novembro 30, 2007

Lusoscópio (1)

Gatos fedorentos: não perderam qualidade, apenas a soterraram na quantidade. Vejo nisto a marca da genialidade. O excesso de procura fez baixar os padrões de qualidade do grupo e obrigou-os a reciclar ideias, mas os momentos de rasgo ainda acontecem. Eles não esgotaram o baú, embora precisem agora de encher chouriços. É a vida. A de Bach, por exemplo, também foi assim, salvaguardas as diferenças - refiro-me à farta cabeleira do músico e à opção capilar sempre rasante do RAP.

novembro 28, 2007

Casas de hospedagem

No placard que anuncia in loco as intervenções urbanas no Intendente, não pude deixar de reparar no termo "casas de hospedagem". Parece que entretanto fecharam 14 destes estabelecimentos na zona. Ora, um pouco mais acima, sobraram pelo menos duas pensões, cujos nomes omito para não comprometer o relacionamento cordial que espero manter com a vizinhança. Hoje, por volta das 7 da manhã, a concluir mais um reconhecimento a pé de um bairro que exala uma indisfarçável* atmosfera lobo-antuniana - de resto, mais agradável nas calçadas do que no papel-, cruzei-me com um táxi estacionado, de onde saíam um rapaz africano e duas moças brancas de aparência bastante profissional. Não percebi se regressavam do turno da noite para o merecido descanso, escoltadas pelo patrão, ou se se preparavam para horas extraordinárias na companhia de um cliente. Em todo o caso, foi um encontro fascinante- e tudo em Lisboa tem um ar familiar, nada perverso.

Percebi cedo que este meu estado de encantamento perpétuo não dá bons textos para os lisboetas mais sedentários e é por isso que ando a escrever pouco, apesar dos posts que estalam na cabeça como só nos primeiros meses da minha vida de blogger.

* Obrigado. Foi, digamos, gralha. Ou jet lag.

novembro 27, 2007

Moving fast

O túnel do Marquês foi uma obra essencial. Vergo-me perante o seu impulsionador.

novembro 25, 2007

Moving along

Nenhum homem honesto e cognitivamente apto pode levar a sério a ideia e os rituais de renascimento, por mais prolongada que seja a imersão completa. Desde quando uma amona é capaz de mudar uma vida?O mesmo para as mudanças de continente. Ainda agora, estava a calcular a volumetria dos meus arrumos e concluo que me falta pelo menos mais um armário.

novembro 23, 2007

O lançamento em Lisboa deve ocorrer no dia 6 de dezembro, no Frágil*

SafeRedirect.aspx.jpg* Não estarei presente, mas assegurarei representação legal.

novembro 22, 2007

Moving on

As coisas passageiras devem ficar no passado e num dicionário descubro três razões, qualquer uma suficiente para validar esta regra:

passageiro | adj. | s. m.

adj.,

efémero;
de pouca importância;
diz-se do sítio por onde passa muita gente;

Moving sale

Os livros, o aquário, a tralha com valor sentimental, a mesa salva do lixo e o cadeirão com propriedades narcolépticas - enfim, o espólio da América -, foram despachados por barco, em Julho. Desde então, a casa acusava a desolação do contraplacado e, para prevenir angústias futuras, fui-me concentrando nas imperfeições das paredes. Até com as plantas volumosas, impossibilitado o salto transatlântico pelo sal e a escuridão do contentor, deixei de ter empatia. A primeira vontade foi atirar tudo para o lixo, mas depois decidi-me por um protocolo a três tempos: doar roupa ao Salvation Army, aguentar uma moving sale até apenas algumas horas antes da partida e, por fim, deixar tudo o que sobrasse a colegas da minha universidade, uma população de carenciados.

Não há grande interacção com o Salvation Army, tudo se resumindo a enfiar uns sacos de plástico numa caixa de metal do tamanho de uma barraca, com uma abertura por onde só um primata conseguiria sair depois de ter entrado e que está para a roupa como o vidrão para as vasilhas. Também não é surpreendente ver oito pessoas a entrar pela casa como uma matilha de hienas que limpará um cadáver, em resposta a um mass email com a palavra "free" - sabe-se como nos EUA prezamos a liberdade. Mas uma moving sale é espreitar a natureza humana pelo buraquinho.

A minha natureza primeiro, se me permitem. Por engano, vendi um item mais caro do que havia anunciado, pelo que recebi hate mail do cliente. Acabei por lhe enviar a diferença por correio normal e desculpas por correio electrónico. Ainda por lapso, fui obrigado a gerir um conflito em tempo real que me envolvia a mim e a dois fulanos interessados na mesa que havia prometido a ambos. Não foi bonito - a mesa, por sinal, era muito feia. Também a pressão do tempo vai fazendo de um homem justo um crápula. Comecei cheio de princípios. Que o bicho responsável por me ter deixado uma perna em chagas depois de uma pernoita no sofá ainda estivesse alojado numa das almofadas, era hipótese que me diminuía como vendedor, um lastro na consciência que me levava a pedir um preço como quem pede desculpa e, por fim, a partilhar o episódio. Tratando-se apenas de uma mera hipótese académica, de resto implausível, voz amiga lá me convenceu que nada me obrigava contar o sucedido, mas o desconforto permaneceu, pelo que quando me telefonavam a inquirir, ia dizendo que o sofá tinha ficado muito favorecido nas fotografias. "Tem nódoas, é velho, não arranja melhor a este preço, mas, pense bem, não acha que merece melhor? Tem filhos, não tem?" - era ainda o cenário de horror a operar, o monstro do sofá devorando as criancinhas- Grruuuaaaaaá. Acabou no lixo, não há paz que se venda por $100.

A vez aos outros. As pessoas gostam de plantas. Há uma população de nova-iorquinos que compra plantas nas moving sales como quem pratica um acto humanitário. É uma gente tão boa tão boa, que está para lá de vegetariano, só deve comer feijão em lata. Com essa malta nunca baixei o preço.

Sou por variar o preço em função do poder de compra aparente do cliente. Vejo isto não como uma exploração mas como um mecanismo complementar de justiça social. Um candeeiro é vendido a um rapaz bem trajado pelo dobro do preço que peço a um fulano de T-shirt ruça. E o acne, que indica juventude e sofrimento, é capaz de levar a abatimentos na ordem dos 40%. Justiça social e misericórdia.

Mulheres. São mais dóceis e não gostam de regatear, mas inspeccionam a mercadoria com minúcia. Não queria convocar os paralelos com as teorias de selecção sexual e investimento parental, mas sente-se na venda de um simples bule ($5) o peso da existência.

(continua)

Moving in

O silêncio dos Anjos face à cacofonia matinal do Upper East Side honra o nome do meu novo bairro.

Moving target

A minha fobia de aviões reduz-se ao pânico de ter um bebé ou um francês ao lado, por causa do barulho e do cheiro, respectivamente. Mas ontem, por insondável motivo, estava apreensivo e fartei-me de pensar no uso que daria aos meus últimos segundos, caso um rocket disparado do backyard de uma família abastada de paquistaneses pelo filho adolescente em crise de identidade atingisse o avião quando pairasse sobre Long Island.

novembro 21, 2007

Moving back

So what, I can still wish you, can't I?

And as Dickens (I think) said, in every parting there is the shadow of the final one..

N.

Simular a morte e o funeral para saber quem gosta de nós é um pouco excessivo, mas na despedida sente-se quem nos quer bem e repeti-la prolonga o gozo sem ofender.

Terminal do aeroporto de Newark, agora

Not about soccer

poland.jpg

novembro 13, 2007

Abruptamente

RichterFuneralBeerdigungL-1.jpgFuneral (Beerdigung), Gerhard Richter, 1988. Oil on Canvas 200 cm X 320 cm

Será que Pacheco Pereira tem amigos? Ninguém o aconselha a parar com aquele festival de fotografias horrendas que dura há uns 2 anos? Pacheco tenta aproximar-se de Deus; ele, que já era omnisciente, descobriu no contributo dos seus leitores a ubiquidade possível. Mas a obsessão pelo documento também já deve ser síndrome.


Bem, vou meter baixa outra vez. Marcamos encontro para Agosto de 2055, mas não sem antes deixar o meu contributo à Bloggers Anonymous, uma ferramenta gratuita para bloquear sites e controlar o vício em horário laboral.

Da irredutibilidade da beleza


Un dia de Noviembre, (1968) Leo Brower

novembro 12, 2007

Anger management (4)

thing.gifTodos os anos, renovo os votos para que no Natal não me ofereçam roupa interior com bonecada, cintos de fivela dourada, saca-rolhas, navalhas, bases para copos, cabazes com garrafas de vinho de qualidade suspeita, canetas com cromados, canetas de tinta permanente, carteiras e outra marroquinaria, camisas à beto, pullovers à beto, meias à beto, livros do Miguel Sousa Tavares, perfumes, águas de colónia, cêdês do Phil Collins, bombons, porta-chaves, gravatas com tartarugas, gravatas com cornucópias, enfim, gravatas com motivos e gravatas sem motivos, lenços monogramados - à beto, portanto -, molduras com motivos náuticos - à beto - e tralha de decoração aburguesada, como miniaturas de sextantes e barómetros que não funcionam.

A lista anterior é largamente composta por apetrechos masculinos e apetrechos para betos, dois conjuntos cuja intersecção [corrigido duas vezes]- diga-se - não é um conjunto vazio. Ora, sobre os apetrechos masculinos, um dos poucos que dão jeito não fica bem junto do presépio, por ser descartável, não ligar com a imaculada concepção e despertar nas crianças um desejo inconveniente de encher balões condenados às brasas da lareira, se confiscados pelo tio mais conservador. Sobre os outros apetrechos, o único capaz de despertar alguma cobiça é a namorada do beto, aquela moça de invejável tónus muscular, pele e cabelo bem tratados, que mescla com sabedoria as pérolas da avó e os Adidas Stan Smith cor-de-rosa. Ora, que eu saiba, ainda não se troca de namorada no Natal como trocamos presentes, talvez porque os buraquinhos para respirar iriam estragar o papel com as folhinhas de azevinho. Assim sendo, para evitar estes dois cenários desoladores, não me ofereçam prendas no Natal, a menos que seja um livro bom de um autor bom, um presunto bom ou qualquer outra coisa mesmo especial ou boa. Há 20 anos que sofro da fobia de desembrulhar - que a pressão académica sobre os psiquiatras já deve ter feito síndrome.

Solidariedade

asterix10.jpgCom o meu amigo Th, também apostei uma vez um jantar (Gramercy Tavern) em como no álbum Astérix, legionário o aspirante muito magrinho e que veste um casaco de peles volumoso é o egípcio. Perdi, o moço é o visigodo. O jantar saiu caro e eu fiquei pior do que um centurião desconsolado (ver capa).

novembro 11, 2007

kamikazes de pacotilha

medium_Kamikaze japonais.jpgUm dos hábitos mais levianos em quem nunca guerreou é o recurso a metáforas bélicas para descrever relações amorosas. O ridículo do gesto é ainda exacerbado pelos tempos que correm, em que já ninguém morre por amor - alguma vez se morreu? - e ninguém fica à espera. Sucede apenas que a banalização das relações multiplica os conflitos, as vinganças, os traumas, etc. E apesar de tudo ficar ligeiramente aguado, as oportunidades são demasiado frequentes para não se passar por kamikaze. Mas como ninguém é ferido de morte e estas mortes são ritualizadas, o exercício só é credível para quem leva uns dez anos de atraso, ou seja, estamos perante um gato por lebre em que os mais novos são ludibriados. Mais constrangedor que isto só mesmo a lengalenga do professor associado à caloira. Raios, a única metáfora bélica permitida deveria ser o paintball.

Mijar o camuflado

rubber-paintball-ammunition.jpgNós que não passámos pela guerra, ficámos com a vida tão facilitada que chega a ser um problema. Dispomos de uma muito duvidosa autoridade moral para opinar sobre a guerra dos outros. Ninguém tem ideia do que é ir para o mato e poder não voltar, caminhar num terreno minado ou enfrentar uma guerrilha urbana. Ninguém sabe se a objecção de consciência algum dia lhe pesaria, se iria mijar o camuflado, se perante uma guerra iminente e justa admitiria desertar ou beneficiar de favores para não ir. Desta prova colectiva de carácter fiquei a salvo e é difícil imaginar outra, a menos que venha aí uma distopia - e não seria o governo de Menezes - que deixe Lisboa a ferro e fogo ou um qualquer azar me leve a largar tudo; podia ir para paramédico de hospital de campanha ou então alistar-me na Légion Étrangère - aceitam inscrições até aos 40 anos e estes testes são canja.

O mais perto que estive de um cenário de guerra foi hoje, num jogo de paintball. Morri quatro vezes e matei outras quatro. Diverti-me e bem sei que a ritualização dos combates faz maravilhas, a lagartos e a quadros superiores, mas repetir isto a brincar está fora de questão. Com coisas sérias não se brinca uma segunda vez - e não me aborreçam com a reprimenda clássica dos humoristas.

novembro 10, 2007

Matrioskas

Matriochka.jpg

NY, 10:20 AM

aviao.jpg (Auxiliar de leitura)

Aqui faço boa figura por causa do Google, porém tenho pouquíssimas citações na cabeça e nenhum poema. Em tempos esforcei-me por decorar o Cântico Negro, para me armar em Pinto da Costa, mas ao terceiro dia já havia esquecido o "florestas" em "Só para desflorar florestas virgens" - outro lapso, que desnuda a tensão erótica do poeta e vulgariza a sua criação. Uma das poucas citações que decorei - embora desconfie que em alguma etapa também a adulterei - pertence a Vergílio Ferreira: a experiência é a desautorização progressiva daquilo que nos entusiasmou. Luto todos os dias contra isto, mas "acumula experiência sem perda de entusiasmo" soa a filosofia de fortune cookie de tasca. Já a tirada do escritor... parece ter sido gravada a escopro ao fundo de uma caverna esquecida - e pelo chão, ainda o rádio e o cúbito esquerdos se destacando ligeiramente das restantes ossadas.

A frase pode aludir aos efeitos da rotina sobre um entusiasmo particular, mas também ao desgaste do próprio acto independentemente daquilo que se experimenta. Não é segredo que a curva de acumulação de experiências, tão íngreme na infância, rapidamente tende a aplanar. Num exercício que exacerba a misantropia para contornar matérias privadas e exclui a esfera laboral para não maçar o leitor, quantas experiências memoráveis tive desde 2004? Nadar ao lado de uma tartaruga, no Belize, jantar no Charlie Trotter's, em Chicago, os Brandenburgueses, no Lincoln Center, a medina de Fez. E é tudo.

TORO.jpgComo se sabe, no depauperamento do universo das novas experiências possíveis, o contributo das experiências acumuladas vai muito além da simples subtracção. A tendência para a evocação e o reconhecimento são muito fortes e cada experiência retida aglutinará e catalogará inúmeras experiências futuras - a tal memóire involontaire. Sempre pensei que esta memória, conhecida de todos mesmo sem a literatura, teria um poder encantatório perene, inclusive naqueles marcados por infâncias menos felizes, por ser uma forma de fazer círculos ao tempo, que é a aproximação possível à eternidade. Até ontem. No restaurante japonês do bairro, onde com Th. descobri em tempos que os Rieslings são a bebida ideal para o sushi, pedi toro de atum pela primeira vez e o prazer que experimentei só por disciplina mental não desapareceu em segundos. A primeira sensação foi absolutamente desmemoriada, Proust que me perdoe, com o sistema nervoso reduzido às papilas gustativas. Nenhuma evocação. De resto, seria depois um esforço da razão a levar-me à memória involuntária, quando tentei explicar o gosto daquela carne gordurosa e a comparei aos secretos de porco preto. "Toro de atum, os secretos do oceano", anunciei, e só depois senti a engrenagem da máquina do tempo que me enviou para os Natais no Alentejo dos anos setenta. Tive de lutar contra isto, salvar a lembrança do toro do efeito dominante da Planície, proteger o toro como quem luta contra uma monocultura de recordações de infância, tentando evitar que as memóires insidiosas fizessem do presente um deserto. Daí o esforço de ontem, este voluntarismo em reprimir as recordações de infância involuntárias, como quem troca a eternidade pelo direito a sair de um círculo de tempo cujo diâmetro ainda nos parece demasiado pequeno. Não deve pois causar surpresa o anúncio de que, doravante, assobiar o tema do Verano Azul ao meu lado é um modo pouco subtil de pedir um murro no olho.

Mas tratemos do essencial. No regresso iminente a Lisboa, a resolução do problema dos espaços públicos saturados de fumo de tabaco é cada vez menos prioritária, por ser inevitável e se discutir com o nonsense que faz conservadores de liberais - e vice-versa. A questão urgente e real é mesmo: onde encontrar toro de atum na capital? Volto a pedir ajuda a Eduardo Pitta e Francisco José Viegas.

novembro 08, 2007

Bacon e Bacon

document.php.jpeg

It is the peculiar and perpetual error of the human understanding to be more moved and excited by affirmatives than by negatives. Francis Bacon (1561-1992)

Imagem: Study after Velazquez's Portrait of Pope Innocent X [original a cores], 1953, Francis Bacon (1909-1992)

Para infidelidade futura

O problema não é os aldrabões espertos e os amantes maquiavélicos partilharem a mesma inteligência, mas despertarem idêntico fascínio.

O primeiro loop

quijote.jpgSobre os textos de João Pereira Coutinho, Miguel Esteves Cardoso escreveu que os devemos ler duas vezes, primeiro pelo prazer e depois pelo conteúdo - ou então era ao contrário, não me lembro. Pois bem, falando apenas por mim, aqui confesso que certos posts de Miss Allen requerem pelo menos três leituras, as duas a que MEC se refere e uma terceira, em que os tento perceber na totalidade. Fico sempre com a sensação de que algo me passou ao lado - é, aliás, a mesmíssima sensação que tive um dia ao olhar para uma partitura de Karlheinz Stockhausen. Tenho um problema parecido com outros literatos da blogosfera e com alguns bloggers que praticam a arte do post torrencial, mas desconfio da competência dos primeiros e a pressão laboral obriga-me a saltar alguns parágrafos dos segundos, o que tem um impacto sobre a compreensão do texto - e por vezes até é um impacto negativo. Miss Allen goza pois de um estatuto à parte.

Na minha burrice, pensei - à primeira leitura - que Miss Allen não havia lido o meu desafio sobre a malfadada página 161. À segunda leitura fez-se luz: Miss Allen tenta matar a corrente com o requinte da disciplina, como um suicida raro que se estrangula com as suas próprias mãos. Mas à terceira leitura percebi que Miss Allen acabara de criar um monstro. E se lhe volto a responder? Ficaremos em loop?

Vuélvase vuestra merced, señor don Quijote, que voto a Dios que son carneros y ovejas las que va a embestir. ¡Vuélvase, desdichado del padre que me engendró! Qué locura es ésta? ¿Mire que no hay gigante ni caballero alguno, ni gatos, ni armas, ni escudos partidos ni enteros, ni veros azules ni enbiablados. ¿Qué es lo que hace? ¡Pecador soy yo a Dios! Don Quijote de la Mancha, Cervantes.

novembro 07, 2007

Nem um único verso para os ciclotímicos


Man Of Constant Sorrow

Lyrics: Traditional
Music: Traditional

(In constant sorrow through his days)

I am a man of constant sorrow
I've seen trouble all my day.
I bid farewell to old Kentucky
The place where I was born and raised.
(The place where he was born and raised)

For six long years I've been in trouble
No pleasures here on earth I found
For in this world I'm bound to ramble
I have no friends to help me now.

[chorus] He has no friends to help him now

It's fare thee well my old lover
I never expect to see you again
For I'm bound to ride that northern railroad
Perhaps I'll die upon this train.

[chorus] Perhaps he'll die upon this train.

You can bury me in some deep valley
For many years where I may lay
Then you may learn to love another
While I am sleeping in my grave.

[chorus] While he is sleeping in his grave.

Maybe your friends think I'm just a stranger
My face you'll never see no more.
But there is one promise that is given
I'll meet you on God's golden shore.

[chorus] He'll meet you on God's golden shore.

Para aficionados

Elogio do analfabetismo


Paco de Lucia tem uns grandes cojones e não o afirmo por causa dos vídeos das suas caçadas submarinas em tanga curta. Depois de ter revolucionado a guitarra flamenca, foi tocar com Meola e McLaughlin, numa linguagem que não dominava. Andou então a apanhar bonés, os acordes passavam por ele como os "postes de electricidade à janela de um comboio em andamento" (expressão dele), até que acabou por perceber aquilo e conseguiu solar com razoável fluidez. Continuou a lançar os melhores discos, incluindo Siroco, provavelmente o cúmulo do flamenco, até hoje - comprem este disco, pela vossa saúde. E como devia andar aborrecido ou a precisar de umas massas para a casa de campo, a dada altura resolveu gravar o Concerto de Aranjuez, sem saber ler uma nota de música. Rodrigo (o compositor) gostou, eu adoro e a vox populi afirma:

"8:33, es en ese instante en el que su interpretación pasa por encima de las de pepe romer[o], yepes, julian bream, etc, es incluso mejor que la de john williams" lesludmm73

O primeiro vídeo tem o corte mais anticlimático que conheço no Youtube, pelo que é preciso um segundo para se chegar ao fim do andamento. O melhor é comprar o disco.

Já a seguir: Pepe Romero, Yepes, Bream e Williams - isto é um blogue sério e não se brinca com coisas sagradas.

Isto não é uma efeméride

berlin_wall.jpg
Jim Morrison morreu e só maluquinhos defendem que ele ainda ande por aí. Há depois o exemplo inverso: a esquerda não morreu, mas os iluminados insistem em anunciar o seu fim ou questionar a sua existência. Andamos nisto há 18 anos.

novembro 06, 2007

Paco, Campo Pequeno, 29 de Novembro






Apareçam...

novembro 05, 2007

Bagatela de Outono

escondida.jpgA barbaridade encontra plateia que a aplauda, porque alguém sempre se deixa seduzir pela coragem do autor em afirmar aquilo que muitos pensam e recalcam. Há um encanto libertador - quase um alívio - nesse reconhecimento. O argumento implícito, tão irredutível quanto insidioso, é que devemos aceitar estar refém dos nossos instintos - não só sabemos bem de onde vem a pulsão para a discriminação e o egoísmo, como a sentimos pela primeira vez em algum momento que remonta à infância. Mas o natural não pode ser um selo de garantia moral. Ir contra a nossa natureza é a verdadeira condição humana. E a hipocrisia íntima não é apenas inevitável, é essencial.

RichterDead1ToteL.jpg

Gerhard Richter Dead 2 (Tote 2) 1988. Oil on Canvas 62 cm X 62 cm

Momento umbiguista do dia

Aqui ficam dois agradecimentos: a Laís Chaffe, que me convidou e levou o projecto a bom porto, e a quem fez a revisão dos meus rascunhos. Beijinhos.

Prezados, o lançamento do nosso CONTOS DE ALGIBEIRA em Porto Alegre será no próximo dia 1º de dezembro, sábado, a partir das 18h30min, na ALAMEDA DOS ESCRITORES do Shopping Total (av. Cristóvão Colombo, 545 - Bairro Floresta).

Vamos fazer uma grande festa de final de ano, agendem-se e avisem os amigos.
Breve enviamos os convites por e-mail (quem quiser convites impressos, avise quantos, por favor).

Aos colegas portugueses, informamos que a escritora Luciana Veiga, da Casa Verde, estará em Lisboa na primeira semana de dezembro e já está fazendo contatos para um possível lançamento ou encontro literário.

Também estamos estudando um lançamento em São Paulo, para março.

Abaixo, confiram a lista de autores.

abraços a todos,

da turma da Casa Verde.



Adrienne Myrtes, Álamo Oliveira, Alexandre Borges, Alexandre Guardiola, Altair Martins, Ana Baggio, Ana Mendes, Ana Ramalhete, Ana Saramago, Andréa Del Fuego, Ângela Schnoor, Aurora Silva, Berenice Sica Lamas, Caco Belmonte, Caio Riter, Carlos Gerbase, Carlos Seabra, Carlos Tomé, Celia Maria Maciel, Celso Gutfreind, Christina Dias, Cíntia Moscovich, Claudia Tajes, Claudio Parreira, Cleci Silveira, Clelia Bortolini, Daniel de Sá, Daniel Rocha, Edson Cruz,Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Fernando Gomes, Fernando Neubarth, Fernando Rozano, Filipe Bortolini, Frederico Alberti, Gonçalo M. Tavares, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Rosa, Índigo, Ivana Arruda Leite, Ivette Brandalise, Jaime Cimenti, Jaime Vaz Brasil, Jane Tutikian, Jeová Santana, João Carlos Silva, João Pedro Mésseder, João Ventura, Joel Neto, José Bandeira, José Eduardo Degrazia, Laís Chaffe, Leonardo Brasiliense, Leozito Coelho, Livia Garcia-Roza, Lourenço Cazarré, Luciana Penna, Luciana Veiga, Luís Dill, Luis Ene, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Arraes, Luiz Paulo Faccioli, manuel a. domingos, Marcelino Freire, Marcelo Spalding, Maria Helena Weber, Maria João Lopes Fernandes, Mário Calado Pedro, Mario Pirata, Marô Barbieri, Milena Fischer, Monique Revillion, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Nuno Camarneiro, Nuno Costa Santos, Paulo Bentancur, Paulo Kellerman, Paulo Rodrigues Ferreira, Pedro Coelho, Pedro Maciel, Pedro Salgueiro, Rafael Mota Miranda, Raquel Grabauska, Ray Silveira, Ricardo Silvestrin, Rinaldo de Fernandes, Rita Cunha Travassos, Rubem Penz, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rui Zink, Rute Mota, Samir Mesquita, Sara Monteiro , Silvio Fiorani, Sérgio Capparelli, Sergio Napp, Tailor Diniz, Valesca de Assis, Vasco M. Barreto, Walter Galvani, Wilson Bueno, Wilson Gorj, Zezé Pina

Ainda acredito no menino Jesus

presepio.jpgApesar de ateu, desconfio da promoção que Hitchens faz do livro do seu amigo Dawkins. Esta total sintonia não pode ser bom sinal, lembra as amizades públicas entre os cantores da MPB, há ali uma mistura de pragmatismo e de propaganda que não é coisa séria. Os ateus radicais parecem-se também com os falcões neocons, na sua ânsia de acabar com as religiões. É que não têm uma exit strategy, nem um plano de contingência, apenas insistem numa utopia irresponsável. A opção não é entre Ratzinger e um mundo mais racional e livre. A opção é entre Ratzinger e o evangélico brasileiro que monta um canal de televisão e cobra o dízimo.

Há um ano, a tradicional festa de Natal na minha universidade foi substituída por uma festa temática em ambiente tropical. Reconheço que um coqueiro de plástico plantado no cimento de Nova Iorque sob o frio de Dezembro é, em sentido estrito, tão descabido como o trenó de renas do Pai Natal no verão carioca, mas o que conta aqui é a metamorfose. Se querem acabar com o Natal, as suas tradições e iconografia, como explicar um estatuto de excepção para o Ramadão e o Yom Kippur?

O Natal é a único momento do ano que une as famílias portuguesas e não há grande pachorra para este reciclado complexo do homem branco. Espero que esta moda não vingue em Portugal e tenha expressão apenas em locais irrelevantes, como a blogosfera. Um Estado laico não é incompatível com o respeito por todas as religiões. As religiões e as minhas recordações de infância.

novembro 04, 2007

Provavelmente a mais bela melodia escrita para guitarra

Desafio o Tiago a encontrar uma versão superior à de Denis Azabagic.

Os óculos de nerd de Azabagic, as malhas à montra da Almirante Reis de Grisha Goryachev, os maus pullovers de John Williams, o cabelinho escorrido à cigano-pimba de Tomatito, o smoking em dissonância com grande parte do repertório guitarrístico, até alguns dos vestidos de Ana Vidovic, os décors, as unhas compridas em uma das mãos e que sempre despertam comentários depreciativos, enfim, o défice de estilo deste universo, em puro contraste com os exageros da pop, reforça todos os dias a minha convicção de que gosto deste mundo apenas pelo que realmente conta.

Vou ficar sem leitores

Discos Pedidos

hvl.gifCaro Tiago,

O Chôro N1, do Villa (foto), tem sido violentado pelos guitarristas anglófonos. Bream, óptimo para danças da renascença e barrocas, é o exemplo mais patético, ao tentar captar o balanço do chôro com uma paradinha digna de um penalty marcado pelo Jordão. Desses grandes, David Russell cumpre, mas falta algo. O que nos leva a perguntar se os grandes géneros populares da guitarra - o Chôro, o Tango, o Flamenco ... - apenas podem ser transmitidos por pessoas imbuídas nas culturas respectivas. O Flamenco é o melhor caso para se discutir e mostra que tal imposição é taxativamente falsa ao nível da massa do sangue - Paco de Lucia e Vicente Amigo não são ciganos - mas sugere que estar mergulhado na cultura flamenca é essencial - qualquer guitarrista clássico soa ridículo a tentar o género, com a possível excepção do intérprete que é Grisha Goryachev. Assim sendo, talvez o melhor seja procurares guitarristas brasileiros, como Turíbio Santos, Paulo Bellinati e Raphael Rabello. Rabello foi provavelmente a melhor guitarra de chôro dos últimos 50 anos, porém morreu muito novo. Não sei se alguma vez gravou o Chôro N1, mas pela forma como toca o Estudo N1 não sobram dúvidas de que teria posto qualquer presidente americano a bailar, até as ossadas do Lincoln. Ah, mas vê também o Roland Dyens (francês) e os Assad (arqui-inimigos brasileiros) a tocar tangos - só para terraplenar esta sugestão de tese, o que me deixa a salvo de hate mail.


Quanto ao Tárrega, o que procuras, em concreto? O Yepes gravou quase tudo.

Cavatina

vidovic.jpgA banda sonora de The Deer Hunter, tocada por Ana Vidovic, uma excelente guitarrista, por sinal muito mais gira que todas as musas da blogosfera, incluindo a Adelaide de Sousa.

Para o Lourenço

Podes escolher o metrónomo que preferes ou então tocar as três em simultâneo, que dá um efeito giro e não deixa dúvidas sobre quem chega ao fim primeiro. A minha versão preferida seria talvez a de Hopkinson (o primeiro), se tocada à velocidade de John Williams (o segundo). O moço do fim, Rafael Aguirre (vai papando todos os concursos), abusa dos dedos que tem, ganhando um minuto a Williams - raios, isto é o prelúdio da suite BWV 1006a, de Bach, não o Col du Tourmalet. Mas não deixa de ser interessante reparar que com a idade do instrumentista a interpretação se torna cada vez mais lenta.

The works of Johann Sebastian Bach which are generally considered to have been originally written for the lute (BWV 995-1000 and 1006a) are being published here [J.S. Bach - Complete Works for Lute] in a series of practical editions. Unlike some other collections in Bach’s oeuvre, the lute works come from diverse sources and were never considered to be an organic unit during the composer’s lifetime. They were first grouped together at the end of the 19th century by the editors of the Bach Gesellschaft. The numbering of the Suites that is commonly used by guitarists today dates from the 1920’s. Many questions remain regarding the playability of these works on the lute. The original keys are sometimes awkward, and there are problems of range and density of texture which can lead one to ask whether they were actually conceived for the lute at all. Interestingly enough, Bach’s solo Sonatas and Partitas for violin and his Suites for cello often lend themselves more organically to the lute. (...) I have steered clear of scordatura tunings and modifications to the instrument itself. In some cases, where the original key of a piece seemed unnecessarily cumbersome, I have changed it, taking it as a principle that there is nothing sacred in a tonality if it renders a piece, or parts thereof, unplayable. I feel that this approach starts with the music itself and seeks to bring it to life in a pragmatic spirit that is close to the 18th century.

Hopkinson Smith


Dias

As três cidades que conheço não partilham os dias em que são mais vibrantes. Em Lisboa, é no Santo António, em Paris, na Fête de la Musique (21 de Junho) e em Nova Iorque é hoje, o dia da maratona.

Lapsus linguae*

Só agora reparo que afinal a página era a 161 e não a que pensava. Se calhar pareceu-vos uma piadinha e será praticamente impossível convencer-vos do contrário, embora se saiba que já não tenho 15 anos. Enfim, este embaraçosos erro implica um pedido de desculpa aos leitores e, aproveitando um reincidente desafio do Yesterday Man, volto à quinta frase da tal página 161. Hoje, excluindo o livrinho de instruções do meu ferro de engomar Black & Decker, o volume é Collapse, de Jared Diamond. Que o Yesterday Man me perdoe por mais um exemplo de obra vulgarizadora, mas a distância mais curta entre dois pontos ainda é uma linha recta e o que tenho de Georges Bataille já atravessou o Atlântico num contentor, junto com o meu aquário vazio - lancei os peixinhos na babugem de Coney Island e com instruções para que fossem nadando sempre para Este, até que o ventre lhes começasse a roçar no areal da praia das Maçãs. Assim sendo, sou de novo obrigado a evitar a página 161 (um mapa) e a passar para a página seguinte, cuja quinta frase é: How did those available southern Maya populations deal with their resulting water problem? - eis um problema universal, no tempo e na geografia, a julgar pelos problemas de abastecimento de água das populações portuguesas do Algarve.

* "Lapsus linguae é um deslize oral; para os da pena, bic e teclado usa-se o lapsus calami" - de uma leitor da margem sul devidamente identificado.

novembro 03, 2007

Amo o Estado Português

LotImg11939.jpgNo essencial, está cumprida a anunciada saída do armário. Tentarei decompor. Mas hoje há cinema de tarde e Murray Perahia de noite, no Carnegie.

Nani

Não percebo puto de futebol mas correm rumores de que Nani é um flop e gostaria de ouvir os especialistas. A verdade é as jogadas de Nani no you tube geralmente acabam com a bola dentro da baliza, o que me parece que vai de encontro aos objectivos do jogo. E em poucos meses, o miúdo já marcou uns 3 ou 4 golos pelo Manchester mais bonitos do que quase todos os golos de Cristiano Ronaldo, um veterano do clube.

I, II, III e IV.

O lince da Malcata da língua portuguesa

Tenho uma certa ternura pela moda ainda relativamente circunscrita da prosa sem artigos. Parece que é de inspiração anglófila, mas na verdade lembra o inglês dos russos. Isso e o princípio de um método de leitura rápida de Woody Allen, neste caso aplicado à escrita, que passa pela eliminação sucessiva das classes de palavras menos importantes. Com este método, Allen terminou o Guerra e Paz em 20 minutos e, curiosamente, o único comentário sobre o livro que lhe ocorreu foi: "it involves Russia". Isto anda tudo ligado.

novembro 02, 2007

Marisa Tomei

WT-Tomei.jpg

Vi-a uma vez numa peça - aliás, um reading - de Oscar Wilde, em que fazia de Salomé com sweatpants e top justinho. Contracenava com... hum... Pacino, Al Pacino. Acho que era o Pacino, mas estava tão pouco concentrado no Herodes que podia ter sido o Chuck Norris e ia dar no mesmo. Tomei não é exemplarmente bonita, mas tem aquela qualidade animal que os homens apreciam e os olhos escuros mais preciosos do cinema feito deste lado do Atlântico.

Sidney Lumet, 83, e Marisa Tomei, intemporal

before.jpg“Devil,” directed by Sidney Lumet from a script by Kelly Masterson, is a chronicle of destruction — physical, spiritual and moral. That most of the victims and most of the perpetrators are members of a single family gives the story some of the suffocating fatalism of an ancient tragedy. But the workings of fate figure far less in the narrative than bad choices and unlucky accidents. The evil in this world arises not out of any grand metaphysical principle, but rather from petty, permanent features of the human character: greed, envy, stupidity, vanity. There are no demons on display, just small, sad, ordinary people. The filmmakers rigorously tally the results of their sins, minor lapses made monstrous by the failure of love and the corruption of ambition. Simple, familiar desires — for money, sex, status, respect — end in murder.

Como se vê, até o New York Times tem parágrafos redundantes, mas ainda vale a pena ler o resto.

Aren't we all?

"Sorry for the clutter.

We are in desperate need of some Brain-Heart infusion..."

Group email de um colega devidamente identificado

Óbito do post curto

O post curto interessa-me cada vez menos. Leio a Voz e o Mexia, por gosto e hábito, mas já desisti de procurar o Oscar Wilde lusitano. Hoje, os meus grandes momentos de blogosfera acontecem com alguns posts compridos . Já não há grande pachorra para o instante iluminado, o trocadilho bem esgalhado, a facilidade. Desperdiça-se muita inteligência por aí. Gosto do post com métier e suor. Há posts que me levam a livros. A blogosfera é o meu curso universitário ao pequeno-almoço... e - pronto, pá - em horário intersticiamente laboral.

O dilema do defensor da escola pública e o inverted snob útil

Neste debate, alguém sempre aponta a incoerência que é defender a escola pública quando se tem os filhos no colégio. Há porém um grupo que escapa a esta crítica: o dos socialmente catapultados pela escola pública.

O orgulho indisfarçável em revelar que se frequentou uma escola pública medíocre assenta na sugestão de que, apesar das condições adversas, singrou-se na vida. Por outras palavras, frisa-se a nossa excepcionalidade sob uma aparência de modéstia quase confessional. Mas partilhar este dado biográfico não se reduz a um simples impulso de inverted snobbery, antes destrunfa a jusante o adversário, com o requinte persuasivo de se usar a única lógica que este percebe - a de inspiração darwinista. O que se sugere sub-repticiamente é isto: "eu passei pela escola pública e conquistei a chave do colégio para os meus filhos. Defendo que outros tenham idêntica oportunidade".

novembro 01, 2007

O primeiro bom email do dia

"Figaro on Nov 14, Wednesday, booked!" R.

Miguel elogia Miguel, via Mel

mst_01.jpgTenho 6 motivos para não abrir os livros de Miguel Sousa Tavares (MST): 1) não gosto de romances históricos; 2) procuro evitar romances longos; 3) por indução, conclui que não iria apreciar o universo criativo de MST, isto é, o homem não me desperta curiosidade; 4) considero MST um excelente cronista mas não me entusiasmo com o seu estilo - li o Não te deixarei morrer, David Crockett; 5) por snobismo meu, o mega-successo de Equador desmotiva; 6) ninguém me paga o frete. Excluindo o quinto motivo (falha de carácter) e o sexto (graçola), todos os outros me parecem válidos.

O sucesso de MST não pode resultar de méritos exclusivamente literários, por razões óbvias. Mas em vez do desconforto que tantos experimentam, só me vem à lembrança uma ternurenta crónica de Miguel Esteves Cardoso (MEC) sobre Mel Gibson. Há já alguns anos, Gibson, o cabotino, teve a lata de interpretar Hamlet e, à revelia do protocolo, MEC escreveu em sua defesa. Se não estou em erro, o argumento era o de que Gilbson tivera a ousadia de se atirar para a frente e testar os seus limites. O mesmo aconteceu com MST. Provavelmente sempre ambicionou escrever livros e um dia resolveu atirar-se. Não o ignoraram, nem se estatelou.

Há centenas de pessoas com um livro na cabeça que nunca será escrito, por medo, preguiça, falta de tempo, vergonha, incompetência, etc. Este grupo inclui os potencialmente brilhantes, os demasiado inteligentes para o nosso tempo e até quem, por estimável modéstia, optou por suspender a exploração dos seus talentos evidentes e dedicar-se à leitura ou à bricolagem. Mas que interesse poder haver nessa enorme biblioteca escrita no cérebro, em que cada livro só tem um leitor e com ele morrerá? Nem para arder serve... Abaixo pois os ressabiados e viva MST. Dito isto, não o lerei.

Rudimentos de liberdade de expressão

Se Pedro Arroja tivesse sido convidado para dar uma conferência num instituto de estudos judaicos antes de todos os textos anti-semitas que tem escrito e depois o convite lhe fosse retirado, nenhum dos amiguinhos de ocasião de James Watson teria protestado contra esta violação da liberdade de expressão. Se Pedro Arroja ainda não foi convidado, é muito pouco provável que um primeiro convite surja agora, precisamente por conhecermos o seu acervo de textos anti-semitas. Como é óbvio, também ninguém se choca com isto. Porquê? Porque há uma diferença entre querer dar voz a alguém e pretender calar essa pessoa, diferença que os pavlovianos paladinos da liberdade ignoram. À excepção do dean da Columbia University aquando do episódio Ahmadinejad, um convite implica um reconhecimento. Não é preciso concordar com os pontos de vista, isso seria imposição para palanque de comício, mas é fundamental respeitar o convidado. Como quando be boa vontade abrimos a porta de nossa casa.

Segundo, foi na Península Ibérica que os judeus foram melhor acolhidos e tratados ao longo de toda a sua longa história, por entre os múltiplos povos e lugares em que viveram. É claro que, mesmo aqui, acabaram por dar motivos para serem expulsos, primeiro de Espanha (1492), e depois de Portugal (1521). Mas isso foi o que eles fizeram em todos os países que os receberam durante a sua história de milénios. E que voltam agora a fazer em Espanha, mais de cinco séculos depois. Está-lhes literalmente na massa do sangue. Pedro Arroja

Já ninguém espera que Pedro Arroja se livre das suas teorias racistas - a "massa do sangue" -, mas ainda rezamos para que um dia se liberte da sua insistente visão egocêntrica, misto de nacionalismo bacoco e de fanatismo religioso, que esquece a História - a da Polónia, por exemplo - e não só exacerba a importância da Igreja Católica, como inclusive branqueia os seus episódios mais sinistros. Enfim, pela coerência, aplaudimos o anti-semita Arroja, já desde os tempos do Blasfémias, não sendo de todo impossível que o homem seja também promovido a poster child dessa vaga contra o politicamente correcto que hoje surfamos, embora seja improvável, porque defender James Watson é coisa bem mais fina.

Espero sinceramente que não falte no futuro blogue colectivo que o acolha, mesmo quando é o próprio Arroja a escrever que: "nenhum pequeno povo consegue viver milénios no seio de outros povos, por vezes em condições de franca adversidade e ainda assim sobreviver, sem ao mesmo tempo desenvolver uma refinada arte de dividir para reinar." Resta pois saber se, à escala do indivíduo, Arroja será o melhor exemplo da sua tese. Aguardemos, temos em mãos um case-study.

169... 170... 171

9780976395041.jpgObrigado. A quinta frase do segundo livro que tenho mais à mão - a página 161 do livro mais à mão é uma tabela - vai ser um problema, porque não me explicaram se a distância atravessa paredes. Não pretendo esclarecer esta dúvida e resolvi recriar alguma aleatoriedade atirando uma bola de ténis às cegas para dentro do quarto a fim de escolher depois o livro que dela se encontra mais perto - como na pétanque.

...


Afinal não há bolas de ténis em casa, pelo que usei um aviãozinho de papel- a factura da conEdison. Como tenho os livros arrumados em pilhas e na pilha mais chegada ao avião quase todos os livros me envergonham, tomei a liberdade de introduzir um novo critério: escolher o livro mais próximo considerando uma perspectiva de planta, ou seja, o livro no topo da tal pilha. É um livrinho que recomendo, mas não sei se está traduzido na nossa língua (creio que já o referi aqui): The Posthumous Papers of a Living Author, de Robert Musil. Infelizmente, a página 169 só tem 4 frases e o regulamento é omisso sobre o que fazer nestes casos. Avanço pois para a primeira frase da página 171 (a página 170 está em branco): "What matters to me", Robert Musil wrote in a diary notation dated 1910, "is the passionate energy of the idea." (Isto é, como se percebe, um posfácio - too bad).

Passo a corrente a António Figueira, Rogério Casanova (outra vez, sim), Miss Allen, Pedro Santana Lopes e Zé Mário Silva.

Paulo Nozolino

foto_4.jpg