Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.
(…) Os conselhos que dei a Tatiana devem ter-lhe trazido algum consolo, pois o desprezo com que o rapaz continuou a tratá-la não a abalou. Ela afeiçoou-se depois a um dos homenzinhos, que seria presença regular no seu quarto nos meses seguintes. No começo do Verão Tatiana veio pedir-me explicações de Biologia, cedendo a um momento de frustração. Parecia seguir o mote “concertista ou nada” e entendia a Biologia como uma autoflagelação. Começámos pela mitose, mas resolvi assustá-la e complicar uma matéria que na verdade é muito simples. Não passámos da anafase e em duas semanas ela regressaria ao piano de um dos estúdios da cave. Senti-me então o mais discreto dos mecenas. E ainda hoje consulto o catálogo da Deutsche Gramophone, na esperança de a encontrar. É uma ilusão minha. Como se não bastasse, não me lembro do seu apelido, o que me obriga a inspeccionar com atenção todas as capas de mulheres pianistas. Sei também que devia olhar para editoras menos prestigiadas, mas opto por não o fazer. Gosto de sonhar o sonho dos outros.
Quem abandonaria de vez a música por um trabalho numa editora seria a Veerle, mas à época ela ainda investia na flauta de bisel e na música de câmara de Rameau. Veerle dava-me aulas de Francês e depois trocava-me as voltas com o flamengo (é Belga). Eu ensinava-lhe Português no meu quarto, num sistema de troca directa que só funcionou até Março. Ficámos amigos e, desconfio agora, ela chegou a estar perdidamente apaixonada por mim, mas só durante dois ou três dias. Costumávamos dar uns passeios ao luar e com ela eu conseguia abrandar o passo, o que interpreto hoje como um sinal de desfrute. (…)
Os dias cresciam e começava a fazer menos frio. Jane estava já em França, mas resolvera demorar-se em Biarritz. Comecei então a imaginá-la na minha cabeça: era seguramente caprichosa e geneticamente híbrida, mas não de forma ostensiva, talvez filha de pai húngaro e mãe irlandesa. Delírios para acalmar a ansiedade. (…) No laboratório conseguira ganhar o respeito – mas não a confiança – do meu chefe, Roger Karess. Ele impressionava-se com a minha dedicação ao trabalho e com tiradas em inglês que eu decorara ainda miúdo, quando via o Hill Street Blues. Roger alimentava um fascínio por línguas raro entre os cientistas americanos. Talvez isso tivesse facilitado a sua paixão por Françoise, mesmo se é verdade que ela se expressava num inglês escorreito, sem aquele sotaque anticlimático das francesas. Dois outros sinais da paixão de Karess por línguas eram a lista de expressões em latim perdidas num quadrinho, entre anotações para comprar reagentes, e um conhecimento razoável da obra em inglês de Fernando Pessoa, ainda que de tipo alérgico. Roger preocupava-se um pouco por eu ser tão voluntarioso e achava-me algo excêntrico. Trabalhávamos no C.N.R.S nos arredores de Paris, em Gif-sur-Yvette, e eu tinha já perdido o último comboio de regresso (RER, 23:45 ) a Paris um par de vezes, sendo por isso obrigado a dormir no laboratório. As minhas sugestões para nomear um gene que andávamos a tentar caracterizar também eram também por ele recebidas com alguma apreensão. Apesar de tudo, no final do meu estágio escrever-me-ia uma carta de recomendação catita.
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.
Só anos depois viria a perceber que Tatiana também estava perdidamente apaixonada por mim, coisa que à época nem ela imaginava. É verdade que entrava pelo meu quarto quase sem pedir licença e de camisa de noite, mas buscava apenas conselhos para guiar o seu irrequieto coração. É possível que o meu ar dócil a deixasse à vontade. Ou então seria por vivermos porta com porta e ambos sermos noctívagos. Tatiana era o que genericamente se designa por uma mulher fogosa, de apetites, mas daquelas que recriam a eternidade da chama da paixão apagando e logo reacendendo a vela. Recebia homenzinhos esquálidos e, sendo robusta, confesso que me divertia a imaginar o que se passaria pelo quarto; mais do que folhear mentalmente o kamasutra, era a imagem dos irmãos Cardinali e dos seus exercícios de força que me ocorria. Talvez farta de tais acrobacias, Tatiana andava então obcecada com a estampa da Maison du Portugal, um futuro engenheiro do técnico de feições clássicas e peitorais igualmente apolíneos, que até tinha sido modelo em Portugal. Lembro-me como se fosse ontem: quando lhe perguntei que anúncios fizera, o rapaz abriu um recorte de jornal que levava no bolso e mostrou-me um anúncio para O Expresso, onde apenas se via uma cama e uns pares de pés destapados entre os lençóis. Depois disse:"Estás a ver estes pés? São meus". Nem pedi para que tirasse as peúgas. Naquele tempo ainda tinha uma confiança inabalável nas pessoas. (...)
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.
Jane não chegaria na semana seguinte, como previsto. Tinha ficado retida em Burgos. “Aqui há Paco…”, desabafei, mas o Carlos, talvez por não me querer desapontar, ou então por desconhecimento, não comentou. (…) É verdade que tinha agora outro ânimo. Jane era a cenourinha imaginária que me deixava num trote sem carga. Sentia-me mais leve. E como o tempo psicológico é variável, o telefonema, feito há 28 dias, parecia à distância de muito mais luas. (…) Recuperara o gosto por certas rotinas, como pagar a renda e receber uma pianista russa no meu quarto todos os dias, por volta das duas da manhã. Ah, Françoise. Ah, Tatiana. A Madame Fraçoise, a secretária da residência, teria à época uns 50 anos. Hoje terá menos de 35 mas já então insistia para que a tratássemos por Mademoiselle. (…) De maneira que no final de cada mês eu tinha um encontro pejado de erotismo com esta pós-balzaquiana e a antecipação do seu sorriso matreiro no momento de receber o cheque da renda mensal fazia-me tremer a assinatura. Nos meses seguintes, já depois do meu regresso a Lisboa, quando vim a saber que Mademoiselle Françoise tinha uma paixão desenfreada por mim, estremeceria de novo. (…)
Tatiana tocava Nocturnos de Chopin como uma Florbela Espanca ao piano. Havia nos seus olhos o discreto amendoado das camponesas das estepes russas (...) Não sendo bonita, era arrebatadora.
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.
(…) Afundei-me no trabalho e andava tão embrenhado nas rotinas do laboratório que por vezes chegava a trazer moscas para o quarto, aconchegadas numa prega de roupa ou até nas guedelhas que então usava. Faço notar que tudo isto se passava sem violar os rigorosos critérios de asseio que sempre me nortearam, salvo raríssimas excepções (ver The Nepal Visa, A travel Notebook (March-April, 1998), inédito ), e que aquelas moscas não são de chafurdar nos excrementos do bestiário doméstico, preferindo a fruta. Deitava-me depois sobre a cama, lia Álvaro de Campos e nas pausas seguia com o olhar o silencioso e imprevisível voo das minhas companheiras. Pela manhã as moscas haviam desaparecido, coisa que sentia como mais uma traição. Era esta a dimensão da minha susceptibilidade. Nove dias tinham passado desde o telefonema mas o tempo psicológico é variável e parecia que o sofrimento durava há duas semanas. (…) O sinal para que saísse do vício laboral surgiu na cantina da Cité Internationale: eu e o meu couscous merguez, preparado para um repasto solitário e, de repente, à minha frente, uma miúda praticamente botticelliana. Quando ela abriu a boca, Oh, que boca imoral. E quando falou, Oh, que voz tão doce. E quando entabulou conversa comigo, Oh, céus, obrigado, vou a Fátima de joelhos, estilo allez-retour e com pausa apenas para verter águas, prometo. Porque aquela visão até sabia tocar guitarra. E quando lhe perguntei se tocava Villa-Lobos, Oh, céus, vou também a Santiago de Compostela. E Leo Brower? Oh, céus, faço de uma assentada o Grand Slam da peregrinação no sudoeste europeu: Fátima, Santiago e Lourdes. Ah, mas Deus é um brincalhão! Como se a rapariga tivesse adivinhado os meus pensamentos, pergunta-me de rompante se eu sou crente. Alerta laranja. Pergunta-me depois se eu queria conhecer a palavra de Deus. Alerta vermelho. Digo-lhe que sou uma ovelha tresmalhada, mas ela tinha ímpeto para evangelizar o Magrebe. Nem acabei o merguez. Fugi. Pelo menos o sangue voltara a correr-me nas veias, pensei, enquanto recuperava o fôlego numa escadaria, já ao relento. (...) Quando entrei em casa dei com Ema, uma refugiada chilena na casa dos cinquenta, que reinava no guichet do átrio. Tratava-nos com a arrogância de quem sabia que tinha a inteligência e a cultura espartilhadas pelas funções de recepcionista. Intimidava-me, portanto. E como o sotaque dela e o meu corrompiam a língua francesa em direcções diametralmente opostas, no fundo comunicávamos por gestos, apesar do palavreado. Talvez por isso não tivesse topado, mas nos meses seguintes, já depois do meu regresso a Lisboa, vim a saber que Ema tinha uma paixão desenfreada por mim. Naquela noite adormeci a pensar na Jane. (...)
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.*
(…) A 10 de Fevereiro ela decidiu terminar comigo pelo telefone um namoro de quatro anos. Naquele dia, no meu quarto da Residência André de Gouveia, em Paris, deixei de acreditar no amor e, à falta de um busto de Marconi para atirar ao chão, caí num generalizado estado de prostração. Da janela do quarto fiquei a contar os carros com matrícula estrangeira que iam passado pelo periphérique. Talvez fizesse uma espera a um pensamento profundo, que não chegou a comparecer. (…) Acordei cedo na manhã seguinte, ao som do tema O Estrangeiro, de Caetano Veloso. Viciara-me no vigor daquele piano e o verso “….o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem”, reiterado durante semanas todos os dias, era o substituto acidental das matinais vozes familiares que antes me despertavam para a infância feliz. Oh... Só depois passei a mão pela testa, assim metaforicamente, e detectei dois altinhos, assim reais. Seguiu-se um esgar irónico, a urgência de um espelho e a visão reconfortante do acne, não já juvenil, mas quase. Tinha 22 anos, saúde e o futuro pela frente. Não seria uma mulher a deitar-me por terra. Passei o dia sem sair do quarto, de pijama, faltando ao laboratório e demais obrigações. (…)
O Carlos bateu-me à porta ao fim da tarde. Tinha andado a deambular pela cidade com a Maria, uma moça madrilena sua colega no curso de arquitectura, também estudante do programa Erasmus, que era muito bonita, com aquele rosto de pássaro comum entre as castelhanas. O Carlos parecia ter tempo e talento para tudo fazer pausadamente e em grande estilo, o que era um contraponto ao meu inconsequente frenesim. Ele andava a estudar as pontes de Paris e eu passava os dias a esmagar moscas. Mas havia algo que nos unia, que ia além da sua tendência natural para gostar das pessoas e do meu vício de gostar de quem gosta de mim. Conhecer o Carlos era também um antídoto contra a solidão, pois o seu quarto não ficava a perder para a sala de convívio da casa. Inteirado do problema, disse-me que eu precisava era de estar com outras raparigas e tentou animar-me com a chegada iminente da Jane, uma americana sua conhecida. Não mostrei grande entusiasmo, mas julgo ter sonhado de noite que era o John Weissmuller num rio africano, a crescer em estilo crawl para um crocodilo. Dos poucos sonhos que recordo, este é o mais pateta. (…)
*Inspirado na autobriografia de Maria Filomena Mónica