Os trinta são a década em que começamos a lenta preparação para a morte. Há sempre alguém que morreu na semana passada, outro que está doente e, de repente, um moribundo. Nunca antes me preocupara com os pêsames, em como evitar as fórmulas sem cometer uma gaffe, conseguir ser sincero sem ser inconveniente, nem demasiado breve nem demorado, resistir a intimidades de circunstância e à patética rigidez britânica. A justa medida, que nunca encontro. É uma preocupação diária, uma rotina que não se pode antecipar nem deixa de surpreender, mas uma rotina.
A geração anterior começa aos poucos a despedir-se e, talvez por causa deste estilo de vida meio nómada que adoptei, não registo grandes sinais de renovação. Sem consultar as estatísticas oficiais, é possível fazer um censo demográfico a olho e no meu mundo conto mais mortos que bebés. Ou melhor, a ideia de morte e as mortes concretas estão mais presentes do que as fraldas e os nascimentos. A sensação que fica é a de que galguei uma década.
A rotina da morte só devia chegar aos quarenta, com a retaguarda entretanto protegida ou definitivamente desguarnecida. De um modo ou de outro, creio que então seria mais forte.
Esta entrada marca o recomeço da série A Barreira de Weismann, que havia interrompido por um pudor exagerado.
Acordei a pensar num cenário de pós holocausto nuclear global que apenas deixasse um homem e uma mulher vivos, ameaçando a repopulação do planeta. Esqueçamos a radioactividade, pois há aqui pretensão de penetrar bem fundo no âmago da natureza humana.
Primeiro, nada garante que estas duas criaturas pensassem ser as únicas sobreviventes; nessa medida, o desejo de procriar não viria acrescido de nenhum instinto para salvar a espécie, coisa que, aliás, muitos especialistas dizem não existir. Mas admitamos que entre as actividades diárias de recolecção esse espírito de missão nascia. Seria então preciso que fosse suficientemente forte para vencer um posssível e prévio capricho dela de não pretender engravidar e uma eventual repulsa de pelo menos um pelo outro. Mais, ou ambos se esqueciam das consequências dos seus actos ou teriam de aceitar futuras relações incestuosas entre os seus filhos ou entre os filhos e os progenitores. Admito que estarei a contextualizar um cenário que apela a uma reflexão mais fina, mas um dos corolários desta história é que devemos travar Mahmoud Ahmadinejad em nome da moral e dos bons costumes.
Estou com Hitchens quando ele diz que a maternidade não é assunto para brincadeiras. Nos baby showers, a única solução é gozar com o futuro pai. E falo de um gozo pertinente, que evita o confronto com as mulheres tristes - há sempre pelo menos uma - e adia a introspecção, quando contemplo a possibilidade de ser um dos fins na linhagem dos Barretos, tão ameaçada de extinção. A verdade é que o nome não me interessa salvar, nem sequer os genes. Porque a paternidade deve ser também um outro gozo, bastando-se na forma como se constrói (momento Ana Drago). Talvez para prevenir estes estados de alma melancólicos, nunca fico muito tempo nos incessantes baby showers dos trintões, apenas o mínimo necessário, nem invisto a escrever nos cartões de felicitações, deixando insípidas frases protocolares - logo eu, sempre a tentar seduzir pelo dito espirituoso. Na semana passada houve mais uma destas festinhas para dois colegas de laboratório, uma grávida de uma menina e um futuro pai de um rapaz. Metade da mesa estava decorada a azul e a outra metade a cor-de-rosa, o que respeita a tradição mas também a possibilidade de os dois rebentos saírem gay. Confirmei que nunca se bebe nada se jeito nos baby showers e que a própria comida vem infantilizada. Pelo menos nestes encontros as pessoas têm a inibição que não se vê nos casamentos e não me chateiam com insinuações de que o próximo serei eu. Sim, acuso um certo azedume. Continuo a ir sempre que me convidam e admito que haverá num futuro longínquo uma altura em que só os filhos dos outros são engraçados. Mas estes são dias em que os filhos dos outros não têm toda a graça que porventura merecem.
Há uma diferença entre ouvir que parecemos mais novos e que nos faziam mais novos. Se o primeiro comentário aponta simplesmente para o aspecto físico, com segundo vem um julgamento do tipo de vida que levamos. Quem comenta não se apercebe da diferença e quem ouve sente-a talvez de um modo exagerado, mas o segundo comentário é um eufemismo de "já não tens idade para..." Exemplo do primeiro comentário: how come you don't have gray hair? Exemplo do segundo, já numa variação muito directa: "stop fooling around and start making some babies". Tudo isto é vagamente perturbador, inclusive a pergunta sobre os cabelos grisalhos. A partir do momento em que se começa a falar deles, ter cabelos grisalhos ou não é absolutamente irrelevante.
Se há coisa que invejo nos pais é o pretexto que os filhos lhes dão para construções lexicais de fino recorte. Isto a propósito de um bebé que mama pouco e bolça muito.
Gosto de lavar roupa. É uma rotina que se desenrola com uma periodicidade suficientemente espraiada para que não se torne entediante. Tem também tempos de espera - de lavagem e secagem - que dão para ler dois ou três artigos puxados. E há um elemento de regeneração no processo que me enche de esperança. Com a roupa lavada parece que tudo volta a valer a pena e não ficaria espantado se me dissessem que deixar os antidepressivos passa muito pela escolha de um bom amaciador.
O lugar também conta. Tenho ainda presente o efeito quase hipnótico das revoluções dos tambores das máquinas de uma lavandaria parisiense e algumas conversas que troquei com os emigrantes que por lá passavam, gente que falava francês de todas as formas menos a correcta. Aqui em Nova Iorque há menos convívio, apesar de a lavandaria ser na cave. Não me dou com os vizinhos e os instantes de alguma intimidade só ocorrem por acidente. Como quando trouxe um babete perdido na minha trouxa de roupa. Ou quando descobri uma meia minúscula entre os lençóis. Percebi que a roupa de bebé tem especial vocação para fugir de casa e levantei uma hipótese: são os próprios bebés a colocar, com perícia, velcro nas suas peças de roupa, fazendo bandeiras de sinalização dos seus babetes e garrafas com mensagem das suas delicadas peúgas. Azuis e cor-de-rosa. Menino ou menina, todos se devem aborrecer com o excesso de mimo dos jovens casais. Eles querem ser salvos, pressinto-o. Foi avisado e pertinente ter criado esta série de textos (A Barreira de Weismann), uma tentativa feliz de sublimação do desejo de prole, caso contrário já teria raptado um puto. Outros não tiveram idêntica prudência e incorrem em comportamentos moralmente dúbios ou mesmo ilegais.
Encontrei um exemplo inesperado há uns dias, precisamente quando deixava a lavandaria. Num dos placards de anúncios, alguém anunciava (traduzo): "Adopção: casal sem filhos pretende adoptar uma criança com quem partilhar um futuro radioso. Pagamos as despesas médicas e legais. Vamo-nos ajudar mutuamente". Não sou ingénuo ao ponto de ignorar aquilo que algumas pessoas estão dispostas a propor para conseguir uma criança e o que outros estão dispostos a aceitar para ganhar umas massas. Porém, na minha inocência, nunca pensei poder ver tal anúncio num prédio de classe média de Manhattan. Não imagino nenhum dos meus vizinhos disposto a conceber uma criança por caridade ou para responder às encomendas. Sempre pensei que um arranjinho destes se faz entre gente bem instalada e pobres remediados. Pode ser que ainda seja assim. E que este casal se estivesse a dirigir às amas e às mulheres-a-dias. Ou que tivesse optado por uma campanha massificada. Ou que seja simplesmente estúpido. O certo é que o anúncio me incomodou. Cheguei até a ter saudades dos tambores das máquinas de Paris, daquela desaceleração que parece um rewind e me transportava para outro tempo (algo que as opacas máquinas de lavar daqui não permitem). Talvez por isso tivesse aberto o frasco do amaciador já no elevador, encostado o meu nariz e aspirado com alguma intensidade. Um fulano que entrou nesse preciso momento lançou-me um olhar reprovador, mas há algumas vantagens em não me dar com os vizinhos e nem o cumprimentei à saída.
Imagem de Tracy E. Anderson: ténues fios de esperança para os bebés com excesso de privilégio e desejo de aventura, num detalhe da estrutura do velcro.
Tanto quanto me pude aperceber, aqui do desterro, e apesar de honrosas excepções, a lei da Procriação Medicamente Assistida foi discutida nos media e na vizinhança com a típica vertigem das causas fracturantes, isto é: a redução do oponente a um estereótipo e o predomínio da opinião sobre a informação. Por exemplo, já vai sendo altura de acabar com o hábito de se equiparar uma das facções a um grupo de beatos fanáticos. Quando Daniel Oliveira escreve que "Deixar de fora mães sós e casais homossexuais é fazer da infertilidade uma punição para os que não cumpram a moral cristã" tem razão e não tem. Tem razão, porque com esta prática a moral cristã acaba por sofrer apenas um pequeno beliscão, por comparação a uma lei mais universal que não limitasse o direito à Procriação Medicamente Assistida a casais heterossexuais ou que vivam em união de facto há pelo menos dois anos. Não tem razão, porque depois de transpostos o preconceito religioso e a tradição, subsiste um argumento, o mesmo que sobrevive nas discussões sobre os direitos de adopção. Não ignorando que esta lei em concreto levanta uma constelação de outros dilemas éticos, a questão central, que se deduz, às vezes se enuncia, mas, por algum motivo, não se discute além dos choque de opiniões inabaláveis, é esta: será que os direitos das futuras crianças são prejudicados se a Procriação Medicamente Assistida (disponibilizada pelo Estado) servir também mães solteiras e casais de lésbicas com problemas de fertilidade?
Entre os maus argumentos, há os pegajosos e escorregadios. Os argumentos pegajosos são produto da xenofobia, do racismo ou do fanatismo religioso, não têm ponta de lógica por onde se lhes possa pegar e facilmente os reconhecemos. Os outros, os escorregadios, são mais caprichosos. Também se desmontam, mas é preciso não ter medo do escorrega. Sem mais rodeios, uma criança filha de mãe solteira está em desigualdade face a um filho de um casal heterossexual por três motivos que não admitem grande discussão: não beneficia da estabilidade financeira (e outras) do casal (esqueçamos a taxa de divórcios, para simplificar), a probabilidade de ficar órfã aumenta e pode ser vítima de discriminação, óbvia ou subtil (podemos discordar do preconceito social, mas isso não o faz desaparecer). Diz-se também que a criança precisa de um pai (de um homem) e de uma mãe (de uma mulher), algo que a opinião pública aceita sem verificação empírica e que me parece mais discutível. No caso dos casais de lésbicas, sobram dois dos argumentos anteriores (admitindo que a desigualdade de direitos em relação aos casais heterossexuais estivesse já corrgida): o estigma social e a suposta vantagem de ter um pai de cada sexo. Aceitemos todos os quatro argumentos para os podermos desmontar por atacado, mesmo sabendo que num caso nos estamos a vergar e no outro não existe consenso. Aceitemos tudo. E daí? Por acaso algum direito fundamental da criança está a ser posto em causa? É verdade que a situação não é a ideal, mas não é isso que acontece em todo o lado e a qualquer hora? Há algum Estado que assegure condições ideais e homogéneas de nascimento? Será que quem nasce filho de um casal das barracas tem a vida tão simplificada como um bebé em berço de ouro num casarão da Lapa? A pergunta era retórica, mas por acaso alguém se lembra de proibir a natalidade nos bairros de lata? E, tendo em conta que a inteligência e a beleza são características com base genética que ajudam a singrar na vida , os filhos de gente burra e feia ficam a perder à partida para a descendência de casais bem-parecidos e espertos, certo? Retórica ainda, mas, que eu saiba, os delírios eugénicos passaram de moda. Por que motivo então esta discriminação das mães solteiras e dos casais de lésbicas? Que critérios se aplicam? Onde traçam a fronteira? Que direito essencial é esse que se nega à criança? Estará sua liberdade, segurança pessoal ou personalidade jurídica em jogo? Não se tratará, pelo contrário, de um caso de intromissão na vida privada dos pais?
Há um argumento que os partidários dos movimentos pró-vida gostam de esgrimir nos debates sobre a despenalização do aborto. Dizem eles que não conhecem nenhuma mãe que se tivesse arrependido de ter uma criança. O calibre demagógico é notável, mas para os que se deixam convencer proponho uma variação aplicada ao caso presente. É que eu também não conheço nenhuma criança que esteja arrependida de ter nascido, mesmo desconhecendo o pai, conhecendo-o mas não o podendo ter em casa ou não beneficiando dessa coisa aparentemente única e imprescindível que é o lar heterossexual.
Imagem: gâmetas de ouriço-do-mar.
Pergunto a um colega distante se já foi pai. Responde-me que a criança morreu antes nascer. E logo o protocolo de emergência, o pedido de desculpa - "não esperava que soubesses, caso contrário não terias perguntado...", respondeu ele - o cérebro a 100 à hora, a procura de outro assunto.
- Como vai a ciência?
-Tenho um Nature Structural Biology in press.
- Parabéns.
Percebendo que havia criado o momento ideal para me despedir, é o que faço.
Ter filhos - ou filhas, três, no meu caso - passa por ser uma coisa muito agradável. Quando se tem porque se queria realmente ter, realiza-se um sonho. Conquista-se a imortalidade, nem que seja através dos genes. Paulo Pinto Mascarenhas
São três frases notáveis. Detenhamo-nos na segunda. PPM revela-nos que um dos seus sonhos era ter filhos com vontade de realmente os ter. Isto é subtil, porque sugere que há quem tenha filhos com vontade, mas pouca convicção, e, suponho, quem tenha um filho sem vontade de o ter. As razões que conduzem a estes infelizes cenários podem ser várias e a seguinte lista não pretende ser exaustiva: 1) por acidente, errando no calendário e/ou no parceiro; 2) para agradar à mãe ou aos avós; 3) para arreliar a sogra, que preferia ver a filha ou o filho com outra pessoa; 4) por também não haver vontade de o não ter; 5) para testar se havia vontade de o ter; 6) porque o sexo da criança matou a vontade que havia; 7) para assegurar que os negócios continuarão a ser geridos pela família; 8) por se tratar de um imperativo religioso; 9) para calar as insinuações de incompetência no leito conjugal; 10) para justificar a presença em casa da peituda ama-de-leite brasileira; 11) por causa do abono de família ou de outros benefícios fiscais; 12) para gerar mão-de-obra barata; 13) por dever patriótico, tendo em conta a actual pirâmide etária.
A terceira frase é de uma sinceridade comovente: o móbil para a procriação parece ser a conquista da imortalidade, "nem que seja através dos genes". Devo concluir que adoptar um filho, mesmo quando se tem "realmente" vontade de o adoptar, é um sonho de segunda categoria? Na dúvida, espero que passe pelo menos por ser uma "coisa muito agradável".
Vi hoje uma invenção que gostaria de ter assinado: um capacete para putos endiabrados, aqueles que estão sempre a colocar em risco a sua integridade física e as finanças da família, nomeadamente quando dão uma marrada na mesa com a terrina Companhia das Índias. Conheço casais que atenuam todos os vértices e arestas da casa com espuma. Apesar das boas intenções, trata-se de uma má prática. Não só há sempre algo que fica esquecido como, em boa verdade, parece que estão a proteger a mobília das crianças e não as crianças da mobília. Posso estar a ser injusto, mas é a ideia que fica e isto é perfeitamente inadmissível, sobretudo com o mobiliário IKEA. Se estivermos a pensar num contador decorado a laca da china, embutidos de madrepérola e decoração fitomórfica, enfim, hesito sem ceder; o que há de melhor neste mundo são as crianças. O capacete emerge, assim, como a solução ideal. Aquele que encontrei, numa das minhas deambulações, era impressionante. Chegava a dar ao miúdo um ar de cosmonauta, o que é menos uma maçada em que se pensar no Carnaval. Estava aderente à cabeça como se fosse uma máscara rebelde, que esconde toda a cabeça menos o rosto. E o puto ia feliz, posso garantir. Sorria como um sacana. Com a babysitter por perto, compreenderão que tivesse optado por não lhe aplicar um calduço. Reconheço que é essencial para completar este relatório técnico mas terá de ficar para outra ocasião, se entretanto encontrar um modelo para o meu tamanho que me proteja das pretas calmeironas que passeiam os miúdos branquinhos do Upper East Side.
O mobiliário IKEA irrita-me. É demasiado pinho e contraplacado para uma existência mortal. Os nomes dos móveis... não sei, talvez por causa daquela ressonância a nome de tinta nova. O simples facto de se dar nomes aos móveis me parece um mau princípio. O que incomoda, como se percebe, é o sucesso da companhia, a massificação. Chamem-me burguês, mas quando os meus amigos me recebem para jantar gostaria de sentir que saí de casa. Não me parece um desejo excêntrico. Mas como? Sentam-me numa cadeira "IVAR", igual às que tenho na minha sala e comemos a uma "JUSSI", também a minha mesa de jantar. A sopa vem depois numa tigela "MOTTO", que eu uso igualmente, por acaso como armadilha para caçar moscas, deixando-a sobre a bancada da cozinha com um fundinho de sumo Tropicana, onde os insectos vão beber e se afogam. É com a imagem de uma mosca num chapinhar de asas derradeiro que vou megulhando a colher e sorvendo; terminar o caldo-verde é uma prova de boa educação e disciplina mental.
Há duas gerações, um puto magoava-se numa das arestas de uma cómoda e logo a sua mãe via ali um pretexto para recordar um pouco da história da família: "pronto, pronto, já passou. Sabias que foi nessa cómoda de mogno que a avó guardava as cartas de amor do avô. Olha, aqui nesta gavetinha. Estás a ouvir? Pára lá de chorar, não sejas maricas..." Se eu tivesse um puto e o miúdo desse uma turra num dos cantos da mesa, o que lhe diria? Quase me ouço: "sabias que comprei estas madeiras a um pós-doc chinês e que ele pedia $20, mas o pai regateou e conseguiu trazer a mesa por apenas $15? Estás a ouvir? Pára lá de chorar, não sejas medricas". Há aqui um empobrecimento narrativo que me deprime. E o pior, dentro de duas gerações, não é que já ninguém se lembre das cartas de amor dos nossos avós. O pior - até me custa imaginar isto - é que ao consolar um filho seu lavado em lágrimas e a sangrar da testa, um neto meu dirá: "sabes, foi nesta mesinha "VIKA AMON" que o teu bisavô mandava mails à bisavó. Estás a ouvir? Pára lá de chorar, não sejas sampaio."
Ainda não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Então festejarei o meu aniversário. A paráfrase inicial faz descarrilar os versos de Pessoa e peço perdão pelo sacrilégio, mas onde poderia ir buscar melhores palavras?
Tenho uma teoria sobre os dias de aniversário, peregrina e impopular entre certos elementos do sector terciário, amigos, familiares e namoradas. Sucede que é também uma teoria de bases sólidas. Que sentido faz festejar um dia de aniversário, se não fizemos mais do que viver? Que glória há em ir dos 12 aos 13, dos 20 aos 21, dos 43 aos 44? Nenhuma. Festejemos antes um feito, um reencontro, o nascimento de um filho. Deixemos as velas em paz. Com uma ressalva para quem esteve às portas da morte e se safou, só se justifica festejar o nosso aniversário quando atingimos e ultrapassamos a idade da nossa esperança média de vida. Dir-me-ão que é um argumento desolador, de quem se verga à estatística, mas só depois de atingida essa fasquia é que cada respiração merece ser gozada e celebrada. É verdade que com um esquema destes por vezes haveria falta de quórum e os poucos presentes não cantariam já com grande afinação. Mas seria uma festa de aniversário com mais sentido e poupar-se-ia nos croquetes.
(...) não vamos pôr os poemas de Pessoa em banda desenhada para serem mais acessíveis, mas devemos desenvolver as estruturas pedagógicas para que as pessoas entendam os poemas tais como eles são. Isto é o ABC de uma política cultural: promover a qualidade e criar dispositivos de ensino que permitam a inteligência adequada dessa qualidade. Eduardo Prado Coelho, hoje, no Público.
O exemplo serve bem a tese de que é um erro levar a arte ao povo. Devemos, diz EPC, levar o povo à arte. Estou de acordo, mas identifico uma notável excepção: as crianças. Ao contrário do grosso da inteligência lusitana com mais de trinta anos, que provavelmente anda a reler a obra pela terceira vez, comecei a ler "o Quixote" (como os espanhóis dizem) em 2005. Até então a minha memória confiava numa notável adaptação da obra de Cervantes para desenho animado (creio que da TVE), que vi quando era miúdo. Não me incomoda nada, antes pelo contrário, servir os grandes clássicos à canalha recorrendo a este expediente. É um período que não volta: tem-se mais tempo e absorve-se melhor. É certo que também me lembro da Rua Sésamo e do enorme - Mourinho teria dito "brutal" - Professor Baltazar. Não faço, por isso, uma cruzada contra o lobby dos autores de literatura infantil, a existir um. Mas a verdade é que esqueci o grosso da ficção infantil da época. Ao invés, os anos provaram que foi útil aprender o clássico em desenho animado. O que se trata aqui é de aproveitar a lição do tempo, tendo também presente quão finito o tempo é. Se muitos jamais chegarão a folhear o original, pois então que venha uma boa adaptação infantil. A alternativa é contactar pela primeira vez com o Quixote num qualquer anúncio publicitário para a promoção da energia eólica que diabolize o cavaleiro da triste figura. Ou algo parecido. Isto para quem não relê. Ou lê pouco. Ou não lê de todo.
Vivo com um homem e tomamos o pequeno almoço numa mesa vastíssima, cada um diante do seu laptop. Enquanto comemos torradas, falamos sobre política nacional, bandas de rock alternativo exclusivamente femininas e instrumentos de culinária. Às vezes comunicamos por posts, assim face a face. Sou um casal moderno.
Em Lisboa brinquei com os filhos de dois amigos. Não os via há mais de sete meses e são crianças em acelerado período de crescimento. Sem discriminar a alegria que me deram - que o futuro recordará também na forma de uma hérnia discal, iminente depois de ter decidido levantar os três do chão ao mesmo tempo - deu-me um gozo especial brincar com M. (os nomes dos três começam por M., mas para quem os conhece não há confusão possível). M., que em Abril último ainda se comportava de modo vagamente vegetativo, em Dezembro entrou na sala de rompante e por seu próprio pé (sem a ajuda das mãos). É hoje uma criança muito divertida, de risada irresistível e com queda para brincadeiras um pouco violentas. Mas o mais curioso foi ter reparado, antes de ambos termos posto máscaras de mergulho e começado a marrar um no outro, que M. é uma espécie de versão bonsai de seu pai. O pai é pessoa que conheci já crescida, mas de repente abriu-se ali uma janela para o passado do meu amigo e, por instantes, julguei que estava a brincar com ele. Não sei que efeitos a parecença dos filhos com os pais tem nestes, mas a extrapolar a partir desta experiência deve ser uma sensação forte, e até algo perturbadora.
De uma amiga, que obviamente lê os livros que lhe compro:
A propósito de fitness e sedução.
Para não variar, não há nenhum estudo, ou conjunto de estudos, realmente conclusivo nesta área. Mas há alguns resultados muito interessantes e que não validam a tua hípótese. A saber:
1. as pessoas (refiro-me à maioria) não procuram os ginásios e afins para seduzir ou melhorar as suas aptidões socio-sexuais.
2. ao fim de um ano de treinos regulares a satisfação com a sexualidade não melhorou significativamente; a satisfação com a imagem corporal melhora num grupo e piora noutro grupo, sendo que o segundo tem características psicológicas específicas (mais isolados, mais perfeccionistas, auto-estima mais baixa).
3. a generalidade das pessoas não se sente mais atraída sexualmente pelos companheiros/as após x tempo de frequência de ginásio.
Uma das conclusões/hipóteses que coloco é que a utilização patogénica do exercício tem muito pouca relação com a sexualidade. Factores como a insatisfação com a imagem coporal, uma personalidade do tipo obsessiva e aditiva e/ou pouca qualidade das relações interpessoais estão mais presentes num modelo explicativo mais coerente do que um modelo do tipo "darwiniano" (isto dá para andar à porrada à boa maneira dos nossos ancestrais... é que a sociobiologia e/ou a psicologia evolutivas são, para mim, pouco interessantes e limitativas). Estes factores que mencionei encontras também em algumas pessoas que fazem cirurgia correctiva compulsivamente, restrições alimentares e outras formas de alteração daforma corporal.
Felizmente que grande parte dos sujeitos utilizam o ex como factor de melhoria do estado de saúde geral, mas isso ainda é outra conversa...(...)
A fotografia mostra Olivia Newton John, em flagrante trip de endorfinas.
O hábito de comprar livros cuja leitura não inicio ou não termino é quase imoral. Defendo-me dizendo que estou a fazer uma biblioteca para os meus futuros filhos. O problema, aqui, não é ninguém acreditar que eu esteja a falar a sério. O problema é eu aceitar convictamente esta justificação.
Estou a acusar alguma atracção por um tema passível de dar uma série. Nestas coisas não se hesita e sai logo título sonante: A barreira de Weissmann! A coisa deve ser meio críptica para quase toda a gente, mas explica-se já. Somos habitados por duas populações de células, uma que nos faz e outra que fará a nossa descendência. O pai deste conceito, aparentemente banal mas com profundas implicações, foi August Weismann. Os textos desta série, não sendo de biologia, estão remotamente ligados à percepção do corpo, da descendência e da senescência, do indivíduo e da espécie, de uma explicação do instinto incapaz de o anular, etc. Escusado seria dizer que são pura e descartável produção somática.
BW I
Encontrei em Portugal um anónimo irritado com o termo "fitness center". Dizia que "ginásio" serve perfeitamente. Ora, que eu saiba, não há tradução para "fitness", quando usada no sentido darwiniano (talento para gerar descendência). Temos um verbo (proliferar) e um adjectivo (prolífico), em consonância etimológica com o modo como em Evolução se entende a palavra "fitness". Porém, a nossa língua não produziu substantivo que, no contexto referido, substitua fitness de forma capaz*. Dir-me-ão que na expressão "fitness center" a palavra designa a "forma física", mas a verdade é que há cada vez mais gente a frequentar ginásios para aumentar as suas chances nos jogos de sedução, o que é meio caminho andado para a outra "fitness". E assim, como que por acidente, hoje o termo "fitness center" não podia ser mais rigoroso e é praticamente intraduzível.
* Gostaria que me corrigissem se não estiverem de acordo.
Nas intragáveis listas de discos, livros, blogues, efemérides, etc. de 2005, só a referência ao nascimento de um filho desperta em mim uma reacção de sana invidia. O problema é que o adjectivo tem prazo de validade.
Filho meu será arquitecto e violoncelista, a menos que expresse uma vontade forte de ser outra coisa qualquer.