Todos os anos, renovo os votos para que no Natal não me ofereçam roupa interior com bonecada, cintos de fivela dourada, saca-rolhas, navalhas, bases para copos, cabazes com garrafas de vinho de qualidade suspeita, canetas com cromados, canetas de tinta permanente, carteiras e outra marroquinaria, camisas à beto, pullovers à beto, meias à beto, livros do Miguel Sousa Tavares, perfumes, águas de colónia, cêdês do Phil Collins, bombons, porta-chaves, gravatas com tartarugas, gravatas com cornucópias, enfim, gravatas com motivos e gravatas sem motivos, lenços monogramados - à beto, portanto -, molduras com motivos náuticos - à beto - e tralha de decoração aburguesada, como miniaturas de sextantes e barómetros que não funcionam.
A lista anterior é largamente composta por apetrechos masculinos e apetrechos para betos, dois conjuntos cuja intersecção [corrigido duas vezes]- diga-se - não é um conjunto vazio. Ora, sobre os apetrechos masculinos, um dos poucos que dão jeito não fica bem junto do presépio, por ser descartável, não ligar com a imaculada concepção e despertar nas crianças um desejo inconveniente de encher balões condenados às brasas da lareira, se confiscados pelo tio mais conservador. Sobre os outros apetrechos, o único capaz de despertar alguma cobiça é a namorada do beto, aquela moça de invejável tónus muscular, pele e cabelo bem tratados, que mescla com sabedoria as pérolas da avó e os Adidas Stan Smith cor-de-rosa. Ora, que eu saiba, ainda não se troca de namorada no Natal como trocamos presentes, talvez porque os buraquinhos para respirar iriam estragar o papel com as folhinhas de azevinho. Assim sendo, para evitar estes dois cenários desoladores, não me ofereçam prendas no Natal, a menos que seja um livro bom de um autor bom, um presunto bom ou qualquer outra coisa mesmo especial ou boa. Há 20 anos que sofro da fobia de desembrulhar - que a pressão académica sobre os psiquiatras já deve ter feito síndrome.
Perdi a paciência para o estilo críptico na blogosfera. O post que no fundo é um bilhete para alguém, carregado de segundos sentidos, que é uma inside joke, etc. Poupem-nos. Usem o correio electrónico, raios. Faço aqui um mea culpa, também recorri a tal género, mas é coisa de adolescente.
Uma das práticas mais irritantes que o hábito gera - mas não esgoto o problema - é o uso indiscriminado de uma inicial seguida de um ponto. Há alguma regra estabelecida que desconheça? A inicial corresponde à primeira letra de um dos nomes da pessoa? Podemos usar códigos pessoais, como escolher a terceira letra do nome próprio? Ou será que a escolha é completamente aleatória? E sendo aleatória, como manter consistente o anonimato da pessoa mencionada em dois posts escritos com algum tempo de intervalo? Alguém se preocupa com isto? "R." em Julho é ainda a mesma/mesmo "R." em Setembro? Estas dúvidas consomem-me. Para que serve esta prática? Pretende-se proteger a identidade da pessoa, até aí eu chego, mas será a melhor forma? Os amigos do blogger devem perder horas a tentar descobrir o princípio que os levará a identificar o visado; o que me salva é não ter amigos em comum com bloggers, só mesmo bloggers em comum. Há da parte do blogger um gozo sádico em espicaçar a curiosidade de quem o lê. Não seria melhor dar um número à pessoa cujo anonimato pretendemos proteger? Ou usar referências culturais comuns? Por exemplo, recorrer aos Marretas. Atente-se nestes dois exemplos, adaptados do blogue do Pedro Mexia:
Conversa a altas horas com Miss Piggy, alegre e decidida como de costume, animada por uma espécie de espírito de aventura infantil. Ela diz que «conhece» as mulheres. Eu digo a Miss Piggy que «conhecer» as mulheres é um conceito inútil para os homens. Um homem nunca «conhece» uma mulher. É um conhecimento que nos está vedado. A mulher é absolutamente diferente do homem, fala outra linguagem e pensa de modo diferente. O nosso fascínio pelas mulheres deriva aliás dessa estranheza e desse desconhecimento. Miss Piggy. «conhece» as mulheres porque não as deseja. Os homens desejam as mulheres porque não as «conhecem».
O cozinheiro sueco conta que «as pessoas» dizem isto e aquilo por causa deste texto ou daquele. Explico ao cozinheiro sueco que me é indiferente o que «as pessoas» dizem. Mas depois percebo o temível silogismo. É que 1) se me é indiferente o que as pessoas dizem e 2) se o cozinheiro sueco é uma pessoa 3) então é-me indiferente o que o cozinheiro sueco diz. É nestes momentos que a amizade é um gelo muito fino.
Se calhar este mau gosto morrerá comigo, mas vejo nesta fusão do pathos mexiano com o universo dos Marretas um filão histriónico inesgotável, sem que o texto perca substância. É claro que a Miss Piggy pode retaliar, este método implica algum cuidado, mas pelo menos não é invasivo para o leitor. E o problema que devemos resolver é mesmo esse: como escrever sem perturbar o leitor com o acessório?
A minha solução, que adoptarei de imediato, simplifica tudo. Criei duas figuras - Emmanuelle e Acácio - que passam a funcionar como os representantes dos anónimos que marcarão presença no MI. Emmanuelle e Acácio não têm uma personalidade, não têm uma biografia, não têm uma morada. São toda a gente e não são ninguém - quase oiço a uma guitarra portuguesa a resolver a cadência: tuum, tum.
Emmanuelle pode ser a minha mulher a dias à Segunda, uma colega de laboratório à Terça, uma amiga à Quarta, uma figura excêntrica que vi na rua à Quinta , alguém da minha família à Sexta, o leitor que me envia uma mensagem, etc. O mesmo para Acácio, mas no masculino. Uma terceira figura - piscadela de olho ao movimento LGBT - parece-me por agora desnecessária, mas admito recorrer a "Júlia", que sempre me soou vagamente andrógino.
Este método não só mata a curiosidade do leitor como anula o protagonismo dos anónimos. Tudo se concentra no episódio propriamente dito e, enfim, na minha pessoa, mas aprendemos ontem que o blogue é isso mesmo, uma extensão do pénis - estes insights plenos de frescura esmagam-me, andava eu convencido que a extensão do pénis era o Lamborghini...
Estão pois feitas as apresentações: Emmanuelle e Acácio, a posta restante da onomástica.
Queria expressar o meu sincero agradecimento aos escribas do Diário Ateísta, blogue que visito quando estou mal disposto e preciso de praguejar em silêncio contra alguma das idiotices que se perpetuam na forma de religião. Vibro com cada cacetada deles e isso basta-me. Evito sobretudo perder tempo.
Os livros contra a religião estão na moda. Parece que é uma reacção ao ressurgimento do fanatismo religioso, mas não serei eu a conferir as datas. Daniel Dennett , Richard Dawkins, Sam Harris e até o camaleónico Hitchens escreveram recentemente sobre o tema. Não li nem lerei nenhuma dessas obras; é impossível lá encontrar um argumento novo. Chegou-me o Why I am not a Christian do velho Russell, mas na verdade creio que o essencial é começar a pensar e ir até às últimas consequências do nosso raciocínio. Por volta dos 12, 13, 14 anos isso acontece com algumas pessoas e não precisamos de nenhuma sebenta. O tema é até particularmente desinteressante. Voltamos à conversa de sempre: ninguém se define como ateu e aborrece andar à boleia dos outros. Por outras palavras, eu não acredito em elefantes cor-de-rosa e num mundo em que mais ninguém acredita em elefantes cor-de-rosa esta opinião é irrelevante. Porém, se houver uma percentagem apreciável de pessoas que acreditam em elefantes cor-de-rosa - digamos, dentro de um manicómio -, a minha descrença passa a ser relevante. Não tenho de aceitar esta imposição, prefiro sair do manicómio e se fecho a porta devagar é porque os meus pais me ensinaram algumas boas maneiras.
Não me chateiem com a existência de Deus. A teoria da evolução é ofensiva? Fátima aconteceu? Houve milagres? A terra tem 4000, 6000 anos ou lá o que é? Aquela cena vagamente canibalesca da transubstanciação é para levar a sério? Há vida depois da morte? Por favor. Ignoro toda uma produção de teológos que resolve, harmoniza e reinterpreta os textos sagrados à luz dos resultados da ciência e das tendências sociais, permitindo a vivência religiosa urbana, culta e inteligente? Parabéns. Entretanto, deixem-me ouvir Brad Mehldau em paz, deixem-me trabalhar, deixem-me ler o que me apetece ler, ir onde tenho vontade de ir. Orem, rezem um terço - pela minha alma, já agora, é um voto de confiança - e cantem, se possível afinados e em polifonia.
O Diário Ateísta é um dos blogues mais úteis que conheço. Eles perdem o tempo que eu não quero perder. Sempre que me apetece começar a zurzir contra a religião, vou lá lê-los e a coisa passa. Enfim, quase sempre.
A figura de um irmão mais novo é recorrente entre os benjamins que sonham acordados. Não sei se Freud escreveu sobre isto. Na verdade, não sei sequer se a generalização é válida. Nós os benjamins temos dificuldade em falar destas coisas e ainda não constituímos agremiação anónima. O momento também não é oportuno - talvez não saibam mas há uma criança desaparecida em Portugal. A verdade é que pelo olhar um benjamim descobre no outro a mesma chama do desejo sempre por extinguir; eu vi e sei que não era o reflexo dos meus olhos, porque abanei a cabeça e a chama não mexeu .
O filho único tem um desejo parecido, mas é menos intenso, apenas movido pela curiosidade. Quer um irmão mais novo como se deseja um brinquedo e o capricho extingue-se com a idade. Connosco não. Um irmãozinho mais novo, finalmente alguém em quem dar toda a sarrafada que apanhámos dos irmãos mais velhos. Passam décadas, mas o nosso Sebastiãozinho privado nunca vem e o rito de passagem fica eternamente frustrado. Haverá mais benjamins na rua com candeias em noites de nevoeiro? Encomende-se o estudo ao Instituto de Ciências Sociais, que deve haver verba para isso, mas nós, já adultos, sabemos que ele não virá, nunca mais virá. Ou então aparece na forma de meio-irmão, o que não chega a ser meio gozo. Nada disto é bonito, nem se resolve com animais de pelúcia.