janeiro 31, 2008

Sintonia síncrone

Em cinema, o meu actor favorito da nova geração é Edward Norton. Mas já vi Edward Norton em interpretações falhadas (em comédias, por exemplo). Em compensação, nunca vi uma interpretação falhada de Christian Bale, e já vi muitos filmes maus com ele. Bale é dos poucos actores que sua sempre as estopinhas mas que não transmite aquela sensação mecânica dos actores «de composição» (género Jodie Foster). O que significa que vou ver todos os filmes com Bale, um elogio desmesurado em se tratando de um homem. Pedro Mexia, hoje

Fiquem sabendo que também antes estava concordando com Th. exactamente pelos mesmos motivos, ainda que enunciados de um modo mais tosco ("Tenho sonhos eróticos com o Bale, don't tell anyone, I love the guy).


Adenda de Th (o homem que começa a tomar conta disto e que, como Pedro Arroja, se exprime em inglês): to be fair, não consigo me lembrar do christian bale em comédia- its quite a distinct thing to do well- marlon brando couldnt hit a voluntary comic note to save his life, so ia la involuntariamente como na Ilha do Dr Moreau.

O único papel do Bale que me lembra comedia às vezes é o American Psycho, e ainda assim pela via do excesso, like marlon, only on purpose. On the other hand who knew what brando's purpose was at any given turn e ainda por cima deus quando nao esta jogando dados (a bad betting streak is an explanation of theodicy that I have not yet seen mentioned, perhaps quashed by the einstein dictat) esta escrevendo direito por linhas tortas*, e coisas que deveriam ser desastres, like the 400 pound elite green beret rebel colonel in ApoNow end up with the majestic use of shadows- bravo Vittorio Storaro, bravissimo.

What the fuck am I ranting about? tambem nao sei, fui ao Memoria antes de tomar o cafe', and I saw that in the way you structured the last paragraph you have effectively outed me....

* Esta expressão como o risco de se tornar incompreensível para as gerações futuras. Não há linhas tortas no Word, no blackberry e nos SMS. Vais ter que explicar aos netos como o avô aprendeu a escrever, and how it related to a deity's convoluted ways, e eles vão olhar um para o outro (i root for your fitness bro, in this case there is more than one) com aquela cara de 'deixa lá, ao final deste besteirol o avo nos dá um chocolate'. Theme for an experimental short story: if Bill Gates preceded god (para os netos dos teus netos this may seem self evident) and Genesis is run through Microsoft Word spell check suggestions, what would the world look like?

Pérolas do mass emailing

Há uma piada embutida na seguinte mensagem. Ou uma piada tangencial. Ou falhada, ainda que seguramente acidental. Ou... Enfim, há ali qualquer coisa, elementos que não se tocam propriamente, mas que seriam facilmente usados por Mário Crespo como pivots no encadeamento noticioso. Há ali algo que me consome, uma quase-piada sem génio, mas genial. Eduardo Prado Coelho teria achado graça, creio.

Dear Colleagues,

Today at the Welch Hall during the special seminar (Neural Circuits Underlying Sexual Dimorphic Social and Reproductive Behaviors) my wife lost her ID from Child and Family Center.

Let me know if you find it.

Adenda de Th: Kind of hard to say [a razão de eu achar isto engraçado]... it has a slightly misogynous flavor of humor, as if implying that the losing of things is a sexually dimorphic trait. A better effect might have been achieved by:

"Dear Colleagues,

Today at the Welch Hall during the special seminar (Neural Circuits Underlying Sexual Dimorphic Social and Reproductive Behaviors) my wife got lost, and did not return to the Child and Family Center.

Let me know if you find her."

...thus imbuing it with that other dimorphic trait, sense of direction or lack thereof, with the advantage that here irony skates very gently at the border of surrealism, giving the writer the always pleasant option of inserting an aardvark in the story.

janeiro 29, 2008

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Gerhard Richter Seestuck (Gegenlicht) / Seascap (Contrejour) 1969 200 cm X 200 cm Oil on linen

Isto de escrever sob o risco de me cruzar na rua com quem acabou de ler o post não tem qualquer graça.

janeiro 28, 2008

Lettres

Lettres.jpgBibliofilia de peso. Depois de um curto esforço intenso a movimentar sacos e sacos de livros de uma amiga, a recompensa: contemplar três volumes seleccionados de uma colecção com centenas de edições de Lettres Portugaises, de "Mariana Alcoforado". Uma está ilustrada por Modigliani, outra por Henri Matisse e a mais recente é de Milo Manara. Na de Modigliani aparecem os seios irrepreensíveis, na de Manara o onanismo ostensivo que nem Cristo crucificado poupa. Mas é o "m" capitular e manuscrito com que Matisse abre alguns parágrafos que arrebata a palma do erotismo. Uma letra tão curvilínea... Ganhei o dia, mesmo sob pena de renunciar de vez à minha caligrafia.

janeiro 23, 2008

Adenda

Registo a contenção no maniqueísmo, mas embora não me acuses de ser um apoiante dos islamitas radicais, peço-te que não me obrigues a defender Hitchens. O livro de Hitchens é de um oportunismo atroz, pura propaganda para engrossar um caudal que já corria, tal como o crescente ateísmo actuante do Dawkins me parece um prenúncio de decadência, embora até perceba que após anos de discussões com pastores do calibre de um Ted Haggard só por intervenção divina o nosso Richard não acusaria agora efeitos secundários.

Não me revejo na afirmação de Hitchens, sinto-me mais próximo do ateísmo de Ian McEwan. O problema é que nesta coisa meio pendular - Galileu, lá está - de trocar citações bombásticas, o bom senso é como o atrito, acaba com a brincadeira.

Em todo o caso, a situação que descreves é demasiado hipotética. Antes de mais, Bento XVI não foi convidado para debater, ia lá para discursar. Não é um detalhe. Já Hitchens, nunca será convidado para falar numa cerimónia religiosa em termos simétricos ao dos convites de líderes católicos para discursar em assembleias laicas. Isto, não dizendo tudo sobre esta questão, diz muito. O que se passou é a prova de que estamos perante uma perda de direitos adquiridos mas ilegítimos. Quem vê Bento VXI como vítima da liberdade de expressão tem uma apreciável capacidade de enfabulação.

Quanto ao teu P.S., se o "argumento moral" não necessita de um representante, isto é, de uma autoridade moral, por que motivo as Igrejas têm tanta força? Ora, o que o mundo nos mostra é, justamente, a necessidade que temos de fulanizar uma autoridade moral. Mas se os seus autoproclamados representantes se revelam indistintos dos outros mortais, de onde lhes vem o poder? Os pecados de Ted Haggard ganham outra dimensão pelo facto de ele ser um pastor. Enfim, tudo isto é demasiado complexo para um post, apenas me parece que o desejo de fulanizar a autoridade moral é acessório, ou seja, acreditar em Deus(es) é uma manifestação natural da existência de um sentimento moral, que não é necessária (no sentido de obrigatória) nem suficiente para o cumprir.

Na ressaca do caso La Sapienza-Bento XVI

You can run, but you can't hide

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In one amusing set of experiments, theology students were told to prepare a lecture on the parable of the good Samaritan. They were given a briefing about the lecture in one building before being told to walk to another, where they were to give the lecture. On leaving the first building, they passed a stranger who was groaning by the side of the path, apparently in need of assistance. Students who had been told they needed to hurry to give their lecture were six times less likely to offer help than those who were told they had plenty of time. Aqui, via Cachimbo de Magritte.

Dedicado ao cardeal-patricarca José Policarpo, outro expoente da tolerância, que não devemos deixar de convidar para as nossas universidades, sob pena de perdermos a liberdade, mesmo que tenhamos de ouvir e calar quando afirma que: "Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade..." O rigor, a graça e a simpatia destas palavras são absolutamente comovedores.

janeiro 22, 2008

Um negócio da China

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Não sei se são apreciadores de mobiliário chinês, mas descobri um armazém que fornece as lojas betas de Lisboa e que até ao final do mês de Janeiro andará a liquidar o stock inteiro, vendendo a particulares como vende a lojistas. Sabendo que uma loja que comprou por 100, vende a 180-300, é fazer as contas...

O armazém chama-se Linha do Oriente e fica para os lados de Carcavelos. Já passei por lá, mas ainda sobra muita coisa bonita. Se forem simpáticos, pode ser que acabem a beber umas cervejolas com senhor Gonçalves e o "Manolo".

Alis Ubbo I

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Não sei se ontem, ao lusco-fusco, alguém passou pela Praça do Comércio e teve a minha sorte: ver bandos de estorninhos em manobras. Nem sei como não bati com o carro. É o espectáculo mais fascinante que podemos presenciar nos nossos céus e até a Scarlett Johansson pousar no Terreiro do Paço em montgolfière de época não haverá show da força aérea, piroctenia ou pôr do sol que o supere. São bandos densos e vivos que parecem regidos por uma única inteligência, fundindo-se uns com os outros e logo se separando, com uma fluidez entre a do óleo e a do mercúrio. Nunca esperei vê-los ali, mas confirmei que as melhores observações de aves são as acidentais e não as que fiz nas intermináveis tardes na reserva do Paúl do Boquilobo. Um pica-pau no caminho para o trabalho, em Gif-sur-Yvette, abelharucos e abetardas quando menos os esperava, no Baixo Alentejo, um guarda-rios num canal fluvial perto de Estrasburgo, um falcão peregrino debicando um cadáver ainda morno de um pombo num parapeito do Upper East Side. E ontem, estorninhos sobre o trânsito da capital.

janeiro 21, 2008

Ainda Galileu e Ratzinger

Sejamos claros: a presença deste papa, que já se distinguiu por afirmações anti-científicas, numa universidade tem tanto cabimento como a de um busto de Rosa Casaco num museu dedicado à resistência anti-fascista.
Alexandre Andrade 1bsk.
O recurso à citação de Feyerabend foi um mero expediente de retórica a que Ratzinger já nos habituou: quando quer dizer algo que pode implicar algum risco, arranja alguém que o diga por ele. Lembram-se da citação do imperador bizantino dirigida contra Maomé?
João Pinto e Castro Blogoexisto.

Um grande cronista

Como explicar que Nuno Brederode Santos não faça parte da elite dos cronistas, não tenha clube de fãs, nem colha ódios de estimação? Talvez por escrever embaraçosamente bem. No exercício obrigatório actual que é retratar Menezes, é dele a nota máxima.


Expo 2008

Fui ontem correr na marginal do Parque das Nações, entre a grande torre (que tinha um restaurante no cimo) e o rio Trancão. É impressionante como aquela zona da cidade pulsa de vida. Gente a passear, gente de bicicleta, gente a correr, malta a jogar à bola nos belos relvados mesmo sob a ponte Vasco da Gama, as fachadas dos prédios ainda novinhas, os jogos de água a funcionar. Parecia que estava dentro de uma daquelas simulações de computador cheias de cumplicidade entre as populações e as obras de que os arquitectos tantos gostam. Só que ontem era mesmo a sério.

Se questo è un saggista

galileu.preview.jpgQuando se fecham a Bento XVI as portas de uma universidade, impedindo-o de falar, é sinal de que alguns praticam tudo o que no passado criticaram à Igreja. E ainda se orgulham disso… O papel da sapienza e da honestidade no debate intelectual, por José Manuel Fernandes,

Ou José Manuel Fernandes não leu o discurso de 1990 de Ratzinger ou não o percebeu, hipóteses que comprometem a honestidade e/ou a sapiência do autor no debate intelectual. O seu texto é pois uma curiosa demonstração em tempo real do título que escolheu e mais um sinal de que muito do colunismo luso se transformou numa blogosfera de papel. No meio da cacofonia dos histéricos da liberdade, se me permitem, gostaria de recordar o que o então líder da Congregação Para a Doutrina de Fé (a instituição que sucedeu ao Santo Ofício) escreveu em 1990 num discurso intitulado “The Crisis of Faith in Science”*

Segundo ele, até ao século XVIII poucos deram importância ao julgamento de Galileu, mas no século seguinte o caso ascendeu a “mito do iluminismo”. Nesta interpretação, a Inquisição é a inimiga da liberdade e da consciência, ou seja, o mal, e Galileu, o primeiro cientista da era moderna, representa o progresso e a libertação do homem do obscurantismo, ou seja, o bem. Ratzinger defende depois que nos dias de hoje tal visão não faz mais sentido e recorre a três citações, preservando uma distância de segurança que, no entanto, não chega a deixar a menor dúvida sobre a sua posição.

1. Apoia-se primeiro em Ernst Bloch para defender que a partir do momento em que se começa a considerar o movimento dos corpos como relativo uns aos outros e não num “espaço absoluto”, o modelo heliocêntrico de Copérnico – que esteve em discussão no julgamento de Galileu - só é mais legítimo do que o geocêntrico por ser mais vantajoso, isto é, por permitir cálculos mais fáceis. Por outras palavras, não podemos afirmar que está errada a ideia de que o Sol gira em volta da Terra. Mais: ao aceitarmos a relatividade, o sistema geocêntrico cristão talvez não possa interferir com as equações, mas sobra aos católicos todo o direito de preservar a posição da Terra de acordo com o respeito pela "dignidade humana".

2. Comenta que, ao aceitarmos a distinção entre as duas esferas de consciência, isto é, a que trata do mundo físico e a que trata da dignidade, a seguinte citação do filósofo Feyerabend surge ainda mais enfática (“appears much more drastic”, na tradução inglesa): “A Igreja no tempo de Galileu manteve-se mais fiel à razão do que o próprio Galileu (...). O seu veredicto contra Galileu foi racional e justo, e o revisionismo apenas se pode entender por motivos de oportunismo politico”.

3. Remata com Von Weizsacker e a insinuação de que há uma via rápida que começa em Galileu e acaba na bomba atómica.

Ratzinger conclui a seguir que seria absurdo usar as afirmações anteriores para uma apologética apressada, isto é, para refutar as objecções que foram feitas ao julgamento de Galileu pela Inquisição, mas deixa no ar que a percepção do julgamento do cientista mostra como a dúvida se instalou na ciência.

Há duas deliciosas ironias no primeiro argumento desenvolvido por Ratzinger. Parece que o papa, o crítico intransigente do relativismo moral, adora o relativismo na física. Fez-me, de resto, lembrar Boaventura Sousa Santos, no seu localmente célebre Um discurso Sobre as Ciências. Ora, que denominador comum explica a confluência entre a ortodoxia religiosa e a esquerda radical? Sem grandes surpresas, a necessidade que cada um tem de defender das ciências naturais o seu quintal – a religião católica e as ciências sociais, respectivamente. Como se não bastasse, e sem sequer discutir o absurdo que é fazer depender a "dignidade humana" da posição do planeta no sistema solar, talvez Ratzinger devesse ter presente que Galileu foi provavelmente o primeiro a introduzir a noção de relatividade em física, que serviu depois a Newton e, mais tarde, a Einstein.

A citação de Feyeraband tem sido a mais comentada e é a mais dúbia. No meu entender, o qualificativo "appears even more drastic" que Ratzinger usa deve ser traduzido como "mais enfático", tendo em conta o contexto em que a citação aparece. Ratzinger acabara de definir os limites das "esferas de consciência" e a citação de Feyeraband surge entre duas outras, também críticas do "mito iluminista", que são apresentadas de forma neutra. Por que motivo haveria ele de criticar apenas a do meio? Não faz sentido quanto ao fluxo da argumentação. Apesar de todo o spin que os comentadores católicos têm estado a dar, "drastic" não pode pois querer dizer que Raztinger ache exageradas as posições de Feyerabend. Mas este é mais um exemplo da sua retórica ínvia, que gosta de lançar citações para o ar, explorando para efeitos políticos a confortável neutralidade do académico. Dá um jeito bestial, isto de por vezes se aparecer como líder religioso e outras como intelectual.

Por fim, a cerejinha - é mesmo de cherry picking que se trata - sobre o bolo, com lembrete de que a ciência, de que Galileu foi um dos fundadores, até nos deu a bomba atómica. Enfim, insinuar a partir de usos eventuais da tecnologia que a ciência é diabólica surge como uma falta de rigor inaceitável e é particularmente curioso neste contexto, pois no caso do Santo Ofício o diabolismo é realmente intrínseco, como as cinzas de Giordanni Bruno nos lembram.

Independentemente da interpretação das palavras de Feyerabend, a mensagem do discurso de Ratzinger é esta: não se podendo usar as três citações para branquear a Inquisição - aqui fala Ratzinger - também não devemos, nos dias de hoje, perpetuar o "mito iluminista" - aqui fala o líder da Congregação para a Doutrina da Fé e o futuro Bento XVI. Este discurso é o exemplo acabado de como a Igreja lida mal com o seu passado. Se a condenação do pai da física por expressar uma opinião não merece uma crítica frontal do actual papa - lembro que em 1992 João Paulo II reabilitaria Galileu - mas antes uma lengalenga contemporizadora, não será normal que os departamentos das ciências duras da universidade Sapienza protestem contra a sua vinda à universidade para proferir um discurso sem possibilidade de debate? Com o devido respeito, não há mitificação ilumista do famoso julgamento - as histórias sobre a tortura de Galileu e uma sua citação são infundadas - que desresponsabilize Ratzinger. Que o Papa tenha depois aproveitado o episódio para se vitimizar diz muito da previsibilidade pavloviana dos auto-intitulados zeladores da liberdade e dos católicos de serviço. Os primeiros salivam à menor suspeita de atentado à liberdade de expressão, os segundos papagueiam o que lêem na imprensa do Vaticano. Eppur, si muove.

Publico hoje um texto mais curto sobre o tema no jornal Metro (edição nacional de 21 de Janeiro).

* Apenas encontrei uma citação parcial do discurso, que no entanto me pareceu suficientemente longa para preserver o essencial sem distorções.

janeiro 15, 2008

30 de Fevereiro de 2008

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Estou a preencher a quarta declaração alfandegária, segundo uma nova e complexa minuta, para tentar recuperar uma mercadoria vinda dos EUA que se encontra em território nacional mas retida há mais de 5 dias. A mercadoria contém material de laboratório que deve permanecer congelado. É claro que já se perdeu parte da remessa, pois o gelo seco em que vinha entretanto desapareceu e o pessoal responsável não honrou o compromisso que comigo tinha de colocar a mercadoria na arca congeladora durante o fim-de-semana; consta que a arca já estava cheia. O essencial da minha semana de trabalho tem pois sido o preenchimento de novas declarações e inglórias deslocações ao Prior Velho para alimentar de gelo seco as caixas e tentar salvar alguma coisa. Soube entretanto que alguém na alfândega está em vias de afirmar por escrito o meu instituto da existência de outros entraves burocráticos, carta a que o meu instituto responderá também por escrito e que arrastará o processo por mais um, dois dias ou - quem sabe - até ao próximo fim-de-semana. Para acalmar os nervos, concentro-me nesta nova declaração, um cúmulo do absurdo burocrático salpicado de erros gramaticais, que me obriga a mentir - ao contrário do que me perguntam sem admitir outra possiblidade, a mercadoria não é para consumir num determinado dia, é para ser usada ao longo do ano. Confesso que, impossibilitado de ilustrar a declaração com uma pila hirta, tomatada e frondosa pilosidade púbica, mentir à autoridade - "solicitar a V.EXA se digne" (sic) - tem um efeito catártico. E é inegável que um dos aspectos mais positivos do meu regresso foi ter recuperado a capacidade de indignação, algo que por vezes nem anos de psicanálise conseguem restaurar.

A cidade aeroportuária já existe

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Frota aérea de Alcochete

Saudades

Beco das Imagens, outro blogue do Devónico da Blogosfera e que testemunhou a extinção dos dinossauros.

Portugal's West Coast

Pedro Arroja começou a escrever em estrangeiro e o mundo ganhou um novo faro.

Anti-higienismo, circa século XXI

Quem apenas lesse os nossos anti-higienistas, concluiria que os obesos só agora começam a ser discriminados na procura de emprego. Porquê? Porque os nossos anti-higienistas não se preocupam com os obesos, preocupam-se com a possibildade de a discriminação aos obesos passar a ser feita às claras. Por outras palavras, mais depressa os nossos anti-higienistas se mobilizam para manter as leis e as directivas limpas do que para evitar que os obesos se lixem.

janeiro 14, 2008

Metapachequismo - um contibuto

(Para breve)

janeiro 12, 2008

Dias da Rádio

Mon ami Amaral, na noite da passada quarta-feira, num programa sobre Stockhausen - que bela voz e dicção tem este moço. Tinha telefonado ao Pedro sem saber do programa, que já decorria, e ele alertou-me para o facto, mas ainda ficámos ao telefone uns bons 15 minutos. Quando ele começou a sintetizar-me o programa, já depois de eu ter sintonizado a frequência, senti-me intelectualmente mareado - Pedro por extenso, na orelha direita, Pedro resumindo-se em tempo real, na esquerda. Optámos pois por desligar. Fiquei sem o Pedro tmn e concentrei-me do Pedro Antena 2.

Manoel de Oliveira foi ao Pessoal e Transmissível, de Carlos Vaz Marques. Houve um momento dúbio e notável, mesmo no fim. O jornalista pergunta se Oliveira pensa em comemorar o seu centenário, o que soa quase a perguntar se planeamos assistir à nossa própria efeméride. Creio que Manoel de Oliveira se irritou e desabafou que acabava ali a entrevista. Vaz Marques pareceu ignorar a irritação do cineasta e rematou o programa como de costume (estava no fim). Sendo o programa montado, a decisão de Vaz Marques foi reflectida, ainda que improvisada num primeiro tempo. Tudo isto é muito estranho. Ou então fui eu que não percebi nada - enfim, sou 63 mais novo do que Oliveira, que sei eu da vida? Podem conferir aqui.

Ouvi hoje pela primeira vez o fórum da TSF, que me pareceu ser o jardim-infantil do Manuel Acácio, tal o tom de voz complacente e paternal do jornalista. Registei com alívio e agrado que Portugal está bem servido de especialistas em teorias da conspiração. Parece então que o desastrado Mário Lino pôs em prática, com enorme sacrifício pessoal, uma estratégia para desacreditar a hipótese da Ota. E ainda dizem que não há amor à causa pública...

janeiro 11, 2008

Demónios e anjos

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Diabo.jpgUma suspeita de toxicodependência sempre que me cruzo com um transeunte mais esgalgado, bebedeiras de sábado mijadas contra parede do meu prédio, um alcoólico a fazer de louco do bairro - não me engana, é mesmo só alcoólico, não é maluco. Podia ser mais fácil. Sobra, porém, o Anjos positivo. Há uns dias, quando espreitava da minha janela a aula de dança hip hop as meninas repararam e trocámos acenos. E ontem, ao sair de casa, a porta da sala de aulas de flamenco, no rés-do-chão, estava entreaberta; creio que o que tocava era uma sevilhana, mas não é altura de purismos. Elas abriam os braços e rodopiavam em câmara lenta. Braços que eram asas.

Do inverosímil diametralmente oposto

Entro em 2008 mais gordo, ligeiramente nauseado, a dormir barbaramente mal e o meu banco continua a enviar cartas que eu, por razões demasiado longas para explicar, persisto em não abrir." João Pereira Coutinho

Nada disto me parece excêntrico - para não irmos mais longe, eu também não abro grande parte da correspondência do meu banco. A confissão - real ou não, pouco importa - é propositadamente dúbia, só que a piada não colhe. JPC provavelmente estará bem instalado na vida, pelo que soa a gansta rapper multimulionário quando rima sobre o gueto, a pobreza e a marginalidade. Para recorrer ao exemplo mais actual, Luiz Pacheco a escrever a mesma coisa seria igualmente inverosímil. Só que, no caso dele, por não ter conta bancária. Ou seja, Pacheco teria tido realmente muita piada.

janeiro 07, 2008

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Ulysses and the Sirens, de Herbert Draper c. 1909

janeiro 06, 2008

Luiz Pacheco 1925-2008

(...) Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta. (...) Comunidade, 1964

Luiz Pacheco (1925-2008) por Vítor Silva Tavares*

Pacheco, o tradutor

Pacheco, O Cachecol do Artista

*O melhor contador de histórias da nação.

Luiz Pacheco 1925-2008 [republicado]

Esta facilidade de uma mulher, de um certo nível cultural (? ou que, na sua cagança, assim o julgue) flartar ou ir para a cama com um tipo afamado, de quem ouviu falar pelo menos repetidas vezes verdades ou mentiras ou leu e admirava, releva de um certo folclorismo. Turismo de almas, irrequieto e frívolo. Vaidade em conhecer e acompanhar o bicho, saber-se que, interesse humano para confronto com o escriba, aprender com ele alguma coisa se também tem pretensões de literata (e quase todas têm; agora, até a Ção quer publicar um livro de poemas, raio!); depois, a fama de libertino que só com a publicação de O libertino de Braga se complicou bastante - e pode, em muitas, despertar repugnância (conto com isso; é idêntica ao desdém que dedico às fressureiras, coitadas!) - atrai. Etc. Terei que me resignar a dar com mais tipas ou casos destes a não ser que mude de zona (para o Minho, o Minho!) e fale com desconhecidas de mim. Que venham a mim só pelo m/ olhar magnético...
Mas ainda há um mas. Com as bas
[caracter ilegível]bleu ou admiradoras babosas (isto acontecerá a todo o tipo de algum renome) o mais eficaz é ir-lhes logo para cima e passar à frente. Não criar complicações sentimentais; elas são coleccionadoras de trabalhos de vedetas? como as mais tolinhas de autógrafos? dê-se-lhes só isso e só isso. Luiz Pacheco, Exercícios de Estilo

janeiro 05, 2008

Quixotismo de sofá

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Uma mentira para revigorar a prosa, casmurrice e talvez algum catarro foi quanto bastou a Vasco Pulido Valente para ascender a poster child dos nossos Quixotes de sofá. O historiador surge na capa da Atlântico com a kalashnikov dos tempos que correm - SG ventil? -, numa foto que é uma piscadela de olho tardia à História e que - lamento - ninguém se dará ao trabalho de adulterar, como fizeram com o selo de André Malraux. Malraux, de resto, foi o último intelectual fotogénico no acto de fumar e esta imagem que vos mostro - outras haveria - é absolutamente esmagadora. Contraste-se o cuidado posto nesta fotografia - o ângulo de incidência da luz, a qualidade do corte e dos tecidos da roupa de Malraux, o olhar enigmático e intenso - com o desleixo e manuseio amador de photoshop que transformou Pulido Valente num kalkitos. Tendo desistido de pedir um máximo de ética, não abdico de um mínimo de estética. Outro esmero, por favor.

janeiro 03, 2008

Animus Fortis in Corpore Valido*

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Os meus planos para 2008 assentam no pressuposto de que a manhã de Sábado tem 40 horas. Em todo o caso, este vosso espaço passa a funcionar apenas ao fim-de-semana, embora não exclua o recurso ao post pré-datado, a de fim criar a ilusão de que ainda sou um blogger a tempo inteiro.

* lema do Lisboa Ginásio Clube, uma família de campeões que acaba de acolher uma criatura de momento inapta para o trampolim e as argolas, mas que não passará ao estado de cinzas sem antes ter tentado um São Pedro.

Satisfação sexual

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Partindo do pressuposto frágil de que, ao excluirmos Tiago Galvão, o conjunto do restantes de leitores do MI não dará um retrato enviesado dos hábitos sexuais dos portugueses, convido-vos a participar num estudo de uma amiga que prepara um doutoramento em Psicologia Clínica na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.

janeiro 02, 2008

Uma cigarrilha perdida

A explicação do director da ASAE para o flagrante da cigarrilha fumada no Casino, já na madrugada de 1 de Janeiro, foi desastrada, menos pelo ridículo de um suposto regime de excepção – basta ler a lei - e o imbróglio que a Associação Portuguesa de Casinos não deixará de capitalizar do que pela oportunidade perdida de pagar a multa, pois não se imagina forma mais eficaz de destrunfar os seus inúmeros críticos e fazer pedagogia cívica. Uma oportunidade tão boa que, entre as baforadas e a declaração, suspeitei que fora forjada pelo próprio director da ASAE. Falta magia aos nossos burocratas.

janeiro 01, 2008

Refutação dogmática e memória futura

Weismann, um dos meus heróis, foi autor de uma experiência de grande efeito que usou para refutar a teoria dos caracteres adquiridos, de Lamarck *. Curiosamente, ambas estavam erradas. A teoria e a sua refutação. Mas ontem, na jamoneria, quando ele me mostrou os cortes que tinha nas mãos e me contava dos dedos amputados de seu pai e de um tio, talhantes como ele, foi impossível não incorrer na mesma falácia de Weismann, para imaginar uma outra refutação dogmática da teoria dos caracteres adquiridos com base na análise dos pedigrees de talhantes, num tempo em que os ofícios passavam de pai para filho e os dedos cortados também, embora saltassem gerações e, por vezes, saltassem até para a outra mão. Explicada a refutação dogmática, adio a parte sobre a memória futura para quando chegar a Lisboa, mas ainda será sobre presuntos.