às nossas emoções. Se tivesse sabido antecipar esse momento nem que fosse por cinco minutos, teria jogado muito mais futebol e sido- digamos- mais feliz. O mundo teria ficado na mesma, mas talvez conseguisse hoje rematar com o pé direito, coisa que não é de desdenhar.
Talentos superiores têm um absoluto desprezo pela História. Às vezes é só arrogância, outras vezes excentricidade pura. O nosso guarda-redes, por exemplo, pensava que o "Yashine" era uma variedade de haxixe mais barata. Não coleccionava fotografias do Schumacher, nem sofreu quando o alemão quase matou um francês. Tão-pouco rejubilou. O miúdo tinha era uma relação descaradamente fetichista com as bolas. Desconfiávamos que ele não gostava de futebol, mas era excelente entre os postes e imbatível nas imediações da baliza. Só as acusações de anti-jogo não faziam dele um jogador perfeito. Nunca ninguém ficara tantos segundos no chão, sobre a bola, soltando - diziam alguns defesas, com embaraço - gemidos e sussurros. Podíamos estar a perder, mas a cena repetia-se. E era coisa tão íntima que nenhum de nós tinha coragem para o interromper. Com o passar dos anos e o despontar de uma sexualidade mais exigente, o nosso guarda-redes foi acumulando caprichos. Primeiro dispensou as luvas. Depois começou a trazer uma bola extra, que lhe fazia companhia durante as nossas ofensivas. A seguir trouxe duas bolas. Três bolas. Um pequeno harém de bolas. Bolas da Adidas, irrepreensivelmente esféricas e novas, bolas de borracha, deformadas e sujas, bolas vazias, com o côncavo infinito da mórula, bolas vermelhas e leves, que o vento levava para longe dos postes. Foi o descalabro moral e desportivo. O guarda-redes caíra em tentação e ninguém nos livrava das derrotas. Perante tantos objectos de desejo, para quê arriscar uma estirada? Arranjámos um substituto, um fulano normal, de gosto canónico pelo futebol, que exigia que o tratássemos por Zoff e tinha o quarto forrado a posters da Onze. Brutal contraste com o quarto do nosso antigo guarda-redes, cada vez mais libidinoso e a transferir o fetiche por bolas por uma tara por mamas. Seguindo a espiral de decadência, soubemos anos depois que o rapaz andou a servir copos num bar de alterne, antes de emigrar para a Califórnia, perseguindo uma ideia revolucionária e patenteada: substituir a silicone pela câmara-de-ar.
Um dia perguntou-me se eu não era ainda muito novo para ler Eça. E eu, já ciente de ter falhado a precocidade em tudo na vida, fiquei a gozar o momento, esquecendo por instantes que se alguma anormalidade havia, era coisa para um trimestre; o livro fazia parte do currículo do ano lectivo que se anunciava logo a seguir ao Verão. Este mesmo homem gostava de me ouvir estudar guitarra no patamar, vício que alimentei durante umas semanas, encantado com as propriedades acústicas do lugar. Ia para lá depois do jantar e tratava o instrumento com a destreza de um ungulado, mas ele apreciava. Se estivesse no elevador, parava de propósito e vinha ouvir. Era um fulano em paz com a vida e de enraizados hábitos, que praticava com uma impressionante regularidade (o Kant local), como passear o cão e passear sozinho, de mãos atrás das costas. Gozava o bairro, ao contrário de outros magistrados, sempre soterrados nas resmas de processos e entrincheirados nas lombadas da jurisprudência. Muitos anos depois, no mesmo local que já não era a minha casa, cruzei-me com ele. Um olhar imensamente triste, uma morte que lhe pesava, os dois no átrio do prédio. Eu agarrado à porta, não sabendo quando nem como fechá-la, debitando palavras de consolo sem grande jeito, a tentar o golpe de rins esperançoso mas sempre a deslizar para as memórias comuns. Desejei ter à mão uma guitarra, para tocar um chorinho ou qualquer coisa de improviso.
No “nada é mais inabitável do que o lugar onde se foi feliz” está implícita uma vivência infeliz e posterior noutro local. A expressão foi bem burilada, mas na altura pareceu-me o cúmulo do egoísmo. Ou coisa de misantropo. Com o devido respeito, muito mais inabitável é o lugar onde fomos felizes com quem deixou de o ser, fórmula que remete para uma felicidade presente de súbito virada contra nós. Poucas vezes estive num lugar tão inóspito como aquele átrio, naquele dia. Apressemos o futebol, então: o senhor jogava mal, mas tratava a bola com inteligência; vestia-se de branco como se fosse para um court de ténis e nos raros golos que marcou festejava com alegria pura, sem as manias do craque que faz disso uma rotina.
Bairro que é bairro reproduz o tecido social das aldeias. Não pode faltar o louco da praceta. Nós tínhamos dois. Consta que um deles assim ficara - o olhar parado e a barriga pendente - depois de uma passagem pelos pára-quedistas. Em tempo de paz, faço notar. Era um louco discreto, mais lento mental do que demente, mas alimentava uma perversidade diária: fazer a carreira do 21 em hora de ponta para se poder encostar às raparigas. O outro louco era mesmo avariado. Frenético, calcorreava os Olivais de Norte a Sul e cravava cigarros a cada cem metros. Tinha uma cabeleira negra e desgrenhada, tez cigana, o rosto anguloso, uma magreza pouco saudável e momentos de verborreica loucura. Lembrava o Rasputine, pelo menos na forma em que Hugo Pratt o desenhou. Chegava a assustar quem não o conhecia. A origem deste homem vinha envolta em algum mistério: de professor universitário com esgotamento a cobaia de tratamentos por choque eléctrico, a verdade é que ninguém sabia a sua história. Na dúvida, inventava-se um percurso acidentado, já que a demência congénita desperta compaixão mas nenhuma curiosidade. Bairro que é bairro tem também os seus inadaptados públicos, gente que não é louca, nem envereda pela marginalidade, mas com quem não apetece estar. Do vasto painel destas personagens, impõe-se aqui recordar o "Batatinha", obviamente um gordo, mas de uma gordura absurdamente esférica e maciça. Redondo na cabeça, redondo no tronco, redondo nos joelhos, curtos os pés, logo, arredondados também. O "Batatinha" era um tipo humilde e de honestidade condicionada pela geografia. Olhava-se para ele e percebia-se logo que não viveria muitos anos. No bairro não fazia mal e gostava de jogar connosco. Não que gerasse grande simpatia; a verdade é que ninguém tinha coragem para o enfrentar. O que nos salvava da humilhação pública de ter de explicar a presença de um gordo daqueles que não morava no prédio e cheirava a suor velho era o seu génio futebolístico. Bastava ele pegar na bola e logo parecia que o tínhamos convidado para armador de jogo. O "Batatinha" tinha uma capacidade de retenção de jogo fenomenal. Era exímio na arte da finta fundeada (em que o pé de apoio nunca se mexe). Havia ali uma força especial que fazia não descolar o esférico do seu pé; se o electromagnetismo não passa de frouxa metáfora, a atracção gravítica é hipótese que não podemos desprezar. O corpo maciço do "Batatinha" era um pequeno planeta com capacidade locomotora. Aliás, não há hoje no bairro quem consiga vergar candeeiros só por passar perto deles, mas eu sei de umas sombras desalinhadas que de noite surgem ao longo da Avenida Cidade de Luanda e -quase juro- aquilo é marca do finado "Batatinha".
Jogava-se a feijões no dia em que J. marcou um golo de pontapé de bicicleta. Seríamos uns dez em campo e não havia assistência. Foi um golo lindo, quase tirado a papel químico de um anúncio da Cola-cola, só que com muito mais mérito, pois J. fez a coisa ao primeiro take e sem receber cachet. É uma pena não haver um filme ou uma fotografia que tivesse registado aquele momento. Mais que uma pena, por pouco não foi uma tragédia. Ainda chegámos a pedir ao Gantes que nos fizesse um desenho sobre o pontapé, mas o Gantes não percebia nada de futebol, passava a vida a pintar e a fazer banda desenhada de terror; entregou-nos um esquisso de uma bicicleta no ar com chuteiras no lugar dos pedais. "Obrigadinho, ó Gantes..." O golo de J. alimentou noites e noites de discussão. Dez de nós tínhamos na memória o corpo dele a gozar um, talvez dois- uns dias mais tarde falaríamos em quatro- segundos de imponderabilidade. Os outros ouviam-nos, incrédulos. J. , em pleno ar, não adoptara a típica postura de bicho de conta, com a coluna em anzol. Não, a sua amplitude de movimentos fora olímpica, fazendo do pontapé um gesto técnico de arte marcial. Quem testemunhou aquilo jamais esqueceu. Era Verão, a relva estava bem tratada, pujante a chama da chaminé da Petrogal, J. tinha um equipamento vistoso, o guarda-redes ajudou com uma estirada esforçada. O estrondo no poste antes de a bola ressaltar para dentro da baliza fez a banda sonora para o momento e um subtil compasso de espera, como se alguém quisesse dar tempo a J. de, já no chão, se virar e desfrutar o momento em que a bola ultrapassaria a linha de golo. Instantes tão impossíveis de esquecer como de tornar verosímeis junto dos ausentes. É verdade que J. não era um jogador de excepção. Aquele golo foi claramente acima das capacidades dele. O pontapé de bicicleta passou depressa à categoria de piada local. Era como os gambozinos. Ninguém acreditava. A J. nem concederam o título de one hit wonder. Tal pressão transtornaria o rapaz. Durante anos perseguiu um segundo pontapé de bicicleta. Nisto hipotecou o seu futuro e o do seu irmão mais novo, que tinha por missão imortalizar o momento, primeiro com uma máquina fotográfica e, anos depois, com uma pesada câmara de vídeo. J. podia estar na zona do círculo central, mas bastava a bola vir em balão para que se virasse de costas para a baliza adversária e tentasse a bicicleta impossível. Quando não pontapeava o ar, rematava para fora ou entregava a bola directamente ao adversário. No fundo, só era aceite no jogo porque a risada geral estava assegurada. Perante a chacota, o desespero de J. foi aumentando, ao ponto de tentar o pontapé na parte empedrada do campo, cair mal e ser hospitalizado. Passou uma tangente à paraplegia, mas safou-se. Acamado e impedido de jogar durante três meses, J. aproveitou então a autoridade dos enfermos e mandou chamar o Gantes. Durante semanas passaram as tardes de Terça e Quinta juntos. Nas primeiras sessões, Gantes chegava de mãos nos bolsos e ficava a ouvir J., meio delirante e sempre a gesticular, esforçando-se por explicar o futebol ao pintor. Depois o Gantes começou a levar um caderninho e lapiseira, a seguir uma pasta para folhas tamanho A3, depois guaches, tela e cavalete. O resultado final foi um quadro a óleo que imortaliza o pontapé de J. em tons quentes, surgindo ele a pairar no ar, com ares de herói revolucionário e melenas ao vento. O quadro seria exposto no átrio do prédio à revelia da porteira e da comissão de condóminos. Eu testemunhei o pontapé maravilha e sei que a obra não peca por excesso, pese embora a megalomania de J. Quando lhe perguntaram se gostava do quadro, ele terá dito: "É bonito, mas eu tinha pedido um mural junto ao campo. O Gantes é que não quis problemas com a bófia e como ele não abdica de assinar...".
2005-05-23 20:46:24
Passámos a manhã que se seguiu à tragédia de Heysel Park a atirar a bola contra a parede. Alguém comentou a medo os passes mágicos do Platini, o que fez soltar alguns acenos de cabeça de concordância. O som da bola tomou depois conta da manhã e o prédio chegou a estremecer. Na altura não me lembrei da dor de um certo merceeiro de Turim. Hoje a dor do merceeiro reformado de Turim parece-me incomensurável, muito mais revoltante que a de um outro merceeiro em Telavive, pai de atleta olímpico, ou que a mágoa de um indiano com uma mercearia em New Jersey, pai de uma secretária que trabalhava nas torres gémeas e era pontual. Sem querer ver os actos terroristas de 1972 e 2001 como manifestações de inteligência, o contraste com Heysel Park parece-me óbvio. Não houve morte mais estúpida que aquelas 39. O merceeiro de Turim que viu o filho moribundo em directo pela RAI só pode ter esperneado de raiva. "Heysel" juntou-se a uma série de nomes que foram minando a minha memória como símbolos da vil natureza humana, deste nosso absurdo. Libertos da sua circunstância, são nomes que hoje se passeiam como navios-fantasma: "Schumacher", "Aldo Moro", "Bocassa", "Komeni", "Heysel Park"... (continua)
Nunca consegui passar dos 124 toques na bola sem a deixar cair. O número é embaraçoso. Não abro o Guinness Book há anos, mas o record deve andar pelos quatro dígitos. No bairro havia quem chegasse aos 1000 toques. Eu dominava os rudimentos do malabarismo: manter a bola baixa, quase colada ao pé, e estar sempre equilibrado, enquadrado com o esférico. Manter a bola baixa não melhora apenas o controle; aumenta o número de toques por unidade de tempo. E o tempo é importante. Aliás, ainda hoje defendo que o record de toques na bola é definido menos pelo domínio técnico do que pela resistência ao tédio ou, se se preferir, pela capacidade de concentração. Sucede que esta é uma opinião programática, sem suporte empírico. Como se verá.
Um dia resolvi desafiar um amigo para um duelo de toques. Escolhi-o a dedo: um tipo melhor do que eu mas de excepcionalidade improvável, rapaz para valer talvez uns 200 toques em dia inspirado. Perdi o primeiro embate (198 a 67), o segundo (167 a 90) e antes do terceiro fiz deslizar o meu trunfo da manga: "e se fôssemos contando uma história enquanto damos toques?". Fez-se silêncio e esperei pela facada óbvia em quem expunha o flanco: " bem, tu apenas terias tempo para uma anedota curta...". Mas não. Ele concordou sem se alongar. Era de poucas falas. Na minha cabeça a disciplina que contar uma história implica faria com que eu não cedesse à vadiagem mental que a partir dos 50 toques me atacava e, pelo contrário, perturbaria o meu adversário, incapaz de encaixar a polivalência e de se acomodar à novidade. O preconceito óbvio era que eu seria um "criativo" e o meu adversário um burocrata. Comecei eu, num arranque prudente ao décimo toque, com um "era uma vez..." Não passei dos 45. A história saiu pífia e ficou por concluir. Depois foi a vez dele. Ao quarto toque soltou para o ar: "a vinha foi o presente envenenado que inquinaria quatro gerações e num século conduziria os Andrade à decadência moral e financeira..." Aos 350 toques ainda eu não conseguira fechar a boca de espanto. Diante de mim revelava-se um génio do realismo mágico, que improvisava uma história em flashbacks múltiplos e fazia a trama correr sem hesitações pelas quatro gerações dos Andrade, metendo bruxaria, animismo e nunca trocando os nomes. Nem deixando cair a bola. Havíamos começado pouco depois de almoço. Ao crepúsculo eu ouvia - com irreprimível interesse- a descrição da melhor colheita de sempre dos Andrade. Os Andrade prosperavam, tinham um futuro risonho pela frente e só mais três horas de narrativa poderiam levar aquela história idílica aos abismos antecipadamente descritos. E ele nas calmas, com 4600 toques, sem sequer se excitar nas partes que envolviam o Andrade patriarca e a criadagem mestiça e viçosa. Um génio. 5000 toques. Quando o chamaram da janela para que fosse jantar, passou-me a bola com o pé e eu tentei dominá-la no ar, mas desequilibrei-me. Ele então olhou-me com candura e o que disse foi sincero: "se quiseres continuo amanhã e fazemos disto um folhetim".
Dispensava as figuras acrobáticas. O meu mergulho não acabava na água, antes aí começava. Eu sentia a gravidade em desaceleração e nem dava pelo choque térmico. O quadrilátero de azulejo vinha ao meu encontro, mas parecia que pedia licença. Depois abria os olhos, tomava o gosto à água, cheirava o cloro da piscina municipal e empurrava com os lábios a caruma flutuante. Sentia o meu mergulho como um aconchego, mas era tudo inventado. Durante anos não entrei na piscina. Contava-se que um mânfio se atirara da plataforma dos 10 metros e, de tão embalado pela testosterona, metade dele acabara no perímetro forrado a laje e a outra metade, assim logo a seguir, acertara na piscina propriamente dita. Ora, nem mesmo imaginando um caudal amazónico a diluir aquele sangue a partes ínfimas por milhão durante anos a fio, ousava eu molhar o pé. Não havia azul que me seduzisse e podia o sol de Agosto estar a pino. Até ao dia em que houve jogo no campo do complexo desportivo. Aquilo parecia um centro de estágios quando ainda não se falava de tal coisa. A piscina, por exemplo, era praticamente olímpica, mas dizia-se que lhe faltavam 2 cm para os 50 m, o que quilhava os records do Yikoshi e serviu de pretexto ao professor de educação física para elaborados discursos sobre a procura da perfeição e a maldição de se ser português. O campo de futebol de cinco também era catita, mas a ausência de relva causava um certo desconforto. Mal sabia eu que na equipa adversária, a entrar pelo meu corredor, iria surgir um sujeito magro e alto, de físico pouco impressionante, que logo me disseram tratar-se de um pianista com algum nome, que tocara inclusive no São Luiz.Foi o suficiente para que o corpo do homem se tivesse transmutado à minha frente. Fixei-me nas mãos dele. Fortes como tenazes, claro, mas com uma notável rede de veias salientes à flor da pele, respondendo ao calor do dia e, quem sabe, recompondo-se ainda do Czerny da madrugada. O que faziam umas mãos daquelas ali? Um pianista tem a vida por uma falange e aquele cimento polido por todo o lado, a uma queda aparatosa de distância, fazia-me hesitar. E se este homem deixa de tocar por minha culpa e cede ao álcool? Será possível fazer uma carga de ombro tomado por estes pensamentos? A reputação de pianista era o seu livre-trânsito no corredor direito. Como explicar isto aos companheiros? Inúmeras vezes fui ultrapassado. O homem nem sequer era grande jogador. Com o passar do tempo, a pressão foi aumentado e parecia não haver forma de deixarmos de estar a perder, mesmo sendo o resultado equilibado. O responsável era eu; saltava à vista ao ponto de se dispensar a estatística. Já perto do fim da partida, o pianista aparece diante de mim, ensaiando uma tabela, coisa de bilharista, a trajectória do esférico a 45 graus com a tábua da linha lateral, ele passando-me pelo outro lado e reencontrando a bola já nas minhas costas; eu a persegui-lo agora, o tipo a um toque meu de se estatelar ao comprido; o nosso frangueiro indefeso, só e a crescer assustadoramente no meu campo de visão; os companheiros gritando lá atrás para que eu parasse o homem; o momento da verdade: então, como é? Por uma vez não hesito. Belisco-lhe o calcanhar com a biqueira da sapatilha, o pianista tropeça e cai sem se enrolar. Ouve-se um barulho de gelar a espinha. Aproximamo-nos (ah, a bola morre nas mãos do nosso guardião), o homem mexe-se mal e geme. Escorre-lhe sangue da boca e do nariz. Tem a cara toda amassada e chora como uma criança. "Bah, o futebol não é para meninos", penso eu, já em activo processo de bestialização para evitar remorsos. Fico de cócoras e avalio-lhe as mãos. Só isso me preocupa. Mas recordo que o homem caíra com presença de espírito, protegendo as mãos atrás das costas. Um pianista deve desenvolver reflexos contra-natura. Bem podiam ter avisado. Se soubesse que o homem iria salvaguardar sempre as mãos, o jogo teria corrido de outra forma. Carga de ombro com cargo de ombro, em vez desta carga psicológica que fez de mim um tipo violento. O pianista começa a refilar comigo. Percebe-se mal o que ele diz e fico com os braços salpicados de sangue. Levanto-me sem me desculpar, já um animal pleno. Ignoro os companheiros, por fim silenciosos. Afasto-me do recinto, passo pela piscina e, com algum cerimonial, mergulho os braços na água. Subo depois à prancha dos três metros e mergulho de pés, pela primeira vez ao fim de muitos anos. Afinal havia mesmo caruma a flutuar na piscina municipal.
Havia no bairro um padre de intelecto pouco exuberante mas que era uma figura simpática. A simpatia é muitas vezes um prémio de consolação, dádiva de quem julga para compensar o desmérito quem é julgado, mas a forma de locomoção daquele padre (uma vespa) corrobora a apreciação. Uma situação recorrente era ir eu pelo passeio e ver o padre passar na estrada. É sintomático só ter retido a imagem da vespa a afastar-se de mim, com o padre de costas, em conformidade com o código da estrada, trepidando. Nunca percebi o que movia aquele homem. Certo, o motor a dois-tempos, mas será que fazia visitas ao domicílio? Haveria ali um espírito de missionário a querer extravasar as paredes do templo? Mistérios. O outro padre era intelectualmente robusto. Também se percebe a inteligência de um homem pela dimensão do que ele sabe e não diz, mas não havia lugar à dúvida: estávamos perante um orador de primeira água. Só que, por muito bons que fossem os sermões do padre Janela, depois de cortar com a igreja só voltei a ter saudades do sabor da hóstia. A minha falta de espiritualidade revelou-se cedo, quando tentei obter a receita para o corpo de Cristo. Para mim não era blasfémia, antes um desafio técnico que passaria pela selecção do melhor fermento. Lembro-me de ter saído da igreja com a resolução tomada e a hóstia colada ao céu-da-boca, como se quisesse perpetuar aquele último contacto. A hóstia depois não descolou, como se também ela quisesse recuperar-me. Na jogatana que se seguiu, assumi a minha posição no flanco esquerdo. Eu e a hóstia. Tecnicamente não tínhamos mais um elemento, mas é verdade que estive imparável. Uma das curiosidades daqueles encontros era o constante reposicionamento em campo de acordo com o desempenho técnico o momento. Um defesa que começasse bem podia evoluir para o meio campo e se continuasse a cumprir chegaria à linha dianteira. Em 20 minutos passei de defesa esquerdo a avançado. E marquei golos incríveis. Fiz até um de pontapé de bicicleta, a uns 15 metros da baliza, o golo que sempre desejara. Os adversários eram bons e apesar do meu desempenho divinal - ou melhor, com índices tácticos e técnicos elevados - estávamos empatados a 1 minuto do fim. Um dos nossos é então ceifado dentro da área. Grande penalidade e eu, o craque do dia, sou chamado a marcar. Concentro-me com as mãos nas ancas, olho para o ar de olhos fechados e... a hóstia descola-se do céu da boca. Distraio-me por instantes, mas não perco tempo e engulo-a, voltando a concentrar-me no pontapé. A bola sai com força e para as nuvens. No prolongamento perdemos a partida, devido a um erro meu, já na defesa, depois de em 10 minutos ter conseguido passar de bestial a defesa esquerdo.
Há um excesso metafórico no futebol, muito ao gosto de sociólogos patuscos, que leva a pérolas como o "ritual colectivo onde o culto a um determinado tipo de masculinidade hegemónica é reconhecível". Aprendi a apreciar a "ritualização dos velhos combates tribais", mas foi coisa que veio com os anos. O fascínio que fundou o meu interesse pelo futebol precedeu qualquer elaboração teórica, apesar de não ter ficado pelos aspectos mais triviais do jogo. Tolere-se a minha patuscada: foi com o futebol que percebi a transitoriedade da existência. Lá no bairro ninguém morreu de chuteiras, apresso-me a esclarecer. Simplesmente, quando comecei a jogar, Teofilio Cubillas estava nas últimas e surgiam rumores sobre um miúdo do Montijo (o Paulo Futre). Um a sair e o outro a começar, o fim e princípio acotovelando-se no tempo e espaço, uma coisa poderosa. A partir desse momento, não mais deixei de ver nos ciclos de vida das aulas de biologia esquemas fraudulentos que criam uma ilusão de eternidade. Como se o indivíduo não contasse, viria eu a ranger entre dentes perante a ditadura da espécie. No futebol parecia acontecer o mesmo: fornadas de jogadores substituíam os mais velhos, reapropriando-se dos cognomes para, em 12 anos, serem eles também descartados. Interessava mais um craque do que o craque. Este ensinamento vinha reforçado, como se o futebol, fruto da nossa obsessão, nos desse um contínuo de estudos horizontais instantâneos e um grande estudo longitudinal, que íamos fazendo com paciência enquanto crescíamos. A ingenuidade levou-me a dramatizar ainda mais a lógica do espectáculo. Pensava então que quem deixava de jogar morria; não que o matassem, mas que o jogador se deixava morrer. Um futebolista profissional vivo com mais de 34 anos? Coisa de circo, seguramente. Até que um dia dei com um antigo defesa central em corpo barrigudo de treinador. Já não era de acreditar em reencarnações e fiquei a ressacar a descoberta durante dois dias. Havia ficado sem mártires.
(continua)
A janela do quarto escancarada, a persiana corrida pela metade e a aparelhagem puxada ao limite, debitando música para a rua, eis uma circunstância tipicamente suburbana. Só que jogar ao som dos Joy Division dava-nos pouco alento. Não perseguíamos os passes em profundidade. Com os Iron Maiden ficávamos frenéticos e violentos. Uma vez alguém pôs os Smiths, mas aí interrompemos a partida para poder ouvi-los melhor, sentados na relva. Foram acontecimentos episódicos. Até que surgiu G., um cinéfilo incipiente que se mudara para o nosso prédio. G. tinha um plano: gorducho e feioso, queria chegar ao estilo aristocrático do Ardiles e não olhava a meios. Deslumbrado com o Fuga para a Vitória, acreditou que o futebol podia transformar-se com uma banda sonora. Foi então que durante meses aturámos a experimentação do moço. Da nona às cantatas de Bach, passando pelas violinadas do Smetana, a discoteca do pai de G. – melómano e erudito- foi passada a pente fino, até ao dia em que G. pôs um vinil de Schonberg a tocar e antes de chegar ao campo a malta já lhe tinha partido o vidro da janela, tal fora a nossa irritação. Nem isso o demoveu. A finta de um Ardiles imenso na escuridão do cinema Império perseguia-o. Seria também no cinema que G. encontrou a solução, enquanto via o Chariots of Fire. Praticar desporto ao som de Vangelis é kitsch, dirá o leitor. Ouvir Vangelis é Kitsch, atalhará. Impõe-se um ponto de ordem: há uma cinematografia que sobrevive da exploração do prazer inconfessável que é vibrar pelas vítimas, pelos mártires e pelos heróis, tudo confluindo para o momento em que o protagonista dá a volta ao seu destino. Vangelis é a expressão acústica dessa trafulhice. O problema é que o expediente funciona. Quando G. colocou a banda sonora do Chariots of Fire, passámos todos a levitar, como se voássemos baixinho. O tempo desacelerou, os nossos gestos eram grandiosos e feitos em câmara lenta, como se estivéssemos a ser imortalizados por quatro câmaras de televisão. G. galgou os lances de escada e quando saiu do prédio percebeu que tinha acertado. Antes de entrar no campo, despiu a T-shirt brinde com algum protocolo, revelando finalmente a sua camisola listada a azul-celeste e branco. Foi como Osvaldo Ardiles que deu o primeiro pontapé. O sonho durou dois dias, até o pai lhe ter interditado Vangelis no hi fi topo de gama.
Futebol, dúvidas metafísicas, crise religiosa e miúdas. Um ano de mudanças. Janeiro. Cristina no passeio, junto à linha lateral, pega numa bola transviada, demora-se num capricho e eu grito de impaciência. Março. Cristina ao fundo da rua, vindo da paragem do autocarro, perna esticada para a frente, a parar a bola que fugia com a palma do pé. Só consigo pensar no ridículo do gesto. Maio. Cristina a sair do prédio, surpreendida por um balázio contra a parede, o rosto zangado, a três quartos, os nossos olhares cruzados, um primeiro sobressalto. O que é isto? Julho, não acerto um passe e a Cristina foi para a terra dos pais. Setembro, Cristina bronzeada num macacão verde, um número absurdo de alças sobrepostas, os braços nus, o cabelo liso pelo pescoço. Vou numa corrida desenfreada e inútil, a bola perde-se pela linha de fundo, na direcção dela. Cristina flecte as pernas, à guarda-redes, recebe e abraça a bola, olha para mim com um sorriso e eu, esbaforido, sorrio e engasgo-me. Peço-lhe a bola, que ela se apressa a esconder atrás das costas. Aproximo-me, tento recuperar o esférico (sempre fui um bom defesa) e nisto descubro-me abraçado a ela, mamilos com mamilos, o corpo dela a fugir, as mãos dela atrás das costas e o seu pescoço à minha mercê. O que é isto? Tiro-lhe a bola e devolvo-a logo, num balão alto, sossegando o pessoal. Retomo a minha posição em campo. Ainda olho uma última vez. Cristina sorri e eu também. Novembro. Chuva miudinha. Jogo a meio campo, já sou ateu e sou praticamente de esquerda. Cristina foi apanhada desprevenida e recolheu-se junto de um plátano. A bola - já se percebeu - sai do campo, em sua direcção. Dessa vez Cristina não lhe toca e o esférico morre na estrada, numa das rodas traseiras do 21 da Carris. Aproximo-me, incrédulo. Então ela diz: "não me queres salvar dos teus amigos?"
Quem espreitava à janela? Havia um rapaz, com uma deficiência motora grave, que por vezes nos observava a jogar, mas sempre com desdém. Era conhecido como o "atleta", alcunha da autoria dos bons selvagens que éramos, no sentido anti-rousseauniano da expressão. Não podendo explorar o corpo, o "atleta" dedicava-se à electrónica. Naquele tempo ainda não havia hackers e qualquer tipo com um raciocínio a tender para o fluxograma era atraído pelos circuitos integrados. Só as bestas sadias caíam nas malhas do futebol. Um outro rapaz, fisicamente impecável, mas de pensamento excêntrico, passou a infância à margem dos jogos. Por vezes ia brincar com ele. Fazíamos filmes de animação, coisas complicadas para a época. Havia um terceiro alienado, a talhar-se para artista plástico e que não dava um chuto na bola. De certa forma, jogava-se futebol por defeito, à falta de vocação.
(continua)
No tempo em que os magistrados andavam de autocarro, os nossos pais regressavam a casa, na cozinha as mulheres avançavam o jantar e a malta brincava lá fora. Não fosse pela falta de alfaias agrícolas sobre os ombros dos homens, dir-se-ia que ainda vivíamos no campo. Apeavam-se aos pares da carreira do 81, vindos do coração da cidade. A imagem que me ficou foi a das tardes primaveris, embora fosse certo que também trabalhassem mesma Praça do Comércio durante o Inverno. Como tomavam sempre o percurso mais curto da paragem de autocarro até casa, acabavam por atravessar o campo durante uma partida. Por vezes não resistiam a dar um pontapé, invariavelmente torto, por culpa do peso dos processos que traziam na pasta e lhes deslocava o centro de gravidade (uma consequência negligenciada da morosidade da justiça). A graça era tolerada, mas apenas quando apanhavam uma bola morta a meio campo. Depois desapareciam no prédio e nunca tantos cinco minutos se acotovelaram numa hora, quando nos começavam a chamar para jantar e nós insistíamos em prolongar a partida até ao lusco-fusco. Ninguém queria ser o primeiro a ceder, mesmo que estivesse a ganhar. Pura peer pressure. Do tolerante "então, quantos marcaste?" ao "vai já para o teu quarto! Não voltas a jogar até ao fim do mês...", na chegada a casa cada um debatia-se com a sua circunstância, pormenor ignorado na rua. Eternizar os fins de tarde era inevitável, com aquele céu de pintor, as andorinhas em voo acrobático, a pardalada em algazarra numa árvore ninho e as bagas nos arbustos, mais vermelhas, mais alaranjadas e mais venenosas do que na realidade, a acreditar na botânica do subúrbio. No tempo em que os magistrados andavam de autocarro, reparo agora, não tínhamos ainda saído do campo.
Ah, a ciganada. Em rigor, pela tez da pele, fisionomia e ofício, não seriam ciganos. Aos nossos olhos, eram ciganos todos os que nos Olivais vinham de agregados familiares a roçar o limiar de pobreza. O bairro era um condomínio escancarado, contrariando uma tendência que viria a fazer-se regra. A habitação social misturava-se com prédios para a classe média e a tensão era omnipresente: nas ruas, nas pracetas, na escola. Havia zonas proibidas, lugares com seringas pelo chão, chungas de perna alçada à entrada do supermercado. Devo ter assistido a quatro ou cinco roubos da janela do meu quarto. Um ciganão marcou-me num homem a homem sem defeso durante anos. Percebi então nos habituamos ao medo (continua). Uma vez fomos atacados por três deles, que se haviam emboscado nas arcadas de um prédio, lugar de passagem. Traziam ponta-e-molas e tinham um jeito latino de roubar, verborreico, não resistindo a relatar outras façanhas enquanto nos palmavam os relógios e obrigavam um de nós a descalçar os Adidas. Daquela vez, o mais pequeno dos três, tentando ganhar o respeito dos mais velhos, usou-me como figurante para o seu relato, sussurrando-me antes um "Não te preocupes, eu não te espeto". Fiquei com a navalha a milímetros, mas tranquilíssimo. Cheguei mesmo a apreciar a empolgante historieta do moço e por pouco não me feri. No fim, quis até fazer-lhe uma pergunta, mas dada a condição de um dos meus companheiros, descalço e lacrimejante, optei por demonstrar alguma solidariedade e refreei-me. Não sendo propriamente corajoso, aquela calma reflectia apenas uma inabalável confiança nas pessoas, que me levaria a ser roubado repetidas vezes ao longo dos anos, com dispensa de ponta-e-mola. Escusado será dizer que quando nos gamavam a bola não havia calma que resistisse; nem fôlego, que os cabrões corriam como desalmados. O ajuste de contas surgia apenas em dia de partida. Aí os ciganos ganhavam estatuto de advers]arios leais e nós fazíamos de conta que a bola nunca nos pertencera. Era como se renascêssemos sem passado no começo de cada jogo. Antecipando que uma certa consciência de esquerda fará do leitor um adepto dos mais desfavorecidos, é algo constrangedor recordar que demos grandes cabazadas à ciganada. Mas, agora à distância, quem sabe se tolerando uma filosofia de Robin dos Bosques por conta própria, reconforta-me acreditar que as nossas bolas, depois de passarem de estrato social, terão também transitado de geração.
Há duas décadas, os oito ou nove anos que o A. leva de avanço valiam muito mais do que agora. Era um tempo marcado pelas canções de Paul Simon, Camarate e uma febre incipiente de escrita, que deixou muitos de nós em delírio. A febre deu em fartura, a julgar pelo número de jornalistas que saíram daquele prédio. Conto pelo menos cinco, que hoje são nomes conhecidos da imprensa e da rádio. Ao fundar a Cocas, uma revista de humor, crónicas e cartoons, feita de páginas A4 dobradas e agrafadas na lombada, A., que escrevia com graça e desenhava bem, não podia desconfiar ter iniciado um movimento sem paralelo nos restantes prédios dos Olivais. À Cocas seguiu-se a Lince, que contava com o talento de um futuro pintor. Veio depois a Urso. Ambas as publicações eram honestas mas nunca chegariam ao brilhantismo e impacto da Cocas. Como só consegui escrever a página de curiosidades de um dos números da Lince, guardo duas frustrações vagamente traumáticas desse período; a primeira: Bjorn Borg ganhar oito escudos por segundo no princípio dos anos oitenta; a segunda: nunca ter contribuído para as edições a preto e branco da Cocas. Não sei onde A. e os seus colegas preparavam a revista. A Lince era feita numa das caves do prédio, em clima de rivalidade, o que chegou a resultar em alguns golpes palacianos e no roubo de uma edição completa da Cocas, pronta a ser posta em circulação. Quando não estávamos a escrever, jogávamos à bola. A devoção ao futebol inglês era a segunda idiossincrasia do 484 da Avenida cidade de Luanda. A tragédia do Heisel Park ainda estava para chegar e o campeonato inglês era um bom campeonato, mas ainda hoje ninguém consegue explicar a recusa do Calcio, quando já naquela altura todas as estrelas jogavam no campeonato italiano. Mais: em 78 a Argentina havia ganho o Mundial; em 82 fora a vez da Itália, mas o Brasil brilhara. A verdade é que um núcleo duro de 4 aficionados insistia nas virtudes do futebol à inglesa: passes em profundidade, cruzamentos e golpes de cabeça. O modelo a seguir era o kick and rush. Talvez tudo tivesse começado com o rapaz que fazia tabelas à régua para preencher com todas as estatísticas do Liverpool. O Tejo entrava pela janela mas de todas as paredes do quarto dele vinha o sorriso de Kenny Dalglish. No campo, ensaiávamos cantos e um cabeceamento à Ian Rush por cima da trave valia por três golos à Gomes. Chuva miudinha e céu cinzento era o tempo desejado, por ser mais inglês, isto é, mais à ingalesa. O relvado ficava escorregadio e como o campo era bastante inclinado os cortes de carrinho à ingalesa eram irresistíveis. A lama das clareiras sujava depois os equipamentos e no fim era um gozo regressar a casa deixando rasto nos patamares. Enfim, a Dona Patrocínia, a porteira, talvez não fosse da mesma opinião, mas parecia que aqueles nacos de lama recortada pelos pitons das chuteiras tinham histórias para contar. É que a lama, que às vezes nos chegava até à boca num respingo e nos cobria a cara, tinha um cheiro que apelava a uma discreta geofagia quando o sector defensivo podia relaxar um pouco e uma textura medicinal também, que ajudava a acalmar a pele sempre que o couro da bola nos feria a cara, quando falhávamos um cabeceamento ou simplesmente levávamos com um petardo nas trombas. Estes aficionados do futebol britânico estavam bem documentados. Um deles possuía um arquivo impressionante com todas as estatísticas referentes ao campeonato inglês, que tinha algo de obsessivo tratando-se do Liverpool. Comparado com aqueles rapazes, o Rui Tovar era um amador. Para efeitos de palmarés, a entrega ao estilo inglês de pouco serviu. O quarteto britânico era extremamente perdulário e acabava por ser derrotado em quase todos os jogos. Porém, após nove jogadas falhadas surgia sempre uma que nos reconciliava com o futebol: D. no miolo do terreno desembaraça-se de dois adversários, lança V. pelo corredor direito… que vai quase até à calçada… cruza em arco para a cabeça de A. II… que remata ao tronco da faia (poste esquerdo); A. recupera, torna a distribuir para o corredor direito, V. centra de imediato, A. enquandra-se com o esférico, aplica um volley à Kenny Dalglish e -por uma vez - a bola não parte os vidros da vizinha do quinto andar mas entra em arco pelo canto superior direito da baliza da ciganada. Do grupo, o meu preferido era A. Comecei a gostar dele dentro das quatro linhas. Temperamental e com aqueles olhos claros e melenas à revolucionário, parecia mais um jogador italiano e tinha até uma camisola da Juventus, o que era uma afronta ao estilo de futebol que grupo idolatrava. Detalhes. A. era, sobretudo, justo e correcto. Em jogos que juntavam miúdos de 10 anos e adolescentes de 17 e 18, o abuso da força era uma constante, da carga de ombro ao pontapé vingativo, passando pela simples ameaça. A., que era dos mais fortes entre os mais velhos, nunca tratou mal a canalha e estas coisas ficam gravadas, agigantando-se com o passar do tempo. Como se não bastasse, de noite, quando ainda só ficávamos pelas imediações do prédio, A., regressando da cidade, trajando a preto e branco, já com toda a competência do boémio e com aquele andar naturalmente cambaleante ainda mais marcado, juntava-se a nós e demorava-se em relatos. Os bares ainda nos eram desconhecidos e ele tomava ares de mensageiro de outros mundos. Quando deixámos de ser vizinhos, os oito ou nove anos continuavam a fazer diferença. Muitos anos depois, é reconfortante saber que ele ainda anda por aí a respirar futebol, quando já ninguém joga à ingalesa, a começar pelos próprios ingleses.
Há quem veja além da clubite e se concentre nos pormenores. Há gente que não domina as estatísticas, mas tem milhares de jogadas na cabeça. Às Segundas-feiras trocávamos os detalhes da jornada como se fossem cromos raros. Havia o prazer de partilhar o mesmo gosto, quase como forma de calibração. Mas sobrava, também, o gozo de mostrar aos outros coisas que lhes haviam escapado. Os dois monumentos ao futebol nacional dos anos oitenta - a charutada de Carlos Manuel em Estugarda e o calcanhar de Madjer, na final da taça dos clubes campeões europeus*- são demasiado consensuais para que surja discussão (e o Portugal-França de 1984 é a nossa Alésia, assunto tabu; de resto, é oportuno lembrar que uns dos golos do Jordão foi um pontapé tecnicamente falhado). Despertarão talvez alguma nostalgia, aquele sorriso discreto e meio aparvalhado com um brilho no olhar, mas a sua excepcionalidade faz com que nunca venham a ser experimentados como revelações. O que nós procurávamos à Segunda-feira eram as pepitas discretas por apanhar. Falem-me de Estugarda e eu pergunto logo se alguém se lembra de uma jogada genial do Morato, a picar a bola sobre toda a defesa e a rematar de seguida, fazendo a bola rasar a barra? De resto , alguém se lembra do Morato? Morato, o homem que só estava bem onde não estava (lido nas letras garrafais da imprensa da época)? Onde está o Morato agora? Falem-me dos raides de Futre contra a Alemanha, no Estádio Nacional, e eu recordo logo um Jaime Pacheco a pisar a bola para mudar de direcção, assim se desembarançando de dois calmeirões. Nas peladas do bairro era a mesma coisa. O deslumbre pelos detalhes saturou-me a memória com gestos técnicos de amadores, pescados numa roda-bota-fora ou numa sessão de cantos. Coleccionei tralha desta em demasia. Se há um sótão para a memória, está cheio destas cadernetas sem cromos que não servem para coisa alguma.
(continua)
Então e as oliveiras? Eram paisagem, apenas paisagem, uma fileira de árvores quase paralela a uma das linhas de fundo. Atrás delas erguia-se uma colina relvada. O verde da oliveira não liga bem com a cor da relva, mas só me lembro bem é dos troncos e das azeitonas. Não deve haver árvore menos útil para o futebol do que oliveira. Os troncos são tortos e retorcidos, servindo apenas para fazer uma baliza barroca. As azeitonas tinham uma forma aproximadamente esférica, mas eram demasiado pequenas para que as usássemos. Não sei se alguma conseguiu esgueirar-se por entre duas pedras da calçada para surgir vitoriosa e rebentar com o passeio. As mais das vezes, os frutos eram semeados pelas árvores às cegas no asfalto e morriam junto ao lancil do passeio. Uma árvore seleccionada para prosperar nos Olivais produziria azeitonas grandes como ameixas e com os ressaltos de uma bola de ténis. Só mesmo um fruto apetecível de rematar salvaria aquelas oliveiras da prisão que era a impermeabilização dos solos circundantes. Não houve tempo para seleccionar tal árvore. Se um mutante acidental desses surgiu, alguém terá ficado com ele a dar toques antes da partida, ou então fizeram-no circular numa roda de amigos, sem o deixar cair. Talvez até o tivessem chutado para bem longe, mas não deve ter chegado às quintas, onde cresceria com as couves, nem caiu no cemitério, onde teria sido aceite entre os ciprestes.
Lembro-me de um rapaz que dizia querer ser enterrado no bairro. Pedia-nos para lhe fazermos uma cova sob um abrunheiro e que para lá se lançasse o seu corpo sem caixão. Nós dizíamos-lhe que as pessoas morrem de outra maneira, mas ele insistia que queria renascer como abrunho. Mais tarde, como se isso fizesse alguma diferença, passou a pedir que o pusessem a descansar ao pé de uma oliveira, árvore que o envolveria, dele faria seiva e depois azeitona. Era quase a delirar que nos dirigia a palavra: "talvez então me cuspam com zarabatanas amazónicas feitas de tubos de plástico e eu volte a ver o bairro, primeiro como luz ao fundo do túnel, depois acelerado por todos lados, a seguir cambaleando em decrescendo e por fim imóvel, quando nem vestígio de movimento animar o fruto que serei e o projéctil que por instantes fui. Talvez tenha sorte, talvez caia em terra fértil e não no asfalto nem na calçada, talvez experimente o gosto da água, fique túrgido, rebente comigo para germinar, geotrópico, fototrópico, autotrófico, paciente e eterno, e me faça oliveira, memória do bairro. Não haverá quem respeite este desejo?"
Tenho familiares que foram baleados no Ultramar e de lá vieram com cicatrizes no corpo. Eu tropecei numa bola quando estava sozinho, caí e parti o antebraço. As marcas somáticas podem ser o trauma e o orgulho de uns, bem como a vergonha (pelo trauma) de outros. Marcas de heroísmo, pois claro; já naquele tempo as buscávamos. O único interesse de passar a tarde à pedrada com a ciganada era o prestígio de partir a cabeça em combate, coisa rara no futebol. Havia ali a excitação dos combates tribais e uma gestão de talentos, que passava por saber tirar proveito do aerodinamismo das lascas de tijoo recolhidas do chão, mas também pela capacidade de prever as trajectórias dos projécteis adversários, pois o céu chegava a acomodar belicismo que pedia bateria anti-aérea. Com alguma sorte, esfolava-se um joelho na peladinha e a lama ficava a realçar o vermelho do sangue (bendita vacina antitetânica). Mas a lesão mais frequente era também a menos espectacular: uma cacetada na canela. Doía que se fartava e nem nódoa fazia. Naquele tempo quase ninguém jogava com caneleiras, excepto um puto rico com pai aviador, que as usou duas tardes, até a ciganada ter dado pela coisa e insistido numa troca unilateral. A forma mais eficaz de acumular medalhas somáticas era começar à pancada durante o jogo. Embora as lutas mais frequentes fossem entre adversários, as mais violentas ocorriam entre elementos da mesma equipa. Os inimigos fora de campo empenhavam-se mais e quem lhes falar em lutas ritualizadas ainda hoje corre o risco de levar com um rotativo nos incisivos (à Bruce Lee).
Só percebi a arte da finta quando vi o toureio de João Moura. Já me fascinava - embora não o pudesse verbalizar - a aparente contradição entre um número limitado de gestos e a capacidade de surpreender o defesa. Julgava eu que o defesa seria intransponível se estudasse todos os tipos de fintas. A tarefa nem sequer parecia muito difícil, justamente por não haver assim tantas fintas. Quantas? 10? Não mais de 20, seguramente. Pensemos, a contrapor, nas infinitas possibilidades do xadrez. Para mim, havia falta de estudo no quarteto defensivo. Até que vi o cavaleiro João Moura. O Moura fazia uns ferros absolutamente geniais. Não chegava a ser uma finta rápida, era quase uma sarabanda brevíssima, com gestos estereotipados, mas sempre eficazes. O cavalo fazia a chamada para a direita, simulando um desequilíbrio para esse lado com o cavaleiro, solidário. Quando o touro investia, Moura e o cavalo bandeavam-se para o outro lado, salvavam-se e ficavam com o dorso do touro à sua mercê. Na mesma corrida Moura repetia o movimento vezes seguidas e a besta não aprendia. Foi ali no redondel, com o requinte pedagógico do gesto recorrente e da estupidez do animal, que percebi o essencial desta arte. A finta que vale é a que não chegou a ser feita, pois foi aquela que retardou os reflexos do defesa. Daí a mesma finta poder resultar vezes sem fim, bastando que vá variando a finta que não chegou a sair. É claro que isto é uma apreciação teórica pouco útil para quem, não tendo o peso do touro, ficava com o seu papel. Os Mouras do bairro eram outros. Eu fazia cortes de carrinho e magoava o lombo.
Sobre a outra arte? Passar pelas ruas em fintas sucessivas, sem esbarrar com alguém ou algo que não me agrada? Fingir, transformar o momento, esgueirar-me pelos corredores que já conheço? Deixar o passado incólume, indiferente aos pedidos de acerto de contas que chegam do presente? Pensar numa profissão: contabilista. Não. Sou agora um conservador da infância, trabalhador por conta própria, a tempo inteiro. Nasci e vivi duas décadas e picos. Andei depois a fazer tempo durante outras duas, a ganhar distância para poder olhar para trás e tudo abarcar. O tempo que me sobra vai ser curto para viver o que já vivi. Outra profissão: vendedor de enciclopédias. Encerrei o meu presente e tornei-me um guardião da memória. Saio para a rua e recolho bocados de mim, que se ensoparam de chuva, viram demasiado sol e pó, que foram mal tratados e que já pouco se parecem com o que eram, embora conservem o bastante para os ver como gostaria, depois de os soprar, de os polir e lhes corrigir as marcas do tempo. Sou um restaurador, pleno da arte que me convém e vazio de ciência. O esforço seria absurdo se não fosse necessário. Noutro lugar, o presente tomaria conta de mim. A profissão? Delegado de propaganda médica. Um presente virgem, enxuto de memória é coisa que deveria aprender a apreciar melhor. A ter regressado ao bairro, ficaria rodeado de pretexto para recordar. Fintar todos os dias seria um cansaço. Só o sono, este meu sono livre de sonhos, que me devolve como me recebeu, me deixaria de pé. Profissão? “Empresário”. Nem sonho, nem pesadelo, só vazio. Talvez me valesse o terraço de pedra morna, um lugar de firmamento eterno e brisa carregada de maresia salubre que bebeu do Tejo. Ali, naquele local que soube poupar, é possível que voltasse a sentir o tempo suspenso.
O declive do campo era a forma possível de quebrar uma das leis da física. O jogo construía-se sobre uma bola em perpétuo movimento, a correr para o rio. O desequilíbrio na partida imposto por um suave declive de 1% era suficiente para fazer com que os mais calculistas preferissem começar o jogo a atacar subindo, com a motivação de que na segunda parte o ataque seria a descer. Para quem começava a atacar embalado pela gravidade, as últimas ofensivas eram sofridas como escaladas. Outros desequilíbrios eram ponderados no momento de formar as equipas. Os calculistas, de novo, preferiam ficar na equipa teoricamente mais fraca. Jogar pelos mais fracos pode parecer uma decisão nobre, mas resultava apenas de uma análise fria de ganhos e perdas. Uma derrota esperada não é propriamente uma derrota, é um desígnio que se cumpre. Uma vitória inesperada é um destino que se forja. Era uma sorte nem todos sermos calculistas e haver entre nós quem tivesse a coragem e o mau gosto de preferir as equipas mais fortes, caso contrário teríamos consumido as tardes a definir os alinhamentos.
O conceito de futebol total é posterior a um outro, de alcance superior, embora menos consensual: o de futebolista total. Nos anos oitenta a noção de futebolista total estava claramente desacreditada. Com um discurso onde a palavra "portanto" surgia como uma verdadeira praga, o craque não primava pela eloquência. Era também ainda popular uma anedota sobre Eusébio, racista e revivalista, que fazia supor nunca antes ter o conceito vingado. Mas, livre de preconceitos, o que a prática nos dizia era que a qualidade futebolística não morava nas pernas, mas percorria o corpo todo e, consequentemente, só podia emanar da cabeça. Alguns dados empíricos de relevo: D. era de longe o melhor jogador do bairro. Fintava, rematava de todas as maneiras, roubava bolas e passava como mais ninguém. Os pés de D. eram mágicos. Sucede que também os pulsos de D eram magníficos, quando jogava matraquilhos. E os dedos de D. eram sublimes, quando jogava Subbuteo e, mais tarde, futebol no computador. Concretizando, D era um jogador total, e onde houvesse uma terminação nervosa, acontecia futebol. É por isso que nos custa mais assistir à degradação moral de um Garrincha ou um Maradona do que a uma tragédia que apenas atira o futebolista para uma cadeira de rodas. Um xadrexista com as duas mãos amputadas não deixa de ser um xadrezista. Com um futebolista paraplégico pode suceder o mesmo.
A trave imaginária é uma ideia belíssima, a ilusão flutuante alinhada pelas paralelas da paisagem - o mar da Palha no horizonte - e aferida pelas perpendiculares - os postes dos candeeiros, os troncos das faias e N., o gigante local. Quem entrega o destino de um jogo à altura de uma trave imaginária dá uma prova de confiança suprema, como se as duas equipas de repente se deixassem desequilibrar para trás, na certeza de que cada elemento seria amparado na queda por um dos adversários: o avançado central costas com costas com o defesa central, os médios com os médios, o extremo esquerdo com defesa direito e o extremo direito com defesa esquerdo, numa simetria perfeita e sincronizada, à Jogos Olímpicos. A trave imaginária fazia a baliza à medida do guarda-redes e estimulava a estirada aparatosa, pois para cada remate, mesmo os estratosféricos, era preciso rabiscar em tempo real a trave com a luva, eliminando a dúvida. A minha fé na trave imaginária ficou documentada no dia em que, sobre a linha de golo e gozando de um tempo de salto e altura fenomenais, saltei sozinho e acusei um traumatismo craniano em pleno ar. (continua)
No relvado imperava a meritocracia quase perfeita, regularmente corrompida apenas por um miúdo gordo, com pouco jeito, mas que era o dono da bola e por isso tinha lugar cativo na equipa e nem sequer entrava na rotação para guarda-redes. Outros desvios mais subtis tinham lugar ao Domingo de manhã, quando os mais velhos se juntavam a nós e a saturação das linhas de passe no binómio pai-filho passavam a reflectir mais os sonhos adiados do primeiro e menos o talento concretizador do segundo. Por vezes o pai ficava a jogar na equipa adversária e então sim, o jogo ganhava qualidade. Perante a promessa de poder matar o pai de livre directo, o filho só sossegava mesmo depois de fazer golo. Freud talvez explicasse a tal dinâmica mas só daí a uns anos ouviria falar do gigante intelectual com algum detalhe pela voz de uma professora de psicologia que não percebia a minha letra e me obrigava a ler-lhe os gatafunhos que deixava nos testes. Responder a dois tempos deixou-me com uma nota muito catita mas uma má impressão da disciplina. Anos depois, numa viagem ao Porto, impressionou-me o conforto material e a cultura de um psiquiatra que nos recebeu, fez de cicerone e nos deu a provar um Porto centenário. (continua)
De sonhos e pesadelos não reza a minha história. Esta frustração, põe em marcha mecanismos compensatórios que me fazem sonhar acordado ou com que me demore diante dos surrealistas. Cheguei ao ponto de interromper o sono a várias horas da noite, numa caça inglória ao sonho. Não é tanto a interpretação do sonho que me interessa, antes a curiosidade pelos detalhes. Quero saber se as paisagens surgem a cores e com a perfeição das superfícies do Dali. Quero confirmar que não tenho o mau gosto de pôr animais a falar. São estes pormenores que fascinam, embora sobre o único dos sonhos que saquei à minha infância o que me perturbe seja justamente a dificuldade de interpretação. Isso e uma irritante falta de originalidade. Raios, podia ser um sonho apenas, mas com um tema nobre, que reflectisse um daqueles desejos de Miss Universo ou então uma inquietação filosófica. Nada. Coube-me em sorte sonhar com o tamanho do membro viril, a mais estafada das ansiedades da rapaziada. Jogávamos futebol na praia, num campo feito pela baixa-mar. Numa disputa rija, persigo um preto até à linha de água, ficando ele com a água pelos joelhos, de costas para mim, protegendo a bola. A meia volta dele é um outro um volte-face também, pois sem nunca deixar de dominar a bola é ele que começa a perseguir-me ou, reformulando, sou eu que então fujo dele e da sua erecção descomunal - assim para um antebraço - entretanto revelada. Consigo explicar tudo neste sonho: as incertezas, os receios próprios daquelas idades e a presença do preto, que era menos fruto do estereótipo do que uma representação do Sexta-feira do Dafoe, prosa que me fascinava na altura e era motivo para os tais sonhos acordados recorrentes. Por explicar ficou, até hoje, o enredo futebolístico.
Na janela da dona Patrocínia afinávamos a pontaria. Nada de vidros partidos. O alvo resistia. Influência dos Jogos sem Fronteiras? Talvez. As nossas actividades para-futebolísticas eram vagamente idiotas. A janela da Dona Patrocínia ficava na cave, que não verdade era rés-do-chão - como é próprio das porteiras- e tinha grades - como é próprio das janelas ao rés-do-chão. Para os lados só havia parede e em frente tínhamos o nosso relvado. Era impossível resistir à tentação de usar a janela como alvo, até pelo som. Quando a bola embatia na janela tudo estremecia e mesmo eu, com os meus caniços, me sentia poderoso. O poder embriaga e quem se lixava era a dona Patrocínia. Mais elaborado era o volley de pé, que cheguei a pensar ter sido inventado por nós. Uma rede imaginária, à altura da cintura, dois jogadores de cada lado, um três regras: a bola pode bater uma vez no chão, são permitidos três toques e o mesmo jogador não pode dar mais de um toque seguido na bola. Trivial? Imagine-se isto num campo com linhas futuristas, a dar para o losango e com lajes cor-de-rosa. Era um dos mistérios do bairro. Quem teria construído aquilo, um misto de passeio alargado e de praceta em descampado, uma novidade sobre a relva, que recebêramos com bastante cepticismo, para logo assimilar? Enfim, ficou um campo catita, sobretudo com o passar dos anos, quando as lajes começaram a revelar a tectónica de placas ou, mais prosaicamente, as deficiências da empreitada. De uma superfície lisa, passámos a um campo armadilhado, rico em arestas acidentais, que perturbavam o ressalto da bola de forma imprevisível, introduzindo no jogo uma aleatoriedade que fazia de um simples passatempo - sim, sim - uma metáfora da vida. Lembro-me agora que costumava perder, mas o meu serviço era feito com inabalável confiança.
As bolas são cometas. Quem nunca jogou futebol de noite, com a iluminação dos candeeiros públicos, não pode perceber a tal afirmação. Uma bola branca a crescer para nós vinda da penumbra e em lenta aceleração, lá desde o alto, é coisa para perturbar o defesa central que nunca arriscará um verso. Uma bola a gozar o segundo de imponderabilidade do alívio defensivo é a segunda lua, astro que, em função do seu posicionamento com respeito ao candeeiro de iluminação pública, cada qual contempla numa certa fase do ciclo lunar. O futebol nocturno viciava. Havia, a começar, o "efeito do quarto-escuro ", a escuridão democratizante. Uma camisola do Barça com reflexos acetinados mal se distinguia da T-shirt ruçada da Robbialac . A noite tornava também tudo mais intimista, convidando à introspecção. Canto! Concentração de jogadores na grande área, grande tensão, o marca desmarca e M, de sorriso beatífico, em delírio poético sobre a marca de grande penalidade, pensando se as copas das faias perturbam a vida das estrelas. Uma inspiração infinita, se não tivesse sido interrompida pelo autogolo. (continua)
As crianças olhavam incrédulas para os rapazolas libidinosos. Perante o namoro desajeitado e - como dizer? - sôfrego que tinha lugar no bancos de jardim e à sombra das oliveiras, as crianças não percebiam tamanha perda de tempo e era com um certo desprezo que tratavam aquela malta. Um caso fez história: J., guarda-redes bem-apessoado, costumava sentar a namorada perto de um dos postes. Mal a bola passava para o meio-campo adversário, J. esticava-se para perto da pequena, iniciando uma sessão de linguados. Eram beijos longos, praticados com afinco e gozados com os olhos fechados. Quem isso topou foi o defesa central adversário, que matou o encontro com um balázio flutuante de baliza a baliza. J. experimentou então a ira dos parceiros e a reprimenda do capitão, um tipo de envergadura impressionante e pai na força aérea, elementos que se combinavam de forma sinérgica naquilo que hoje diríamos ser o "carisma". A decisão foi implacável: expulsaram J. Ora, para espanto de muitos, na semana seguinte J. estava de novo à baliza, embora sem a namorada. Curiosamente, a pequena assistia ao encontro perto da linha lateral, na zona central. Durante a celebração do primeiro golo desfez-se o mistério: o linguado, igualmente longo, esteve a cargo do capitão. O caso despertou polémica. Havia aqueles que diziam ter J. defendido o lugar na equipa cedendo a namorada e os outros, que preferiram ver no episódio uma prova de liderança do seu capitão, como se ele estivesse a ensinar a todos quais as prioridades: primeiro o golo, depois as miúdas. A canalha percebe e apoiou esta interpretação, na inocência de quem não sabia ainda o que era uma verdade a prazo.
Ignorava o que viria a acontecer ao Estádio de Alvalade Sporting, meio em ruínas mas com uma bancada ainda de pé, de flanco aberto, como um Coliseu à nossa medida, feito de betão armado; feio de betão armado, também. Nem os destroços se salvariam. Ainda bem. Antes a terraplenagem que as ruínas. Porque gozei Alvalade com privilégios de filho de magistrado: assistir aos jogos na bancada central, um olho no campo, o outro a tentar reconhecer os adeptos com lugar cativo. Dali vi as primeiras arrancadas do Futre, o Oliveira todo enlameado e a fazer-se substituir para recolher uma ovação, o Damas a desviar a bola sobre a barra com uma sapatada, o frenesim das noites de competição europeia. Tudo isso e o Jordão. O Jordão em tronco nu, depois de marcar um golo contra o Beira-Mar e de pôr o Estádio aos pulos, uma imagem que ficou porque o sol havia começado a baixar e uma luz bonita tomara conta das bancadas, realçava o torso do Jordão e o contraste do amarelo do Beira-Mar com o verde de Alvalade. Como teria Jordão visto o Estádio em ruínas? Imaginei o goleador na Alameda das Linhas de Torres, a sentir uma fraqueza nas pernas e a prostrar-se diante daquelas ruínas. Não acontecendo isto de verdade, que se forjasse uma fotografia. Já antes o Jordão havia sido fonte de inspiração para outros trabalhos visuais. Especializei-me em desenhar o seu perfil caricaturado; a testa alta, os lábios salientes e pendurados, à Lucky Luke, um queixo prolongado e o nariz levemente adunco. Toda a cara convergia naquele perfil. Nem se dava pelos olhos tranquilos. Das vezes que reduzi o Jordão a duas dimensões, a mais reveladora foi quando fiz dele um boneco articulado, capaz de erguer o braço no momento da glória. Manipular as articulações do Jordão, longe de ser um ritual de Vodu, era a minha forma de sublimar a frustração de nunca ter conseguido marcar penalties como ele, hoje ilegais, mas eternamente sublimes: a paradinha, o guarda-redes para um lado e a bola caminhando com vagar para o lado oposto. A simplicidade das coisas perfeitas. Ou das "coisas bonitas", como diria alguém que, salvo erro, nunca treinou Jordão.
O que dizer de Litbarski, uma excepção genética e cultural? Como explicar o talento de um homem tão pequeno, para mais alemão? Há nos arquivos da RTP pérolas de Litbarski, apontamentos mais do foro do bilhar artístico do que do futebol. Nos Olivais, a camisola da selecção alemã devia-se a ele. E Zbigniew Boniek? Como a malta gostava de dizer Zebínio Bonieque... Talvez nos Olivais Norte houvesse uma camisola da Polónia. Boniek seria hoje um jogador absurdo. Nos anos oitenta era apenas genial, mas um jogador cheio de malícia e anti-jogo, com espessura shakespeariana, capaz de aguentar cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco segundos com a bola junto de uma bandeirola de canto, para desespero dos dois (três?) defesas que o tentavam desarmar. Detalhes de grandes craques datados. Intemporal, só mesmo a explosão de euforia de Tardelli, em 1982. Como explicar tamanha alegria? Uma final de um Mundial com o adversário certo, de acordo. Mas apenas um dois a zero, um golo de consolidação, um bom pontapé em desequlíbrio à entrada da área, insuficiente para figurar numa selecção de golos. Tardelli deve ter sentido que aos vinte minutos e quarenta segundos de jogo o seu momento tinha chegado. Quase toda a gente devia ter direito a uma explosão daquelas, sem dar lugar a risota e sem levantar suspeitas. Infelizmente, nem nas maternidades se vê um pai a correr pelos corredores com a garra do Tardelli. (continua)
Ah, Le sourire de Marko... van Basten. Relembro a história do outro Marko, o Kraliévitch, herói sérvio que não conhecia a dor. Em fuga depois de ter sido denunciado aos turcos pela amante, o corpo de Marko dá à costa e é encontrado pelos seus inimigos. Desconfiando de uma morte tão fácil, a amante contagia os Turcos com a sua dúvida. O corpo do sérvio é sujeito a uma série de atrocidades, mas nem crucificado, nem com carvão em brasa sobre o peito, concederá Marko a menor manifestação de vida. É então que a amante, num curioso anacronismo que nos sugere um conhecimento das boutades de Wilde, faz passar Marko pelo desafio mais difícil: o de resistir à tentação. Diante do espectáculo de luxúria assegurado pelas mais belas dançarinas da região, o corpo de Marko, imóvel até então, manifesta-se, não da forma que o leitor incauto possivelmente imagina, antes num discreto mas revelador sorriso, que teria sido a sua perdição, não se desse o caso de a mais bela entre as dançarinas haver reparado e se ter apressado a tapar-lhe a cara com um lenço. Convencidos os Turcos da morte de Marko, dá-se o volteface, não demorando o herói sérvio a vingar-se da amante, para logo depois se escapar com a dançarina que o salvara. Trata-se de um edificante conto de Yourcenar sobre o desejo ou, mais prosaicamente, sobre a importância do sorriso. O sorriso de Marco van Basten, por exemplo, não terá sido questão de vida ou morte, mas encheu os relvados como a manifestação mais pungente de satisfação plena e confiança. van Basten marcava, sorria e no dia seguinte a malta tentava imitar-lhe o volley e o sorriso, falhando ambos. Bons tempos aqueles, em que já não havia muçulmanos nos Olivais e das amantes só ouvíamos rumores que vinham sempre dos prédios vizinhos.
Das árvores do bairro, de entre as oliveiras alinhadas ao longo do passeio, os frágeis plátanos que ainda cresciam amparados por uma estaca e os plátanos robustos que trepávamos de noite e feríamos à navalha, os abrunheiros de cor indefinida, entre o vermelho e o roxo, dos ciprestes que indicavam o cemitério, o chorão isolado que me protegia, os choupos por onde sob a copa espreitei o céu, de todas estas árvores, as faias eram as mais queridas. E as mais úteis. Porque as faias fazem boas balizas, sobretudo as árvores vivas, de tronco aprumado e perímetro para um abraço, a promover um ligeiro aumento da percentagem de tiros ao poste. Acrescente-se que as raízes das faias não se manifestam à superfície, como convinha aos guarda-redes e aos avançados com o vício do voo de peixe. Mas há algo mais subtil. Não sei se é pela arquitectura do xilema ou se pela densidade da seiva bruta que por ali corre, o certo é que o som de um petardo naqueles postes tinha o arredondado de um grave de contrabaixo caro. Há também relatos dos balázios outonais do Samagaio, que supostamente despiam as copas num instante, numa chuva de folhas que marcava o início da estação, mas aqui estamos claramente no domínio da mitologia suburbana.
Entre os 7 e os 14 anos tinha dois sonhos acordados recorrentes. Ambos resultavam de apropriações pouco processadas de uma série de televisão (Uma casa na pradaria) e de um livro (Robinson Crusoé). Comecei por ser como o Michael Landon: cortava lenha, construía a minha casa, dominava a técnica da cunha, o encaixe perfeito e, claro, tinha uma carroça. Mudei-me depois para ambientes mais tropicais, para fazer essencialmente o mesmo (construir a minha casa), só que sem carroça e com ferramentas de carpintaria improvisadas. O único desvio às fontes era a exclusão da família de Landon (filhas e mulher) e, mais tarde, do Sexta-feira. Esta aprendizagem da misantropia, certamente explicada por qualquer regra de três simples da psiquiatria, foi abruptamente descontinuada em 1985, no dia em que marquei aquele que seria o meu único golo de livre directo e, soterrado pelos meus companheiros, com a cara a cheirar a relva, antevi os encantos do convívio. (continua)
A fome de bola podia surgir a qualquer altura; por exemplo, na cozinha. Sem uma bola por ali, apanhava uma aresta a jeito e dava-lhe um chuto com o peito do pé, como se me pedissem um livre directo. Ficava depois a olhar para o frigorífico, a voar cheio de momento e suficiente rotação para descrever um arco magnífico. Nunca pensava no reboliço das hortaliças. O electrodoméstico levava selo de golo. Nada daquilo faz muito sentido agora. Ainda não consigo perceber o encanto de certas arestas, mas havia dias em que apetecia mesmo aplicar-lhes um pontapé. Via a aresta e imaginava logo uma bola. Perante esta pouco sensata busca da esfericidade do poliedro, a quadratura do círculo nunca me pareceu um problema transcendente. Estava claramente a roçar a patologia, mas acrescento, em minha defesa, que não era coisa para todos os dias. Surgia raramente e logo pela manhã. Saía então para a rua com uma vontade irreprimível de fintar os postes e as velhinhas. Tornava-me num jogador praticamente genial. Sozinho no elevador, muitos anos depois, ainda por vezes ignoro o circuito interno de vídeo, faço malabarismos com uma bola invisível e lembro-me de ir visitar o James, que trabalha num trigésimo quinto andar, para assim bater o record pessoal de toques sem a deixar cair. Mas o problema agora está controlado. Há uns anos era uma doença. Apanhava uma porção de passeio desimpedida e ganhava vontade de correr com a bola que mais ninguém via. Surgia então o festival de truques à Maradona e variações de velocidade à Butragueño, para acabar em apoteose com uma papinade, mesmo depois de ter estilhaçado uma costela flutuante à custa dessa brincadeira. Eu sei que é difícil perceber estas coisas, até porque nunca fui um grande jogador de futebol. A verdade é que não tinha o génio abstracto de um Néné, que tinha o enigmático mas lógico nome de melhor jogador sem bola a pisar os relvados de Portugal. Eu precisava de ver sempre a bola, mesmo quando a bola não estava lá.
Três trajectórias mágicas que ninguém arquivou: os arcos em voo rasante das andorinhas, o livre directo em arco do "Corso" e o perfil de mar picado desenhado no ar pela oscilação vertical e com arrastamento dos peitos da prostituta, quando se passeava junto à linha lateral. As primeiras noções de geometria descritiva foram adquiridas naquele relvado. Mas em boa verdade, por maior que fosse o esplendor da Primavera e a inspiração do "Corso", os erros defensivos deviam-se em exclusivo a faltas de atenção provocadas por aqueles peitos que, contrariamente ao que se diz, não desafiavam a gravidade, mas com ela brincavam. Prostituta das redondezas e a única a trabalhar a céu aberto naquelas bandas, a rapariga especializara-se em pernetas motorizados, que recebia junto à linha lateral, apenas meio protegida pelos troncos das faias. Com um repertório de gestos técnicos limitado, o quarteto defensivo não deixava por isso de apreciar as nuances com que a clientela mergulhava a cara naquele rego profundo, que ela, ao colo deles, oferecia. Uma das consequências mais inesperadas desta rotina, que se prolongou durante quase três anos, foi a progressiva e inconsciente valorização de quartetos defensivos extremamente jovens, formados por uma canalha em quem a revolução hormonal ainda não tinha ocorrido e que depressa ganhava indiferença por aquele espectáculo marginal. A libido atiraria depois muitos desses miúdos para o banco dos suplentes, na verdade um lancil de passeio num ponto que abria um ângulo perfeito entre duas faias e deixava ver quase sem ser visto. Gozava-se em silêncio, na certeza de que ao menor comentário o pano cairia. Sentíamos que aquele sim, era o maior espectáculo do mundo e, talvez por estarmos equipados, não víamos ali grande traição ao desporto-rei.
E um dia chegou o primo americano, um miúdo bonito e loiro que só queria ir ao Éden ver filmes do Bruce Lee e dava-me umas valentes coças sempre que brincávamos às lutas. "Give it up, man!" gritava ele, enquanto me apertava o pescoço e me mantinha com as espáduas no chão, greco-romanicamente vencido. E eu desistia, claro, fodido, mas inteiro. E fui acumulando derrotas atrás de derrotas sem um plano de vingança, até que me lembrei de o convidar para uma peladinha, coisa que fiz já à tardinha, para que ao serão pudesse desfrutar a véspera do payback day. O dia seguinte chegou. Estava uma tarde de Verão propícia para a prática do futebol, como então já se dizia. Seis contra seis, com guarda redes, o meu primo a atacar na equipa adversária e a entrar pelo meu corredor. Babei-me de excitação. Pensei nas mil e uma formas de lhe roubar a bola, de o humilhar com umas ratase de o magoar com uns balázios em jeito de alivianço defensivo. Duas horas depois, exausto, estava com as espaldas assentes no relvado, humanamente vencido e a olhar o céu. O cabrão do primo americano tinha sido o melhor jogador em campo. Ele não sabia jogar à bola mas corria mais, tinha mais força e a sorte dos principiantes. Marcou golos incríveis, sem nunca saber muito bem o que fazia. Digo eu. Os deslumbrados do bairro quiseram logo contratá-lo para a equipa do bairro e vieram falar comigo no final do encontro. Em duas horas passei de bestial a empresário. Por sorte o primo americano regressava a Boston no final do Verão. Lembro-me de me despedir dele no aeroporto, desportivamente e justo, como sempre, falando muito depressa e baixinho, para que ele não me percebesse. O meu adeus português, textualmente "Adeus, meu cabrãozinho, não jogas um peido..." é, ainda hoje, a marca de um povo com fome de glória e um difuso desejo de vingança.
Nos Olivais nunca consegui grande fama como jogador. Era um tipo aplicado, que suava a camisola. Jogar com o pé esquerdo dava-me alguma vantagem, mas faltava-me talento. Foi preciso viajar para ser craque. Vivi o Outono de Praga com intensidade. Não erro na estação. Para mim foi no Outono. Em Praga, num fim de tarde pós-revolução de veludo, com o sol já frio e rasteiro, fiz num campo de futebol de salão o jogo da minha vida. Provei a glória e só na manhã seguinte admiti que tinha jogado contra um bando de toscos. Nove a um e sete foram meus. Com os meus túneis, bolas em arco a entrar no canto superior direito e slaloms, fui um gigante naquela tarde. O meu génio contagiou até o mulherio que assistia à partida e me elogiou os caniços. Infelizmente, foi esse elogio que faria transbordar o copo de ilusão que fui bebericando pela noite fora. Na manhã seguinte, ainda na cama, ao olhar para a cruel realidade das minhas pernas- o défice de musculatura e o magro perímetro de coxa- comecei a ressacar a glória da véspera. Lembranças tristes, estas, que nos dias que correm servem de pouco consolo para o leitor. É que nenhum dos toscos que venci era checo. Os checos têm jeito para jogar à bola, como jeito têm as checas para gozar com estrangeiros em pico de megalomania.
Nos Olivais nunca consegui grande fama como jogador. Era um tipo aplicado, que suava a camisola. Jogar com o pé esquerdo dava-me alguma vantagem, mas faltava-me talento. É curioso como por vezes a vida funciona ao contrário: foi preciso viajar para ser craque. Vivi o Outono de Praga com intensidade. Não erro na estação. Para mim foi no Outono. Em Praga, num fim de tarde pós-revolução de veludo, com o sol já frio e rasteiro, fiz num campo de futebol de salão o jogo da minha vida. Provei a glória e só na manhã seguinte admiti que tinha jogado contra um bando de toscos. Nove a um e sete foram meus. Com os meus túneis, bolas em arco a entrar no canto superior direito e slaloms, fui um gigante. E a cidade pareciater sido escolhida a dedo. Não se sabe por que acaso genético e cultural, mas aos olhos de um português pouco dado a exotismos Praga tem provavelmente a melhor concentração natural de mulheres deslumbrantes. Naquela semana, ainda sem a prática para decifrar as pistas do amor, cheguei a apaixonar-me duas vezes no mesmo dia. Naturalmente, foi com indisfarçável satisfação que notei ter o meu génio contagiadoo mulherio que assistia à partida. Foram ao ponto de me elogiar os caniços. Seria esse o comentário a fazer transbordar o copo de ilusão que fui bebericando pela noite fora. Na manhã seguinte, ainda na cama, ao olhar para a cruel realidade das minhas pernas- o défice de musculatura e o magro perímetro de coxa- comecei a ressacar a glória da véspera. Lembranças tristes, estas, que nos dias que correm servem de pouco consolo para o leitor. É que nenhum dos toscos que venci era checo, antes estrangeiros como eu, mas de países sem tradição no futebol. Como se sabe, os checos têm jeito para jogar à bola, como jeito têm as checas para gozar com estrangeiros em pico de megalomania, o que talvez não seja do conhecimento geral.
Cheguei a ter umas luvas amarelas. Eram umas boas luvas, embora modestas. Sobre a malha amarela havia fileiras de pontos negros de borracha, que me fizeram um pouco menos frangueiro. Mas fui sempre frangueiro, pelo menos até começar a ser um defesa esquerdo. Só gostava de defender remates de longa distância. Faltava-me instinto e a confusão dentro da área não era para mim. Dos remates à queima-roupa tinha também algum receio. Ponhamos o dedo na ferida: a coragem física é essencial num guardião. Por isso, de nada valia o vício das defesas de pontapés de longa distância. E não se podia pedir ao avançado que só rematasse de longe e ao ângulo esquerdo, só porque para o esse lado voava mais facilmente e aí a relva era mais farta. Aliás, pensava demasiado na estirada que iria fazer e, como se percebe, com tanta preparação as luvas amarelas não chegaram a perder a cor. Ainda fiz umas boas defesas e com o tempo consegui esquecer todos os frangos que comi. De certa forma, tornei-me um guarda-redes muito melhor a posteriori. Foi uma decisão acertada, mas ainda hoje a posição de guarda-redes é a que mais respeito. Um jogador singular, o guardião, com um fardo pesado sobre os ombros, bode expiatório até prova em contrário. Ponhamos o dedo na ferida: a coragem é essencial. Era essa dimensão trágica que me atraía. Mas faltava-me a queda. Nunca me ocorreu tirar as luvas amarelas num momento crucial e defender o remate com as mãos nuas. São estes instantes que fazem um herói de bairro até de um frangueiro.
O mítico Maracangalha, um parque de estacionamento a céu-aberto e sempre vazio de uma garagem local, era um imenso campo de cimento, particularmente cruel para os joelhos. Um bom guarda-redes ali era louco e só depois herói. O Maracangalha estava reservado para torneios, pois tinha um ar de coliseu romano e deixava sempre alguém todo esfolado e a sangrar, o que melhora qualquer espectáculo. Para peladinhas e jogos dominicais, preferíamos os relvados. Na verdade, estamos a falar de relvados preparados, que tal como o piano preparado prolongam e pervertem os recursos expressivos das simples quatro linhas. Com faias, plátanos e arbustos, atravessado por velhinhas carregadas de compras, perto de uma avenida por onde passavam muitos autocarros e com o lancil do passeio a fazer de linha lateral, jogava-se futebol num cenário digno dos ridículos Jogos sem Fronteiras. Mas, apesar das -"deixa a senhora passar" - interrupções e dos caprichos do campo, habituámo-nos - "ajuda-me aí a subir à árvore" - a jogar ali, sabíamos de cor onde os arbustos e os troncos - "O cabrão do motorista... Lá foi mais uma bola p'ró caralho" - estavam, ao ponto de nunca ninguém ter sido placado pela vegetação - "ressaltos de merda" - numa arrancada -"qual é a tua? Isso é anti-jogo, pá. Sai lá detrás da árvore". Mesmo na madrugada em que decidimos desbastar pela raiz um arbusto com picos, que repetidas vezes nos ferira os antebraços no acto de recuperar a bola, houve uma certa nostalgia. Era uma planta que tinha crescido connosco, literalmente ao mesmo ritmo que nós. Talvez por isso as machadadas tivessem saído tão frouxas. E quando o guarda nocturno se aproximou e nos perguntou o que estávamos a fazer, vimos ali uma desculpa para abortar o projecto, pese embora a resposta cheia de espírito do Afonso - "ratazanas, seu guarda. Têm aqui debaixo uma toca enorme e já morderam o meu irmão mais novo. Vamos inundar isto". O arbusto ferido resistiu mais uns anos, mas deve ter parado de crescer. De outra forma a miudagem mais nova não teria sido tão eficaz a dar cabo dele de vez, uns anos depois.
Esforço-me por não ver do serpenteado daquelas ruas mais do que um labirinto suburbano. E por não fazer do labirinto mais do que um local onde estranhos e taxistas debutantes se perdiam com facilidade. Há anos que não me demoro pelo bairro. Às vezes, sentado na cama de um quarto de hotel, de pé do outro lado do mundo - não domino estas coisas - regressam os troncos de plátanos com declarações de amor gravadas a canivete, os rostos dos condutores da carreira do 21, mas de bigodes trocados, a menina feita mulher da caixa registadora número 2 do supermercado, mas sem precisar a cor da roupa. Lembro-me de onde comprar tubos de plástico a metro para fazer zarabatanas amazónicas, como se ainda precisasse disso. E penso no João, do tempo em que era novo e já maluco, um homem de genealogia censurada, a fazer do bairro aldeia perdida na serra, com o primo a lançar mão à prima e a prima a deixar-se apanhar. Sei evitar os Candeeiros, lugar mal frequentado, mercado de sonhos a prazo e ressaca garantida, que resistiu mais que a praça, mesmo ao lado, agora terra plana à força mas onde, entre tantas peixeiras iguais no arcaboiço e pujança vocal, ia à singular florista comprar cravos, as mesmas flores que aprendi a esconder à passagem do café do retornado de Angola, desde o dia em que ele quase investiu contra mim, como um touro excitado. As silhuetas das faias domesticadas pela poda são termo de comparação e surgem também os plátanos, os abrunheiros e os arbustos, que se enchiam de bagas laranja na Primavera. As oliveiras de outros tempos já então não chegavam para encher a avenida. E o Tejo, ao fundo, encerrava uma promessa de brisa fresca e imutável, apesar da cintura industrial que nos apertava. Acelerados pelos declives suaves vejo bicicletas sofisticadas, skates e patins de linhas futuristas. Mas se espero mais um pouco, oiço também o inconfundível ruído dos rolamentos sobre o asfalto do primeiro carrinho de esferas para três passageiros com molas de colchão convertidas em suspensão traseira. Como se organiza um bairro na cabeça? Se são inúmeras as imagens de fabulosas jogadas que tiveram lugar nos relvados dos Olivais, talvez por aí. As fintas em situação de aperto do meu irmão, os pontapés estratosféricos do Afonso Melo, os raides geniais do gajo mais inteligente que vi a jogar à bola: Diogo Pipa. Havia um tipo, baixinho e entroncado, que se especializou naquele gesto técnico de avançar um pé, encostar-lhe a bola ao calcanhar com o pé traseiro, que depois roda sobre ela e a faz subir um pouco, apenas o suficiente para ser catapultada quando a perna direita dá um coice em colherada, fazendo-a descrever um arco que sobrevoa o corpo do jogador e do defesa, surpreendido e ultrapassado pela bola, que lhe faz um chapéu, e pelo jogador, naquele caso baixinho e entroncado, que o ultrapassava por um dos lados e recuperava o esférico mais à frente. Havia mulheres que tomavam banho a meio da tarde, enquanto jogávamos. Houve noites de Verão com jogatanas em que os petardos do Samagaio por certo baralharam o sonar do morcego solitário que fazia círculos ao candeeiro público. (reformular)
Nova Iorque, 8.01.06
Considero este conjunto de textos o primeiro rascunho que cumpre os objectivos que tinha fixado, isto é, usar o MI como uma oficina de escrita.
O registo da BnO mistura memórias com ficção e a série é apenas uma de um conjunto de que continuarei aqui, varrendo o mesmo tempo mas segundo ângulos e obsessões distintos. Há um plano mais vasto, que passa por não desenvolver estes relatos em paralelo mas cruzando-os, para formar um emaranhado com nós que correspondem a um mesmo episódio contado segundo perspectivas distintas. O registo à base de memórias continuará a funcionar nestes textos como um atractor, para que noutros exercícios de ficção me liberte mais facilmente da tentação da autobiografia.
A presente série avançou sem norte e o conjunto de textos é uma coisa algo esdrúxula. Há um trabalho de revisão e aumento do número de entradas que provavelmente não será feito aqui. Em todo o caso, a reescrita deste material não implicará a sua chamada para a cabeça do blogue. De uma leitura sumária, do início ao fim, resulta claro que os primeiros textos são os menos conseguidos, o que deverá ser corrigido. Também a ordem com que as entradas são listadas, que respeita a data em que foram escritas, deverá ser alterada numa versão mais madura.
O desafio agora consiste em dar uma sequência narrativa a este conjunto de episódios independentes, algo que conto ter presente, desde o início, para as séries futuras.
A BnO, em concreto, interessou-me por três motivos: 1) pela exploraração de um tema menor (jogatanas de futebol entre miúdos), o que me deixou, desde logo, numa posição confortável; 2) pelo modo como fui obrigado a ir inventando histórias diferentes a partir de cirscunstâncias algo restritivas; 3) pelo exercício - excluindo uma minoria de entradas que se limitam a fixar determinadas sensações ou ambientes - de ter de rematar uma história, com uma punchline ou conclusão, sem recorrer ao expediente do fim em aberto. Este último ponto é provavelmente o mais relevante para o autor, sobretudo tendo em conta a minha proverbial incapacidade para terminar os vários contos que vou começando.
Tentar perceber quantas partes de ficção há para cada parte de realidade não me parece relevante. Manuel da Fonseca resolveu a questão de um modo feliz: "uma vez lançado, a realidade e a invenção, mascaradas, jogam às escondidas comigo - nunca sei ao certo, em cada momento, qual delas preside ao que escrevo". O interesse destes textos - a haver algum - não passa pela colagem ao real ou pela honestidade com que conto as experiências que vivi. Nada na vida que serviu como ponto de partida é particularmente extraordinário. Esta circunstância poderia ter funcionado como manifesto estético e contribuído para um registo minimalista ou lacónico. A opção que tomei foi outra: enxertar os relatos com um pouco de fantasia ou sobre-interpretação, de forma a torná-los mais cativantes. Mas aqui senti-me obrigado a não disparar - nem disparatar - para uma prosa onírica, barroca ou de tipo experimental, preferindo antes um discurso bastante contido. A outra regra que impus foi a de partir sempre de uma situação ou impressão reais. Quando falo da visita de um primo americano, lembro-me dele como se tivesse sido ontem. O sacana, lourinho e bonito, jogou realmente futebol connosco e agradou, apesar de ninguém o querer contratar no fim. Ao invés, nunca passou pelo prédio (Avenida Cidade de Luanda, lote 484) um Dirceu, mas era verdade que idolatrávamos o futebol brasileiro de tal forma que o episódio, não sendo real, tem uma verosimilhança - digamos - emocional.
As iniciais, tirando algumas excepções, são inventadas. Estas personagens definem situações e não correspondem a nenhum dos meus vizinhos. Outras há que respeitam o nome ou a alcunha de uma pessoa que conheci. E surgem ainda alguns nomes reais - Afonso, Samagaio e Gantes... - mas não pretendo com isto explorar uma eventual notoriedade presente destas pessoas ou prestar-lhes um tributo. Os motivos desta selecção são algo inexplicáveis, mas acredito ter respeitado o critério que, inconscientemente ou não, fez com que me tivesse afeiçoado mais a uns nomes e apelidos do que a outros.