A colagem excessiva à actualidade, as polémicas do dia e birras com bloggers corromperam o MI. Só me resta interromper actividades e abandonar a blogosfera por tempo indeterminado. Entro em período de reflexão, possivelmente num chalé desta Nova Inglaterra, onde tentarei aproveitar o Verão Indiano para ler e pescar, reencontrar o equilíbrio com a natureza e rachar lenha à machadada, sem escamotear a reflexão sobre os desafios que o nosso país enfrenta e uma ocasional partida de dardos no aconchego do crepitante fogo da lareira. Marcamos encontro em 2008. Até lá, livrem-se de morrer.
Imagem: Joe Dassin e felino.
Adenda: "ornithorhynchus paradoxus" escreve-se em itálico, com maiúscula no género e minúscula no epíteto específico. Não há disciplina mais açoitada na blogosfera do que a Zoologia... Hum, a adenda justifica o post, não sobram dúvidas de que é preciso baixar o grau de acidez.
A coroar uma tarde particularmente agradável, vejo uma rapariga de minissaia, em Greenwich Village, montada numa bicicleta, com o ar selvagem e saudável das camponesas italianas, suas pernas iluminadas pela luz difusa dos faróis ao lusco-fusco. Cruzamos olhares - enfim, atravesso-me no seu campo de visão -, tento guardar a imagem dos seus olhos claros e do conjunto. Minutos depois, ainda na mesma rua, cruzo-me com uma drag queen horrenda. Deve haver lugar no mundo para toda a gente, mas, Senhor, da próxima vez envia-me a drag queen primeiro e a italiana do velocípede depois.
Currently I play with my jazz trio (tap-guitar, bass and drums). We play jazz standards and our own compositions. I play classical music too - I like listening Bach, Chopin and Beethoven, but in the future I want to play only Bach tunes - this is what I like. Adam Fulara
Andava eu à procura do Gould e descubro este Fulara, um engenheiro da Polónia.
Havia bons motivos para ter cedido à gouldomania, mas não chegou a acontecer. É também inegável que as ideias de Gould sobre a perda de importância do concerto e a hegemonia da gravação estavam erradas. Dito isto, depois de ouvir as banalidades que celebridades como Yo Yo Ma debitam sobre os problemas da interpretação, é inegável que Gould era matéria humana de primeira água para documentário.
O trecho é, salvo erro, do documentário Hereafter, de Bruno Monsaingeon.
Não acho que cidadãos maiores e vacinados (aliás frequentemente, e com diversas substâncias) devam ser detidos à conta dos extremos testes a que submetem as entranhas. Porém, é polémico que se gastem fortunas a salvá-los deles próprios. Polémico e ocasionalmente ridículo: no que respeita às seringas nas prisões, o Estado estará, no limite, a fornecer ao heroinómano os meios para que continue a cometer o crime pelo qual foi condenado. Rezo para que o paternalismo não alargue o método aos homicidas. Alberto Gonçalves
O pessimismo antropológico não é um exclusivo da direita, apenas o seu uso inconsistente. Alberto Gonçalves simplifica um problema complicado, sendo autisticamente optimista e cândido quanto à possibilidade de se fazer das nossas prisões um centro de atendimento de toxicodependentes. Umas Taipas de choque. A realidade é um pouco mais complexa. A droga entra nas prisões e só pode ser este o ponto de partida de qualquer discussão sobre o assunto. Enquanto este problema persistir, distribuir seringas lá dentro não é diferente de as distribuir cá fora. Mas é possível que Alberto Gonçalves também pense que tentar minimizar propagação de hepatite B e HIV entre os toxicómanos seja uma intolerável forma de paternalismo. Rezo para que não seja o caso, mas o pessimista sou eu.
Custa-me admiti-lo, mas há um vaga parecença entre Luís Filipe Menezes e Silvio.
É também um imperativo moral esclarecer os leitores menos familiarizados com os detalhes da biografia de cantor, antes que algum dos Atlânticos fique agarrado: Silvio é um cubano castrista e poeta de Che, uma espécie de voz oficialmente não oficiosa do regime. Ninguém é perfeito.
No hay nada aquí
solo unos días
que se aprestan a pasar
solo una tarde
en que se puede respirar
un diminuto instante
inmenso en el vivir
después mirar la realidad
y nada más, y nada más.
«Mujeres», 1974
Quadros de uma Exposição, de Mussorgsky, pode ser uma showpiece mas é sublime. A forma como o tema volta, quando nos julgávamos já perdidos, dá-lhe uma dimensão quase popular, apesar da complexidade de certas passagens. E fica sempre a ideia de uma narração, mesmo falhando a evocação - e na música sempre falha, excepto quando se recorre ao canto, a onomatopeias ou outras soluções caricaturais. Mais suite do que variações sobre um tema, escrita durante o apogeu da harmonia total, tem uma riqueza que falta a outro crowd pleaser, as Variações Goldberg. E o final absolutamente majestoso, com aqueles acordes gordos, arrebata-me sempre. Arrebata toda a gente, até uma plateia em que a média de idades devia andar perto dos 70 anos. Pago para ver esta peça ser tocada ao vivo, mas ontem foi de graça e ainda soube melhor passar o dia a assobiar isto:

O blogger intimista é um conquistador hipócrita, o pior dos imperialistas. Faz-se passar por amigo dos colonizados, mas não admite qualquer interferência destes, a menos que lhe convenha. Ele espalha a sua intimidade por todo o lado, cercando os anónimos, mas se estes ousam responder fazendo uso dos elementos que lhes facultou, são postos no seu lugar. Escrevo por mim, que os outros - como se percebe - não admitem que se escreva por eles.
Está encontrada a fórmula para fazer do vosso rebento um homem de sucesso, na política (Menezes), no desporto (Scolari), nos negócios (Vieira). Negar isto ao bebé só para honrar a memória do avô? Sejamos sérios. Sobra um problema. Se os portugueses aderem, um efeito secundário é a ilusão nobiliárquica. Teríamos, nas creches, nos infantários, nos liceus, nos locais de trabalho, entre os cardeais, nos lares, o Luís Filipe I, o Luís Filipe II, o Luís Filipe III, o Luís Filipe IV... A eleição de Luís Filipe Menezes é um enorme risco para o país, mas de um modo muito mais profundo do que se julga. É a República que está ameaçada, já na próxima geração. Não percebo como este perigo não foi discutido por esse grande e imparcial analista político que é o Professor Marcelo.
A propósito, a já muito comentada previsão do Professor Marcelo (I, II...) é um belíssimo exemplo da nossa amnésia colectiva, pois parece que só as previsões conhecidas depois dos resultados estão sujeitas a avaliação. Mas qual teria sido a motivação de Marcelo para na véspera escrever o texto? O coice de adrenalina, não vejo outra explicação. É verdade que se aposta em cavalos com probabilidades bem menos favoráveis que as de Marques Mendes, mas nas corridas o prémio reflecte aritmeticamente a ousadia. Neste caso, acertar traria dividendos a Marcelo que nunca compensariam o ridículo de declarar a derrota de Menezes ignorando a realidade. Não se percebe, a menos que o Professor Marcelo já não conheça o seu partido. Enfim, o comentário político vicia, como o jogo. O sermão domingueiro vai ser divertido.
"Uma puta". Se não chega a impressionar como corolário, havia ali reflexão profunda e frustração, por sentir que perdera o timing para o crime passional, para a indignação e até para o direito à dor. Estas coisas prescrevem e convém delas usufruir a devido tempo. O crime? Aos 5 segundos. A indignação? Válida até aos 5 meses, dependendo das circunstâncias. A dor? Teoricamente pode chegar aos 5 anos, embora após alguns meses já não haja grande pachorra para aturar o queixoso. A vida é finita. Se ao menos ele pudesse recuar cinco meses e escaqueirar-lhe o serviço Companhia das Índias... "Uma puta" saía-lhe agora sumido. A expressão nem era dele, aproveitara-a de um seu amigo que a soltou quando inteirado dos detalhes, não fazia justiça aos argumentos que aguentou no ar, à malabarista, nos limite de elasticidade da lógica e, o que era pior, não reflectia o que sentia, apenas o que lhe parecia correcto pensar. "Puuutaaaa", desta vez com as vogais bem demoradas. E depois quase brincando, à Nabokov: "Puu. Uuu. Taaa". Não havia sinal mais claro de que Amílcar era um encornado complacente.
O problema agravava-se porque a presença ainda insinuante dela criava a possibilidade de uma dor de corno futura que se juntava à dor presente. Se deste perigo ninguém pode à partida estar salvo, no seu caso talvez não fosse capricho exigir garantias de que a parelha infiel não fosse recidiva. Só que “Trai-me, mas com outro” foram palavras que não lhe chegou a dizer. Amílcar não era dado a subtilezas nem a rasgos de imaginação e atalhou, vingando-se. Uma vingança preventiva, justificada pelos eventos passados mas em que se tenta salvaguardar o futuro. Daquela última vez, “puta” saiu-lhe de novo sumido, enquanto lia a frase desenhada a fumo lá no alto. “a…t...u...p”, um artigo indefinido, o verbo curto, dois pontos (a vírgula era mais cara) e o nome dela, por fim, apenas o nome próprio - tudo soletrado pelas caudas dos aviões em formação. As letras esbateram-se depois lentamente no azul, sem que ele tirasse os olhos do céu. Esperou, para que se pudesse despedir já sem o insulto a pairar, acompanhando apenas a morte da letra com que por escrito a tratava. Mas não havia forma de saber se ela olhava o céu naquele momento e foi coisa para ter durado só alguns segundos.
Censurei um post; o que queria escrever aproxima-se mais disto:
Estas bojardas não são propriamente uma novidade e ninguém as leva muito a sério. É verdade que António Lobo Antunes também conquistou, por força do talento e do hábito, o direito de ninguém o tomar por mitómano e o seu auto-elogio resiste ao ridículo, coisa que Vasco Graça Moura não pode reclamar quando se lembra de escrever mais um dos seus célebres panegíricos a um líder do PSD.
A megalomania de Lobo Antunes - ninguém trabalha como ele, ninguém escreve como ele, ele não aguentará o seu nível de escrita por muitos mais anos, ele faz sucessivos anúncios do antepenúltimo romance - não foi amenizada pelos prémios que tem recebido e vem aumentando, mas em crescendo controladíssimo, temperado pela ironia. Lemos e comentamos: "lá está o Lobo Antunes a armar-se em Lobo Antunes". Faz parte da cena cultural portuguesa, não incomoda. E de tanto se anunciar, o Lobo desmaterializou-se. Não deixa de ser uma variação interessante de uma parábola conhecida, embora o mérito seja acidental e, ao contrário da versão original, o clímax pareça comprometido à partida. Em todo o caso, não se concebe um bom remate sem qualquer coisa de burlesco. Mas como se trata da realidade, o melhor é aguardar.
Santana Lopes, antigo presidente do Sporting, que teve lugar cativo em sei lá quantos programas desportivos onde discorria sobre o vazio que é o mundo do futebol após 3 minutos de discussão, que foi primeiro-ministro por despacho e despachado, mediático como nunca antes se vira, e homem com o ego à flor da pele, abandona o estúdio depois de ter sido interrompido por um directo sobre a chegada de Mourinho a Lisboa. A blogosfera aplaude. Pacheco até descobre ali um exemplo. Um exemplo de postura de Estado. A ser verdade, viria com uns anos de atraso. Ora, eu acredito que nos podemos transcender, só que é muito mais simples descrever o que se passou como um momento de política-espectáculo, um excelente pormenor técnico de Santana, que revelou presença de espírito, originalidade e arte suficientes para excitar e vingar quem não gosta de bola, criando também uma oportunidade para se dizer um homem de princípios, ao contrário dos dois actuais candidatos à liderança do PSD. O estado do seu partido e o cabelo grisalho vão dando ao senhor pose de senador, mas tenham juízo.
Adenda: o comunicado de Ricardo Costa é completamente disparatado na arrogância. Dir-se-ia que o directo a Mourinho despertou o Mourinho que há em toda a gente. Primeiro em Santana, depois em Costa. Temos aqui uma sucessão de happenings à Mourinho em marioska. É fascinante.
Não discordo totalmente do que escreveu o JPH, mas não me parece que Santana só foi interrompido por estar na "mó de baixo". Não vitimizemos a criatura. A Santana foram dados 30 minutos de directo- 30 minutos!- para comentar o seu partido.
Adenda de Sexta-feira: um sinal claro do talento de Pedro Santana Lopes é a falácia do ovo de Colombo com que muitos discutem o episódio. Parece que agora é óbvio que ele tinha de fazer o que fez e que a SIC lhe deu uma oportunidade de bandeja. Não. Santana viu a oportunidade que outros não veriam. A prova é que se ele tivesse continuado a entrevista ninguém se indignaria, mesmo com o capital de fel que Santana acumulou nos últimos anos. Escrevo isto com enorme sacrifício pessoal - são 6 da manhã e abdiquei de uma fatia de pão com marmelada - mas pareceu-me importante e, enfim, eu também tenho os meus princípios.
Não me é fácil ir às cuecas. A começar, sou diminuído por criaturas que só não parecem estátuas gregas porque têm um chumaço auspicioso, que faria corar de vergonha toda aquela rapaziada, de Apolo a David, o sex-symbol do pirilau. Não sei se o feminismo ainda tem por preocupação central a exploração do corpo da mulher pela publicidade ou se - como espero - a luta contra mutilação genital recentrou a discussão, mas bateria certo com o estereótipo de que uma feminista não compra as cuecas do marido. Se o fizesse, perceberia que a publicidade usa os homens como usa as mulheres.
Numa altura em que escasseiam confirmações pela positiva e em que a heterossexualidade está ameaçada pelo tédio e alternativas variadas, chega a ser reconfortante a ligeira náusea induzida por 15 minutos de contemplação de tanto apetrecho sexual imaculadamente acondicionado, mas a sensação prevalecente é ainda de humilhação. Humilhado por um modelo de cuecas profissional, eu, um homem que tenta contribuir para o progresso da humanidade - é isto que queremos para os nossos filhos? Temo aqui um pináculo civilizacional? Hã?
Vem a seguir alguma irritação, porque já não há cuecas sem iconografia ou dizeres (daí os 15 minutos). A opção é sempre entre os estampados com a cara do Mickey e as cuecas sóbrias mas com o nome da marca em letras garrafais na tira elástica. À vista de quem? De quem as veste, a forçar a fidelização, e da parceira, numa tentativa de fazer do namorado o veículo publicitário que atingirá o namorado seguinte. Ou o amante. Isto, claro, não sendo ela feminista- haja coerência. Estamos em plena perversão dos direitos do consumidor, já para não mencionar os direitos do encornado.
E chega, por fim, a chibatada nostálgica. Esta bateu forte, mas quem me mandou a mim ter comprado em quadruplicado? A cueca, a mais íntima das peças de vestuário masculino, é praticamente intransmissível. Creio falar por muitos -não sou do tipo anal-retentivo - quando revelo que me sinto incapaz de vestir cuecas alheias, excepto as de elementos do meu círculo familiar restrito. Admito usar as cuecas do meu pai - numa emergência qualquer que, sinceramente, não consigo conceber; depois as do meu irmão e talvez as de um tio ou primo, mas já só em caso de vida ou morte. Este tabu da cueca estabelece um gradiente a contracorrente com o tabu do incesto, o que daria para uma tese de mestrado. Mas não teorizo, sei apenas que assim é, porque guardo na minha gaveta umas cuecas de um qualquer vizinho estraviadas numa das máquinas de lavar da cave e que apareceram no monte da minha roupa lavada. São uns belos exemplares e creio que do meu tamanho, mas bloqueio antes dos joelhos.
Curiosamente, saí do armazém a pensar nas ceroulas dos meus antepassados, a indagar sobre como me assentariam aqueles itens desprezados na altura das partilhas e incapazes de provocar a cisão familiar, mas que subitamente desejei possuir, para contrapor às Calvin Klein. As CK para o dia-a-dia, o cuecão dos avós para as ocasiões importantes. Uma vingança possível.
Está visto que comprar cuecas me desagrada. Como lavar cuecas. Ou deitar cuecas para o lixo, quando o elástico está bambo ou o tecido tão usado que - desculpem - uma bufa seria capaz de as rasgar. Parte desta frustração é comum ao conhecimento dos ciclos, de todos os ciclos, inclusive o ciclo da água. Sem querer ofender ambientalistas, a ideia da reciclagem é deprimente. Eu queria que as nuvens fizessem água de novo, não que a reenviassem. Enfim, esta discussão vai beber ao princípio do mundo e não temos tempo.
A restante parte é capricho meu. Uns terão a sua fantasia pastoral, eu sonho com as cuecas lavadas, dobradas e encostadas umas contra as outras como reses. O meu rebanho engavetado, posto ali sem ser por mim, novo a cada vez. Coisa de infância, irrepetível. Eh, sobretudo com a praga de feministas. A menos que se encontre uma que ainda alinhe pela troca directa. Ela cuidaria das cuecas, eu retribuiria tratando-lhe dos soutiens. No mundo possível, soa a perfeição.
Há quem critique os que vibram com Mourinho pelo simples facto de se tratar de um Português. Eles também vibram, mas por outros motivos. Para eles, Mourinho é o exemplo do individualismo, do self made man. Sobra um problema. Não deveria o individualismo, como doutrina, dispensar os ídolos? Haverá alguma coisa mais anti-Mourinho do que endeusar o homem? Bacocos por bacocos, prefiro os simples. Sempre são mais genuínos e menos esforçados.

O Meatpacking District, antes e depois*.
*É inegável que o MI assumiu a deriva misógina; trata-se de uma fase, apenas de uma fase.

O MI faz ecoar o elogio a Laura Linney e propõe varrer da blogosfera referências a actrizes que pareçam ter menos de 20 anos.
Após 6 anos em que fui um exemplo de civismo, acumulam-se agora situações passíveis de multa e até uma multa propriamente dita. Foi a 28 de Julho de 2007, por ter a carrinha de mudanças estacionada do lado errado da rua. A polícia tinha razão, sucede que não dava jeito atravessar a rua com o aquário às costas. E a carrinha não bloqueava o trânsito. Mas só me passei dos carretos porque estava já predisposto a refilar se fosse multado. Sabia que uma hora antes, na mesma rua, haviam multado uma mulher que estacionara por breves instantes, para que os seus pais, idosos, pudessem sair do carro no lado certo da rua. A data tudo explica. A 28 de Julho estávamos quase no fim do mês e os polícias de trânsito precisam de atingir uma quota mensal. Barafustei por me sentir presa de uma típica caça à multa e os meus amigos nunca me tinham visto assim. Senti-me injustiçado, mas havia ali algo mais e não creio que fosse a frustração de os meus impostos andarem a matar gente no Iraque - já não tenho lata para este tipo de raciocínios. Enfim, vai ser preciso ter muito cuidado para não sair daqui com cadastro, admitindo que me deixam sair. Talvez tente uma tatuagem na coxa à Chabal, um qualquer ícone tribal dos Lusitanos, algo sublimatório...
Não é só à esquerda que se deve começar. Devemos também começar muito felizes, com uma felicidade transbordante logo a seguir à crise da adolescência. Os valores de esquerda não são a felicidade - Deus disso nos livrou -, mas ambos se vão perdendo, os valores de forma contínua, a felicidade de modo discreto. Convém começar muito à esquerda e muito feliz. Ainda ontem me diziam: "não o via há 20 anos mas está igual, sardento, giro, só que com o olhar mais triste". Clássico. E aposto que agora vota PS, com aquela falta de convicção da gente que vota PS. Mas disso não falámos, era uma chamada intercontinental.
É quase impossível não fazer de um blogue intimista uma arma de sedução. Como uma granada espoletada que se esqueceu no bolso, não sei se estão a ver...

Como é próprio dos rústicos, sou algo céptico sobre qualquer manifestação pós-Segunda Grande Guerra no domínio das artes plásticas e da música a sério. Na escultura, porém, começo a perceber o que geralmente me faz gostar da peça: a grande escala e o elemento lúdico. Rústico ainda, mas com o seu quê de introspecção...
Há uns meses, na belíssima cidade que é Chicago, perdi largos minutos a brincar diante de uma escultura que pretende ser uma enorme gota de mercúrio. Ontem, no Moma, entretive-me a passear dentro das peças de Richar Serra (imagem). Seria possível ficar horas a discorrer sobre o significado daquelas curvas, a experiência que é sermos envolvidos pela peça, etc., mas também deveria chegar dizer que foi muito divertido.
Meses depois de ter aqui chegado, perdi um um livro de Herberto Helder na rua. Seis anos depois e a poucos meses de partir, perco o Exit Ghost, de Philip Roth.
Por estupidez, passei uma década sem comprar música clássica nem ler Nuno Brederode Santos, hábitos que tinha por enraizados aos vinte anos. Acabo de reencontrar ambos os caminhos. A propósito, com tanto buzz em volta dos cronistas da nova geração, coisa que - salta à vista - é apenas alimentada por essa mesma geração, convém ainda reparar em Brederode Santos, homem capaz de grandes pormenores de estilo. Isto tudo para dizer que leio os cronistas portugueses como o maradona vê futebol: pelos detalhes.
Nem o gesto tenso, de lobo atrás da moita, que Menezes exibia enquanto Mendes falava, nem a falsa displicência das pálpebras a meia haste, com que este ouvia aquele, tinham poder bastante para estragar uma boa discussão. N.B.S.
O que têm em comum Larry Flint, os cartonistas dinamarqueses, Fernando Charrua e Mário Machado? Todos são poster childs de movimentos reactivos que tentam defender valores essenciais, como a liberdade de expressão, a separação do poder judicial do poder político ou simplesmente responder a qualquer coisa que cheire a politicamente correcto. Percebe-se a lógica: quanto mais infame (Machado), incómodo (Flint), medíocre (Charrua) ou banal (os dinamarqueses fizeram uns cartoons muito fraquinhos) for o herói para a ocasião, mais exemplares são a defesa da causa e as nossas motivações. Estas criaturas testam-nos e tomar o seu partido dá um estímulo acrescido a fazedores de opinião e advogados. Um ego boost.
Se quanto mais abjecta é a criatura, maior é a tentação de a usarmos como exemplo, é natural que os exemplos extremos incluam escolhas felizes - digamos, Flint - e erros desastrosos, tal como a crítica de Pacheco Pereira (JPP) à manutenção da prisão preventiva de Mário Machado. O caso já foi tratado por quem sabe do assunto e as discussões paralelas sobre o racismo, sempre empolgantes, parecem-me irrelevantes. Se Mário Machado está preso preventivamente acusado de ameaça de morte, é difícil imaginar uma acusação em que a prisão preventiva, com todos os seus defeitos intrínsecos, se justifique melhor. Porque uma ameaça de morte é um crime que projecta uma possibilidade de crime muito mais grave para o futuro.
JPP é um homem experiente nestas andanças, mas neste caso talvez tenha sido baralhado por um dos seus ódios de eleição: o BE. O BE, por ideologia e circunstâncias tristemente célebres, está muito ligado à luta contra os movimentos de extrema-direita. Se é verdade que algumas causas do BE são coladas a cuspo - ninguém imagina que Francisco Louçã carregue nos ossos a orvalhada de madrugadas no Paúl do Boquilobo a anilhar piscos e alvéolas -, estabelecer uma equivalência entre as acções do BE ou de movimentos a ele ligados e os grupos de nazis lusitanos roça a idiotice, até mesmo quando apenas consideramos as acções mais extremadas dos esquerdistas, como as do Eufémia Verde.
É claro que JPP não tem a menor simpatia pelos movimentos nazis. O que ele tem é uma enorme antipatia por movimentos que lhe parecem diametralmente opostos. A sua defesa de Machado resulta desse vício, mas havendo um guia de leitura de JPP, não é por isto que ele deixará de ser um cronista útil.
Tenho sérias dificuldades em perceber o que leva um cientista a mover uma cruzada contra a magia. Não domino a pequena política coimbrã e não sei se é mais importante ter naquela cidade uma noite de magia com truques assistidos por meninas descascadas ou um sarau cultural com leitura de poesia e música de Jorge Peixinho, mas o rótulo de pseudo-ciência não se aplica à magia. A magia é a arte da ilusão, toda a gente com mais de 7 anos tem isso presente. É precisamente por sabermos que as leis da física não estão a ser violadas no palco que nos perguntamos "como é que ele fez aquilo?" Dito isto, não tentem este truque em casa. Há formas mais subtis e legal-friendly de despachar a vossa namorada, esposa ou companheira.

Um spin-off pachequista em tempo real, usando o MI como uma janela para ler/ver/ouvir atomos e bits, Grrrrrrr...
Esta imagem, tirada do livro Dieux du Stade, pode aparecer no Renas e Veados ou no A Causa foi Modificada, mas nunca em blogues heterossexuais da linha dura, como o MI (este post é excepção) ou o A Sexta Coluna. Porquê? Porque a pulsão homo-erótica é óbvia, de um modo quase obsceno; a oval, ali, mais não é que uma nádega sobressalente e se o leitor semicerrar os olhos vê dois rabos ao mesmo tempo, um par que partilha a nádega central. Quase chego a corar. Nos estádios só se devia falar da bancada central.
É num mundo em que até os jogadores de râguebi já são matéria-prima para calendários eróticos, à imagem dos metrossexualizados bombeiros de Nova Iorque, que Chabal se impõe. Chabal não é um homem das cavernas, essa imagem não capta o magnetismo do animal. Chabal é Rasputine sob efeito de esteróides anabolizantes. Ele tem aquele olhar hipnótico capaz de adormecer um boi-cavalo que invista contra ele, e também o arcaboiço para o fazer cair por terra com um sopapo, caso seja um boi-cavalo invisual.
Mas o que a chabalomania prova, como há uma década a lomumania, é que o râguebi, antes de ser um desporto de elites - o que só é verdade em alguns países - é um deporto de castas físicas. Como o halterofilismo, o basquetebol, o voleibol, grande parte das disciplinas do atletismo (excluindo o meio-fundo e a maratona), o boxe que realmente conta, a ginástica desportiva, etc. As grandes vedetas nestas modalidades seriam facilmente identificadas na rua pelo seu porte físico, o que provoca admiração, mas cria distância entre o adepto e o ídolo.
Creio que foi Valdano a desenvolver a ideia de que parte do encanto universal do futebol resulta da sua abertura a tipos físicos normais. Os melhores jogadores desde Pelé, esse super-atleta de 1.74 m, continuaram a não ser particularmente altos ou fortes. Maradona foi um baixote entroncado, Zidane, Platini, Zico, homens elegantes e absolutamente medianos nos parâmetros físicos. Rui Costa sempre teve mais porte de empregado de mesa do que de atleta de alta competição. Messi parece que ainda ontem jogava nos infantis. E os grandes craques continuam a deslumbrar mesmo quando com uns quilos a mais (Gascoine, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Romário, Rochenbach).
Em suma, o râguebi vai catapultando para a ribalta um colosso por década, mas nunca será mais popular que o desporto que fez de Rui Barros (1.59 m) uma estrela.
"Os tecnocratas têm uma visão racionalista do desenvolvimento tecnológico. O único critério de validação é o juízo dos tecnocratas. Isto normalmente quer dizer que as preferências do consumidor são ignoradas em nome de um ideal técnico. Os mercados, pelo contrário, têm um mecanismo evolucionista. Seleccionam a tecnologia à medida que os empreendedores a criam. E os principais agentes que seleccionam a tecnologia são os próprios consumidores. Isto quer dizer que sobreviverão as tecnologias que interessam aos consumidores e não aquelas que respeitam um determinado ideal técnico." JM
A excepção a esta regra é, obviamente, o mercado de apetrechos de barbeação. Toda a gente desconfia que é possível fabricar lâminas mais duradouras do que as existentes. Aliás, a coisa é tão descarada que os líderes de mercado sentem necessidade de baralhar o consumidor com uma exibição permanente de vácuo virtuosismo tecnológico. Basta ver a profusão de modelos e de inovações perfeitamente idiotas. Duas lâminas, três lâminas, cabeça rotativa, sistema de expulsão dos pêlos, novas ligas, etc. Tudo isto só serve para enganar e manter a lógica de consumo de bens perecíveis.
Generalizando: sobrevivem as tecnologias que interessam aos produtores - e não aos consumidores - quando o avanço tecnológico pode matar o mercado. Ninguém me convence que a Coreia do Norte não seria capaz de produzir uma gillette mais decente do que qualquer um dos modelos disponíveis.
Adenda: o maradona esmaga-me, mas continuo a achar que há uma conspiração global que sustenta artificialmente o mercado de muitos produtos perecíveis. Também na minha área de actividade é essa a impressão que fica. Compramos uma série de utensílios descartáveis que, com algum engenho, seriam facilmente substituíveis por utensílios de utilização múltipla. Que nenhuma pequena empresa os consiga produzir e penetrar no mercado é para mim um enorme mistério.

O Pedro Mexia não faz dois anos. O Mexia anda nisto há quase 5 anos, é o pai de nós todos. Os diferentes blogues do Pedro não são assim tão diferentes e mudar de template não é mudar de vida nem de escrita. O Pedro é um monotonous serial monoblogger, isto é, como aquela gente que, sem acumular, vai substituindo os sucessivos parceiros por cópias iguais. Parabéns pela longevidade, mas se insistes nessa coisa dos 2 aniversários eu passarei a aceitar que a Tónia Carrero tem oficialmente 22 anos.
Imagem: Tónia Carrero, aos - 40 anos.
Hum... Prefiro explorar a circunstância de a uma mesa haver desconhecidos. No casamento mais divertido a que fui, um amigo fez de cobrador de fraque e eu era repórter fotográfico freelancer, a viver em Nova Iorque. Aguentámos os papéis durante horas, com ele a dirigir as operações e eu a fazer de sidekick. É claro que estes jogos só funcionam quando se vai sem companhia feminina. As mulheres não são adeptas da ficção em tempo real, acham a coisa uma criancice. O Hitchens tem uma teoria sobre a falta de sentido de humor das mulheres que explicaria também esta aversão, mas eu creio que não vale a pena invocar o mistério da criação e a maternidade, bastando notar que as mulheres saciam a pulsão de evasão com as telenovelas, pelo que uma mulher não sente necessidade criar uma personagem durante um casamento. A menos que se trate do seu, obviamente.
Só nas últimas semanas comecei a almoçar com os meus colegas. Antes almoçava sozinho ou com os meus amigos. Há colegas que são amigos, certo, mas quando o grupo aumenta vamos inevitavelmente com eles na condição de colegas e não de amigos. Se há um colega no grupo que não seja amigo... É um pouco como aquela história da fruteira e da maçã podre. Basta uma.
Pois bem, confirmei que os almoços entre colegas são uma profunda estucha e que o simples facto de não ver televisão faz de mim um extra-terrestre. Antes um almoço de trabalho. Mas, por sorte, descobri há dois dias uma fórmula que torna estes convívios em momentos vibrantes: discutir temas controversos. Poligamia, o direito a lavar o cérebro das criancinhas com a religião lava-mais-branco que os pais preferem, aborto - que, afinal, não é uma questão polémica entre cientistas-, diferenças entre homens e mulheres, psicanálise. Acaba tudo à batatada e sinto a tensão na mesa a crescer quando tento explicar por que motivo não há grandes matemáticos entre as mulheres. This is fun.
No humor, fazer piadas sobre deficiências físicas está para a ética como as anedotas sobre flatulência para a técnica.
Por economia, suponho, fazes um conglomerado dos teus críticos. No que me diz respeito: 1) registo com agrado que aceitas que haja "espírito desportivo"; 2) um vídeo vale por um tratado e o melhor que tu consegues contrapor é um dúbio argumento de autoridade. Fabio Capello? Raios, não encontraste uma linha de Kant?. Acho que não sobra mais nada.
Eu não pedi a cabeça do Scolari, defendi e previ uma sanção disciplinar. Estamos de acordo.
Exageras quando dizes que não suporto que os campos da vitória e da moral não coincidam. É claro que suporto, mas sei qualificar uma vitória e uma derrota. É possível ganhar bem, ganhar mal, perder bem e perder mal, num plano que ultrapassa os aspectos técnicos do jogo e onde as regras do desporto não chegam. Não percebo o que há de transcendente em tal visão e começo a recear que o maniqueísmo esteja a tomar conta de algumas das cabeças mais criativas da blogosfera, tu vê lá isso, pá. Se, para ti, ganhar marcando um golo com a mão que o árbitro não vê, neutralizando à sarrafada o melhor elemento da equipa adversário (Portugal Holanda, no último mundial, para não ir mais longe), sem devolver a bola que o adversário nos cedeu por lesão de um jogador nosso, etc., se isto não interessa e esta vitória é igual a qualquer outra, então não temos a mesma visão do jogo. É mesmo assim?* Responde-me só a esta questão; pode ser que estejamos perante um exemplo light de alguém que se assume como bárbaro na ânsia de neutralizar as miragens de moralistas que o apoquentam, mas continuo a pensar que te tornaste refém do teu estilo.
* Entretanto respondeu. Não é assim. Ainda bem. Menos um bárbaro. Agora, o único problema é que se um dia o maradona estiver preso preventivamente o Pacheco Pereira não virá defendê-lo, mas discutiremos o caso em ocasião mais oportuna.
Com a ressalva de Pacheco Pereira ter adiado a sua resposta ou desenvolvimento para o Público, começa a não lhe ficar nada bem a ausência de reacção aos vários comentários que foram feitos à sua entrada sobre a prisão preventiva de Mário Machado. A ser verdade o que os críticos de Pacheco escrevem - e contei alguns juristas, pelo que não tenho razões para duvidar deles -, não estamos perante mais uma birra a propósito de uma qualquer mania de JPP. O que JPP escreveu será ainda fruto de uma mania sua, mas é grave para um fazedor de opinião do seu calibre. A menos que o autor do Abrupto nos elucide sobre o que parece ter sido um post desastrado...
Sócrates fala Inglês com sotaque luso e vocabulário limitado. Falha os verbos mesmo quando há 50% de hipóteses de aleatoriamente neles acertar. Dito isto, Sócrates fala Inglês bem para quem nunca viveu num país anglófono, nem teve, em Portugal, uma educação de elite. Insinuar que a formação universitária de Sócrates é deficiente por ele ter dito "Middle-West" em vez de "Middle-East", quando improvisava um comentário, não passa de uma boutade. Eu estou mesmo a ver o Jacinto Bettencourt* na Casa Branca, dirigindo-se a Bush em tom intimista, para lhe dizer - "we few, we happy few..." - a mão de Jacinto Bettencorut agora pousada no ombro de W., seu pescoço quebrado pela sinceridade- "... we band of brothers...", antes de arrancar um discurso como nem na literatura há memória... Até já oiço os violinos.
Espero sinceramente que Jacinto Bettencourt, depois de recuperar da gaffe de Sócrates, não siga os exemplos do Mascarenhas e do Luciano e que antes me ignore. Não há aqui psicologia invertida. Não há mesmo. Eu só gosto do feedback dos literatos, a malta do comentário político serve apenas para desbundar, faz de punching bag. Nem há psicologia revertida em negar a psicologia invertida. Nem... Raios, estou em loop... O avesso do avesso do avesso ... Hum?... Alguma coisa acontece no meu coração... Ah, enfim safo. Nada como a associaçao de ideias. A propósito, a nossa teórica nestas coisas da expressão dos desejos recalcados via post, da sublimação da inveja, etc., talvez escrevesse que ando à procura de atenção, mas busco apenas diversão. E também não há psicologia invertida neste reparo. Nem no reparo ao reparo... Oh, não... do avesso do avesso... É que Narciso acha feio o que não é espelho... Raios, acto falhado- quem me manda citar Caetano?... Hum... E foste um difícil começo, afasto o que não conheço... nhã nhã nhã... o Quilombo de Zumbi... Aprende depressa a chamar-te de realidade. De realidade.
* Corrigido, a pedido do visado.
Os trinta são a década em que começamos a lenta preparação para a morte. Há sempre alguém que morreu na semana passada, outro que está doente e, de repente, um moribundo. Nunca antes me preocupara com os pêsames, em como evitar as fórmulas sem cometer uma gaffe, conseguir ser sincero sem ser inconveniente, nem demasiado breve nem demorado, resistir a intimidades de circunstância e à patética rigidez britânica. A justa medida, que nunca encontro. É uma preocupação diária, uma rotina que não se pode antecipar nem deixa de surpreender, mas uma rotina.
A geração anterior começa aos poucos a despedir-se e, talvez por causa deste estilo de vida meio nómada que adoptei, não registo grandes sinais de renovação. Sem consultar as estatísticas oficiais, é possível fazer um censo demográfico a olho e no meu mundo conto mais mortos que bebés. Ou melhor, a ideia de morte e as mortes concretas estão mais presentes do que as fraldas e os nascimentos. A sensação que fica é a de que galguei uma década.
A rotina da morte só devia chegar aos quarenta, com a retaguarda entretanto protegida ou definitivamente desguarnecida. De um modo ou de outro, creio que então seria mais forte.
Esta entrada marca o recomeço da série A Barreira de Weismann, que havia interrompido por um pudor exagerado.
Um dia talvez me consigas explicar de que forma sou eu a diminuir a inteligência dos populares quando és tu a ceder à tentação de lhes explicar a natureza humana, mas temo que serei então ainda o mesmo rústico. Deixemo-nos de tretas: não escreveste o texto ao contrário porque seria um exercício menos estimulante e só isso contou como critério. Deu-te gozo. Não sobram dúvidas sobre o que cada um pensa e proponho que fiquemos por aqui.
Caro Luciano,
Tens razão quanto ao artifício, foi cobardia minha e peço-te perdão por isso. Reconheço também que "nojento" é um termo demasiado forte - faz parte de um inconsequente estilo caceteiro e juvenil - e aceito que as tuas intenções fossem as melhores. Mas no essencial continuo a defender que o tipo de exercício a que te dedicaste é de mau gosto, pedindo outro lugar e outro momento.
Sobre o lugar: é esclarecedor veres como atenuante o facto de o jornal onde publicaste o artigo ser de distribuição gratuita - se não é assim, que relevância encontras nesse dado para o referires? Eu vejo aí uma agravante, que reforça a minha suspeita de que pretendeste dar às massas o que as massas querem. Fazer opinião, para mim, está a milhas dessa tua prosa.
Sobre o momento: a discussão é um pouco mais comprida, desculpa o incómodo. Essa "ideia" de que a "inverosimilhança não é igual a impossibilidade" não me parece muito ousada. Se reparares, as palavras não são sinónimas. E é justamente no espaço entre a inverosimilhança e a impossibilidade que incubamos as teorias de conspiração, que são matéria-prima para suculentas discussões, mas que em função das circunstâncias devem ficar circunscritas à mesa de café e à roda de amigos. Porque as teorias da conspiração têm um jeito insidioso de fazer certeza da inverosimilhança. E o que tu escreveste vem com todos os tiques de uma teoria da conspiração velada.
Como dizes no teu último texto, partes do princípio de que a polícia judiciária não pode estar a fazer o que faz sem ter bons motivos para isso. No fundo, com base no que sabes, parece-te a ti mais inverosímil não ter a polícia razão do que não estarem os McCann implicados na morte da filha. E encontras uma explicação que te parece convincente. O problema é que eu poderia construir uma teoria simétrica com base em exemplos de erros judiciários, nas pressões mediáticas e no lado mais sombrio da natureza humana para explicar, admitindo que os McCann estão inocentes, a aparente inverosimilhança das acções da polícia. Por outras palavras, exprimes uma mera opinião. Uma fezada. Ora, fezadas também eu tenho, mas quando estão em causa vidas e reputações prefiro ser menos leviano e exercitar a minha veia hitchcockiana em privado ou depois de a tempestade passar.
Não tenho formação jurídica, mas creio que a presunção de inocência nos obriga - não por lei, obviamente - a um certo decoro, sobretudo em público, sob pena de cedermos ao populismo. Se não conseguimos perceber tudo o que se passa, talvez ainda haja esperança para uma coisa chamada segredo de justiça, não? É assim tão urgente pensar "muito inocentemente" como seria possível que os McCann fossem culpados? Eu também tenho uma teoria, cá vai: a notável incapacidade que certas pessoas têm em lidar com a incerteza, o desconhecido e a inverosimilhança agudiza-se entre os crentes. Contraponho com uma proposta prosaica: e que tal esperar um pouco? A paciência já deixou de ser virtude?
Enfim, só te volto a chatear daqui a uns meses, para não fazer ciúmes ao Mascarenhas.
Adenda: por indicação da Fernanda, cheguei a uma crónica de Pedro Adão e Silva sobre o mesmo caso, que me parece exemplar. Eis o teu TPC, Luciano.
O empenho deste homem em nos divulgar a que horas acorda só pode ser entendido à luz de um projecto anti-proustiano. Destaque óbvio para a entrada de 10 de Setembro: "Hoje não me apeteceu sair da cama a tempo".
Excluindo Rogério Casanova, a excepção habitual nestas andanças, creio que nenhum dos leitores do MI sabe quem é Stephen Metcalf. Comecei a lê-lo faz 5 minutos, mas sinto-me legitimado para dedicar este texto ao meu amigo Th., fã incontrolável do incontornável Springsteen, porque ouvi já uma boa mão cheia de podcasts literários em que Metcalf participa. O homem sabe da poda, expressa-se lindamente e merecia ter uma estenógrafa de seios fartos 24/7, como alguns enfermos têm enfermeiras, para que o seu discurso oral ficasse ao alcance de gerações futuras. São variados os exemplos de quem fale mal, escrevendo muito bem, mas são raros os que escrevem mal falando bem. On that note:
Faux Americana
Why I still love Bruce Springsteen.
Bruce almighty?
In his early live shows, Bruce Springsteen had a habit of rattling off, while the band vamped softly in the background, some thoroughly implausible story from his youth. This he punctuated with a shy, wheezing laugh that let you know he didn't for a second buy into his own bullshit. Back then, in the early 1970s, Bruce was still a regional act, touring the dive bars and dive colleges of the Atlantic coast, playing any venue that would have him. As a matter of routine, a Springsteen show would kick off with audience members throwing gifts onto the stage. Not bras and panties, mind you, but gifts—something thoughtful, not too expensive. Bruce was one of their own, after all, a scrawny little dirtbag from the shore, a minor celebrity of what the great George Trow once called "the disappearing middle distance." By 1978, and the release of Darkness on the Edge of Town, the endearing Jersey wharf rat in Springsteen had been refined away. In its place was a majestic American simpleton with a generic heartland twang, obsessed with cars, Mary, the Man, and the bitterness between fathers and sons. Springsteen has been augmenting and refining that persona for so long now that it's hard to recall its status, not only as an invention, but an invention whose origin wasn't even Bruce Springsteen. For all the po-faced mythic resonance that now accompanies Bruce's every move, we can thank Jon Landau, the ex-Rolling Stone critic who, after catching a typically seismic Springsteen set in 1974, famously wrote, "I saw rock and roll future, and its name is Bruce Springsteen."
Um spin-off pachequista em tempo real, usando o MI como uma janela para ler/ver/ouvir atomos e bits, Grrrrrrr...

É inegável que Chabal - outro barbudo intermitente- desperta uma pulsão homo-erótica. Sorte nossa ele também ser capaz de fazer umas placagens e ensaios de vez em quando, caso contrário seria complicado justficar as fotografias que andamos a mostrar.
Este texto de Luciano Amaral faz-me lembrar uma crónica de António José Saraiva sobre Carlos Cruz, nos meses quentes do Processo Casa Pia. Uma crónica absolutamente nojenta, acrescento. O Luciano não resistiu a explicar-nos agora como é possível que os McCann tenham feito aquilo que não sabemos se fizeram. A coisa saiu bonita, elegante, voando até bastante alto, para bem perto da natureza humana, de que somos todos especialistas, apaixonados e reféns. O Luciano não se cansa de nos dizer que não se sabe se está provado, mas não resistiu a fazer do casal presa da sua inteligência. Nestas histórias de presunção de inocência, os inocentes - ou não - são sempre vítimas dos presumidos. Há alguma economia semântica nisto tudo, o que tem a sua graça.
Defendes que um cientista não pode ser ateu porque a ciência não tem forma de provar a inexistência de Deus, pelo que alguém que resolva pensar a religião na sua condição de cientista só pode ser um agnóstico, isto é, não pode negar a existência de Deus. Daí provocares-me sempre que refiro que sou ateu.
Em rigor, tens toda a razão. Acresce que T.H. Huxley, um dos meus heróis intelectuais, foi o primeiro a empregar o termo "agnóstico" (1, 2), pelo que estaria à partida predisposto a filiar-me nesse grupo. Sucede apenas que, por definição e contingências várias, o agnosticismo está para a metafísica como a social-democracia para a política, isto é, se no plano teórico funciona lindamente, na prática acaba por formar um grupo heterógeneo e em que muitos dos seus membros se definem mais por preguiça, receio e interesses vários do que em resultado de uma reflexão séria e descomprometida . Confesso que não me agradaria pertencer a esse centrão.
Poderia talvez ser um agnóstico ortodoxo, mas tenho uma segunda objecção. Apresentar-me como agnóstico seria voltar a incorrer no erro que tem feito com que historicamente o ateu se defina quase sempre por oposição ao crente, como se fosse uma degenerescência deste. Ora, eu reconheço a enorme importância das religiões em todos os níveis da sociedade e das nossas manifestações mas, num plano estritamente pessoal, saber se existe um Deus - ou Deuses - não é uma questão relevante. Ou seja, parece-me absurdo definir-me em função do respeito que tal pergunta supostamente pressupõe, quando não lhe reconheço importância. No limite, seria tão bizarro como aceitar pertencer ao clube formado por quem não nega a existência de formigas falantes numa zona recôndita de África. E repara que formalmente não posso negar que tais criaturas povoam um lugar qualquer na Terra, tal como não posso excluir a existência de um Criador.
Sobra o termo "ateu", mas estou longe de ser o que agora se designa por "ateu dogmático". Visito o Diário Ateísta e fico deveras surpreendido com o vigor dos seus escribas. Seria incapaz de alimentar aquele violento anticlericalismo mais de dois dias e de atacar as fundações da Igreja, do Islão, do Judaísmo, etc., de forma tão persistente. O meu ateísmo é do tipo reactivo. Igreja fora do Estado, Igreja fora da escola e - em particular - das aulas de Ciências, Igreja fora da minha casa. Quanto ao resto, sou um ateu conformado. Gosto de música sacra e das Escrituras, por vezes ainda canto na missa do Galo, e aceito algumas das teses da Psicologia Evolutiva, que vêem na religião um valor selectivo. Sei perfeitamente que o eventual colapso da Igreja daria lugar a outras seitas quaisquer ou à expansão das seitas que já latejam por aí, pois a tentação de acreditar no divino cria um nicho que precisa de ser preenchido; consequentemente, é preferível lidar com as religiões que temos a fazer terraplenagens espirituais que criem oportunidades para lunáticos ou charlatães. No fundo, neste tópico sou um conservador. Mas insisto: definir-me como ateu faz sentido na medida em que a minha angst - e tenho alguma - não carece de um Deus como intermediário ou interlocutor e nunca me levou a levantar a possibilidade da sua existência ou a questioná-la. Leva-me por outros caminhos. So far.
* Allô? Santiago? é uma nova série sobre grandes questões discutidas de uma perspectiva estritamente pessoal. A imagem é dos tapumes do meu monumento preferido de Paris, a torre de Saint Jacques, cidade do Santiago e onde também já vivi.
Não há grande diferença entre o jogging no estrangeiro de Sócrates e o hábito de beijar o asfalto dos aeroportos do falecido João Paulo II. São acções de marketing. A de Sócrates chega até a ser original entre os políticos e ele parece estar suficientemente enxuto para não fazer uma figura triste. Tudo isto deve ser extremamente revoltante para os que se irritam com a mania do PM, mas não há muito a fazer. Aliás, quanto menos barafustarem mais depressa o homem se fartará de correr. Espero é que alguém ande a registar os tempos, para termos um histórico que nos permita tirar ilações durante o segundo mandato.

Cheguei atrasado a um monólogo da Blanchett, em Brooklyn. Aconteceu há mais de um ano e ainda me recrimino. Não me deixaram entrar e foram cruéis, deviam ter espetado um ferro em brasa em cada um dos meus olhos. Agora, sempre que vejo uma foto dela, deprimo. Sim, exagero, mas esta mulher consegue imiscuir-se num top ten onde só há morenas; é um pouco como ter um sprinter branco a subir ao pódio dos 100 metros e estes fenómenos devem ser assinalados.
Garante [Maria José Nogueira Pinto] que é uma mulher de direita que não faz concessões e não tolera o politicamente correcto. Perguntem-lhe pelas suas paixões, e ela enumera: “Deus, a minha família, Portugal…” Soa familiar e Zezinha delicia-se com a provocação. “Pode pôr: Deus, Pátria, Família”. Entrevista ao Expresso
MJNP adquiriu um estatuto que reservamos a poucos: o de nos fazer reflectir profundamente sobre as suas reais intenções quando diz algo que na aparência é uma enorme parvoíce. Não serei mais um dos que procuraram esclarecer se a ideia da Chinatown para Lisboa foi aselhice ou maquiavelismo, mas sinto-me obrigado a fazer esta ressalva antes de avançar.
O que me deliciou mais na entrevista foi o remate. A divisa "Deus, Pátria, Família", depois de ter enumerado as suas paixões assim: "Deus, a minha família, Portugal". São citações quase equivalentes, mas a ordem dos factores sempre contou nestas expressões. Liberté, Egalité, Fraternité não é o mesmo que Fraternité, Egalité, Liberté e não apenas por causa da fonética ou do hábito, pois a enumeração deixa implícitas as prioridades. Também "Ordem e Progresso" se distingue de "Progresso e Ordem", pois vem de "L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but" (Comte), que estabelece uma hierarquia ontogénica. MJNP terá sido displicente ao passar da sua versão à do Estado Novo, subjugando a família à pátria. Mas em quem demonstra tanta sede de poder, talvez seja a expressão que melhor lhe sirva. A família antes da pátria, afinal, incita à desobediência.
Se alguém conseguir imaginar a forma deste triângulo, tudo isto se inscreve entre o irrelevante, o leviano e o grotesco. Em todo o caso, se um dia for submetido a um daqueles angustiantes e absurdos dilemas - " a tua mãe ou Portugal independente de Espanha para sempre?", quero sinceramente que a pátria se lixe. E nisto estarei com o povo mas também, desconfio, com os políticos. Sucede apenas que entre os políticos, por norma, o patriotismo não é um princípio, tende a ser um meio para atingir um fim. O poder, obviamente. E isto torna a entrevista de Nogueira Pinto absolutamente coerente. Chapeau! Que a Pátria não ganhe a Deus também se explica por uma simples lógica de cadeia de comando. Lá está, Deus é o ministro (ou rei) fantoche com que se manipula as massas e convém não o perturbar.

Esqueleto de mulher, autoria desconhecida
O amor soaria a marimbas mal percutidas.
Na blogosfera é fino discutir-se a Baixa, mas daqui a 20 anos ninguém fará um blogue sobre a Baixa como agora se faz este blogue sobre os Olivais. Grandes bairros são feitos por pessoas e o resto são paredes.
O Verão é a silly season do ano, o domingo é o silly day da semana. A. F.
Começa a chegar a idade onde me pergunto "was I that stupid?"- na adolescência eu sei que sim, it's biology, the mind shuts down for the body to test drive all its new systems, and I've made peace with that. But by college, eu acho que já tinha um pouco mais de common sense. Talvez falte distância. Let's give this 5 years and re-examine. Th
A propósito disto.
O maradona relança a discussão que começou com o tabefe de Scolari. O ângulo de ataque não é novo, ele apenas insiste na premissa de que o futebol é uma arte. Não tenho quaisquer problemas em aceitar tal ideia, mas não me parece que estejamos a discutir se podemos ouvir Wagner de consciência tranquila, olhar para um quadro de Hitler ou ler Peter Handke depois da defesa deste de Milosevic. Não é por snobismo que friso a diferença.
O que o Scolari fez não é do foro privado e antes de discutirmos se foi imoral, devemos tentar perceber se estamos de acordo quanto à falta de profissionalismo. Um seleccionador deve dar o exemplo e conservar a autoridade diante daqueles que dirige. Mas vejo que o maradona até concorda com as sanções disciplinares e, a existir um desentendimento, é de grau, coisa aborrecida.
Sobra a discussão mais geral. O problema é que o bom senso está para as polémicas como o atrito para o movimento pendular e a blogosfera serve para quê, afinal? Para partilhar fotos de gajas boas e para discutir.
Se o futebol é uma arte, devemos julgar os seus executantes apenas pelo modo como jogam à bola, independentemente do seu carácter. É a tese do maradona, decalcada da ideia de separação entre o artista e a obra. Um belo pontapé de bicicleta ainda é um belo pontapé se a seguir o avançado levanta a camisola e mostra uma T-shirt com um insulto em letras garrafais à mãe do leitor. Isto faz sentido, nomeadamente porque não se trata da minha mãe. Ninguém levaria a mal se no dia seguinte o carro do craque aparecesse com os quatro pneus furados, mas despedi-lo da equipa seria uma estupidez. Ainda consigo concordar com o maradona.
Onde voltamos a discordar é na tese de que a moral do desporto se esgota nas suas regras, o que em crescendo de palanque também se pode dizer assim: "não há mais nada no futebol, não deve haver mais nada no futebol, não tem que haver mais nada no futebol". Isto é um autêntico absurdo, empírico e formal. Vamos decompor.
O espírito desportivo existe. Lamento aborrecer o maradona, que parece detestar a expressão. Chamemos-lhe fair play, que deve irritar menos. Há gestos no futebol que não estão previstos no conjunto de regras do jogo, mas que são fortemente sancionados quando violados; sancionados pelos adversários - logo, o respeito pelo adversário também existe, peço imensa desculpa - e pelo público, sobretudo a afición, a malta que conhece o jogo. Não me refiro a infracções parafutebolísticas, como a saudação nazi em campo ou o escarro no adversário - e o segundo gesto é, de resto, punível pelas leis do futebol. Penso em algo que é muito mais relevante para o próprio jogo - a vitória e a derrota - e também mais etéreo, ocorrendo à margem das regras do desporto de que o maradona fala. Vou dar apenas um exemplo, que não é necessariamente o melhor - porque na verdade não me ocorre outro - mas julgo ser suficiente.
Quando um jogador da equipa que controla o jogo se lesiona, a forma de interromper a partida é enviar a bola para fora. A outra equipa, que segundo as regras passa a controlar o jogo, geralmente depois devolve a bola ao adversário. Nada no código do futebol dita que assim seja, mas há uma obrigação moral. Esta prática é tão vulgar que só lhe reconhecemos importância quando alguém a viola - e isso por vezes acontece - ou perante cenários verdadeiramente caricatos, como quando ao devolver a bola o jogador marca golo involuntariamente. Este é, de resto, um bom case study. Segundo o maradona, equipa que marque tal golo deve aproveitá-lo, porque o golo é válido e os golos conduzem à vitória. Infelizmente para ele, há quem pense de outra maneira, como se percebe pelas imagens que aqui mostro. Logo, o valor empírico da tese do maradona é nulo. O fair play existe. O maradona pode desprezá-lo, mas essa é apenas a sua opinião e está longe de ser uma opinião consensual.
Passemos ao erro formal. Na sua casmurrice, o maradona nem reparou que as suas ideias são um pouco contraditórias. Se tudo o que interessa respeitar no futebol está contido nas regras, o futebol desumaniza-se. Se ganhar sem violar as regras basta, os jogadores transformam-se em bonequinhos controlados pelo software do Playstation Football. O maradona parece ver nos maus exemplos do futebol - a porrada, as escarradelas, a saudação nazi - a força do jogo, o caos de onde emerge a ordem, blá blá. Em suma, o seu lado humano. Não chego a discordar. Mas o mesmo se aplica aos gestos nobres, que ele, num exercício de memória selectiva, simplesmente decretou que não existem ou que não devemos apreciar e louvar. Não surpreende que um pessimista antropológico como o Miranda tivesse vibrado com o texto inicial do maradona. Estamos já a milhas da chapada de Filipão, caro leitor, há gente que mata e morre por estas ideias.
Dito isto, não acredito que o maradona pense o que escreve, passo o paternalismo - eh, nos últimos dias sinto-me pai de toda a gente. Com um pouco de bom senso a discussão teria morrido há uns dias atrás, mas operam aqui dois efeitos que se reforçam. O primeiro: quando embicamos com algo que o oponente diz, para ganhar balanço começamos muito acima do que realmente pensamos. Trata-se de um fenómeno generalizável a todas as discussões. É o que leva Pacheco Pereira a irritar-se quando alguém escreve como se uma política ambiental fosse boa à partida. Ora, é claro que uma política ambiental é boa à partida. Precisamos de ponderar a decisão, de ver quais os ganhos e os custos, mas defender o ambiente é bom, à partida. O maradona também se irrita com os ambientalistas à moda do Bloco de Esquerda, mas aqui também entra em acção o segundo efeito. Ele sabe que aquela gente se preocupa muito menos do que ele com o ambiente e sente que o amor que tem pelas coisas o legitima a escrever n'importe quoi. O que maradona fez foi uma declaração de amor pública ao futebol e nas declarações públicas de amor tendemos a ser desajeitados. É tão simples como isto.
Cumprida a discussão, tentemos o post total. Desfrutem.
Um spin-off pachequista em tempo real, usando o MI como uma janela para ler/ver/ouvir atomos e bits, Grrrrrrr...
Bom dia. Acordei com os "Lobos". A pensar se estariam bem, sem ossos partidos, desejando que nao apresentem agora mais do que uns hematomas e, com sorte, alguma pequena ferida que cicatrize mal e fique para exibir aos netos. "Anda ca, Bernardo, o avo quer mostrar-te uma coisa..." Nem me ocorreu pensar se a Nova Zelandia sempre passou dos 100 pontos. Os pais nao pensam nessas coisas, creio.
Fazer piadas cinicas sobre os "Lobos" e a onda de entusiasmo que despertaram nao custa. Mas ha um detalhe que nao se pode negar. Como ritualizacao do combate, o raguebi e a menos subtil das modalidades colectivas, perdendo apenas para... enfim, o paintball.
E preciso alguma coragem fisica diante da Nova Zelandia e nenhuma para enfrentar o mais invencivel dos colectivos chineses de ping pong. Nao sei se hoje os nossos "Lobos" estao de parabens, mas desconfio que sim. A menos que um deles tenha fugido do campo ou desertado antes do comeco da partida...

Gosto muito do rosto da canadiana Nelly Furtado. E anguloso q.b. e conserva o maxilar inferior das lusitanas, aquela sugestao de queixada da Amalia. Nem so a ouvir hinos se faz um patriota.
A rapaziada - e preciso ter testosterona, trata-se de uma opiniao de macho - que anda agora a defender a agressao do Scolari vai ter muitos problemas no futuro, quando surgir mais um caso de indisciplina - balnearios partidos, murro no arbitro, pugilismo de grupo sobre a relva, you name it.
Eu ate percebo que o Francisco e o Bruno queiram capitalizar alguma credibilidade, distanciando-se dos criticos do momento porque eles sao criticos de fundo e nao vao com as hordas. Ficam e por explicar os posts do Francisco depois das cenas tristes no ultimo mundial da criancada.
Tambem percebo que a originalidade do Rodrigo o leve a considerar a porrada como uma demonstracao de amor a camisola, so que nao vale fazer contabilidade criativa. A lista que o Rodrigo apresenta esta incompleta porque, segundo os seus criterios, Figo e ao mesmo tempo um traidor - recusou-se a jogar pela seleccao - e um patriota, por ter dado uma cabecada num holandes. A realidade e complexa, Rodrigo.
E o maradona, enfim, o maradona estava com fome de bola depois do defeso e de meses a aborrecer-nos com salto em altura e Roger Federer. Aleluia! Infelizmente, o que o maradona escreveu apenas diverte ou entao nao percebi. Parece que para ele so conta o resultado e que um golo de genio e um golo com a mao e tudo a mesma coisa. O derradeiro esforco do jogador e ir la com a mao, quando falha o pe ou a cabeca, na esperanca de que o arbitro nao veja. Se o arbitro nao ve, e um golo limpo. Esta logica aplicada a cidadania faz de Manuel Damasio um exemplo e da fuga aos impostos um objectivo ou, pelo menos, uma solucao de ultimo recurso, como ir a bola com a mao. Se a coisa passa, o cidadao ganha ao Estado e o que interessa e ganhar. Repare-se que nao estou a fazer do futebol um exemplo para a sociedade, estou simplesmente a fazer da forma como pensamos o futebol um exemplo da forma como devemos pensar a sociedade. Ha aqui uma nuance. E e por isso que o argumento do meu arqui-inimigo Mascarenhas tambem falha. O futebol e apenas um jogo, diz ele, nao nos enervemos. OK. Sucede que os jogos tem regras e nao e por nao ter sido sancionada a falta que a regra deixa de ser violada. Como tambem nao e por se ter um comportamento indisciplinado que nao compromete o resultado - e isto distingue o soco de Scolari do soco do Joao Pinto - que a indisciplina deve ser branqueada.
Ao contrario do Bruno e do Francisco, nao teria qualquer prurido em fazer deste mini-escandalo um pretexto para despedir Scolari por justa causa. Talvez haja ironia nisto, porque no fundo encaro a resolucao do problema - despedir Scolari sem lhe pagar uma indemnizacao - como o maradona, ou seja, com pragmatismo.
E claro que Scolari vai ficar, e ate pelas melhores razoes (tem uma folha de servicos muito boa e uma chibatada psiquica agora seria uma parvoice). Mas ao menos que a FPF se antecipe a UEFA e puna o homem de alguma forma simbolica, sob pena de lhe fugirem ainda mais as redeas que ja andam soltas ha muitos anos.
Sinto-me privilegiado por não ter sido sujeito à infernal máquina mediática sobre os McCann. O caso chegou aqui, é claro; foi referido na CNN e na semana passada a menina era a capa de um dos jornais que vi num escaparate. Não atingiu porém o nível da discussão de café. Na verdade, excluindo a família real inglesa, tudo o que alimente o fel contra franceses ou braços de ferro da Europa com os EUA, quase nada do que acontece no velho continente capta a atenção dos americanos. Com o devido respeito, vocês, aí, praticamente não existem, aqui - sinto-me à vontade para escrever isto porque em breve também eu deixarei de existir... Ainda ontem, os meus colegas discutiam quem irá ficar com a minha bancada, a minha cadeira, a minha secretária e senti-me um autêntico cadáver adiado. Mas divago. Retomando: soube entretanto que o diário da mãe da menina começou a ser publicado. Esta flagrante violação do segredo de justiça tem três tipos de cúmplices. Sim, três. Geralmente fala-se de dois, mas são três, a saber: quem passou o diário ao(s) jornalista(s), o(s) jornalista(s) e quem lê o que se publica. Se nos preocupamos realmente com o segredo de justiça e se o respeito pela vida privada é mesmo para levar a sério, ler os excertos do diário de Kate McCann não é diferente de comprar mercadoria que se sabe que foi roubada. Não digo que seja muito ou pouco grave, mas a comparação parece-me válida. O cidadão comum não é pressionado pelos media ao ponto de ficar sem uma opção de escolha. Não nos infantilizemos. E não venham com tretas sublimatórias do estilo: o mal está feito, agora é preciso ler para podermos discutir o que se passa. O que é preciso fazer, paradoxalmente, é justiça pelas próprias mãos. Que neste caso se traduz no uso directo dos excertos do diário de Kate McCann para forrar caixotes de lixo.
Jovens Escritores 2007 reúne os vencedores do concurso Jovens Criadores na área da literatura, promovido pelo Clube Português de Artes e Ideias.
Trata-se de uma antologia de ficção e poesia contemporânea de jovens escritores, uns com obra já publicada, outros não.
Hugo Nascimento Veloso, L. Ribeiro, Leandro Morgado, Marlene Ferraz, Sofia Leal, The Big One, Tiago Patrício e Tiago Sousa são pois as oito vozes singulares da novíssima literatura portuguesa.
Há uma cena patética em Troy. Brad Pitt, que fisicamente é um Aquiles perfeito, está à beira de desembarcar na praia com os seus guerreiros e tem uma tirada de motivational speech, daqueles tipo Mel Gibson em Braveheart, que lhe sai tão pífia, mas tão pífia que dá dó. Pitt nem sequer é muito mau actor. Será mesmo um actor esforçado, que tenta contrariar o handicap que é o seu impecável aspecto.
O que é o carisma? Carisma é conseguir encher a tela sem precisar de dizer uma palavra e deixar que a pulsão sexual nasça primeiro no espectador. A intelligentsia lusa que me perdoe por continuar no registo dos blockbusters e este remake nem sequer é grande espingarda, mas Crowe e Bale são actores perfeitos para os diálogos pausados dos westerns.
Confesso que não percebo o mulherio, sempre pronto a suspirar pelos suspeitos do costume (Pitt, Deep, Owen, Pitt, Clooney, Law) e incapaz de produzir uma linha de texto sobre estes dois homens. O mesmo para os gays e os seus ícones - hum, Jonathan Rhys Meyers? No fundo, preocupa-me a possibilidade de, noutra condição que não esta que carrego, ter mau gosto. Como heterossexual gozo de um gosto apurado pela prática e corrigido pelas contingências; aqui pretendo sondar o que é inato.
Um spin-off pachequista em tempo real, usando o MI como uma janela para ler/ver/ouvir atomos e bits, Grrrrrrr...
A força do desporto vê-se na forma como transforma os adeptos, transtorna os profissionais e se transcendem os amadores. Vamos decompor.
Sem tentar grandiloquências que expliquem o hooliganismo, consideremos dois exemplos próximos. Roger Federer será o melhor jogador da história do ténis e todas as estatísticas o provarão, mas eu só me dei conta do génio do suíço quando reparei que ele é capaz de fazer do A causa foi modificada um blogue extremamente aborrecido. Outro bom exemplo é o Tiago Mendes a discorrer sobre râguebi. O Tiago é o mais racional dos bloggers humanos - continuo a defender que o João Miranda é um andróide - mas ao escrever sobre o seu desporto acusa um conflito interno. O lado racional ainda tenta vingar, mas é o coração que leva a melhor. Os textos mais recentes do Tiago aproximam-se do que seria uma crónica do Miguel Sousa Tavares sobre o FCP escrita em silogismos. A lógica até poderia estar escorreita, mas desconfiaríamos sempre das premissas. Em suma, o desporto muda a essência dos seus adeptos.
(Continua)
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Anda por aí uma Hitchensmania aguda. A blogosfera é assim, caprichosa. O Carmelo deve ter um ensaio sobre isto, vão ao Omnisciente. Ora bem, Hitchens não tem equivalente em Portugal, daí o encanto da gente com leitura em estrangeiro pelo jornalista. Numa pincelada, Hitchens é um trotskista que arrepiou caminho, literato e boémio, com gosto pela polémica e que está a ter uma carreira meteórica nos EUA, em parte por ser um tipo com tomates, competente e com sentido de oportunidade (God is not Great é o livro mais oportunista desde que, nos idos de oitenta, uma criatura se lembrou de ir para o Rossio alugar ao minuto uma revista plastificada que tinha as fotos de um conhecido arquitecto da nossa praça em práticas que são também do conhecimento geral). Se me esforço por encontrar o Hitchens luso, fracasso. Ninguém da fornada dos maoístas equivocados está à altura e creio que a explicação é prosaica. Hitchens tem um sentido de humor impecável. Ora, José Manuel Fernandes desconhece tal conceito, Pacheco Pereira despreza-o e Carlos Espada pratica-o involuntariamente. Para fazermos um Hitchens nacional precisamos de pelo menos dois intelectuais. Pacheco Pereira pode dar a gravitas e a capacidade de trabalho, mas e o resto? Onde se arranja o boémio com sentido de humor? Não há. JPC tem sentido de humor mas é um boémio programático, a gente olha para ele e percebe que aquilo é tudo fachada, o moço passa as noites em casa a ler. O RAP ainda é de esquerda, não serve. Creio que só sobra Miguel Esteves Cardoso, um boémio a sério, que bebe e tem sentido de humor. A quimera 2xpê-MEC agrada-me e aproxima-se bastante do Hitchens real, que por vezes tem barba (anda, Pacheco), por vezes não (vai, MEC), como e apanágio dos grandes homens. Ah, na semana passada jantei num restaurante onde o Hitchens se enfrasca, o Cafe Loup. E digam lá: qual a probabilidade de um restaurante frequentado por mim e pelo Hitchens ter o cognome dos nossos bravos do râguebi e de eu ter ido lá a dias do primeiro mundial para o qual a nossa amadora equipa se apurou? Baíxissima, mas probabilidades baixas a posteriori são mato. Não? "Qual a probabilidade de ter a mão de bridge que acabei de ter", pergunta o jogador? Baixíssima, também, só que a pergunta é irrelevante. A gente inocente não percebe isto, vê transcendência em todo o lado e daí a religião. Lá está, God is not great. Not a great lover of statistics, in any case... Regresso ao trabalho (este post tomou-me 3 minutos, mais 1 para confirmar o nome do restaurante, sou um blogger sério).
Adenda: so poderíamos fazer de VPV o Hitchens lusitano depois de peneirar com crivo muito apertado o acervo de textos do nosso rezingão mor. Há em Hitchens uma sede de vida que não se topa em VPV. Não basta ser cáustico, por vezes é preciso arrebatar. Dos últimos textos de VPV supostamente arrebatadores que li, um era sobre um romance de Ja...aaaaaaaaane Austenzzzzzzzzzzzzzzzzz. Hum... Ah, o outro era um elogio a Clara Pinto Correia, que a reabilitava do caso Visão. Como facilmente se percebe, nem ele arrebatou o argumento, nem eu arrebitei. Hitchens is way better. Dito isto, uma quimera 2xpê-MEC seria provavelmente melhor do que o Hitchens original e há alguma nobreza em tentar suplantar o modelo que se copia. Mas este outro fino observador da realidade tem razão quando refere o défice de má-criação da minha quimera (conheces esta maravilha?) Como não se fazem quimeras sem amputar intelectuais, sugiro enxertar-lhe ainda as partes menos nobres do Alberto Pimenta. E assim chegamos ao modelo 2.0, o 3xpê-mec.
Quando uma obra ganha momento, passa a funcionar segundo outras regras, beneficiando de um poder de atracção que exagera a distância em qualidade que a separa da obra imediatamente a seguir. Se há aparentemente tão poucas obras-primas, é menos por uma real escassez do que pelo nosso sequioso mas limitado desejo de inclusão. Assim se explica, em parte, a estabilidade do cânone e, também, que todos os anos se catapulte para a estratosfera um novo talento literário. A contradição é apenas aparente porque estes fenómenos têm escalas temporais próprias. E nada disto é específico do mundo das artes.
A equação de Lotka ajuda-nos a perceber a lógica da excelência. (continua)
Meus amigos, percebe-se que isto vai com embalo para ensaio, mas estou atulhado em trabalho... Fica por concluir esta resposta a Miss Woody, do Regabofe, cuja simpatia com que subrepticiamente sugere bibliografia me sensibilizou - ah, pedi entretanto a um elemento da diáspora dos Barretos que me arranjasse as obras citadas, em versão de poche. Voltarei ao tema, sinto que o mundo precisa de ouvir o que tenho para dizer.
Um spin-off pachequista em tempo real, usando o MI como uma janela para ler/ver/ouvir atomos e bits, Grrrrrrr...
«Mismatches may lead to somebody getting seriously hurt.» «Portugal's amateurs should be afraid, very afraid, when they take the field against New Zealand.» «Rugby has always contained some physical danger; inevitably, the risk factor cannot be entirely eliminated. But right now, it appears to be a game just praying that the nightmare scenario won't occur. But is that good enough? It happened before and the threat today, 12 years later, is far greater because of the physical imbalances.» Irish Independent, via FJV
Jornalismo sensacionalista e sem pesquisa. Ainda o irlandês pateta que escreveu isto andava de cueiros e já Portugal (ver imagem de arquivo) tinha uma tradição centenária no acto de placar um animal preto com uma enorme quantidade de movimento. Sugiro ao treinador da nossa selecção o visionamento de algumas Corridas à Portuguesa. Por muito grandes que sejam, nenhum dos All Blacks pesa mais de 600 kg. E só incorporar o espírito dos forcados, rapazes. Mas sem rabejador. Pela vossa saúde, lembrem-se disto: sem rabejador.
Dedico este post ao Rodrigo Moita de Deus, com afecto e afición.
spin-off pachequista
É verdade que, tal como no sexo com desconhecidos, há o perigo de apanhar doenças ou de ver o meu nome pela lama. Mas o meu nome já conhece intimamente a lama. E as doenças, mais uma ou menos uma não faz diferença. Pedro Mexia
O parágrafo está bem esgalhado, mas a parte sobre as doenças não colhe. Não chega a ser ofensivo para quem apanhou uma doença mesm má, é simplesmente pouco credível e diminui o resto do texto, que é muito bom. Na minha modesta opinião, o Pedro Mexia viu demasiadas sitcoms e por vezes força a punchline. Qualquer dia começa a fazer posts como o Ricardo Araújo Pereira ainda não sabe escrever crónicas. Enfim, não sou crítico nem humorista profisisonal, jogo aqui o meu mundialito de râguebi e até entoei o hino antes de rabiscar este post.
spin-off pachequista
É verdade que, tal como no sexo com desconhecidos, há o perigo de apanhar doenças ou de ver o meu nome pela lama. Mas o meu nome já conhece intimamente a lama. E as doenças, mais uma ou menos uma não faz diferença. Pedro Mexia
O paragrafo esta bem esgalhado, mas a parte sobre as doencas nao colhe. Nao chega a ser ofensivo para quem apanhou uma doenca tramada, e simplesmente pouco credivel e diminui o resto do texto, que e muito bom. Na minha modesta opiniao, o Pedro Mexia viu demasiadas sitcoms e por vezes forca a punchline. Qualquer dia comeca a fazer posts como o Ricardo Araujo Pereira ainda nao sabe escrever cronicas. Enfim, nao sou critico nem humorista profisisonal, isto e o meu mundialito de raguebi.

Juan Buhler
O destino fez com que estivesse nas respectivas cidades quando ocorreram os dois desastres mais mediáticos da última década para a civilização ocidental. Em 1997, quando morreu a ex-princesa Diana, vivia em Paris. A 11 de Setembro de 2001, vivia já em Nova Iorque. Chamem-me republicano primário, mas a morte de Diana, apesar de toda a estupidez do enredo, sempre me comoveu menos que a morte dos milhares de trabalhadores anónimos das torres gémeas. É mesmo por um efeito cumulativo, mas sem relativizar; digamos que a proximidade faz esquecer o choque de culturas. Se tivesse morrido apenas um, seria ela por ele. Morrendo dois ou mais... Isto porque também a 11 de Setembro o enredo foi profundamente estúpido. O paparazzi e terrorista convergem de muito longe para a mesma estupidez. A estupidez é mesmo o great equalizer dos infames.
Sempre pensei que terias um soalho de tabua corrida. What went wrong, Carapinha?
Tentaram um dia explicar-me, como se nenhum de nós fosse parte interessada, que é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. Tal afirmação, pelo modo como envolve os interlocutores e pela simetria com que é formulada, puxa sem esforço por uma bela resposta. Não foi o caso, bloqueei. Só hoje me lembrei de um desenvolvimento giro.
Façamos um exercício à João Miranda. Imaginemos uma sociedade em que a paixão é regida por dois princípios:
1. Todos gostam de duas ou mais pessoas.
2. Não e possível gostar de alguém sabendo que essa pessoa gosta também de outra.
A partida, as relações parecem impossíveis, mas apenas se as pessoas não guardarem segredo das suas outras paixões. Por outras palavras, basta mentir para que o amor floresça. Esta sociedade aproxima-se razoavelmente da nossa, embora existam alguns entre nós - mais nobres - que matam todos os outros amores para que possam estar com uma única pessoa e com a verdade, bem como outros - ainda mais raros e não necessariamente mais nobres - que confessam tudo a todos, numa tentativa de os guardar sem perder a verdade.
Quando alguém me quer convencer que e possível gostar de duas pessoas, o que a lei das probabilidades me diz e que essa pessoa já tomou uma decisão: ela quer ficar com o outro, independentemente de tudo o resto. Sobra a possibilidade formal de ter tambem contado ao outro que e possivel gostar de duas pessoas. Ai estaria a tentar ficar com os dois e com a verdade. Mas esclarecer se foi assim nao passa de uma curiosidade, sem consequências práticas e que apenas traz como possibilidade mais uma desilusão. Antes pensar que a um ofereceu a sinceridade e ao outro o amor que se desejava do que descobrir que propos a ambos um amor que se despreza.
(Apontamento para desevolver na serie Infidelidades)
"My grandfather was a half-Jewboy. I will not have children so that this trash will not be born with even a tiny per cent of Jewboy blood." The Guardian
Probably the most enlightening example I know of doing the right thing for the wrong reasons.
(esta vai sem acentos)
Pedro Marques Lopes e provavelmente o unico dos que escrevem no 31 e na Atlantico a quem eu daria carta branca para expressar a minha opiniao sobre qualquer assunto. Voltamos a estar de acordo sobre esta fantochada que se montou a volta do raguebi.
Ponto previo: ninguem acredita, pois a fragilidade de um fisico tambem se topa na escolha das metaforas, mas joguei raguebi. Enfim, fui a uns treinos no grande relvado da Cidade Universitaria. O meu problema era gostar tanto de placar como de ser placado. No fundo, o que eu curtia era a lama. Adiante.
Usar os raguebistas para criticar os nossos futebolistas e absurdo. E claro que a condicao de underdog gera empatia. E os nossos futebolistas - esse pulhas - habituaram-nos as vitorias.
Usar o amadorismo como exemplo de devocao a patria e criticar os salarios milionarios dos craques da bola e ainda mais absurdo. Cristiano Ronaldo ganha mais numa semana do que todos os jogadores de raguebi nas suas multiplas profissoes durante um ano inteiro -admitindo que nao ha ali um filhinho de papa rico a gerir a empresa da familia. O Ronaldo nao correu durante o merdoso jogo contra a Polonia? Foi preguicoso? Nao se empenhou? Alguem reparou naquele olhar de alucinado do miudo, apos uma jogada, que so encontra paralelo no rosto de Pavarotti - vao ao you tube - logo a seguir a cantar a Nessun Norma? A bola e uma experiencia mistica para o stud de Manchester.
Em suma, parabens aos amadores de raguebi pela presenca no mundial, mas desde quando precisamos dos desportos amadores para dizer mal do Scolari? Haja brio no acto de insultar.
A este puto falta um emprego mas não falta vocação. O Tiago é um João Pereira Coutinho na época em que ainda não se podia dizer "Foda-se, pá, lá está o JPC a fazer de JPC". Esta cristalização autofágica induzida pela fama precoce - por muitos confundida com a aquisição de um estilo - fez de JPC um escritor em fim de carreira antes dos 35 anos e eu acho isto grave. O Tiago não corre semelhante perigo, tem já 22 anos e continua a escrever na merda do blogue. Well done, kid. Mas é agora preciso assegurar que o nosso puto sobreviverá pelo menos mais uma década a mover as pesadas mós da escrita, de preferência fora da casa dos pais, para que a sua voz possa ganhar uma dimensão universal e o homem seja levado a sério. Idealmente, a bolsa de criação do Tiago pagar-lhe-ia uma viagem à volta do mundo, a começar por uma paragem num bordel, para que deixe de escrever coisas absurdas, mas também cândidas e acidental e propositadamente cómicas, como quando associa "uma queca" a "ter uma relação" - lá está, é outro que confunde causalidade com correlação. Uma coisa é certa: eu aposto no puto. Só precisas de levar porrada, meu, mas tens matéria-prima. E a haver justiça divina, deves ter um pirilau pequeno.
Adenda: havia muitos erros de ortografia e outros nesta entrada. As minhas desculpas.
Como em tempos expliquei, sou fã incondicional do Rui Costa. O Rui Costa é o jogador mais inteligente que Portugal produziu desde que vejo bola. Ora, seria assim tão mau ter o Rui Costa a organizar o jogo da nossa selecção quando o Deco está em dia não? O Deco está muitas vezes em dia não. E com o Deco em dia não, Portugal é uma equipa que só tem extremos. Não há guardião, não há defesa enquanto Ricardo Carvalho não regressar, não há meio campo e há 20 anos que não há um ponta de lança. O regresso de Rui Costa à selecção implica o quê? Perder uma substituição, pois Costa só jogaria na segunda parte. Mas o palerma do Scolari é tão mau a fazer alterações na equipa, que ter uma substituição comprometida até é uma vantagem. Rui Costa. Ainda o Rui Costa. Isto não e saudosismo, é bom senso. Percebi-o ontem.
As aparências enganam. Paulo Pinto Mascarenhas não é um acólito de Portas. Mascarenhas tem sede de inovar, quer deixar a sua marca. É só por isso que vem investindo parte da sua energia num projecto único que - sem imodéstia - podemos apelidar de Perpétua Elegia. De um certo ponto de vista, não deixa de ser um conceito brilhante, que brinca com a morte, a vida, o tempo, a ressurreição, Fátima. Enquanto uns se perdem nos meandros da pequena política ao atacar Portas, Mascarenhas, ao defendê-lo, oferece-nos arte.
I don't know if you are aware, mas dois dos teus posts recentes got together and a had a kid. Um bom thriller de acao, written and directed by David Mamet. Enxuto, tenso, com Val Kilmer em grande forma e dialogos no melhor estilo mametspeak, como este fragmento entre two special forces operators in a bar, um admirando o instrumento do outro:
Grace: Nice knife.
Scott: Yeah. Got it off an East German fella.
Grace: He give it to ya for a gift?
Scott: No. As I recall, he was... rather reluctant to part with it.
Spartan. Se puder meter nos last days of Netflix, vale, senao tenho aqui o DVD, in my David Mamet archive. Th
Th. despreza Caetano Veloso, a poesia de Caetano, o "avesso do avesso do avesso", a cena concreta, tropical, aquele pop, o tropismo de futuro. Para ele, Buarque esmaga Caetano. E eu, quando escuto isto, quase concordo.

"Gajas tatuadas, pourquoi pas? It's like a painting where you can also pay attention to the canvas and the frame. Mas estás falando estilo yakuza-death metal or a humming bird on her ankle?" Th.

The unexamined life is not worth living, said Socrates. With all due respect, things can go much worse. Becoming someone's supporting role in life, for instance. I suspect that Nicky Hilton, Michael Wilding, Michael Todd, Eddie Fisher, John Warner and Larry Fortensky couldn't agree more. Be Liz or be Burton, even if you have to drink yourself to death. There is no other way.
O que as últimas décadas deram os antitabagistas foi um argumento inatacável, pois quando se prova que o fumo dos outros prejudica a saúde deixa de ser possível defender a liberdade - versão o teu punho cerrado longe do meu nariz, sff - e barafustar contra a proibição de fumar em espacos públicos fechados sem acusar alguma hipocrisia ou esquizofrenia. O que sobra então como estratégia? Algo absolutamente marginal: criticar o estilo do adversário e fazer projecções catastrofistas. Foi assim que, numa pretensão tão legítima como a pacata lei do ruído, se descobriu uma CRUZAAAAAAAAADA, que segundo os nossos especialistas em liberdade vai beber ao radicalismo dos americanos e - oh, the horror, the horror - é a versão moderna das políticas higienistas do Terceiro Reich. Se as leis antitabagistas passam, não tardará muito até termos, por imposição estatal, Wagner Joly Braga santos como o único compositor a poder ser tocado nos elevadores das repartições públicas. Tudo isto é mais ou menos risível e chão que deu uvas, mas talvez ainda valha a pena discutir uma nuance que tem gerado alguns equívocos.
Confundir correlação com causalidade, no Fogueteiro como em toda a parte, é um vício que só encontra paralelo no baralhar da motivação com o fundamento. Ora, o fundamento para se proibir o fumo nos espaços públicos fechados é protecção da saúde, mas desconfio que para a maioria das pessoas que apoiam esta medida a motivação é outra. Salvo raríssimas excepções - Ah, Meryl... -, o tabaco deixa um cheiro pestilento por todo o lado; nas roupas, nas mãos, nos cabelos, nos corpos suados que regressam da noite. Cheira mal e sabe ainda pior - não temo a comparação a Macário. Mais do que uma preocupação com a sua saúde, muito mais do que uma demonstração de poder sobre as fraquezas dos outros - curiosa miragem de muitos fumadores que nos informa sobre os seus complexos -, muitos querem que não se fume nos espaços públicos fechados porque o fumo... meus amigos, porque o fumo é desagradável. Tenho noção de que esta afirmação é profundamente anti-climática, mas estou a ser rigoroso e insisto: para as células o fumo é cancerígeno, para muitas pessoas, simplesmente desagradável. Perante este facto elementar, numa sociedade decente as pessoas começariam a fumar menos e a pedir licença para acender um cigarro, sem que uma nega implique um esfriar de relações ou reajustes testamentários. Como a sociedade não é decente, precisamos de uma lei. E como as leis não passam por capricho, precisamos de um fundamento, algo que distinga não gostar do fumo alheio de uma embirração com pessoas que usam T-shirts amarelas. O fundamento existe, é a defesa da nossa saúde. Mas a verdade é que ninguém está assim tão preocupado com a saúde. Exceptuando alergias e eventuais efeitos psicossomáticos em hipocondríacos, os perigos do tabaco, embora gravíssimos, demoram demasiados anos a concretizar-se para que sejam uma preocupação constante. Sendo esta defesa de fachada da saúde o dirty little secret de muitos antitabagistas, a acusação de que são uns higienistas não os ofende, embaraça-os. Eu não vos devia estar a contar isto, mas os tabagistas andam a ser enganados há uma série de anos. A única forma de resolver esta situação é aprovar o raio das leis. Pela nossa saúde, claro, sempre pela nossa saúde. E a das criancinhas. Mas também - e sobretudo, porque não é bonito andar a enganar as pessoas - para descarregar a consciência. A nossa e, já agora, a dos outros que tenham uma.
Nunca ganhei um centavo que fosse com a escrita. Os papers que publico não rendem. Antes pelo contrário. O mundo das publicações científicas é algo surreal. Um tipo quase se mata a fazer o trabalho; se resiste, os referees esforçar-se-ão para lhe dar a extrema-unção; falhando estes, o editor da revista lá aceita o artigo, arrastando-se como quem faz um frete e pedindo mil alterações, que ficam a cargo do autor. No final desta caminhada, ainda é o palerma do autor a pagar, para depois ficar sem royalties. É um pouco com ter um royal flush na mão e acabar flushed na cara. E tudo isto em nome de quê? De uma ilusão de imortalidade.
Vem esta conversa a propósito do comentário de uma amiga, profissional da escrita, que me disse não conseguir escrever se não lhe pagam. É uma confissão admirável. Quem não consegue ganhar dinheiro com a escrita é um puro ou então um mercenário incompetente. Nisto não tenho ilusões, sou do segundo tipo. Imaginem - num esforço digno do Lennon - que me pedem um artigo e dizem algo como: "olhe, Vasco, pagamos 0.1 euro por caracter, mas desde já lhe adianto que nos reservamos o direito de substituir palavras no seu manuscrito por sinónimos com menos sílabas" Aceitaria eu um esquema destes? Manchar a minha imaculada prosa com dedos negros de tanto folhear notas? Eh, onde é que assino? O meu sonho não é escrever um livro que mude a vida das pessoas, antes um livro que mude minha conta bancária... E de repente de repente, ocorreu-me que o Woody Allen teria feito um remate semelhante, só que com muito mais graça. Por outro lado, posso ser pobre e medíocre mas não me casei com a maluca da Mia Farrow. Assim vamos sobrevivendo.
Adenda: tenho outro sonho, quase lascivo, que é o de fazer de ghost writer de uma personalidade do jet set. É só enviar uma mensagem para memoria_inventada@hotmail.com. Prometemos sigilo e as outras garantias da praxe. É de aproveitar, até porque decorre uma promoção que beneficia as mulheres, pois vejo isto também como um exercício e gostaria de desenvolver a minha voz feminina, para ficção futura.
Um actor de palco do caraças, que tive a sorte de ver ao vivo como Ricky Roma, a dizer caralhadas no clássico moderno que é Glengarry Glen Ross, fez um filho à Naomi Watts. Espero que tenhas imensos fantasmas interiores, Liev, meu cabrão.
E agora duas deixas de Ricky, porque todos adoramos o som de David Mamet logo pela manhã:
I subscribe to the law of contrary public opinion... If everyone thinks one thing, then I say, bet the other way... (dedicada a José Pacheco Pereira).
All train compartments smell vaguely of shit. It gets so you don't mind it. That's the worst thing that I can confess. You know how long it took me to get there? A long time. When you die you're going to regret the things you don't do. You think you're queer? I'm going to tell you something: we're all queer. You think you're a thief? So what? You get befuddled by a middle-class morality? Get shut of it. Shut it out. You cheat on your wife? You did it, live with it. You fuck little girls, so be it. There's an absolute morality? Maybe. And then what? If you think there is, go ahead, be that thing. Bad people go to hell? I don't think so. If you think that, act that way. A hell exists on earth? Yes. I won't live in it. That's me. (Dedicada ao clero em geral e também a ex-seminaristas).
24 é incrivelmente superior a qualquer filme de acção de Hollywood... Bruno Alves
O Bruno viu o Hill street blues pela TVI, ou seja, é um gaiato, pois a gente crescida descobriu o Hill Street Blues na RTP, quando a TVI era ainda apenas uma miragem que galvanizava cardeais. Mas agora que Paulo Portas defende a diminuição da idade para responsabilidade penal, o Bruno precisa de ter algum cuidado com o que escreve.
Não vejo televisão há 3 anos e defendo a ideia - talvez peregrina - de que a seguir a Hill Street Blues nunca mais se inventou nada realmente importante na ficção televisiva, daí decorrendo que só se justifica guardar em DVD séries de humor (Yes Minister, Curb Your Enthusiasm, The Office - Seinfeld está overrated, se quiserem eu depois explico), o que não deixa de ser um paradoxo curioso, pois as piadas em princípio não se voltam a servir. Ora, parece-me ser a ficção televisiva a não ter sumo para uma segunda vistoria, salvo raras excepções, como o sublime Dekalog.
As séries fidelizam porque exploram a dependência do folhetim, a dose servida aos poucos e interrompida com mestria, que vicia, mas em regra tendem a ser piores do que o cinema, por causa das pressões de tempo, dos orçamentos mais limitados e de um espectro de incorrecção política mais estreito. Correm também o risco de rapidamente se tornarem uma caricatura delas próprias, porque se a receita não funciona a série morre e, funcionando, a tentação será para a repetir. Bem vistas as coisas, uma série mais não é do que um filme com dezenas de sequelas e é sabido que Rocky I está muitos furos acima de Rocky V.
Nunca vi o 24, mas consumi o último Bourne, e aposto que nenhuma série de acção na televisão está ao nível do Bourne Ultimatum, um filme notável em termos absolutos e ainda mais tendo em conta que é o terceiro da série. Aliás, deixem-me ser mais brunista que o Bruno e parir a minha bojarda - é para isto que os blogues servem, no peer reviewing, iuupi: o Bourne Ultimatum é o melhor filme de acção deste século. So far.
Há 5 géneros de posts que detesto, a saber: posts sobre gatos (é de dar uma biqueirada num dos pés da mesa e fugir para outro blogue), longas prosas a explicar por que motivo se é liberal, ou conservador, ou liberal e conservador (geralmente adormeço antes do fim, com a testa a pressionar a barra de espaços), posts em que a mulher é referida como "a minha mulher" (fico sempre com vontade de a convidar para um café), posts em que se relata o resultado de um daqueles jogos que definem a personalidade de uma forma cool ("se eu fosse uma pasta de dentes, que marca seria?" e afins), posts que iniciam uma corrente. Eis um exemplo do último género:
Toda a gente fala dos livros que mudaram as suas vidas. Fazem-se listas dos livros mais influentes. Eu decidi fazer uma lista dos 10 livros que não mudaram a minha vida, consciente do risco que corro, pois é quase impossível um livro não mudar a nossa vida. M.A. Domingos
Francamente, já não há pachorra para esta idolatria do livro. "É quase impossível um livro não mudar a nossa vida?" A sério? Pessoas mudam vidas, mortes mudam vidas, catástrofes naturais mudam vidas, o azar muda vidas, a sorte também, uma doença tramada que se curou, um remorso profundo. Livros? Porra, mas que livros, excluindo os livros das religiões? Alguém acredita que um livro nos mudou a vida? É uma ideia simpática, mas não vale a pena exagerar o valor da literatura. "Ah, lembro-me muito bem, tinha 12 anos... não, 7 anos, 7 anos, li o Os Passos em Volta do Herberto e antes de cumprir 8 anos também eu comecei a escrever poemas nas retretes, o Herberto mudou-me não só a vida como a minha rotina de higiene pessoal". Desmontemos este embuste. Os vícios que acusamos quando falamos dos livros que "mudaram as nossas vidas" são exactamente os mesmos quando se fala dos livros que "não mudaram as nossas vidas". O que a malta gosta é de um pretexto para se armar. Por mim tudo bem, mas deixemos a vidinha em paz.
Adenda: sim, pá, o que só é motivo para detestar esses posts ainda mais. Sou um gajo transparente.
Com o aproximar do regresso definitivo, tenho usado muitas vezes a expressão "for good", mas no outro dia - a escrever - saiu-me "for God". Desde então venho reciclando o erro, por graça. Fica por saber qual a natureza do lapso original. Se foi freudiano, talvez eu queira acreditar em Deus. Se foi por inspiração divina, talvez eu preferisse acreditar em Freud. Na dúvida, continuo a desconfiar da existência do Primeiro e das ideias do segundo.
Quem -como Cheney - está atolado no lodo, ficará até ao fim. E quem - como qualquer opinion maker que se entusiasmou com a guerra no Iraque - vive nessa realidade paralela sem track record que é o colunismo, abandonou o barco pela calada e há muito tempo. Um não pode fugir, os outros fizeram-no sem que se desse por isso. Ficam a faltar todos os outros in between, os que realmente contam para aferir o desastre, isto é, aqueles que têm a possiblidade de deixar a Casa Branca mas não o privilégio de o poder fazer discretamente. A lista é esclarecedora.
Também todas as ratazanas são iguais, mas pode dar-se o caso de, confortavelmente instalados nas suas poltronas, alguns dos roedores mais lestos não reconhecerem como seus pares os que só agora fogem. Como a sua táctica foi assobiar para o lado - ver todos os blogues de direita lusitanos, por exemplo, e também a excepção imposta pela celebridade que é Hitchens -, seria interessante repescar agora alguns dos textos dos nossos falcões circa Março de 2003. Mas é claro que esses textos das nossas luminárias nunca mais ressurgirão, para que a sua visão do mundo e os seus prognósticos continuem a aparecer. Perante tamanha manifestação de instinto de sobrevivência, é errado pensar que só a Cher e as baratas resistiriam a um holocausto nuclear. O futuro da nossa espécie está mais do que assegurado, embora reconheça que ter o Luís Delgado como um dos founding fathers de um repovoamento do planeta seja ainda uma visão catastrofista. Pensando melhor, perhaps we should all just go extinct.
Estou vivo. Houve uns distúrbios climatéricos em St. John - sim, fui na época dos furacões, por acaso também a mais barata - e perdi o acesso online. Conto ir publicando o que por lá continuei a rascunhar. Como não cheguei a perder a esperança de voltar a escrever posts da ilha, fui insistindo na ausência de acentos e cedilhas. Não vejo agora necessidade de corrigir o enviesamento, seria dobrar a trabalheira que tive a contornar as restrições, um pouco como fintar para trás o mesmo defesa que se fintou para a frente. O Frasco é que era bom nisso mas eu não tenho bigode e, de resto, não há tempo, preciso de catapultar os índices de produtividade para os patamares habituais porque o Verão acaba já amanhã, no Labour Day. Eis a América, a estação tem óbito definido à partida, que nem sequer é efeméride astral para desrespeitar, antes uma imposição plena de ironia, porque historicamente este feriado flutuante - primeira Segunda-feira de Setembro- celebra a conquista das 8 horas de descanso, 8 horas de lazer, 8 horas de repouso, mas todos os anos marca o fim das 16 horas diárias de renação que são as férias. Esta gente é muito triste. Num país decente, o Verão morre devagarinho; ou nem isso, entra aos poucos num coma com bom prognóstico. Viva Portugal.