Personagem: excluindo alguns nomes próprios - Marlene, Mimi, Necas, etc - estamos em presença do caso mais gritante de androgenia lexical na Língua Portuguesa. Metade diz no feminino, metade no masculino. E na elite que chega a escrever a palavra, a coisa ainda vem bipartida. Fica por saber se o mesmo indivíduo vai mudando de opinião, se grafa "a personagem" de Junho a Outubro, por lhe soar mais estival, e "o personagem" de Setembro a Abril, ou se a escolha é aleatória e independente das Estações. Aprendi entretanto que a discussão é algo arcaica e ninguém deixa de ter razão. A palavra aos sábios: "o Dicionário Electrónico Houaiss da Língua Portuguesa (...), o dicionário Aurélio – Séc. XXI, o Dicionário da Língua Portuguesa – 2003 (Porto Editora) e o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências), todos eles consideram personagem um «substantivo de dois géneros». Daqui se depreende que, ao contrário da opinião do referido gramático brasileiro [Dicionário de Questões Vernáculas, Livraria Ciência e Tecnologia Editora, São Paulo, Brasil] (...), ‘personagem’ (já) não é uma palavra exclusivamente do género feminino: o seu uso dentro dos dois géneros assim o dita". Estas soluções consensuais aborrecem-me; fazem-nos menos ignorantes do que de facto somos. Ora, um linguista não se quer magnânimo, antes implacável. Haverá alguma mudança social que aconselhe "personagem" a passar a substantivo de dois géneros? Desconheço. Algum argumento do foro estético, como o que devemos usar para erradicar essa foneticamente obtusa palavra que é "poetisa", em favor de um "poeta" como substantivo de dois géneros? Nenhum. É por isso que dou voz ao autor do citado e desautorizado dicionário, que se mostra peremptório no modo como contesta a masculinização da palavra em questão: "é um francesismo". Nem mais. Tendo em conta que o linguista se chama Napoleão Mendes de Almeida, o argumento sai reforçado e eu estou com ele.
Imagem: David Bowie