dezembro 31, 2007

Coisas imprevisíveis

Ontem tentei domar um boxer albino e surdo no centro de Madrid, perto de uma prostituta centro-americana (creio).

dezembro 28, 2007

O modelo alemão segundo Marcelo

dita_von_teese-1.jpg(O post que mais gozo me deu escrever em 2007, durante as semanas quentes do Referendo. O resto do ano foi aborrecido).

Transcrição de um vídeo censurado em que o Professor Marcelo conversa com a jovem Elisa no areal do Guincho, logo após o seu mergulho matinal e ainda com cabelo molhado; Marcelo de pólo azul escuro da Amarras, Elisa em tons pastel.

Elisa (jovem): …nhó nhó nhó nhó?

Marcelo (Professor): Ora bem, é uma magnífica questão (pausa) Quem teve a ideia do modelo alemão, talvez ainda se lembrem, não fui eu. Mas eu sobre isso queria sublinhar três coisas (nova pausa, ligeiro inclinar de cabeça para a frente, um discreto erguer de braços) Em primeiro lugar, é preciso dizer que o modelo alemão em abstracto é O grande modelo. Por mim aumentava-lhe apenas o prazo das 12 semanas até aos 8 meses (a câmara, até aí pouco oscilante, acusa um safanão) Mas o modelo é bom. (Marcelo volta, com uma orelha fora do enquadramento). O problema é que as alemãs não estão à altura . Aborta-se muito na Alemanha. Continua a abortar-se muito na Alemanha, mesmo com aconselhamento obrigatório. E isto porquê? (pausa prolongada, momentânea exoftalmia, o sol nascente reflecte-se nos olhos de Marcelo dando-lhes um poder quase hipnótico, Elisa estremece) Os alemães são gente sólida, a grande filosofia fez-se em alemão, lembre-se disso. No fundo elas dispensam o aconselhamento. Sabem pensar pela sua cabeça (os braços vão regendo a exposição de Marcelo, como um maestro diante de um espelho) Já estão convencidas quando entram no consultório, percebe? O que é que isto significa? Que na verdade não há aconselhamento. Há liberalização! Isto é gato por lebre! Ora eu sou pelo modelo alemão mas em Portugal.

Elisa (jovem): …nhó nhó?

Marcelo (Professor): Ainda bem que toca nesse ponto, Elisa. O progresso. É um facto que a Gay Parade é autorizada há muitos anos pelos autarcas de Berlim. É neste clima progressista que se aceita um modelo como o modelo alemão, mesmo que depois não funcione. Agora lembre-se da resistência que Santana Lopes enquanto presidente da câmara de Lisboa levantou à realização de eventos desse tipo. Santana, note bem. Um homem da noite. (olhar malicioso e algo triunfante) Lembre-se que ainda não há casamentos gay, por exemplo. E se é assim, pergunto: estará Portugal preparado para aprovar o modelo alemão? Não está. O modelo é bom, repito. Não funciona na Alemanha mas por causa das alemãs. Aqui sim, porque as portuguesas... (longa pausa, olhar cabisbaixo, para se erguer com um sorriso cúmplice)... As portuguesas são sensíveis, mulheres delicadas que têm depressões ligeiras e instabilidades momentâneas. Precisam de aconselhamento. O que é que se passa, então? Não há abertura. O modelo nuuuuu…(ligeira flutuação da frequência do som) … uuuunca seria aprovado. E estamos nisto. Há um modelo bom, falta um povo para ele. Os alemães por um motivo. E nós, felizmente… (a voz de Marcelo ganha aqui um registo épico-intimista, como se houvesse música de fundo)... Felizmente que é por outro motivo: recusar o modelo é uma marca civilizacional. Sabe, Elisa, os portugueses não percebem isto, mas o que temos em mão é sobretudo uma questão de identidade nacional. Portugal é faladofora por causa desta lei, deste referendo. Isso é bom para o país. Foi de resto o que me levou a inventar o referendo em 1998. Para que ficasse tudo na mesma. Não se queira agora usar o referendo para mudar a lei. Por capricho. Portugal é uma jovem democracia mas já vai sendo tempo de amadurecer.

Elisa (jovem): Muito obrigada.

Marcelo (Professor): Obrigado, Elisa.

Imagem: Dita Von Teese (que por acaso é americana)

dezembro 24, 2007

Oportunidade de negócio

Procuro umas escadas de incêndio (dois lances e patamar intermédio), de metal, estreitas, com degraus e corrimão. Quanto mais velhas, melhor. Também sou sensível ao ferro forjado.

Isto não é alusão a estado de alma ou mariquice do género, procuro mesmo umas escadas de incêndio para integrar em empreitada futura. Se tiverem conhecimento de um ferro-velho bom, prédio devoluto passível de saque pela calada ou particular em fase de penhoras, façam o favor de usar o correio electrónico.

Um eterno pousio

A vantagem dupla de se ter muitos amigos é poder perdoar e ser perdoado em abundância, sem perdoar alguém de novo e ninguém nos perdoar uma segunda vez.

Nos balneários da vida

FUNG_RX2.jpgEm tempos, um jovem escritor português disse que não lia Lobo Antunes porque o estilo do Lobo apanhava-se com facilidade e depois era um problema uma pessoa livrar-se dele. Como o pé-de-atleta, portanto. Pois bem, Vasco Pulido Valente é o pé-de-atleta dos cronistas de direita. Reparem neste texto de mestre:

Primeira cena. Mário Soares e Clara Ferreira Alves no interior dos Jerónimos. Falam sobre religião. O dr. Soares diz que a religião "tem uma força", mas apressa-se a inventariar os seus limites. A dra. Clara, inclinada, ri-se: "Não ousa dizer que os deuses são os homens..." O dr. Soares não ousa, embora lembre que "o homem é a medida de todas as coisas" e que "o que temos descoberto nestas últimas duas décadas é extraordinário". Segunda cena. Sinagoga de Lisboa. O dr. Soares, de solidéu, acha que "a religião judaica é extremamente importante" e recorda que foi o primeiro chefe de Estado europeu a pedir desculpa aos judeus. A dra. Clara introduz na conversa Israel e o Médio Oriente e informa que viajou duas vezes com o dr. Soares a Jerusalém. Terceira cena. Mesquita e Catedral de Córdoba. O dr. Soares desfia inocentemente os mitos acerca da tolerância do "Al-Andalus" e exorta ao fim das guerras religiosas. Depois, numa análise mais profunda, revela que os terroristas são seres humanos e que o Ocidente "deve desarmá-los com a bondade" (sic). Quarta cena. Mesquita de Lisboa. A dra. Clara enverga um lenço muçulmano. O dr. Soares explica que Bush, "um flagelo", "incendiou o Médio Oriente e criou um conflito entre o Islão e o mundo cristão." Quinta cena. Sinagoga de Lisboa. O dr. Soares confessa que seguiu a filosofia grega e o direito romano. E que não foi "tocado pela fé". A dra. Clara concorda com um aceno. O dr. Soares cita Julia Kristeva (uma referência seríssima) a propósito da "necessidade de acreditar". A dra. Clara interrompe para decretar o dr. Soares "um iluminista que não foi iluminado pelo divino" e ri-se com o engenhoso trocadilho. O dr. Soares resume: "Sou filho da Revolução Francesa..." E a dra. Clara, que aqui estranhamente não ri, completa: "... e dos direitos do homem". Isto prossegue por outros vinte minutos. Isto é O Caminho Faz-se Caminhando, a série mensal do dr. Soares e da dra. Clara que a RTP transmite. O normal seria imitar a dra. Clara e acrescentar: "... e que o contribuinte paga". Não vou por aí. O Caminho... eu pago com gosto. É verdade que sem gosto também pagaria, mas esse não é o ponto.

No estilo, na arte de citar abundantemente*, no desprezo por Clara Ferreira Alves, na ambivalência quanto a Soares, isto é tão Pulido Valente, que o próprio Vasco deve ter tido uma out of body experience, antes de ficar a pensar que se calhar voltou a escrever no DN- admitindo que o lê.

dezembro 22, 2007

Homem do ano (segundo Th): Liviu Librescu

cartoon589blog[1].jpgLiviu Librescu, 75, a senior researcher and lecturer in engineering, was a Holocaust survivor. He had immigrated to Israel from Romania with his wife Marlina, also a survivor, in 1978. He was an expert in aeronautics at Tel Aviv University and the Haifa Technion before moving to the United States in 1984.

The couple’s elder son lives in the town of Ra’anana, near Tel Aviv. Joe, the younger son, splits his time between the United States and Israel, where he was when news of his father’s death arrived.

According to media accounts quoting students, Mr. Librescu and the class heard shooting in a nearby room. The students said their professor blocked the door to prevent the gunman from entering while some students took cover underneath desks and others leaped out from windows.

Reached by telephone in Ra’anana today, Ayala Librescu, one of his daughters-in-law, said the family “had no time to deal with the loss” and turned down requests for interviews. She confirmed that family members were making plans to fly to America Tuesday night and that they would be bringing Mr. Librescu’s body back to Israel for burial.

Earlier today, Joe Librescu told Ynet, the website of the Hebrew daily Yediot Aharonot: “I understand from friends that my father was a hero. By blocking the door with his body he saved all the students who were in the classroom. Joe Librescu studied at Virginia Tech from 1989 to 1994, according to Israeli media reports. NYT

dezembro 20, 2007

Victoria de Los Ángeles, a voz do século XX

esp76_3.jpg

Os Beckham deviam ser obrigados a deixar Los Angeles, para que as fotos da intragável mulher do futebolista não poluíssem o resultado de uma pesquisa de imagens com o nome "Victoria de Los Angeles".

dezembro 19, 2007

O que conta é a convicção

O João Miranda sobre o salário mínimo é mais assertivo do que Al Gore sobre o Global Warming.

Rudimentos de mercado

A mesma ideia mas com freiras iria vender muito mais.

The real history of consciousness starts with one's first lie

32.jpgPior do que descorbrir Ali (do boxe) apenas aos 34 anos, é dar por Joseph Brodsky apenas aos 36.

MI em crise

... A buffer zone atlântica de alguma forma parecia nutrir uma não-chega-a-ser-paradoxal omnipresença planante e distanciada sobre as guinadas fenomenológicas aqui do quintal, enquanto lhe evitava o fascínio cabotino com o happening cosmopolita (começo a odiar a palavra) quotidiano das esquinas das avenidas. O descompromisso engajado perfeito, no fundo (o que levava a que nem fosse essa a necessária centralidade do seu opus in progress). Naufragado agora cá na terra, como não temer que se visse incapacitado, como pelo amor de mãe sufocante, pela impositividade material das manifestações paroquiais de vida que antes poderia, mesmo com maior constância que qualquer nativo, gerir na saudável distância de estrangeirado que as excitações comunicacionais ainda não (felizmente) obliteraram, mas já tornaram pertinentemente transponível? Yesterday Man

dezembro 17, 2007

Male Bonding

Não tenho grande fascínio pela fleuma britânica. A ideia de que há mérito em precisar de três pints para expressar afecto ultrapassa-me. Por outro lado, testemunhar excesso de ternura no local de trabalho chega para de me levar à bebida. Sem querer fazer disto regra, no último sítio por onde passei as minhas colegas abraçavam-se muito. Entres elas. Abraços fraternos, nada de malandrices. Nos aniversários, o que se percebe, à Segunda-feira, talvez por causa da separação do fim-de-semana, e por uma série de outros insondáveis motivos. A rapaziada funciona segundo outra lógica.
Em 6 anos, só dei dois abraços a colegas homens e ambos nos últimos dias, por causa da partida. Mas o momento mais tocante foi a ausência de um abraço. Este meu colega, sempre tão fluente nas conversas sobre desporto, mulheres e política, sempre tão rápido comigo nas desgarradas de humor, ficou praticamente autista nos últimos dias. Ou melhor, parecia uma daquelas crianças que não conseguem expressar o que sentem e o traduzem na extensão do tempo que passem à nossa volta e no encurtamento da distância mínima que nos deve separar. Com tanto abraço ao desbarato, as minhas colegas nunca experimentarão o valor de um abraço por omissão.

Curiosity killed the cat

Estou curioso para ver o que vão fazer nas prisões com a nova lei do tabaco. O Governo vai pôr seringas à disposição dos presos toxicodependentes, mas quer proibir os cigarros, o que seria verdadeiramente fantástico. Uma solução para um fumador preso será talvez injectar nicotina. E se permitir que os presos fumem, então será caso para dizer que quem se porta mal safa-se sempre. Bem, bem vistas as coisas já vivemos num país com múltiplo exemplos destes. Jorge Ferreira

Este parágrafo de Jorge Ferreira, logo secundado por um dos nossos liberais, é péssimo em... enfim, em tudo. Na forma, porque os adesivos e as pastilhas de nicotina anulam o punch do "injectar nicotina". No rigor, porque, a julgar pelo que aqui se , poderão ser criadas áreas para reclusos fumadores, em celas ou camaratas. E no princípio, pois esta lei, independentemente de eventuais pulsões higienistas, na prática pretende defender a saúde de quem não fuma e não apenas complicar a vida aos fumadores. Simplex.

Escrito do terminal 1 de um aeroporto londrino, não sei se Gatwick ou Heathrow - e tentarei permanecer na ignorância, como prova do meu desprezo por este conglomerado urbano.

Anas

Ana Margarida Craveiro parece ser a única das Atlânticas que tem acesso ao salão de fumo da rapaziada, contrariando uma tese de Ana de Amsterdam sobre a continuidade na direita moderna lusitana da milenar separação de tarefas.

Escritos do terminal 1 de um aeroporto londrino, não sei se Gatwick ou Heathrow - e tentarei permanecer na ignorância, como prova do meu desprezo por este conglomerado urbano.

dezembro 16, 2007

Brodsky, esse parasita

Recebi algumas prendinhas, carinho, essas coisas. Hoje foram dois calhamaços com ensaios de Joseph Brodsky, de uma colega da Arménia. Uma bela surpresa. Tenho 10 horas de leitura pela frente no regresso à pátria, mas começarei pela... Business Week. Vergonhoso. Isto não é falhar o sonho americano, é falhar os sonhos todos, caraças. A "Business Week", foda-se...

Try again

The idea of God’s son coming to earth in the womb of a virgin, and being born in a manger, is beyond the power of any mortal imagination to invent and is so obviously true that anyone who denies it must have the feelings of a brute.Paul Johnson

Isto foi obviamente escrito para nos fazer sorrir, resta saber se pela ironia ou de compaixão. Discutir se a imaculada concepção foi divina ou um caso de partenogénese, seria não só insensato como herético, visto tratar-se de um dogma, mas o que diverte na boutade de Johnson é sobretudo a ideia de que nenhum homem seria capaz de inventar com a sua imaginação uma história tão bela, observação que podemos rebater sem correr o risco de que um raio nos fulmine. Trata-se de um velho argumento que aparece sob diversas formas e muito frequente, por exemplo, depois de se ouvir algum trecho da grande música sagra. "A Missa em si menor, de Bach? Só Deus poderia ter criado tal coisa", alguém sempre dispara. Ora, não deixando de reconhecer en passant que o dodecafonismo deu algum crédito a tais palavras, a verdade é que poderia argumentar que há inúmeros os mitos da criação tão ou mais inspirados do que a Imaculada Concepção. Esta discussão chegaria inevitavelmente a um impasse de reiterados "o meu mito é mais belo do que o teu" e teria sido tempo bem empregue, apesar de tudo. O problema só surge quando algum destes católicos não resiste ao gato por lebre que é aliciar com a estética para impingir a moral.

dezembro 15, 2007

O resto é juvenil

Elogios individuais e espontâneos ou prémios monetários.

Carne fraca, carne picadinha

115_2656-balthazar.jpgO meu último instante de boémia nova-iorquina enquanto habitante desta cidade foi também o primeiro em que me senti à vontade com as referências explícitas às mundanidades highbrow do lugarejo. Um perguntou-me se havia lido o artigo sobre Jeffrey Epstein, nomeadamente o que alguns cientistas da elite de Nova Iorque como Richard Axel dizem dele, e por acaso tinha, dois dias antes, num dos longos regressos na linha E a Queens - a vida suburbana é o estímulo mais forte para a leitura que experimentei desde as traduções das historietas de Woody Allen. O outro falou depois de The Tipping Point, perguntando-me se conhecia o autor, Malcolm Gladwell. Não o li, mas já o vi, e é uma figura que não se esquece, com aquela aparência afro-frágil de quem teria sofrido a 20070516_Baribal.jpghumilhação de ver a sua entrada vedada nos Black Panthers. Foi só quando um deles esticou a corda e me contou como tinha em tempos rejeitado um poema de Harold Pinter que eu fiquei sem reposta e comecei a arar de mansinho o bife tártaro com o garfo, quase me deixando ir na boleia de um flashback até um bistrot como o Le Baribal [anos noventa, à esquerda], que não precisa de fazer de conta [Balthazar, ontem, à direita]. A verdade verdadinha é que o Balthazar pode ter mais mulheres bonitas de olhar caprichoso mas o Le Baribal tem o melhor tártaro. I kid you not.

dezembro 14, 2007

Fahrenheit 451

byblos5.jpgNão sei o meu impulso pirómano ao ver esta pilha altamente combustível é reflexo atávico de um país onde vingou a rotina do auto de fé, consequência do verso de Sá Miranda "Que Farei Quando Tudo Arde" ou simples irritação por Lobo Antunes, em O Meu Nome é Legião, só resistir a ser Lobo Antunes até à página 3. E ia tão bem, raios - quase parecia o Dinis Machado... Vou agora na página 60, sou o único leitor de Lobo Antunes na linha E de Nova Iorque e ando a apanhar loboantunada atrás de loboantunada. Não me tirem de Queens, tirem-me Ermesinde [exclamativo]. Antes que vá parar a Guantanamo por ter inflamado um fósforo... [ainda mais exclamativo]

A imagem é do ZM

47

O cão é o melhor amigo de um homem que ninguém suporta.

46

A canonização é a prova de que Deus mata primeiro e confia depois.

45

Também se fica famoso por antiguidade.

44

É nos tempos mortos que o operário se sente vivo.

dezembro 13, 2007

Circum-navegação

O tabaco levou ao fundamentalismo anti-tabagista, seguido do movimento anti-anti-tabagista.

O futebol criou as claques de fanáticos, a que se seguiu o movimento elitista de oposição ao futebol.

A preocupação com o planeta e causas várias fizeram o terrorismo ambientalista, a que se seguiu o desambientalismo.

And the list goes on...

Todos estes movimentos são ridículos, mas há uns mais ridículos do que outros - por uma questão de precedência, à falta de outro critério.

Mónica

Infidelidade: uma abordagem prática (21)

Há um sofrimento que, não dando prazer, reconforta. Chorar a morte de um ente querido confirma o que sempre se julgava sentir. Mas há um outro sofrimento que quando se experimenta causa revolta, por revelar uma fraqueza ou defeito que se desconhecia. A tendência natural é para contrapor estes dois sentimentos, subsistindo a ideia de que raramente coincidem num mesmo indivíduo e de que se subtraem quando tal sucede, como se os estados de alma obedecessem às regras do cálculo vectorial.

Pressentindo pela atitude de ausência do marido que a separação era inevitável e capaz de a destruir, Mónica experimentou uma epifania que a deixou primeiro prostrada, mas logo resoluta. Passou então a viver para um único objectivo: promover a decadência moral do homem que amava. Era a sua única salvação. Mas como se quebra um homem íntegro? Com a lucidez própria de quem passara a vida numa companhia de seguros, Mónica sabia que bastava aumentar as oportunidades para a transgressão. Este entendimento estatístico da condição humana, que escapa a todos os fundamentalistas, faz dos homens criaturas mais parecidas e vítimas da circunstância do que muitos gostariam de pensar, mas nem sequer nos tempos idílicos Mónica tivera grandes ilusões. "Ninguém é absolutamente fiel, a menos que seja absolutamente feio", murmurava ela agora entre dentes, com a raiva de quem espreitou o destino e não gostou do que viu.

Como ele resistiu às suas armadilhas iniciais - os encontros a quatro em que ela e o marido da outra se atrasaram, as festas em que o embriagou, para depois sair com a desculpa do telefonema desesperado de uma amiga, etc. -, Mónica foi obrigada a procurar a ajuda de uma profissional. A infidelidade mesmo assim não veio, e foram tantos os meses que Mónica quase desesperou por antecipação. Mas um dia aconteceu e lá arranjaram forma de ela os surpreender. O resto decorreu como nos outros divórcios.

Mónica pensara que uma dor poderia anular a outra e vice-versa, mas deu-se depois conta de que experimentava as duas ao mesmo tempo sem que se misturassem. Não sabia se era mágoa e remorso ou mágoa e frustração, mas parecia que uma das dores lhe tomara conta da parte direita do corpo e a outra da parte esquerda. Em todo o caso, tal fenómeno explicaria a recente crispação nos dedos sempre que entrelaçava as mãos.

Spectacles

"I seem to remember que tiveste metido em algum online brouhaha on VPV being the portuguese Hitchens. Não sei which side of aisle you were on, mas resta um comentário erudito que eu gostaria de contribuir: Bullshit.

Look at this masterly stretch:

The case of Mother Teresa, who could not force herself into accepting the facile cure-all of "faith," is that of a fairly simple woman struggling to be honest with herself, while also—this is important—striving to be an example to others. And I believe I have a possible explanation for the crisis. It derives from something that Lord Macaulay said, when reviewing Leopold von Ranke's "History of the Popes." The Roman Catholic Church, he wrote, "thoroughly understands what no other Church has ever understood, how to deal with enthusiasts" [my italics]. Wise bishops have long known to beware of the fanatical and the overzealous. After being lectured on doctrinal matters by the ultraconservative convert Evelyn Waugh, the pope is said to have concluded the audience by murmuring, "Yes, Mr. Waugh. I am a Catholic, too."

In, juro, http://richarddawkins.net/article,1582,n,n

Na verdade, se há um grande das letras que o Valente me lembra é o Camus, specifically da única questão filosófica básica ser o suicídio. Eu olho para a foto dele que acompanha a coluna n'O Publico and it always hits me, vendo aquela expressão de quem comeu a steaming plate of shit, daily: why don't you put yourself out of your misery... "Th.

É óbvio que o meu amigo Th - um born again lusitano- não domina ainda as subtilezas da portugalidade, mas eu experimento a mesma sensação. Aliás, VPV parece mais velho desde que se deixou fotografar sem os óculos, o que não deixa de ser uma prova de calibre intelectual.

Como um T1 de renda fixa

Não sei se também vos acontece rememorar logo pela manhã o discurso da véspera, quando se falou em público ou se conheceu alguém que se queria impressionar. O que ficou por mencionar, como se disse o que se falou, os erros gramaticais, as palavras repetidas, se a piada inaugural sortiu efeito... É assunto datado que não sobreviverá a uma segunda noite, mas marca sempre presença. Aliás, pela minha experiência, a memória funciona para as coisas que se recorda apenas no dia seguinte e para o que se recordará a vida toda. Há nisto um radicalismo juvenil, pois são inúmeros os episódios numa biografia que, merecendo pemanecer mais de um dia na cabeça, escusavam de ficar a vida toda. Como é do conhecimento geral, os senhorios têm o mesmo tipo de problema com alguns arrendatários.

dezembro 12, 2007

(8)

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Este tinha a versão final, mas acabei por improvisar...

bluff a dois tempos

Ontem, num leilão de arte no Consulado da Argentina, levantei a mão quando o quadro ia nos $500. Nem sequer apreciei muito o quadro, era mesmo para apreciar o leilão. Foi uma sensação (de) soberba que urge repetir. O quadro seria depois arrematado por $800. Hoje de manhã, diante da ATM, fui surpreendido com a informação de que a minha conta não chega aos $500. Experimentei então uma sensação ainda mais soberba, diria até espectacular.

Boas festas

Os meus planos de bloga para 2008 são chegar às 200 infidelidades, ir de St John ao Belize em 8 entradas, recuperar a route 66, escrever sobre restaurantes lisboetas e a criação de porcos no Alentejo, começar uma série sobre Nova Iorque (finalmente), arranjar um native speaker tenha pachorra para me rever o segundo capítulo de Tanked, vencer o bloqueio que me impede de escrever sobre Salvador da Bahia, bem como coligir uma série de instantâneos para o futuro grande romance português de título provisório "O Almirante", um tomo de 800 páginas que conta em excruciating detail uma caminhada de uma hora, do Areeiro ao Martim Moniz, pretexto para as minhas impressões sobre Portugal, a literatura, a condição humana, o Flamenco, a dança, a agonia da arte contemporânea, o sexo, a verdade, a memória, Sá Carneiro, Martim Moniz, as putas, os drogados, as velhinhas à janela, o Ramiro, a Portugália, as lojas dos chineses, Don de Lillo, um restaurante com uma barata a descer pelo aveludado das paredes, os chineses, o Chico Louçã, as radiografias, a ginástica desportiva, a religião, a cartomancia, desastres de automóvel e Antero de Quental, entre outros e outras coisas. Vou também escrever sobre Darwin num outro lugar a anunciar em breve e, antecipando um cruzar de espadas com Jónatas Machado, conto preparar um texto de combate sobre evolucionismo e moral ou então traduzir T.H. Huxley, o que seria mais honesto e útil, ainda que mais trabalhoso. Por fim, estas múltiplas actividades não me impedirão de manter um olhar crítico sobre as capas das traduções de Vasco Graça Moura e penso até expandir esta ideia e criar uma série, de título Capas Portuguesas: close reading, que seria uma forma de ir contando sem grandes maçadas o que vou vendo nas livrarias. O MI continuará a preto e branco.

Qual o melhor bairro para se viver em Lisboa?
Anjos
Musgueira Norte
  
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Blogar a sério

O Zé Mário assina um dos arranques mais promissores deste final de ano, no seu Bibliotecário de Babel.

darwin_tree_lg.jpg
Não deve haver frase mais assertiva e premonitória na nossa História do que este "I think" de Darwin, nem rabiscos mais inteligentes desde que Leonardo da Vinci deixou de desenhar.

dezembro 11, 2007

(6)

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Ocorreu-me que esperar pela hora da morte para partilhar ideias é muito arriscado, mas pareceu-me despropositado...

(5)

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Aqui lembrei-me do Henry V e saiu algo presumido...

(4)

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Num casamento, na Argentina, Th - um dos padrinhos - arrancou um discurso hilariante e sentido cujo leitmotif era uma "goat cheese factory in Albania" - acho. Tentei adaptá-lo, mas não saiu bem...

(3)

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Aqui falava dos "good old times"...

(2)

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Este tinha uma piadinha sobre maminhas...

Discurso de despedida, making of... kind of (1)

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Demasiado longo...

dezembro 10, 2007

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Blue notebook no. 2

Once there was a redheaded man without eyes and without ears. He had no hair either, so that he was a redhead was just something they said.
He could not speak, for he had no mouth. He had no nose either.
He didn't even have arms or legs. He had no stomach either, and he had no back, and he had no spine, and no intestines of any kind. He didn't have anything at all. So it is hard to understand whom we are really talking about.
So it is probably best not to talk about him any more.

Outros contos de Danil Kharms (em inglês).

Jovem, [isto ainda dá série]

Como sabes, o que conta é a beleza interior. Não tendo a Nikon ainda lançado a máquina que dê conta do recado, vai lendo a Pastoral, é a aproximação possível.

(3)

Queens_large.jpgEle sabia que, apesar de a luz ir mais depressa do que o som, não causaria surpresa dar pelo metropolitano por causa do barulho, visto que a luz não dobra esquinas e uma curva apertada é uma esquina feita com ternura. Sabia também não haveria motivo para grandes conversas se o anúncio fosse dado pela trepidação das estruturas. Mas como foi uma brisa subterrânea que se substituiu à luz, ao som e à trepidação, antecipando-se à primeira, usando a matéria do segundo e provando à terceira que o rosto, muito mais do que os pés assentes na terra, é um órgão táctil, apeteceu-lhe partilhar a observação com alguém da multidão. Foi uma pena o seu sorriso ter saído extraviado.

dezembro 09, 2007

Artur e Manuela

Infidelidade: uma abordagem prática (20)

Artur prostituía-se por vocação. Tinha talento e uma deontologia própria, quase um espírito de missão: não aceitava servir mulheres atraentes e das casadas exigia prova de que o marido sofria de disfunção eréctil ou que, por qualquer outro motivo, elas se encontravam em abandono sexual. O sexo pago justificava-se por imperativos superiores. Ele não criara ainda família, mas sabia-se responsável pela harmonia de mais de duas dezenas de lares. Trazia inclusive na carteira algumas fotos das crianças das suas clientes, não por suspeita de paternidade, era ainda o zelo. E chegava ao ponto de falsificar a sua declaração de impostos para que o dinheiro que ganhava fosse tributável.
Artur prosperava. Órfão e de hábitos solitários, o seu único problema era o amor. Impedido de se apaixonar pelas suas clientes e obrigado pela sua consciência a revelar a profissão, só lhe restavam as vadias e as caprichosas. Mas ele buscava alguém com idêntico entendimento do mundo, que não se risse, não se escandalizasse, percebesse e apoiasse a sua actividade profissional, enfim, alguém que, perante as suas ideias mais recentes sobre sexo com o apoio do Estado, não reagisse como a última - "a queca comparticipada?"
Alguém como Manuela. Casaram-se em três meses, em seis meses ela engravidou e nove meses passaram até o filho nascer. Foram dezoito os meses de felicidade no lar e alegria no leito, mas nem mais um dia após o primeiro choro do bebé, que exacerbou o sentido de responsabilidade de Artur de forma irreparável. Ele passou então a fazer horas extraordinárias e quase duplicou o número de clientes. Como chegava a casa exausto e a pouca energia que lhe sobrava era para brincar com o filho, quem sofria era Manuela. Mas só quando a criança começou a dizer as primeiras palavras é que Manuela resolveu falar, também balbuciante. Artur não só percebeu o problema, como se penitenciou pela falta de atenção; logo lhe ocorreu uma solução.
Nunca chegaram a discutir um eventual desconto, pois partilhavam o vencimento dele (Manuela era doméstica). O único requinte que os elevava acima das outras transacções era ela usar sempre a mesma nota para, na pensão, lhe pagar, pois ao chegar a casa ele sempre lha devolvia. Cúmplices neste circuito fechado, não havia lugar para fantasias ou jogos teatrais. Artur prostituía-se com uma mulher em abandono sexual e assegurava-lhe a estabilidade conjugal. Que fosse também a sua, não lhes criava a menor perplexidade, prova última de que eram feitos um para o outro.

dezembro 08, 2007

Jovem,

Deixa-te dessas coisas, ou ainda me acusam de pedofilia e neste momento não tenho vagar para a morosidade do nosso sistema judicial.

Três notas à margem

Quanto a romper a barreira do Inglês, não me parece correcto colocar no mesmo saco António Damásio, Mangueijo e Maria Filomena Mónica. Os dois primeiros vivem em países anglófonos e escreveram as obras de divulgação a que Eduardo Pitta certamente se refere em Inglês. Ora, apesar dos perenes meses passados em Oxford, Maria Filomena Mónica vai fazendo a sua carreira em Portugal e escreveu a biografia de Eça em Português, tendo a obra depois sido traduzida para Inglês. Dos três, foi ela a única a romper a barreira da língua, no sentido em que o termo se empregou para descrever o feito (indiscutível) de José Luís Peixoto.

Saber se a lista de escritores portugueses traduzidos é realmente curta implicaria conhecer o número de autores traduzidos para Inglês de uma série de países não anglófonos de dimensão (geográfica e demográfica) semelhante a Portugal, caso contrário estaremos a incorrer no clássico erro que por vezes nos diminui e outras vezes nos dá uma grande poesia.

Por último, é extraordinário - e não estou a fazer ironia - que ninguém esteja interessado em traduzir os livros de história de Vasco Pulido Valente, mesmo sabendo-se de antemão que não há uma versão do jornal Público em Inglês.

dezembro 07, 2007

170 cm

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Provavelmente o actor mais giro da nova fornada, olimpicamente ignorado pelas bloggers portuguesas e até pelo Tiago Cavaco e o Bruno Sena Martins. O problema deve ser meu. Das mulheres pencudas ao James McAvoy, vou compondo a minha heterodoxia.

Ad hominem (1)

Ainda sobre o caso Tiago Mendes e alguns posts de ressaca em estilo de virgem ofendida, gostaria de frisar que o único blogger que não faz ataques ad hominem é o João Miranda (JM). Trata-se de um caso singular e notável, porque ele é muito popular e muito impopular, ou seja, teria plateia para o aplaudir e oportunidades para ripostar no mesmo tom com que gozam com ele e por vezes o insultam. Estou à vontade para dizer isto, porque em regra não simpatizo com as suas posições nem com o seu estilo de discussão acintoso. Se parte do desconcerto que ele provoca vem das suas ideias, a outra parte é, justamente, fruto da frieza com que as discute. Isso é realmente raro e não faz escola entre a malta da Atlântico, que se deixa levar pelo estilo, o culto da personalidade, os estados de alma e o clubismo. Aliás, o texto do Tiago Mendes não foi mal recebido por ter infringido uma suposta regra de não fazer ataques ad hominem, mas sim por ter violado o clubismo. Por isso uns ameaçaram sair e houve até quem tivesse pedido para entrar.

(2)

Queens_large.jpgDe manhã, lembrou-se da cena breve da véspera, passada num dos átrios sujos da estação Union TurnPike (linhas E e F): um dos dois judeus rapazolas que guardavam uma banca de bolos (?), de vestes sóbrias e com um chapéu preto de aba larga a proteger dos néones, interpelou uma loiraça que ia numa das manadas da hora ponta - "jewish?". Ocorreu-lhe logo que eram dias de Hanukkah mas viu outra coisa, pouca estranha aos olhos de um gentio - e era sobretudo isso que recordava.

Não gosto deste mundo sem as musas [decassílabo]

Thus creative people may be endowed with brains that are capable of storing extensive specialized knowledge in their temporoparietal cortex, be capable of frontal mediated divergent thinking and have a special ability to modulate the frontal lobe-locus coeruleus (norepinephrine) system, such that during creative innovation cerebral levels of norepinephrine diminish, leading to the discovery of novel orderly relationships. Daqui

dezembro 06, 2007

Quantos suicídios serão evitados à conta do preço dos sacos de plástico?


By the time he reached his late 50's, Kosinski was suffering from irregular heart beat as well as severe physical and nervous exhaustion.Kosinski committed suicide on May 3, 1991, by taking a fatal dose of barbiturates and his usual rum-and-Coke, twisting a plastic shopping bag around his head and (allegedly) taping it shut around his neck (a method of suicide suggested by the Hemlock Society), and lying down to die in water in the bathtub in his West 57th Street New York apartment.[19][20] Wikipedia

dezembro 05, 2007

Manneken Pis equilibrando-se na espada de Dâmocles

rossio.jpgNão é preciso ser um observador atento para perceber que o acréscimo de valor dos blogues colectivos resulta menos da ambicionada sinergia que do aumento da frequência de posts - um mérito chato - e do sempre iminente desentendimento entre os seus membros - que assegura uns happenings blogosféricos viciantes, mas com travo a guilty preasure.

Assim sendo, juro que jamais voltarei a participar num blogue colectivo como membro efectivo, a menos que se trate de um projecto à partida limitado no tempo.

Se quebrar esta promessa, farei o que o meu homónimo Vasco Rato não chegou a cumprir: aparecerei pelado no Rossio e durante 1 minuto - ou até ser incomodado pela autoridade - simularei um Manneken Pis na fonte mais a sul (imagem), mas sem urinar - para evitar que a ASAE depois me proíba de manusear as minhas próprias torradas.*

*Reservo-me o direito de escolher uma hora e dia de temperatura amena, por uma questão de conforto e contenção do embaraço.

McEwan

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They were young, educated, and both virgins on this, their wedding night, and they lived in a time when a conversation about sexual difficulties was plainly impossible. But it is never easy... Ian McEwan, ON CHESIL BEACH

Acabei hoje um livro, um feito raro e comemorável, apesar de serem apenas 201 páginas. Tenho alguns problemas com esta obra, que conto partilhar nos próximos dias. Deixem-me só referir que não recebi por interposta pessoa um sms ameaçador do Ian, ficando a salvo de dar um constrangedor espectáculo de suposta objectividade, que logo a seguir à mentira é o piorzinho que consigo imaginar.

Ilustração sacada do NYT

O dom da palavra

cavaco.pngDirigi-me no passado Sábado a São Domingos de Benfica, para ouvir Silas Oliveira e Tolentino Mendonça sobre o primeiro tradutor da Bíblia para Português, João Ferreira de Almeida. A palestra foi muito proveitosa, mas a força motriz que me animava era o Tiago Cavaco, organizador do evento e o primeiro blogger a solo que comecei a acompanhar, no Voz do Deserto.

Não tive tempo de dizer ao Tiago que me havia enganado na confissão. Em fez da Igreja Baptista, entrei primeiro numa câmara ardente de uma Igreja Católica, experimentando o embaraço de não saber muito bem a quem pedir desculpa; agora que penso mais um pouco sobre o assunto, é episódio que bem mugido daria infinitas piadas em toada de existencialismo ligeiro - mas fica assim, são seis da manhã.

As anteriores materializações de bloggers portugueses ocorreram em ambiente de boémia ou de tertúlia. Ter conhecido o Tiago às portas de uma cave de São Domingos convertida em Igreja Baptista por uma decoração espartana fez todo o sentido. Que ele tivesse sido o primeiro blogger que encontrei após o regresso oficial, também.

Talvez por ter estado há tanto tempo lá fora e pouco habituado às palestras em Português, não pude deixar de reparar no cuidado com que todos os intervenientes trataram a língua. Aquela gente sabe falar e senti-me em casa quando um deles se dirigiu a todos os presentes assim: "os que são protestantes, ou que são católicos e os que não são nada".

Acabou por haver pouco tempo para conversar com o Tiago, uns 2 minutos antes do começo e uns 5 antes da despedida, mas foi o suficiente para sarar uma pequena ferida que ficara das discussões sobre o aborto, ponderar uma discussão pública sobre criacionismo diante de gente que me "faria a folha" e pensar numa jantarada com dois rapazes da margem sul. Iria até a nado, abram lá as agendas.

dezembro 04, 2007

Brevíssimo diário de Queens (1)

Queens_large.jpgNos bancos das carruagens da linha E, que liga Manhattan a Queens, um alinhamento de chinês, filipino, mexicano e preto é menos improvável que um straight no poker. Poderia parecer um anúncio da Benetton se as pessoas fossem mais bonitas, ou uma reunião de um grupo de trabalho das Nações Unidas, se estivessem mais bem vestidas. Mas é só gente de Queens, um bairro que nem sequer aparece muito no cinema, como Brooklyn.

Um abraço para o Tiago Mendes

A direita portuguesa é pela meritocracia, mas assobia para o lado quanto à lotaria social e genética do nascimento.

A direita portuguesa é pela liberdade, mas revela-se intolerante com as minorias.

A direita portuguesa não percebe o orgulho gay. E explica-nos ainda que quem apoia ou simplesmente tolera tais manifestações denuncia uma condescendência hipócrita e contraproducente. Num momento de puro humor absurdo, alguns indivíduos da nossa direita de irreprimível pendor didáctico não resistem a partilhar connosco os seus próprios instantes de vítimas de discriminação e a indicar o caminho a seguir. Por exemplo, ao patrulhamento das brigadas do politicamente correcto, a Rititi prefere que lhe comentem a anatomia. Isto é notável, mas será relevante? Suponho que a haver canhotos na direita, também nenhum se manifestará na rua contra as boas marcas de canetas de tinta permanente e a sua política de não lançar modelos que permitam a uma minoria não esborratar a página e as mãos. O adolescente homossexual filho de pais católicos ortodoxos vibra por simpatia e sente-se reconfortado, tal a força destes exemplos.

Sempre suspeitei que o cúmulo do egocentrismo, em que qualquer tentativa de entendimento da sociedade passa por uma tradução para a linguagem autobiográfica, fosse um dos maiores entraves a que nos possamos entender sobre questões simples. Tal tese só se tem confirmado.

dezembro 01, 2007

Lusoscópio (2)

Alexandra Lencastre: vê-la em trajes menores, na televisão, encheu-me de um pudor que nem uma cena de bacanal zoófilo seria capaz de induzir. Se Rachel Welch e Sofia Loren podem perpetuar a sua beleza, tal como - até me faltam exemplos - Carla Matadinho um dia o fará, com as sex symbols de diferencial etário óptimo a perenidade é contraproducente. Para nós.

Ouso revelar o dirty little secret da minha geração: a nossa sexualidade e orgulho-próprio foram salvos pela decadência física de Samantha Fox. Olhar para ela agora deixa-nos a salvo de flashbacks embaraçosos.

Tendo surgindo quando já não havia nesta cabecinha lugar para mais fantasias sexuais - que marcam presença pela ordem de chegada e devem nada ao bom gosto -, a Lencastre, com o seu aspecto impecável e uma sensualidade até algo exagerada, ainda é capaz de me arremessar a uns bons 15 anos na direcção do passado. Não sei se gosto, mas não há propriamente culpados.

25 de Abril, sempre

De vez em quando, um amigo dos que passam por aqui pergunta-me sobre o que ando a escrever. Se lhe digo que tudo o que rascunho vai para o MI, fica desiludido. Mas se lhe falo de um projecto, mesmo que ainda na fase de ideia e sem uma única linha escrita, ele fica mais animado e, sobretudo, menos perplexo. Custa-me usar o artifício dos projectos - a probablidade de os concretizar é inversamente proporcional ao número de vezes que os partilho com alguém- , mas este meu amigo vê o blogue como a parte emersa de um iceberg e sinto-me obrigado a corresponder às expectativas. A verdade é que não há iceberg. Aliás, estas conversas lembram-me - enfim, porque me contaram - a excitação entre os literatos logo após o 25 de Abril. Julgava-se que havia imensas obras-primas no recato das gavetas, à espera de melhores dias. Foi o que se viu, não havia nada.