agosto 15, 2007

Deste fardo de ser canhoto (1)

HookeFlea01.jpglft.jpgConto escrever com alguma substância sobre The Left-Hander Syndrome: The Causes and Consequences of Left-Handedness e A Left-hand Turn Around the World, duas obras que tratam do uso assimétrico que fazemos do nosso corpo e que vão muito além da inevitável listinha de canhotos famosos. Os livros formam um par curioso, pois sobre um mesmo objecto de estudo revelam estilos de divulgação científica distintos. Como se topa logo pelos nomes, o The Left-Hander Syndrome é vagamente catastrofista e o The Left-Hand Turn mais descontraído, embora igualmente rigoroso.

Na qualidade de canhoto extremo que tudo faz com a mão esquerda (dispenso a piadinha fácil), que joga futebol com o pé esquerdo, que ouve melhor com o ouvido esquerdo, que tem por dominante o olho esquerdo e que nos tempos da faculdade chegou até a ir ouvir o Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, não sou indiferente ao tema. Confesso-me mesmo algo chocado com o gráfico que retirei do The Left-Hander Syndrome, que me informa da altíssima probabilidade de não chegar aos 80 anos. Se até hoje desprezei o discurso a fazer ao mártir dos meus companheiros canhotos, mesmo sabendo que escapei por apenas uma geração do costume de forçar as crianças a escrever com a mão direita, perante estes dados vejo-me obrigado a rever a minha posição. Os canhotos quinam mais depressa e isto não é nada bom para a minha ansiedade natural.

Em todo o caso, estes dois livros são absolutamente fascinantes, pelo menos para 1 em cada 10 pessoas. Aliás, uma vez provado que os chimpanzés são capazes de aprender uma linguagem e perante a incerteza em saber se a consciência é uma propriedade exclusiva dos seres humanos, o que nos resta como traço distintivo? Talvez só mesmo a desproporção entre destros e canhotos- de 9 para 1 - seja a assinatura da nossa espécie. Bem, isso e a música de Bach.

julho 20, 2007

Árvore da Vida

HookeFlea01.jpgA nossa árvore genealógica comum, que não chega ao grau de resolução dos apelidos mas abraça todos os organismos vivos, das Arqueobactérias a Laetitia Casta, encontra-se aqui.

Esta árvore da vida reflecte uma das propostas de Darwin: a do common descent, isto é, a ideia de que todas as espécies vivas e mortas descendem de um antepassado comum. Na série A Teoria da Evolução e os Seus Inimigos conto esmiuçar este conceito. Por agora deixo apenas três apontamentos.

Um dos nomes mais esquecidos quando se discute esta ideia é Lazzaro Spallanzani (1729-1799), um dos cientistas que contribuíram para erradicar a noção de geração espontânea. Em rigor, seria preciso esperar por um contemporâneo de Darwin, Pasteur, para enterrar de vez tal ideia e Darwin não se empoleirou propriamente nos ombros de Spallanzani. Mas a teoria do common descent pressupõe uma sucessão ininterrupta de gerações, que dura há mais de 3 500 000 000 anos e se ramificou milhentas vezes. Não deixa de ser algo electrificante dar conta que o ADN das células da nossa linha germinal anda a replicar-se há milhares de milhões de anos, inclusive o ADN dos gâmetas dos criacionistas. E se é hoje trivial pensar que cada organismo tem um progenitor, nem sempre foi assim.

A ideia do common descent não foi nova em qualidade, apenas dramaticamente revolucionária no grau. Muitos naturalistas - e taxinomistas em particular - admitiam pequenas variações dentro de cada espécie. O rasgo de Darwin foi ter visto a própria espécie como uma variedade dinâmica. O seu labor foi ter juntado provavelmente todas as evidências à época possíveis que apoiavam a sua ideia. E a sua visão é hoje confirmada por dados vindos de todos os campos da Biologia e áreas próximas. Utilizando a terminologia moderna, Darwin explicou a macroevolução generalizando um modelo então inconsciente de microevolução (voltarei a esta ideia).

Um aspecto curioso da teoria do common descent é que a árvore da vida actual ainda segue, em traços gerais, o esquema de classificação de Lineu, que viveu antes de Darwin e não era um evolucionista. O common descent foi uma daquelas ideias luminosas que explicou o que andava a ser feito e o que fazer a seguir. Deu um sentido à taxonomia, elevando-a, talvez não à condição de uma ciência como a Física - não queremos perturbar as ossadas de Rutherford - mas seguramente um pouco acima da Filatelia. E juntamente com mais umas ideias de Darwin, o common descent veio também a dar um sentido à Biologia.

julho 11, 2007

Onde se aprende sobre a simetria e que a persistência compensa

HookeFlea01.jpgIn this review article we examine the question as to which parameters of facial attraction are amenable to measurement and which tools are available to perform these measurements. The evaluation of facial images, artistic standards, cephalometry, and anthropometry are discussed. Furthermore, we consider how the attractiveness of a face is influenced by symmetry, averageness and distinguishing features such as dental esthetics or genderspecific characteristics.There is a shared concept of what constitutes an "ideal" face. Anthropometric methods are preferable to cephalometric methods in determining the "ideal" face's dimensions, since anthropometric methods are valid, three-dimensional, non-invasive, suitable for a great variety of purposes, and easy to implement.Symmetry and averageness play important roles in determining the attractiveness of a face; although distinguishing features make it extraordinarily beautiful. Such features make a female face appear both childlike and mature as well as expressive. Women's preferences as to what constitutes a particularly attractive male face are controversial, since female observers are greatly influenced by their menstrual cycles or their environment when responding to male faces. Finally, allowance has to be made for the fact that the ideal of beauty is subject to certain fluctuations in fashion. J Orofac Orthop. 2007 Jan;68(1):6-16.

Mas bom, mesmo bom, é este pdf.

junho 03, 2007

Sugestão de leitura

HookeFlea01.jpgRacism, it must be understood, was promulgated by fully credentialed professionals in white lab coats who by their own self-understanding conducted impeccably dispassionate scientific research. The German Medical Association informed Nazi leaders that they certainly would soon devise a foolproof way to detect Jews, Gypsies and homosexuals through blood tests. Few professional groups was more supportive of the Nazi blueprint than physicians. Deichmann points out that biologists enjoyed substantial state funding and, if they didn’t fuss about dismissals of Jewish colleagues or Nazi ideology, had “substantial freedom of research,” including the freedom to experiment on psychiatric and concentration camp inmates: “The fact that some of them made use of this option reveals the abyss of a science without a humane orientation, an orientation that cannot come from science.” Science, in this crudely reductive but widespread rendition, made mass murder all that much easier. Physicians on trial at Nuremberg for camp experiments were quick to cite American examples to show that the task of eliminating "inferior elements" was not a mission unique to Germany. Nuremberg prosecutors, many of whom were themselves under sway of eugenicist notions picked up at home or in the Ivy League, never prosecuted Nazis for sterilizations, only for deaths. (...)
Possibly the eugenics episode may work today as a sobering reminder of how mortal our rulers are and how fallible the scientist is. The eugenics story need to be retold and reviewed so that the wider community weighs the risks in this scientific game and brings to bear the necessary degree of skepticism to ballyhooed claims. As for modern genetical fancies, it is hardly possible to improve on the advice of Herbert Muller who himself flirted with eugenics half a century ago before coming to the conclusion that in order to call the bluff of genetic correctness we first need to organize a "cooperative society [where] inequalities due to artificial class distinction, race prejudice, inherited fortunes and privileges are done away with, which will bring us much closer to the ideal eugenic conditions in which practically every individual will have as favorable opportunities for development as every other, and thus have his potentialities recognizable for what they are...then for the first time we shall have an estimation of a man's intelligence from a genetic standpoint."
The Mystique of Genetic Correctness, por Kurt Jacobsen

junho 01, 2007

Mais respeitinho por Oswald T. Avery, McCarty e MacLeod

HookeFlea01.jpgEspero que esta notícia tenha tido alguma repercussão na imprensa lusa. O Santiago fez uma boa piada sobre o assunto e a sequenciação de genomas pessoais, que arrancou com o genoma de James Watson, o co-descobridor da estrutura do ADN - tem implicações várias que urge - repito:urge - discutir. Não é o que farei aqui e quase oiço o vosso lamento a dar à costa de Long Island. Limito-me a apontar uma calinada brutal que deixa o NYT a dever um pedido de desculpa aos familiares de Oswald T. Avery McCarty e MacLeod, faz do seu autor - Dr. Rothberg, dono da companhia que sequenciou Watson - um ignorante e recorda-nos que devemos desconfiar do NYT como sempre desconfiámos do Jornal do incrível. Mas este erro é também exemplo paradigmático e até ilustrativo - acho que me repito - de um fenómeno de aglutinação indevida de descobertas muito frequente na imprensa e nessa entidade de contornos mal definidos que conhecemos pelo nome de "cultura geral". Explicando melhor: sempre que alguém faz uma descoberta importante, a tendência é para que comece a adquirir fama por descobertas próximas que não lhe pertencem.

Escreveu este palhaço* do Rothberg que Watson foi ?the right guy to do first? because of his discovery that DNA is the basis of heredity. Isto é absolutamente falso, caro leitor. Rothberg merece passar a eternidade a tentar reproduzir um verso de Shakespeare usando exclusivamente as bases do ADN- "A", "C", "G" e "T". O que Watson descobriu foi a estrutura do material hereditário, sugerindo também - com a famosa tirada "it has not escaped our notice...", que só para irritar eu quaso juro ter sido escrita pelo Crick - um mecanismo de replicação. Mas que o ADN era o material hereditário já se sabia e o trabalho é de Avery, McCarty e MacLeod. Estas coisas estragam-me o fim-de-semana, que já não se anunciava famoso.

* É nestas alturas em que a bengalada verbal se impõe que lamento não ter lido Camilo Castelo Branco - esse grande mestre do bota-abaixo - com afinco.


maio 30, 2007

Darwinianas até Setembro

HookeFlea01.jpgO meu colega R. anunciou-me que tinha concluído o Guerra e Paz e que iniciara logo a seguir o Fausto. Senti-me na obrigação de ripostar e comecei há dois dias a leitura dos 4 grandes livros de Darwin, encadernados nesta magnífica edição (que só custa $26). Será uma leitura de capa a contracapa, saltando as introduções. Conheço partes de todos os livros, mas não li nenhum do princípio ao fim. 1500 páginas. Conto ir deixando uns nacos de prosa, sem comentários. Aliás, começo já:

Not a single plant, not even a lichen, grows on this islet [ST. PAUL'S ROCKS]; yet it is inhabited by several insects and spiders. The following list completes, I believe, the terrestrial fauna: a fly (Olfersia) living on the booby, and a tick which must have come here as a parasite on the birds; a small brown moth, belonging to a genus that feeds on feathers; a beetle (Quedius) and a woodlouse from beneath the dung; and lastly, numerous spiders, which I suppose prey on these small attendants and scavengers of the water-fowl. The often repeated description of the stately palm and other noble tropical plants, then birds, and lastly man, taking possession of the coral islets as soon as formed, in the Pacific, is probably not correct; I fear it destroys the poetry of this story, that feather and dirt-feeding and parasitic insects and spiders should be the first inhabitants of newly formed oceanic land.
The Voyage of the Beagle, C.D. (1839)

maio 17, 2007

Esta não é fracturante

HookeFlea01.jpgEstou muito perto de concordar com este post do João Miranda sobre uma discussão que em tempos quase pôs em risco a minha integridade física (como sabem, convivo com esquerdistas e com homossexuais). Tudo o que JM escreve está correcto, nomeadamente:

...dar sangue não é um direito. E depois, um sistema de recolha de sangue não se pode basear apenas em análises pós-recolha. Por um lado porque as análises são falíveis e por outro porque as análises não detectam novas doenças ou novas estirpes das doenças antigas. É por isso que um sistema de recolha de sangue tem que ter uma barreira secundária de segurança baseada em heurísticas que excluam os dadores de maior risco.

Certíssimo. Mas vamos com calma. Saber se ser homossexual (ou ter um comportamento homossexual) deve ser motivo suficiente para excluir um dador é outra questão, que se resolve olhando para os dados epidemiológicos. Quando surgiu a SIDA, os homossexuais eram um grupo de risco que registava uma incidência da doença muito mais elevada do que entre os heterossexuais. Creio que entretanto essa diferença se atenuou. Se os valores actuais não distinguem os dois grupos (para a SIDA e outras doenças transmissíveis pelo sangue), não há qualquer motivo para excluir um homossexual (ou alguém que teve práticas homossexuais) de dar sangue, desde que respeite outros parâmetros normalmente também usados como critério de exclusão, independentemente da orientação ou prática sexual (um comportamento promíscuo, por exemplo).

Aqui há alguns números (mas faltam outros parâmetros). Em todo o caso, parece-me que caminhamos para uma situação em que a incúria dos heterossexuais tornará inadiável, mais dia menos dia, a exclusão do comportamento homossexual como factor de risco. Não deixa de ser curiosa a forma como aqui se chegará. E pergunto: será que a ILGA vai atribuir um prémio colectivo aos camionistas que não gostam da borrachinha, às prostitutas que o consentem, aos maridos que fornicam em prostíbulos e onde calha e às suas submissas e contamináveis mulheres, como mártires voluntários ou não para a igualdade no direito de dar sangue?

Adenda 1: o último parágrado é uma graçola, Tiago. Aquilo que referes como estereótipos antropológicos deve ser a imagem do marido infiel. Sim, as mulheres também podem ser infiéis, mas não era essa a mensagem do último parágrafo. E o teu ponto 2 é exactamente o que eu digo numa palavra apenas: "incúria". A questão que ficou por formular ao João Miranda é: se os dados epidemiológicos, levando em consideração a percentagem estimada de homossexuais na população e, digamos, os casos de infecção nos últimos dez anos, indicarem que a percentagem de infectados por HIV é aproximadamente a mesma entre homossexuais e heterossexuais, que motivos tem ele para excluir uns e não outros? Eu por acaso vejo um, mas também deve ser o que entendes por estereótipo antropológico.

Adenda 2: Para uma porradona bem informada e a sério no JM, vão aqui.

Adenda 3: estes valores (EUA) não batem certo com os dados obtidos para Portugal que linkei. Haverá inúmeras explicações, mas mantenho a orientação do post: se entre os homossexuais há mais casos de SIDA (com uma diferença estatisticamente significativa) do que entre os heterossexuais, há razões para os excluir (como aos toxicodependentes, por exemplo) de dar sangue.

abril 16, 2007

Clara 101: The Denialists

por Michael Specter
The New Yorker, Março 12 2007

HookeFlea01.jpgdenialists.jpgPretende-se o escândalo pelo julgamento de um vírus mas, com tantas ganas na barrela, acaba-se acidentalmente incorrendo no risco de esfolar a casca a uma velha ferida.

A arrogância do "norte científico" facilmente cai na prática de dirigir dedos aos "feiticeiros do sul". Embora da Austrália também se fale (a propósito das arrojadas afirmações de Eleni Papadopulos Eleopulos) o "saco de pancada" deste artigo é invariavelmente a África. A do Sul principalmente na pessoa da sua Ministra da Saúde, mas também à figura do actual presidente da Gâmbia...

Critica-se a irracional negação dos tratamentos descobertos pela ciência e condena-se a igualmente estulta aceitação do tradicional, das ervas e demais mezinhas. Curiosamente porém, não é fácil encontrar dados científicos corroborando ou contradizendo as aclamações populares a tais receitas.

Será científico não procurar evidências claras de que as poções que hoje fazem frente às empresas farmacêuticas não são eficazes? Não é tarefa do investigador despojar-se do acidente e buscar a essência? Será neste caso degradante procurar a verdade do boato? Tenho a impressão que é sempre esta a separar o real do bruxedo. VB

abril 05, 2007

Filosofando na sentina

HookeFlea01.jpgLuc_Ferry.jpgAo ler cientistas nomeando Unamuno pela blogosfera afora, pensei no significado das palavras abreviadas neste título que para aqui anda dependurado, Ph.D. Ligeiramente envergonhado, passei a procurar cultivar-me nos filósofos viventes. Cruzei-me de imediato com uma "estrela" da filosofia francesa, Luc Ferry que, como se diz, não só é um professor de alto nível como também um ensaísta capaz de chegar ao grande público. Na sua prolífica obra (que desconheço ainda), dá alguns toques em temas científicos.

Entre estes consta uma publicação intitulada The New Ecological Order (também editado em português pela ASA). Um soluço inicial (ou chamem-lhe preciosismo meu): este homem refere-se aos seres como "criaturas"! E isto depois de, logo nas primeiras páginas, ter deixado, a propósito da formulação dos Direitos dos Animais, a seguinte pergunta:

Do words still have meaning?

Posso responder com um "semipleonasmo"? "O respeito pela semântica deve ser grande para que nos entendamos". Sendo criatura a característica de quem (ou o quê) é criado, se Luc respeitasse as próprias premissas, não estaríamos agora a ponderar quanto às suas tendências criacionistas.

Mais por excesso de preguiça que por carência de desenvoltura (espero), da filosofia do New Ecological Order continuo pobre. Entretenho-me com os títulos um pouco "festivalérios" das suas secções. Se estes não servirem apenas para adoçar a atenção de um candidato a leitor que folheie o índice, o caso pode torna-se preocupante. Por exemplo, a primeira parte do livro traz ao cabeçalho um Animals, or The Confusion of Genres. Confundo-me já aqui. Um certo goofy dentro de mim solta risadinhas com as próprias piadas acerca dos problemas existenciais dos nossos camaradas inumanos.

Na segunda parte do livro, intitulada The Shadows of the Earth, o autor deseja lançar a semente da Deep Ecology. Será que foi pretensão sua adaptar para o próprio livro estilos do Pentateuco (Aquilo de que no primeiro dia eram as trevas, etc., etc., etc.)? Folheio para a frente. Pelos capítulos subsequentes mais expressões e termos curiosos como Think Like a Mountain, Nazi Ecology, The Incarnations of Leftism, Ecofeminism ou Democratic Ecology. O epílogo sugere até ou um elemento mágico ou uma crónica deficiência no campo das matemáticas - Nationalism and Cosmopolitanism: The Three Cultures.

Espero que o meu cinismo se esgote ao "beber desta água". Talvez aqui encontre o que sempre quis saber acerca do intuito moral da acção humana sobre a Natureza (e nunca tenha tido a coragem para perguntar?). Certo é que a minha mesquinhez teria sido mais madrugadora a despedir-se se não soubesse que Luc Ferry foi Ministro da Educação (e da Juventude, e da Investigação Científica) durante os dois primeiros governos de Raffarin. VB

abril 04, 2007

Seco encontro

HookeFlea01.jpgeinsteinChaplin.jpg

Não deveria escrever tanto sobre ele por incorrer no risco de ser reconhecido como seu admirador. Por outro lado, é difícil voltar os olhos para um texto a popularizar Ciência sem identificar no autor um iconista de Albert Einstein sobre muitos muros e fundos. Quanto mais não seja para vender o artigo ao director de redacção e, por conseguinte, ao público.

Mesmo assim, imagino de modo relaxado a segunda visita de Einstein aos Estados Unidos (em 1931). Conta-se que, nesta, o físico encontrou-se com um outro "génio", Charles Chaplin, durante a première de City Lights. Testemunham-no algumas fotos e o rumor de uma frase do artista, ouvida à socapa, a propósito dos aplausos do público: They cheer me because they understand me, and they cheer you because no one understands you.

Claro que, fosse Albert, naquele instante, ainda vítima de jet-lag, um simples Whatever bastaria como réplica, a qual seria até desobrigada por Chaplin. (Não creio, porém, que Albert tenha chegado de avião.) A primeira das Obras de Caridade Intelectuais, se existissem, deveria ser "adiantar palavras à boca do pobre em dialéctica". Adianto pois à do cientista as seguintes: Meu caro Charles, tudo na vida é tão relativo... VB

abril 02, 2007

Read your Darwin

HookeFlea01.jpgabm29.jpg
Ao vê-lo assim desolado, "Origens" numa mão e Bíblia na outra (direita ou esquerda, sem relevância), medindo-lhes as lombadas e comparando-lhes a textura, destaca-se não o poder dos mecanismos evolutivos sobre a formação das espécies mas o do devir dos tempos sobre a formação de um Actor. No entanto, na obra Inherit the Wind recentemente regressada a Broadway, Christopher Plummer encarna também o vencedor de uma batalha que poderia servir de metáfora à survival of the fittest. Teatralmente falando não exagero: do outro lado da barricada combate Brian Dennehy que, embora representando sublimemente o "àletrismo" bíblico do advogado (de deus?) Matthew Harrison Brady, não sobrevive nem ao seu debilitado e fictício (espero) estado de saúde, nem ao devastador poder de Plummer, no papel do advogado Henry Drummond.
Aos 77 anos, Plummer mostra-nos com quantos alvéolos se faz um par de pulmões, sem envergonhar-se das visíveis "feridas de guerra": o intermitente tremor das mãos, as rugas superficialmente maquiadas, o rubor pré apopléctico ou a mirada distante, à caça do correcto através de um enorme conjunto de memórias. O homem convenceu-me que a avançada idade daquele público de Broadway não resulta da sua fama pelo "Música no Coração" mas da sua mestria como gigante do teatro.

A obra, essa sim produz um desapontamento difícil de definir. Embora vasta no universo de citações (desde de Marx aos Provérbios que aliás lhe dá o título) e rotulada como instrumento de luta contra o McCarthyismo, Inherit the Wind não nega que uma religião não pode ser senão substituída por outra, abrindo assim uma brecha na declaração de liberdade do pensamento. Por esta aceitação da substituição obrigatória e automática, a obra é causa de decepção. Talvez o ano da sua criação (1955) não permitisse mais "liberdades" do que aquelas manifestando desejo de liberdade? Talvez se trate apenas de uma impressão vã, saída deste teclado convicto de apenas um dos termos da equação? Talvez fosse a arte somente sofrível de todos os outros actores em palco?

Mas a explicação mais acertada pode residir no Presente: o actual engano na definição de progresso reflecte-se na constatação de que todos os debates sobre o Monkey Trial não são ainda "águas passadas". VB

março 28, 2007

Clara 101: "Missing link"

por Jonathan Rosen
The New Yorker, Fevereiro 12 2007


HookeFlea01.jpg070212_r15915_p233.jpgO que me surpreendeu enormemente na leitura deste resumo das mais recentes biografias de Russel Wallace não foi a clássica e invariavelmente amarga acusação do seu esquecimento histórico nem o modo como para este contribuíram as "demoníacas" maquinações de Charles D. e amigos, apontando a ribalta na direcção que quase todos conhecemos e popularizamos. De scooping e manipulações editoriais estará, de resto, o diabo cansado de ouvir falar.
A queixa acerca da falta de reconhecimento de Wallace pelas fossas colectivas da memória deveria apenas ser chorada por quem é incapaz de distinguir um humano que com sucesso usa a razão para interagir com (e conhecer algo novo da) matéria, de um outro que une e até combina biologia com espiritismo. Por miúdos: a vida de Russel seria o melhor instrumento na luta do movimento renovador cristão evangélico pela vitória do Intelligent Design; esperemos, portanto, que seja prolongado este olvido.

Mesmo a citação de G. K. Chesterton (Wallace was one of the world's great men because he led a revolution and then a counter-revolution) não desperta grande interesse. Primeiro, porque parece ser esta a palavra perenemente usada para recuperar de modo póstumo a credibilidade de uma conduta duvidosa (e até mesmo "antónima"): Revolução. (Depois, porque a derrota de qualquer movimento revolucionário, desde sempre, há-de ter um aspecto de contra revolução. Que mérito haverá no inevitável?)

O que sim provocou-me alguma dilatação nas pupilas foi a descoberta de um certo Samuel Stevens, taxidermista. No tempo de Darwin e Wallace a vulgarização do interesse em história natural criou no Mercado um espaço para descrições científicas, exposições de novos ecossistemas, catalogação de espécimes, colecção de amostras e toda a quinquilharia embalsamada de animais, plantas e membros de muitas tribos indígenas, que preenche ainda hoje os museus e salões vitorianos. O biólogo era portanto um tipo de celebridade e, como tal, requeria um agente. Samuel Stevens era um desses agentes, conseguia contratos para biólogos junto das instituições organizadoras de expedições (pagas pelos estados/impérios interessados). Partiam então os cientistas rumo à aventura, um olho na ciência e outro na fortuna. A desgraça de Wallace ao ver naufragado o barco que o regressava da sua primeira viagem (à Amazónia, em 1848) estava tanto no atraso da formulação de um modelo que lhe traria fama como na negação de uma confortável economia futura.

Estala-se assim o verniz que recobria a romântica imagem dos naturalistas na berra: Darwin, Huxley, Hooker? VB

março 22, 2007

Regressões Filogenéticas

HookeFlea01.jpgguinness.jpgContar uma história do fim para o princípio levanta uma série de problemas, por se saber como acaba e pela dificuldade que é manter um fluxo narrativo contínuo. É possível ir de Z a A aos soluços, isto é, de X a Z primeiro, depois de V a X, de U a V, e assim sucessivamente, até se chegar ao segmento que vai de A a B. Cada episódio acaba por ser relatado de uma forma convencional, como no filme Memento. Uma alternativa mais ousada é a rebobinagem, que acaba por criar uma outra história e até uma outra realidade. O difícil aqui é evitar o ridículo, sobretudo quando se aplica este modelo de uma forma literal. A um Benny Hill talvez tivesse servido, mas é pouco apelativo acompanhar as acções de um homem que parece sorver o vomitado do chão. Deve ter sido para testar os seus próprios limites que Martin Amis acabou por tentar um exercício destes no livro Time's Arrow, mas mesmo ele, um virtuoso da narrativa, viu-se obrigado a fazer algumas cedências e o resultado final é algo caricato. O livro conta a história de um criminoso de guerra nazi e Amis inverteu totalmente a sequência de eventos, criando uma série de situações insólitas, só que poupou os diálogos, invertendo a ordem das entradas mas deixando-as foneticamente inteligíveis, isto é, a personagem recebe dinheiro do taxista ao entrar no veículo, mas agradece normalmente e não solta um "uoy knaht". Talvez não fosse possível fazer de outro modo, para benefício do leitor.

cladistics.gifVem isto a propósito de um anúncio da televisão britânica à marca Guinness[clique na imagem]. A ideia é brilhante: três amigos estão num bar e acabam de experimentar com inegável prazer um gole da cerveja Guinness. O tempo então pára e depois começa a andar para trás, mas muito para trás. E assim acompanhamos, de um modo vertiginoso, o percurso evolutivo destes três camaradas, de Homo sapiens sapiens a menos sapiens, depois a símio e por aí fora, retrocedendo glaciações e passando por um cometa pelo cometa que terá ensombrado a Terra no Cretácico, até os vermos como peixes pulmonados à beira de uma poça, bebendo um trago de água lamacenta e soltando um som de desconsolo. Good things come to those who wait, é o remate. Nada contra. Aliás, a Guinness é uma das minhas cervejas preferidas e uma refeição aceitável. Chapelada para a Guinness, também, por não ter medo de pegar no tema da evolução, coisa que parece pouco corajosa mas só até ficarmos a saber que as empresas americanas não quiseram patrocinar uma recente exposição em Nova Iorque sobre Charles Darwin, por receio de alienar a sua clientela. Aceito também que quando se trata de rebobinar a história da evolução do Homem 400 milhões de anos num produto de cultura popular é inevitável não fazer cedências, para benefício do leigo. O tempo precisa de ser acelerado e não se podem evitar alguns atalhos nas transições entre espécies. O certo é que aquele percurso evolutivo não vai recuando nos antepassados comuns (C, Z, Y, X), mas sim passando de um modo grosseiro pelos parentes sucessivamente mais afastados (C, B, A, D). O resultado é um hino à evolução assente em preconceitos de criacionista.VMB

março 21, 2007

GAP

MonkeyLover.jpgHookeFlea01.jpgFaz hoje um ano que surgiram na blogosfera dois posts do VMB tocando o tema dos direitos dos animais segundo Martha Nussbaum e Auberon Waugh. Lembro-me bem deles porque vieram encavalitados sobre uma chamada de atenção ao mundo por ocasião do meu aniversário.
Hoje passa a ser tradição o surpreendente vínculo entre a minha idade e a moral do modo como tratamos os bichos. A recorrência desta passa assim a ocupar-me o espaço mental que de outro modo entreter-se-ia com a carga emotiva de testemunhar pela trigésima quinta vez a memória de um nascimento.

Lançado em 1993, o projecto Great Ape (GAP) entra agora numa espécie de crise adolescente. Gary Francione (e outros subscritores originais da declaração dos direitos dos antropóides como nossos "pares") retirou o seu nome do livro e desvia a própria rota em direcção a definições mais abrangentes. Enfim, são os Homo sapiens a tentar decidir quem faz ou não parte da mesma "família moral".

Algo que não entendia muito bem no discurso dos defensores dos animais era a expressão "tratamento inumano". Pensava que por mais caviar, música clássica e paninhos quentes que alguém quisesse aplicar ao próprio cachorro, o tratamento nunca seria realmente "humano" por ser o ser um Canis lupus familiaris. Felizmente, aprendi da filósofa Florence Burgat que a teoria do direito natural moderno (séc. XVII) apoia-se na ideia de que Deus colocou nos seres humanos (e não em qualquer outro animal), como "peça de origem", a propriedade de representar a lei natural. O laicismo do presente apenas reconduz o motivo com o intuito de eliminar Deus da equação: o humano degrada a própria humanidade ao infligir inutilmente a dor sobre outros animais. Parece que dentro da noção dos deveres indirectos, desenvolvida por Kant, cabe este dever do humano para consigo mesmo. "Não farás sofrer os animais inutilmente ou por prazer", portanto.

Eu trabalho com moscas-do-vinagre. Mato milhares desses bichos por semana, disseco-lhes os ovários e destruo-lhes os embriões. Desconheço se (ou quanto) sofrem elas com isto. Tampouco sei ao certo a utilidade da minha investigação, sobretudo por ignorar a quem ou para o quê é ela útil. Ao menos uma certeza existe: gosto do que faço. Portanto, usar os critérios do GAP seria um modo cómodo de justificar o trabalho que me sustenta. Assim, tal como com a pena o filósofo, também eu no laboratório faço (quase inconscientemente) dos animais estas "ficções conceptuais destinadas a delimitar o conjunto dos que não possuem as qualidades necessárias à obtenção de direitos e ao outorgamento de qualquer dignidade". VB

março 20, 2007

A Teoria da Evolução e os seus inimigos

Manuscript_med.jpgHookeFlea01.jpgDiscutir a Teoria da Evolução (TE) como alternativa à teologia natural, cerca de 150 anos após ter sido proposta por Charles Darwin, é uma frustração. Custa perceber que ainda haja tanta gente com instrução a recusar ou a pretender minar esta teoria por puro preconceito religioso, mais ou menos mascarado. Custa ver a forma como muitos a atacam, citando de forma descontextualizada ou desonesta o que os evolucionistas escrevem. E é revoltante ver que quem marca a agenda para estas discussões na praça pública são os criacionistas (ortodoxos), os praticantes do Intelligent design (ID) e sua Santidade o Papa. Tal pressão mediática deixa os evolucionistas numa situação de aperto. Se ripostam, são vistos como um grupo de ateus em pé de guerra com a religião; se ficam calados, passam por arrogantes. Haja bom senso. Os evolucionistas só pretendem que os deixem trabalhar e divulgar as conclusões a que têm chegado. Afastam-se desta polémica porque, justamente, não lhe querem conferir o estatuto de discussão científica. A razão é muito simples: não há dados empíricos nem foram identificadas falhas lógicas que ponham em causa a TE. O que move os críticos não é o rigor científico.

A TE, especialmente como Darwin a descreveu, é, pela sua simplicidade, uma ideia mais bela do que qualquer mito da criação. É deste gosto pessoal que vem a vontade de escrever sobre Evolução mas, em última análise, a relevância da fruição que cada um retira da TE é nula; Darwin não foi importante por ter escrito dois livros de leitura agradável, controversos e que esmagaram a teologia natural, mas por ter dado à Biologia uma teoria geral, que continua a funcionar.

A ideia de que as espécies evoluem não é de Darwin, mas só com a publicação da sua obra The Origin of Species , em 1859, a sociedade despertou para a polémica. O debate dos debates teve lugar em Oxford, a 30 de Junho de 1860, e opôs T.H. Huxley, que fez a apologia das ideias de Darwin, a Samuel Wilberforce, bispo de Oxford. A acreditar no relato de uma das testemunhas, o bispo argumentou…

…[condenando] a teoria de Darwin como não sendo baseada em princípios filosóficos, mas em especulações infundadas, e negando que Darwin tivesse conseguido mostrar uma vez que fosse a alegada transformação de uma espécie noutra. Mencionou ainda a autoridade dos críticos que se lhe opõem - homens eminentes como Sir B. Brodie e o Prof. Owen -, para concluir, já com grande agitação na sala, que se trata de uma teoria degradante para o homem, assente em invenções e não em factos.

O valor deste comentário não se esgota no contexto histórico, pois não só encerra já todos os argumentos que têm sido repetidos desde então e até hoje pelos críticos de Darwin, como explica o alarido. A Igreja, por recusar ver negada ao homem a sua condição de excepção, e a dificuldade natural do Homem em aceitar o macaco na família, de resto um sentimento bem secular que assenta num dos pecados capitais, fazem aqui uma aliança de conveniência que é a causa última de toda a controvérsia. A TE vista como algo degradante para o homem é ainda um resquício da noção antropocêntrica do Universo, que mesmo depois de atacada a dois tempos, primeiro com Copérnico e depois com Darwin, continua a resistir em bastiões e a afiar uns aríetes. Um dos bastiões: a Igreja Católica, cujas fortificações a cada declaração do Papa em serviço parecem recuar no terreno o que ganham em altura. Um dos aríetes: o movimento criacionista, que inclui uma forma particularmente sofisticada, o Intelligent Design (ID). A TE nunca seria alvo de ataques se excluísse o Homem do seu universo de estudo. No fundo, os críticos mais fervorosos estão menos preocupados com o valor da TE e justeza das suas extrapolações do que com a protecção do estatuto do Homem. Um criacionista informado tenderia em teoria para uma posição irredutível à Alfred Wallace, que ao contrário de Darwin defendia para o Homem um estatuto de excepção. Desinformado ou então ciente da insustentabilidade da posição de Wallace, o criacionista decide atacar a própria TE, de uma forma amadora, com argumentos facilmente rebatíveis e particularmente embaraçosos para quem os formula, ou mais sofisticada, com ideias que não enriquecem a discussão sobre a TE, mas exigem algum cuidado e trabalho na resposta.

Para esta batalha são também convocados argumentos meritórios, embora idealmente o contexto devesse ser outro. Uma das críticas incide sobre os “princípios filosóficos” da TE e tem, ainda hoje, um inegável interesse histórico. Até que ponto a TE cumpre os critérios actuais que definem uma teoria científica?

Noutra discussão, que se relaciona com a primeira, haverá lugar para avaliar se a TE tal como Darwin a formulou no seu longo argumento estava bem fundamentada, que outras contribuições foram feitas a seguir, e de que forma validaram as ideias de Darwin e redefiniram a polémicas internas à TE (por outras palavras, em que trabalham os evolucionistas contemporâneos?).

O ID aceita a microevolução; não contesta, por exemplo, que o aparecimento de bactérias resistentes a antibióticos siga os princípios darwinianos de diversidade, hereditariedade e selecção natural. O trunfo do ID, em curiosa sintonia com o actual Papa, é a macroevolução, a tal transformação de uma espécie noutra que Samuel Wilberforce referia já em 1860. Darwin serviria então para explicar os micróbios, mas não como se chega de uma rã a um carneiro (perdoe-se a simplificação). Será este o ponto de partida para discutir alguns dos princípios do ID, como a complexidade irredutível e a complexidade específica, bem como a natureza profundamente anti-científica deste movimento.

O último tópico mencionado por Wilberforce é o dos argumentos de autoridade. Importa o que se diz e como se diz, não quem diz. T.H. Huxley lembrou que "todo o avanço nas ciências naturais passa pela rejeição dos argumentos de autoridade". Esta é uma regra basilar da ciência. Não é por não se ter formação ou currículo de cientista que alguém fica proibido de provar que Einstein ou Darwin estavam errados. Nem de escrever disparates, acrescente-se. Infelizmente, nesta polémica os argumentos de autoridade são abundantes, inclusive na sua forma mais perversa, que é a apropriação indevida. Simplificando: uma táctica recorrente entre os criacionistas é a citação descontextualizada, em que se procura transformar os cientistas em aliados à força. Aos cientistas, por outro lado, é apontado o desprezo pelos adversários, mas perante o grau de ignorância de alguns criacionistas ortodoxos a única alternativa seria a condescendência. Sem grandes surpresas, do argumento de autoridade ao ataque ad hominem é um passo. O debate entre Huxley e Wilberforce, nos seus aspectos mais picarescos, é disso um bom exemplo e o calor da discussão não abrandou entretanto. Richard Dawkins é tido em certos meios como uma espécie de encarnação de Lúcifer.

Há ainda dois elementos, omissos do comentário de Wilberfoce, que são essenciais para se explicar as razões desta polémica. A TE tem qualquer coisa de ovo de Colombo. T.H. Huxley, que produziu em vida um cardápio de citações, ilustrou-o muito bem quando, ao tomar contacto com as ideias de Darwin, exclamou: “como pude ser tão estúpido e não ter pensado eu nisto antes!" Se houve aqui um elogio implícito a uma ideia manifestamente luminosa, também se percebe que a rapidez com que se julga apreender a TE dá azo a grandes equívocos. Comparada com outras teorias em que o formalismo matemático e/ou previsões muito pouco intuitivas (a teoria da relatividade e a mecânica quântica, por exemplo) as deixam a salvo do assalto dos leigos, pela simplicidade dos seus postulados e linguagem corrente com que foi inicialmente descrita a TE fica à mercê de todos.

Por último, o sucesso da TE, a forma como influenciou algumas políticas e chegou a outras disciplinas, explica também alguns dos atritos. O darwinismo social trouxe-lhe má fama por arrastamento e a explosão da sociobiologia nos anos 70 provocou reacções corporativistas entre antropólogos e sociólogos. Slogans grosseiros como "a sobrevivência dos mais aptos" e as sempre apetitosas alusões à selecção sexual conquistaram a linguagem popular e as publicações de divulgação de ciência. A noção de adaptação e o mecanismo de selecção natural passaram a ser usados ad nauseum, da simples blague aos algoritmos genéticos, passando pela teoria da literatura, a memética e a psicologia evolutiva, entre muitas outras áreas, como o tal "canivete suíço conceptual" (esta citação não é de T.H. Huxley mas do meu amigo Rui Martinho), dando alguma razão a quem vê a selecção natural mais como um programa metafísico de investigação do que uma teoria científica. Importa mapear todos estes desenvolvimentos, mas sem esquecer a definição e o objecto de estudo originais. VMB