fevereiro 17, 2008

Hi5, low5

345.jpgO Francisco surpreende-se mas aceita que 3 500 000 de portugueses já se tenham conhecido pelo Hi5, acusando depois alguma melancolia. Eu não engulo o número e adio a melancolia.

Em 2006 havia mais de 3.6 milhões de internautas lusos e - para facilitar a discussão - aceito até que em 2008 o número esteja próximo dos 7 milhões. Mas isso significaria que 3 em cada 6 portugueses aderiram e usam o Hi5. Ou eu conheço sistematicamente os outros 3 indivíduos do grupo de 6 - e admito que a minha faixa etária não seja aquela em que o Hi5 penetra melhor - ou o número está errado. Haverá uma explicação para o erro? O meu primeiro chefe dizia-me para não ver zebras onde há apenas cavalos, isto é, aconselhava-me a ser parcimonioso nas minhas hipóteses, pois a parcimónia é uma espécie de código postal do método científico. Ora bem, a hipótese menos exuberante é alguém ter acrescentado um zero. Mas talvez não ande a ver zebras se pensar que contaram o número de novas interacções entre indivíduos e não o número de indivíduos que aderiram ao site. Vamos decompor.

Imagine que 10 portugueses aderem ao Hi5 e que todos comunicam uns com os outros. Quantos portugueses se conheceram pelo Hi5? Eles são só 10, mas na verdade produziram 45 interacções diferentes - novos conhecimentos, se preferir. Há uma fórmula matemática para isto. Mas há também os dedos da mão. Abra as duas mãos com as palmas voltadas para si, comece no polegar esquerdo e conte em quantos dedos diferentes consegue tocar com esse polegar. Nove, certo? Use agora o dedo seguinte ( indicador da mão esquerda) e repita o mesmo exercício. Agora só já conta 8, pois o contacto entre o polegar e o indicador esquerdos seria repetir uma interacção prévia. Continuando a mudar de dedo, conta sucessivamente 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 novos contactos. Ao chegar ao polegar direito, são 0 as novas interacções, pois todos os outros dedos já haviam tomado a iniciativa de o conhecer. Somando tudo, temos 9+8+7+6+5+4+3+2+1=45. Ou seja, 10 portugueses no Hi5 geram 45 potenciais conhecimentos. E quanto mais popular for o site, maior será a disparidade entre o número de conhecimentos potenciais e o número de inscritos. Quantos portugueses são suficientes para produzir 3 500 000 interacções? Menos de 3000.

3 500 000 novas interacções não deixa de ser um número brutal. O que me parece errado é tentar explicar a popularidade do site com uma suposta idiossincrasia nacional, o que é um hábito frequente quando escrevemos para os nossos. Estes sites de socialização são populares a uma escala global, o que temos aqui é um fenómeno novo no tempo e não no espaço.

Também discutir como se este fenómeno matasse formas de socialização tradicionais me parece falacioso. Não só o largo deixou de ser o centro do mundo ainda no tempo de Manuel da Fonseca, como estes sites muitas vezes apenas complementam a rede convencional de contactos ou a potenciam, pois podem ser uma antecâmara para interacções futuras em carne e osso. E já nem falo das pessoas que ficam geralmente excluídas das interacções sociais normais e que por causa da internet conhecem os seus pares.

fevereiro 16, 2008

Palavras preferidas

Para a Ana e o Lourenço

Mama: é a nossa palavra mais generosa. Não tem só o sentido no som, chega a ser a sensação. Todas as outras palavras associadas a tentações encerram o gérmen da frustração, mas esta substitui-se ao objecto. Creio mesmo que este vocábulo é um dos poucos consolos para quem gosta de mulheres.

Pejorativo: esta não é pela fonética, entra na galeria por via biográfica. Escrevi-a mal aos 17 anos, na Prova Geral de Acesso, e apercebi-me disso à saída da sala. Passei os dias seguintes a sublimar e antes de a nota ser lançada já me agradava a ideia de renunciar aos estudos superiores e ir para ajudante de carpinteiro em Ourique. Não foi o que veio a acontecer, mas desde então, sempre que leio esta palavra, tenho um flashback para essa vida paralela; isto por vezes gera efeitos curiosos, como andar agora obcecado com a ideia de comprar um louceiro e ver o louceiro que gostaria de ter na minha cozinha lá na outra vida, em Ourique, na carpintaria, comigo a dar-lhe os acabamentos finais.

murmúrio: um gosto antigo, mas que não me fidelizou na leitura de Lídia Jorge, de quem só conheço as primeiras páginas de O dia dos prodígios - apesar de ter um começo portentoso.

(continua)

Tempo real

Regressada da Alemanha, onde perdeu o namorado para uma nativa, nem um ano passou para que voltasse a falar com ele à distância, como grandes amigos. Quando também ele regressou, a amizade consolidou-se ainda mais. A nova namorada veio com ele e, para surpresa de todos, as duas deram-se muito bem. Tornaram-se até a melhor amiga uma da outra. O problema só surgiu uns meses depois, quando a alemã abandonou o alemão e passou a comunicar em português. Sempre que a ouvia, a outra não conseguia evitar traduzir imediatamente em pensamento o português da alemã para alemão. Era como se não permitisse que a namorada do seu antigo namorado lhe roubasse agora a língua. Como se a rechaçasse. Mas o seu alemão era fraco e, absorta na tradução, ela perdia sempre o fio à conversa, ao ponto de a alemã chegar a pensar se a outra não estaria a perder faculdades mentais. Quando o ex-namorado procurou inteirar-se do que se passava, recebeu dela uma resposta que o deixou desconcertado. "Tinhas de ser diferente dos outros? Não podias ter arranjado uma brasileira, canalha?" Não o voltaria a ver, nem a ela.


fevereiro 15, 2008

Ah, Yosemite National Park, onde nunca estive

Theodore Roosevelt, à direita de John Muir, que o tem à sua esquerda.

Confesso que primeiro confundi John Muir com Buffalo Bill Cody e que foi já na fase de confirmação com suporte pictórico que dei pelo erro.

fevereiro 14, 2008

4878.jpg
Gerhard Richter Seestuck (Gegenlicht) / Seascap (Contrejour) 1969 200 cm X 200 cm Oil on linen

Eu também afundei muitos porta-aviões

Segundo João Miranda, o importante é que a retirada das tropas americanas se faça sem avisar o inimigo, os aliados e até as tropas americanas propriamente ditas.

What went wrong?

A Inglaterra dos últimos anos não parece ser a Inglaterra dos ingleses. A morte de um brasileiro no metro provou que o license to kill não é só coisa de ficção, os dados fiscais de 25 milhões foram apagados, um líder religioso de topo propôs alguma abertura à sharia, o governo elaborou um cadastro académico electrónico dos seus cidadãos a partir dos 14 anos de idade. Ora bem, temos aqui um ataque às liberdades individuais por imperativos securitários, um caso de incompetência terceiro-mundista, sinais de laicidade débil e tiques de Big Brother. Parece-me irrefutável concluir que os ingleses estão agora a sofrer as consequências do regresso à pátria, nos anos 70, dos oxfordianos Vasco Pulido Valente e Maria Filomena Mónica.

fevereiro 13, 2008

Não é fácil esquiar na esteira de Bush

190px-Nixon_greets_POW_McCain.jpgIndependentemente do futuro adversário de McCain, cresce já a curiosidade de ver como o seu passado de prisioneiro de guerra será instrumentalizado pelos republicanos. À partida, trata-se de um trunfo indiscutível, mas sobra um problema. Nenhum dos adversários possíveis de McCain combateu numa guerra como a do Vietname, sem que para isso tivesse de arranjar estratagemas de mérito duvidoso. O republicano que agora ceder à tentação de explorar a coragem e o martírio de McCain, só nos estará a recordar a forma indecente como no confronto prévio entre Bush e Kerry o seu partido branqueou os privilégios deste (ficou a brincar de aviador nos EUA) e diminuiu os feitos daquele (foi para a guerra e veio de lá condecorado). McCain pode ser o melhor candidato para os Republicanos, só que estes não são o melhor partido para McCain.

"Tinha a inibição do mal, que é própria do narcisismo profundo"

Esta é a minha história que a memória abreviou, quando não é que a modéstia a repreende. Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta. Assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarmos todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós. Não podemos voltar para compor o inacabado ou as palavras soltas ou a que faltou experiência.
A criança de seis anos que eu era andava sozinha pela avenida onde cresciam as grandes tílias e só os pássaros se ouviam como guardas dos meus passos, teve o primeiro pressentimento do extraordinário. Disse para mim: 'Estou num lugar, numa hora, numa vida que não me são desconhecidos'. É esse entendimento de que a nossa vida é repetição e pode ser corrigida a ponto de produzir uma forma de profecia, aquilo que nos abençoa e protege e alegra. Fazendo com que o sofrimento tenha sentido no mundo.
Agustina Bessa-Luís, O livro de Agustina

Entre outros encantos, trata-se de um textozinho que os editores da Guerra e Paz esticaram até à forma de livro, o que é bom para a indústria da celulose e faz com que o leitor experimente uma ilusão de agilidade mental muito prazenteira, pois numa hora despachamos uma vida e vamos ainda mais embalados pelo rápido virar de página naquela urgência de cunhar máximas.

Amigos chegados descobriram várias gralhas e construções bizarras no opúsculo. Sobre estas, a própria Agustina confessa gostar de fazer heresias à gramática; sobre aquelas, quem lê o MI não ficará surpreendido que eu tenha apenas descoberto uma (“Era um judia alemã”, página 60).

A apetitosa história de como conheceu o marido, já sobejamente conhecida, não é mencionada. Aliás, o marido e a filha praticamente não aparecem, o que me parece muito inovador, positivo e consistente com o narcismo profundo e a forma como se compara a sua mãe.

Uma última citação me parece pertinente para a blogosfera. Explica parte da relação do blogger com os seus leitores e, também, o relativo desprezo pelos anónimos e pela gente que não se materializa nas nossas vidas:

Nesse tempo trocava correspondência com desconhecidas só pelo gosto epistolar, e via que exercia um poder sobre elas que não era vulgar. Não as considerava amigas, mas sim o pretexto para eu escrever mais e mais. 'Eu não preciso de amigos, preciso de quem me leia', dizia eu. Ficavam muito ofendidas, com razão, porque eu as ignorava e não lhes conferia qualidade humana. Eram fruto da minha experiência literária à qual eu sacrificava tudo, como o conde de Frankenstein sacrificou à ciência.

fevereiro 12, 2008

3%

De acordo com as contas da visão, Barroso recebeu no ano passado 277 mil euros de prémios, mesmo sem realizar qualquer transplante. Em declarações à Visão, o médico explica que a situação foi negociada com a tutela, mas acaba por admitir que o valor é exagerado, pelo que mandou reduzir em 3%, o montante que recebe. Fonte

Barroso oferece-nos uma boa oportunidade para tentarmos uma variação sobre a regra de Goebbels de que repetir uma mentira até à exaustão faz uma verdade. Será que reiterar uma proposta absurda é capaz de gerar uma proposta sensata? Quantas vezes terá Barroso de pedir uma redução de 3% sobre a sua anterior proposta para que deixemos de rir? À trigésima correcção de 3% sobre o valor anterior, ele ainda receberia acima de 100 000 euros por não ter realizado um único transplante. Por outras palavras, a máxima de Goebbels é aplicável, mas exige uma incomensurável paciência.

Mea culpa (pensei como dava mais jeito): ""Não estou ao corrente do tema e, de qualquer modo, parece-me, à partida, um número muito grande para quem não tenha feito qualquer transplante. Pela leitura da notícia, contudo, duas coisas parecem ser sugeridas:

(1) A redução de 3% não será relativa aos 277 mil euros, mas sim à percentagem de que ele usufruirá no tal contrato. Lê-se no artigo: "O cirurgião considera os prémios exagerados e garante que por iniciativa própria já propos baixar em 3 pontos a percentagem que usufrui.... Se, por exemplo, ele receber 10% [do que quer que seja], uma descida de 3 pontos percentuais significa uma descida percentual de 30% (dos tais 277 mil euros). Para não variar, o artigo é confuso e não tem toda a informação.

(2) Outro aspecto que parece facilmente criticável, mas que não temmnecessariamente de o ser, é o facto de o sujeito em causa receber um certo montante - avultado, é um facto - mesmo tendo feito "zero" transplantes. Longe de conhecer o tema, lembro que um "Director Comercial" pode e deve
receber prémios dependentes das vendas - mesmo que ele próprio não seja "directamente" responsável por uma facturação adicional.

Segundo o artigo, os incentivos dizem respeito ao cargo de "director de serviço de transplantação" (do Curry Cabral). Em teoria, e mesmo sem conhecer os detalhes exactos desde processo, faz sentido que tal cargo esteja sujeito a prémios relativamente elevados (comparativamente a quem faz de facto os transplantes). Daí a achar que 300 mil euros são um número razoável vai uma diferença grande, mas que por ignorância não pode ser propriamente aferida.". TM, leitor devidamente identificado.


Contagem decrescente para o grande bicentenário

Darwin nasceu há 199 anos e daqui a precisamente um ano teremos uma exposição sobre Darwin em Portugal. Já há um blogue que pode ser visitado por todos, incluindo Jónatas Machado.

Estou perplexo

Fui ao Frágil e vim de lá com a impressão de que o João Galamba é mesmo giro.

Contorcionistas sociais

Pessoas que estendem a mão e desviam os olhos.

fevereiro 10, 2008

Maria João Marques

Os milhares de caracteres que a senhora Maria João Marques tem escrito nos últimos dias levam-nos a crer que:

1. Maria João Marques deve ser péssima para as pessoas em geral, visto que não hesita em trazer para a sua pocilga o nome das grandes amigas de Maria João Marques.

2. A raiva perturba o raciocínio de Maria João Marques e o medo ainda perturba mais o raciocínio de Maria João Marques.

4. Maria João Marques não sabe pedir desculpas em público, talvez pelo uso continuado do confessionário - o que é lícito supor em Maria João Marques.

Em síntese, como com raro brilho alguém escreveu sobre Maria João Marques, Maria João Marques embaraçou-nos a todos com um "suicídio de carácter" público.

A carta

No ano de 1987, no Porto, alguém escreveu uma carta de amor belíssima, que o destinatário se apressou a mostrar aos amigos mais chegados. A carta era tão bem conseguida no tom e universal na mensagem que um dos amigos não resistiu a transcrevê-la, não sendo claro o modo como o fez - talvez uma fotocópia, se em ambiente laboral, ou parágrafo a parágrafo numa memória bem treinada, após insistentes e elogiosos pedidos que deram em reiteradas leituras. Em 1988 havia, portanto, duas cartas idênticas, que só diferiam na caligrafia e, como se percebe, na suposta autoria. Ambas reconciliaram os amantes e voltariam a tentar ainda mais os amigos, pois ficara a saber-se que a carta não só era bela, como eficaz. 1989: 8 cartas, ainda nos círculos da alta burguesia da Invicta. 1990: a carta aparece em Braga. 1991: a carta entra em Lisboa num voo de primeira classe, borrada de lágrimas e amarrotada nas margens por mãos crispadas; aí continua passar de amante em amante, que se contagiam pela amizade. 1993: um observador omnisciente contaria umas 50 cartas em Lisboa. Em 1994 surge um primeiro sinal de inquietação: alguém lê, no intervalo de duas semanas, primeiro como destinatário, depois como confidente, a mesma carta, vinda de grupos de amigos que só o tinham a ele como elemento comum. Perturbado, nem se apercebe de que as duas cartas não eram exactamente iguais, havendo pequenas nuances de vocabulário, sintaxe e, sobretudo, pontuação, mas que, na verdade, seriam insuficientes para ele não se sentir insultado. Um ano depois, alguém lhe conta que foi vítima da mesma situação e, após consulta, concluem que se tratava da mesma carta. Sucede que, talvez por vergonha, o rumor de que anda à solta uma carta de amor plagiada não alastra com a mesma rapidez da carta. Não deve por isso surpreender o desconcerto quase síncrono - foram segundos - dos dois namorados em busca de reconciliação, quando enviaram uma ao outro por correio electrónico uma longa mensagem, tão idêntica que primeiro pensaram haver sido devolvida ao remetente. Enfim, o que talvez supreenda seja isto acontecer só em 2008, mas para avaliar o caso precisaríamos de presumir um pouco menos sobre a natureza humana e dominar um pouco melhor a epidemiologia.

fevereiro 09, 2008

tus espaldas

Somatização existencialista, um tributo a John Coplans

'Back_with_Arms_Above',_black_and_white_photograph_by_John_Coplans,_1984.jpg

"Gordo, forte..."

A deselegante bojarda do antigo bastonários dos advogados a Marinho Pinto, o actual, foi já muito comentada, chegando-se ao exagero de ver ali mais um sinal de higienismo. O que ficou por esclarecer foi o papel da palavra "forte", que sucedeu a "gordo". Há aqui duas hipóteses. A primeira: "forte" foi usado como eufemismo de "gordo", um pouco como Obélix sempre se apressa a corrigir os outros, só que aqui em arroubo de consciência imediato; a segunda: "forte" descreve o carácter de Marinho Pinto. Se uma avaliação do silêncio entre as palavras, das expressões de Júdice, da gesticulação, das alterações de reflexos na testa e rubor facial nos instantes seguintes não chega para confirmar a primeira hipótese, os elogios a Marinho não são suficientes para a excluir, pois aparecem como antecâmara do insulto. Em todo o caso, agora que Júdice revelou ser tão sensível ao papel do físico para o sucesso na política, percebe-se melhor por que razão há uns tempos se aproximou tanto do PS. É que se para se ser populista é preciso ser gordo, na cabeça de Júdice deve haver um limite mínimo de altura para se chegar a primeiro ministro.

fevereiro 08, 2008

"Si tu reviens, j'annule tout"

Sarkozy, um presidente cujo objectivo principal parece ser a acumulação de dois divórcios no primeiro ano do seu mandato. [reformulação]

Adenda: estou com aqueles que pensam que o Le Nouvel Observateur fez mau jornalismo ao publicar este sms. Aliás, não esclarecer na peça se Sarkozy gravou a mensagem para uso futuro é péssimo jornalismo, tendo em conta o carácter do homem e a conjuntura.

fevereiro 07, 2008

Quando Vital faz de Vasco Graça Moura

Se pega a moda de ir vasculhar o passado pessoal e profissional dos políticos antes de o serem, mesmo que tenha sido há décadas, ainda haveremos de ver um grande "jornalismo de investigação" sobre as pequenas e médias malfeitorias juvenis de todos os políticos no activo, incluindo saber se alguma vez escreveram obscenidades na carteira da escola, se copiaram nos testes escritos, se não devolveram um livro à biblioteca do liceu, se viajaram em transportes públicos sem pagar, se "abafaram" alguma galinha para uma farra estudantil, se fumaram erva quando ainda era ilegal, se frequentaram bordéis, etc. etc.
Proponho mesmo mais duas medidas: (i) que todos os candidatos a cargos políticos façam uma declaração, sob compromisso de honra, em como nunca praticaram nenhum desses actos de delinquência cívica, manifestamente incompatíveis com uma futura carreira política; e (ii) que seja oficialmente emitida uma cartilha para todos os futuros políticos, estipulando as normas de conduta que todos os candidatos devem impreterivelmente respeitar como condição de um político virtuoso.
Vital Moreira

Resta saber se, de futuro, Vital Moreira deve ser julgado pelas opiniões que tinha antes de se cumprir a alternância de poderes.


Da ortodontia

9017Coplans.jpgSomatização existencialista, um tributo a John Coplans

"Everytime we say goodbye, I die a little"? Talvez. Verdade insofismável só mesmo esta: a cada despedida do meu dentista, sim, sinto que morri um bocadinho.

Não se regenerando como os cabelos, mas não sendo essenciais como um fígado, os dentes são as partes do corpo mais capazes de cuidar da nossa formação contínua para a mortalidade.

Eu sei que a luminotecnia é meio caminho para o milagre e uma fonte de luz sobre o perímetro mínimo de focagem e difractada pelos cantos dos olhos lacrimejantes produz efeitos de tipo místico, mas o holofote da cadeira do dentista, quando as pálpebras estão semi-serradas e a anestesia local faz do ronronar da broca un soporífero, parece mesmo uma fresta para entrar clandestinamente no céu. Deve ser por isso que a cabeça do dentista e da sua assistente entram no meu campo de visão como dois actores que se debruçam sobre uma campa onde jaz o cameraman. Deve ser por isso que quando ele me pede que música quero ouvir, parece que está a conceder o último desejo a um condenado e que os Talking Heads soam como nunca. We're on a road to nowhere? Desta vez teria concordado plenamente, não tenho partis pris contra as canções. Teria até cantarolado, mas estava com a boca ocupada, experimentava um travo a clorofórmio e tinha a cabeça em pensamentos mórbidos, mesmo que fosse certo que daquela vez só um nervo periférico morria.

(Notas para desenvolver...)

fevereiro 06, 2008

Underaged in the 80's, timeless ever since*

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* Título alternativo: A Paixão Segundo Th.


Primeiro ensaio para a última frase do Génesis que conta

There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved. Charles Darwin, On the Origin of Species by Means of Natural Selection

Há grandeza nesta visão da vida, em que os seus poderes distintos num sopro criaram poucas ou uma só uma forma primordial; e que, enquanto este planeta ia girando de acordo com a imutável lei da gravidade, inúmeras formas mais belas e mais maravilhosas, de um começo tão modesto evoluíram e vão evoluindo ainda.

fevereiro 05, 2008

Excríticos Pop

Muitos críticos de música pop nunca a fizeram. E são ainda menos os que sabem de música, no sentido de se estudar um instrumento, a voz ou composição. Inevitavelmente, produzem análises não com base no que é estrutural à música (ritmo, melodia, harmonia, orquestração...) mas nas influências, abusando de chaves dicotómicas com critérios acessórios - uma febre taxonómica que procura compensar a falta de substância - e recorrendo à exploração da memória musical colectiva, os inprints da adolescência e os seus sucedâneos. Incapazes de penetrar na linguagem, discutem-na com base em módulos pré-fabricados. Nisto podem ser equiparados ao DJ, que usa como matéria bruta a música dos outros. É obviamente uma fórmula de sucesso. Por tudo isso, sempre os desprezei. Mas estava errado. A música que tratam não possibilta outro tipo de crítica. É, de resto, uma música que evolui à superfície, com base nas tais influências. Ora, de nada serve um batiscafo quando a água dá pelo joelho. E pode até haver algum brilhantismo em se produzir um texto crítico de música sobre um objecto tão pouco criticável do ponto de vista musical.

A menos que use carimbo

Assinar 300 vezes num mesmo dia deve provocar um distúrbio de personalidade.

Um génio paraliterário

Uma crítica da jornalista Dóris Graça Dias a um livro foi censurada. Não sou propriamente um histérico da liberdade, mas não pude deixar de achar alguma graça ao argumento usado pelos censores como razão para recusar a publicação: o da falta de qualidade. A crítica é sobre um livro de Miguel Sousa Tavares (MST), esse nome insidioso, que divide transversalmente a sociedade portuguesa, gera acusações de plágio onde elas não existem, anima as tardes a Vasco Pulido Valente, desperta invejas, faz subir os padrões de qualidade dos directores de jornal e, eventualmente, baixar os dos seus críticos. Por tudo isto, parece-me dispensável ler as obras. As histórias sobre um livro de MST superam provavelmente a do livro propriamente dito. De certo modo, trata-se de um caso especial de talento literário.

Sempre a aviar

Ouvi do Mário Crespo que o restaurante Eleven só paga 500 euros pelo direito de estar onde está. Isto é infame. Infame porque também ouvi dizer que se paga muito caro e não se come assim tão bem.

A precipitação é um dominó

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O director da polícia judiciária confessou que houve precipitação em constituir os McCann arguidos. Pode ser que uma história sobre as profundezas da natureza humana não revele, afinal, mais do que os baixios da nosssa incompetência. É verdade que a coisa fica menos sumarenta. Mas talvez não se volte a especular sobre o assunto e, lentamente, todos nos calemos. Antes assim.


fevereiro 04, 2008

Th.

...Se um gajo consegue cometer uma frase destas and be a regular columnist at the Times, the sky is the limit:

"Just six letters distinguish the words “communism” and “computers,” but the supplanting of one by the other has transformed the world."

Lederberg, Joshua

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"It is with great sadness that I inform you of the passing of President Emeritus Joshua S. Lederberg, who died Saturday at New York Presbyterian Hospital. He was 82.

Josh joined the university in 1978 as our fifth president, and was one of the 20th century's foremost molecular geneticists. He was a graduate of New York City’s Stuyvesant High School and Columbia College, and he went on to earn a Ph.D. in microbiology at Yale University in 1947. In the course of his doctoral research, he made the seminal discovery that a form of sexual reproduction occurs in bacteria, demonstrating that bacteria possess a genetic mechanism similar to that of higher organisms, including humans. This work – for which he earned a Nobel Prize in Physiology or Medicine in 1958, at the age of 33 – helped lay the foundation for the current revolution in molecular biology and biotechnology.

In 1947 Josh joined the faculty of the University of Wisconsin, and in 1959 he moved to the Stanford University School of Medicine. There he founded the genetics department and also served as professor of biology and computer science, pioneering the field of artificial intelligence.

(...)

Throughout his career, Josh took on important advisory roles in government. He was a member of the National Academy of Sciences and the Institute of Medicine. Josh served as scientific counselor to nine U.S. presidential administrations and many world leaders on issues ranging from cancer and emerging infectious diseases to space exploration and biological weapons disarmament. In addition to the Nobel Prize, he was honored with many awards including the National Medal of Science and the Presidential Medal of Freedom.

As an Emeritus President, Josh continued to be a wonderful campus citizen and a valued and trusted adviser to succeeding presidents, including myself. I am enormously grateful for the support, encouragement, and friendship he afforded me.

I extend my deepest condolences to his wife of 40 years, Dr. Marguerite S. Lederberg, his children, Anne Lederberg and David Kirsch, and his many colleagues and friends on campus. He will be greatly missed.

A memorial service for the Rockefeller University community will be announced at a later date".

Paul Nurse (presidente da Rockefeller University)

Exijo ver uma notícia publicada sobre este homem na imprensa de referência lusitana.

Alis Ubbo IV

No metro, a gravação que anuncia a paragem estava desfasada em uma estação da marcha das carruagens. No Martim Moniz, ouvia-se "Intendente", no Rossio, "Martim Moniz". O condutor deu pelo erro ao fim de umas estações, corrigindo-o, mas quase aposto que todos os utentes estavam a gostar daquela ilusão reforçada a cada paragem de que estávamos adiantados para o trabalho.

Alis Ubbo III

Estava sem carteira quando saí da estação de Oeiras e, ao refazer mentalmente todos os instantes até ao momento em que ainda me lembrava de a ter, foi com alguma desilusão que não recuperei um encontrão capaz de me promover de distraído a vítima. Ainda me demorei a analisar a conversa que tive com um fulano preto possante, mas aí a consciência de esquerda impediu-me de especular e, estereótipo por estereótipo, sempre imaginei o carteirista como um tipo lúgubre e pálido, com longas mãos e finíssimos pulsos perdidos na largueza das mangas de um casaco* de fazenda ordinária. Espartilhado entre a evidência e o preconceito, foram uns minutos difíceis, até receber a chamada de uma senhora que encontrou a minha carteira e a entregou na estação de Cascais, com todas as notas ainda lá dentro. Pessimismo antropológico? I think not.

* Antes lia-se "casado de fazenda ordinária".

Adenda:"Há talvez mais de 20 anos eu e a minha amiga Mocambililê-hoo encontrámos uma mala com montes de massa (mais de 300 marcos é o que recordo) no meio da rua em Colónia... imbuídos de uma honestidade quase católica (verifica por favor a afiliação religiosa do encontrador...) devolvemos tudo e os donos (um casalinho muito simpático) ofereceram-nos um jantar para agradecer o excesso de probidade... eles falavam mal inglês, nós falávamos mal alemão por isso acabou tudo por ser menos divertido do que poderia ter sido... mas sempre foi um jantar à borla...
O velho Rajewsky, do alto daquela sabedoria de experiência feita só acessível a quem já viu (e viveu...) todas as misérias da alma humana, foi certeiro na sua apreciação do caso: "Duvido que qualquer um de vocês devolvesse a mala, se não estivesse acompanhado quando a encontrou..."
Meu querido amigo: Antes de cometeres a ingenuidade de voltar a acreditar na humanidade, verifica por favor se quem te devolveu a carteira estava sozinho quando a encontrou..." Leitor e amiga (nome fictício) devidamente identificados. "Rajewski" é o nome verdadeiro da pessoa em causa.

Alis Ubbo II

Ontem, na Alameda das Linhas de Torres, um taxista e um condutor conversavam e riam, ambos de pé em pleno alcatrão. Tinham uns vistosos coletes de sinalização verdes e a julgar pela disposição dos carros, instantes antes um batera no outro. Não tenho perícia para saber de quem foi a culpa e, pela lógica, não se resolve o impasse. Se o condutor é à partida menos experiente ao volante do que o taxista, dificilmente se imagina que este trocasse piadas com quem contra o seu carro se tivesse espetado.

fevereiro 03, 2008

A hipérbole contínua

O que, até este golo do Ronaldo, acho que poucas vezes assisti na vida, foi uma aliança tão clara e visivel de uma tão grande violência de remate, com um top spin à Beckham, num remate executado com a parte exterior do pé direito, que lhe permitiu acumular um spin (e desvio de trajectória) lateral da esquerda para a direita típico dos remates do Roberto Carlos. Neste golo, não só a bola passa por cima da barreira, como chega à baliza com velocidade, como se desvia para o lado contrário do primeiro impulso do pé. maradona

O maradona não é José Sócrates e só recordo que há menos de 2 anos ele desprezava Ronaldo, quando o comparava com Rooney, para frisar que a época 2007/08 parece ser o grande momento de viragem na carreira do puto-maravilha. Tudo o que Ronaldo faz hoje de muito bom passa à categoria de coisa transcendental. Não é surpreendente, mas é raro, como se o jogador começasse a receber no activo um reiterado prémio de carreira.

Adenda:Jovem, concentras-te numa boca en passant e deixas fugir o essencial do post. Lembro-me muito bem desse texto e fiz-te aqui uma injustiça, mas isto apenas prova que estás à mercê da má-fé dos outros por causa dessa mania de passear na blogosfera como um espião que na praia vai apagando as suas pegadas com uma vassourinha (há uma boa cena desta técnica no Duarte e Companhia, que não encontrei no You Tube). Em todo o caso, é sempre um prazer ler-te, mesmo quando me dás capote.
Agradeço-te o esclarecimento sobre a comparação Rooney-Ronaldo, mas o que assinalava aqui era a passagem de Ronaldo a um estatuto de excepção, em que todos os seus feitos são exagerados. Esta vontade de se ser contemporâneo e, se possível, conterrâneo do "melhor de todos os tempos" é natural mas tem uns efeitos curiosos sobre a crítica. O teu post talvez não fosse o melhor exemplo disso.
Pedir desculpa é algo inconsequente, mas disponibilizo-me a assinalar o diferencial moral que depois deste episódio nos separa oferecendo-te umas cervejolas.

Do sempre teu,

v

I rest my casanova

O Sporting é a desgraça que se conhece, só que nenhum portista ou lampião é capaz de escrever assim. Isto não acontece por acaso, mas não me quero repetir.

Existencialismo em low cost

O futuro não me vai deixando curioso sobre assim tantas coisas. A vida desenrola-se decalcando uma telenovela sem personagens excêntricas nem realismo mágico, uma daquelas produções em que os móveis dos apartamentos não têm caruncho. O certo é que valeria a pena continuar por cá nem que fosse apenas para testemunhar o futuro do Domingo, saber se continuará a ser o dia mais deprimente da semana e se, não havendo mudança de dia, haverá alteração da hora do Domingo em que tudo começa a descambar. Comigo é por volta das 3 da tarde, quando me recomponho da pausa prandial e parece não haver ânimo para fazer o ponto da existência e dar o peito à semana que toma forma. Mas também é verdade que por vezes a efervescência de uma Coca-cola é suficiente para me arrebitar para a labuta doméstica ou o convívio. Há aqui uma falta de gravitas que me diverte. Dar cabo desta depressão hebdomadária não passa de uma brincadeira de crianças e saber se a hora ou o dia mudarão é, afinal, coisa de turista.

fevereiro 02, 2008

Sarkozy

Um presidente cujo objectivo principal parece ser a acumulação de dois divórcios no mesmo mandato*.

Adenda: este post acusou durante quase todo o fim-de-semana uma construção frásica algo peculiar, fruto de uma revisão atabalhoada. Isto deixa-me praticamente envergonhado, tal como a minha fraca produção como blogger no mês passado. Tentarei compensar ao fim-de-semana com posts pré-fabricados, visto que a minha nova vida não me permite reinar aqui como antigamente.