outubro 31, 2007

Distribuição das escolas públicas e privadas em função dos resultados nos exames nacionais (2007, dados do JN)

PuPr.png
Bem sei que chego atrasado a este debate, mas perante estes dados, a única conclusão a tirar é que existe uma elite de escolas (umas 15) que se destacam. Estas escolas são todas privadas, mas separam-se tanto das públicas como das suas congéneres, enviesando a distribuição destas. Falamos de menos de 13% das escolas privadas. Isto já foi dito por muita gente, mas ainda há quem pense que o ensino privado é intrinsecamente melhor do que o ensino público, o que é uma conclusão abusiva - para ser brando.

Escolas: público versus privado

Zero de discernimento:

"Tendo em conta a total desigualdade de armas, é notável que algumas escolas privadas consigam aparecer no topo dos rankings." João Miranda

Zero de Conduta:

1, 2, 3, 4 posts que arrumam a questão.

Como um sorriso que procura a sua câmara

Ando há 5 dias com grandes clássicos - colecção de poche - no bolso traseiro das calças e ninguém me pergunta sobre a tal página 161 e a quinta frase. Em todo o caso, quem se lembrou deste jogo deve ser mais um a quem Saramago faz espécie. É altamente improvável que na página 161 de qualquer romance do homem se chegue à quinta frase.

outubro 30, 2007

Morte no Estádio

Na semana passada o F.C do Porto anunciou que vai deixar de enviar a bola para fora do campo quando um jogador adversário está lesionado dentro das quatro linhas, cumprindo, aliás, uma decisão da FIFA que nem sequer é recente. maradona

O maradona ainda não percebeu que a beleza do fair play está, justamente, em transcender as regras estabelecidas. Proibir o fair play é uma contradição nos termos, que tenta fazer dos jogadores uns bonecos de matraquilhos. Mas ainda bem que esse anúncio do FCP vem muitos anos depois de Frasco ter arrumado as botas, caso contrário não seria impossível um cenário em que, sob o apito de um árbitro demasiado desconfiado ou distraído, teríamos, de um lado, o adversário esvaindo-se em sangue com uma fractura exposta e, do outro lado, Frasco, com uma notável e inconsequente capacidade de retenção de bola, que a manteria dentro das quatro linhas e fora da baliza, para gáudio das hordas. Golo perdido, óbito certo, mas, vendo bem, quem quer desperdiçar a oportunidade de provocar uma substituição forçada? Em cada bárbaro há um estratega.

Aqui fica um momento que merece figurar em qualquer top das melhores jogadas da histrória do futebol, apenas umas posições a seguir ao drible da vaca de Pelé a Mazurkiewicz. Parece que o FCP - e até a FIFA - proíbem estas coisas:

Esta então, seria capaz de interromper a lua-de-mel de Pinto da Costa:

Caro Francisco, que opinião tem sobre isto?

A blogosfera, Portugal e até Vasco Pulido Valente não estão preparados

SousaTavares.png

Por favor, Zé Mário, tenho-te por uma pessoa sensata. Ainda não recuperámos colectivamente do último falso plágio de Miguel Sousa Tavares. Não vamos começar este circo outra vez...

Liberdade de expressão na academia

Mearsheimer, 59, the more forceful personality of the two, relishes a good intellectual fight. He is probably best known for his 2001 book The Tragedy of Great Power Politics (W.W. Norton), in which he argued that large, prosperous states aspire to hegemony and will naturally act aggressively to eliminate potential rivals. He has also written major works on the irrelevance of international institutions and the potentially stabilizing consequences of nuclear proliferation. In recent years, Mearsheimer has emerged as a leading voice — along with Norman G. Finkelstein, Noam Chomsky, and Tony Judt — against the perceived threat to academic freedom posed by some pro-Israel groups on campus.

Walt, 52, initially came to prominence as a result of his 1987 book, The Origins of Alliances (Cornell University Press), in which he modified traditional realist thinking about balance of power and why states choose to ally with one another. About five years ago, he and Mearsheimer, who were colleagues at Chicago in the early 1990s, agreed to collaborate on an article about the role pro-Israel organizations and individuals play in shaping American policy in the Middle East. They knew such an argument would make them the focus of intense condemnation, which explains, at least in part, why they decided to write the essay together. Says Walt: "It is nice to sort of have somebody in the foxhole with you."ler mais

O melhor Jesus depois de Cristo (I)

O melhor Jesus depois de Cristo (II)

outubro 29, 2007

Watson: na ressaca

O terceiro país [além da Lituânia e da Irlanda] que apresenta valores de Q.I. ligeiramente inferiores aos de outros países da Europa é Portugal, com 88 e 101, o que dá uma média de 94.5. Este resultado é compatível com o facto de este país ter o mais baixo rendimento per capita da Europa Ocidental e com o seus modestos feitos intelectuais. Os Portugueses só ganharam um prémio Nobel para a ciência dos 346 que foram atribuídos entre 1901 e 2003. O galardoado, em 1949, foi o neurocirurgião Antonio Moniz [sic], pela invenção da operação de leucotomia pré-frontal para tratamento de doenças mentais - um tratamento hoje obsoleto. Richard Lynn, in Race Differences in Intelligence, an Evolutionary Analysis (2006) [tradução minha]


Não pretendo deprimir a nação, embora a mudança de papéis seja uma boa forma de testarmos as nossas convicções. Cito este naco de prosa para frisar que:

1) os estudos sobre a inteligência (ou o Q.I., se preferirem) não são censurados. Há uma vastíssima literatura em revistas especializadas e dezenas de livros de divulgação escritos pelos próprios especialistas (como é o caso) que defendem diferenças de inteligência entre grupos humanos;

2) quem se der ao trabalho de seguir o link de Richard Lynn perceberá a lógica de financiamento destes trabalhos, as posições políticas que estes resultados alimentam e o grau de controvérsia científica;

3) Lynn é um dos académicos mais conceituados entre racistas saudosistas, adeptos de distopias eugenistas e outros, mas no parágrafo citado escreve ao nível de uma caixa de comentários de blog de segunda. Não só tem o desplante revelador de considerar uma média a partir de dois estudos com uma diferença de 13 pontos (todos os estudos feitos a europeus variam entre 88 e 107), para depois discutir diferenças ridículas entre países, como sugere uma prova anedótica, ainda mais reveladora. Don't get me wrong, também já brinquei com o Nobel de Egas Moniz, mas o contexto é importante e, desta vez, the joke is on Lynn.

Ainda Adelaide

Mas tudo isso [essencialmente, estar casada] significa apenas que Adelaide está a bom recato, as she should be. E que não há mal nenhum em que apareça em blogues, tal como as outras mulheres «irreais» de que os bloguistas tanto gostam. Pedro Mexia

Esta justificação é deliciosa, pela inversão da lógica - antes, estar casada seria motivo para não comentar - e pela necessidade - suponho que devido à aldeia cultural que é Lisboa, onde todos esbarram uns com os outros. Por outro lado, ao aceitarmos que a inacessibilidade dá à criatura uma dimensão irreal que nos desresponsabiliza, é reconfortante saber que estamos autorizados a partilhar em público as nossas fantasias eróticas com a Rainha de Inglaterra.

Luís Amado

amado.jpgTeria alguma piada se, por altura do próximo aperto de mão protocolar, Luís Amado, perfilado com os outros ministros, deixasse Sócrates de mão pendurada, virando-se de repente para cumprimentar o rapaz da bandeja dos acepipes. O PM, visivelmente incomodado, tentaria disfarçar, reciclando aquele princípio de aperto de mão num amplo gesto de quem leva a mão a coçar o couro cabeludo, mas a emenda de pouco lhe serviria pois, por empatia e algum espírito de rebeldia, todos os restantes ministros imitariam o seu gesto, no preciso momento em que o PM os tentava cumprimentar. Após sucessivas humilhações, possesso mas consciente de que chegara ao fim da fila, Sócrates esmurraria na cara o último ministro - digamos, Augusto Santos Silva - e desencadearia uma crise institucional.

Vieira da Silva

O exílio, a birra com Salazar, o casamento com Arpad Szenes, o atelier de Paris, a casa de Yèvre le Chatel, o inner circle, a relação privilegiada que manteve com poetas (Cesariny, Sophia, Alberto de Lacerda), o livro que Agustina publicou em 1982, Longos dias têm cem anos, a amizade com Mário Soares, o respaldo institucional, a colecção Brito (um presidente do Benfica...), o museu do jardim das Amoreiras, tudo contribuiu para o sucesso de estima e, por extensão, para a construção do mito. Infelizmente, basta entrar num grande museu da Europa ou dos Estados Unidos, ou numa livraria de arte (as online incluídas), para ter a noção da inocuidade da propaganda indígena.Eduardo Pitta

Há um inevitável erro de paralaxe quando se tenta avaliar a importância de um dos nossos no contexto internacional. Deste erro resulta a estimativa exagerada e, num segundo tempo, a crítica demasiado severa - mas é ainda o mesmo erro que opera. No caso de Vieira da Silva, quem entra num museu americano pode, na verdade, deparar-se com um quadro da pintora. Já me aconteceu.

É claro que Vieira da Silva não tem a projecção de Modigliani, mas o universo que conta é o dos pintores nacionais. Ora, entre os pintores portugueses falecidos, Vieira da Silva só é menos famosa no estrangeiro do que Amadeo de Souza-Cardoso - e a coisa pede photo-finish. Há mitos lusitanos bem mais idiossincráticos...

Ranking (2): uma microcausa

Os dados mostram que as notas dos exames internos estão inflaccionadas e - o que é mais grave - que as escolas se distinguem pelo grau de inflacção. Há apenas duas formas de minorar o impacto desta fraude: (1) desconsiderar por inteiro o desempenho do aluno aferido internamente; (2) ignorar a classificação absoluta de um exame interno e considerar apenas o percentil, isto é, a posição relativa desse aluno em relação aos colegas da escola que frequenta. O resto é conversa.

outubro 28, 2007

Nuances

Gostar de ler em viagem e detestar literatura de viagens.

outubro 27, 2007

Ok, something like this, then, George [Martin]


McCartney explica o arranjo a George Martin. Priceless...

Tudo é bom neste vídeo: a primeira frase, a guitarra à canhota, a entrada desafinada, a canção, a vocalização da parte do corne francês, o anúncio do instrumento já com falta de ar e a lembrar o Tubular Bells do Oldfield - raios, estou velho -, a variação sobre o when all the things you said... A letra é sobre uma separação e o título faz da coisa uma boa minuta, but who cares? A minha parte preferida sempre foi a do corne francês e - creio que já o confessei - não sendo capaz de um entendimento em tempo real das palavras da pop, quando acaba a canção e vou ler a letra tudo sempre me soa a má poesia.

A propósito disto e em total sincronia, porque aqui os fins de tarde de Sábado chegam com cinco horas de atraso.

For no one

The day breaks, your mind aches
You find that all her words of kindness linger on
When she no longer needs you

She wakes up, she makes up
She takes her time and doesn't
feel she has to hurry
She no longer needs you

And in her eyes you see nothing
No sign of love behind the tears
Cried for no one
A love that should have lasted years

You want her, you need her
And yet you don't believe her when
she said her love is dead
You think she needs you

And in her eyes you see nothing
No sign of love behind the tears
Cried for no one
A love that should have lasted years!

You stay home, she goes out
She says that long ago she knew
someone but now he's gone
She doesn't need him

The day breaks, your mind aches
There will be times when all
the things she says will fill
your head
You won't forget her

And in her eyes you see nothing
No sign of love behind the tears
Cried for no one
A love that should have lasted years.

Casamento entre homossexuais: dois maus argumentos

Decorre aqui um comprido debate sobre o assunto, que ao comentário cinquenta e tal derivou para uma discussão sobre o incesto. É o costume - por vezes a deriva é para a poligamia e ocorre mais cedo, mas isso não se pode prever. Prefiro evitar as implicações mais picarescas que a técnica de retórica do slippery slope - o "levado às últimas consequências" - sugere. Não sei se estamos preparados para uma comunidade poligâmica em Pombal, mas não me parece relevante. Sem querer limitar a liberdade de expressão a ninguém, o único elemento passível de discussão nesta polémica é o implícito direito à adopção de crianças por casais homossexuais (se reconhecidos por lei). Consigo perceber que esta possibilidade provoque alguns atritos, apesar de ser da opinião de que os homossexuais também devem poder adoptar. O problema é que quase nunca se chega aqui, tal o grau de disparate e preconceito, inclusivamente quando mascarado de constitucionalismo e direito retentivo-anal.

O meu mau argumento preferido - que por vezes não chega a ser verbalizado, mas se lê nas entrelinhas - é o de que o casamento dos homossexuais viria desvalorizar o casamento. Aqui, choca menos o insulto do que o ridículo. Meus caros, desde quando os heterossexuais precisam da ajuda dos homossexuais para destruir o casamento? Com as actuais taxas de divórcio e a crescente diminuição esperança de vida do casamento, com a banalização pela cultura popular das relações extraconjugais, creio que a tarefa está concluída e não se percebe que impacto negativo poderia ter o casamento homossexual. Aliás, sem partir do princípio de que os homossexuais são nestas matérias mais nobres do que os outros, não me espantaria se, nos primeiros anos, o casamento homossexual fosse mais bem-sucedido que o heterossexual, pela mesma lógica que explica serem as maiores afluências de voto aquelas em que participam povos antes subjugados a um qualquer ditador. Como se não bastasse, o casamento mais folclórico - o católico - está fora desta discussão, pelo que os casais heterossexuais - católicos ou não - que desejem um estatuto de exclusividade podem sempre optar por casar pela Igreja, coisa que muitos já fazem por motivos bem pueris e à margem da convicção religiosa.

Um segundo argumento mau, não específico desta discussão, é também recorrente e pode ser expresso de várias formas: "a questão não é prioritária", "há problemas mais urgentes", "o BE é favorecido pelos media". Se a anterior posição é vagamente estúpida, esta soa descaradamente hipócrita. Há por aí uma lista de temas ordenados por relevância e uma regra de precedência que nos impeça de discutir ou tentar resolver um deles antes de se ter solucionado os que na lista ocupam uma posição superior? Qualquer outra actividade política deve parar até se resolver o problema da fome em África? Se esta ideia das prioridades é genuína, quem pensa assim esquece o modo de funcionamento das pessoas e das instituições, e terá um choque no dia em que perceber que nem todos temos os mesmos interesses. Enfim, talvez seja mais sensato admitir que ninguém alinha pela lógica das prioridades e que a esta visão apenas encapota o enfado e desconforto de tantos perante o problema. Este grupo inclui pessoas que não encontram argumentos de fundo para que os homossexuais não tenham os mesmos direitos que os outros, mas que se irritam com uma parada gay, e a exposição e poder crescentes de uma pequena franja de homossexuais - os das elites urbanas dos países ocidentais. São as mesmas pessoas - geralmente de direita - que se dizem liberais nos costumes mas exigem que os homossexuais se mostrem discretos, não aceitando a atenuação de séculos de discriminação e o fenómeno do reforço identitário entre minorias como explicação e justificação para o tal orgulho gay. Apesar de serem a maioria, sentem-se legitimados a fazer um paralelo com a sua alegada ausência de orgulho quanto à orientação sexual. Como se ter a orientação sexual convencional fosse equivalente a ter de ir contra as normas estabelecidas e como se o simples facto de eles não condenarem uma diferente orientação sexual desimpedisse o caminho dos outros - não encontro melhor exemplo de cegueira umbiguista. Note-se que não faço a apologia da parada gay - não sei se é eficaz para a causa, sinceramente -, apenas me limito a tentar perceber por que motivo existe e a reagir contra a retórica que a condena, a mesma que condena o excesso de tempo de antena dos problemas dos homossexuais e - it's not a stretch - que rejeita o rótulo de literatura homossexual pelo simples motivo de que não reconhece na sua própria orientação sexual um traço identitário. Sim, a literatura distingue-se entre a boa e a má, but that's not the point.

Tento sempre evitar recorrer ao argumento "eu até tenho um amigo preto" das discussões sobre o racismo - uma má ideia, pela condescendência implícita - e, para não suscitar irritações justificáveis, prefiro não especular em público sobre a vida privada de cada um. Em todo o caso, limito-me aqui generalizar a partir da minha experiência e de exemplos que me são próximos. As pessoas heterossexuais mais empenhadas nas causas dos homossexuais têm geralmente um grande amigo homossexual. O meu empenhamento é moderado, mas ter amigos homossexuais fez-me perceber que qualquer das posições anteriores seria incompatível com a amizade que nos une. Ninguém nega direitos elementares aos seus amigos, nem se enfastia com a sua defesa. Se a amizade, como conceito e na prática, tem uma resiliência superior à do casamento, daqui decorre que quem usa qualquer um destes dois maus argumentos não pode ter amigos homossexuais.

outubro 26, 2007

Ranking (1)

As minhas ex-escolas secundárias aparecem na centésima quinta (Vitorino Nemésio) e quadringentésima sexagésima segunda (Eça de Queirós) posições neste ranking das secundárias de 2007. Na classificação do JN as posições mudam ligeiramente: centésima quadragésima sexta e quingentésima trigésima quinta, respectivamente. Tendo frequentado tais lugarejos, é uma sorte saber hoje comer à mesa. Mas reparem no bom gosto: Nemésio e Queirós.

E a tua escola, quanto mede? Tu, por exemplo, que te armas sempre em suburbano chique, hã? Aposto que estás nas primeiras cinquenta. Ah, o suburbano sou eu. E tu, palhaço, que tens a mania que és da margem sul e provinciano? Aposto que estás entre as primeiras seiscentas.

Teria piada fazermos o ranking das secundárias por onde passaram os bloggers. O pack do 31 da Armada e da Atlântico deve esmagar, apesar das asneiras que lá se vão escrevendo.

(Uma proposta de meme blogosférico)

Adenda: este post de João Miranda é incontornável. Incontornável. E uma vergonha para os jornalistas, se ainda ninguém havia pensado em fazer a mesma coisa. Os dados mostram que um ranking de escolas em função dos resultados nos exames internos favorece as escolas com os piores alunos. A classificação absoluta de um exame interno é irrelevante para comparar escolas e uma forma menos incorrecta - embora ainda grosseira - de comparar alunos de diferentes escolas com base nos resultados internos é olhar para o percentil, isto é, para a posição relativa desse aluno em relação aos seus colegas. Isto vale o que vale, mas uma coisa é certa: para efeitos de comparação entre alunos de escolas diferentes o resultado interno absoluto não vale nada. Nada. Como se percebe, a regra aplica-se ainda às famigeradas médias finais com que se acaba o curso. O que vale é a Universidade que se frequentou e o ranking interno entre os colegas do mesmo ano. Qualquer mecanismo de selecção de alunos/profisisonais deveria respeitar estas trivialidades.

Adelaide

Adelaide.jpg
Começo seriamente a pensar em comprar uma televisão. Ou então preciso de arranjar casa onde ir ver o programa da Adelaide. Só espero que não seja um daqueles programas para velhinhos que ocupam todas as manhãs da semana ou é desta que fico sem carreira*.

* via o único post Estado Civil deste mês com o qual concordo sem reservas.

outubro 25, 2007

What's in a sentence

f5.jpgTal como o Franciso Mendes da Silva, também até há muito pouco tempo pensava que a frase "He may be a son-of-a-bitch, but he's our son-of-a-bitch" era de Henry Kissinger (sobre Pinochet). Este equívoco, tão frequente, diz muto da besta que foi o ditador chileno e da reputação de Kissinger como o grande estratega da realpolitik, versão século XX. Nuno Ramos de Almeida prontamente indicou que a autoria desta frase pertence a FD Roosevelt, que assim se terá referido a Anastasio Somoza (antigo ditador da Nicarágua). A verdade é que ninguém sabe ao certo quem usou a frase pela primeira vez e a propósito de que ditador. Roosevelt aparece sempre nestas listas, mas há quem substitua Somoza por Franco. Outro autor citado é Cordell Hull, sobre Rafael Leónidas Trujillo (antigo ditador da República Dominicana). A lista não acaba aqui e, com tantas dúvidas, o mais prudente é considerar a expressão como apócrifa.

A citação é suficientemente crua para não figurar em documentos oficiais e demasiado boa para não ser adoptada por cada geração. Como há sempre um ditador e um putativo autor à mão - Pinochet e Kissinger, Saddam Hussein e o Rumsfeld dos anos 80, you name it- estamos na presença de um caso curioso de paráfrase reciclada em modo de autoria imposta. Não se prevê que a moda acabe nos próximos milénios.

Santiago? Faltam 2067 vocábulos, pá...

DUPLO.jpgAmazons.jpgAmazonas (do Lat. amazon < Gr. amázon: a, sem + mazós, seio) 1. Lendárias mulheres guerreiras que mutilavam o seio direito para melhor manejarem o arco, facto que torna muito enigmático o destino que davam às canhotas. Viviam num reino só de mulheres, o que aparentemente levanta sérios problemas biológicos, não respondidos de forma satisfatória pela partenogénese. Consta que as Amazonas acasalavam com homens de outras tribos e depois guardavam apenas as meninas. O esquema talvez lhes trouxesse as vantagens do vigor híbrido, mas só se cada tribo ficasse de pousio durante pelo menos uma geração, caso contrário a mana Amazonas podia, sem querer, acasalar com o mano dela apartado à nascença (vide endogamia e Habsburgos ). A lenda das Amazonas é particularmente apreciada entre feministas e lésbicas, servindo de inspiração a uma iconografia em registo erótico onde é patente que as guerreiras entretanto terão desenvolvido uma técnica de tiro com arco menos invasiva que a original (ver ilustração) 2. Megalomania fálica Após o abandono do projecto da "Transamazónica", uma longa faixa de alcatrão penetrando pela densa e frondosa floresta adentro, só uma benévola explicação psicanalítica salva agora os seus responsáveis (ver também coitus interruptus) 3. Amazonas (rio): O mais caudaloso rio do mundo foi assim baptizado por Francisco Orelhana, porque ao descê-lo, em 1541, encontrou uma tribo de mulheres guerreiras cujos seios, na azáfama da batalha, não chegou a ter tempo de contar. Sendo duro de ouvido, Orelhana (ver hereditariedade) julgou que os indígenas logo adoptaram o seu nome, quando na verdade o nome Tupi do rio é "amassunu", para "ruído das águas". Por seu turno, os índios cedo se deram conta da tremenda falta de jeito que os espanhóis revelam para línguas, pelo que lhes pareceu que ao dizer ~ Orelhana estava a adoptar a toponímia local. Esta história prova que o multiculturalismo funciona sobretudo quando dois equívocos se complementam. O problema actual do multiculturalismo é que o número de equívocos aumentou e tende a ser ímpar.

Mestre Manolo

Vicente Amigo

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outubro 24, 2007

És grande

marado.pngO maradona mudou de poiso e tem - às 7:19 PM, hora de Nova Iorque- o template mais bonito de toda a blogosfera. Não estou a ser irónico, gosto mesmo muito daquela moldura de hortênsias. Deve ser da minha costela insular. Fiz muitas caminhadas ao longo das levadas com a minha família e atirar as pétalas daquelas flores à água, para comparar a nossa passada com a velocidade da corrente, era um passatempo recorrente. Só pode ser por isso.

A range of opinions

Picture 5.png

Texto completo (pdf)

Slowly drowning in my own flood of thoughts

2248080_6e8dd4e3b7.jpgA better- known matrifocal culture can be found among the Mosuo, an agrarian group of about 50,000 who have lived for almost two millennia in a remote corner of China, high in the Himalayas. Their fame derives from the practice of “walking marriage”: A woman does not take a husband, but once she turns 13, she is given her own bedroom (or “flower chamber”) and can invite any man to spend a night with her, so long as he leaves before dawn. In practice, this usually doesn’t result in wild promiscuity; it’s more like serial monogamy, kept strictly private and separate from the daily workings of the family. But walking marriage demolishes the traditional concept of matrimony as a means of protecting a sexually active woman. As one Mosuo woman told a documentary filmmaker, “Why would you want the marriage license to handcuff yourself? Sara Sklaroff

2009

A namorada de Luís Filipe Menezes tem um certo vigor telúrico.

Crítica literária por extrapolação

São os três jornalistas, respectivamente "pivot" em risco de despedimento no canal público de televisão, comentador num canal privado e um bom apresentador de telejornais. São, por junto, "romancistas". Suscitam inveja a outros "romancistas" e a muitos que gostavam de ser "romancistas". Não porque sejam especialmente talentosos (...). Nenhuma literacia literária melhora por se ter lido Sousa Tavares, Rodrigues dos Santos e Rodrigo Carvalho. Vendem-se bem porque qualquer um deles sabe perfeitamente "vender-se" ainda melhor. As respectivas manobras de propaganda e publicidade são directamente proporcionais à duvidosa intrínseca qualidade literária das "obras", apesar de "Equador" não me ter desagradado, o único que li. João Gonçaves

Adenda: [reformulada] não iria tão longe quanto ao meu "entusiasmo" e à "honestidade" do post citado, Lourenço. O remate final pode lá estar pelo rigor, mas também acrescenta em petulância - na linha do "não li e não gostei". Em todo o caso, apreciei a prosa e não discordo. A escrita, a fotografia a preto e branco, o cançonetismo e a representação são as manifestações artísticas mais vulneráveis à penetração de amadores medíocres ou com jeitinho que são famosos noutros domínios. São raríssimos os casos - Dudley Moore, Edward Said... - em que há talento genuíno em áreas distintas e dificilmente de um jornaista famoso se fará um concertista, por mais brilhante e intensa que seja a propaganda. Estamos todos de acordo. A propósito, o que dizes tu do Combate dos Egos entre VPV e MST? MST lidera com uma pequena vantagem, não te parece?

outubro 23, 2007

Por quem os sinos se tocam

400px-Sketch-4race-transparent-1.pngA discussão suscitada pelas recentes declarações de James Watson tem sido má.

A ideia de que uma hipotética demonstração científica da inferioridade intelectual dos negros não teria qualquer implicação moral - e política - é um desejo e não uma previsão, caso contrário o Henrique Raposo (HR) está a revelar uma candura própria de imberbe bloquista a cursar Antroplogia. É verdade que as afirmações de Watson foram também suficientes para arrancar do Pedro Mexia (PM) um parágrafo à Boaventura dos Santos - a amálgama de fenómenos paranormais, "aquecimento global" e ufologia -, mas é prematuro concluir que James Watson desencadeou por aí uma virulenta epidemia de esquerdismo. Sejamos claros: a posição de princípio do Henrique esvazia a jusante o debate sobre as bases genéticas da inteligência. Infelizmente, seria preciso concordar com ele - eu concordo, em tese - e há quem discorde o suficiente para instrumentalizar a montante os elementos em discussão.

Um ponto prévio: a igualdade de direitos e deveres que HR refere não existe em parte alguma, porque a família é a unidade social irredutível, acumulando ou perdendo poder ao longo das gerações, o que na prática faz com que os direitos efectivos e - menos - os deveres variem em função do berço. A direita meritocrática sempre esquece o pequeno pormenor de que nascer Espírito Santo é diferente de nascer filho do Silva, canalizador no fundo de desemprego. Há solução ideal para isto? Não. E como a implosão da estrutura familiar é uma ideia peregrina, a única forma de tornar os "direitos e deveres" efectivos tendencialmente mais homogéneos é fazer com que sejam distintos no papel. Não há aqui qualquer paradoxo, andamos é todos enganados desde a revolução francesa.

Esta solução de compromisso, ou seja, uma política de esquerda, complicar-se-ia muito se passássemos do determinismo do berço ao determinismo da genética, em particular se a um berço rico estiver associado um bom pedigree (bons genes) e a um mau berço um pedigree de qualidade inferior. Sem discutir os seus méritos e deméritos, como justificar os direitos universais e diferenciados em que as políticas de esquerda assentam - da saúde e educação tendencialmente gratuitas à affirmative action, passando pelos impostos progressivos e o abono de família - perante uma prova irrefutável de que o potencial das classes desfavorecidas ou de um grupo étnico é intrinsecamente menor (pela biologia), quando o interlocutor acena com os valores da meritocracia e, sobretudo, da lógica de boa gestão de dinheiros públicos? Este interlocutor existe e não será a prosa do HR ou do DM que o irá demover. É para este braço-de-ferro que os dados sobre inteligência e genética têm importância. Estamos muito longe do século XIX e do esclavagismo que Lincoln combateu - o exemplo de HR. Como estamos longe dos considerandos académicos de Desidério Murcho (DM), a que voltarei.

O livro que mais agitou estas águas nos últimos anos foi o The Bell Curve (1994) - aqui resumido. Não se trata de um trabalho de investigação original, apenas de uma reapreciação estatística de dados já conhecidos. O livro prolonga uma linha de investigação iniciada por Arthur Jensen - entrevistado neste livro, que recomendo - e teve várias respostas - o The Bell Curve Wars é um bom exemplo. Citando do The Bell Curve:os Estados Unidos têm já [1994] políticas que, de uma forma inadvertida, fazem engenharia social sobre a procriação, mas andam a escolher as mulheres erradas. Se se incentivasse mulheres com Q.I, elevado a procriar como se faz para as mulheres de Q.I. baixo, tais políticas seriam apropriadamente descritas como uma manipulação descarada da fertilidade (tradução minha). Esta prosa não deve soar estranha a quem andou pela blogosfera por altura da polémica sobre o abono de família em Portugal, pelo que esta conversa não é não é apenas relevante para os EUA e o momento ainda é oportuno. O livro pretende provar que a inteligência pode ser medida pelo Q.I, sendo este parâmetro:1) o melhor para se prever o sucesso; 2) 40 a 80% geneticamente determinado; 3) dificilmente alterável por medidas sociais. Reitera os dados de Jensen e de vários outros cientistas de que os grupos étnicos têm diferentes valores médios de Q.I. e pretende mostrar que nos EUA uma elite económica e cognitiva com Q.I médio elevado e um grupo economicamente desfavorecido e com Q.I médio baixo estão já segregados, sem grandes esperanças de que se voltem a fundir.

A imagem que ilustra o texto (fonte) mostra a distribuição dos valores de Q.I. em negros, hispânicos, brancos, e asiáticos dos EUA, assim ordenados por ordem crescente de valor médio de Q.I - os judeus Ashkenasi têm um Q.I médio ainda mais alto do que os asiáticos, by the way. Apesar de haver exemplos de fraude nesta área de estudo, estes resultados não sofrem grande contestação. Diminuir o valor do Q.I. como um parâmetro que não capta aspectos essenciais - a criatividade, por exemplo - e alinhar em teorias alternativas de inteligências múltiplas também me parece um exercício forçado. A verdadeira polémica está no contributo relativo da genética e do meio, sendo uma minoria a que exclui totalmente a influência desta ou daquele. Um problema clássico, como se sabe, que se eterniza por ser suficientemente complexo para alimentar escolas com ideias distintas sobre a questão. Não tenho competência para rever esta pilha de bibliografia, é uma autêntica guerra à base de arsenal da estatística. Volto pois à imagenzinha.

É muito pouco provável que novas metodologias produzam resultados que aumentem as diferença entre o Q.I médio das populações– a acontecer algo, será o contrário. Cada distribuição é do tipo normal e em forma de sino, isto é os indivíduos distribuem-se de forma simétrica em torno do valor médio, havendo cada vez menos indivíduos à medida que se caminha para os extremos. Ora, o que vemos é uma grande dispersão em torno da média e uma enorme área de sobreposição entre os diferentes grupos. E sendo assim, como o DM escreve, é não só formalmente incorrecto como injusto extrapolar o Q.I do indivíduo a partir do valor médio da sua população. O problema é que estes dados não são suficientemente taxativos para acabar com os estereótipos raciais. Para uns, são a sua confirmação. Para outros, o contrário. Estamos no domínio da interpretação. Gente com preconceitos raciais e sem rudimentos de estatística escolhe a primeira, os outros escolhem a segunda. Graças a Deus - ou à especiação, it's your choice - as sinos tocam-se. Não há razões para temer que a caixa de Pandora se abra com a continuação destes estudos, sobretudo de a literacia científica for aumentando. Mas este relativo conforto assenta exclusivamente nestes dados empíricos e estou em total desacordo com DM e a sua especulação sobre um mundo em que a mais burra das mulheres fosse mais inteligente que o mais esperto dos homens, ou seja, um mundo em que os sinos não se tocam. A escolha dos papéis nos exemplos de DM não é inocente, mas trata-se de um truque de retórica. Já as conclusões que tira sobre este hipotético mundo são de uma inocência que me surpreende. DM diz que seria um "salto lógico idiota" assumir que as mulheres devem poder oprimir os homens à vontade. Seria. Mas a ideia de protecção dos mais fortes aos mais fracos, essa espécie de caridade de género ou racial rings a bell. Se os homens no exemplo de DM passassem a gozar de mecanismos de protecção legal como os que hoje temos para as crianças, será que funcionaria? Aqueles homens podem ser estúpidos, mas por uma simples questão de orgulho tal solução nunca seria estável - há, de resto, inúmeros exemplos em que o paternalismo dos mais fortes deu mau resultado, como as reservas dos índios americanos. Bem mais "corrosiva" do que a filosofia é a natureza humana, DM.

Quando a liberdade de expressão não existe, os seus mártires tendem a ser pessoas corajosas e brilhantes; quando existe, são oportunistas não especialmente interessantes. Não deixa de haver uma ironia muito pouco subtil nisto. O João Miranda (JM) que fique com Watson - e ele ficará com o exemplo de Watson, mesmo depois do pedido de desculpas da criatura, porque serve a sua agenda e aposto que JM já interpretou as desculpas como mais uma prova das pressões sobre o cientista. Don't silence the scientist, reproduz-se por . Enfim, mártir por mártir, prefiro Giordano Bruno - mas deve ser por causa da minha piromania. Que Watson seja o novo paladino da liberdade de expressão só pode dar vontade de rir. Não sei até que ponto as pessoas fora da ciência têm presente a reputação da criatura entre os cientistas, mas poucos o suportam. Os seus comentários são em regra simplesmente boçais – lamento, mas Watson não é o bonequinho do ventríloco que, liberto pelo Nobel e pela idade, diz aquilo que vai na mente dos cientistas mas que ninguém tem coragem de revelar com medo de perder a tenure. Watson é um eugenista assumido – enfim, só César das Neves não será um eugenista assumido, mas no caso de Watson ele dá à mãe o direito de abortar se um dia houver uma forma de testar a orientação sexual do embrião e o resultado for “homossexual”. É também um misógino. E – o que de certa forma é ainda mais preocupante - um inimigo de chimpanzés, gorilas e orangotangos, pois defende que a eliminação das espécies que nos são próximas fará diminuir o risco de novas epidemias, como a Sida (nunca vi isto escrito, foi-me comunicado por um colega). Watson anda há anos a dizer estas coisas e nunca ninguém o calou, antes pelo contrário; a sua vida é dar conferências, entrevistas, escrever livros - vem inclusive à minha universidade daqui a uns dias, receber um prémio de divulgação de ciência. A verdade é que anda a fazer má divulgação de ciência e se dependesse de mim viria falar aqui se anda quisesse, sim, mas sem receber o prémio - vejam bem o meu grau de correcção politica. As suas últimas declarações – mas alguém leu o que ele disse? - foram desastrosas, porque Watson expressou uma opinião que, não sendo o resultado do seu trabalho como cientista, vem inevitavelmente com o cunho de expert, por ele ser um geneticista molecular célebre e nobelizado- um prémio merecido, note-se, apesar de outras polémicas. Com tais afirmações, cristalizou ainda mais preconceitos raciais que não estão provados pela ciência.

Os paladinos da liberdade não resistem ao charme dos energúmenos e logo surgem os que contextualizam a coisa e relembram que tudo deve ser discutido, tudo deve ser investigado. Discutir é o que se tem feito, não percebo a ressalva. Quanto a investigar, convém rebater a ideia de que somos livres em ciência de investigar o que nos apetece. Certas ciências - a biomedicina, a física experimental, até as ciências humanas - são onerosas e necessitam de entidades que financiem os projectos em função de uma série de parâmetros, que incluem a relevância do tema. Quem determina a relevância? Comissões de ética, os colegas, os políticos, o air du temps, o impacto social. Alguém que queira trabalhar sobre o cancro tem mais hipóteses de financiamento do que um excêntrico interessado na evolução do padrão das asas das borboletas. Só uma ciência feita nas caves dos palácios por aristocratas prósperos e ociosos estaria livre destes entraves. Eu, que prefiro a ciência dos excêntricos das borboletas e que entendo que a revolução da biologia molecular- seguramente o que de mais importante aconteceu na ciência desde os grandes anos da Física - foi essencialmente feita por duas dezenas de excêntricos obcecados com moscas, bactérias, vírus e vermes microscópicos, defendo ainda assim o financiamento vigente - as críticas que lhe faço são outras. Mas o exemplo mostra que a comunidade ciêntifica não é livre no sentido em que os tais aristocratas seriam. E a dependência de financiamento torna os cientistas vulneráveis a pressões e interesses, sobretudo quanto maior for o impacto social e económico do que se investiga. Convém também lembrar que a comunidade cientifica é conservadora, violentamente conservadora, reaccionária até, não no sentido político do termo, mas na forma como resiste a ideias novas. Desconfiar é a sua grande virtude e isso em parte explica as reacções violentas que a muitos, de fora, surpreendem, nomeadamente quando certas afirmações circulam na fina fronteira entre a academia e os media, num slalom que finta cientistas e jornalistas.

Há pois razões para reagir à retórica relativista de que tudo deve ser investigado, em nome da liberdade. Os ovnis, os fenómenos paranormais, o Intelligent Design, a cartomância. Refiro-me aos dinheiros públicos, obviamente. Trágico o dia em que o Intelligent Design entre nas escolas ou a Fundação para Ciência e Tecnologia financie investigações sobre fenómenos paranormais. Já nos basta como sinal de tolerância que se deixe construir um museu de criacionismo em Portugal, que a maior empresa (privada) de biomedicina canalize dinheiro para o paranormal, que exista um clube dos maluquinhos dos ovnis...

No caso concreto da inteligência e da genética, é algo irónico falar de censura – raios, o The Bell Curve deve ser o livro de sociologia mais vendido nos EUA desde os Kinsey Reports, o seu co-autor ainda vivo continua a publicar best sellers, Arthur Jensen ganhou o Kistler Prize, publicou a vida toda em revistas académicas e na imprensa, o relatório da Board of Scientific Affairs of the American Psychological Association(pdf) continua online e o trabalho da task force rival saiu no Wall Street Journal. Obviamente, convém à esquerda que persista a dúvida sobre o peso dos genes, já menos por medo de se descobrir uma verdade inconfessável do que receio de instrumentalização de uma diferença pouco significativa. A outros, convém explorar estas diferenças que não nos segregam como indivíduos mas que podem influenciar as politicas sociais. São várias instituições que financiam e publicam esse trabalho de investigação. Dir-me-ão que os primeiros são uns obscurantistas e que o que move os segundos é o amor à verdade. Eu diria apenas que estamos no domínio dos lobbies.

A única promessa de liberdade que vejo nesta história não está na retórica dos intervenientes, antes no simples facto de que os sinos se tocam. Por nós. Ding dong.

Morto-vivo

img-about-1.jpgDesculpem o mau jeito, mas quando vejo uma ex-namorada feliz, fico feliz. De acordo com as convenções que norteiam o subgénero da prosa de coração aberto em busca desesperada e descomprometida de cirurgião, isto pode provar que sou um idiota, que na verdade nunca a amei ou as duas coisas.

Segundo John Updike, perceber que uma ex-namorada já não se quer deitar connosco é experimentar uma "pequena morte" - cito de memória - e eu até concordo. Aliás, a minha última morte foi há pouco mais de dois anos, ali no cruzamento da Park Avenue com a rua 64. Era Verão e ela vestia umas calças verdes e largas, creio que de tafetá. Se por lá passarem um dia e olharem para o passeio com atenção, talvez ainda vejam o boneco da minha silhueta, já meio apagado pelos transeuntes.

Ressuscitar é possível, embora em regra seja preciso esperar mais do que três dias - nem todos somos mágicos. Curiosamente, ter outra morte potencial à espera ajuda-nos a regressar. Mas não há nada de novo aqui, também tendemos a comprar bilhetes de ida e volta e desde a primeira vida que sabíamos ser a morte a última morada. De resto, experimenta-se algum conforto neste allez-retour que, no meu caso, tem o seu reverso na sina de andar há seis anos a comprar bilhetes Nova-Iorque-Lisboa-Nova Iorque.

Czerny para intelectuais públicos

Uma das grandes pulsões para a originalidade e o desbravar de novos caminhos é o medo do confronto directo. Assim se percebe que este tenda a atenuar-se em quase todos os percursos profissionais. É brutal na escola, pelos testes, e no início da carreira, pelos concursos, mas vai sendo eliminado por esse fenómeno de especiação que fará de cada currículo um caso único e, ainda, porque os confrontos à porta fechada e abafados pela burocracia não resgatam a tensão de um mano a mano diante de júri e plateia para tocar o mesmo Rachmaninov. Pontualmente, regressam os exercícios obrigatórios. Como em duas recensões recentes ao último romance de Roth, Exit Ghost. Consegui acabar este livro e isto denuncia uma tendência, mas é óbvio que o Casanova tem toda a razão. James Wood faz Hitchens parecer quase analfabeto. Ah, e apanhaste este Houghton Mifflin, Rogério? É tão mau e tão oportunamente anti-Roth que parece ser escrito pelo próprio romancista, sob pseudónimo.

outubro 22, 2007

Note to self

-Mosh pit na ópera.
-Os "tripletos de Conrad" e o homem que inventou uma figura de estilo.
- Discursos de Guerra.
- Se a menina faz dança clássica indiana, não convide o ex-namorado para o recital.
- Qualquer coisa dedicada ao Galvão, que até já vai acertando nos autores que lê e nas citações que faz. Obrigado, pá.

outubro 20, 2007

Caro Pedro,

Geografiahumana.gifA genética "não tem demolido o conceito de raça". Na purga semântica que nos livrou da palavra "raça" - e que eu aplaudo - os dados da genética não tiveram impacto; quem pensa de outro modo incorre num duplo erro que não se autocorrige. Não só nunca a ciência teve tal poder sobre as palavras e os preconceitos como, no caso concreto, a genética tem demonstrado que há populações humanas com patrimónios genéticos globalmente distintos uns dos outros. Estes dados são aproveitados por gente tão diversa como linguistas e investigadores forenses.

A ideia de que as "raças" são construções sociais foi nos anos 70 parcialmente corroborada por estudos de variação de formas proteicas entre indivíduos, mas dados de análises posteriores baseadas em marcadores genéticos - muito mais fiáveis - permitem gerar figuras como a que aqui mostro, em que a proximidade genética se traduz na proximidade das coordenadas . Há grupos genéticos distintos, não muito diferentes das divisões que se faziam no tempo em que ainda havia "raças".

outubro 18, 2007

Uma imagem não vale mil palavras

tandl1.jpg
A da esquerda tinha uma belíssimas pernas e a da direita era boa no tiro com arco.

Infelizmente, só me interesso por mulheres acima dos 26

"Só depois dos Jogos Olímpicos de Pequim2008 é que devo passar para a categoria acima, mas agora, para não ter de andar a perder peso, vou competir em -57 Kg" Telma Monteiro, 21 anos, judoca.

Num mundo em que a anorexia é combatida com publicidade de choque, estas declarações são um bálsamo.

Paredes

Marisa

Não sabia que os puristas do fado dizem que a Marisa não é fadista. O meu fadista é o Camané, mas a Marisa tem uma grande voz e é mais consumível no estrangeiro. A suposta resistência ao fado da Marisa não tem qualquer fundamento musical, só pode ser embirração com o penteado, as vestimentas ou a etnia da cantora. Na escolha dos poemas, dos arranjos e na interpretação, a Marisa não é propriamente uma inovadora - como a Mísia - e prolonga a linha tradicional. É também mais inteligente e sensata do que a Dulce Pontes no uso do seu virtuosismo. O fado que levou ao Letterman - tocado muito devagar, foi pena - é disso um belíssimo exemplo.

outubro 17, 2007

Ana Sousa Dias


Nunca percebi a fama de grande entrevistadora de Ana Sousa Dias. Esclareçam-me, por favor.

(via blogue do tipo que mais me despreza por correio electrónico)

maradona, Casanova e Besugo: coincidence? I think not actualizado

Fala-se muito no mistério das escolas do Sporting, mas eu também pergunto como se explica que os dois três melhores bloggers que escrevem com alguma regularidade sobre futebol sejam do Sporting? Creio que décadas de derrota durante o período formativo de uma pessoa (o que os distingue dos portistas) e a ausência de um passado glorioso (que os distingue dos benfiquistas) puxam pela capacidade analítica, pela argúcia, pela graça, pelo humanismo, pela tolerância e, enfim, pelos valores nobres que podemos peneirar da cultura greco-romana. Trata-se de um simples mecanismo de compensação mas, em certa medida, mais uma vez se prova que o Sporting é o único dos Grandes que melhora os seus adeptos. E esta sim, é a obrigação de uma instituição de interesse público. Nada mais fica. Todas as outras glórias são passageiras. Títulos? Taças? Taça é coisa de bárbaros.

Quem descobriu Tiago Galvão?

A minha primeira referência ao Galvão é de 6 de Dezembro de 2005. O Lourenço acaba de me informar que tem uma referência a 5 de Dezembro de 2005. Como eu já lia o Complexidade e Contradição nessa altura, a conclusão é óbvia: o Lourenço fez-me descobrir o Galvão.

Em todo o caso, a minha citação do Galvão é melhor do que a do Lourenço. Reparem nas escolhas do Lourenço:

" Tenho uma relação de amor-ódio com as mulheres. Eu amo-as. Elas odeiam-me".

"Uma leitora diz que eu lhe falo ao coração. A última mulher a quem eu fiz isso teve um ataque cardíaco".

Não são posts maus, mas são esquemáticos, dignos de um Arcebispo de Cantuária da Atlântico que se cansou de nos cansar com trocadilhos patetas. Veja-se agora a minha escolha:

"No outro dia fui sair com uma rapariga e disse-lhe que ela tinha uma face dolicopse, ou seja, que tinha uma face em que a altura predomina sobre o diâmetro bizigomático, segundo Quatrefages. Nunca mais me ligou."

Digamos que o Lourenço dinamitou a entrada para a mina e eu encontrei o melhor filão.

Reclamo também um apoio continuado ao Galvão. O Memória cita o Diário 21 vezes. Lourenço, bates isto?

Enfim, posso não ter sido o primeiro a descobrir o puto maraviha, mas faço aqui memória futura e sou o primeiro a endereçar um post aos biógrafos do Tiago Galvão. Se alguém o citou antes de 5 de Dezembro de 2005, seria bom que falasse agora. Não havendo mais ninguém, estou já a imaginar-nos no documentário, daqui a 30 anos, o Lourenço careca e em fundo preto, a luz lateral a esculpir-lhe a cara enquanto divaga com tertura e alguma nostalgia sobre o nosso homem - então famoso e recluso em Ponte de Lima -, e depois eu, com a mesma ternura - "Ah, aquele pornógrafo recalcado..." -e nostalgia, o mesmo fundo preto, a mesma luz, brincando nas melenas da minha ainda farta cabeleira.

Adriano

(via womenage a trois)

Esta é a minha canção preferida entre as que Adriano Correia de Oliveira popularizou. Já não se pode escrever letras (Rosália de Castro) destas - mas quero que se lixem - e a melodia (José Niza) é muito boa. A versão que toca não é a melhor. Paulo de Carvalho tem uma interpretação estratosférica disto, com a guitrarra de Vicente Amigo a metralhar.

Metabloguismo (enésimo)

levy583.jpgAlguém me disse que todos os blogues são armas de sedução. Isto é verdade, mas apenas em sentido lato, da mesma forma que todas as indumentárias podem ser armas de sedução mas muitas não deixam de nos proteger do frio ou do Sol. O problema surge quando o leitor toma um blogue pela camisa branca desabotoada de Bernard-Henri Lévy e o autor o usa como uma samarra. Também há o vice-versa, claro, que é a versão cómica.

outubro 16, 2007

Roth em Estocolmo

Agnetha-Faltskog.jpgNão sei se, pelo conjunto da sua obra, Philip Roth merecia o prémio Nobel deste ano. Provavelmente sim, tal como outros dez escritores; tal conclusão não assenta na crítica literária, é puramente estatística. Mas há um critério adicional que talvez destaque Roth dos demais.

Mesmo com um conhecimento apenas parcial da sua produção, é inegável que o homem tem uma panca por escandinavas: Birgitta e Elisabeth (The Professor of Desire) são suecas, Steena Paulsson (Human Stain) tem sangue escandinavo, a modelo de 24 anos de Everyman é dinamarquesa e Amy (The Ghost Writer e Exit Ghost), a refugiada de guerra com sotaque, nasceu provavelmente em Oslo. Acho encantador que, à boleia da revolução sexual dos anos 60, Roth tenha escrito sobre sexo e desejo de forma franca para o seu meio, mas não deixe de ser um pouco datado nas suas fantasias. Convenhamos que o mito da escandinava fácil, emancipada e insaciável é, no Ocidente, coisa da geração anterior. Hoje, em Macedo de Cavaleiros, as raparigas são tão emancipadas como as suecas. Também a imagem de sex symbol das loiras nórdicas não resistiu à mediatização global: se é verdade que a escandinava média é mais interessante que a mulher média dos restantes países europeus, as escandinavas muito bonitas têm rostos aborrecidos e pouco variados, perdendo em originalidade e diversidade para as moças miscigenadas - Helena Christensen, o último grande rosto dinamarquês, tem mãe peruana. Escrevo de cor, a minha experiência reduz-se a um mês na casa da Noruega e a ter sido durante um ano vizinho da casa da Suécia, ambas na Cidade Universitária de Paris. Mas duvido que seja por acaso que um dos meus dois únicos conhecidos não escandinavos que casaram com suecas seja argelino e o outro tunisino. Na Macedo de Cavaleiros das suas terras as raparigas ainda não se emanciparam.

Roth tem 74 anos. É apenas 2 anos mais novo que o busto 40D de Anita Ekberg e na década em que Agnetha Åse Fältskog (a loira dos ABBA) brilhou ele era apenas quarentão. Este homem viveu na altura ideal para gozar Estocolmo como nenhum outro escritor. Pela lógica de maximização da felicidade, merece ganhar.

O Memória feito pelos meus amigos

She likes Tchaikovsky because it's nice and loud.

Da linha lateral

Digamos que afirmar que fui eu a descobrir o Tiago Galvão seria um exagero, mas a estreia em papel do puto está para acontecer e eu vivo estes dias como uma soccer mom, olhando maravilhada e com o coração na boca, ali, da linha lateral.

Tu che a Dio spiegasti


Em Lucia di Lammermoor, a protagonista demonstra uma fragilidade psíquica desconcertante que culmina num esgotamento, logo depois de matar o esposo - um dos raros actos de violência doméstica no feminino que a herança cultural do ocidente perpetuou. É difícil imaginar um enredo mais irritante para uma feminista...

Back to the basics

Divulgação de alto nível (ver vídeo) dispensa as anedotas sobre o anti-semitismo de Wagner.

Repto aos jovens

FUTRE_Paulo_19960908_NF_R.jpg

Depois do Futre, só me voltei a entusiasmar com o João Pereira Coutinho.

Relembro que Futre foi também o último dos craques lusitanos a ser capaz de dar uma entrevista interessante.

Este homem merecia uma compilação no Youtube jeitosa. E com aquele trabalho de edição que corta a jogada no momento da finalização, os raides de Futre ficariam imaculados. Jovens, ao trabalho...

outubro 15, 2007

Gattopardo

Sou mais um dos que começaram por causa da Coluna Infame. A Coluna faria hoje 5 anos e, não por acaso, o Mexia e o Lomba estão de volta. Todos ao Gattopardo.

outubro 14, 2007

6

stjohnmap_small.jpgSt. John, 29.09.07 Demorei-me sob o alpendre do restaurante. Era pouco tentador entrar no que parecia uma barraca de paredes mal rebocadas e janelas acolchoadas de improviso, com almofadas e tapetes de campismo do lado do fora. Ainda fazia claro quando entrei mas no interior a luz era artificial. As duas meninas, os polacos, um velho com pinta de Papa Hemingway, o casal com a mulher bonita e mais umas dez pessoas- poucos alugam as tendas em altura de tornados- ocupavam algumas das mesas. Sentado a meu lado, Papa ainda perguntou para o ar se se podia ir beber para o bar, mas sem que viesse resposta. Virou-se depois para mim (cito de cor):

Papa: sabe quem se parece comigo?
Eu: com o devido respeito, sei que se parece com ele.
Papa: mas ouviu falar dele?
Eu: claro que sim.
Papa: queira desculpar-me... os jovens hoje desconhecem tudo.
Eu: e antes era diferente?
Papa: como quer que lhe responda se nesse tempo eu era jovem?

(risos)

Eu: ora, eu deixei de ser jovem vai para uns anos, devia antes testar uma das meninas.
Papa: sim, o amigo ("yes, my friend") iniciou a travessia do deserto, lamento.
Eu: pensava que os sofredores eram os adolescentes e os velhos.
Papa: errado. Os adolescentes sabem que os espera algo de muito melhor e os velhos algo de muito pior, isto ajuda ("it does wonders") a vencer a ansiedade dos primeiros e a fortalecer o conformismo dos segundos. Mas tu [depois de um toque no ombro, o "you" transfigura-se], se revelas ansiedade ou conformismo estagnas. Deves estar sempre a andar, enfim, sempre a nadar...
Eu: como os esqualos.
Papa: If you're going through Hell, keep going.
Eu: Uma tirada de um livro dele?
Papa: Churchill, Churchill.
Eu: Ah, pensei nele, claro. Sabe, sinto-me mal a discutir os problemas da idade consigo.
Papa: por eu ser mais velho?
Eu: sim.
Papa: novo erro. Resolvi todos os problemas que te apoquentam. Bem ou mal, arquivei-os. Estou agora de folga, sou o melhor conselheiro que podias encontrar. Informado, experiente e desinteressado. Trust me.
Eu: Should I?
Papa: aposto que sei o que te preocupa. Vieste sozinho para esta ilha e creio que sem grandes perspectivas de turismo sexual.
Eu: se fosse o caso, teria escolhido Cuba.
Papa: nem mais. Divorciado?
Eu: nunca casei.
Papa: eu casei-me quatro vezes, mas na altura era preciso.
Eu: pois, mas ainda vai sendo preciso. Cada vez mais, creio. Certas pessoas julgam-se superiores ao casamento, ao que tem de fachada, mas comportam-se da mesma maneira e atingem um grau superior de hipocrisia.
Papa: defendes o casamento?
Eu: claro, como dissuasor de infidelidade. Desde quando se pode confiar nas juras de amor, nas promessas? precisamos da sociedade para impor a monogamia.
Papa: se a monogamia te parece importante...
Eu: a monogamia em si, nem por isso, um relacionamento longo, sim. Mas este depende daquela, por mais voltas que queiramos dar ao problema.
Papa: tiveste algum relacionamento longo?
Eu: nunca. enfim, alguns anos. Hoje ao fim de uns meses as pessoas pensam que podem escrever o novo grande opus de amor, anda tudo apanhado dos cornos.
Papa: dos cornos?
Eu: ah, desculpe. Foi acto falhado. "Apanhado da cabeça".
Papa: um caso complicado, o teu...
Eu: bah, a fome, sim, isto nem tanto.
Papa: mas resolves o teu problema da fome com um donativo e o outro vai ficando.
Eu: Eh, e por vezes basta apenas pensar no donativo. Quanto ao casamento, creio que o problema se arrasta e sempre vai ser assim. Sabe por que motivo as pessoas se embebedam nos casamentos?
Papa: por ser de borla?
Eu: por algo mais. Os casais separam-se tanto agora que a boda se inicia como festa e com o passar das horas vai ganhando tiques de ressaca de funeral. A forma como as pessoas falam, os olhares vagos, a desordem das cadeiras, a bebida. Nunca reparou?
Papa: desde 1988 que deixei de ser convidado para casamentos.
Eu: pois tem lugar cativo no meu, quando acontecer, para que confirme o que lhe digo. As pessoas embebedam-se porque pressentem a ruptura. O casamento recapitula os anos futuros do casal, antecipando-os e comprimindo-os em 4 ou 5 horas. E olhe que estas leis em que se recapitula algo acertam sempre, apenas precisam de ser afinadas.
Papa: estudaste Filosofia?
Eu: Biologia.
Papa: Ah... I like tropical fish. Bem essa tua ideia tem a lucidez do desencanto, o que nada garante.
Eu: o que vou vendo basta. As pessoas felicitam os noivos com constrangimento, como se estivessem a aplaudir um vencedor do Tour de France que pode vir a ser desclassificado no futuro por dopping.
Papa: tanto cinismo...
Eu: cinismo seria confirmar que preciso de me fingir aflito, preocupado e surpreso quando algum dos meus amigos se separa.
Papa: confirmas?
Eu: era apenas um exemplo. E o raio do tornado? Ouve alguma coisa?

(continua)

Rudimentos de mecânica teatral para génios

Sleuth, uma adaptação de Harold Pinter à Vasco Graça Moura, tem teatro dentro do teatro, como Hamlet. Tem um objecto de desejo que nunca chega a aparecer, como em En attendant Godot. E terá seguramente toda uma série de outros truques que um leigo como eu não topa. Mas falta-lhe a punchline, não há surpresa no fim.

Em Heartbreak House, de Shaw, quando nos dzem que há um paiol de dinamite perto da casa, ficamos a saber que tarde ou cedo haverá uma explosão. Estes enredos económicos, em que todos os elementos são aproveitados, são muito difíceis de trabalhar. Em Sleuth, mal surge a pistola, é óbvio que um dos dois homens vai morrer, apenas não sabemos quem. Não chega.

Também me parece insultuoso matar Jude Law no primeiro terço do filme, quando pelos cartazes de propaganda se percebe que há apenas dois actores. O efeito surpresa que a seguir se tenta fica comprometido. Ninguém levaria a mal se os cartazes aparecessem aldrabados com o nome de um terceiro actor. A suspension of disbelief não acontece só porque de repente a sala fica às escuras, desculpem o mau jeito. Branagh, Caine, Pinter e Law não se lembraram de fazer o que a quaquer puto de um teatro de liceu teria ocorrido. Num mundo decente, teria direito a reembolso.

A Polónia e eu

boniek_moi_rywale.jpgLevaram-me a um número de teatro polaco experimental, na East Village. O texto era em polaco, em grego e em inglês, mas o péssimo inglês dos actores (todos polacos) e um débito verbal muito acima das suas capacidades de dicção fizeram com que as partes em grego fossem as mais inteligíveis de toda a peça. A certa altura apareceu um homem nu. Tudo isto me é vagamente familiar, no final dos anos oitenta, em Lisboa, também assisti a teatro incompreensível e vi uns pirilaus.

De resto, a produção cultural polaca insiste em me transportar para um passado recente. Quando vi o Dekalog, há cerca de dois anos, foi impossível não associar o bairro que Kievlowski filmou ao meu bairro (os Olivais), nomeadamente os elevadores e os patamares.

Por isso pergunto: há uma comunidade polaca em Lisboa? Não deixa de ser tentador sonhar com uma rapariga menos abonecada do que as russas e menos perfeita do que as checas, mas polaca, capaz de me reenviar para o passado. O problema é se me faz aterrar num dos anos maus...

outubro 12, 2007

A sátira política acabou em 1973, João Miranda

kissinger_h.jpgSe, como se diz, o xadrez é o maior desperdício de inteligência que a humanidade concebeu, começo a desconfiar que as discussões sobre global warming acusam o maior desperdício de informação. O vício toca à esquerda e à direita, autopropagando-se, e não vou comentar a atribuição do Nobel a Al Gore. Recordo apenas que quando Henry Kissinger ganhou o prémio, Tom Leher decretou muito acertadamente o fim da sátira política. É inútil fazerem piadinhas sobre Gore, it´s simply not funny. I mean, not funny enough...


outubro 11, 2007

Capecchi

Mario.pngNa galeria de figuras que passaram pelas minhas sucessivas salas de aula - ou de colegas próximos - destaca-se um sujeito de uma inocência desarmante, que um dia interrompeu a discussão para perguntar "o que é Che Guevara?" e, no mesmo ano, ainda se lembrou de inquirir deste modo: "quem é Bossa Nova?". Isto foi rigorosamente assim, a acreditar no relato de terceiros - e não há razões para duvidar.

Conta-se ainda que este rapaz anunciou que iria investigar o cancro porque estava farto de ver criancinhas morrer - "I've seen too many kids dying and I decided to act"- e que, numa outra ocasião, teria confessado a sua fezada em ganhar o prémio Nobel (Medicina ou Química, presumo). Lembro-me dele muitas vezes, sobretudo no mês de Outubro e mais ainda agora, depois de Nova Iorque ter estado uns meses com cartazes na rua de jovens cientistas que manifestavam idêntico desejo.

A partir de certa altura, mais por pudor e sentido do ridículo que por falta de ambição ou renúncia, deixamos de fazer tais declarações. Nem quando estamos bêbados a coisa sai. Sonhar alto com o Nobel é para os muito novos e alguns dos muito velhos. Uns andam entretidos com o futuro, outros com o passado e alguém tem de tratar do presente. Mas os cientistas - todos os cientistas - vibram com o Nobel da Medicina (ou Química) como provavelmente os escritores e os literatos já não vibram com o Nobel da Literatura.

Há três diferenças óbvias, capazes de explicar o cinismo generalizado sobre o Nobel da literatura e a persistência de um entusiasmo quase juvenil entre os cientistas. A primeira: o Nobel da literatura é um prémio de carreira e o da Medicina/Química premeia uma descoberta. A descoberta tem autoria(s), obviamente, mas o que o prémio valida não é um percurso individual, antes o percurso de uma ideia. Watson e Crick não teriam precisado de fazer mais nada para ganhar o prémio depois do seu paper na Nature em que surge o modelo de dupla-hélice do ADN, publicado quando Watson tinha 25 anos. Foi a comunidade científica que depois precisou de reconhecer a importância do trabalho. Como este processo pode ser moroso, o cientista arrisca-se a receber o prémio mais de 30 anos depois da descoberta (Barbara McClintock) ou até a perder por inglória falta de comparência o encontro com a História (como Oswald Avery). Esta natural fagocitose de uma boa ideia por outros cientistas, geradora de novas ideias onde outros se apoiarão, vai traçando uma árvove genealógica com uma nitidez e exuberância ausente na comunidade dos escritores, que convive de forma menos pacífica com as influências e a tradição. O prémio, quando surge, é para um (ou uns poucos), mas entretanto gerou-se uma plebe informada - e não só as eminências pardas - capaz de o aplaudir.

Uma segunda diferença: o Nobel da Medicina está relativamente bem protegido de pressões que o desvirtuem, como o politicamente correcto, sobretudo quando comparado com o Nobel da Paz e, também, com o da Literatura. Há polémicas, injustiças irreparáveis e atribuições segundo critérios muito duvidosos, mas o Nobel da Medicina continua a gozar de um enorme prestígio e são poucos os ressabiados por simpatia que perdem tempo a elaborar listas alternativas de grandes cientistas esquecidos ou a falar de um quando é outro que ganha.

Uma última diferença: o Nobel da Medicina não pode ser julgado pelo cidadão comum, mas toda a gente tem uma opinião sobre o Lobo Antunes, incluindo o próprio. Só os cientistas que fazem biologia molecular já tinham ouvido falar de Mario Capecchi (um dos premiados deste ano) e mais ninguém arrisca uma opinião, o assunto é hermético. Philip Roth, pelo contrário, pode ser comentado com ligeireza. Isto nem sequer é censurável, ainda bem que formamos uma opinião sobre os livros e os autores que lemos, mas a discussão que se gera em torno dos escritores vencedores ou nobelizáveis é vã, irritantemente vã, como uma idêntica discussão sobre cientistas nunca será.

Até com os desequilibrados me sinto tentado a respeitar mais os cientistas do que os escritores. Pelo que vou lendo, muitos escritores tentam mostrar-se entediados quando o prémio insiste em lhes fugir, como se estivessem acima destas coisas tão terrenas. Ora, um bioquímico aqui da casa, respeitado por todos, andou meses deprimido no ano passado por terem dado o prémio a um concorrente. Nem procurou disfarçar, é assim mesmo. No extremo oposto, o nosso Saraiva lança a boutade de que espera ganhar o Nobel, o que nem chega a ser patético, de tão pouco credível. Ao Saraiva prefiro o meu colega, que não sabe quem foi Che Guevara mas expõe uma convicção genuína. A megalomania não é para todos e eu, secretamente, ainda torço por este homem, meio bronco, meio louco. Vejo-o como o meu porta-voz oficioso. Ah, quem é Bossa Nova? Ora, é João Gilberto, a pergunta faz todo o sentido...