Chegou o Verão e tenho o ar-condicionado avariado. Da rua vem um barulho que não é ensurdecedor mas não me deixa dormir. Se fecho os vidros duplos, sufoco. Se abro os vidros, não durmo. Não cedo à tentação de adormecer sufocado por um acaso: o aquário perdeu água e faz agora um barulhinho digno de acompanhar uma daquelas cascatas chinesas com efeitos ópticos a sugerir correnteza, que me irrita ao ponto de me deixar alerta o suficiente para não sufocar. Só por isso abro os vidros de novo, sem pensar nos mosquitos; há um buraco na rede por onde têm entrado e soam como stukas*, os cabrões. Isto já não se resolve tapando o buraco, é preciso electrificar a rede e atraí-los com um lampião, como se andasse às lulas. Vingança. A única coisa que se salvou esta noite - isto sem contar o que aconteceu entre as 20:00 e as 00:04, pois também tenho vida privada - foi a leitura do texto que copiei para aqui antes que desapareça. Estava a ler o Armando Silva Carvalho no O Livro do Meio, passei para o texto em foco e notei um acréscimo de graça e engenho, mesmo se acompanhado por um ligeiro declínio lexical. Parece que este fulano já escreve na imprensa, mas é preciso que chegue à imprensa de referência (excluindo o semanário Expresso, que assino mas normalmente esqueço-me de ler). Falo-vos do maradona, pois claro. Ora atentem:
Estou [advérbio de modo à escolha] a ficar velho
Não sou grande apreciador de livrarias. Apertam-me o peito e causam-me ansiedade, o que me leva directamente à cerveja, e a cerveja engorda. Se José Sócrates decidisse, de hoje para amanhã, fechar a Buchholz e todas as dependências da FNAC por se desviarem da linha estratégica do governo, ninguém me ouviria protestar (até porque seria uma medida correctíssima).
Se formos a ver bem, com os CTT, a Amazon e o Choque Tecnológico, não há nenhuma necessidade de ainda subsistirem tais estabeleciementos. Para começar (e, já agora, também para acabar), roubam tempo à leitura.
Na maioria dos casos, o pessoal anda ali de um lado para o outro a ver e a folhear nem os próprios sabem bem o quê. É que não há nenhuma necessidade, e muito menos justificação, para as pessoas passearem pelas livrarias: uma pessoa lê que quer um livro e encomenda o livro e o livro chega a casa pelos pateticamente eficientes CTT e ponto final. É esta merda ou não é esta merda? O que é que se vai fazer à livraria propriamente dita, pergunto-me eu sempre que entro na Bertrand, na Buchholz e na Fnac? Nada, pá, nada!
Em todo o caso, eu gostava da Alcalá. Quando li este post não fiquei nada preocupado. Mas hoje, ao passar ali naquela rua (depois de ter ido à FNAC comprar um livro, visto que não tenho aqui 67 livros por ler empilhados), e ao constatar que o Pitta falava da Alcalá, tive um desgosto imenso (enfim, nada de especial, fiquei mais desgostoso por ver o Nani partir).
A verdade é que lhe passei à frente para aí dez mil vezes, mas só a penetrei umas vinte ou trinta vezes. Mas, e talvez por isso, dava para ver que era uma excelente livraria, uma daquelas poucas que se auto-justificam.
Em primeiro lugar, nunca me senti ali bem. A simpatia da senhora mais velha era evidentemente postiça, e as meninas novas que lá se empregaram ao longo dos tempos ocupavam o seu tempo a tentar sintonizar um rádio insintonizável.
Cheguei a pensar que aquilo fazia parte do projecto internacional para apanhar sinais rádio de civilizações extra-terrestres. Naquele silêncio sepulcral, o ruido do espaço interestelar arrepiava a espinha e era uma metáfora perfeita para a pequenez humana no universo infinito, o sentimento que, precisamente, é a razão de ser dos livros e da literatura.
Em segundo lugar, entrar na Alcalá e não comprar nada só queria dizer uma coisa: que se estava a roubar. Até neste aspecto aquele local era superior aos outros: não era preciso estar efectivamente a roubar para este sentimento prevalecer. Bastava, simplesmente, que não se trocasse uma barbaridade de notas de conto por um livro pequenissimo de merda.
Não sei se pela mirabulante facilidade com que se poderia colocar um livro por baixo do casaco num dos seus inifinitos ângulos cegos, ou se por outras circusntancias que tornavam a Alcalá a livraria com mais personalidade de Lisboa, nunca me consegui extrair daquele espaço sem estar possuido por uma enorme vontade de me purificar moralmente (o que de maneira nenhuma acontece, por exemplo, na FNAC, com o seu merdoso conceito de estar ali à nossa disposição de carinha sorridente e incapaz de nos julgar como merecemos).
Chamo a nossa atenção que esta situação moral dominava mesmo muito antes de lá ter efectivamente roubado um livro. Foi o "Criaturas Del Aire", do Fernando Savater, que precisava inexoravelmente de ter nesse preciso instante. Tenho tendência a escapar deste episódio, mas hoje foi impossivel. Tal qual como naquela tarde de verão (ou manhã de inverno, sei lá), logo no primeiro milímetro após o furto, quando fui empalhado num inacreditável sentimento de culpa, que, se fosse hoje, não tenho dúvidas me levaria a votar "no Zé" apenas para expiar a situação.
Mas como tinha 21 anos (ou 31, já não sei bem), a coisa foi-se. E não é que se foi também a puta da livraria? Vai-se tudo, já lá dizia o outro que chorava. Não precisava dela mas faz-me falta.
* Peço imensa desculpa por poluir a blogosfera lusa com iconografia nazi, mas o MI é seguido por jovens com menos de 30 anos que provavelmente não sabem o que é um stuka. Faço esta polémica afirmação depois de ter lido na obra supracitada uma afirmação de Mário Cláudio à revista Ler, que repesco de memória: "se tivesse de empregar uma palavra para definir Portugal nos dias que correm, seria boçalidade". Lutemos, pois. No que me toca, fui ao ponto de encontrar um registo áudio de um stuka em vertiginoso mergulho. Os meus mosquitos soam exactamente assim e quase dá vontade de armar um bateria anti-aérea de perdigotos, mas ter lavado os lençóis ontem desarma-me. Adianto que não posso garantir se este som é fiel ao do stuka, porém, dentro de dias vou assistir a um combate de boxe entre Günter Grass e Norman Mailer (cujas idades somadas ultrapassam Old Parr) e prometo conferir com o primeiro, caso - bem entendido - ele não esteja a sangrar e haja rede.
Boa noite.
O meu colega R. anunciou-me que tinha concluído o Guerra e Paz e que iniciara logo a seguir o Fausto. Senti-me na obrigação de ripostar e comecei há dois dias a leitura dos 4 grandes livros de Darwin, encadernados nesta magnífica edição (que só custa $26). Será uma leitura de capa a contracapa, saltando as introduções. Conheço partes de todos os livros, mas não li nenhum do princípio ao fim. 1500 páginas. Conto ir deixando uns nacos de prosa, sem comentários. Aliás, começo já:
Not a single plant, not even a lichen, grows on this islet [ST. PAUL'S ROCKS]; yet it is inhabited by several insects and spiders. The following list completes, I believe, the terrestrial fauna: a fly (Olfersia) living on the booby, and a tick which must have come here as a parasite on the birds; a small brown moth, belonging to a genus that feeds on feathers; a beetle (Quedius) and a woodlouse from beneath the dung; and lastly, numerous spiders, which I suppose prey on these small attendants and scavengers of the water-fowl. The often repeated description of the stately palm and other noble tropical plants, then birds, and lastly man, taking possession of the coral islets as soon as formed, in the Pacific, is probably not correct; I fear it destroys the poetry of this story, that feather and dirt-feeding and parasitic insects and spiders should be the first inhabitants of newly formed oceanic land.
The Voyage of the Beagle, C.D. (1839)
Queria expressar o meu sincero agradecimento aos escribas do Diário Ateísta, blogue que visito quando estou mal disposto e preciso de praguejar em silêncio contra alguma das idiotices que se perpetuam na forma de religião. Vibro com cada cacetada deles e isso basta-me. Evito sobretudo perder tempo.
Os livros contra a religião estão na moda. Parece que é uma reacção ao ressurgimento do fanatismo religioso, mas não serei eu a conferir as datas. Daniel Dennett , Richard Dawkins, Sam Harris e até o camaleónico Hitchens escreveram recentemente sobre o tema. Não li nem lerei nenhuma dessas obras; é impossível lá encontrar um argumento novo. Chegou-me o Why I am not a Christian do velho Russell, mas na verdade creio que o essencial é começar a pensar e ir até às últimas consequências do nosso raciocínio. Por volta dos 12, 13, 14 anos isso acontece com algumas pessoas e não precisamos de nenhuma sebenta. O tema é até particularmente desinteressante. Voltamos à conversa de sempre: ninguém se define como ateu e aborrece andar à boleia dos outros. Por outras palavras, eu não acredito em elefantes cor-de-rosa e num mundo em que mais ninguém acredita em elefantes cor-de-rosa esta opinião é irrelevante. Porém, se houver uma percentagem apreciável de pessoas que acreditam em elefantes cor-de-rosa - digamos, dentro de um manicómio -, a minha descrença passa a ser relevante. Não tenho de aceitar esta imposição, prefiro sair do manicómio e se fecho a porta devagar é porque os meus pais me ensinaram algumas boas maneiras.
Não me chateiem com a existência de Deus. A teoria da evolução é ofensiva? Fátima aconteceu? Houve milagres? A terra tem 4000, 6000 anos ou lá o que é? Aquela cena vagamente canibalesca da transubstanciação é para levar a sério? Há vida depois da morte? Por favor. Ignoro toda uma produção de teológos que resolve, harmoniza e reinterpreta os textos sagrados à luz dos resultados da ciência e das tendências sociais, permitindo a vivência religiosa urbana, culta e inteligente? Parabéns. Entretanto, deixem-me ouvir Brad Mehldau em paz, deixem-me trabalhar, deixem-me ler o que me apetece ler, ir onde tenho vontade de ir. Orem, rezem um terço - pela minha alma, já agora, é um voto de confiança - e cantem, se possível afinados e em polifonia.
O Diário Ateísta é um dos blogues mais úteis que conheço. Eles perdem o tempo que eu não quero perder. Sempre que me apetece começar a zurzir contra a religião, vou lá lê-los e a coisa passa. Enfim, quase sempre.
Faço notar que Brian Dennehy é também um prestigiado actor de palco, que me proporcionou a melhor experiência teatral até ao momento: A long day's journey into night, de Eugene O'Neill, com um elenco de luxo que incluía ainda Vanessa Redgrave, Philip Seymour Hoffman e Robert Sean Leonard. Quatro horas de pé e nem uma cãibra (a propósito, não sabia que "cãibra" se escrevia assim, o que diz muito da minha ignorância e algo sobre o meu constante apuro físico).
Tobias e Simão estavam sentados a uma mesa. Pelo chão havia folhas de papel amarrotadas. Era Simão quem desenhava e saiu uma figura feminina, algo esquemática, a lembrar os símbolos das casas de banho públicas. Numa das folhas do chão, mal amarrotada, via-se parcialmente um outro desenho de mulher muito mais conseguido e com detalhes, como laçarotes no cabelo e pestanas encaracoladas. Percebia-se pela velocidade com que Simão desenhou que ambos estavam impacientes, como se o exercício durasse há muitas horas. Feito o desenho, trocaram algumas palavras e foi Tobias quem depois pegou numa régua e traçou um risco sobre o boneco de alto a baixo, dividindo-o nas metades esquerda e direita. Ficaram alguns segundos sem dizer nada, mas parecia que reencontravam alguma paz. "Qual queres?" perguntou um. "Tanto faz", respondeu o outro.
Tobias e Simão não moravam no mesmo bairro. O que os aproximou foi a namorada de um, que curiosamente também namorava o outro. Calhou a Tobias – mas podia ter sido Simão – a descoberta, avistando-os de uma paragem de autocarro sem que o notassem e logo se escondendo atrás da fila de espera. Tobias era do tipo racional e em vez de pedir explicações à namorada ou sequer comentar o sucedido, resolveu segui-la nos dias seguintes para que pudesse encontrar Simão, o que viria a acontecer. Nesse dia apresentou-se ao seu homólogo sem o esmurrar. Simão partilhava muitos traços de personalidade com Tobias e não retribuiu o murro que não levou quando se inteirou das razões da presença do outro; tampouco se sentiu atraiçoado pela namorada. Mas ambos sabiam que a situação era insustentável e pedia uma resolução urgente. Os desenhos surgiram ainda naquele dia, depois anularem o recurso à moeda ao ar e de lhes ter parecido impossível determinar quem gostava mais da namorada, mesmo se elaboraram com exemplar honestidade e confiança mútua uma tabela contendo vários itens pontuáveis de 0 a 10. Como nenhum deles estava disposto a ceder por completo ao outro, a ideia de partilha tornou-se inevitável. Restava saber em que termos, visto que o modelo de time-sharing - dias pares para Simão e ímpares para Tobias foi a hipótese discutida – a ambos desgostou, por ser pouco flexível.
A partição anatómica vingou como solução, embora demorassem depois horas a decidir sobre questões de pormenor. Como se loteia uma mulher? Experimentaram vários modelos absurdos, como o corte ao nível da cintura, não sendo de excluir que, unidos pela traição, gozassem de uma cumplicidade que os levou a prolongar o jogo com laivos de sadismo. Talvez por isso se tivesse instalado algum amargo de boca mais para o fim e uma urgência pouco naturais perante um problema tão simples para gente capaz. A divisão segundo o plano da simetria bilateral é a única realmente salomónica, mesmo se as escrituras são omissas sobre a orientação do corte sugerido pelo rei; o risco de Tobias, mais do que um eureka, foi um sinal de que a vingança simbólica de ambos estava cumprida.
Tobias acabou por namorar do lado esquerdo, Simão do direito. Um pegava na namorada por uma das mãos, o outro pela outra. Foram também escrupulosos na forma como a acariciavam, tanto que se fosse possível sobrepor os momentos de convívio privado de cada um com ela, nunca quando sobre o corpo da namorada a mão de Tobias tocaria na mão de Simão e vice-versa. Como se imagina, ela estranhou. Estranhou os beijos, tão excêntricos, os reposicionamentos tão pouco naturais, a falta de um abraço. Eles também perceberam que a solução era tosca e trataram de a afinar, encontrando-se uma segunda vez. Sem tempo ou necessidade de rituais de sublimação, foi Tobias a fazer o desenho, sugerindo duas áreas de excepção e simétricas, uma mancha ao nível dos ombros e outra para a anca, dois enclaves que ajudariam a prolongar a relação com a namorada durante mais algum tempo.
A amizade de Simão e Tobias sobreviveu ao namoro, que para os dois acabou no mesmo dia, por vontade dela, mas a vida faria com que se perdessem de vista. Só muitos anos depois se voltariam a encontrar, na plateia de uma sala de concertos. Simão contemplava uma mulher sentada nas filas dianteiras, à sua direita, e notou que ela lançava olhares de través para alguém sentado ainda mais para a direita. Procurou quem ela tentava e deu com Tobias. Os dois velhos amigos reencontraram-se ao intervalo e abraçaram-se com entusiasmo. Simão brincou então com o jogo de sedução que testemunhara mas Tobias apressou-se a responder, sem perder o sorriso: “Espero que não me estejas a propor a mesma solução que ensaiámos na escola primária. Ficaria a desconfiar que não só não aprendes com os teus erros como tens tido uma vida sexual, enfim, coarctada".
A ficção científica é um género ingrato mas que merece respeito. Triste é a praga de ficções que usam a ciência não como um trampolim criativo mas para efeitos de verosimilhança (o imbecilizante CSI, por exemplo). Ora bem, nas distopias à base de pandemias virais, a história recente do cinema não tem sido famosa; gostaria porém de destacar o recente 28 weeks later, em que a tralha científica é mínima. Apesar de haver excesso de sangue e demasiados mortos-vivos, assustei-me em determinados momentos. Estes tipos sabem o que fazem.
A história avança à custa de erros humanos e a cena capital merece figurar no youtube. É verdade que o filme é um hino ao respeito pela ordem e não dá boa imagem a todos aqueles que se movem por nobres impulsos, o que não deixa de ser refrescante. Há ainda uma miúda com uns olhos lindos e uma penca adorável, a quem vaticino um futuro promissor.
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O Pretérito-mais-que-perfeito é apenas um tempo verbal.
Variação: Entre "gostar" e "amar" faltam verbos transitivos.
Mamas fartas ou juvenis, marmóreas ou acolchoadas, divergentes ou convergentes, em ninho de andorinha ou como nos documentários da National Geographic, de mamilos pequenos, médios, grandes, passivos ou reactivos, com a auréola rosácea, escura ou indistinta, mamas que aprisionam odores quentes junto ao tronco e que os libertam quando se lhes toca, mamas apertadas em corpetes, soutiens high-tech, emolduradas por fundos decotes, revelando cavernosos regos, ou então soltas no trote de alcova, mamas que são seios, seios que são tetas que são mamas, mamas fartas ou juvenis.
Mário gostava tanto de mamas que lhe dava vergonha. Gostar de mamas é de homem, mas temia que o seu caso fosse da ordem do distúrbio. Queria as suas namoradas inteligentes, cultas, dinâmicas, carinhosas, íntegras, simpáticas, mas com boas mamas. Queria-as com sentido de humor, diligentes, sensuais e corajosas, mas com boas mamas. Ele sabia que a única condição necessária, embora não suficiente, era o par de mamas. Envergonhava-se da inclinação, que interpretava como um vestígio do cérebro reptiliano e apesar do anacronismo filogenético - a mama surge com os mamíferos -percebe-se o sentido. No fundo receava tal obsessão, que via como uma ameaça ao seu futuro promissor, ele, jovem quadro-superior de boas famílias e com ambições políticas. Como manter um casamento? Como evitar um escândalo sexual divulgado em todos os jornais? Como contratar uma secretária segundo os parâmetros de competitividade e exigência tão essenciais ao desenvolvimento do país e à convergência europeia? Não que fosse famoso ou sequer casado, projectava-se apenas no futuro. Passava o tempo a imaginar cenários e acusava uma certa megalomania. Pressentia-se ministro.
Perdido em tais pensamentos, Mário andava pelas nas nuvens, na verdade, sobre as nuvens, cadeira 23A do voo Lisboa-Nova Iorque-Los Angeles. Tinha pela frente mais de 12 horas e ia já angustiado. A viagem surgira na pior altura. Julgava-se apaixonado pela primeira vez e custava-lhe deixar Lisboa. A sua namorada despertava-lhe uma imensa ternura, um alvoroço tranquilo que para ele era novidade. Sabia que estava perante a mulher da sua vida, embora se tratasse de uma feminista. Dificilmente a conseguiria levar ao altar, até porque também era ateia. Ou integrá-la na família, porque era de extrema-esquerda. Mas sabia-a uma preciosidade, uma mulher de aguda consciência social e com um sublime par de mamas. Talvez por isso preferiu omitir o destino final da sua viagem. Ia para Las Vegas, a uma despedida de solteiro de um amigo americano que conhecera na adolescência durante um curso de Verão e que recebera já em sua casa.
A mentira por omissão não lhe causava grande transtorno e era até um bom treino para a sua vida profissional; no que ele não conseguia deixar de pensar era na ida ao clube de striptease. Como seria capaz de resistir a tais encantos? E se houvesse por ali fotógrafos de um tablóide português? Uma lap dance é sexo? Sentia-se atraiçoado pelas próprias questões que colocava, derrotado moralmente, um fraco, indigno de representar um eleitorado. Então e o amor? Não o deveria preocupar mais o respeito que a sua namorada merecia? Era também uma questão, talvez não prioritária. Entristecia-o chegar a tal conclusão. Mas talvez a amasse de verdade, um amor só ultrapassado pelo seu patriotismo. Como se esta explicação nem o próprio convencesse, sem mais pachorra para tantas dúvidas, adiou o problema com dois comprimidos para dormir.
Mário entra decidido no clube. Ao jantar notara que metade da rapaziada estava já casada e na outra metade quase todos comprometidos; se se mantivesse dentro do pelotão, não estaria a fazer nada de censurável ou pelo menos haveria uma justificação, digamos, estatística. A sua primeira impressão é de desilusão e alívio. Nada do deboche que imaginara,: salão amplo e moderno, a meia-luz, neónes, alguns espelhos, sofás espaçosos, muitos obesos e carecas isolados, raparigas seminuas ao balcão, dois gorilas de tuxedo em pontos estratégicos. Não havia música, mas logo percebeu que tinham chegado entre dois actos. Instalam-se todos, começa a tocar Madonna e uma rapariga sobe ao palco para iniciar o seu número. Mário resolve testar-se olhando de imediato para ela. Nada. Nenhuma excitação incontrolável. Seios perfeitos, sim, mas o que lhe chama a atenção é o extremo enfado com que ela dança. “Uma última réstia de orgulho”, pensa Mário. Em vez de excitação, ele sente empatia, apetece-lhe salvar aquela rapariga. A noite começara bem, mas as mulheres circulavam agora pelos sofás, metendo conversa. Uma preta de olhos verdes e seios hirtos pergunta-lhe de onde ele é. Mário responde a medo, ela afasta-se sem insistir, talvez à espera que a bebida faça efeito, ignorando que ele se hidrata a gasosa. Alguns dos seus companheiros não perdem tempo e Mário tem finalmente oportunidade de observar os detalhes da lap dance. Um requisitara os serviços de duas mulheres ao mesmo tempo, uma mulata e uma loiraça. Mário via-as de costas, debruçando-se sobre um homem que nem perante os movimentos mais insinuantes delas levanta as palmas das mãos do sofá; parecia estar agrilhoado. Apesar das nádegas proeminentes e das costas nuas, a Mário a cena evocava sobretudo um episódio de necrofagia em que duas criaturas debicam um cadáver. Só mesmo ao seu lado não pôde deixar de reparar que o joelho de uma rapariga friccionava o escroto de um outro companheiro. “Lap dance é sexo”, apressou-se a concluir, no preciso momento em que cruzava as pernas.
A noite foi avançando, as raparigas viam-no defensivo e deixavam-no em paz. Aos poucos vai dando conta que ao excesso de oferta não correspondia um estímulo proporcional, antes pelo contrário. Tanta mama à solta desmotivava-o. Mário volta inclusive a pensar na primeira rapariga, que lhe apetecera salvar e não mais voltou a encontrar. Os seus valores cívicos levavam a melhor sobre o cérebro reptiliano, aquela experiência fortalecia-o. Nem a pressão dos outros homens o levaria a ceder – não que alguém se preocupasse com ele. E quando a preta dos olhos verdes vem de novo em sua direcção, Mário engole a seco mas sabe-se tonificado. A sua preocupação não é resistir-lhe, antes não a magoar. Ele sente o seu instinto politico a emergir, ali, no bas-fonds. Preocupa-se em agradar aos outros, mesmo às franjas excluídas da sociedade. Las Vegas preparara-o para enfrentar de futuro qualquer mercado popular. Mesmo se a preta exalava sexo por todos os poros e se sentara com languidez no braço do sofá, Mário toma a iniciativa e apenas lhe diz, quase segredando: és muito bonita e atraente, mas eu sou… sou gay, percebes? Só estou aqui por causa dos meus amigos". A preta agradece-lhe o elogio, mas sobretudo a explicação, que lhe restaura o brio profissional. Uma desculpa perfeita. Mário olha para os lados, procurando alguém a quem contar o seu triunfo, mas a visão do noivo encontra-se perturbada pelos seios da morena que tem ao colo e todos os outros estão a ser atendidos. Opta então por comemorar sozinho, vai até ao bar e pede um Jack Daniels. Finalmente descontraído, protegido pelo seu estatuto forjado e pela língua materna, ao terceiro Jack Daniels vai comentando em voz alta as raparigas que sobem ao palco - “sublimes”, “um pouco exageradas”, “boas, mas falsas” – e acaba por ser o último a sair do clube. Adormece dentro do táxi e só acorda com o barulho dos freios de aterragem. Chegara a Los Angeles.
(Até Sexta, 11:30 PM, hora local de Nova Iorque)
Fala-se muito no mistério das escolas do Sporting, mas eu também pergunto como se explica que os dois melhores bloggers que escrevem com alguma regularidade sobre futebol sejam do Sporting? Creio que décadas de derrota durante o período formativo de uma pessoa (o que os distingue dos portistas) e a ausência de um passado glorioso (que os distingue dos benfiquistas) puxam pela capacidade analítica, pela argúcia, pela graça, pelo humanismo, pela tolerância e, enfim, pelos valores nobres que podemos peneirar da cultura greco-romana. Trata-se de um simples mecanismo de compensação mas, em certa medida, mais uma vez se prova que o Sporting é o único dos Grandes que melhora os seus adeptos. E esta sim, é a obrigação de uma instituição de interesse público. Nada mais fica. Todas as outras glórias são passageiras. Troféus? Taças? Taça é coisa de bárbaros.
Sandra lê com irreprimível gozo que na Malásia, ao abrigo da Sharia, um homem pode divorciar-se da mulher por SMS, desde que a mensagem seja clara. Comenta a notícia com a mãe, que se indigna com a reacção da filha e aproveita para lhe dar um sermão sobre a violação dos direitos das mulheres nos países de maioria islâmica. A resposta de Sandra sai torta - "Mas têm telemóvel, mãe..." - e ela pela porta fora.
Sandra crescera entre as novas tecnologias e via no SMS uma forma de comunicação com os seus códigos próprios. SMS enviado era SMS recebido e lido naquele preciso momento. Em todo o caso, a responsabilidade passava para o receptor. Nisso se distinguia da carta, do postal, do bilhete escrito e até da mensagem de correio electrónico. Nem extravio, nem tempos de espera. Uma certeza instantânea. O SMS atingia sempre o alvo, como aqueles mísseis com detectores de calor que perseguem os aviões. Por mais voltas que a pessoa desse, a mensagem chegaria ao seu bolso ou à mala e para Sandra era natural partir do princípio de que seria imediatamente lida, mesmo na ausência de resposta. Se esta percepção pode ser geradora de desnecessária ansiedade, para Sandra trazia vantagens óbvias.
Namorava um homem mais velho, divorciado, com muitas responsabilidades profissionais e que gostava de se deitar cedo. Como ela era noctívaga e esperta o suficiente para poder faltar de manhã às aulas sem que os seus liberais pais a maçassem, os seus horários eram pouco compatíveis. Sandra tinha ternura pelo seu homem, apreciava o conforto emocional e material, bem como o que ele lhe ensinava. Via na diferença de idades - e o que são duas décadas numa vida? - um atractivo. Ele amava-a perdidamente, por todas as razões que são do conhecimento geral. Pernoitavam amiúde, embora com irregularidade, e muitas vezes ela enfiava-se na cama sem o acordar.
Sandra apreciava a noite e era uma rapariga cortejada que lidava bem com a dinâmica passional da sua geração. Rara era a semana em que na escuridão de um bar ou numa pista de dança não se sentia tentada a ceder a um flirt. E raro era o mês em que não concretizava esse desejo. Ao contrário de algumas, tinha escrúpulos. Mas como gostava de viver, desenvolvera também um ritual. Nisso se distinguia de muitas outras.
Na cronologia fina do desejo, há um instante que antecede a fronteira em que se deixa de ter mão na realidade, uma última oportunidade em que a decisão ainda é possível. Sandra aprendera a reconhecer esse instante e a certificar-se de que onde quer que estivesse a rede não faltaria. O que fazia então era enviar um SMS ao seu namorado, sempre a mesma mensagem, em que pensara aturadamente: "é melhor estarmos afastados por uns tempos". Parecia-lhe a fórmula ideal, que interrompia o namoro sem fechar portas e que apesar de tudo demonstrava algum respeito pelo companheiro, por vir sem abreviaturas. Enviada a mensagem, entregava-se livremente aos prazeres que a esperavam. Tentava depois regressar a casa do namorado antes que amanhecesse. Abria a porta com cuidado, descalçava-se, entrava no quarto, procurava o telemóvel dele, certificava-se com alívio de que a mensagem não havia sido lida e apagava-a. Deitava-se depois, só que sem o abraço do costume e guardando algum lençol de distância.
Não é de supor que este ritual de Sandra, cujo ridículo que vem por definição era amplamente frisado pela prática, eliminasse nela todo o mal-estar, mas ajudava-a. Isso chegava. Ela comportava-se como um católico pecador a quem basta o conforto do confessionário. E assim se passaram anos. A sorte acabaria por abandoná-la numa noite de insónia do seu namorado. Ao chegar a casa, ele tinha os olhos inchados de tanto chorar, mas parecia já recomposto e envergando a armadura do orgulho. Percebendo tudo de imediato, cabisbaixa, a rapariga pediu que ele a aceitasse de volta. Foi quanto bastou para que a armadura caísse por terra sem que houvesse interrogatório. Só na cama ele lhe perguntou com alguma ansiedade: "estavas a brincar, não estavas?", ao que ela respondeu: "não, querido, mas hoje de manhã já tinha mudado de ideias. Foi uma precipitação minha". Havendo nesta frase duas verdades e uma mentira, não escandaliza concluir que o saldo na consciência de Sandra ainda era positivo. Com saldo positivo e anúncio nessa semana de cobertura de rede total para o país, o futuro dos dois parecia ainda mais promissor.
Bruno, 40, professor primário zeloso e curioso compulsivo, acumulava um conhecimento enciclopédico na vastidão mas de amadora espessura, embora se distinguisse dos diletantes pelo genuíno prazer e nenhuma intenção de impressionar. Frequentava agora um curso de introdução ao Direito. Antes andara pelo Desenho e tinha já em mente a Arquitectura Paisagista, sempre no mesmo instituto, sempre às Quintas. Mas todos os outros dias eram tempo de descobertas, de novas paixões.
Na sala de aula, Bruno partilhava a mesa com uma senhora da sua idade, que fazia esquissos de vestidos no caderno de apontamentos, dando mostras de grande aborrecimento. Ele rotulou-a logo de ociosa da vida, a quem o curso fora sugerido e pago pelo marido, provavelmente um advogado, com a desculpa de que talvez assim ela viesse a perceber a exigência da sua profissão e a tolerar melhor os seus serões no escritório. Não era uma mulher deslumbrante e foi só quando as pernas de ambos se tocaram por acaso que ele começou a sentir-se tentado.
Atraía-o o estatuto de amante. Bruno tinha demasiados interesses para manter uma namorada e trocava de esposa alheia com frequência e escrupulosa regularidade, apenas para não se criar uma cumplicidade excessiva que pudesse colocar em risco as suas rotinas. Uma sequência de três mulheres era-lhe na verdade menos interessante que o Desenho, o Direito e a Arquitectura Paisagista, mas a sua colega de carteira aparecera-lhe quando a troca ia já com dias de atraso e o contacto durante o curso havia tornado tudo muito fácil. Bruno, tão voluntarioso para a vida quase toda, era um conquistador preguiçoso. Ao fim de umas semanas ela deu o primeiro sinal claro, quando fingindo brincar com a aliança fez do anel um minúsculo arco que rodou equilibrado pelo tampo da mesa até embater no mostrador do relógio dele, com um clique e depois um rufo em crescendo de frequência e diminuindo de intensidade. Ele teve então uma hesitação breve, mas decidiu-se por dar ares de não ter reparado em nada. Foi ela que com mão a cair pesada sobre a mesa recuperou o anel. Nessa noite não se despediram como já vinha sendo costume.
O circuito de manutenção sempre o ajudara a pensar. O ritmo da passada certa e a respiração controlada disciplinavam-no, os troncos das árvores próximas desfilavam numa ilusão de velocidade que lhe dava uma sensação de urgência e a mente ia fazendo pausas retemperadoras à custa das visões que o animavam: a loirinha de rabo de lycra espetado e que quase o levava a abrandar o ritmo (à Segunda), o velho à beira do AVC no fato de treino Adidas ruçado (Terça), o gordo que corria sempre em sentido contrário (Quarta), os lobitos muito pouco disciplinados, desequilibrando-se mutuamente na travessia da trave de madeira (Sexta).
Naquela Sexta sentia-se muito agitado. Estava quase ofegante e ainda não conseguira perceber a sua reacção da véspera. Fora um instinto de sobrevivência, mas que devia obedecer a uma lógica por materializar. Tal mistério obrigá-lo-ia a dar uma volta extra ao circuito. E foi só ao crepúsculo que encontrou um princípio de explicação: a chave do enigma estava nas matérias leccionadas durante o curso, em como lhe causara surpresa o artigo 133. Aprendera que os 8 a 16 anos da pena de prisão por homicídio - agravados nos actos mais perversos ou especialmente censuráveis para 12 a 25 anos - são reduzidos nos casos de homicídio privilegiado. Num feito raro de memória conseguiu resgatar uma versão quase fiel do tal artigo e disse-o em voz alta: quem matar outra pessoa dominado por compreensível emoção violenta, compaixão, desespero ou motivo de valor social ou moral, que diminuam sensivelmente a culpa, será punido com pena de prisão de 1 a 5 anos. Para ele, o artigo 133 era revoltante. Imaginou as cenas de cama com as suas inúmeras amantes, subitamente interrompidas por um homem desvairado que os fulmina a tiro de caçadeira. Um cenário de horror. Ele e ela esvaziando-se em sangue e o assassino livre ao fim de 5 anos. De onde vinha este absurdo? Da ideia de paixão, claro. E experimentou então o pequeno triunfo de quem encontra uma ideia que lhe agrada. A paixão, na lei como na mentira, tem o mesmo efeito: tanto protege o criminoso como o mentiroso. Comparada com outras desonestidades, também a mentira passional vem com atenuantes, para a consciência de quem a comete e para a sociedade que julga. Uma pessoa apaixonada pode matar e pode ser desonesta, quase impunemente. O apaixonado é tratado como um louco, pela sociedade e, enfim, pela poesia. O mais curioso é que o epíteto passional, atenuante para o mentiroso, é agravante para a vítima da mentira, como se fosse preciso respeitar uma qualquer lei da conservação da indignação. E esta observação parecia-lhe ainda válida para o crime. O problema, claro, é não haver forma de perguntar ao defunto a sua opinião sobre o assunto. Posto perante estas conclusões e condicionado pela possibilidade de ser vítima de uma guerra que não era a sua, Bruno começou a encarar um desafio que havia até então adiado por manifesta falta de tempo: a construção de uma caravela de fósforos.
A figura de um irmão mais novo é recorrente entre os benjamins que sonham acordados. Não sei se Freud escreveu sobre isto. Na verdade, não sei sequer se a generalização é válida. Nós os benjamins temos dificuldade em falar destas coisas e ainda não constituímos agremiação anónima. O momento também não é oportuno - talvez não saibam mas há uma criança desaparecida em Portugal. A verdade é que pelo olhar um benjamim descobre no outro a mesma chama do desejo sempre por extinguir; eu vi e sei que não era o reflexo dos meus olhos, porque abanei a cabeça e a chama não mexeu .
O filho único tem um desejo parecido, mas é menos intenso, apenas movido pela curiosidade. Quer um irmão mais novo como se deseja um brinquedo e o capricho extingue-se com a idade. Connosco não. Um irmãozinho mais novo, finalmente alguém em quem dar toda a sarrafada que apanhámos dos irmãos mais velhos. Passam décadas, mas o nosso Sebastiãozinho privado nunca vem e o rito de passagem fica eternamente frustrado. Haverá mais benjamins na rua com candeias em noites de nevoeiro? Encomende-se o estudo ao Instituto de Ciências Sociais, que deve haver verba para isso, mas nós, já adultos, sabemos que ele não virá, nunca mais virá. Ou então aparece na forma de meio-irmão, o que não chega a ser meio gozo. Nada disto é bonito, nem se resolve com animais de pelúcia.
The Selling of the American Wedding, por Rebecca Mead, já daqui a pouco, na American Public Library.
Quem é Rebecca Mead? Apesar de não ter a mais pálida ideia, a problemática é pertinente para a nação lusa e eu sinto-me devedor. É verdade que o convite veio de um casal em mancebia que me desperta uma estima particular, mas os portugueses conhecem-me e sabem o que me faz correr. Volto para contar. Ah, quase me esquecia: parece que a seguir a esta enormíssima seca há uma festa.
35
A excelência na especialidade é um livre-trânsito para o disparate sobre a generalidade que resta.
28
Não descures a revisão ortográfica no teu bilhete suicida.
Variação 1: Um perfeccionista agarra-se à vida por um rascunho.
Variação 2: O bilhete suicida é um género literário ingrato.
11 [REVISTO]
A beleza do casal é directamente proporcional ao diferencial estético dos seus elementos.
Este homem - que não é da minha família, nunca vi e duvido seriamente que se chame Rogério Casanova (deve ser anagrama) - escreve de longe os melhores posts da blogosfera que conheço, no conteúdo, na forma, no total desprezo com que de forma salutar despreza a actualidade, na heterodoxia de opiniões que fazem João Miranda parecer um autómato. Não percebo, juro que não percebo, como é que ainda não o foram buscar para fazer crítica literária num pasquim qualquer, ou escrever sobre cavalos, ou futebol, ou uma merdoca, tipo crónica de costumes . Ponham este tipo a escrever na imprensa. Mas será que isto só é óbvio para mim? Leiam os posts do Casanova com mais de 3 parágrafos e imaginem o que o moço não faria com 7. Isto quando andam rotativas em Portugal a multiplicar às dezenas de milhar textos de um Luís Filipe Borges. Médio-Oriente primeiro, ok. Darfur também, ok. Mas e a seguir? É este o problema a resolver. E Casanova a solução.

"The forgotten saga of the romance of Bajirao-Mastani, the Peshwa king of Maharashtra and the exquisitely beautiful courtesan will be made into a film by Sanjay Leela Bhansali. He has finalized supermodel Shivani Kapoor, a cousin of Kareena Kapoor, who is doing the prestigious Lakme ad campaign this year, has been chosen for the historic role of Mastani. The film will reopen a colourful chapter of Maharashtra’s history, which has been hidden in the pages of research books until now. Aishwarya Rai was first chosen for this role. She refused to work with Salman Khan who plays the Peshwa. Priyanka Chopra and Kareena Kapoor were also considered but turned down for various reasons. Now Shivani Kapoor will debut in Bollywood through this major film!"
Os empolgantes bastidores de Bollywood.
Ao ler os comentários sobre a proposta do BE para o divórcio, percebo como o país não está preparado para o meu modelo de família e sociedade. Mas aqui fica.
Plano B ideal (obviamente facultativo e apenas útil quando o casamento não é feliz)
1. Fase um: casamento fecundo (no sentido de gerar prole) cedo (digamos, entre os 25 e os 30), seguido de um divórcio amigável e partilha equipartida das crianças.
1. Fase dois: união de facto ou simples coabitação com o novo parceiro(a) e total inclusão dos filhos de uns e de outros.
Ao contrário do que os especialistas dizem, as crianças não saem traumatizadas, saem enriquecidas com estes esquemas familiares complexos. Tenho sólidos dados empíricos que sustentam esta teoria. De resto, as pessoas que mais admiro neste mundo são os pais divorciados na casa dos trinta com relações civilizadas com o antigo parceiro(a) e uma vida passional rica em perspectiva, sem as pressões social e darwiniana de gerar mais crias, nem a necessidade de uma monogamia eterna forçada ou simplesmente de fachada, em nome da estabiidade familiar. Homens livres. Isto é que é liberalismo. João Miranda? Por favor.

Deepo é uma gaivota de cimento e o animal de estimação de Difool.
* série livros da minha vida, que acaba aqui.
Tenho um razoável vocabulário de vernáculo duro, aprendido com a ciganada dos Olivais e a que geralmente não recorro, com a única e natural excepção definida pelas quatro linhas. Futebol é palavrão. Mas perante uma sensação de injustiça, ainda não totalmente sarada, noto que a caralhice me sai agora com enorme facilidade, mesmo em situações que pedem algum decoro. Sorte minha estar em Nova Iorque e poder criar um sonoro "foda-se" diante da estante dos Cornflakes, quando já não há aqueles que têm pedacinhos de morango.
Esta entrada encaixa bem um corolário esquerdista: os pobres e os desfavorecidos dizem mais palavrões não por lhes faltar educação, mas porque se sentem legitimados pela sua condição de injustiçados.

A Ronda da Noite, Rembrandt
Mudar a vida é complicado, mas há momentos em que mudar os dias não custa nada. Até que ponto desfasar o ritmo circadiano 12 horas durante 6 meses é uma má ideia, quando não se tem qualquer tipo de entrave profissional ou pessoal e até se podera a compra de um daqueles lampiões para corrigir a deficiência de exposição à luz do sol? Either this is the germ of a terrific idea or I'm heading for a complete disaster.
Lá estaremos para votar, em passagem meteórica, da madrugada de Sábado à manhã de Segunda, que incluíra jantar com a mãe e o mano, mariscada com o pai, mergulho na Caparica com P., almoço com PA, brincadeiras com 3xM, almoço com Th., copos com APC, copos com S, café com I, quem sabe se um encontro com o mítico Casanova (mas olha que só já tenho a tranche das 18-19 de Domingo livre), brincadeiras com o F de F, planeamento urbanístico com CV, sessão exclusiva de cravo com SC, corrida na marginal com RM. Mantenho o sigilo sobre a orientação de voto, para não prejudicar o meu candidato.
Somos uma sociedade obcecada com o sexo. O sexo trouxe vantagens evolutivas. Mas também trouxe muita complicação. Confesso que há dias em que invejo os organismos com reprodução assexuada. Uma célula. Duas células. Nenhuma chatice, nenhuma decepção, nenhum jantar anulado, nenhum ciúme, nenhuma raiva. Uma célula. Duas células. Tão simples. A isto se deve chamar nostalgia atávica de grande alcance.

Não havendo orçamento para este adorável brinquedo, há sempre um amigo que se disponibiliza a levar porrada.
O diálogo entrava agora por um caminho conhecido, em que cada um procurava saber o número de parceiros que o outro já tivera. Júlio, 32 anos, julgava que ter estado com 8 mulheres a impressionaria, pois faria dele alguém experiente sem dar a imagem de promiscuidade. Mas ao olhar para a perversa beleza angelical dela, teve um momento de hesitação e disse: "7". Ela mostrou então algum embaraço, que não era propriamente de decepção, mas que também o deixou mais nervoso e naquele exacto momento da sua axila esquerda brotou uma gota de suor que foi escorrendo muito lentamente, como que esticando ainda mais o tempo psicológico criado pela pausa dela. O número lá saiu, bruscamente, só que em rigor era uma estimativa: "60 e tal".
Júlio havia encontrado Patrícia numa festa de amigos comuns e ficara siderado com a beleza da rapariga. Alta e esguia, quase sem peito, era no rosto que se concentrava todo o seu encanto. Um amigo comentou com ele que ela parecia vinda de um quadro de Botticelli, mas Júlio afastou o amigo com delicadeza e nem procurou que ele o ouvisse enquanto avançava para ela e murmurava: "Botticelli, Botticelli, desde quando o O Nascimento de Vénus dá tesão?".
Dois dias depois tomavam café juntos. Júlio era bem-parecido e divertido; ela escolhera-o entre os 4 ou 5 outros homens desemparelhados que na festa também lhe lançaram olhares. A conversa progrediu rapidamente. Ele engenheiro, ela designer, ambos a comprar casa, curiosamente vivendo muito perto um do outro, o que despertou sorrisos cúmplices. Júlio ficara ainda mais fascinado quando a viu de perto. A sua pele era de uma cor indefinível e de uma ausência de textura que tentava o toque. Três sinais na cara, em perfeita constelação, contribuíam para o encanto e quando ele conseguia desviar os olhos dos olhos dela - verdes? Azulados? Cor de mel? Jamais se lembraria - era nos sinais que descansava a vista, pois fixar-se na sua boca seria denunciar-se ainda mais. Como se ela não soubesse. Patrícia tinha uma boca conspicuamente imoral, com o lábio inferior humedecido e polpudo, que incitava à mordida, o lábio superior como arcada acolhedora e uma língua que se adivinhava capaz de todos os contorcionismos.
A resposta de Patrícia fez com que Mário soltasse um esgar. "60 e tal?" Ela confirmou. "Mas falamos de pessoas com quem tiveste relações sexuais?" Nova pausa. Ela pensara que se tratava de qualquer pessoa que tivesse beijado na boca. Júlio sentiu então algum alívio, mas nem por isso deixou de fazer o seu cálculo segundo tal critério (23). Patrícia tinha 28 anos e fora beijada na boca por mais de 60 miúdos, rapazes e homens. Naquela boca que tanto o fascinava. Um fascínio plural, ficava provado. Acusando alguma tristeza, não deixou de reformular a pergunta. "Bem, respondeu ela, nesse caso não foi ninguém". Disse-o com segurança, mas levantou-se de seguida para ir à casa de banho. Ele ainda procurou interpretar as palavras dela de modo a concluir que não estava na presença de uma virgem, mas em vão.
Jamais lhe passaria pela cabeça que uma mulher tão atraente, independente e numa grande cidade pudesse ser ainda virgem, embora tivesse logo acertado na explicação: a religião. E era seguramente uma vingança de Deus por ele se ter lentamente transformado num ateu. "Ou então foi o Botticelli, rancoroso", lembrou-se, esboçando um ligeiro sorriso no exacto momento em que ela regressava ao seu convívio.
Na verdade, a revelação não acelerou a corte de Júlio nem o desencorajou. Dias depois beijavam-se pela primeira vez; Mário sentiu um êxtase profundo. E passados mais uns dias foi convidado a subir. Aos poucos ele foi percebendo que estar com uma virgem melhorava a sua técnica sexual, era um estímulo permanente à imaginação. Júlio habituou-se a dispensar a penetração e viciou-se na sua virgem. Era aquela boca que o fascinava e um simples beijo valia por qualquer das tórridas farras sexuais com as parceiras anteriores. A sua nova sexualidade fascinava-o, dava-lhe uma excentricidade que julgara para sempre perdida desde que se formara em engenharia. Só que Patrícia começava a ficar irritada...
Ela habituara-se a levar os seus parceiros quase ao desespero por recusar entregar-se completamente. Um beijo dela e as suas pernas cruzadas era um autêntico martírio, que acabava por desmoralizar os amantes e que lhe dava a ela um gozo perverso e uma sensação de poder. O imperturbável fascínio de Júlio após meses de cama acabara por frustrá-la. E não havendo o gozo do poder, Patrícia viu-se tomada por um desejo incontrolável de ser possuída por Mário. Porém, ele recusava-se a penetrá-la, queria preservar a sua virgem a todo o custo. E ela, consumida em excitação naqueles momentos, sentia que em breve enlouqueceria. Decidida a agir, uma noite, no pico do entusiasmo, põe Júlio fora de casa às 3 da manhã e bate à porta de um vizinho que vivia sozinho e a devorava com os olhos todas as manhãs.
Aquele gesto precipitado passou a ser a sua rotina. Começava as noites com Júlio, pois mais ninguém a levaria ao grau de excitação que precisava para fornicar com o vizinho; à perda da virgindade não correspondeu a perda de inibição. Júlio contentava-se com aquela boca e suportava a humilhação de ser posto fora de casa a meio da noite. Afinal, morava perto. É claro que Patrícia não lhe contava o que fazia depois. Para Júlio, ela continuava a ser a mulher imaculada da boca promíscua.
Muitos anos depois, quando a vida os havia separado e mantinham algum contacto intermitente e amistoso, ele veio a saber do antigo estratagema dela. Sem acusar grande indignação, a sua única preocupação foi saber se ela também beijava o vizinho ou se apenas fodiam. Então Patrícia mentiu, por misericórdia e também em sinal de gratidão.
Houve um momento em que Sónia não pôde mais conter uma risada de nervosismo e lhe perguntou com malícia se ele estaria tão exaltado caso o objecto fosse de dimensões mais modestas. Foi um desabafo durante uma discussão de horas por todas as divisões da casa, com Artur tão fora de si que mais parecia ter surpreendido a mulher no quarto em intimidades com dois vizinhos. Afinal limitara-se a abrir uma das gavetas da mesa-de-cabeceira. Se para sónia era estranho que Artur tivesse ciúmes de um objecto, a acusação de traição parecia-lhe inconcebível. Mas Artur levou a situação a peito e deu mostras de um tresloucado tropismo para o dildo; ponteava o seu discurso exaltado com uns tabefes na glande do pénis de borracha, estrangulava-o a duas mãos, projectava-o violentamente contra a parede, tentando depois recuperá-lo sem o deixar cair no chão, obedecendo a um deslocado reflexo lúdico. A dada altura, caiu pesado no colchão da cama, como um judoca; imobilizado naquela posição, em que um testículo parecia querer esgueirar-se do lombo de Artur e a cabeça do pénis se perdia no excesso de braços com que ele a abraçava, fez uma série de perguntas num crescendo de ansiedade, mas aquele era um número de ventríloquo em que o boneco se recusava a cooperar. Sónia assistia atónita ao desenrolar da cena.
Artur não era uma criatura normal, como sucede com tantos ex-seminaristas. Para mais, entrara por convicção e não para se remediar, embora tivesse saído por causa de Sónia, que dele engravidara. Como se penitenciava pelo pecado cometido e a vocação perdida, havia desde o casamento um notório défice de fogosidade da parte dele. Ela fizera-se uma mulher despachada e lia as revistas femininas. Amava Artur mas o que ele lhe dava pontualmente nas manhãs de Sábado não chegava. O dildo foi uma revelação, que chegou pelo correio. Vinha com livrinho de instruções e as figuras eram muito didácticas, pelo que Sónia se iniciou em segredo. Com o correr dos anos foi-se tornando menos cuidadosa e passou a não fechar a gaveta da mesa-de-cabeceira à chave. Naquele dia Artur procurava aspirina para uma dor de cabeça.
Discussão propriamente não houve. Artur estava tão obcecado com o dildo que já mal argumentava. Primeiro tentou ver-se livre do seu inimigo pela retrete, mas de cada vez que descarregava o autoclismo, o pénis reemergia lentamente, ora pelos testículos, a lembrar o focinho de um enorme rato de água, ora pela cabeça, como uma moreia a sair do buraco. Seguiu-se uma sessão na cozinha, transformada em sala de tortura, mas o objecto revelou uma resiliência notável e só ao ver o bico de gás aceso Sónia tentou agir. Cada um puxava então o pénis para seu lado, que ficou ligeiramente mais delgado e comprido, com uns quase imperceptíveis veios esbranquiçados, mas logo retomando a cor e forma originais quando Sónia cedeu. Legitimado pela força, Artur encheu-se de coragem e quis atirar o maldito objecto do nono andar para a rua, não reparando que a janela estava fechada. O pénis fez ricochete, rachando o vidro, e aterrou no axadrezado preto e branco que os ladrilhos da cozinha desenhavam. Ele ainda se aproximou embalado pela raiva, mas depois estancou: o bicho movia-se e emitia um zumbido. Perante tão inesperada manifestação de animismo, Artur cedeu aos nervos, as suas pernas fraquejaram e também ele se deixou ficar no chão de ladrilhos. Sónia não hesitou em socorrer Artur; foi com habilidade que esticou a perna e usando os dedos do pé desligou o dildo, sem nunca folgar o abraço com que consolava o seu homem.
Nunca chegaram a aprofundar as causas últimas do problema, mas Sónia estava decidida a resolver a situação. A solução viria também pelo correio e as instruções eram explícitas, excepto para Artur. Ele não percebia nem a lógica de funcionamento da boneca, nem a lógica da sua mulher. Ela explicou-lhe então que se ele também tivesse o seu brinquedo sexual, talvez viesse a tolerar o brinquedo dela. Foi tal o alívio de Sónia ao reparar na reacção de Artur que não se apercebeu ser a natureza do seu súbito entusiasmo profundamente infantil. Sabendo-o pudico, Sónia saíu do quarto, para que ele explorasse o brinquedo sem inibições.
A vida dos dois restaurou-se. Continuaram a fazer amor apenas ao Sábado, sem que ela tivesse notado qualquer acrescento de fantasia ou motivação da parte de Artur, mas ele não mais a incomodou por causa do pénis de borracha, que ela continuou a usar. Também Sónia não lhe fazia perguntas sobre a boneca, mas sabia que ele mexia nela. Nunca veio foi a perceber a razão da paz de Artur. Numa rotina de vago proxenetismo, quando brincava com a boneca Artur usava exclusivamente o brinquedo de Sónia. Aquele exercício dava-lhe a estranha sensação de ser ele o único homem lá em casa que era verdadeiramente fiel e digno da sua mulher.
Na Gare de L´Est regressei ao útero
Não o das arcadas, dos espaços resguardados
E princípio de um fim ou não, carris são carris
Regressei ao útero, pontualmente
O que se espera da ferrovia gaulesa
Mas não de todas as mães.
Parabéns, mãe.

chamem-me pudico, chamem Freud, mas esta imagem destina-se exclusivamente a separar o post sobre os anos da minha mãe do texto anterior.
O caso dos homossexuais discute-se com números e não deve fazer parte dos combates entre conservadores e gente pró-fractura. Deixem os números falar. Se a percentagem de homossexuais infectados com HIV é mais elevada que a percentagem de homossexuais na população e se há uma relação causal entre a prática homossexual e a transmissão do HIV, há motivos para os excluir. O facto de o sexo anal não ser exclusivo da prática homossexual não é um argumento fundamental. O importante é olhar para a percentagem de infectados (para a sua evolução e para cada país). Ponto final.
Independentemente dos números, percebo que muitos homossexuais se sintam indignados sobretudo se têm uma prática sexual mais cuidadosa que muitos heterossexuais, mas também haverá toxicodependentes e prostitutas com comportamentos exemplares quanto a evitar o contágio. Infelizmente, não podemos fazer com que o sistema dependa do juízo que cada um faz dos seus actos. As pessoas não são assim tão conscienciosas. Nessa medida, o sistema é grosseiro, nivela por baixo, mas a injustiça que se comete é plenamente justificada pelo que se ganha.
A verdade é que, em muitos casos, dar sangue ou não é uma questão que o indivíduo deve resolver com a sua consciência. Para muitos parâmetros, não há forma de controlar a veracidade com que se responde aos inquéritos. No meu caso, não sou toxicodependente, não frequento prostitutas e creio que sou razoavelmente cuidadoso, mas não dou sangue. Não dou sangue porque trabalho com retrovírus (diferentes do HIV e de quase tudo o que pode andar pelo sangue) e há o risco de me infectar. O risco é ínfimo, mas sei que as baterias de testes não detectariam este retrovírus, pelo que o mais sensato é não dar sangue.
Dar sangue não é um direito. É um dever, mas também um privilégio. Nem todos temos condições de o fazer. Uns porque, independentemente das suas práticas, pertencem a determinados grupos com maior incidência da doença, outros porque não podem exigir do Estado que crie um teste exclusivo para que tenham a satisfação pessoal de dar sangue com a consciência tranquila.
Quanto a saber se os homossexuais portugueses constituem um grupo de risco, o melhor é seguirem as informações que surgem aqui.
Adenda: levei alguma cacetada à custa desta entrada.
Para o Bruno,
Pelo menos excluis a hipótese de eu ter tentado mas não ter percebido os textos da fernanda, o que desde já te agradeço. O que se passou, na verdade, foi que li primeiro e segundo textos dela depois de ter escrito o primeiro e o segundo textos meus. Fiz o link porque os textos dela têm informação relevante e os meus centravam-se apenas num aspecto da discussão. Não sei a que "facilidades de partida" te referes e entretanto também fiquei a conhecer os termos exactos do inquérito de rastreio, mas é sempre bom que alguém os relembre.
Onde parece que discordamos é neste ponto: para ti a inclusão dos homossexuais como possíveis dadores deve ser feita a priori pois trata-se de mais um estereótipo que precisa de cair. Para mim, sendo esta uma questão de saúde pública, não estando em causa um direito fundamental e tendo em conta o historial do que foi a propagação do HIV, os homossexuais não devem ser excluídos se os dados epidemiológicos indicarem que actualmente o HIV não está sobre-representado nesse grupo relativamente aos heterossexuais. Parece que em Portugal é isso que se verifica e assim se pronunciaram os médicos com responsabilidades na nessa área. Isso para mim basta. Mas se continuássemos com uma percentagem muito mais elevada entre os homossexuais, como creio que sucedeu durante os anos oitenta, não me chocaria nada que fossem excluídos. Não te preocupas com os direitos dos toxicodependentes? Não haverá também o estereótipo do agarradinho? Por que motivo em vez da exclusão sem recurso não propões uma pergunta como: já partilhou seringas? Não é este o comportamento de risco? O exemplo é caricato a vários níveis, mas a exclusão de grupos (havendo fundamento estatístico) na verdade não me choca. Eu, por exemplo, gostaria que me excluíssem por causa da minha actividade profissional, muito embora ache que respeito as normas de segurança (não há dados estatísticos seguramente para este grupo). E é neste juízo de carácter extremamente subjectivo que gostaria que, sob uma pretensa garantia dos direitos e liberdades individuais, o inquérito de rastreio não se transformasse numa peneira de malha pouco apertada. Ironizas sobre a incapacidade que cada um tem de avaliar se teve um comportamento de risco ou não, mas não me parece que a apreciação seja individual seja assim tão objectiva.
Para o Yesterday man,
A pulguinha apenas assinala textos sobre biologia, mas não me assumo como autoridade, sobretudo no tema presente. Aliás, muito menos subliminar parece ser a sua autoridade antropo-sociológica, a julgar pela prosa. Sobre os problemas associados à definição de homossexualidade, já houve uma aturada polémica noutro local e vejo que repete algumas das ideias então discutidas. Duvido que lhe agrade o que por lá se escreveu, mas aqui fica. Há um tom de irónica vitimização no seu texto a que não me sinto na obrigação de responder e tudo o que diz sobre grupos de risco/comportamentos de risco, etc já foi comentado nos posts de outros que refere. Noto também que faz parte da retórica anti-homofóbica inverter as posições (colocar os heterossexuais no lugar dos homossexuais, como grupo observado em vez de grupo que observa) mas neste caso concreto não faz muito sentido. O HIV expandiu-se primeiro entre as comunidades homossexuais. É um dado histórico e não pretendo fazer nenhuma leitura apocalíptica ou moralista do que aconteceu.
Um vendedor de ânforas seduz um homem a comprar-lhe uma. O homem chega a casa, enche a ânfora com vinho e quando volta para se servir há uma mancha de vinho no chão. A ânfora tinha uma pequena racha na base, por onde o vinho se escoou. O homem decide ir pedir explicações ao vendedor. Após uma breve discussão, o vendedor confessa que lhe vendera a sua pior ânfora mas que ia agora dar-lhe a melhor que tinha. O homem pergunta ao vendedor se ele tem a certeza de que aquela nova ânfora não está rachada. O vendedor faz uma pausa e diz: "a única coisa que te posso garantir é que se tiver um defeito, podes voltar e terás direito a outra de graça". O homem leva a ânfora para casa e desta vez enche-a primeiro com água.

As armações do "veado irlandês" chegavam a ter uma envergadura de 3.65 m. O último animal desta espécie terá morrido há cerca de 11 000 anos. A ortogénese é uma teoria evolutiva ultrapassada, que explicava a evolução dos organismos segundo uma direcção fixa, predeterminada e não assente nos princípios da variação e selecção natural. A extinção do M. giganteus era apresentada como um exemplo de extinção por evolução ortogénica: as armações teriam crescido tanto que o animal não mais as poderia suportar. Há hoje outras explicações para a extinção do M. giganteus, perfeitamente compatíveis com a teoria de Darwin e noções de alometria, mas em todo o caso não deixam de ser uns belos adornos.

Estou muito perto de concordar com este post do João Miranda sobre uma discussão que em tempos quase pôs em risco a minha integridade física (como sabem, convivo com esquerdistas e com homossexuais). Tudo o que JM escreve está correcto, nomeadamente:
...dar sangue não é um direito. E depois, um sistema de recolha de sangue não se pode basear apenas em análises pós-recolha. Por um lado porque as análises são falíveis e por outro porque as análises não detectam novas doenças ou novas estirpes das doenças antigas. É por isso que um sistema de recolha de sangue tem que ter uma barreira secundária de segurança baseada em heurísticas que excluam os dadores de maior risco.
Certíssimo. Mas vamos com calma. Saber se ser homossexual (ou ter um comportamento homossexual) deve ser motivo suficiente para excluir um dador é outra questão, que se resolve olhando para os dados epidemiológicos. Quando surgiu a SIDA, os homossexuais eram um grupo de risco que registava uma incidência da doença muito mais elevada do que entre os heterossexuais. Creio que entretanto essa diferença se atenuou. Se os valores actuais não distinguem os dois grupos (para a SIDA e outras doenças transmissíveis pelo sangue), não há qualquer motivo para excluir um homossexual (ou alguém que teve práticas homossexuais) de dar sangue, desde que respeite outros parâmetros normalmente também usados como critério de exclusão, independentemente da orientação ou prática sexual (um comportamento promíscuo, por exemplo).
Aqui há alguns números (mas faltam outros parâmetros). Em todo o caso, parece-me que caminhamos para uma situação em que a incúria dos heterossexuais tornará inadiável, mais dia menos dia, a exclusão do comportamento homossexual como factor de risco. Não deixa de ser curiosa a forma como aqui se chegará. E pergunto: será que a ILGA vai atribuir um prémio colectivo aos camionistas que não gostam da borrachinha, às prostitutas que o consentem, aos maridos que fornicam em prostíbulos e onde calha e às suas submissas e contamináveis mulheres, como mártires voluntários ou não para a igualdade no direito de dar sangue?
Adenda 1: o último parágrado é uma graçola, Tiago. Aquilo que referes como estereótipos antropológicos deve ser a imagem do marido infiel. Sim, as mulheres também podem ser infiéis, mas não era essa a mensagem do último parágrafo. E o teu ponto 2 é exactamente o que eu digo numa palavra apenas: "incúria". A questão que ficou por formular ao João Miranda é: se os dados epidemiológicos, levando em consideração a percentagem estimada de homossexuais na população e, digamos, os casos de infecção nos últimos dez anos, indicarem que a percentagem de infectados por HIV é aproximadamente a mesma entre homossexuais e heterossexuais, que motivos tem ele para excluir uns e não outros? Eu por acaso vejo um, mas também deve ser o que entendes por estereótipo antropológico.
Adenda 2: Para uma porradona bem informada e a sério no JM, vão aqui.
Adenda 3: estes valores (EUA) não batem certo com os dados obtidos para Portugal que linkei. Haverá inúmeras explicações, mas mantenho a orientação do post: se entre os homossexuais há mais casos de SIDA (com uma diferença estatisticamente significativa) do que entre os heterossexuais, há razões para os excluir (como aos toxicodependentes, por exemplo) de dar sangue.

Ajitto, 1981 © Robert Mapplethorpe
Dedicado a João Sedas Nunes, o primeiro heterossexual da blogosfera de referência a mostrar um nu frontal masculino. Este post marca o começo de um longo período em que só apresentarei nus masculinos e que terminará num momento oportuno. Apresento desde já as minhas desculpas a todas as famílias que se reúnem ao serão com os seus filhos menores para em conjunto ler este blogue. Aos agregados familiares mais conservadores recomendo que nos tempos mais próximos vejam antes uma telenovela ou aproveitem o ameno clima de Lisboa para uma caminhada nocturna seguida de um gelado, o que fará a alegria da pequenada.
Que sei eu, mas também para satisfazer em 2 horas o desejo de uma história de amor tortuosa, desequilbrada, arrebatadora, sempre com a paixão a vir à tona e a afundar-se, que nos consome, magnífica na tela e sempre tentadora, mas que na vida real duraria 2 meses, 2 anos, 2 décadas, uma vida inteira desperdiçada. It works, mas convém escolher o grande cinema e não os blockbusters com final feliz.
*Algum teatro, a grande literatura e certas produções das marionetas de Praga.
Na orla da floresta, onde antes havia uma nogueira desirmanada, um homem e um rapaz de trajes acastanhados e modestos estão diante de um cepo enraizado, com uma superfície lisa de quase um metro de diâmetro e a meio metro de altura, escurecida pelo sol e a chuva, mas ainda com os anéis concêntricos bem definidos, aqui e ali feridos por lenhos pouco profundos. O carrasco segura um imponente machado numa mão e uma melancia na outra, amparada pela sua barriga. Atrás deles há uma pilha de melancias e a paisagem é verdejante até se perder de vista.
O homem equilibra a melancia pelo equador no cepo e ergue o machado com as duas mãos. A lâmina só não brilha porque o dia está enublado, mas percebe-se que brilharia à mais pequena aberta. O carrasco diz algo ao rapaz, com o machado sempre no ar. Desfere então um primeiro golpe, depois um segundo e um terceiro, sem dar mostras de querer parar, aumentando inclusive a cadência. Ao fim de um minuto, sobre o cepo está uma melancia branca, sem uma única sobra de casca verde e sem que se note - pelo menos a esta distância - o vermelho vivo do interior. Em redor do cepo e sobre a sua superfície há inúmeras lascas de casca, finas como se alguém tivesse cortado uma pêra abacate com uma navalha. E nem a base da melancia escapou da lâmina, embora esteja ainda no mesmo lugar, não se percebendo daqui se o homem desferiu um golpe horizontal pela base tão rápido que deixou a melancia imóvel ou se a cada golpe a foi imperceptivelmente rodando sobre o seu ponto de apoio.
(Continua de noite: não percam o empolgante final que de momento não me ocorre; se quiserem enviar sugestões, tentarei fazer múltiplas conclusões, que serão votadas, habilitando-se o vencedor a um prémio a divulgar em ocasião oportuna)
Não é segredo que a vida é uma sucessão de compromissos e que aqueles que não vergam quebram novos. O problema é quando os compromissos surgem todos ao mesmo tempo. Uma overdose de compromissos deixa um homem desnorteado. Tão desnorteado que creio estar a usar a palavra errada. Refiro-me a fazer concessões. Isso, concessões.
Mexia lançou a ideia de comparar listas de celebridades internacionais. Casanova mordeu o isco. Eu também. Vamos a isto. 5 anos em Paris, ainda um centro de cultura, apesar de tudo. 6 anos em Nova Iorque, o centro da cultura, apesar de tudo. Ah, vou esmagá-los. Hum, deixa ver:
Kissin, pianista, Paris (pedi-lhe um autógrafo para um amigo)
Ethan Coen, realizador e escritor, Nova Iorque (pedi-lhe um autógrafo para um amigo)
Anthony Swofford, escritor, Argentina (bebemos uns copos e galei-lhe a mulher)
Acho que a lista das celebridades internacionais conhecidas no estrangeiro está completa. Em Portugal conheci apenas uma celebridade internacional, que provavelmente ninguém conhece mas o problema é vosso:
John Maynard Smith, cientista entretando falecido, Hotel Curia Palace (jantei com ele)
4 nomes apenas e nenhuma estrela de cinema carnuda. Confirma-se que tenho andado perdido nos últimos 15 anos.
Ah, o anão do Gael Garcia Bernal esteve quase para vir jantar a minha casa, não sei se isto conta...
Adenda: mas parece que esqueceste o Steinberg [fez-me uma pergunta num seminário, a que não respondi bem, o que não é propriamente uma interacção informal], esse sim uma celebridade ignota (a Le Douarin [nunca fomos apresentados; de resto, ela palestrava numa língua híbrida gramaticamente parecida ao inglês e foneticamente próxima do francês, o que me causava alguns problemas pois nos primeiros tempos não sabia da primeira o suficiente e mais tarde a segunda começou a ficar esquecida], o Wolpert [este sim, conheci; almoçámos na marginal e discutimos Popper. Wolpert detesta Popper e eu defendi-o, mas lembro-me que o pargo não levantou polémica] e ainda aquele judeu do phage group cujo nome não me ocorre [este comentário de raiz fortemente anti-semita justifica que tivesse protegido a identidade do seu autor, mas também não estou a ver a quem ele se refere... Talvez Seymour Benzer, mas custa-me a acreditar que o tivesse conhecido e agora não me lembre. Enfim, judeus nas ciências da vida é o que mais há], não são verdadeiramente a primeira ou a segunda...). Sobram-me dúvidas acerca do Ohno [um venerável cientista de uma linha de Samurais; provavelmente abri-lhe a porta para que passasse; a facilitar no critério desta forma, qualquer dia convenço-me que privei na intimidade com Sarah Bernhardt], mas o Sampaio tem de ser considerado internacional, (infelizmente) qualquer que seja o teu critério... [é uma hipótese formal, dada a educação britânica do ex-presidente, mas creio que a minha interacção com Jorge Sampaio não foi além de lhe ter servido umas línguas de gato (factual) ]
De um leitor devidamente identificado, comentários meus a negrito.
Regresso a Lisboa em 2008. Lisboa sempre foi a minha cidade, apesar de andar por fora há 12 anos. Por que razão não participo agora nas animadas discussões sobre as eleições para a câmara? Porque apoiei Carrilho da última vez e creio que não estão reunidas condições para que me pronuncie outra vez sobre o mesmo assunto com um mínimo de credibilidade. Como não pretendo envergonhar o meu candidato, o meu voto será secreto.
Nestes anos de blogosfera, se me esforço por não recordar uma curiosa altercação com uma prostituta bloguista, a interacção mais estranha que tive e tenho é com uma pessoa que me escreve periodicamente a propósito de textos que lê no MI e que julga que lhe são dirigidos.
Por vezes escrevo textos a pensar em alguém em concreto e o modo como essa pessoa por identificar está associada ao texto pode ir da tentativa de sedução à sublimação de uma frustração, passando por um discreto agradecimento.
Quanto à pessoa que insiste em ler no MI algo que não existe, só espero que deixe de o fazer e que se trate, mas há alturas em que quase a percebo e quase cedo ao mesmo vício de ler por aí um texto como se me fosse dedicado. A grande literatura pode criar no leitor a ilusão ou o desejo de que o texto foi escrito só para ele. Mas no caso da minha leitora e dos meus deslizes não se trata de literatura, apenas de um grande equívoco.
4 homens jogam à roleta russa na mesa de um pátio. O jogo dura há 5 dias, com pequenas pausas para a higiene pessoal e sestas curtas, sem uma única morte. A notícia começa a espalhar-se. Há um ajuntamento. Surge a suspeita de que não há nenhuma bala no canhão e pedidos para que abram a arma, mas os jogadores recusam e desafiam quem deles duvida a sentar-se à mesa para jogar também. Ninguém o faz. Passam-se mais dois dias, a assistência não arreda pé. Mais três dias. Dois dias. Um dia. Alguém da assistência decide juntar-se. O jogo prossegue a 5, sem alterações. Passa outro dia e senta-se um novo elemento. Ao fim de mais alguns dias há 11 jogadores e a assistência não parou de crescer. Mais alguém decide tentar a sua sorte, puxando uma cadeira mesmo ao lado direito do que acabou de jogar. A pistola vai passando de cabeça em cabeça no sentido horário e o recém-chegado sente cada clique com impaciência. Quando recebe a arma, simula que a aponta à cabeça, mas com um gesto rápido tenta abrir o tambor. O revólver rebenta-lhe de imediato nas mãos. Um estilhaço do cano corta-lhe a carótida direita, o tambor da arma, ainda sólido depois da explosão, fura-lhe a caixa torácica e rompe-lhe o coração. Há mais surpresa que pânico. Ninguém se aproxima do corpo imóvel. A assistência começa a dispersar. Ficam os 4 jogadores. Depois de se certificarem que não há mais ninguém por perto, contam as cadeiras em volta da mesa. Três deles colocam então uma quantia indeterminada de dinheiro sobre o pano verde. Após uma pausa, o que não havia jogado a mão ao bolso recolhe o dinheiro todo, com um largo abraço que varre a mesa por inteiro. Em seguida abandonam o pátio, sem arrumar as cadeiras.
Acordei a pensar num cenário de pós holocausto nuclear global que apenas deixasse um homem e uma mulher vivos, ameaçando a repopulação do planeta. Esqueçamos a radioactividade, pois há aqui pretensão de penetrar bem fundo no âmago da natureza humana.
Primeiro, nada garante que estas duas criaturas pensassem ser as únicas sobreviventes; nessa medida, o desejo de procriar não viria acrescido de nenhum instinto para salvar a espécie, coisa que, aliás, muitos especialistas dizem não existir. Mas admitamos que entre as actividades diárias de recolecção esse espírito de missão nascia. Seria então preciso que fosse suficientemente forte para vencer um posssível e prévio capricho dela de não pretender engravidar e uma eventual repulsa de pelo menos um pelo outro. Mais, ou ambos se esqueciam das consequências dos seus actos ou teriam de aceitar futuras relações incestuosas entre os seus filhos ou entre os filhos e os progenitores. Admito que estarei a contextualizar um cenário que apela a uma reflexão mais fina, mas um dos corolários desta história é que devemos travar Mahmoud Ahmadinejad em nome da moral e dos bons costumes.
Vou tentar retomar um hábito antigo de só escrever ao fim-de-semana, para evitar desabafos inoportunos - ultrapassei os níveis máximos de bimbalhice permitidos para o primeiro semestre de 2007 - e porque o horário de expediente se avizinha trabalhoso.
Pensamento para a semana: desconfiai sempre de fotografias desfocadas de mulheres bonitas.

Ainda criança, João já gostava dos vilões com códigos de honra. O seu modelo não era Robin Hood, no fundo um fora-da-lei de uma lei má, nem o mafioso, oprimido por uma organização. O que o fascinava, sem que disso se tivesse apercebido, era o exercício individual de criar ordem na desordem, princípios dentro da transgressão.
Fez-se homem sem grandes atribulações. Emprego, casa, mulher, filhos, uma vida a passar por todos os marcos nos tempos certos. Profissional competente, bom esposo, bom pai, respeitado entre os amigos, tremendamente aborrecido no dia em que completou 40 anos.
Em retrospectiva, podemos localizar o início da epifania que salvou João no dia em que o elevador que o levava todos os dias ao oitavo andar do arranha-céus da companhia de seguros fez uma paragem no quarto andar e nele entrou Sandra. João vinha a conversar com um colega e mal reparou nela. Dois dias depois, a mesma paragem e Sandra de novo. Então trocaram olhares. À terceira vez, Sandra sorriu-lhe, João nem por isso. Havia sido abalado por um pensamento curioso. Passou-se mais uma semana e o elevador não voltou a parar no quarto andar. Mas logo na Segunda-feira, Sandra voltou a entrar. João sorriu-lhe dessa vez, com a tranquilidade de quem encontrara um caminho.
Passou a andar com um caderninho em que apontava o número de encontros com mulheres não impostos pela rotina. Se se cruzasse com a mesma mulher 4 vezes e ela lhe parecesse interessante, tentaria seduzi-la. A regra não foi pensada com muito cuidado. João evitou o critério dos 3 encontros por pretensões de originalidade, mas ignorou que fasquia dos 4 lhe daria cabo da vida. O número de mulheres potencialmente interessantes com quem nos cruzamos casualmente pelo menos 4 vezes numa grande cidade só é pequeno até ao momento em que se começa a prestar atenção. João apercebeu-se disso ao fim de uns meses, mas pareceu-lhe pouco correcto afinar a regra ou interpretá-la em seu proveito, por exemplo, definindo a gosto as mulheres que caíam no grupo dos encontros rotineiros e que por isso seriam excluídas.
Regido pelo seu princípio como um autómato, começou a faltar ao emprego, a dar menos atenção aos filhos, a ignorar os amigos. A sua vida foi resvalando aos poucos e dela ela só tentou salvar o casamento. De um certo ponto de vista, era essencial para que continuasse a cumprir um sonho de infância.
Penso sinceramente em desfazer-me da minha guitarra com algum requinte dramático. Às vezes apetece-me tomá-la por taco de baseball e acertar numa aresta repetidas vezes, como se fosse um mafioso de Queens a exemplificar ao merceeiro do que a extorsão mensal o põe a salvo. Noutros dias, agrada-me a ideia de me ajoelhar diante do East River ao crepúsculo, acender uma vela dentro da caixa de ressonância para que a brisa não a apague e ficar à espera que a maré leve o instrumento até o perder de vista.
Vou oscilando entre estes dois pensamentos e tenho cada vez menos vontade de tocar. Ou arranjo professor já ou acabo a jogar à bisca na velhice.
A relação aberta é um pouco como o comunismo: uma fórmula perfeita mas impraticável, em choque frontal com a natureza humana. Luís dizia-se libertino com sentido de justiça, pelo que pedia da sua parceira a mesma libertinagem. Tudo começava às mil maravilhas, com a excitação renovada por cada experiência entremeada. Mas cedo os sinais se agigantavam. Desapontamento na cama: presença de um parceiro mais capaz; pressa para que terminassem: suspeita um encontro mais interessante a seguir; uma forma de acariciar diferente e com os olhos fechados: a mente noutro lugar. Instalava-se então uma certa insegurança, desconfiança e frustração. E Luís acabava por seguir obcecado todos os passos da sua parceira, tentando perceber com quem ela se deitava e o que tinham eles que ele imaginava não ter. Sem que o percebesse, Luís era sempre infiel à ideia de uma relação aberta, apesar de insistir.
Pedro havia concluído que a aventura não tinha tido importância. Ou melhor, dependia dele dar-lhe ou não importância. Não contando, tudo continuaria na mesma, desde que conseguisse viver com o segredo. Contando, era impossível prever como ela iria reagir. Haveria certamente uma quebra de confiança. E como se restaura uma quebra de confiança? Investindo ainda mais confiança, mas a fundo perdido. Subindo a parada, arriscando uma queda ainda maior. Seria ela capaz de tal gesto? Teria o amor suficiente? A loucura? A coragem? Pedro não sabia. Mas esperava que contando podendo não contar sempre daria mostras de lhe ter algum respeito. E alimentava a esperança que ela tivesse guardada uma história semelhante. Se assim fosse, o ascendente passaria a ser dele, por ter tomado a iniciativa. Mas se ela tivesse mesmo uma história semelhante, como poderiam eles restaurar a quebra de confiança? Haveria alguma vantagem na simetria de comportamentos ou apenas um perigo redobrado? Tudo então parecia resumir-se a saber quão provável era ela ter uma história semelhante por contar. E se aproveitaria a oportunidade para também com ele se abrir ou não. Em síntese, o que procurava Pedro, realmente? Determinar, para que ficasse em sossego com o seu segredo, quão alta teria de ser a probabilidade de, tendo ela tido uma aventura, não lhe contar. Não havendo fórmula fixa e sendo os parâmetros de estimativa algo incerta, logicamente Pedro encontrou um valor adequado e acabou por ficar calado. Calado e tranquilo, por ter formulado uma regra que talvez ainda lhe viesse a trazer conforto outra vez.
Jaime tem orgulho em ser fiel. A namorada não lhe chega, o que na sua lógica ainda o torna mais nobre. É verdade que a família dela é endinheirada, tradicional e poderosa, mas nisso ele prefere não pensar quando se analisa. Se o carácter de Jaime levanta algumas suspeitas, o seu método não deixa de causar alguma admiração. Jaime mantém a namorada à custa de 12 quase-namoradas. O número denuncia a sua megalomania e um certo anseio de legitimação histórica. 12, como os Apóstolos ou os Cavaleiros da Távola Redonda. Mas Jaime possui também alguns rudimentos de geometria e sabe que pode fazer daquelas 12 mulheres uma armadura, dispostas em volta dele e da sua namorada como vértices de um icosaedro. A tarefa de Jaime é manter a estrutura estável, evitar que alguma das 12 conheça outra, cortejar uma sem nunca sair da esfera de atracção de pelo menos um outro vértice, não chegar verdadeiramente a tocar neles nem a sair para fora da armadura. No centro deste campo de forças, que trespassa a namorada de Jaime sem que ela se aperceba, ele sente-se equilibrado e seguro, numa sucessão de tensões por resolver logo substituídas por outras. Tal equilíbrio instável permite-lhe encarar a fidelidade como uma possibilidade provisória e impedi-lo de cometer uma argolada que possa comprometer a boda, cada vez mais próxima. Dentro de que poliedro passará Jaime depois a viver ninguém pode responder, mas consta que a casa dos futuros noivos é apalaçada.
Quando todos previam para o aluno Andrade uma ascensão fulgurante, capaz de o fazer catedrático antes dos 35, uma melancolia crescente foi-se nele instalando ao longo do curso, culminando num desinteresse pela academia e o mundo em geral que o deixaria para sempre no lugar de assistente. Mas esta é apenas a explicação oficial.
Andrade foi um caso exemplar daquelas pessoas que encalham por nelas existir uma pulsão e um princípio irreconciliáveis. Casado desde os 19 anos com a namorada da adolescência, percebeu ao chegar à Universidade que jamais iria querer sair dali e que iria ficar viciado no sexo no local de trabalho. Havia porém um princípio, que interiorizara e conseguia defender: nunca usar o ascendente hierárquico para seduzir. Por outras palavras, quanto mais alto ele subisse na carreira menores seriam as suas opções de parceiras sexuais. Esta tensão acompanhou-o durante todo o curso. Seria a visão de uma caquéctica e jubilada Professora, arrastando-se pelos corredores à Segunda-feira e todos cumprimentando com uma bênção, que precipitaria no jovem e brilhante Andrade uma resolução, embora o tivesse consternado ao ponto de quase violar o seu princípio com uma das contínuas cabo-verdianas que ao fim da tarde vinham encerar os patamares.
A solução pareceu-lhe inevitável: uma recusa da glória académica, a posição de assistente para a vida, com uma tese infindável, a crescer todos os anos uma resma de 300 páginas, a manutenção de uma imagem de génio excêntrico, para que lhe tolerassem o capricho e despertasse interesse nas professoras. Doce solução. Com a tese nas 1200 páginas, entre as recém-contratadas professoras auxiliares apenas uma ou duas lhe eram apetecíveis; com a tese nas 3 600 páginas, todas as recém-contratadas professoras auxiliares lhe pareciam sublimes. Andrade foi um caso único em que a estagnação académica foi a base da sua felicidade e paz. Às 12 000 páginas houve um incêndio na Universidade que lhe consumiu a tese. Nunca se soube exactamente sobre o que andara ele a escrever a vida toda. Sem tese, a sua posição tornou-se indefensável e forçaram-no a reformar-se, o que ele aceitou com agrado; aos 63 anos já era difícil seduzir na Universidade. Nesse seu último dia, enquanto vagarosamente descia as escadas e pensava nas implicações éticas da sua nova condição de reformado, Andrade viu uma contínua que por imperativos da labuta empinava na sua direcção um traseiro perfeito como um pêssego. A instantes de deixar para sempre o edifício da Universidade, aquele seria o único momento numa carreira académica de 40 anos em que Andrade se descontrolou. Muito tempo depois do traumatismo craniano provocado pela esfregona ter sarado, ainda se debatia com a questão de ter ou não violado o seu princípio e discutia incessantemente o caso com a mulher, criando obviamente cenários hipotéticos, pois ainda era um homem brilhante.
Diz-se que a excepção confirma a regra, mas em rigor a excepção mantém a regra. A receita para germinar uma cidade debochada é fazer um país puritano, as religiões dominam porque os crentes esporadicamente não cumprem as suas obrigações, a infracção é pedagógica. A excepção de Maria era o mês de Maio. Há muitos anos que o marido se deslocava ao estrangeiro nessa altura e ela encontrava algum conforto na ideia de que em Maio a natureza parecia renascer. Não que fosse dada a paganismos ou modas requentadas da New Age. Maria era quadro superior, vivia na Lapa, dizia-se católica não praticante e herdara inúmeros crucifixos, que por vezes usava.
Iniciava actividades logo no dia 1. Da rua vinham as palavras de ordem e no quarto do hotel na Avenida da Liberdade a desordem era total. Maria conseguia aproveitar o feriado porque era uma mulher muito cortejada. Durante todo o ano mantinha manobras de sedução de baixa intensidade com uma dezena de homens, entre colegas e amigos. A 30 de Abril escolhia o eleito desse ano. Passavam depois as noites em encontros secretos na capital, em bons hotéis e também pensões modestas, que a excitavam. A festa acabava a 31 de Maio, pela manhã. Maria gostava de passar a noite de 31 em casa e sozinha, para poder receber o marido que regressava no dia seguinte. Curiosamente, também nesse dia, em vésperas de viajar, o marido se recolhia a sós.
Tal como sucedeu para a série BnO, acabo de fazer nova aposta com o meu amigo Rui Martinho. Eu digo que chego às 200 entradas na série Infidelidade: uma abordagem prática antes das 24 horas de 31 de Dezembro de 2007. Ele diz que não. Quem perder paga-se a si e ao outro uma jantarada até 200 euro num restaurante da capital a divulgar em data oportuna.
Julião dedicava parte substancial do horário de expediente à procura de uma explicação para os seus actos e não deve causar surpresa que só fosse promovido por antiguidade. Casado e com três filhos, era um predador pouco ortodoxo, que ao entrar na sala via o mulherio como um rebanho (quando estava sóbrio) ou um cardume (quando estava ébrio e tinha a ilusão de que elas ensaiam em conjunto manobras de desnorte). O sucesso de Julião assentava na sua tenacidade e em padrões de exigência ausentes das histórias de cinema, mais por força das suas limitações - nada atraente, remediado, um pouco gago - que do suposto programa de genuína heterossexualidade com que antes procurava justificar as suas conquistas mais medíocres e mais tarde já nem o próprio convencia.
Julião era feliz no casamento. As suas práticas não lhe traziam encargos de consciência e estavam perfeitamente integradas na sua vida doméstica. Ele percebeu cedo que a ausência de remorsos apenas explicaria um comportamento passivo e não a sofreguidão com que conquistava. Leu depois - andava à procura de literatura médica sobre o tema - que talvez sofresse de donjuanismo, mas a descrição não o convenceu por completo; é verdade que ele raramente reincidia na mesma conquista, mas sabia que era por falta de oportunidade. Chegou-lhe depois aos ouvidos a resposta de um escritor famoso que disse fazer o que fazia por não servir para mais nada. Não lhe fixou o nome, mas andou dias a pensar naquilo, para concluir com alguma frustração que também não lhe convinha. Ele não era bom a conquistar, como não era bom em coisa alguma. Só que Julião viu ali um princípio de resposta: um hábito que nasce não se sabe como e que depois se instala porque não há motivo nenhum para o mudar. Ficou por perceber a causa primeira, mas sabemos já que Julião não era bom em nada, embora desde aquela sua última reflexão tivesse começado a despachar muito melhor.
Escreve qualquer coisa, pá. O MI tem um subtítulo - "Vasco e Vítor" - mais gay que o Renas e Veados e se andas desaparecido não vale a pena envergonhar a memória do meu falecido avô, que seguramente não teria apreciado o equívoco.
Fiz duas parvoíces no último mês, mas é provável que a estimativa peque por defeito. A primeira foi ter confiado num motorista de táxi na Bahía, indo na conversa de que ele não tinha troco e voltaria para me levar de volta à hora combinada. Ainda me lembrei de rasgar a nota ao meio mas pareceu-me demasiado cinematográfico. Quilhei-me, embora enquanto o esperava uma preta cantasse Gabriela ê, meus camaradas.... Menos mal.
A segunda foi ter comprado um livro por engano no aeroporto da Portela. Salazar é o novo filão editorial e de todas as capas a mais apetecível pareceu-me ser a que vos mostro. Estamos na presença de um primor de publicidade enganosa. E como o meu método é folhear as páginas centrais, perdi o prólogo, em que um certo António Trabulo se explica. Afinal é um trabalho de ficção. Trabulo faz de Salazar, discorrendo sobre as suas paixões, invejas (Ah, Duarte Pacheco), dúvidas existencialistas, sempre a bater na tecla da personalidade dividida. O recurso a Maquiavel pontua o texto, que vem enxertado com prosa verdadeira de Salazar, geralmente fragmentos de discursos conhecidos ou pequenas frases, pouco relevantes. Em todo o caso, menos relevantes que as entradas de Trabulo. E é aqui que está o problema. Não tenho competência para avaliar se Trabulo fez um retrato psicológico fiel de Salazar. Creio que lhe copiou o estilo com algum saber, embora o Salazar adolescente provavelmente não tivesse escrito como Trabulo. O que frustra é vermos o homem pela pena de Trabulo e não de Salazar. Ainda só vou a meio e creio que folhearei até ao fim, para ver as ilustrações, que são copiosas.
Julgo que não será apenas este tarado a aceitar que nenhuma publicidade é tão epifânica como a que aqui mostro, no sentido em que a mensagem subliminar é como uma bomba-relógio que explode num momento definido pela experiência individual de cada um. Não é necessária grande perspicácia, apenas ser-se algo vivido.
Trivialidades a propósito de algumas imagens publicitárias parecidas que vi em Lisboa em antecipação do Verão e que são raras nos EUA. Talvez seja equívoco meu, mas a simulação de felação a um gelado de nome Magnum -Piccolino teria custado quantos postos de trabalho? - é uma invenção europeia. Os americanos podem ter importado a tradição italiana da confecção de gelados e inventado nomes europeus - Häagen-Dazs - para criar uma imagem de marca, mas o puritanismo impediu-os de uma ousadia destas que faz dos modelos Calvin Klein meninos de coro.
E de repente apeteceu-me um perna-de-pau. Fuck Freud, isto é mesmo nostalgia.
Uma pessoa que constrói ou que adquire um restaurante tem o direito de fazer o que quiser com aquilo que é seu. Entre os direitos do proprietário está o direito de definir as regras internas de fumo.
Ninguém tem o direito de forçar o dono de um restaurante a usar a sua propriedade, fruto do seu trabalho, para proporcionar aos não fumadores um determinado tipo de ambiente. O dono de um restaurante não tem de se colocar ao serviço dos fins de indivíduos em relação aos quais não contraiu nenhuma obrigação. João Miranda, DN 5.05.07
Por lei, um dono de uma empresa, fruto do seu trabalho, não pode expor os seus trabalhadores a ruídos de intensidade superior a 85 dB. Se o leitor acha o exemplo desadequado por estar a equiparar clientes a trabalhadores, pense nos empregados do dono do restaurante. Não é um argumento original (foi muito usado, há uns anos, na anti-liberalíssima Nova Iorque durante a discussão da mesma lei) e nem sequer seria o meu argumento de base, mas revela uma brecha na lógica de João Miranda.
O resto do artigo de Miranda é muito interessante. Inclui uma introdução a direitos negativos e direitos positivos e um exemplo prático de como o domínio destes conceitos pode ser usado para complicar uma discussão simples.
A propósito, recomendo este animado combate entre Tiago Mendes e o resto do mundo.
Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
Se perdoar é uma virtude, não deixa de ser irónico que a sua justificação assente numa falha prévia. Seria possível chegar a uma definição ainda mais cínica, a um puro esquema de apaziguamento mútuo, não necessariamente em regime de troca directa, mas como um acordo tácito generalizado. Fica apenas por determinar se aquele que perdoa tem uma grandeza de alma directamente proporcional à ofensa que cometeu e carrega na sua consciência. A ser assim, perdoar só não passa por uma manifestação camuflada de fraqueza porque acusa um sentido de justiça interno, diferente do que os moralistas gostam de exibir.
*Escrito no autocarro de Newark a Manhattan
É verdade que caminha com graça. E percebi-o logo pelo som dos passos, na atenção que se emprega quando se vai montando a outra pessoa aos poucos. Uma natureza-morta, mais atenção às palavras, outras naturezas-mortas, a voz, as passadas quando caminhava pela casa. É um som que ainda oiço e talvez o preferido. Passadas ouvidas ao telefone e de tão longe que qualquer que fosse o sentido percorrido naquele corredor era sempre como se alguém se afastasse.
*Escrito no autocarro de Newark a Manhattan
Que imagem guardam os amantes? As cenas de cama são para os homens sem imaginação, passo a paráfrase. Entre as muitas horas quase sempre indoors e os breves instantes fora de horas outdoors, são estes que perduram. As cenas de interior sofrem de uma intimidade acelerada, como se cenários de telenovela com um luminotécnico prodigioso a fazer tudo parecer mesmo real. A rua é mais adequada, sobretudo quando uma quase-fantasia se aproxima caminhando na noite. Sem som. Ou com o som dos passos finalmente emudecido pela imagem.
*Escrito no autocarro de Newark a Manhattan
Uma pessoa com sentido da importância das palavras e um mínimo de honestidade, não as usará de forma leviana. E com o passar dos anos a tendência é para se evitar usar certas palavras, porque nos magoaram ou porque temos uma noção pessoal e muito concreta do que significam. Em nosso socorro vêm então verbos de largo espectro, que tanto usamos para um sabor de gelado como para alguém. Podemos ainda aplicar alguns recursos da língua ou teatrais para qualificar a expressão, mas não largamos o verbo, não subimos de escalão. E se o outro o faz, num arroubo de excitação, é logo penalizado, perde credibilidade e o direito a usar essa palavra por período indeterminado. Com tantos obstáculos, não é improvável que não voltemos a ouvir certas palavras sem que se comprometa algo. Fica então o que se ouviu na juventude, que não sendo mais genuíno era mais inocente e livre de todos os impedimentos futuros.
*Escrito no autocarro de Newark a Manhattan
Como todas as mulheres, Sara aprendera a higiene íntima na adolescência, rotina que não se alterou durante décadas e que realizava maquinalmente. Só a sua outra higiene a levava a constantes mudanças. A higiene pública de Sara, o acto de se lavar entre o momento passado com os amantes e o regresso à cama com o marido, começou por acusar um afinco maníaco que lhe deixava as coxas em carne viva, o sexo dorido e a boca numa confusão de elixires, pastas medicinais, outros dentífricos e pastilhas. Dias mais desaustinados houve em que Sara experimentou com o sabão azul, os detergentes da cozinha, a palha-de-aço e outros esfregões, como se fosse um electrodoméstico. Aos poucos acalmou, sem que chegasse a dispensar o demorado banho de chuveiro e um olhar para o ralo da banheira que pedia demasiado da água que se escoava. Certo dia, percebeu que envolver o marido no ritual a ajudava. Fez com que lhe lavasse as costas, depois o corpo todo, mas desencorajando o menor sinal de entusiasmo da parte dele, que nada percebia. O ritual de Sara completava-se com um inclinar de cabeça para trás, recebendo na cara e na testa a água do chuveiro, que depois lhe escorria pelos cabelos, alisando-os. Foi há pouco tempo que o gesto deixou de fazer o efeito pretendido e ela passou a tomar banhos de imersão, de novo sozinha, renovando várias vezes a água da banheira, para que no fim possa executar uma imersão total naquela água já sem o menor vestígio de impureza, emergindo lentamente, renascida como um crente.
* Escrito no aprazível espaço que é a sala de espera da EPAL
Paulo confiava em André e confessou-lhe que era infiel à sua mulher. André mostrou-se calmo, como se já o soubesse. Disse-lhe que era fiel à sua mulher praticamente desde que se tinham casado. E explicou: "é essencial que cometas a pior das infidelidades quanto antes e que o teu remorso te iniba de reincidires, mesmo nas pequenas escapadelas. Ficas condicionado, percebes? No meu caso a solução foi enrolar-me com uma das madrinhas entre o copo de água e a primeira noite de núpcias. Desde então só a ideia de ser infiel à minha mulher deixa-me angustiado". Paulo ficou meio abalado pela confissão e resolveu não perguntar se a madrinha em questão era a sua irmã; perturbava-o mais saber como podia ele, já casado, igualar tamanha sacanice. Durante dias várias ideias desfilaram pela mente de Paulo, mas todas lhe pareceram demasiado inócuas ou horrendas. A oportunidade surgiu com a gravidez da sua mulher. Logo na noite após o parto, Paulo procurou uma antiga amante. Na manhã seguinte, era um saco de remorsos e jurou nunca mais ser infiel à sua mulher. A verdade é que o estratagema não funcionou. Desesperado, pediu o divórcio, sem nunca lhe contar as suas múltiplas aventuras. E logo procurou novo casamento, escolhendo a noiva com tanto afinco como as madrinhas. Tamanha fé no protocolo é rara de igualar.
Manuel julgava-se fiel mas era assaltado pela dúvida de saber se a masturbação era uma zona franca para a libertinagem em pensamentos. É verdade que nunca pensava na namorada para tais práticas. Aconselhando-se com um amigo mais velho, aceitou que a infidelidade só acontece quando se pensa em alguém em concreto e agradou-lhe o conceito da diluição de responsabilidade. Segundo o amigo, na fantasia a mulher deve ser quimérica: um joelho da actriz que se descobriu aos 13 anos, mamas da miúda do anúncio ao automóvel, boca daquela que come um gelado, etc. Uma mulher feita de múltiplas partes não existe, logo não há infidelidade em pensamento. Manuel sentiu-se salvo e resolveu experimentar logo nessa noite. Mal sabia ele que lhe faltava a abstracção necessária para compor as imagens quiméricas. Na fantasia de Manuel as mulheres só se fundiam com ele e o que houve foi uma exacerbação de responsabilidades, um autêntico bacanal. O que o acabaria por salvar foi o incentivo para melhorar a técnica.
Católico e casado, Pedro debatia-se com um problema que já nem a confessionário se amenizava. Foi então que se lembrou de trocar as colegas do escritório por prostitutas. Pedro convenceu-se que a única forma de as salvar era fazendo-se passar por cliente, salvando-se ele também pois a sua infidelidade seria então um sacrifício necessário. Teve o bom senso de não discutir esta solução com o pároco, fez o necessário e, na primeira vez, houve ainda presença de espírito para triplicar o valor pedido, dando à transacção uma dimensão caritativa. Fez depois o seu sermão, enquanto ela se vestia. Sem grande certeza sobre o efeito das suas palavras e com receio de se confrontar com o resultado, Pedro foi procurando serviço em bairros e até cidades diferentes. Com os anos acabou inclusive a regatear o preço com as raparigas.
Sofia amava João e desejava Carlos. Carlos era um grande amante e João abaixo de sofrível na cama, apesar de ser adorável. A solução de Sofia foi compensar a frustração que João lhe causava chamando de imediato Carlos. Com a imagem do desacerto de João ainda fresca, a arte de Carlos sobressaía ainda mais. Por amar João, Sofia entregava-se depois a longos períodos de abstinência, marcada pela culpa. Mas quando voltava a chamar João, Carlos aparecia logo a seguir. Como se desaparecimento do remorso andasse só umas horas dessincronizado com o ressurgimento de um desejo incontrolável. E assim se reiniciava o ciclo.
João amava Maria e amava Sofia. Maria preferia os boxers justos e Sofia os mais folgados. João tinha exactamente o mesmo número de uns e outros, o que o reconfortava, como se fosse uma prova de que amava uma tanto como a outra. Como vivia sozinho e nunca sabia quando e com qual delas se encontraria de noite, levava uns boxers vestidos e uns do outro tipo no bolso. João sentia-se mais confortável nos boxers folgados, o que reduzia o volume a transportar no bolso e nunca foi por ele interpretado como prova de uma maior empatia com Sofia. Curiosamente, encontrava-se mais vezes com Maria, mas ele preferia acordar pensando que havia idêntica probabilidade de nessa noite se deitar com Maria ou Sofia. Ao escolher o critério do conforto, João sentia-se um homem mais justo e romântico.
A minha futura casa é ladeada pela Rua Francisco Lázaro, o atleta português que faleceu horas depois de ter abandonado a maratona dos jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Consta que foi vítima de uma insolação por correr sem chapéu e ter tido a peregrina ideia de se untar com sebo, o que terá impedido a sua pele de transpirar. Lázaro não foi um herói e não consigo vê-lo como um mártir. A tragédia salva-o do cinismo e sobra uma personagem difícil de definir, que inspira mais compaixão do que admiração e também uma discreta reprovação. O apelido completa com a ironia. Eis um bom nome para uma rua.
Fui desafiado pelo douto Rogério Casanova a seguir estas cinco instruções. Da primeira vez não cheguei a lado nenhum. Pensei que o Rogério havia encriptado uma qualquer das instruções na forma de anagrama, o que não surpreenderia ninguém dado o distúrbio de que ele padece. Em todo o caso, como conheço as minhas limitações, repeti a tarefa e creio ter chegado ao fim. Há no título uma mensagem subliminar que a devido tempo entenderei.
Mas o que importa mesmo esclarecer é que não fui de férias. Estive a honrar compromissos sociais, a dar aulas e ainda a tratar-me. Paisagens idílicas, é verdade. Mas também nos sanatórios se respira bom ar e o horizonte é em arco. Aliás, a única frase que recordo de Jorge Sampaio é esta: "oiça [para uma jornalista estagiária, seguramente], nós estamos sempre a trabalhar, mesmo quando dormimos estamos a descansar para poder trabalhar no dia seguinte". Infelizmente, é um pouco essa a minha visão. Tenho amigos hedonistas, mas não escolherei nenhum para padrinho dos meus filhos.
Parece que se discute uma lei sobre a proibição de fumar em espaços públicos fechados. Não fui ler a letra pequena. A vitimização dos fumadores, que se sentem mais perseguidos do que um cocainómano e que descobrem impulsos higienistas inspirados no Terceiro Reich numa lei que tenta simplesmente proteger a qualidade do ar nos espaços públicos fechados é do que de mais ridículo se produziu em Portugal desde que Badaró deixou de ser presença regular na televisão. E sobre as desonestidades nem vale a pena falar (cf Pulido Valente).
Os fumadores e os controleiros de tudo o que lhes cheira a causa fracturante precisam de enfiar nas suas cabecinhas que as leis que vão surgindo um pouco por todo o mundo civilizado protegem quem não fuma. Se complicam a vida a quem fuma e com isso acabam por funcionar como um estímulo a que se deixe de fumar, esse é um efeito secundário. Não vale meter tudo no mesmo saco. A proibição de não se fumar em espaços públicos fechados não vem na linha das campanhas para se fazer mais exercício e comer mais saladas. Desmonte-se de uma vez por todas o argumento da cruzada higienista.
O exemplo do cocainómano também só pode ter sido um momento de humor. Em rigor, prefiro almoçar ao lado de um cocainómano do que de um fumador, desde que o equilíbrio do meu copo de tinto não seja perturbado pelo frenesim do meu parceiro. Mas o exemplo é certeiro na medida em que só às pessoas viciadas falta bom senso. Aliás, desconfio que os fumadores inveterados vivem um conflito interno. Pela razão e sentido de justiça aprovariam a lei, mas por comodismo vão resistindo.
Há discussões complicadas. O aborto é uma discussão complicada. Há discussões estúpidas. O Intelligent Design versus Evolução é uma discussão estúpida. E há discussões que se esgotam em três ou quatro parágrafos. Como esta.
Não sou jurista, mas parece-me que a lógica desta proposta de lei é muito próxima da das leis sobre o ruído. Trata-se apenas de proteger o direito de quem gosta de respirar um ar não poluído pelo fumo do tabaco ou de se proteger o direito ao silêncio.
Até ao dia em que se invente um modo de se fumar sem fumo, ou que pegue a moda dos Cohiba em versão supositório com libertação de nicotina de efeito prolongado, não vejo outra solução que não a de se proibir o fumo em espaços públicos.
Sobra a solução segregacionista de bares/restaurantes para fumadores e para não fumadores, que é matreira. Poucos empresários da restauração arriscariam competir com bares e restaurantes onde se pode fumar. Porque num grupo de 5 amigos há sempre quem fume e quem não fume e a tradição é que estes cedam aos interesses daqueles. Ou seja, quem defende esta solução sabe que na prática nada mudaria. Grupos de amigos não deixam de conviver por questões deste tipo. Mas a sociedade não tem de ser tão tolerante quanto nós somos para com os nossos amigos. E o que se anuncia nem sequer é assim tão catastrófico. Ir fumar um cigarro à rua tem inclusive algumas vantagens, como uma maior flexibilidade na escolha da pessoa da mesa com quem de repente apetece estar a sós. Think big.
De repente uma pessoa desaparece das nossas vidas. O cérebro anda sempre à procura de simetrias e tenta perceber se o desaparecimento repentino é o reverso de um aparecimento brusco. É um mero exercício que não traz grande consolo. Como tentar estimar o vazio a partir dos contornos do buraco, mas olha-se para dentro e não há buraco, apenas um vazio. Um vazio que nao se encosta a lado nenhum.
Certos nomes chegam a nós com anos de avanço. "Limoeiro", por exemplo. O meu amigo percebeu o meu desconforto e deu-me uns 15 minutos para me adaptar, sob o pretexto de ouvir uma orquestração de Ravel nos seus auscultadores. Durante a peça, que escutei atentamente até ao fim, apareceu um pardal na sala e o meu amigo foi a correr libertá-lo. Explicou-me depois umas aguarelas que andava a pintar e pediu-me em seguida que lesse uma carta dele para mim, que não havia chegado a enviar. Teve o bom senso de se afastar para que eu pudesse ler a carta sem inibições, mas nenhuma carta deve ser lida sabendo que o remetente nos ronda. Digamos que circunstâncias excepcionais justificaram a prática e a carta era-me simpática, o único problema foi o meu agradecimento ter saído frouxo. Estávamos com o tempo contado mas ele teve a delicadeza de me dar os últimos 15 minutos para que eu falasse. Como sai amanhã, no Domingo continuaremos a conversa numa das praias da Caparica.

É só quando um homem se depara com o problema de desmontar uma paixão que o valor de uma má canção de amor se torna evidente. Demos graças ao espartilho da tonalidade, aos vícios apanhados com os dicionários de rimas, aos efeitos fáceis e ao mau gosto generalizado que traz as piores canções de amor para o éter. Se a ideia de que uma melodia de André Sardet viaja neste momento pelo espaço sideral antes me deprimia - e é coisa de retentivo-anal discutir se civilizações de outros planetas terão os nossos padrões estéticos -, essa ideia hoje revigora-me. Não há nada como uma má canção de amor para nos ajudar a perceber que tudo aquilo que julgávamos ser único, mágico e irrepetível, não consegue pairar acima de um verso de Phil Collins sem acusar alguma perturbação. E então aceitamos que o cérebro é, apesar da sua complexidade, um objecto massificado. Que as sensações são sensivelmente as mesmas, no tempo e no espaço, e que até o Phil consegue delas fazer uma descrição aproximada. Se é assim, tudo se desmonta, tudo tem uma importância relativa e o essencial mesmo é assegurar as funções vitais. Sem metáforas: ter o músculo cardíaco a bombar, respirar e manter a cabeça arejada. Isso e o bom senso de ao chegar a casa não pôr a tocar o Tom Waits até haver a garantia de que já nada existe, está tudo lisinho, terraplenadinho e até com algumas ervas daninhas.
Imagem:Algures no Irão
Começo por declarar que detesto blogar e que só o faço por não me conseguir livrar deste vício. O que eu queria mesmo era saber escrever contos, parir um volume de dois em dois anos, ser um autor de culto na região da Grande Lisboa com uma profissão irrelevante para o trabalho da escrita. Infelizmente, só dou para esta merda dos blogues e quando ando metido numa actividade que até já o interesse do Pedro Rolo Duarte desperta é sinal que estou falhar.

Como é do conhecimento geral, o MI é pouco dado ao extravazamento para a praça pública de agradecimentos privados, prática que vejo como o cruzamento da mentalidade suburbana com a infoinclusão. Porém, há dias que não são como os outros e esta miúda - gira que se farta - merece hoje uma menção honrosa.