março 12, 2007

Committed to commuting

Namorei uma mulher de Brooklyn
Ia no metro de Manhattan para lá
Acabou o namoro e ficou a saudade
Do metro de Brooklyn para cá.

agosto 12, 2006

Constipação ligeira

A carne morna
E o sangue congelado.

maio 26, 2006

Lembrete

Não contar aos velhos
Que sei o que sentem
Sempre que os mais novos
Dizem que estão velhos

maio 14, 2006

O fim-de-semana

Uma ilha rodeada de tempo por todos os lados
Onde dá à praia o náufrago dos dias inúteis

maio 07, 2006

Lamento estancado

Queria estar casado e divido a renda da casa com um amigo.
Pintar o quarto do bebé em vez de andar a montar um aquário.
Sentir-me realizado profissionalmente ou ter uma ideia do que se trata.
Viver mais perto da minha família e da minha cidade.

Mas o amigo é dos bons e nunca deixa as cuecas na casa de banho.
De água salgada será o aquário.
Estou sempre a uma experiência de me reconciliar com a Biologia.
E família ainda me visita em Nova Iorque, que não fica no Minnesota.

março 13, 2006

Onomástica profética

Tão Lynda de morrer
Que fez do meu amor
Menos que um nado-morto

março 02, 2006

Coisas que nem Dali

Dali27-1.jpg

Dormir só exercita a imaginação
As pregas dos lençóis, coisas que nem Dali
Dormir só exercita a imaginação
A quem até duvida que um dia sonhou.

fevereiro 21, 2006

Rua com vista sobre o rés-do-chão

Uma rua com vista sobre um rés-do-chão
Eis como avaliar uma cidade
Nem praças nem jardins nem monumentos, sabes
Que as estátuas não te podem render
Esqueço o carro, o trânsito, o asseio das ruas
Os bares com os seus rostos que me arrastam
As repartições públicas que bem despacham
Até um chafariz na madrugada
Faço por ignorar os acasos urbanos
Que os acasos se esgotam no presente
E ignoro os desamores, eternos pois claro
Porque as ruas se querem respeitadas
Mais não sobra que um rés-do-chão no 13ème
De um casal tão feliz que se deixava ver
Não que fosse vaidade ou exibicionismo
Era só compaixão pelos peões.

fevereiro 14, 2006

Sentimentos analfabetos

É uma dedução abandonada e quase
São estes sentimentos quase analfabetos
Uma quase saudade só que por engano
Quase profundo o sono e a insónia desperta
Quase a palavra aaí quase um grito cigano
Sem quase reparar que é uma despedida
Vou num vaivém até ao quase volte-face
Aprendendo sozinho o reencontro quase.

fevereiro 11, 2006

Praia da Rocha I

As três primas
De um amigo
Iam nuas
Pela porta
E a moldura
Definiu
Como agora
Mais que imagem
Fotograma
Ele próprio
Animado

janeiro 27, 2006

Lisboa de bolso

Trago comigo as ruas preferidas
Num mikado de bolso
Que inventa cruzamentos, fere as virilhas
Pica-me quando lhe chego a mão
E se escapa pelos dedos
Caindo nestas cidades bárbaras
De passeios sem calçada.

Passo dias inteiros com dezasseis anos

Passo dias inteiros com dezasseis anos
Desde que acordo até acordar outra vez
Sem que seja nostalgia, não sei o que é
Talvez um passatempo de fim de semana
Não por acaso, surge geralmente ao Sábado.

janeiro 19, 2006

Raparigas ao relento

Raparigas ao relento
Mordem bocas mordem-se elas
Nas praias do sotavento
De noite quando são belas
Iam primeiro as traineiras
E ficavam bem por terra
Mas sem acender fogueiras
Corpo a corpo sem ser guerra
Não perguntem dos perigos
Minha pele nada diz
Surrurraram-me os amigos
Falhei tudo por um triz

janeiro 14, 2006

Amigos destes não podem partir à chuva

Ao Rui

Amigos destes não podem partir à chuva
Abusar das promessas, esboçar encontros
Futuros na reserva em que nunca se toca

As palavras não saem, só o abraço assim
Um segundo mais curto e dois fora de tempo

janeiro 10, 2006

Out of phase*

You surface in my mind every other day
You surface in my mind every other day too

You surface in my mind every third day
You surface in my mind every third day too
And so do you surface every third day

You surface in my mind every fourth day…

Oblivion is nothing but a long period.

* Nota: Out of phase inaugura a sub-série Too risky, que acumula ainda os títulos alternativos Poemas para inglês ver e Aproximação a David Fonseca, funcionando este último como um disclaimer (inglês).

dezembro 20, 2005

Dentro dela é mais bela a tona de água

De dentro para fora é belo o mar
Mesmo quando esquecemos os ouvidos
No fundo é como se um búzio soprasse
Agora em cada orelha sem se ver
Oiço as ondas aqui e a toda a hora
E adio o otorrino, é que ainda
Penso se cheguei mesmo a emergir

Dentro dela é mais bela a tona de água

dezembro 02, 2005

Rewind

Dezembro sucede a Dezembro
Novembro deu em Novembro
Doze anos no mesmo ano
E sempre o ano passado
Vivo em diferido
Repito em replay
Rewind, my mind, rewind
Rewind my mind.

setembro 11, 2005

Outonal

É de bom-tom enaltecer o Outono
Reparar nas primeiras chuvas e
Na frescura do fim da tarde quando
A madrugada foi morna e enfim verde
Mas não se diz nem à boca fechada
Que a arte lixou já três estações

Desagravar o Outono foi acaso?
Feliz quem percebeu ser em Dezembro
Que se olha p´ra Janeiro e a natureza
Não reclama atenção, não muda a cor
De um ano novo a salvo está Outubro
A folha cai e eu gozo sem o risco
De crer que o chão a nós também nos chama

setembro 08, 2005

First Avenue

Antes da despedida o choro, sim?
Para ter tempo de te consolar
E chorar eu na véspera também
E ainda me poderes abraçar

agosto 20, 2005

Marca de nascença

Acaso do soma
Que se soma a ti
Do umbigo mais perto
O sinal tão negro
Procuras no corpo
E o sinal não está
Procuro lembrar-me
E o sinal se foi...

junho 25, 2005

A mão breve no teu flanco

Caio descontinuamente
Jogo sempre a minha mão
A um torso tangencial
Um trapézio animado

Fico então a gozar
A pausa pendular
Mas vou soltando a pele
Vou folgando a pega

Momento por momentum
Gosto de retomar a queda
Um pouco mais ao lado

junho 05, 2005

Truísmo misantropo dúbio

Se só a sós somos nós
Antes sermos nós
A não estarmos sós

maio 07, 2005

O Sábado no escritório

Cuidado, não se aproximem
Nem queiram que vos ajude
Um clandestino de mim
Eis-me aos Sábados aqui
Por favor, sejam meus cúmplices
Digam que me viram, sim
Mas só na Segunda-feira

maio 04, 2005

O desamor continuado

Perdoa se te explico a Primavera
São ritos ancestrais e se algo sobra
A precipitação que te apoquenta
Faz do tesão mais que um desejo, um plano
Começa-se também p´ra se acabar
Não olho para trás, mas sei de cor

Não me falem de virgens ao jantar
Gozo maior não posso conceber
E foi trunfo que usei ainda novo
Apresentar o mar ao meu amigo
Que só olhara montes e planície
Perdi depois o amigo, extraviado
Melhor fim não consigo imaginar

abril 24, 2005

Quando eu morrer

Espalhem-me no montado
Para renascer sobreiro
Um regresso ao Alentejo
Fim por fim, enfim, quieto

abril 22, 2005

Congeminando uma geminação...

logo.jpg

Todas as geminações são
Ridículas.
Não seriam geminações se não fossem
Ridículas.

Também em meu tempo o fiz,
Como sempre,
Ridículo.

As geminações, se há vontade,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca se geminaram
E só congeminaram
É que são
Ridículas.

É oficial: Nova Iorque gemina-se com Lisboa (Av. de Roma)

abril 21, 2005

O fundo perdido

Dizias não estimar o teu sucesso
Cedi-te a minha ambição
Senti que te pesava a consciência
Sosseguei-te com mentiras
À queixa de que falta a atenção
Empenhei todo o meu tempo
Até que se acabou, e eu como que
Não sei, estranho-me agora
Bastante desocupado
Consumido por remorsos
Ando até desmotivado.

março 25, 2005

O poeta sem qualidades

Não pede um café
Sem antes escrever um manifesto
E todos os dias inventa a pólvora
Azar o nosso não ter ofício
Não se lembrando do rastilho
Nunca chega a explodir
Eu admiro a pirotecnia
O fogo de artifício
Não, o fogo de artifício mesmo
Sem artifício, o fogo apenas
De artifício.

março 23, 2005

A cada trinta gasto um

Não sei que lastro se acumula dia a dia
Se é como uma erosão das noites nas manhãs
Ou da poeira que a tarde traz quando a rua
Nas esquinas me lembra os caminhos que errei
Estou num desses dias, a prumo no fulcro
Nem triste nem contente, escondido do mundo
E só me recupero gastando o meu dia
A cada trinta paro e do pouco que faço
(Não chega a ser conserto, é só uma afinação
Um modo de ajustar o sonhado ao possível
Bem a salvo do inverso que faz os dementes)
Fica um saldo aprovado, o valor corrigido
O ajuste que me anima mas só amanhã.

março 19, 2005

A pernoita

Emendamos os corpos nas sombras do quarto
Troco órgãos por sentidos e ouves ao ouvido
Síncrono o peito não nega só que não cede
Não te tenho na mão, decoro-te nos dedos
Mas o tremor que se converte em riso, o que é?
Perfeitos na metade de quem não se entrega
Será noite outra vez e aqui estarei de novo
No quarto nu está mal corrida a persiana

fevereiro 28, 2005

O que se vê da estrada

Na estrada seduz primeiro o que se não vê
Os dez metros para lá do horizonte
O que a curva apertada esconde e não se ouve
Seduzem depois os postes de alta tensão
Os moinhos que soltam a hipnose pela planície
E uma rapina a peneirar ao quilómetro 123
Um marco geodésico impõe-se com nobreza
A mesma nobreza dos tais moinhos
Dos mesmos postes como gigantes perfilados
A nobreza fácil das coisas inanimadas
Há, ainda, os espelhos retrovisores
Três espelhos e o que está para trás
Um quarto espelho e o que vem atrás
Na estrada seduz primeiro o que não se vê.


fevereiro 14, 2005

O pecado pouco original (repescado e revisto)

Todos os dias
Ela trazia
Uma maçã que pousava na mesa
Eu apenas olhava
O rapaz que chegava e trincava
E no dia seguinte
A todos os dias
Na mesa ela ainda pousava
Uma maçã que brilhava
E eu escondido via
O rapaz que chegava e mordia
Só que um dia,
Depois de todos os dias
Como que pela malícia movido
Perguntei-lhe se a maçã era fruto proibido
E ela,
Recolhendo do mundo todo o enfado
Disse apenas que era um pêro encarnado
Então não mais olhei
Não mais perguntei
Só que no dia seguinte
Depois de todos os dias
Mesmo faltando a maçã que eu olhava
E o pêro encarnado que ela dizia
O rapaz trincava
E ela mordia

fevereiro 03, 2005

O programa animal

Comer, a urgência
Fugir, a necessidade
Copular, o desígnio
Depois veio a filosofia
O passatempo.

janeiro 30, 2005

Beijo último

Dei hoje um último beijo
Já sem rotina, sem esperança
Tudo errado
A rua, o tempo, onde beijei
O que é um beijo nas têmporas?
Um beijo fraterno?
Um beijo de amante reciclado?
Um beijo desajeitado.
Começou no que fomos, o beijo
E fez-se choro concêntrico
Numa ausência dupla
O beijo a pairar sem testemunhas
Os teus passos lentos imaginados
A minha fuga apressada
Ainda a pedra não tocou no fundo
E já morreram os círculos no lago
Possa assim morrer o nosso choro
Sem que este beijo se desmanche

agosto 17, 2004

Frenologia passional em hora de ponta

Ângulos só meus naquele rosto
A assimétrica simetria que nem espelhos
Revelam muito os reflexos nos vidros escuros
Mas é uma arte e outros teriam visto
Um rosto banal, à janela como no subsolo
Livres do azar da descoberta acidental
Do encanto das opiniões minoritárias
Não lidam com esta musa na enchente do metro
A pairar sobre o mau cheiro da estação
Não tenho vagar para acidentes em dias úteis
E esta charlatanice automedicada e repetida
De querer ver em certos acasos da carne
Algo para lá do forro dos ossos
Um estandarte da alma a meia haste
Qualquer dia ainda acaba mal
Se a justiça divina aqui não intervém
Que fazer dos rostos feios que juntei?

agosto 11, 2004

Erros bons de um pianista

Um acorde de piano manco na avalanche sinfónica
Um crescendo regravado
Ter virado à esquerda naquele dia chuvoso
O “desculpe, foi engano” ao telefone
Erros sem errata, sem remorso e sem lembrança

agosto 01, 2004

Riso oculto

Concluía-se do seu choro público que a mágoa era imensa
E perguntava-se se ria sozinho, para aferir do grau de loucura
A conclusão e a pergunta mereciam-se
Ambas estavam erradas

abril 03, 2004

O fardo do egocentrismo

As soluções estão em expansão
Afastam-se de mim, centrifugamente e todas
As direcções possíveis todas
As pontas da rosa os espinhos todos
Os pontos do universo todos
Percorridos menos um...
Era um Copérnico duplo, por favor
Quero descentrar a alma.

março 28, 2004

Fitar a noite

Uma cobra branca e outra vermelha, animadas a gasolina
Atrás delas o East River, escuridão animada pela brisa
A seguir, as constelações dos T1 e T2, animados a televisão
E ao fundo só a noite, ainda mais noite
Onde dormem os meus, num ânimo onírico, sem bússola
Sem instrumentos de navegação espalhados sobre a mesa
Como acertar na direcção que leva ao rosto de minha mãe?
Como esperar que se não percam as palavras gritadas?
Palavras que sussurro ao telefone e o diafragma peneira
Daqui não sei a que aponto, se a Estrasburgo ou a Milão
E o erro de um grau apenas chega à Europa agigantado
Em desvio para um par de horas de comboio
Como vencer o ventos, as vagas, o apito dos cargueiros?
Como vencer a dispersão?
O oceano Atlântico é a minha desculpa preferida
Banho-me em desculpas, literalmente
E de bruços penso nas sugestões impossíveis
(O consolo de infiéis, ingratos e cobardes)
Não seria bom fazermos do meridiano mais próximo
Uma linha de metro, direcção Norte?
Marcar encontro diário na coordenada zero
Só porque é fácil de memorizar e, lateralmente
Se aproximam as longitudes?
Truques, truques e mais truques, eu sei
Fito a noite como quem finta os dias
E as palavras continuam a crescer cá dentro
Com a paciência das estalactites
Não chegando a sair, modulam o discurso
Com noções de acústica e rudimentos de espeleologia
Ficaria tudo mais fácil, se por momentos esquecesse
A falta que sinto dos teus olhos.

março 22, 2004

Lx

Suburbano fui, tardiamente resgatado
Ficou-me para sempre aquele defeito de paralaxe
O fascínio pelas ruas velhas e o jeito acrítico
De olhar os caixotes de lixo derrubados, assim poeticamente
Gosto das cidades porque é possível amá-las em paz
Partilhar, sem a presunção da generosidade
Uma cidade desfruta-se em orgia, está visto
E dispensa cartas, remorsos, a sogra e os planos de biografia conjunta
São dois braços mágicos: eternamente disponíveis, logo me abraçam
Quem se atreve a recusar um amor irresponsável ?
Talvez a gente do campo...

março 03, 2004

O amor nos dias úteis

Acordar contigo
Jantar contigo
Adormecer contigo
Ou então
Jantar contigo
Adormecer contigo
Acordar contigo
Ou ainda
Adormecer contigo
Acordar contigo
Jantar contigo
Três instantes
Até à vida contígua
Contigo.

fevereiro 11, 2004

Lamento percentual

Dás-me licença que chore?
Que goze o direito de estar lixado com a vida?
Quinze minutos sem etíopes, sem Hiroshima
É só o que te peço (...sem Bósnia). Creio que o mereço.
Provei-te que deixei de fungar nas paragens de autocarro, certo?
Não passeio a tristeza (...nos elevadores) por bairros desconhecidos
Abdiquei de ser o exibicionista de melancolia, como pediras
Fugi das mulheres (...pendurei a gabardina) resgatadas a silêncios longos
E dos amigos tristes em sintonia, também
Agora sou essencialmente feliz. Enfim, talvez a uns 65%
Feliz sem comprometer a inteligência e o civismo, percebes?
Um homem de esquerda (...ah! E a consciência social) não vai acima dos 70%
Levanto-me cedo, como combináramos
Vou até à janela, faço ginástica à antiga
Teorizo depois em rabiscos: no princípio a tristeza é a mesma
Mas o homem feliz dela se livra nas noites sem sonho
E o melancólico nas noites sem sono.
Uma máxima a ecoar que faz ganhar tempo
Para olhar os círculos e triângulos com a paciência necessária
Em quem espera a certeza de um encaixe perfeito, a mil peças
Visitam-me no instante os corolários banais, que enuncio:
Quem já esteve muito muito triste e o fez notar está lixado
Terá direito a tudo e a muito mais, excepto à mesma tristeza
A menos que não tenha amigos, salvo seja
A quem esteve muito muito triste e já não está sobra alguma nostalgia
(33% de pura estupidez, 33% de comodismo, 33% de aborrecimento
Pouco menos de 1% de idiossincrasias e partes por milhão por descobrir)
Quem aprendeu a estar triste, sabe que a tristeza é para ser gozada a sós
Que deve ignorar 99% dos livros que com ele tentam comunicar
E que como matéria-prima a tristeza é pedra quebradiça
Como lidar com tudo isto? Ninguém sabe.
Por aproximação: 20% de drogas, 70% de razão e 10 % de sorte
Sem garantias, mas com uma palmadinha nas costas, sincera.
De momento sou feliz, a 65%
Já te disse que um homem de esquerda não vai acima de 70%?
Os bichos vão, mas não sabem
70% é suficiente
Mais.

janeiro 06, 2004

Estação Primeira

Na Gare de L´Est regressei ao útero
Não o das arcadas, dos espaços resguardados
E princípio de um fim ou não, carris são carris
Regressei ao útero, pontualmente
O que se espera da ferrovia gaulesa
Mas não de todas as mães.

janeiro 03, 2004

Safari por uma fobia

Sim, no acto mais cobarde esconde-se um herói
O verdadeiro herói tem sempre parte de medroso
O outro, ou é louco ou da ignorância fez coragem
Três trivialidades sobre o medo
Mas não me fales agora de casas assombradas
Não me contes dos monstros que mordem por dentro
A cidade e os seus inúteis monumentos
A estrada que mirra antes de tocar o horizonte
Os camionistas ensonados em contra-mão
Não venhas com o medo entre dois espelhos
Os reflexos que não se anulam mas engrossam
Poupa-me à estafada aritmética do medo
O alastre geométrico (que espelhos e ângulos?)
As metamorfoses e as chatices clínicas
Partamos logo para os medos de estimação
As fobias que nos superam e fascinam
Saltemos a tarântula no precipício às escuras
Explica-me já a agarofobia, mas sem Freud
Será coisa que nasce de fora para dentro?
Um casulo às avessas? Não há quem a alugue?
Só queria dar uma voltinha, mas sem gastar
As metáforas que reservo para o restauro
As rãs, os escorpiões e um certo recurso atlético
Que é o safar dos calcanhares ao 3º ensaio.


outubro 17, 2003

Pariscópio

Pariscópio

Da janela deste quarto
Vejo o meu País
Mas o meu quarto é aqui
E tão longe o meu País
De olhos fechados
À janela deste quarto
É ainda o meu País
Nos gritos desta rua
Oiço o verbo do meu bairro
Nas nuvens que aqui passam
Toco as nuvens que antes vira
E entre os cinzentos
Encontro o branco e o amarelo
O meu País é ali
Mas à janela deste quarto
E mais País aqui
Reflexos, reflexos
O único reflexo
É espreitar pela vidraça
E ver o País inventado
Engrandecido pela tristeza
Que aqui tem morada
Do meu quarto tudo lhe perdoo
E sinto a falta
Que é só falta
À falta de estar lá
Por isso, espreito o meu País
De um nenúfar que flutua
À deriva num qualquer doce engano
O nenúfar é este quarto
O lago é Paris
E Narciso o meu País.

agosto 21, 2003

Alentejo orgânico

Alentejo Orgânico

Em carne viva os dedos
Da cal arrancada com as unhas
Desenho arabescos absurdos
Que escorrem em coágulo
Sentira de madrugada
O achigã pela escama
E o peixe rei pela guelra
No riacho que se calcorreia
Sem pudor, apenas arrepio
Nu diante do sobreiro
Fiz pele da cortiça
Ainda a sombra era inteira
E fazia um frio de Natal
De facas ao relento
No porco que gemeu
Ouvi um cisne a cantar
E do sangue que jorrou
Vi o dia a nascer
O Sol então mais alto
Trouxe calor e cigarras
As cegonhas, os cisões
Ao longe o bombardeiro
Era como uma abetarda
E mais perto a abetarda
Parecia um bombardeiro
Só que manso, sem o pique
Que um búteo vigilante
Ensaiava ao rufo do tractor
Fui depois um funâmbulo
Pelos cabos de alta tensão
Em baixo estava a terra
Menos abaixo um manto de pão
Cantando ia, como se fosse muitos
«Esta terra não é minha
Sou eu que te pertenço »
Quem faz espigas das melodias
Merece o meu respeito
Eu gosto do Alentejo
Era a província que trepidava
Quando ia de cabeça encostada
O meu pai guiava
E minha mãe ainda fumava.

julho 31, 2003

Azul

Porto onde se chega
A gritar mar à vista
Imagem partilhada
Com o escultor anónimo
A figura de proa
O mármore à chuva no jardim
As texturas inventadas
Há uma gota a escorrer
Mas é de carne
O rego por onde vai
E este corpo já não é meu
Se há uma cor que te diga
Eu digo azul
No reflexo de um corvo
Que depois das tangentes
Foge a sete asas
E semeia o Douro
Por caminhos inadiáveis
Voa sem os segredos
Que largou como lastro
Vai com confidências
Que aceita como um destino
Muito além da razão
Foi o meu corpo
Traiu-se sem traidor
Furta-se agora ao rio
Ganha o mar e o deserto
O horizonte em círculo
Esse truque fácil
De não sair do lugar
A patriótica vocação
O abandono existencialista
E a vida corre ao lado
Não se pára o curso de um rio
Com as palmas da mão
Não se troca de foz
Com as voltas na cama
Não cabe um oceano
Nas palavras de um conto
Há algo de trágico
Neste mergulho em apneia
Descubro-te em braçadas
Acima é à tona d’água
E ainda digo azul.

junho 19, 2003

As sombras

Eu que gastava os dias
Fazendo nós das sombras
E via o mundo livre de espanto
Pasmei quando te vi
Tocas também nas sombras
Mas com dedos de oleiro
E as sombras um dia serão cacos
Mas são ânforas e estátuas
E foram argila primeiro
Ver-te depois
Foi uma música a crescer
O acorde pesado e estranho
A canção como voo de pássaro
Atar sombras é tudo o que sei
Não tenho jeito de oleiro
Os meus nós desfazem-se de noite
Quando as estátuas quase falam
E as ânforas ganham vinho
Espero o toque dos teus dedos
Se ao cruzar os braços
Foi em nó cego que fiquei
Antes estátua que quase fala
Antes ânfora que te sacie
E depois caco de fina aresta
Já gastei os dias e sobrou
Uma sombra sem paradeiro.

abril 29, 2003

Zenão

Senão

Deixa-me acreditar, Zenão
Deixa-me ficar em confusão
Pensar que a morte não nos persegue
E que somos nós a persegui-la, então
Que a metade da metade da metade
Seja sempre nunca sempre só metade
Mas um jeito de renascer
Em quem do fim só se abeira.

abril 02, 2003

Assim como

Assim como as almas atormentadas
Que se procuram nos meandros da caligrafia
Como aquele tenente coronel
Ao som de clarins pelas madrugadas suadas
Assim como os que por temor ao sono
Vivem buscando o vértice e a aresta
Como um peregrino arrependido
Em pisadas refeitas até à última encruzilhada
Cheguei, mas devagar
Como uma sombra a crescer.

março 28, 2003

Do tempo suspenso

Um ponteiro das horas ao abandono
Sem roda dentada
Os minutos em ferrugem
Um peso que não se toca
Um segundo vai
E o segundo volta
Sabes,
Via sempre a mesma sombra
No corpo em movimento
Uma sombra parada
Que não se parecia com nada
O céu dava ares de fotografia
Uma imagem sem retoques
A eterna alvorada,
E vinha o padeiro
Depois o carteiro
Mas sobrava sempre a mesma sombra
No corpo em movimento
Era como se o tempo trespassasse
Sem deixar ferida
Um qualquer truque de ilusionismo
Sem verbo, nem nada
Percebes ?