Sob pressão e sem superstição, a série A Bola no Olival (BnO) atinge a entrada cem e fica agora arquivada. Para uma explicação anedótica de como isto começou, ver 1, 2 e 3. Algumas considerações, mas só mesmo para aficionados, podem ser lidas aqui.
Não queria terminar sem agradecer o incentivo que recebi de algumas pessoas, a saber: Rui Martinho, o amigo que apostou em mim apostando contra, Inês Setil, Paula Duque Magalhães, meu pai, "maradona", Pedro Paixão, leitores que me escreveram e com quem cheguei a ter animadas discussões. Pelas referências simpáticas, agradeço ainda aos autores dos seguintes blogues: Apenas mais Um, Aviz, Blogue de Esquerda (José Mário Silva), Complexidade e Contradição, Límpida Medida, A Montanha Mágica, Pitau Raia e Quatro Caminhos.
Éramos quatro amigos no lancil de um dos passeios da Praça da Figueira, com a euforia dos suburbanos no centro da cidade. A assistir tal felicidade, vários copos de ginjinha, consumidos duas horas antes numa pequena taberna. Na praça cuspíamos para o ar os caroços, até então guardados num lugar da boca que não atrapalhava a fala. Por volta das duas da manhã de um princípio de Verão, bêbados e com o ano escolar resolvido, não se podia pedir muito mais. Com o mesmo grupo havia já conquistado o castelo de Nodar e lá pernoitado. Lembro-me que nos trancámos por dentro e de urinar com eles do topo de uma das muralhas, todos virados para o pôr-do-sol, de costas para uma lua gigantesca e alaranjada. Coisas destas reforçam a camaradagem. Foi com a mesma malta que ganharia o hábito de andar depressa e o vício de viajar. Chegámos ao ponto de criar um nome para o nosso grupo ("Solas"), um logótipo e um poster. O poster mostrava uma fotografia com a pegada de Armstrong na lua, encimada pelo slogan "Por todo o lado" e era a preto e branco, um trabalho enxuto, coisa fina. É agora claro que por essa altura comecei a descolar do futebol. As urgências era outras e infinitas as possibilidades do comboio. Recusara já entrar em peladinhas, o que só me fizera confusão até à segunda nega. E com aqueles amigos, más companhias que nunca tinham experimentado o vício da bola e nem sequer viviam no prédio, tudo se facilitava. Viajar aparecia como uma tentação e eu, ignorando que pôr a paisagem a desfilar é um truque fácil para vencer o tédio, trinquei a maçãzinha com gosto. Nem nesse instante me ocorreu -assim ao jeito de uma revelação - que o futebol é a mais sublime das distracções. Estava frustrado com a bola, farto de ser defesa esquerdo e de não conseguir enviar um petardo do meio da rua ao poste com a bola sempre a meia altura. Viajar parecia até vir com o bónus do vazio competitivo e não podia antecipar o dia em que seria humilhado por um inglês, num posto da guarda nepalesa, a uns 3000 m de altitude, com ele libertar do polegar as páginas do passaporte - o pulha - enquanto enumerava em voz alta todos os países onde estivera. O mais grave foi não me ter apercebido do encanto das coisas depuradas: uma mão-cheia de regras elementares que não custara decorar e seria impensável esquecer, um descampado, quatro pedras, 8 amigos e uma bola garantiram horas, dias, semanas acumuladas de puro gozo. Nunca nos ocorria que o golo de cabeça a partir de um cruzamento do flanco esquerdo repetia a papel químico uma jogada da semana anterior. Parecia sempre que fazíamos tudo pela primeira vez. Estávamos em paz, é o que era. O frenesim das viagens, a ânsia absurda de novidade, só pode responder a um qualquer desequilíbrio.
Não havia forma de o autocarro chegar e optámos por apanhar um táxi de regresso aos Olivais. A caminho do Rossio, um de nós deu inadvertidamente um pontapé numa lata de cerveja vazia, fazendo-a entrar aos trambolhões na grande praça, numa cacofonia que encheu a noite e teria acordado a vizinhança se por ali vivesse gente um pouco menos surda. Aquele som convocou-nos de imediato. Esquecemos o táxi e avançámos ao pontapé na lata. É coisa de rapazes, isto de responder a um objecto que foi posto em movimento com os pés. Estará aqui resolvido o mistério do futebol? Ovo? Galinha? Restauradores. Lisboa era uma cidade praticamente deserta; até as prostitutas da Avenida da Liberdade pareciam ter dado a jornada por terminada. E fomos subindo pela afrancesada Avenida, gozando os passeios como se aproveita um corredor esquerdo livre de defesas. Sentíamos a cidade como o centro do mundo e íamos com a confiança de quem nunca hesita numa encruzilhada, falando cada vez menos uns com os outros, mas sempre ao pontapé na lata. Ninguém nos importunava, nem sequer o guarda-nocturno com a sua farda cinzenta infeliz. Foi neste estado de graça que contornámos o Marquês (três voltas) e nos enfiámos pelas Avenidas Novas. A lata era já mais disco do que cilindro, depois de um de nós lhe ter saltado em cima- "a aderência melhora e o pontapé sai menos caprichoso". O som que fazia tornara-se também mais simpático para a vizinhança.
Há uma hora certa para se dar por encerrado um jantar de amigos. Não sei se é pelo prenúncio de ressaca ou porque um excesso de confiança tende a inquinar o convívio prolongado. Lembro-me que um longo pontapé deixou a lata a dezenas de metros, estávamos já perto da Praça de Touros do Campo Pequeno. "E agora, dizemos o quê?", devemos ter pensado. Eu invejava o jeito para as mulheres de um, o bom senso de outro e a excentricidade tranquila do terceiro, um certo jeito de se conseguir viver num mundo que é só nosso. Eles teriam as suas invejas, também. Numa partida de futebol haveria uma solução fácil. Mas a altas horas da noite, quase sóbrios, num princípio de Verão e sem o futuro resolvido, tudo se complicou.
Acabei sozinho. Eu e a lata. Há coisas que não podemos dizer. Às vezes não nos percebem, outras vezes somos nós que não as entendemos. Não primei pelo raciocínio claro naquela noite. Uma lata ressalta mal e faltou-me a tal cadência da bola contra a parede, que disciplina a mente. Senti ali, talvez pela primeira vez, que todas as amizades são projectos inacabados e que um excesso de sinceridade pode ser contraproducente. A cumplicidade é isso: a mútua percepção da dúvida no outro, por dizermos e ele nos dizer sempre menos do que aquilo que pensamos. Eis uma conclusão que não teria agradado ao Padre Janela: mentir por omissão é um dever. Sorte minha a Igreja não ficar no caminho de regresso a casa. É que fiz ponto de honra de seguir com a lata até ao bairro, e vinha com fúria suficiente para usar a cruz enferrujada como mira e alvo.
São José, com os seus enfermos parqueados nos corredores e as paredes a pedir uma nova demão, só não passava por hospital de campanha de tempos idos por míngua de amputados e de gritos lancinantes. Reinava uma atmosfera de anestesia geral, apenas perturbada pelas reclamações de quem ficava horas à espera. Fazia um mês que por ali andávamos e cruzávamo-nos então com total economia nas saudações. Uma simples negação com a cabeça a responder à pergunta que pairava no ar: "acordou?" Montáramos um plantão com turnos de 3 horas. Duas idas à cidade, quatro módulos das Carris e duas tardes de futebol comprometidas, tudo por solidariedade e difusa penitência. Solidariedade com o rapaz em coma, projectado por um táxi num voo aparatoso. Solidariedade também para com B., que atirara a bola à estrada. Fazíamos as viagens de autocarro sozinhos, ensimesmados em exercícios autopunitivos de história alternativa. De paragem em paragem, íamos num delírio crescente. "E se eu não tivesse passado a bola a B., que a rematou para a estrada? E se eu não tivesse subido tanto e trocado de posição com ele? Falhando eu o jogo, não teria sido outro o encadeamento das jogadas? Na véspera, com o capricho de dormir na cama de cima do beliche, perturbei o campo gravítico e alterei o mundo". A culpa apresentava-se tentacularmente retroactiva.
Fosse como fosse, é um pouco paradoxal que um comatoso puxasse por tanta conversa, e menos paradoxal que a orientássemos em proveito próprio. O sentimento de culpa atenuava-se com a chegada ao hospital. Bastava depois que o familiar de serviço se ausentasse para fumar um cigarro, que logo saía confissão. Mas não procedíamos como se estivéssemos num penedo ou diante de uma campa. Todo o segredo sério encerra um desejo de exposição, que se a sós não é puxado para fora, diante de uma multidão é impedido de sair. Só ali, perante a ínfima probabilidade de o nosso amigo poder acordar sem abrir os olhos, este jogo de forças pendia para a confissão. Por isso contávamos tudo, sem sequer ligar ao mais que provável carolo ou rasteira com que no passado importunáramos o moço que dormia à nossa frente. E em poucas semanas começaram a faltar segredos novos para lhe contar. Foi coisa rápida, talvez por sermos novos e miúdos com alguma instrução e poder de síntese.
Um arranjo perfeito. Até ao dia em ele acordou. Aí fomos da alegria ao sobressalto em fracções de segundo. Houve festa e abraços, claro. A pergunta engatada só saiu mais tarde, em algum elevador: "ouve lá, tu não te lembras de nada?" Como se demorássemos a acreditar no que ele nos dizia, insistimos - "nem daquela vez em que te belisquei a mão?" - e começámos a testar as suas recordações de eventos passados. Com a excepção do acidente com o táxi, ele lembrava-se de tudo para trás. Só do período em que esteve em coma é que não havia registo na sua memória. Porém, a dúvida persistia: "e se não fosse assim?" Ou se, lentamente, ele começasse a recordar todas aquelas vozes? Foi este temor que aos poucos nos afastou dele. Uma injustiça, creio agora, que não conseguimos contrariar. O rapaz isolou-se cada vez mais. Poderia ter acabado mal, no mundo da droga ou pior ainda. Curiosamente, tornou-se seminarista. Ainda me lembro da resposta que o pai de um amigo deu, quando fui jantar a casa dele e o filho lhe perguntou se os padres estavam também obrigados ao sigilo quando as confissões precedem a data da ordenação: "tenho o direito canónico esquecido. Vá, vê se acabas a sopa".
Ao abusar da carga de ombro caí com P. A bola foi recuperada por outros e um contra-ataque deixou-nos isolados e por terra, numa das metades do campo. Por um acaso a minha mão ficou sobre o flanco de P. e foi então que senti no seu corpo uma curvatura inesperada, uma reentrância que cinzelava as suas ancas, tudo isto se passando sem que ele soltasse uma palavra, me agarrasse a mão ou se afastasse de mim, embora a sua respiração se fosse sobrepondo aos gritos longínquos dos atacantes. Julguei-me legitimado para avançar e em segundos a minha mão estava sob a T-shirt de P., tocando uma textura estranha, que talvez fosse gaze e parecia estar húmida de suor. Antes de perceber o que se passava, P. fez-me um pedido, com grande altivez, como se reclamasse os dividendos da minha ousadia: "Não digas nada a ninguém, prometes?" Só então entendi a razão dele jogar sempre com calças de fato de treino e de a sua audácia ultrapassar em muito a sua força física.
Era ainda o tempo em que acreditava numa certa ordem natural das coisas. Deliciava-me com o duelo entre a vilã Kratochvilova e a graciosa Marita Koch, por quem partilhava um fraquinho com o bom do Luís Lopes, o especialista em atletismo da RTP. E apesar do cavalos com arções, a ginástica desportiva era naturalmente mais espectacular quando praticada por mulheres. Só que o futebol estava num patamar diferente e a ideia de ter mulheres em campo parecia-me contranatura. Eu sabia que se tratava de um preconceito, porque aceitava a presença de G. e o rapaz era o pior jogador entre todas as formas vivas, incluindo mulheres e até manatins. A única atenuante era a paixão dele por futebol. Lembro-me de discutirmos este assunto e alguém ter dito: "Somos cúmplices de um crime sempre que deixamos G. jogar, mas ele gosta tanto disto que se trata de um crime passional". Nas mulheres jamais identificara sinais de tal paixão. Pediam-nos para jogar por capricho ou por pretenderem chamar a atenção de um dos nossos craques. Não era coisa séria.
P. mudara-se para o prédio fazia pouco tempo e, por ser filho de pais zelosos e exigentes, era o único a frequentar um colégio em regime semi-interno. Desaparecia nas madrugadas de Segunda e regressava na Sexta, já de noite. Na verdade, só o víamos aos Sábados de manhã, pronto para jogar, com calças de fato de treino, uma T-shirt larga e um boné de basebol, como aqueles que apareciam nos filmes americanos e mais ninguém no bairro usava. Era de poucas falas e um jogador razoável, que não falhava um passe e nunca arriscava uma finta.
O seu "prometes?" final saiu já com a voz absurdamente fina, mas depois P. recompôs-se, eu calei-me e continuámos a jogar. Durante um ano guardei segredo, até que P. se mudou para o liceu do bairro (apertos financeiros?). Percebendo que seria impossível continuar a enganar a rapaziada, compensou a frustração abraçando o basquetebol. E, da noite para o dia, apareceu como mulher, com umas calças de ganga justas, muitas alças sobre os ombros e os cabelos soltos e compridos. A metamorfose de defesa esquerdo em ícone sexual do bairro pode ter sido a sua vingança acidental. Sempre que por mim passava eu voltava ao dia em que caíramos juntos sobre a relva e ficava por momentos a imaginar como teria sido ajudá-la a livrar-se da gaze em que se enrolava para anular as curvas do seu corpo. O futebol é um desporto de contactos e só alguns - os mais lentos de raciocínio - não praticavam flashbacks semelhantes, porque tinham visto uma reportagem na televisão e para eles ela ainda era ele, um caso claro de travestismo.
Numa tarde, pela mão de A., o enciclopédico do futebol britânico, descobrimos a arte de George Best. A. fazia pause no vídeo, dizia "que desperdício de talento, pá...", depois soltava o endiabrado Best, deixava-o marcar um golo soberbo, para logo regressar à sua ladainha: "que desperdício de talento, senhores... Que pena, pá. Que pena este gajo não ter jogado no Liverpool". Da decadência de Best e dos seus problemas com o álcool ele só nos falou a seguir, mas como nota à margem. A. era tão fanático pelo Liverpool que a tragédia de Best não lhe despertava a menor curiosidade. Connosco passou-se o contrário, talvez justamente por culpa de A. e da malfadada cassete com os melhores momentos do Kenny Dalglish, que conhecíamos de cor e tinha a fita riscada como um filme velho. Fugimos a tempo de casa dele, a pensar na bebedeira do Best. De pergunta em pergunta chegámos então ao outro mártir da bebida, Garrincha. E foi assim que todos os bêbados da taberna do bairro se transformaram em velhos craques de futebol em potência e nós nos sentimos obrigados a investigar aquelas vidas.
Agora à distância, a taberna surge numa tonalidade esverdeada e sombria, parecendo que a cor do vidro das garrafas e a escuridão do tinto tomaram conta do estabelecimento; e dos velhos também, com os cantos dos lábios manchados, mesmo se não passavam a manhã a fazer escalas num trombone cheio de verdete. Só alguns olhos azuis brilhantes e um par de olhos escuros vivos ainda resistem, agora na minha memória como antes no corpo deles. Os olhos, pelo menos na aparência, nunca envelhecem, mesmo quando se espreita para dentro e já está tudo morto. Mas naquele tempo os velhos não eram assim tão velhos e por volta das 4 da tarde havia sempre alguém às gargalhadas. Da mão cheia de clientes habituais, 3 tinham pinta de jogador retirado. Enfim, dizíamos nós. Percebemos num homem novo o que é isso da pinta de jogador – o cabelo comprido atrás, a forma de envergar um fato e de abusar do “portanto” -, mas passados 30 anos, o que fica? Não havia forma de saber. Tirando uma exclusão sumária - o marreco da mesa do fundo - ficámos dependentes de palpites. E falhámos todos: um antigo estivador, que ainda fazia uns biscates com um canalizador amigo, um condutor da Carris reformado e um pobre coitado que não falou mas nos disseram ter sido guarda nocturno. Não conseguimos ter nenhuma compaixão por aqueles homens. Se tivessem sido glórias passadas caídas em desgraça... Não nos ocorreu que o condutor da Carris talvez tivesse atropelado uma criança e se consumisse em remorsos. Ou que então o vício se instalara sem causa próxima aparente, como forma de combater o tédio, ou a melancolia que se apodera dos homens de manhã. Sabíamos lá. Não sabíamos nada. Ainda contámos ao dono do estabelecimento o que buscávamos, não se desse o caso de termos falhado à Terça um craque que só se embebedava às Segundas, Quartas e Sextas, mas o homem ficou em silêncio. Depois abandonámos a taberna, conformados. E quando ouvimos, vinda de dentro, a voz do taberneiro, subitamente iluminado e quase a gritar -"Esperem lá, eu conheço um tipo que é amigo do Vítor Baptista..." - não voltámos atrás, dissemos adeus e apenas comentámos entre a malta: "Vítor Baptista? Quem é esse gajo?"
"Há três formas de atingirem a imortalidade no futebol, rapazes, sem contar com as que são infames." Quem o disse chegaria a ministro, mas na altura aproximava-se dos nossos serões passados ao relento apenas com a segurança da sua eloquência. "A primeira não depende de vós: o talento. A segunda deve-se aos caprichos dos Deuses e à vossa persistência: a sorte. Às vezes basta estar no sítio certo na altura certa, mas não há aqui grande mensagem, apenas que não devem desistir. E há uma terceira via: criar um gesto novo". Ninguém o estava a perceber, mas ele continuou. "Têm acompanhado o Mundial, certo? Toda a gente comenta o toque de calcanhar do Sócrates, não é? Daqui a 20 anos ainda falarão dele mas só por causa do calcanhar". Então entusiasmou-se: "... Aquiles é que não gostaria nada de saber desta reputação do Sócrates! Ah!" Como ninguém se juntou a ele na sua risada, apressou-se a retomar a exposição: "O Brasil pode não ganhar o Tetra, o Sócrates pode até retirar-se amanhã. Haverá depois quem diga que o toque nem sequer é dele, o que só aumentará a sua fama. Haverá também quem note que aquilo não é um duplo mortal, que qualquer um consegue fazer um passe de calcanhar, sem perceber que ao banalizar o gesto só engrandece o seu inventor. Descubram um gesto novo no campo, rapazes. Pode ser um jeito de fintar, um passe, qualquer coisa. Mas tem de ser útil, belo, dentro das regras e pouco circense, percebem? Não se lembrem de inclinar a cabeça e desatar a correr com a bola encaixada entre o ombro e uma das bochechas. Inventar é difícil, mas está mais dependente do vosso trabalho do que os outros caminhos para a imortalidade." Ninguém ousou comentar e o futuro ministro afastou-se tranquilamente.
O homem falara para uma roda de dez amigos. Nessa noite, já deitados, todos pensávamos em gestos originais e só um de nós divagava: "mas afinal, quais são as formas infames de atingir a imortalidade?" Nas semanas seguintes, sem que ninguém quisesse admiti-lo, passámos a jogar futebol experimental. Tudo se orientava para servir a criatividade. Um lançamento de linha lateral era logo um projecto. E as jogadas mais absurdas, os erros mais infantis, gozavam de um estado de graça de três segundos, na expectativa sincera de que o desastre se consertasse no último instante e emergisse como uma revelação. Os maus resultados não se fizeram esperar e as nossas várias equipas afundaram-se em todos os campeonatos de bairro. Por isso organizámos uma reunião de carácter urgente. Se houvesse acta, leríamos hoje: " foi aprovado por unanimidade que todas as ideias para novos gestos futebolísticos estão doravante sujeitas a aprovação por uma comissão avaliadora antes da sua execução nos jogos de treino e oficiais, sob pena de expulsão da equipa". É claro que não nos achando com competência e imparcialidade para integrar a tal comissão, fomos bater à porta do futuro ministro. Bem vistas as coisas, a crise tinha sido desencadeada por ele.
"Muito bem, podemos ir para o patamar. Deixem-me ir buscar a bola." E assim, aos Sábados de manhã, as nossas criações eram passadas a pente fino. Duas primeiras conclusões avassaladoras: quase nada do que inventávamos tinha utilidade prática e as poucas criações interessantes só eram originais entre ignorantes". O futuro ministro bem tentava ser simpático: "sim, J., excelente variação sobre o drible da vaca [passar a bola por um lado e contornar o adversário pelo outro], mas o Pelé fez isso ao Mazurkievicz, o guardião do Uruguai, em 1970, também sem tocar na bola. É uma finta magnífica, tão mágica que mesmo não tendo sido golo ainda hoje falamos dela". E depois ia a casa e voltava com livros abertos na página certa, para nos mostrar que falava a verdade." A nossa aprendizagem do acto criativo foi apenas isso: um banho de humildade. Após um mês daquelas sessões, regressámos ao campo com os truques do costume. À porta do futuro ministro só voltaria a tocar um miúdo, ainda ensimesmado com a tal questão. Nesse ano nós recuperámos algumas posições na tabela e muitos anos depois aquele miúdo chegaria a assessor de ministro.
Em rigor seria já a madrugada de São João. Passáramos a noite a saltar a fogueira e as brasas sufocavam nas cinzas. Ainda esvoaçavam pedaços meio queimados de folhas de jornal e eu vi o Pietra agarrado a uma taça e com uma cabeleira de meter medo ao nosso morcego. Eram os restos da espessa resma de edições d´ A Bola, que T. ia acumulando ao longo da época, para queimar em ritual naquela noite, a menos que o Sporting tivesse ganho o campeonato. E naquele ano, como no anterior, não foi difícil atear fogo aos madeiros com tanto jornal à mão. Só por isso o Pietra pairava entre nós, não como uma alma penada, antes simples instantâneo do Ferrari, sustentado pelas correntes térmicas que as lajes mornas ainda alimentavam.
Vi cadeiras herdadas serem consumidas naquele fogo, com os estofos aveludados a fazerem uma chama fugaz e depois o pau a arder devagarinho e a cola a escorrer dos encaixes, num prenúncio das desavenças conjugais que no prédio eram sempre silenciadas. Uns vinte casais e apenas um divórcio durante uma década? Eis uma poderosa estatística que só estalaria muitos anos depois. De vez em quando, lá aparecia uma rapariga a lançar à fogueira um molho de cartas de amor não enviadas e presas por um elástico, que depois um miúdo resgatava do fogo, desaparecendo no escuro como um estafeta da chama olímpica e deixando-a a pensar se fogo ateara pelo fim da carta ou pelo cabeçalho. Mas estes eram episódios pontuais. A rotina consistia apenas em ir saltando a fogueira, com alguns homens por perto, vigilantes. As roupas ganhavam então um cheiro forte e era fumados como enchidos que recolhíamos a casa. Só que naquela noite fiquei com um companheiro até mais tarde. Resolvemos reanimar o fogo e arrastar mais uns madeiros. Quando as labaredas surgiram de novo, sem trocarmos uma palavra, posicionámo-nos em lados opostos, com o fogo no meio. Depois começámos a fazer passar a bola a meia altura, sem a poupar das chamas.
Na véspera estivéramos até às tantas entretidos com o space invaders na televisão da minha sala. Quando desliguei o computador e voltou a imagem da RTP1, surgiu uma cena do filme O Caçador, em que Christopher Walken joga roleta russa, com aqueles olhos exoftálmicos de quem já levou um tiro nos cornos e não deu por isso, tal a sofreguidão com que ainda deseja o tambor do revólver. Ficámos congelados diante do televisor, a gerir a brutal passagem do espaço sideral onde tínhamos 3 vidas de sobra, para um casebre de Saigão em que a cada rodada a probabilidade de morrer era 1/6. E assistimos então à morte de Walken, sem sequer uma vida sobresselente, como se ele estivesse a jogar space invaders num nível já muito avançado. Não olhámos um para o outro, mas para o de Niro. Só ao fim de uns minutos o meu amigo disse: “pá, tu tens um sinal como o de Niro”. E eu: “e tu descansa, que não te pareces nada com o gajo que morreu”.
A bola atravessava a barreira de fogo sem dificuldade, mas ao fim de uma meia hora começava a ficar muito quente e sentíamos o seu calor quando a devolvíamos com o peito do pé. A tendência era para a passar tão devagar quanto possível, cortada , cheia de efeito, para que se demorasse nas chamas. Pela forma como ressaltava nas lajes, sabíamos que estava no limite das costuras. Quantos passes mais? Três? Dois? Um? E foi o meu. A bola não rebentou, mas a câmara de ar cedeu. Foi-se numa explosão pífia em pleno ar e ao chegar ao chão deformou-se logo em hemisfério. Deslizou três palmos antes de parar. O meu amigo olhou para mim, sem sorrir, e eu não sabia o que dizer. Foi então que ele sacou do bolso das calças uma bola de ténis, fê-la saltar como se fosse servir, mas passou-ma depois com o pé, soltando para o ar, quase aliviado: "ainda mexe". Já se ia ouviando a passarada...
A caminho da escola havia um largo com um chão em pedra da calçada, de onde emergiam umas bossas de simetria radial perfeita, regularmente espaçadas umas das outras. Aquele tipo de arquitectura sem arestas não era frequente no bairro. Então quando passou pelo largo um rebanho de ovelhas, um evento raro, fez-se ali um anacronismo duplo. Não sei o que teria passado pela cabeça do arquitecto, mas devia ser homem novo e ler revistas estrangeiras. Talvez ele tivesse imaginado uma representação do mar picado, como ouvimos uma vez de um marinheiro reformado. Mas nós preferimos materializar no empedrado outras ansiedades e apressámo-nos a baptizar o lugar de "largo das mamas". Em rigor, tirando os seios maternos, que para esta estatística não entram, os mais novos não tinham ainda acomodado o relevo de uma mama na palma da mão, nem sentido na ponta dos dedos o atrito da pele e a consistência da sua carne. A nossa ignorância e o desejo teriam então sido o motor da inspiração, pois nem os mais velhos - "isso pedia outro polimento, moços, um mármore rosa de Estremoz..."- nem as mulheres - "que disparate..."- se lembraram de tal nome para o largo. Mas Portugal era ainda o país onde um bispo mandara cortar o espadice dos antúrios usados nos arranjos florais dos altares, e é possível que a ausência de consenso quanto à mensagem subliminar daquela intervenção urbana a tivesse salvo da censura camarária.
As bossas não ultrapassavam a altura do joelho e estavam cerca de 5 metros afastadas umas das outras. Um berlinde lançado do topo de uma delas descreveria uma trajectória difícil de prever, pois aquele chão era feito de intersecções de concavidades suaves e amplas, um pouco como se olhássemos para um tecto invertido de múltiplas abóbadas e cada bossa fosse um capitel de onde cresceria uma coluna de sustentação. O berlinde teria depois falhado a conquista do cume da bossa mais próxima, ganhando momento para uma incursão ainda menos bem-sucedida na bossa seguinte, até morrer num rufo breve e quase inaudível no fosso de um lago artificial, coisa sobredimensionada e que nunca chegaria a encher-se com a água da EPAL, apenas de poças de água da chuva e de folhas secas das árvores circundantes. No curto período de dois ou três anos, a nossa relação com aquele lugar alterava-se. Um miúdo primeiro via os relevos como brinquedos inocentes, cenários improvisados para jogos de mini- golf com bola de futebol. No ano Inverno seguinte, o mesmo miúdo começaria a passar de bicicleta pelos bossas e a arriscar nelas umas secantes vagamente acrobáticas, reclamando depois como troféu a marca deixada na pedra pelos pneus enlameados, que despertaria comentários ordinários entre os colegas. Mas depois vinha um amor de Verão, uma tarde passada a dois no sofá de um apartamento sem pais e sem irmão mais novo, apenas o cúmplice periquito. E "largo das mamas" de súbito deixava de fazer sentido - " afinal os velhos tinham razão"-, soando a topónimo datado, que descartámos com a mesma prontidão com que nos livráramos antes de tantos diminutivos, num subtil sinal de aproximação à maioridade.
Quando um homem que tem a fama de jamais ter falhado uma grande penalidade encontra um guarda-redes com o hábito de as defender, quem arrisca um prognóstico? Naquele dia fizeram-se apostas e havia até raparigas junto ao lancil do passeio. Todos discutiam o momento. Alguns lançavam provocações para o ar. Mas ninguém mais ouviu o que o guardião disse ao craque, quando dele se aproximou: "marcas o penalty ao ângulo superior esquerdo, OK? O meu lado esquerdo, nada de confusões, certo? Eu faço uma estirada do caraças, mas deixo-te depois a bola a pingar e assim tens golo certo na recarga. Que me dizes? Ficaríamos os dois com a reputação intacta, hã?" O atacante não disse nada, estava perplexo. Logo a seguir o guarda-redes recuou até à linha de golo, para não levantar suspeitas. O craque sabia que lhe bastava piscar o olho se estivesse de acordo. Perturbara-o não ter rejeitado imediatamente a proposta. É verdade que tinha sido apanhado de surpresa e não houve tempo para reagir, mas enquanto recuava para tomar balanço, já se ia deixando seduzir pela ideia. Se houvesse dinheiro envolvido, teria provavelmente cuspido na cara do guardião, mas formulada daquela forma, com benefícios para ambas as partes e sem perturbar o espectáculo, a trafulhice parecia-lhe quase íntegra. Só a seguir lhe ocorreu que talvez o guarda-redes não honrasse a sua palavra e segurasse a bola à primeira. Como poderia ele reclamar depois, sem admitir estar a par de tudo? Mas era também claro que podia concordar com o arranjo e rematar depois para o lado oposto, num cheque-mate ao seu cúmplicet. De resto, nada o obrigava a respeitar um aldrabão. Recusar o acordo, por outro lado, teria sido a hipótese mais segura. Dada a possibilidade de traição do guarda-redes, não havia forma de saber se o golo estava garantido e, na dúvida, sempre se salvava a consciência. Mas havia algo que o tentava naquele esquema. Talvez fosse o risco. Ou então era simples curiosidade. Por isso piscou-lhe o olho, entre dois acenos de cabeça discretos. E quando arrancou, não sabia ainda para que lado remataria. O pé acabou a decidir por ele, enviando a bola para onde o guarda-redes queria, talvez por ser a única forma de prolongar aquela história. Seguiu-se uma defesa aparatosa, com o guardião a rechaçar a bola, deixando-a a saltitar diante da baliza escancarada, exatamente como dissera. O craque correu para matar o lance, mas com um nó na garganta. Passou-lhe pela cabeça rematar para as nuvens, como forma de se punir. Porém, sabendo-se punido de antemão, apelou a toda a sua técnica, que não o traiu. Simulou primeiro uma hesitação e deixou que o guarda-redes se levantasse do chão. Depois desferiu um remate assassino, na dose certa de velocidade para que a bola passasse por entre as pernas do seu cúmplice e o marcasse para sempre com um frango monumental.
Um homem apareceu com o filho pelo braço à porta de um seu vizinho. Não queria explicações, apenas vingança. Parecia-lhe justo exigir um ajuste de contas ao pai do miúdo que lhe esmurrara o filho, a tal justiça pelas próprias mãos, só que com mãos alheias. O homem era maneta, no sentido literal de lhe faltar uma mão, mas o que ele reclamava era impossível: que um pai batesse no seu filho, e o fizesse na presença do miúdo que tinha sido esmurrado. No momento em que a conversa decorria, à porta de casa, o olho esquerdo do miúdo começava a mudar de cor. Se espreitássemos com atenção, veríamos que um olho prestes a tornar-se negro tem infinitas cores, um espectro de verdes, amarelos e vermelhos, que logo se tocam nas margens para fazer outras cores, as quais se misturam e se recriam depois também, como um atilho cromático a arder devagar. Mas o agressor não via nada, não se atrevendo sequer a espreitar pelo olho mágico da porta. Tinha a protegê-lo o seu pai, que ia ouvindo vindo do patamar um relato cheio de vícios, feito por um outro pai em estado de choque e por um filho que não dizia duas palavras sem começar a soluçar. Fosse por feitio ou formação profissional, o homem tentava ir extraindo a informação relevante, na esperança de poder formular um juízo. Fazia-o reiterando o exercício de síntese e deixara de ouvir os queixosos, que se repetiam há vários minutos. Num estado de apuro já avançado, recordava os factos, quase murmurando: "durante a segunda parte de uma partida de futebol, o meu filho, que jogava ao ataque, foi empurrado na grande área por um miúdo mais novo e a seguir deu-lhe um murro no olho esquerdo". Limou ainda alguns detalhes, como um pai e um juiz de profissão teriam feito, antes de chegar à síntese derradeira: "o meu filho foi empurrado pela futura vítima e depois esmurrou-a num dos olhos". O veredicto parecia claro. Atenuantes? Logo depois do murro, ainda com as falanges a latejar, o rapaz mergulhou em apneia na sua consciência, em busca de uma justificação para o seu gesto. As vozes indignadas dos outros miúdos foram ficando mais longe, os adversários que pareciam crescer para ele perderam os contornos, mas a sua busca seria em vão. Como recordar aquela ligeira irritação, quando há uns anos o miúdo o superara a contar piadas numa roda de amigos? Que valor atribuir ao sorriso que a peste arrancara da rapariga por ele secretamente adorada? E aquela sensação de repulsa, quando o viu no elevador e percebeu que jamais viria a gostar de alguém com aquelas feições, de onde vinha? Há ódios órfãos que ficam a crescer por dentro e que saltam para fora quando menos se espera. Podíamos agora pensar no remate falhado com a baliza escancarada, ou no serão de estudo que o esperava naquele dia. Frustração, tédio, ansiedade, um empurrão como pretexto para um murro violento que sacuda o quotidiano. Culpado, claro. Mas a discussão parecia eternizar-se. O pai maneta insistia no castigo, que o outro pai recusava, reservando-se o direito de punir o seu filho como, quando e onde entendesse fazê-lo. A vítima deixara de chorar e estava visivelmente cansada. É perante tal impasse que o agressor resolve sair de casa empunhando um martelo de bater bifes. Antes que o pai o conseguisse agarrar e que os vizinhos se refizessem do susto e começassem a correr, o rapaz encosta a mão a uma parede e sem hesitar desfere um violento golpe no dedo médio. Um grito de dor toma então conta do patamar e fica a ouvir-se, enquanto o rapaz se enrola sobre a mão, deixando cair o martelo, que racha um dos ladrilhos do chão. Os vizinhos e o seu pai trocam olhares, incrédulos. Depois o miúdo consegue arrastar-se até casa, o pai fecha a porta, e os vizinhos regressam em silêncio ao seu andar.
É sabido que a magistratura não se dá bem com a tecnologia. Só por isso A. não fez relatos da casa para o bairro; o radioamadorismo não era passatempo que se cultivasse no prédio. Entre os pais, conto um pianista amador, um guitarrista recalcado que deixou marca em Coimbra, uma emulação da Florbela Espanca, um sujeito com gosto pela mecânica, um bom xadrezista e pouco mais. A haver por ali passatempos mais privados, é improvável que não os tivesse topado, se tantas foram as tardes passadas em casa de amigos e alguns os armários e portas abertos por engano. Não imagino poder encontrar algemas na cómoda quarto; penso mais numa bancada de aeromodelismo, numa biblioteca de ciências ocultas, num cavalete iluminado pela luz que vinha da janela. Os passatempos que por ali havia eram os de toda a gente – televisão, passeios ao Domingo, desporto, jornais – e ainda o bridge, que viciara dois ou três iluminados.
Também nós não primávamos pela excentricidade, excluindo o Gantes - que pintava - e um mago da electrónica - que quase não saía de casa. Havia um vasto leque de actividades lúdicas - o judo, a ginástica, o badminton, o ténis, algum instrumento de música e até a equitação - mas quase todas nos eram impostas ou, no mínimo, sugeridas. Por vontade própria, tudo se resumia a futebol, Subbuteo, bicicletas e ZX spectrum. Quem não sabia jogar, vivia o jogo à custa de outros talentos. A. mal sabia dar um chuto na bola, mas tinha uma memória prodigiosa, um débito verbal impressionante e um jeito raro para imitar sotaques, vozes e todo o tipo de sons. No campo divertia-se a comentar as jogadas e a relatá-las em diferido, enquanto esperávamos que alguém regressasse com a bola e a partida pudesse recomeçar. Tolerávamos o capricho a A., porque ele era bom e generoso nas comparações. Até eu tive os meus momentos à Zico, Sócrates, e vários à Zbigniew Boniek e à Karl-Heinz Rummenigge, referências recorrentes nos relatos de A., pelo gozo que lhe dava pronunciar tais nomes. No fim do relato de uma jogada que dera em golo, A. reproduzia a massa sonora de uma multidão em delírio, e aquilo era uma obra de arte de sonoplastia, cheia de sugestões de polifonia, frases distintas sobre o ruído ensurdecedor, buzinas, foguetes, o "gooooooooolo" esganiçado e distante do relatador da cabina do lado e os efeitos de batimento acústico provocados por gritos ligeiramente desafinados. Ninguém percebia como ele conseguia fazer aquilo, mas chegava a ser viciante. Um tipo marcava o golo e corria até junto de A. para encher o ego com o relato épico e ver quem acabara de ter sido: Ardiles ou Platini? A. só evitava fazer comparações com o Maradona, um pouco como o professor que resolve não dar o 20 porque pode sempre aparecer um aluno melhor no ano seguinte. O Maradona era o topo da escala, um nome inatingível... A menos que L. estivesse num dia endiabrado e pela frente encontrasse defesas suficientemente bons para não fazerem figuras tristes, mas incapazes de contrariar o seu drible. A menos que o fim de tarde estivesse de feição: um risco rosa sobre o mar da palha, a chaminé da Petrogal em repouso, um casal de andorinhas a fazer razias ao relvado, o ar quente mas agitado por uma brisa suave. O que dizer então de quem pega no jogo antes do meio campo, e num rodopio se livra de dois defesas e avança pelo flanco direito, rápido e em toques longos, de precisão milimétrica, a fazer a bola quase fugir do seu alcance, como se atirar a bola para a frente fosse menos uma forma de a guiar do que de a perseguir e que, depois de vencidos mais dois defesas, ludibria ainda o guarda-redes e remata para golo, completamente desequilibrado mas com o instinto de goleador alerta? Que dizer de tudo isto, se ainda nem a 1986 tínhamos chegado? "Maradona", claro. Azar o nosso não haver por perto um gravador naquele dia, pois A. esteve à altura do acontecimento, revivendo a jogada e atrasando o momento em que atribuiu a autoria, ciente de que iria quebrar uma regra. O problema surgiu logo a seguir: L. quase repetiu o lance, mas fazendo tudo ainda um pouco melhor: a finta simples deu lugar ao malabarismo - o gesto de encaixar a bola com os pés e de a largar num coice controlado, fazendo com que passe em balão sobre o defesa; a corrida hesitante passou a galope em ziguezague; em vez do corpo em desequilíbrio, vimos um bailarino a dançar sem esforço; e o remate final ainda saiu violento e ao ângulo, a pedir o aconchego de uma rede oficial. Corremos para L. e depois virámo-nos para A. Imperturbável, ele relatou o novo golo, ainda com mais graça, mas também com a precipitação de quem percebeu logo que nome teria de gritar. E, por uma vez, o nome que se ouviu não vinha nas cadernetas.
Podia ter morrido de tantas maneiras que dou comigo a puxar da calculadora para provar com confiança estatística que estou vivo. Quando me perguntam se acredito na vida após a morte, respondo: "naturalmente". O que não acrescento é que julgo estar já a gozar tal vida, desde que abandonei o futebol e agora as fobias me impedem de aderir a um desporto radical. As quatro linhas não são um local assustador, mas se começo a enumerar todos os episódios e a reparar nos pormenores, escapei da morte inúmeras vezes. Com olhos de predador na bola que fugia, fiz slaloms em hora de ponta pelos carros da avenida; por pouco não mergulhei para salvar bolas das rodas dos autocarros da Carris; havia arbustos mal podados, com cepos afiados e inclinados a 45 graus, perfeitos para dizimar uma carga de cavalaria num campo de batalha; algumas arestas do passeio tinham sido acidentalmente lascadas e eram afiadas como lâminas de sílex; dei saltos acima das minhas possibilidades acrobáticas e não sei como não parti o pescoço. Se calhar é mania minha. É verdade que também me ponho a pensar nas vezes em que estive na mira de um jovem com vocação para psicopata. Eram tantas famílias de polícias por ali, que não é difícil imaginar um miúdo à janela no "pum, pum, estás morto" usando a pistola do pai. Nos Olivais havia mortes trágicas, mas apenas uma a cada seis meses: o tipo que se esfarelou quando mergulhou da prancha dos 10 metros e caiu fora da piscina municipal, as velhotas atropeladas perto da Rotunda (episódio recorrente), o adolescente vagamente conhecido - "sim, esse, não te lembras? Suicidou-se"-, os drogados frequentadores dos "Candeeiros", que volta e meia abusavam da dose, o cabo-verdiano que era meu vizinho e comeu o fígado de alguém, o fulano que tombou de um sexto andar pelo vazio central das escadarias, ficando a baloiçar a dois metros do rés-do-chão com a barriga da perna espetada num ferro e que viria depois a morrer de tétano. Eu tinha as vacinas em dia, os cuidados de toda a gente, mas surpreendia-me, antes como agora, que não houvesse mais mortes espectaculares no bairro.
O nosso treinador às vezes fazia comentários crípticos, coisas como: "o equipamento é um equívoco". Ou então era de uma crueldade inusitada: "quem se sacrifica pela equipa bem pode ficar em casa a abrir os pulsos". Mas ele tinha uma visão e quem o conhecesse facilmente o percebia. L. não era rapaz de muita leitura, só que era habitado por uma intuição tramada. Cedo percebeu o poder do ciúme e como a ansiedade pode ser uma força motriz. Ele aproveitava tudo o que os jogadores tinham para oferecer, mas não olhava para eles como pedras de xadrez, objectos inanimados capazes apenas de executar gestos técnicos pré-estabelecidos, nunca se revoltando contra a sua natureza. L. conhecia a natureza dos seus, só que havia mais. Segundo ele, para que a imagem do jogo de xadrez funcionasse, os peões, os cavalos, os bispos e a realeza teriam de se relacionar como se viessem mesmo de um reino, com as intrigas da corte, as tensões sociais e os caprichos equinos. "O xadrez é para gajos pouco inteligentes e sem sensibilidade". Porque o cavalo nunca resolve começar a avançar pelas diagonais. "Viciei-me nas emoções alheias. Para mim não há melhor barro do que este". É verdade que L. era implacável, mas não se podia dar ao luxo do oleiro, que só tem olhos para a vasilha e joga a matéria-prima para o chão. Cada gesto de L. era para engatar o futuro. Jogador preterido fica com fome de bola para o próximo encontro. Uma crítica diante de todos ecoa sabe-se lá com que reverberação. O génio de L. era dominar a dinâmica de tais incubações e assim ir norteando a equipa ao longo da temporada, dando-lhe alento. Funcionava como um gestor de esperanças. E na véspera dos jogos, passava a maestro de almas. Profundo conhecedor do dia-a-dia no bairro, identificava qualquer atrito e aproveitava as tensões da semana para motivar os extremos, lixados um com o outro mas sem outra hipotése de canalizar a raiva senão pelos corredores respectivos. Pazes refeitas atiravam o par para a zona defensiva e não havia dupla de centrais mais unida. Se o guarda-redes adversário tinha roubado uma namorada, o avançado estava escolhido: o melhor amigo do cornudo, que este, com a cautela recomendada, ficava sempre no banco. A ciumeira entre os craques da equipa era usada para animar um triângulo que avançava pelo campo em tabelinhas desconcertantes e a uma velocidade vertiginosa, como se qualquer um dos vértices quisesse na verdade que os outros perdessem o domínio da bola. E no centro deste arraial de emoções, o armador de jogo, alguém que parasse pouco pelo bairro, sem grandes intimidades, capaz de entregar a bola a quem a merecia e sem as oscilações de temperamento e os estados de alma comuns num grupo de amigos.
"A bola ia com efeito. Rematei de um ângulo apertado e com dois defesas à minha frente. Foi um golo incrível, mas quando o poste é uma pedra e a bola é metida a um dos ângulos superiores a dúvida pode persistir. Passou por dentro do poste. Foi a impressão com que fiquei. Perguntaram-me se tinha sido golo e eu disse que sim. Os da minha equipa concordaram comigo; os outros nem tanto. Mas tinham dúvidas. Decidimos que tinha sido golo. Acredito naquele golo. Foi há tantos anos. O jogo contava para um... Sabes, às vezes a dúvida instala-se e é como uma coisa insidiosa. A dúvida vai então buscar um pouco a todas as outras dúvidas que trazemos connosco, revelando uma capacidade de mobilização impossível de igualar. Como se lida com um exército de dúvidas? Decapitando o general, claro.
Não sei o que se passou. A culpa pode ter sido de um pedreiro que tinha um fio-de-prumo caprichoso e fez as verticais do prédio ligeiramente oblíquas, más para referenciais. Gosto destas justificações fantásticas. Às vezes o estilo ajuda. Mas é verdade que me incomoda agora não poder saber se foi golo ou não. Felizmente não procurei deliberadamente esta incerteza, ou então desesperaria. Talvez não mereça a sorte de a dúvida estar lá desde o princípio, antes até de a bola ter transposto a linha de golo. Na altura pareceu-me golo, sim, mas logo hesitei. Não há nada mais corrosivo do que uma dúvida que perturba a ordem a que nos habituámos e disso estou livre.
Não chega a ser um fardo, isto que carrego. A propósito, nunca percebi muito bem a imagem do fardo. Para mim o peso na consciência tem a dinâmica do pêndulo: um movimento que se repete, com o pânico das acelerações e os tempos quase parados, numa ilusão de tranquilidade. Os anos vão carregando o pêndulo, reforçando-lhe a inércia. A tendência só de contraria com uma tesoura. E quando o pêndulo se solta, cai sem barulho. Ainda acho que foi golo. Foi golo seguramente. E um belíssimo golo."
Um jogo em que nenhum dos adversários pretende ganhar roça o absurdo, mas podemos imaginar enredos verosímeis que conduzem a tal desordem. Em regra são situações que tendem para a simetria: A equipa A é comprada para perder e o mesmo acontece com a equipa B; impera na equipa A um sentimento de culpa que se tenta atenuar forçando a derrota, mas a equipa B carrega fardo idêntico; num jogo de uma equipa de pais contra os seus filhos, os pais torcem pelos filhos e os filhos - enfim, depende das idades - têm pena dos pais. Percebe-se a ideia. A arte de perder é muito mais elaborada do que a de ganhar. Não faço aqui o culto dos vencidos, que me parece uma moda de intelectual um pouco tonta. Não discuto o diferencial moral que dizem existir por defeito entre quem ganha e quem perde. Limito-me aos requisitos técnicos: perder é mais difícil do que ganhar quando não se deseja propriamente a derrota, mas antes que o adversário ganhe e fique com a sensação de ter realmente conquistado a vitória.
No futebol tudo pode convergir na mente e consciência de cada um dos armadores de jogo. Eles são os pólos num jogo em que todos os outros desempenham um papel secundário. Um pequeno comentário para os guarda-redes: guardam a chave da derrota, mas não é fácil simular um frango. Também muitas vezes perguntei se não haveria nos registos das televisões imagens de guardiões dementes, que comprometem a equipa entrando pela baliza a passo, com a bola nas mãos. Nunca vi tal imagem. O guarda-redes que sobrevive aos anos de formação deve ter nervos de aço e uma mente sadia que não se presta a caprichos. Não era o caso de T. e O.
Uns anos mais velho que T., O. alimentava com ele uma relação mestre-discípulo que o outro negava. T., por seu turno, nutria por O. uma admiração doentia, razoavelmente assexuada. O. costumava dizer-lhe: "o dia chegará em que tu passarás a dominar os jogos. Então deixarei de jogar e arranjo outro entretenimento"; que na verdade já existia e era a fotografia. O. andava obcecado com as maravilhas da câmara escura, aquele momento mágico em que o nitrato de prata traduz o que viu e a imagem emerge da folha. Havia um interesse adicional, que se conciliava na perfeição com os tempos mortos do processo de revelação: Sofia, despida e iluminada pela sombria luz vermelha. O. queria perder, dar a T. a confiança necessária para assumir o comando da equipa e poder enfim dedicar-se à fotografia e ao amor. Era uma pretensão legítima e seria num jogo de treino, em que jogávamos entre nós, com T. e O. em equipas diferentes, que tudo viria a acontecer. Alguma economia narrativa faz com que assistamos nos filmes ao momento em que os dois inimigos se procuram no campo de batalha, como se todos os outros guerreiros não existissem e nenhuma outra espada contasse. No relvado sucede o mesmo. O. insistia em falhar os passes, mas com a mestria de quem consegue fazer parecer que foi o companheiro de equipa que não deu o seu melhor. Rematava muito, mas sempre a rasar a barra. T. logo percebeu e abrandou o ritmo. Começou a cometer erros clamorosos, mas que compensava depois com jogadas geniais e inconsequentes. Ambos mantinham o seu estatuto, mas nenhum deles ajudava a equipa. O jogo arrastou-se nesta arte do quase-bom-futebol, sem que os companheiros percebessem o que se passava. Já no fim do encontro, o resultado e um canto trazem o guarda-redes da equipa atacante para a zona de remate (era um bom cabeceador), mas o canto resulta em contra-ataque. Não me perguntem exactamente como, mas a dada altura eu só vi T. e O. correndo para a bola e mais ninguém entre eles e a baliza deserta. O. e T. teriam talvez mais vontade de trocar ideias do que de jogar futebol. O. que levava alguma vantagem, abrandou ligeiramente a corrida e nisto foi seguido por T. Não chegaram a parar porque um deles se apercebeu quão ridícula a situação seria. O. jogou então uma cartada forte e simulou uma cãibra, que o atirou para o chão, e o fez rebolar ao bom estilo do Manuel Fernandes. T. viu-se encurralado e sem outro destino senão marcar o golo do empate, mas resolveu abusar da sorte, desinteressar-se do lance e correr em socorro de T., como se a lesão fosse um caso de vida ou morte. A bola perdeu-se pela linha final, enquanto T. agarrava e esticava a perna de O. Percebemos que conversavam, mas ninguém sabe exactamente o que diziam um ao outro. Ambos sorriam.
L. gostava de futebol como ninguém, mas não sabia dar um chuto na bola. A sorte dele foi ter topado a sua vocação bem cedo. Jogava-se à conquista do mundo: dois canivetes pesados, o mundo representado por um círculo traçado na terra e o objectivo de conquistar território à força de espetar o canivete a menos de um palmo da posição onde se tinha enterrado antes, unindo depois os dois pontos como quem traça uma fronteira. Na altura de recomeçarmos um novo jogo, procurávamos terra incógnita, mas antes que alguém tivesse tido tempo de desenhar um círculo, L. traçou um rectângulo. "Oiçam-me por uns momentos". Este "oiçam-me por uns momentos" viria a torná-lo famoso no prédio. Rapidamente percebemos que quando L. pedia que o ouvíssemos ele tinha realmente algo para contar: tácticas, desdobramentos, notas à margem para os desempenhos individuais, dicas sobre como gerir o esforço físico e, claro, o discurso arrebatador que nos enchia de confiança e sede de vitória. "Sou um treinador sem contrato, imune à chicotada psicológica. Os jogadores procuram-me". Ao contrário do que se possa pensar, L. não esmagou todas as outras equipas. A explicação é castiça: quase por acaso ele acabou a treinar todas as equipas. A sua excepcionalidade fazia com que todos o procurassem; a sua generosidade, com que a todos desse atenção; a sua visão, com que o tacanho espírito competitivo não o aprisionasse- "estou no futebol para resolver problemas". Cada jogo era uma partida de L. contra L., como um xadrezista misantropo.
Só por uma vez este fora de série cedeu à vaidade e estimularia o culto da personalidade. Havia obras na rua, era já um fim de tarde e os trabalhadores regressavam a casa. Faziam a recuperação de um tanque de lavar a roupa comunitário que havia no bairro. O tanque estava praticamente em ruínas e era coisa de outros tempos, que já ninguém usava, mas alguém na câmara se lembrara de o transformar em monumento. Naquela altura as obras de reabilitação consistiam em cimentar os volumes. Os trabalhadores tinham deixado uma superfície lisa e de alguns metros quadrados com cimento fresco, protegida apenas por um cordel. A tentação cresceu, claro. Quem nunca gravou o seu nome para a eternidade que atire a primeira pedra. Só que M. chegou lá primeiro e disse: "oiçam-me por uns momentos". No dia seguinte o génio de L. estava gravado no cimento: vários campos, campos sobre campos, setas, setas sobre setas, enfim, havia ali a força do rascunho, do traço sobre o traço que parece dar vida aos desenhos. Nós contemplávamos a superfície do cimo do prédio e aquilo parecia-nos simultaneamente belo e profundo. Depois vieram os homens das obras, que disseram umas caralhadas, cobriram tudo de cimento outra vez e ficaram de plantão até o cimento secar.
Na única província anfíbia do país, a natureza híbrida parecia extravazar para todos os domínios do tempo e do espaço. Havia arrufadas e vendedores de barquilhos, mas também um toque de modernidade que vinha com as últimas criações das multinacionais da geladaria. Havia imprensa estrangeira e mulheres estrangeiras, que eram levadas para as enseadas recônditas entre a Praia da Rocha à Praia do Vau e depois reapareciam peladas em postais vendidos ao lado de ancinhos de brincar. Havia bólides alemães, que se cruzavam com carroças puxadas por burros. E em Setembro, durante a grande feira, freaks produziam artesanato moderno à base de arame e disputavam com vendedores de polvo assado a atenção dos turistas.
No Algarve fazia férias de verdade e, naturalmente, procurava ficar longe da bola. Respeitava o defeso. Havia outras atracções. Uma delas era entrar clandestinamente nas piscinas vigiadas e tocar com a palma da mão no fundo da parte sem pé, como quem espeta uma bandeira. Chamem-me purista, mas o futebol de praia não é coisa para se levar a sério. Provas? Todas. Jogava no areal da Praia da Rocha um moço pequeno e entroncado, quase como o Maradona, só que loiro. Era forte como um buldogue e comentava-se que iria ter uma grande carreira pela frente. Anos depois o moço já homem feito seria dispensado pelo Portimonense. Aquele hábito de levar a bola até à beira-mar? Não fica bem a um lateral consciencioso. A vocação marítima não passa seguramente por avançar no terreno com água pelo joelho. Sobre a tentação de jogar à baliza nem vale a pena falar: quando todos querem ser guarda-redes algo está errado.
As férias no Algarve eram um verdadeiro descanso. Quase não se pensava em bola. Às vezes vinha um desejo agudo de centrar, que podia surgir nas alturas menos apropriadas: quando se levava uma miúda de noite para a praia, por exemplo. As luzes dos barcos da pesca da lula ao longe, o joelho nu dela, aquele relento bom e a vontade de centrar, a mente a pensar se haveria rapaziada suficiente na praia, todos emparelhados e dispersos pelo areal, entretidos em jogos carnais, subitamente mobilizados para um encontro nocturno. Mas era coisa passageira, que não voltava duas vezes na mesma noite.
No regresso aos Olivais, naqueles Setembros sem aulas e em que se voltava a pegar na vida devagar, tinham lugar os melhores jogos. A fome de bola era imensa, o tempo infinito, os dias ainda longos, a temperatura propícia para a prática do futebol e -perdoem-me a vaidade - o bronzeado ainda vivo realçava o branco da camisola branco-pérola do Real Madrid. Por esta ordem.
Estamos a chegar a uma altura em que já se escreveu sobre tudo. Há duas décadas também seria essa a sensação e é assim há muitos anos, o que diz muito mais sobre nós do que sobre o incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandria. Mas parece-me deveras improvável que não exista por aí um tratado sobre a alcunha. Se calhar é edição de autor de um professor de instrução primária de um pueblo na periferia de Cusco, Peru. Sabemos lá. Se eu escrevesse tal livro - coisa que não farei - dividiria a alcunha em quatro tipos, a saber: 1) a alcunha auto-imposta, a mais ridícula de todas e que tende a ser um reflexo megalómano ; 2) a alcunha inspirada nas características físicas, geralmente a mais cruel e a menos imaginativa; 3) a alcunha que traduz características psicológicas, que pode ser muito castiça ou não; 4) a alcunha biográfica, isto é, aquela que surge na sequência de um episódio. É na infância e adolescência que a alcunha se estabelece. A explicação leva-nos seguramente para os mecanismos ontogénicos, mas há também uma rede de interacções sociais que promove este fenómeno. A cada um a tarefa de indexar as alcunhas que conhece. Aqui escreverei apenas sobre Panoramix.
Falamos de uma alcunha que dispensa chave dicotómica; é sem margem para dúvidas do tipo biográfico. O instante fundador aconteceu a meio de um dos nossos campeonatos. A nossa equipa perdia, essencialmente por falta de forma física. Há por aí a ideia de que as crianças e os adolescentes têm uma energia inesgotável. É uma ideia errada. Os outros corriam claramente mais do que nós. Talvez fosse resultado das nossas noitadas com o ZX spectrum. O certo é que naquele Verão não estávamos com força. Foi então que N. se lembrou dos suplementos vitamínicos. A equipa começou a tomar doses moderadas de vitamina C, mas em menos de uma semana tínhamos feito a escalada para o exagero: consumíamos doses inconcebíveis, em pastilhas efervescentes que coloriam a água. "O meu mijo já sai cor de laranja", queixou-se um a dada altura. Nada mudou: continuávamos a perder e sem fôlego. Só N. não desarmou e insistiu em explorar outras alternativas. Dos produtos orgânicos às afinações na dieta, nada parecia resultar. O eureka de N. surgiu numa tarde de televisão, durante um intervalo para publicidade: a Coca-cola. N. experimentara já o ligeiro frenesim que tomava conta dele depois de beber três Colas. O seu golpe de génio foi perceber que era preciso isolar do refrigerante o princípio activo que dava energia. Fosse outro o lugar e a época, talvez houvesse no prédio um engenhocas, ou um daqueles tipos com kits de química e microscópio. Não havia ninguém. As ciências naturais não entravam ali. Só que N. tinha um raciocínio escorreito e lembrou-se simplesmente de evaporar a água da Cola-cola. As primeiras experiências falharam mas ao fim de uns dias tinha o método optimizado: uma simples fervedura prolongada num caldeirão destapado. Ao fim de umas horas, 10 litros de Cola-cola estavam reduzidos a uma pasta caramelizada que cabia numa mão fechada. N. moldava depois a pasta com ajuda de uma forma, punha o produto no congelador e após algumas horas apresentava-nos uma tablete de aspecto duvidoso, que se trincava fria "para não perderem a energia vital nos dentes" e era insuportavelmente doce. Confesso que tomei aquilo. E funcionava. Consumida a meia-hora do encontro, entrávamos com fogo no rabo e com uma dose suplementar ao intervalo ninguém nos agarrava. Cada jogador ficava a 20 litros de Coca-cola por encontro, a época ia a meio e a equipa tinha 8 elementos. Basta fazer as contas para perceber que era uma brincadeira cara. Mas funcionava e ninguém tinha vontade de parar.
O volte-face veio de novo da televisão: escândalo de dopping na Volta à França. Os mais reflexivos acusaram o toque. N. ainda argumentou: "A Coca-cola não é uma substância proibida. Não sejam parvos". Mas a verdade é que nós tínhamos uma vantagem sobre os outros. Em poucas semanas passáramos para a frente. "Querem perder o campeonato, é?" ameaçou-nos N. Ninguém queria perder. Movidos a Cola-cola limpámos os jogos que faltaram e conquistámos a nossa primeira taça. Ficámos eufóricos nessa noite. Veio depois uma leve ressaca, que foi crescendo devagar. Como se nos quiséssemos livrar de uma recordação má, nos dias seguintes a taça foi passando de mão em mão, até acabar no quarto de N. E ele, que continuava feliz e em paz, percebeu finalmente o que decorria. Então todos chamou e disse: "Quem de entre vós não tem a colecção dos álbuns do Astérix?" Todos tinham, menos um. "Não te preocupes, empresto-te os meus. Queria que esta noite lessem o Astérix entre os Bretões. Amanhã voltamos a falar, está bem?". Assim fizemos. Ninguém percebeu a ideia de N., mas de manhã ele explicou-nos:
- Lembram-se de me terem dado dinheiro para as Colas? Bem, eu acabei por comprar uma bicicleta e para os últimos jogos aldrabei as tabletes. Aquilo era só açúcar. Açúcar castanho. Comido gelado nem se percebia a diferença.
- Tu compraste uma bicicleta com o nosso dinheiro?
- Sim, e peço-vos desculpa por isso. Mas não estão a perceber? Não leram o livro? O açúcar dos últimos jogos foi como o chá que o druida deu aos Bretões na falta de poção mágica. A malta não precisou daquilo para vencer os últimos jogos. Ganhámos com mérito, pá. Sem dopping!
As sensações ambivalentes provocam alguma azia e uma geral sensação de mal estar: queríamos esmurrar N. e queríamos abraçá-lo também, por nos ter devolvido o título. A taça voltou a ser um objecto cobiçado. Ninguém chegaria a ver a bicicleta nova de N., mas ou não nos lembrámos mais disso ou não houve coragem para colocar a pergunta. Panoramix é hoje o homem mais bem-sucedido de todos os que moravam naquele prédio.
Dois de nós conversam junto ao prédio:
-Já sabes o que aconteceu ao Jaime?
-O Jaime craque?
-Sim.
-Não.
-Sim, o Jaime craque.
-O quê?
-Teve um acidente de vespa e ficou tetraplégico.
Chega outro:
- Pá, sabem o que aconteceu ao Jaime?
- Sim.
-Sim.
- Agora os médicos vão-lhe pôr uns ferros pelos ombros.
- A sério? Não sabia que um tetraplégico podia voltar a andar.
- Bem, a ideia é transformá-lo em boneco de matraquilhos.
-...
-...
- Estás a gozar?
- Claro.
- Não tem piada.
- Pá, tem piada.
- Foste tu que a inventaste?
- Sim. As piadas não nascem por geração espontânea. Pá, é gira, não é?
- Não.
Chega mais um:
-Sabem o que aconteceu ao Jaime?
-Transformou-se em boneco de matraquilhos...
-Como é que te lembraste disso?
-Ele contou-nos a piada.
-Mas eu acabei de inventar a piada e ainda não a tinha contado.
-Pá, a piada é minha.
-Não, a piada é minha.
-Então conta lá a tua versão.
- O Jaime foi atropelado ontem, certo? Coitado, ficou tetraplégico. Bem, os médicos puseram-lhe uns ferros pelos ombros. Agora eu perguntava:"sabem para quê?". E vocês:"para quê?". Então eu dizia: "é para jogar matraquilhos".
- Pá, essa é a minha anedota, mas está mal contada.
- Bem, eu contei como a contaria, o que não é a mesma coisa que contar para fazer rir, mas a piada é minha.
-Devias dizer "boneco de matraquilhos" e não "jogar matraquilhos". O gajo não joga matraquilhos, é peça do jogo. Também não podes perguntar se sabem para que servem os ferros, meu. Isso mata a piada. Deves confiar no raciocínio das pessoas e só depois puxas o tapete. Não podes ter inventado a piada. Não a percebeste.
Chega ainda outro:
- Nem sabem o que aconteceu ao Jaime!
- Eh, bem, diz lá.
- Caiu do alto de uma escadaria e ficou paraplégico.
- Ah, Benfica ou Sporting?
- Não, foi nas escadinhas do Duque.
- Os matraquilhos, pá. Vai jogar pelo Benfica ou pelo Sporting?
- Eu acho que ele não volta a andar...
- Não sabes a piada do ferro?
- Ah, sei sei. A do craque de futebol que fica tetraplégico e depois atravessam-lhe um ferro pelos ombros?
-Sim, essa.
-Antiquíssima. Isso é anedota pré-Travassos.
Chega o Jaime:
- Já sabem o que me aconteceu?
-Sim, mas não há nada como ir à fonte.
-Hã? Já sabem do ferro?
-Mas tu estás bem!
-Anda alguém a gozar comigo. Telefonaram à minha mãe a dizer que um ferro das obras me tinha atravessado a cabeça.
- Estás a contar isso como deve ser? Não teria sido um ferimento ao nível dos ombros?
-Não. E que fiquei paralítico...
-Tetraplégico?
-Foda-se, quero lá saber. Mas tu estás a par disto?
-E os matraquilhos?
-O que é que tem?
-Não disseram à tua mãe que agora és um boneco de matraquilhos?
-Pá, eu não jogo a essa merda. Alguém me explica o que se está a passar?
Chega o último:
- Pessoal, vamos jogar matrecos?
Neste momento o Jaime esmurra o sexto de nós. Este responde e desequilibra o Jaime, que bate com a cabeça numa aresta de pedra.
-Foda-se, mataste o Jaime.
- Eu? Eu não fiz nada.
- Então como é que sabias dos matraquilhos?
- Hã?
Tanto quanto posso avaliar, esta anedota começou a circular em Portugal numa data muito posterior à da ocorrência destes diálogos, o que adensa ainda mais este mistério.
A imagem foi tirada daqui.
O sol de chapa nas caras suadas e a gota de suor a galgar as costelas, aos 10 minutos de jogo. O corpo a corpo? O corpo contra o corpo, a pele fria e o atrito dos gestos que surgem logo atrasados. O fio de cabelo depois colado às têmporas, uma gota de suor como uma jóia brilhante na ponta dos cabelos, um respingo de suor na pequena área e o suor a escorrer para a boca, aos 25 minutos. Um primeiro sinal a brotar da pele, vista como uma planície, quase desfocada. O suor dos outros no mano a mano, o suor na bola amansada com o peito e o suor novo a diluir o suor seco, no recomeço do encontro. A mão no peito, a palma dos pés quase húmida e o umbigo com um travo salobro. A grande mancha de suor nas costas, as manchas pequenas no peito e o suor perto da ferida, a meio da segunda metade. Um brilho novo nos ombros e em tudo o que é redondo, a luz em bicos de pés na penumbra do quarto. A terra a beber o suor do avançado, a roupa interior empapada e o suor que a T-shirt leva do rosto, sobre o apito final. O ventre a encharcar o ventre, até ao descanso que guarda um mar entre os corpos. O suor velho a arrefecer ao relento. Soltos os corpos, o suor morno a voar do teu corpo para a rua.
K., de kamikaze. Um tipo instável, maníaco-depressivo, um dia eufórico, na manhã seguinte de rastos. Constante na sua vida, só mesmo o futebol. É dos livros que a depressão suga a vontade, mas K. era tomado por uma pulsão suicida que tentava realizar no campo. Nós estávamos avisados e entre carregar pela vida fora o fardo de ver K. enforcado num abrunheiro e correr o risco dos cortes de carrinho suicidas dele, a decisão era fácil. As tendências suicidas de K. no campo tipicamente geravam três comportamentos, que passo a descrever por ordem crescente de perigo: colocar-se na ponta da barreira quando o livre directo era marcado pelo Samagaio; tentar entrar em voo de peixe pela baliza dentro; o exercício anterior, mas quando a baliza estava desenhada na parede do prédio. Havia outras manias dele, que nos podiam magoar. O já referido corte de carrinho, que era implacável e levava K. da relva ao empedrado, por vezes arrastando o avançado com ele. Algumas corridas desenfreadas também, que ele fazia com os olhos fechados, na esperança de ser plaqueado por uma faia, acabando quase sempre por lesionar um defesa mais distraído. E o volley com o corpo suspenso a meio metro do chão, que ele executava a pensar na queda desamparada, sem ligar ao pontapé nem aos adversários. O Kamikaze chegava sempre vivo ao fim do jogo e o seu rosto era uma expressão de alívio e de cansaço. Às vezes cuspia sangue da boca.
No dia seguinte, o Kamikaze aparecia radiante, inchado de optimismo. Tudo era positivo, o seu polegar perpetuamente arrebitado, as suas palavras de apoio aos colegas - "Vamos lá!"-, as palmas que batia sempre que cada ataque morria e a forma disparatada como festejava os golos, raros. O Kamikaze tentava jogadas impossíveis e tudo falhava, a tripar na megalomania: os slaloms de baliza a baliza que não passavam do meio campo e os remates estratosféricos do meio da rua. Só não perdia o entusiasmo. No fim do jogo o seu rosto era uma expressão de apreensão e de de cansaço. Mas ainda cuspia com confiança para o chão, de mãos nas ancas. E dizia: "Vamos lá!"
"Chutar a bola contra a parede pontua o meu raciocínio e organiza-o. Basta entrar na cadência certa e sinto-me mais inteligente. O som da bola na parede, a frequência com que armo o pé, enfim, tudo isso estrutura o pensamento. Antes de arrancar uma redacção vou sempre para a rua e fico diante da parede umas duas horas. A minha mãe chega, irrita-se comigo e diz-me para ir para casa fazer os deveres. Como é que lhe explico isto, diz-me? Ninguém percebe, soaria a desculpa. Insisto em ficar mais algum tempo, retomo o ritmo e depois subo. Em dez minutos tenho um texto pronto, que sai à velocidade da minha mão. O texto foi escrito diante da parede, a jogar à bola. Com as decisões passa-se o mesmo. A parede dá-me sempre a solução. Se há algo que a parede não resolve? Sim, claro. O conflito moral. Uma vez tentei usar a parede para esse fim mas fiquei a sangrar da testa e não foi bonito. Para o resto funciona sempre. Até nas discussões com mulheres sobre namoros e essas coisas. Elas tendem a ter uma inteligência emocional mais desenvolvida, o que é uma forma de dizer que nós somos algo primários a abordar tais matérias. Mas até a Sandra, que não só tem uma inteligência emocional superior como é bem mais veloz de raciocínio do que eu, até ela eu consigo anular se estiver a chutar a bola contra a parede. Olha, foi há dois dias. Sabes o que aconteceu? Parecia um jogo de xadrez entre tipos de níveis diferentes. Eu antecipei tudo o que ela dizia, por causa da parede, claro. Sim, foi a conversa em que acabei com ela antes de ela acabar comigo. Já te tinha dito, certo? O quê? Não me lixes. Achas? Tudo arquitectado por ela? Para não me deixar de rastos? Coisa que tu agora estás a tentar fazer, meu sacana...
-Então? E esta noite?
-Esta noite? Até te passas. Estava à defesa e vem uma bola em balão, a crescer para mim. Bem, eu pensava que era a bola que crescia, mas depois percebi que era eu que diminuía de tamanho...
- Andas a ler o Gulliver?
- Sim, porquê?
- Por nada, continua.
- Então eu estou minúsculo, a bola cai finalmente sobre mim e de súbito fica tudo mais escuro. Eu acabara de entrar pelo pipo para dentro da bola, percebes?
-...
- Estou dentro da bola e sinto-me a levitar, no meio daquele ar comprimido, ganho lentamente o centro do espaço e é quase como se a bola passasse a ser parte do meu corpo. Vista por dentro, num dia de sol, a bola é uma coisa fantástica. Está mais escuro do que lá fora, mas a luz entra pelas costuras e é depois filtrada pela câmara-de-ar cor de laranja. É como estar no centro de um sol que se está a pôr, hã? Só que a temperatura é amena, o ar denso e húmido. Os sons surgem adulterados, às vezes grotescos, outras vezes parecendo que as pessoas respiraram hélio e ficaram com aquelas vozes de desenho animado, sabes? Os gritos do Samagaio, lá fora, são um gozo de ouvir dentro da bola, só te digo. E quando alguém remata, tu sentes a aceleração, és momentaneamente projectado para trás, mas logo retomas o centro, como se estivesses aos comandos de uma nave, mas cuja rota não depende ti...
- ...
- Ah, há duas sensações que viciam. Uma é ficar a olhar para a câmara-de-ar quando alguém remata com efeito e a bola começa a girar sobre um eixo imaginário. Aquilo parece um caleidoscópio, pá. A outra é quando a bola fica a saltar e ninguém lhe toca até ela parar. Aí é como abrandar um trote...
-...
- Só tive um receio: que a bola fosse parar à estrada e um autocarro a rebentasse. Mas o mais certo era sair disparado a voar e aterrar numa daquelas flores encarnadas carregadas de néctar que o pessoal chupa. Já te imaginaste a mergulhar naquele açúcar e a ir depois à boleia, levado por uma abelha?
-...
- Bem, foi mais ou menos assim. Marcamos encontro amanhã à mesma hora?
-Sim. Posso pagar-te só no final da semana? Ainda não recebi a mesada.
- Sem problema. Mas, pá, não andas a abusar disto de ouvir os sonhos dos outros?
- Isso é lá comigo.
- O J. contou-me que agora também lhe pagas.
- Não te preocupes. Os teus sonhos continuam a ser os melhores.
- Bem, tem cuidado com isso. Agora preciso de ir. Até amanhã.
-...
A história da propriedade privada era algo que não dominávamos. Nenhum de nós se inquietava com a ideia de dar posse a alguém de um bem finito, nem de como seria paradoxal só dar direito de posse sobre os bens infinitos. Uma coisa pertence-nos mais quando os outros a reclamam também. Isso nós entendíamos e cedo o experimentámos na pele.
O campo era nosso, obviamente. Era nosso porque estava perto de nossa casa e nele jogávamos todos os dias. Isto até o pessoal do Norte do bairro resolver aparecer por ali a meio da tarde, a uma hora do dia em que o campo não era utilizado. Não se chegou a saber muito bem o que os levou a fazer aquilo, nem por que motivo estavam tão longe de suas casas. Tomaram-lhe o gosto, claro; era um bom campo. Os jogos deles começaram a ficar mais demorados e a ser mais frequentes. E o impensável precipitou-se: não poder jogar no nosso campo por causa da malta do Norte. Não os obrigámos a sair e fomos para um relvado distante, mas nessa noite muitos tentaram marcar o tema de conversa à hora de jantar e ouviram os pais falar da utilização dos espaços públicos e de uma série de obrigações e deveres, numa espécie de visita guiada ao lado negro da vida cívica. Só um de nós ficou fascinado com a palavra “usucapião”. Seduzia-o a sonoridade, primeiro, e a forma adequada como parecia reflectir o seu estado de espírito perante o problema do uso do campo. A usucapião foi uma daquelas descobertas que fazem uma pessoa sentir-se subitamente mais próxima de toda a gente, ao perceber que outros já antes haviam pensado da mesma forma.
A tolerância recomendada ao jantar não nos convinha. No dia seguinte discutimos o problema com a malta do Norte, já instalada no campo. É claro que a usucapião foi logo aplicado como argumento, mas sem surtir efeito “Mas o que é que eu tenho a ver com o capitão da vossa equipa e o uso que ele dá ao campo?” A aquisição de propriedade pela posse continuada não era coisa que os bárbaros do Norte pudessem conceber. Para eles a lei era a de quem primeiro tivesse chegado ao campo naquele dia.Talvez por pensarmos que podíamos tirar partido da proximidade ao campo, não prolongámos a discussão. No dia seguinte aparecemos à hora do almoço, mas eles tinham já uns 6 tipos de plantão, a fazer passes longos, cobrindo o campo todo. No outro dia chegámos de manhã, mas dois calmeirões deles jogavam baliza a baliza, imperturbáveis. Um de nós irritou-se e nessa noite demos com ele a sair do prédio com uma tenda às costas. Só nos disse: “sempre vamos ver quem chega mais cedo ao campo amanhã? Ajudam-me a montar a tenda?” Percebemos que se caminhava para a insensatez e resolvemos recuar. Nas semanas seguintes jogaríamos sempre no relvado mais distante, a Sul. Tratava-se de um campo plano, pouco frequentado por peões, sem árvores, praticamente rectangular, com a relva em bom estado. Numa palavra, era um campo fantástico, em tudo melhor que o nosso campo cheio de árvores, inclinado, atravessado por passeios, cheio de zonas peladas e com regos junto ao lancil que faziam a bola seguir encarreirada ao longo da linha lateral. A distância até ao relvado novo também se fazia bem. Só que a nossa terra era outra e não havia nada a fazer. Por aquela altura, ao serão, lembro-me de alguém ter comentado a propósito do conflito israelo-palestiniano: “estes gajos andam a matar-se uns aos outros por uma terra paupérrima que nem cabras alimenta”. As imagens que via na televisão vinham ao encontro do comentário - colinas nuas, vegetação pobre, um quase deserto, bairros degradados, nenhum campo decente-, mas a incursão da malta do Norte fez-nos ver quão idiotas eram aquelas palavras. Recuperar a nossa terra tornou-se então um desígnio e uma sucessão de eventos fez com que tudo se fosse decidir numa partida de futebol; nós contra os do Norte e quem ganhasse ficaria com o campo por um ano. O combate ritualizado não é a pior das soluções.
Tremíamos das pernas mas começámos com garra e passámos os primeiros minutos a carregar. A tensão fez-nos bem e parecia que nunca antes jogáramos tão bem. O bairro estava em peso connosco e até a nossa porteira -pobre senhora - mas a sorte tinha outro endereço naquele dia. Bolas ao poste, grandes defesas do guarda-redes adversário, falhanços à boca da baliza, zero a zero ao intervalo e o segundo tempo a começar da mesma maneira. O nosso domínio era avassalador, as jogadas fluidas, mas não havia maneira de marcarmos golo. Sobre o apito final, na única avançada deles, sofremos um golo e perdemos o encontro. Ainda hoje oiço o berro de M. inconsolável: "estou farto de vitórias morais, caralho!" Depois ninguém mais abriu a boca, nem sequer um tipo muito dado a trocadilhos e que deve ter pensado: "pior do que perder o Norte, só mesmo perder para o Norte." Abandonámos o campo a olhar para a relva e em silêncio.
Na tarde seguinte juntámo-nos na calçada, a espreitar o campo. Mas fez-se noite sem que a malta do Norte aparecesse. Seria assim no segundo dia, ao terceiro e durante toda a semana. Prurido de vencedor? Súbito desinteresse? Um gesto magnânimo? Nunca chegámos a perceber, mas aos poucos, sem grande glória, fomos colonizando o campo de novo. Quando deixámos de jogar lá, muitos anos depois, foi por vontade própria e fome de outros territórios.
Qualquer manifestação imprevista de alegria na praça pública deve ser rapidamente investigada com minúcia e discrição. Na justificação oficial para tal urgência invoca-se a imperiosa necessidade de assegurar que o protagonista de tal acto está na plena posse das suas faculdades mentais. A verdadeira explicação, porém, é outra: uma gargalhada inusitada é uma fresta por onde se pode espreitar a tal natureza humana. Ora, fica bem dizer que a natureza humana nos fascina. É coisa sem encargos e que traz dividendos, em função da inocência de quem nos ouve.
A meio de uma partida a feijões, vindo do outro lado do campo, G. correu a abraçar quem acabara de marcar um golo que colocava a sua equipa a ganhar por um a zero. A corrida foi feita com um sorriso triunfante e os braços prematuramente abertos. Tal euforia, que chegou a incomodar o avançado e mais parecia festejo de goleador numa competição europeia, nunca antes tinha sido vista em G. O rapaz não voltaria a recuperar a concentração e a sua equipa perdeu o jogo por três golos de diferença. O que se teria passado?
A resposta veio uns meses depois; entretanto G. tinha voltado à normalidade. A normalidade de G. era isso mesmo, a de um aluno mediano, com hábitos sociais comuns e nenhum passatempo controverso. Encontrei-o por acaso deitado na relva do campo, escrevendo com afinco num caderno de notas, daqueles com a capa dura e manchas brancas e pretas, como a pele da vaca leiteira. Não se sentiu incomodado quando me aproximei, nem sequer fechou o caderno. Versalhada de amor não era seguramente e de relance logo confirmei: o rapaz preenchia tabelas (o que, em rigor, não é uma prova irrefutável de escrita pouco passional, mas quase). Nem precisei de arrancar a conversa. "São as minhas estatísticas", disse ele com algum orgulho. "Estou a passar tudo a limpo e a fazer uns gráficos". Estatísticas para as aulas? Das suas notas? Daqueles jogos entediantes que fazíamos nas viagens até ao Algarve, a contar as marcas de carros que connosco se cruzavam? Nada disso. Estatísticas sobre o desempenho de G. em campo. Estava lá tudo: o número de cortes, discriminados em função da parte do corpo que foi usada, as assistências, o tempo de posse de bola, os golos, as faltas cometidas, as faltas sofridas, as falhas defensivas clamorosas, os penalties provocados e os que fizeram sobre ele, os livres marcados, os lançamentos de linha lateral, enfim, tudo o que não ocorreria nem ao mais obcecado adepto de Baseball, um desporto particularmente aborrecido como se sabe e que usa a estatística para assunto de conversa. O registo surpreendia pelo volume de observações: mais de 20 parâmetros seguidos ao longo de mais de 6 anos, cobrindo cerca de 700 jogos (incluindo os jogos a sério, as peladinhas, os jogos no patamar e as horas passadas a atirar a bola contra a parede). "Se não for eu a cuidar destes dados, ninguém o fará por mim". De facto, tinha razão, mas ficava por explicar tamanha dedicação. "Eu vejo o futebol como um desporto individual, sabes? No fundo toda a gente pensa da mesma maneira, mas criou-se esta ideia dos desportos colectivos, como se as equipas tivessem alma e vontade. É tudo uma mentira; uma equipa é uma soma de vontades apenas, sem qualquer propriedade acrescida (hoje teria dito propriedade emergente). O problema é que nem todos têm estofo para aguentar estas análises e o colectivo funciona como um amortecedor de choques para o ego. Por exemplo, andei 5 anos a carregar um goal average negativo. Isto mata um tipo. Qualquer outro preferia não saber e é assim que as pessoas vivem, numa doce ignorância. Só no mês passado consegui finalmente chegar a um valor positivo, mas foi coisa efémera. Acabámos por perder esse jogo e a soma dos golos marcados pelas equipas de que fiz parte continua hoje abaixo da soma dos golos sofridos. É tramado. Eu bem tento diluir-me no colectivo, mas o colectivo não é para mim, pá."
Os comunistas ainda não figuravam na lista das espécies em via de extinção. Mas já não se vivia a euforia do PREC e a tensão reaccionária abrandara também. Os comunistas eram então uns tipos porreiros, que organizavam uma festa catita e piquetes de greve; avivavam o telejornal, especialmente desde que a televisão passara a ser a cores. O comunista institucional e fenotipicamente mais rigoroso do prédio - era do partido e tinha a careca do Lenine - encaixou com tranquilidade e sem humor as bocas que lhe mandaram quando comprou um carro novo. Disseram-lhe que um comunista não podia acumular propriedade e ele respondeu, sorridente e sem se dar ao trabalho de argumentar: "Aí, fascista...". O terror comunista, com todos os seus detalhes sórdidos, foi algo que só viria a conhecer depois. Na época, o único comunista que eu abominava não era o Estaline, era o F.
F. não gostava de futebol. Era poeta e intelectual, e mau em ambos os papéis. Militava na JCP e passava os Verões na URSS, mas todos os anos regressava sem saber coisa alguma do Igor Belanov. Viria a tornar-se num daqueles tipos exageradamente cultos, que ficam enredados no número de associações que conseguem estabelecer e acabam involuntariamente por se transformar em forças da reacção desprovidas do humor e leveza dos conservadores de direita. Ele até sabia de futebol, como sabia de culinária. Sabia de tudo, mas gostava de quase nada.
F. não tinha por hábito assistir às nossas partidas. Era um homem afundado nas tarefas do partido e que passava o pouco tempo livre que tinha fechado no quarto. Viciara-se em cantigas de intervenção: Ibanez, Milanês, Jara, Zeca, por aí fora. Um súbito interesse por futebol só surgiu quando alguém lhe disse que iríamos defrontar a malta do prédio do lado. O prédio era de habitações sociais e na cabeça de F. só lá havia famílias de operários, gente trabalhadora e rectos, de feições nobres e o sólido antebraço das figuras dos murais. Nunca cheguei perceber muito bem quem morava naqueles prédios, mas era certo que havia por lá gandulagem. E sobre os filhos daquelas famílias não tinha dúvidas, apesar de não ter provas: muitos estavam na calha para a marginalidade. Havia pois duas lutas de classes no campo. A luta que fascinava F.: os burgueses contra a classe operária; e a nossa luta: as vítimas que desconfiavam estar a jogar contra quem de tempos a tempos lhes palmava as bolas. F. era claramente um miúdo com uma visão mais abrangente, mas nós não lhe perdóamos a simpatia que revelou pelos adversários. Vê-lo rejubilar com os golos deles era uma afronta e passar quase todo o jogo a perder e com F. a cantar em castelhano, irritou-nos. Talvez isso explique que no seguimento de uma recuperação espectacular a levar ao empate, o golo da nossa vitória, marcado já sobre o fim da partida, tivesse despertado no seu autor uma vontade desenfreada de correr na direcção de F., fazer depois uma chamada com os pés diante dele e gritar, exibindo-lhe a três dedos do seu nariz o punhado de relva que acabara de arrancar do chão: "a vitória a quem a merece, comuna de merda!"
C. só se queixava de não irmos para o balneário a seguir. Da natureza não tinha ele razões de queixa. Mas cada um tomava banho em sua casa e frustrava-o o facto de não poder exibir o avantajado apetrecho sexual em todo o seu esplendor. Não era um exibicionista de se esconder atrás das moitas à espera de presa, mas o rapaz experimentava um irreprimível desejo de esmagar os egos circundantes com a visão das partes íntimas da sua anatomia. A malta defendia-se como podia, inventando piadas que trocávamos quando ele não estava presente. Coisas tolas, como: "C. não pôde fazer de poste por causa da curvatura acentuada"; ou "vendo que o defesa se escapava, C. tentou derrubá-lo com uma erecção"; ou ainda esta:"sabes por que razão ninguém quer ficar ao lado do C. na barreira? Porque ele tem sempre falta de mãos para proteger as partes baixas e por hábito crava os vizinhos". Havia outras, ainda mais boçais, que agora não ficaria bem contar.
A reputação de C. fora estabelecida numa ida em grupo à piscina municipal. Aparecera de tanga e logo começámos a gozar com aquela volumetria, que só podia ser forjada. Mas ele manteve-se sereno e nadou toda a manhã nadava num perfeito estilo costas. Foi só no balneário que nos respondeu, despindo a tanga. Quase não acreditamos no que vimos. Quando C. começou a andar, entre as suas pernas parecia baloiçar uma tromba, com total independência de movimentos. Nem depois de um banho frio ele se aproximou da normalidade. Demorámos uns dias a encaixar aquela experiência e, não sei se por trauma ou castigo imposto por C., desde então parecia que ele tinha começado a jogar com calções mais curtos e a usar umas calças de ganga justíssimas. Nem uns anos depois, quando começaram as sessões de vídeos pornográficos em casa de um de nós, perderia ele o ceptro de besta sexual. Antes pelo contrário. Nós percebemos então que tínhamos entre nós um vizinho capaz de - passe-se a expressão - ombrear com as grandes vedetas da pornografia centro-europeia. Só um núbio com honras de participação especial nos pareceu francamente acima do tamanho de C., mas ele argumentou, sempre tranquilo: "é ilusão cromática, rapazes".
O livre directo devia ser um momento de gozo puro. Ninguém se lembra de um livre directo falhado e o golo que pode daí resultar é quase sempre belíssimo. Compare-se isto com a grande penalidade: ninguém perdoa um penalty falhado - todos nos lembramos do Veloso - e o golo de penalty não pode ser um golo bonito. Se alguém fizer algo bizarro, como marcar a falta com a cabeça ou o calcanhar, o golo será apenas espectacular, nunca bonito. Se um poeta entender cantar o penalty, percebe-se que escolheu um tema difícil, só para pôr à prova o seu talento. O contraste é óbvio: há uma leveza associada ao livre directo que nem as circunstâncias - o livre directo para lá do tempo regulamentar e que pode empatar a eliminatória - dissipam. Pensava eu.
"São tantas as opções. Posso ir por ali, como sempre fiz, ou então experimentar algo novo, percebes? Surpreendê-la... A barreira é sempre diferente. Nunca são iguais, sabes? Na essência, sim, mas depois há sempre uma mais alta, outra que nos mostra as mãos em lugares estranhos, aquela que apetece furar, de tão frágil, e a que sei que devo contornar, fazer a bola passarbem ao largo, cheia de spin, par que resista à sua atracção. Tu pensas na barreira como uma entidade homogénea e, enfim, normalizada pela soma das partes, mas cada barreira tem uma personalidade única. Há as barreiras caprichosas. Conhecem as regras, mas querem sempre chegar-se mais perto, dar mais um passinho em frente, entrar na zona proibida. A malta refila, entabula um diálogo com ela, tenta não envolver o árbitro na discussão. Prefiro ter uma relação amistosa com as barreiras. Nunca se sabe o que o jogo nos reserva. O mais provável é ela voltar a surgir-nos pela frente. O que a barreira às vezes não percebe é que nós temos interesses essencialmente opostos. A alegria do rematador não é compatível com a sensação de dever cumprido da barreira. Trivial, mas complicado ter sempre presente. Afeiçoamo-nos aos detalhes. Às vezes há umas expressões de medo que nos comovem. Outras vezes damos com o orgulho de quem se sabe superior mas tolera entrar no nosso jogo. Chega a ser sedutor, tirando os casos de insanidade, que também surgem. Há uma pulsão suicida na barreira. Enfim, aquilo está entre o mártir e o suicida. Heróis não há. Cumpre-se um desígnio, percebes? Mas não deixo de pensar nelas, de lembrar como reagem ao toque. Ao estoiro, sim, claro, o petardo que as destrói, mas sobretudo à simulação, que as destrói ainda mais. A barreira é profundamente inteligente, mas vê-se escrava da sua condição e então parece algo tonta. Aqueles saltinhos e os corpos que se contorcem em poses maneiristas... Isto não abona muito a meu favor, mas fiquei viciado, pá. Já deste conta da dispersão que surge logo a seguir, uma vez consumado o acto? De como aquelas partes se desmontam e parecem querer esquecer o que se passou? Ser actor daquele enredo é viciante, como te digo, mas trata-se de um jogo perigoso que nos consome devagar. Não há livres directos simples. Andam todos enganados."
Quando marcavam golo na televisão e minha mãe assistia ao desafio comigo, rara era a partida em que ela não dizia: "como devem ficar felizes". É verdade que a exuberância com que os golos são comemorados não passa despercebida e o exagero que alguns emprestam ao acto merece reparo, mas o comentário de minha mãe parecia um desabafo de menina a espreitar o recreio dos rapazes, como se aquela alegria lhe estivesse negada. Havia nela uma inveja sadia que jogava bem com a sua beleza e doçura. Eu era um miúdo e perante as palavras de minha mãe só via duas soluções: desacreditar a alegria alheia ou fazer com que ela, de algum modo, a partilhasse também. Depressa descartei a primeira hipótese, por me parecer pouco ambiciosa.
A oportunidade veio sem plano prévio. Jogávamos e numa das minhas incursões no ataque reparo que minha mãe espreitava lá de cima. Era uma conjugação de duas situações raras: eu ao ataque e ela à janela. Senti que o momento era especial e resolvi tentar a minha sorte, disparando de longe. O pontapé saiu enrolado, ao ponto de um dos defesas se desviar da bola para que o guarda-redes a pudesse recolher, mas um ressalto caprichoso desviou a bola da sua trajectória e deu-me um golo inesperado. Foi também um daqueles golos que se perdem sem lembrança nos marcadores de marcha já adiantada, o nono golo de um treze a oito ou qualquer coisa assim. Um golo feio e sem importância. Mas minha mãe estava à janela e eu resolvera aproveitar. O que então se seguiu foi um pastiche de todas as formas televisionadas de festejar um golo, dispensando as figuras mais acrobáticas, que não teria sido muito avisado tentar. O meu one-man-show durou mais de um minuto, ao ponto de ter aborrecido os meus companheiros. Então resolvi parar. Antes houve de tudo, da corrida desenfreada ao braço esticado, dos dois braços os ar, estáticos, ao movimento de braço tenso, em ângulo recto, como se tivesse a dar um soco no estômago de alguém, dos passos de samba ao grito de vitória de quem exulta uma multidão. Depois olhei para cima, mas minha mãe tinha desaparecido.
Nessa noite, ao jantar, puxei pelo assunto. Falei-lhe do meu golo e da alegria que fora marcá-lo. Ela apenas comentou, afagando-me a cabeça: "Não sejas tolinho. A alegria não se finge". Algum tempo depois, já após outras conversas, quando levava os pratos para a cozinha, vendo-me algo desanimado e envergonhado, teve tempo de me salvar, dizendo: "O amor também não se finge. A mãe gostou".
O futebol não é um desporto absolutamente democrático. Vigora uma tirania do corpo. Não direi que o futebolista é seleccionado ou se vai deformando como o lutador de Sumo, a ginasta, o jockey das corridas de cavalo, o timoneiro dos barcos a remos, o atleta do salto em altura e o boxer da categoria de pesos-pesados, mas o futebol "de Rui Barros a Rud Gullit" é uma fórmula feita a partir de excepções. Consideremos a arte da finta, por exemplo. Um executante demasiado pequeno pode até ter alguma vantagem em fintar, mas não consegue fazê-lo com elegância. A tentação de afagar com o joelho uma bola colada à relva está sempre presente no jogador com menos de 160 cm e o gesto não é bonito. O jogador pequeno é demasiado frenético. Falta-lhe altivez e não há nada que possamos fazer senão aplaudir-lhe o esforço inglório que até resulta em golo. É verdade que contamos excepções, mas há uma diferença entre saber fintar e fintar com elegância. A finta elegante não é forçosamente a mais eficaz. O caso do calmeirão é mais fácil de expor. Um jogador grande não precisa de saber fintar, mas geralmente também não o conseguiria fazer, mesmo que domine a teoria. Um fulano com 1,95 m não tem aceleração explosiva para arrancar uma finta quando está parado. Falta-lhe também coordenação e a garra que um corpo avantajado não estimula.
O meu irmão tinha o corpo ideal. 1,85 m, ombros largos, pernas longas e finas. Fazia fintas como um bailarino preguiçoso que tem o pé de apoio sempre no mesmo sítio. As fintas dele eram tão elegantes que a imagem precisa daqueles instantes foi sendo substituída por metáforas. É um problema. Imagine-se um compasso a meio do meio-campo, com um dos ponteiros espetado e o outro controlando a bola, fazendo semicírculos, pequenos arcos, ora no sentido dos ponteiros do relógio, ora atrasando o tempo. Imagine que ao fim da tarde a relva tem o registo daqueles movimentos e o campo - enfim, aquela zona a meio do meio-campo - faz lembrar as searas com círculos concêntricos a armar aos vestígios de extraterrestres. Ou então imagine-se um Manolete no relvado, parado diante das investidas, a fazer verónicas com a bola da Adidas e a trocar os olhos aos defesas. O meu irmão fintava assim e às vezes até marcava golos. Mas dos golos dele lembro-me eu sem delírios.
Há umas fotografias de África em que o meu pai aparece equipado a rigor. Na ilha da Madeira consta que jogava na dianteira, ao lado de um pescador, num campo de terra batida que todos os anos era feito sobre o calhau da praia. Divago. Não sei onde era o campo, nem sei a que posição jogava o meu pai. Nos jogos de Domingo no bairro o meu pai primava pela falta de comparência. Só a sua forma tensa de seguir um encontro pela televisão ficou bem gravada; aquele constante reajustar do corpo ao sofá, os joelhos a subirem e a ganharem tensão à medida que uma jogada perigosa se desenrolava, umas interjeições incompreensíveis e discretas. É verdade que me marcou alguns golos na praia, na fase fugaz em que me julgava guarda-redes, mas nada mais. O meu pai não me ensinou a jogar à bola, mas levou-me a pescar. É por causa dele que tenho na cabeça um aquário de água salobra, às vezes salgada, outras vezes quase doce. E os peixes que aqui nadam, estes fantasmas amistosos de um cardume em sortido, são peixes pequenos, peixes singelos, peixes sem peso nem arcaboiço, sem raridade nem a nobreza do tunídeo que nos Açores é um touro antes de estrebuchar como peixe. Falo dos 52 peixes tirados a miolo de pão de um charco lamacento numa aldeia perdida nos Pirenéus, e que foram prata viva sobre os castanhos tristes das ruas e do casario antes de acabarem em fritada. Falo das castanhetas, que com os seus violetas fizeram com que perdesse o medo dos tubarões imaginários. São os meus peixes, valiosos como os troféus de latão. O peixe mais precioso do cardume, só para que se perceba, é um simples robalo de 200 g, anzolado com isco de casulo caçado na mesma areia em que fundeei os pés e projectei a chumbada, teria eu uns 10 anos. À primeira garfada do meu avô, que comeu aquele peixe ao almoço, senti o fechara um círculo, iniciado muitos anos antes, com o paradoxo de ter sido um avô alentejano a ensinar as artes a um pai vindo das ilhas; primeiro a pesca vertiginosa nas falésias do cabo de São Vicente, mais tarde a pesca pachorrenta nas barragens espraiadas da planície, rudimentos que depois procurei aprender também, de início seguindo as pegadas do meu pai por leitos quase secos, em busca do peixe rei que servisse de isco para o achigã, depois já sozinho, entretido com os pedregulhos dos molhes algarvios, até ter ganho a coroa do reino dos cabozes e então me sentir confiante para reclamar uma cana de verdade, lançar finalmente aquela chumbada, sentir no zumbido de um carreto a largar fio uma razoável manifestação de poder e recolher o robalo que o meu avô comeria. Fechar círculos é uma forma de crescer. E descrever uma jogada em triangulação que envolvesse três gerações da minha família teria sido bonito, mas de todo inverosímil.
Na Zarolha, uma taberna sob umas arcadas que ficava perto do liceu, reunia-se uma amostra parcial dos bêbados do país. Eram homens de meia-idade, muitos deles desempregados, que passavam ali os dias, com o olhar meio perdido. Bêbados calmos, portanto, que não provocavam desacatos. Viria depois a perceber que há muitos tipos de bêbados e muitas formas de tratar cada um deles, o que atira a definição de alcoólico para o confortável campo da opinião pessoal. Íamos à Zarolha por causa das raparigas. Por um acaso mais azarado do que se poderia pensar, a minha turma congregava praticamente todas as sex symbols da escola. Eram raparigas emancipadas, que fumavam, ouviam as bandas britânicas da altura e namoravam os tipos mais velhos. Os colegas de turma eram apenas isso mesmo, o que deve ter causado grandes frustrações. A romaria das raparigas à Zarolha era a única altura em que nós podíamos alimentar algumas pretensões. Uma adolescente embriagada é um animal que apenas obedece aos seus impulsos mais primários e só precisávamos de assegurar que elas não perdiam o equilíbrio até nos amanharmos com uma num vão de escada, a um canto das arcadas ou ao abrigo de um arbusto frondoso. Bebia-se umas misturadas de vinho branco e bagaço, que batiam logo e eram baratas. A rapaziada acompanhava as miúdas nos copos, para ir ganhando coragem. Aqueles corpos já perfeitamente desenhados para a prática amorosa não nos deixavam propriamente à vontade e a desinibição etílica compensava largamente a inevitável agonia dessa noite. Tudo tinha lugar a meio da tarde, sempre que um professor faltava ou cedíamos a um pico de aborrecimento colectivo.
Depois da farra, ainda havia tempo para uma peladinha. Jogava-se francamente mal, mas em nenhum outro desafio se ria tanto à custa de um passe falhado. Um pontapé de bicicleta sob o efeito do álcool, por exemplo, é uma experiência inesquecível que provavelmente não deveria detalhar, sobretudo na presença de jovens, sob pena de os corromper, mas não resisto a descrever o momento em que se aterra no chão, como se regressássemos de uma breve viagem intergaláctica. Há um reajuste das meninges, um remoer do estômago que destila um derradeiro vestígio de álcool e então uma tontura boa toma conta de nós e oferece-nos o céu como se não pertencesse a mais ninguém.
G. não se deixava levar por aquelas experiências. Era do género aplicado e um jogador disciplinado tacticamente. Encarava o futebol com um ascetismo que não tolerava borracheiras. Apesar de lhe dar um gozo especial jogar contra bêbados "por causa da diminuição da visão periférica, o que facilita as subidas pelos flancos... Ah, e pela vossa [nossa] lentidão, também, pois simplifica a finta", G. condenava as curtições vespertinas. Em tempos chegou a dizer, sem esconder algum desdém: "isso de se aproveitarem delas bêbadas é pior do que a iniciação sexual dos meus tios, que aconteceu com prostitutas. Ao menos aí elas eram pagas, caraças..." Apesar desta postura intolerante, corria sangue no corpo de G. e ele alimentava uma paixão muito pouco original pela Milú, sua colega e uma das miúdas mais cotadas do liceu. Tratava-se de uma rapariga alta e morena, com o nariz afilado e o rosto exótico, o que lhe dava uma certa nobreza e a ajudava a exibir com classe um corpo abertamente pecaminoso. A Milú tinha também uma doçura rara de encontrar nas raparigas que subitamente se apercebem do seu capital sexual e, como se não bastasse, fazia umas composições para a aula de português muito elogiadas, o que agora soa a detalhe politicamente correcto, mas é factual.
Um dia conseguimos arrastar G. connosco, atrás das raparigas que haviam já partido para a Zarolha. A Milú tinha ido com elas e talvez G. tivesse acordado particularmente libidinoso. O certo é que nos acompanhou, embora sem abdicar de manter a guarda alta. Quando chegámos à Zarolha as raparigas levavam já uns copos de avanço, o que fazia parte do plano. Começámos então a beber, mas G. apenas fingiu e foi visto por uns a verter discretamente o copo, protegendo o gesto com o corpo. O álcool perdeu-se pelo chão de mármore sujo e G. permaneceu imaculadamente sóbrio. Depois começou o deboche, as fugas e as perseguições, com os velhos bêbados a assistirem impávidos àquela Primavera. A Taberna era um espaço exíguo, com um balcão e uma fila de mesas pequenas. Entre as mesas e o balcão os clientes bebiam de pé, mas algo apertados. Constatando que o álcool tomara conta dos acontecimentos, G. preparou-se para abandonar o estabelecimento. Mas foi então que se viu entre as longas pernas da Milú, que ficara sentada numa das mesinhas e, sem se levantar, apenas apoiando os pés na parede do balcão, o aprisionara. Num ápice aquela tornou-se na experiência erótica mais intensa da até então pacata existência de G. A rapariga denotava intenções de o desencaminhar e G., preso entre as pernas delas, logo se libertou dos princípios que defendia. Foi só depois de consumado o apelo da carne que a consciência de G. voltou a marcar presença. Eram seis horas, as lojas da nova zona comercial ainda estavam abertas e G. correu levado pelo impulso, pedindo a Milú que o esperasse. Voltou com uma prenda, que ela abriu a custo, já meio indisposta da bebedeira. Ainda foi a tempo de lhe agradecer pelo colarzinho de pechisbeque, antes de cair num sono pesado. Na manhã do dia seguinte, só se falava no despontar de uma história de amor, mas apenas porque a Milú ficara em casa, caso contrário teria logo desmentido o rumor. Para quem não o conhecia, G. era o herói do dia; para os seus amigos, o hipócrita do momento. Tentando defender-se referindo-se ao colar que oferecera à Milú, ainda foi a tempo de ouvir: "G., devias ter percebido que as nossas miúdas não são como as prostitutas que os teus tios frequentavam, pá. Não precisavas de ter dado cabo da mesada..."
A vontade de arrancar uma fachada ao prédio e ver a intimidade dos andares exposta como numa casa de bonecas deve ser pouco original, pois em breve a descobriria nos livros e nos desenhos animados. Coisa mais rara é esta ideia de escancarar a intimidade segundo uma perspectiva de planta, como se o chão - o soalho, os tacos, a carpete, os tapetes, a tinta, o betão armado e os posters de futebolistas que o A. do terceiro frente pregara ao tecto - fosse um vidro absolutamente transparente e, por um arranjo impossível de explicar, a mobília do andar de baixo, mesmo a de mogno ou nogueira, mas não cortasse a vista do andar de cima. Olhando do meu quarto até ao oitavo andar e depois para baixo até à cave, veria as vidas ligeiramente dessincronizadas dos meus vizinhos. Correndo as divisões da minha casa, poderia acompanhá-los no seu trânsito de T4, sempre que passassem de um quarto à sala. Teria então percebido que há uma força centrífuga, violentíssima na adolescência, que nos puxa para a diferença e várias forças centrípetas que nos banalizam, nomeadamente: os horários, as grandes empresas, a tirania do gosto e, claro, a televisão a dois canais. A gente que cresce em vivendas - ou em barracas, que para o caso é igual- não pode perceber esta vertical e opressora normalização da existência, em que nunca chega a dissipar-se a desconfiança de que somos cobaias numa vasta experiência arquitectada por sociólogos sem escrúpulos.
Correr as persianas não bastava. Como não bastava fechar o quarto à chave. Uma discreta paranóia levava-me a ter o quarto às escuras, a menos que quisesse ler. Cheguei a andar com uma lanterna, que usava com enorme economia; um Júlio Verne consumia 3 pilhas grandes. É claro que nunca vi propriamente através do tecto e ainda espero pela chegada dos super-poderes. Mas conhecia muitos quartos e salas, lanchara em muitas cozinhas, chegara a ver de relance alguns quartos dos pais dos meus amigos e até me escondera debaixo de algumas das grandes camas de casal, guardando para mim agora o que então vi. Ou seja, tinha o prédio razoavelmente apreendido, o suficiente para que qualquer barulho vindo de cima ou de baixo fosse logo enquadrado num enredo a que não faltava cenário.
O meu vizinho de cima costumava acordar-me de manhã e por vezes a meio da noite com um som repetido a intervalos de tempo de início constantes, mas cuja cadência tendia a precipitar-se ao fim de uns minutos. Parecia um ranger de cama e vinha em séries de 7 ou 8, cada uma com cerca de 4 minutos e espaçada da seguinte por 2 minutos ou nem tanto. O barulho era absurdamente sugestivo e eu vira já um número de filmes suficiente para associar o associar à cadência do acto sexual. É verdade que os tempos e a urgência com que o ruído depois recomeçava não cumpriam o cânone, mas tal apenas aumentava a minha admiração e curiosidade. Durante anos evitei abordar com ele este assunto ou sequer comentá-lo com outras pessoas. Só muito tempo depois, durante um reencontro fortuito num dos bares da capital quando ambos éramos já adultos, ousei inquiri-lo. Ele ouviu-me atentamente, sorriu depois com vontade e disse: "Ó meu amigo, eu devia ter vivido a minha adolescência na tua cabeça. O que fazia eram uns simples exercícios para os bíceps. Punha-me de joelhos aos pés da cama e levantava-a de um dos lados, deixando assentes no chão os dois pés do lado oposto. É verdade que a cama rangia bastante..."
O Jaime era juvenil no Sporting e fora já convocado para a selecção. Crescera no bairro e começara a jogar no Olivais e Moscavide, mas cedo um olheiro deu por ele e levou-o para Alvalade. Tinha contrato e recebia um salário razoável. O Jaime passeava pelos Olivais com estatuto de vedeta. Não direi que assinava autógrafos, mas era uma celebridade local, um pouco como o músico de rock que também por ali morava e era líder de uma banda que estava nos tops. Era bem tratado nos cafés, os miúdos por vezes iam atrás dele e as raparigas enviavam-lhe bilhetinhos. Há anos que não jogava à bola na rua, porque um jogador com contrato não pode arriscar-se a contrair uma lesão e provavelmente não tem muita pachorra para jogar com amadores. Para mais, o futebol era a sua profissão e talvez o Jaime preferisse entreter-se de outra forma nos seus tempos livres, embora eu não consiga imaginar muito bem do que poderia ele gostar (o que faz um jogador de futebol nas suas intermináveis horas vagas, afinal?) Foi por isso uma surpresa vê-lo na equipa adversária, num dos jogos mais importantes do nosso campeonato de bairro. Soubemos mais tarde que Jaime apenas aceitara jogar por estar interessado na irmã mais nova do capitão da equipa deles, um tipo calculista. A rapariga era de facto adorável, com os cabelos loiros aos cachos e uma boca vagamente imoral; no lugar de Jaime qualquer um de nós teria feito o mesmo. A questão era como vencer uma equipa que tinha o Jaime. Ao intervalo o problema cifrava-se em 10 a 2. O nosso melhor jogador cumprira, mas o Jaime era de outra dimensão. O que o distinguia dos outros era a força e velocidade que imprimia a cada jogada. Tecnicamente, se não estivessem no mesmo campo, o nosso craque aparentava estar ao nível do Jaime, mas quando em confronto directo um com o outro percebia-se o abismo que os separava.
Formávamos um círculo e discutia-se a táctica para a segunda parte. "É impossível cobrir o Jaime no homem a homem". Silêncio. "É impossível anulá-lo. O gajo vai buscar as bolas à defesa e depois arranca sozinho e leva tudo à frente". Silêncio. "Posso dar-lhe uma cacetada e o gajo não se levanta mais". Quem falou assim foi um tipo franzino que tínhamos mais ou menos arrumado a defesa direito, longe do Jaime, que investia pelo outro lado. Era um jogador fraco e um tipo insignificante, se me é permitida uma expressão tão violenta. Só mesmo alguma frustração explicava aquela sugestão, que de tão assertiva era praticamente uma declaração de intenções. Ninguém comentou. A tentação de o deixarmos praticar jogo sujo foi tomando conta de nós, subindo pelas pernas como um torpor bom. Então alguém disse: "Tu não tens estaleca para aguentar uma coisa dessas. Nem penses nisso." O franzino não percebeu e retorquiu de imediato, quase parecendo um galo de luta: "Não sou capaz, é? Queres ver, hã? Tu queres ver?" Mas o outro, que era infinitamente mais esperto, respondeu com calma: "se fizeres isso vais ser destruído pelo remorso, pá. Tu não tens arcaboiço para canalha, vai por mim". Só que o franzino não percebeu de novo e continuou a ouvir apenas uma provocação. Quando foi hora alguém disse: "Vamos dar o nosso melhor, sim?". Por outras palavras, reentrámos no jogo sem um plano definido.
Aos trinta segundos da segunda parte o Jaime voava aparatosamente, depois de ter sido ceifado sem bola pelo Franzino, que ficou agarrado à perna a contorcer-se com dores. O Jaime aterrou bem, mas do choque inicial resultou uma rotura de ligamentos e o joelho dele passou a fazer um som muito pouco tranquilizador. Não se conseguiu levantar e foi então que chamámos uma ambulância. Percebeu-se depois que a lesão era mesmo muito grave e o Jaime nunca mais voltaria a jogar à bola. Começou a demorar-se muito pelas ruas do bairro (afinal, o que faz um jogador de futebol quando acaba a sua carreira?), onde era acarinhado por todos. O Franzino passou a persona non grata e desapareceu de vista. Ora, como se sabe, o estatuto de vítima dura pouco tempo ou acaba por cansar quem dele goza e quem o aplica. Em poucos anos o Jaime derraparia para o mundo das drogas duras, sem que tivesse de ir para muito longe. Depois começou a circular a história de que no momento em que se voltou a cruzar com o Franzino eles partilhavam uma seringa, mas isto deve ser melodrama.
-Achas que nos iremos lembrar disto, daqui a uns anos?
-Do resultado do jogo de hoje?
-Não. Isso já esqueci. De estarmos aqui, desta colina, do cansaço depois do jogo e de como a relva sabe bem?
- Sim, da relva acho que sim.
- Mas vamos recordar o quê, exactamente? Que a relva nos sabia bem ou tudo sobre ela? Como a sentíamos nas pernas e nos cotovelos? Da sua cor? De como cheirava?
- Não sei. As lembranças são muito mais detalhadas do que pensamos e estão todas ligadas umas às outras, só que às vezes um tipo não as consegue puxar para fora e pode sacar as lembranças erradas. Ou então não temos paciência para ir puxando pelo fio até à ponta. Ou então temos medo. Outras vezes, não sei... Parece que são elas que nos encontram. Os cheiros, justamente.
- Os cheiros...
- Sim. São uns mobilizadores de memória do caraças. Estás no autocarro a falar com a tua miúda, passa uma matrona com o perfume da tua antiga namorada e por pouco não erras o nome dela, certo?
- Bem, eu só ainda tive uma namorada.
- E eu ainda não tive nenhuma; não espalhes, ok? Mas percebes a ideia, não?
-No outro dia, no Alentejo, estava no meio de uma seara, esmaguei os bagos de uma espiga madura e, pá, foi a primeira vez que pisei uma seara e nunca antes esmagara uma espiga, mas posso jurar que reconheci aquele cheiro. Os cheiros são pistas falsas, excepto para os cães.
-Pois eu acho que só os cheiros nos vão transportar de volta a este lugar. Isto vai tudo desaparecer. Em vinte anos tens aqui um centro comercial ou uma pista de aviões. Haverá uma via rápida que lavrou e destruiu o campo. Uma tragédia, vais ver. Se trouxeres aqui os teus putos será um novo subúrbio com o asfalto ainda fresco o que terás para lhes mostrar. É a segunda morte da aldeia, pá...
- Teremos fotografias.
- Mas as fotografias são uma espécie de mausoléu. São arquivos. Quem abre os arquivos são os estudiosos ou os desesperados. Os cheiros, não. Os cheiros são fragmentos do passado à solta por aí. São coisas incompletas, que te deixam com sede de recordar. Os cheiros não têm informação, são chaves apenas. As fotografias, não. As fotografias agridem-te com a imagem do que pensam tratar-se da tua memória. Têm um grau de detalhe absurdo e são quase sempre dogmáticas. O que interessa ter a imagem de uma fracção de segundo vista de um ponto no espaço segundo o ângulo x? É ridículo, mas uma fotografia não se presta ao diálogo e ou a rasgas ou a aceitas. Com isto do vídeo ainda vai ser pior.
- Então?
- As pessoas vão ter a sua vida toda documentada e a memória deixará de existir. Sabes, aquela zona definida pelo que aconteceu, o que tu julgas que aconteceu, o que tu gostarias que tivesse acontecido e o que receias que possa ter sucedido. A memória é isso.
-Ena. Se fosses no futebol como és a falar passaria a jogar na tua equipa.
- A sério. As memórias têm de envelhecer um pouco. As fronteiras têm de ficar esbatidas. E para isso não pode haver um registo muito detalhado. A menos que sejas biógrafo, mas quem é que quer viver uma vida a contar a vida de outra pessoa?
- Certo. Deixa ver: como já esqueci o resultado de hoje...
- Não abuses, hoje ganhámos nós. 14 a 12. Anda daí, vá. Amanhã quem se esquecerá do resultado serei eu.
F. tinha uma bola multicolorida, que foi perdendo as cores à medida que a película foi saindo, como uma pele velha sem outra que a subtituísse. É muito fácil uma criança afeiçoar-se a uma bola. Uma bola é como um boneco de pelúcia com utilidade. Joga-se futebol e, de noite ou na intimidade das quatro paredes do quarto, abraça-se a bola, usa-se a bola como travesseiro, acaricia-se a bola. Isso, a bola é mais do que um boneco de pelúcia e apenas um pouco menos do que um animal de estimação. Tal não explica a reacção de F. naquela tarde, mas é uma aproximação.
Uma criança que não gosta de estudar quando foi o estudo que abriu os horizontes ao seu pai arrisca-se a uma infância complicada. Por isso havia entre os dois uma tensão latente. A criança não podia escapar à sua natureza irrequieta. O pai não conseguia de deixar de pensar na importância de um curso superior (e apenas três, claro: direito, medicina e engenharia). Cada um percebia o outro, daí a tensão. Porque no fundo a criança queria agradar ao pai e o pai gostaria de ser mais carinhoso. Havia um território de afecto que ambos avistavam mas a que não conseguiam chegar. São coisas complicadas. Então naquele prédio, devia haver um caso destes por andar.
Talvez assim se explique a explosão de raiva de F. O pai ia a passar na calçada e foi testemunha impotente do roubo da tal bola multicolorida por três marginais. Eram tipos grandes e com tatuagens na mão, a denunciar domicílios passados muito pouco recomendáveis. Distinguiam-se dos habituais ciganos do bairro, a quem até os mais corajosos do nosso grupo faziam frente. Depressa se afastaram, aos pontapés na bola, e foi quando estavam já a umas dezenas de metros que F. se apercebeu da presença do pai no passeio e não se conteve: "então o pai não faz nada? Tem medo deles, é?" Toda a gente ouviu; os amigos de F. que com ele brincavam e alguns vizinhos que passavam. Deve ser duro para um pai ser acusado de cobardia pelo filho, para mais em público. O homem ficou imóvel. Talvez tivesse sido medo, sim. Ou apenas prudência. Ou o desejo inconsciente que roubassem a bola ao filho e lhe cortassem mais uma fonte de distracção. As palavras do filho devem ter causado uma profunda mágoa, pois ele ficou parado no passeio durante largos minutos. Os ladrões desapareceram com a bola e todas as testemunhas foram regressando a casa, lançando um último olhar, a ver se o homem arrancava finalmente um inglório sprint de perseguição.
Nele a honestidade e a decência chegavam sempre com um segundo de atraso. Não havia sarrafeiro mais consciencioso, capaz de um pedido de desculpa tão sincero e pungente. Parte do seu jogo era passada a fazer faltas maldosas e o resto a pedir desculpa. Tratava-se de uma rotina irmãmente repartida. Até que ponto um pedido de desculpa resiste? Tudo depende da sinceridade que nele se investe no momento e muito pouco do respeito que a pessoa nos merece. Daí o nosso conflito. Ninguém tinha coragem de o impedir de jogar. Ele era um sarrafeiro fenomenal, mas tinha bom coração. Sofria horrores com as dores dos outros; cinco minutos depois fazia a enésima entrada a pés juntos. Esclareço que não era um sarrafeiro por falta de técnica, daqueles que acertam na canela do adversário quando pretendem apenas chutar na bola. E tinha plena consciência do jogo que praticava. Ninguém conseguia explicar o comportamento dele, na verdade. J. chegou a avançar a hipótese de que se trataria de uma personalidade esquizóide e, com alguma malícia, J. divertia-se a pensar numa situação em que ele se agredisse e pedisse desculpa a si próprio, num loop de nonsense que depois ninguém interromperia, para que pudéssemos jogar em segurança.
"Que adulto iria dar tal criatura?" era uma pergunta que comecei a fazer por aquela altura, sempre que me cruzava com alguém que saía da norma. Em muitos casos a resposta não era difícil e agora, a uns 20 anos de distância, verifico