agosto 21, 2007

5

stjohnmap_small.jpgPassei o resto do dia de ontem em terra. Os polacos tinham tomado conta do jacuzzi e uma delas fazia topless - tantas saudades da Europa. Cumprimentei-os de longe, senti que queriam ficar sozinhos. Como eu. Enfiei-me na tenda com um plano: desenhar Coral Bay. Fosse mais ambicioso, tentaria uma aguarela, mas o jeito para o desenho cristalizou quando fiz cinco anos e, se um homem bom adequa os meios aos fins, o homem sensato ajusta-os ao talento. Um Odocoilues virginianus - um Bambi - apareceu de repente no topo de uma colina, cruzou o olhar comigo e logo desatou numa corrida nervosa. Os animais foram introduzidos na ilha em mil setecentos e tal, para satisfazer a fome de gatilho dos colonizadores, mas vi naquele breve encontro um sinal aprovador do Criador para que desenhasse. Pois bem, foi o que fiz.

Desisti de tirar fotografias com veleidades de artista por volta de 1992, quando me roubaram a Nikon em Praga. Como tantos jovens enfermos de paralaxe geracional, queria ser um Cartier-Bresson, apesar de as minhas melhores fotografias serem invariavelmente a poentes. Embora ainda goste de fotografia como apreciador passivo - Ansel Adams, belo,Jeff Wall, belo, Mapplethorpe, belos corpos - friso que desconfio daquela arte, no mesmo grau em que desconfio da arte abstracta e por diferentes motivos. Mas sobre isto sinto-me agora incapaz de um dar um contributo e creio que estamos conversados.

Duvido que reconhecessem Coral Bay em St. John depois de verem o desenho e vice-versa, mas estive entretido com a paisagem durante umas horas e resisti ao impulso de rabiscar gaivotas em contraluz, o que constitui um progresso. Rematei a coisa com gatafunho e data, no preciso momento em que uma das meninas da Florida fez truz-truz e me avisou - sem que eu tivesse chegado a abrir a porta - que esperavam um tornado mais para o fim da tarde e que o melhor era eu ir ter com eles ao restaurante - de pedra e cal -, assim que tivesse recolhido o pano da tenda e o oleado que faz de tecto. Confirmei que o horizonte se transmutava lentamente e que Turner em breve encontraria ali substrato para um belo quadro. Dobrei depois o pano, a simular o uivar de um vendaval.

agosto 20, 2007

4

stjohnmap_small.jpgCumpri os dez metros finais da subida em crescendo de ritmo. Recortada pelo jogo de luzes na interface do mar com o ar, a silhueta brincava. Quase me senti predador, culpas para o Spielberg, mas foi coisa passageira, que o meu intento era salvar a menina. Os esqualos apertavam o cerco, a qualquer momento um podia atalhar caminho e abocanhar-lhe uma perna. Apenas perto dela me apercebi que iria perder a oportunidade de brilhar; de repente, um corpo volumoso furou a interface e pegou na menina pela cintura. Percebi depois que me esticara na bravura; os dois corpos brincavam. Brincavam despreocupados, e eu, desacelerado pela meloncolia, contentava-me a reparar no reverso do seu chapinhar. Se os pais a deixavam nadar ali, o que fazer? Habituar-me, pois claro. Dez metros bastam para se passar de destemido a palerma.

Partimos ao nascer do Sol, com mar raso. Cabral ao leme, sua filha de cinco anos em acrobacias na proa, a mulher obesa de um lado para o outro, palradora, eu e um casal de americanos com coletes salva-vidas, como mercadorias preciosas. Os polacos tinham reservado lugar, mas a ressaca deixara-os prostrados. Navegou-se umas quinze milhas antes de Cabral ancorar o barco sobre uns baixios. Ao longe ainda se via St. John e ao perto, o fundo arenoso do mar. Senti-me obrigado a mergulhar antes dos outros, mas estaquei quando o Cabral jogou umas valentes pazadas de engodo pestilento pela borda fora. "O primeiro a ver uma dorsal leva a lancha de volta", disse.

Tenho medo de esqualos desde o primeiro mergulho na praia da Ponta do Sol, na Madeira. Auxiliar o meu pai na apanha de mergulho de lapas era uma honra e um desafio. Visto com a viseira, o mar, paisagem sem horizonte, um escuro iluminado que alberga todos os vultos... Eu olhava para todos os lados, mas sobrava sempre um. E os sons dali - o ir e vir dos seixos perto da babugem, o ronronar de um motor distante, o bater das barbatanas - eram abafados por um respirar ofegante, mesmo quando parado. Anos nisto, menino, rapaz, sempre o mesmo medo e um travo a cobardia que demorava a passar, quando tentava nadar entre o meu pai e o mano, usando-os como escudo. E nada. Nunca vi um esqualo. Ouvi boatos de um ataque na costa norte da ilha, mais selvagem, agreste, feita para acidentes sanguinolentos, mas nem sei se foi verdade, se o homem morreu, se ainda coxeia pelas ruas de S. Vicente com menos uma dentada de carne na barriga da perna.

Fiz-me ao mar a seguir ao Cabral, que olhando para baixo e com o polegar ainda enxuto armado confirmava a chegada dos primeiros esqualos. Encontros muito desejados ou temidos, mais vale ir adiando ad eternum; o que se foi construindo quase sempre ultrapassa a realidade e, ou ficam por cumprir as expectativas, ou nos damos conta, com alguma raiva, de que o medo que nos tolhia era despropositado. Sucede que esta regra, de provas dadas com as mulheres, de pouco vale para outros predadores. Como o Carcharhinus perezi. Vi o primeiro e logo depois todos os cinco. Cabral ao meu lado, fazia-me o sinal de “ok”. Oh, o catano, pouco faltou para mijar o fato de mergulho. Apenas ele me obrigava a ficar ali. Cabral, protector? Antes: Cabral, testemunha potencial da minha cobardia. Procurei mexer-me pouco e preocupava-me a possibilidade dos esqualos conseguirem cheirar o medo; suava, por dentro era um cocktail de adrenalina. Ainda assim, respondia a Cabral com o sinal de “ok”. Dois sinais de “ok”. I’m cool… How to top that? Isso, two thumbs up, os esqualos passam bem pelos blockbusters do mundo animal… I’m super cool. Mas apressei-me a voltar aos punhos cerrados, a ideia de oferecer os polegares como hors d’oeuvres… Cabral, quanto tempo mais?

Devem ter passado apenas alguns segundos, quando o casal megulhou. Os esqualos nem acusaram as ondas de choque e eu comecei a pensar como um cardume: agora somos quatro, talvez me safe. Nisto nem me dei conta da descida, por cima de mim uns bons quinze, dezassete metros. Ar, precisava de ar. Os bichos apertavam o cerco. Cabral? As bestas olham para mim, de soslaio. Olham sempre de soslaio? Cabral, repara naquele. Cabral? “ok”? Ok, Cabral, tudo ok. Foi nesse momento que olhei para cima e vi a menina, esbracejando como um anjinho a peneirar.

No regresso, o homem do casal assumiu o leme. Pareceu-me despropositado tentar explicar a minha subida intempestiva, que todos interpretaram como uma retirada. Cabral e a mulher olhavam-me com alguma ternura, devem estar habituados a cenas destas. E a menina brincava comigo, sem perceber os jogos da gente crescida. Enfim, se conseguisse aturar a fanfarronice do homem do leme, o meu regresso seria triunfante e dispensava os louros. Pobre tipo, a crescer para todos explorando o meu momento de fraqueza. Pobre tipo, a arrastar um casamento infeliz.

Como se topa um casamento infeliz? Quando falando um deles para uma terceira pessoa, o outro mostra desprezo ou enfado. Foi por isso que reparei nela e ela reparou em mim, porque o Cabral e a mulher davam troco ao marido. Ao esposo. Ainda me tramo, por causa da sua beleza pouco aparente. Como apenas nos pressentimos e a menina adormeceu apoiada numa das minhas coxas, entretive-me em pensamentos. Eis uma tese para as massas urbanas: a beleza absoluta funciona como um handicap. As mulheres bonitas vivem obcecadas com a ideia de que apenas lhes valorizam a imagem, sentem-me inseguras. E a agravar, dois efeitos cumulativos: a beleza traz-lhes uma volatilidade passional e, sendo perfeitas, o amante pouco ou nenhum impacto tem sobre a coisa amada, que sem metamorfose fica por colonizar. Irrepreensivelmente bonitas e sensuais, parecem cartoons animados das mulheres do Milo Manara, boas para a punheta ou para platonismo. Ora, uma mulher que valha realmente a pena tende a estar a meio caminho entre a punheta e o platonismo, como as criaturas do Hugo Pratt. A aprendizagem sentimental cumpre-se quando se foi do Manara ao Pratt. E o rosto desta mulher, anguloso, magro e com os cabelos despenteados, podia ter vindo de uma prancha do Pratt. Ainda me tramo.

agosto 19, 2007

3

stjohnmap_small.jpgOntem os polacos convidaram-me para jantar na tenda deles. Percebi logo que estava entre epicuristas radicais, completamente embriagados. Um preparava linhas de coca sobre a viseira de mergulho, outro uma arrozada de marisco enriquecida com enchidos e pickles - ah, a gastronomia da Europa Central, esse cataclismo ainda em busca do seu historiador. Elas flirtavam na varanda e pareciam treinar beijos na boca, ora uma tomava a iniciativa ora a outra, mas procurei desviar o olhar - e pensei no sapo, que capta a paisagem como se tivesse uma lente olho-de-peixe, passo o quimerismo. Lembrei-me depois do Lech Valesa e se teria sido para isto que ele andou a lutar. No fundo - e apesar da bebida - sou um puritano e tenho medo de drogas, vi muitos agarrados no meu bairro naquela altura da vida em que colhemos ensinamentos com facilidade. O lesbianismo soft, enfim, tem a sua piada, mas exposto daquela forma parece coisa de americana mimada do college.

Jantou-se ao relento, procurei manter a conversa animada, dos peixes tropicais aos manos Kaczynski, mas enfiei algumas argoladas, baralho as datas e o retrato mais recente deles que vi foi o Decalogue. Faltou ainda o arco de humores que faz os grandes jantares, talvez porque os polacos estavam de bebedeira velha quando a comida veio para a mesa. Sem brigas, sem grandes segredos revelados, sem uma perna a tocar na minha - mas quase juro que... -, se dissesse a quem chegasse no fim que antes houve coca por ali, duvido que acreditasse.

O firmamento estava estrelado e antes de adormecer reconheci os gritinhos de uma das polacas.

Nenhum morto me visitou de noite e tavez por isso acordei algo desapontado, de madrugada. Os donos deste complexo de ecoturismo estavam despertos e cruzei-me com eles numa das passadeiras, um agregado familiar de estrutura matriarcal e com apenas um homem, o pobre Cabral, com ar de pirata de baixa patente, que atinou comigo quando se apercebeu que partilhamos um apelido. Cabral casou-se com a filha da mulher que reina por aqui, uma americana acima dos 70 anos, de coxas poderosas e uma cabeleira desgrenhada que podia aninhar caranguejos eremitas e outra bicharada. Disseram-me que a senhora circunda a ilha em snorkeling sem barbatanas todos os fins de tarde e eu acredito, parece a mulher do Neptuno. Combinei com eles um passeio de barco para ver nurse sharks e outros esqualos. O plano deixou-me paralisado para o resto do dia. E agora que faz escuro, ainda tremo de medo, mas penso que um forcado no Caribe estaria como eu agora, o que me reconforta. Falta menos de um dia.

agosto 18, 2007

2

stjohnmap_small.jpgJuntei-me ontem de manhã a dois casais de polacos e fui mergulhar em Coral Bay. Desconhecia que os polacos mergulhavam. De resto, ignorava que os polacos viajam. Mas tenho daquela gente um entendimento tão fragmentado que a corrente apenas passou quando me lembrei de discutir uma jogada do Boniek no Espanha 82, em que ele desprezou a baliza e se aproximou da bandeirola de canto, para conservar a posse de bola e a vantagem no marcador. Copernicus, Chopin, Polanski, Kieslowski, Kosinski? Tenho um colega polaco que ouve Chris de Burgh, aprendi a nivelar por baixo. De resto, o Boniek foi um jogador de fino recorte e como cultura franca temos o futebol e nada mais. Enfim, uma vez submersos tendemos para o laconismo. Antes assim.

Os polacos mergulham bem e ensinaram-me uns truques. Regressaram frustrados por nem um nurse shark ter aparecido; eu vim empolgado pelo encontro com uma tartaruga e percebi que o animal foi feito para o mar, tem uma graciosidade que morre na praia. A polaca mais pequena consumiu menos de metade da botija e ocorreu-me que Mozart, com os seus 163 cm e uma morte prematura aos 35 anos, deve ter gasto muito pouco ar, epifania que - por um qualquer reflexo de ecologismo bacoco - teve impacto no respeito que nutro pelo compositor.

Almocei na varanda, sozinho. A tenda mais parece uma casa, tem uma estrutura de madeira que sustenta paredes de lona, redes de mosquiteiro e um telhado de oleado. Se chove, o barulho deve ser ensurdecedor mas ontem o sol estava forte e nem uma nuvem se via. Espreguicei-me depois na rede, tentei ler o Naipaul, mas como a perna assente no chão me ia embalando avancei pouco. Acordei ao fim da tarde, ainda acusando a fadiga da viagem. Creio que sonhei com E., a caseira de Ourique, que me adorava. Pressinto que este lugar convoca os meus mortos e ainda bem que a vida me poupou a um Big Chill, os mortos queridos eram todos mais velhos, nenhum amigo que cresceu comigo, ainda nenhum de nós.

Fui jantar a um restaurante de estrada, no jeep que aluguei. O lugar atrai muitos americanos com avarias evidentes: dentes estragados, alcoolismo, uma descompostura de quem perdeu o brio, traumas por curar, velhos impacientes com a vida. Apenas o jovem empregado de mesa mostrava pressa de sair dali, aposto que tinha farra alinhavada. Sorte dele, que eu recolhi a casa cedo. Ainda tomei um duche, desta vez sem o sapo.

agosto 17, 2007

Diário no Caribe (1)

stjohnmap_small.jpgSt. John, uma das ilhas virgens americanas. Estou numa tenda de ecoturismo. As meninas do guichet são duas americanas da Florida que estudaram em Barcelona. Decoraram a sala com um poster do Obama, lado a lado com imagens da fauna marinha local, e despacham a trautear uma melodia do Manu Chao. Ontem partilhei o banho com um sapo, o que me pareceu um sinal de uma estadia plena de oportunidades sexuais. Mas percebi logo que as americanas da florida se dedicam ao lesbianismo, sou perspicaz nesses assuntos.
De madrugada o vento enfona a lona virada a noroeste - como se chama o Mistral deste lugar? - e produz um silvo e uma corrente de ar fresco, que entra rasteira pela tenda, pelo que acordei cedo, apesar da cansativa viagem de ontem. Existe net, num casebre que fica no topo da colina e vim aqui ao nascer do Sol. Da janela vejo um mar imenso, com manchas azul turquesa perto das praias. Penso no meu pai e no tio M., apetecia-me estar agora a velejar com eles. "Preferes uma tarde com as meninas da Florida ou um dia de vela com o pai e o tio M.?", pergunta o diabinho. Nem preciso de chamar o anjo, mas o meu pai foi para o Brasil e o tio M. para parte incerta, morreu.
Trouxe Nietzsche e V.S. Naipaul.

agosto 16, 2007

Pausa para reflectir

toilet-paper-richter.jpg

Marcamos encontro em Setembro, vou de férias para o Caribe.

GERHARD RICHTER Klo Rolle / Toilet Paper 1965
Óleo 55.9 x 40 cm

agosto 15, 2007

Deste fardo de ser canhoto (1)

HookeFlea01.jpglft.jpgConto escrever com alguma substância sobre The Left-Hander Syndrome: The Causes and Consequences of Left-Handedness e A Left-hand Turn Around the World, duas obras que tratam do uso assimétrico que fazemos do nosso corpo e que vão muito além da inevitável listinha de canhotos famosos. Os livros formam um par curioso, pois sobre um mesmo objecto de estudo revelam estilos de divulgação científica distintos. Como se topa logo pelos nomes, o The Left-Hander Syndrome é vagamente catastrofista e o The Left-Hand Turn mais descontraído, embora igualmente rigoroso.

Na qualidade de canhoto extremo que tudo faz com a mão esquerda (dispenso a piadinha fácil), que joga futebol com o pé esquerdo, que ouve melhor com o ouvido esquerdo, que tem por dominante o olho esquerdo e que nos tempos da faculdade chegou até a ir ouvir o Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, não sou indiferente ao tema. Confesso-me mesmo algo chocado com o gráfico que retirei do The Left-Hander Syndrome, que me informa da altíssima probabilidade de não chegar aos 80 anos. Se até hoje desprezei o discurso a fazer ao mártir dos meus companheiros canhotos, mesmo sabendo que escapei por apenas uma geração do costume de forçar as crianças a escrever com a mão direita, perante estes dados vejo-me obrigado a rever a minha posição. Os canhotos quinam mais depressa e isto não é nada bom para a minha ansiedade natural.

Em todo o caso, estes dois livros são absolutamente fascinantes, pelo menos para 1 em cada 10 pessoas. Aliás, uma vez provado que os chimpanzés são capazes de aprender uma linguagem e perante a incerteza em saber se a consciência é uma propriedade exclusiva dos seres humanos, o que nos resta como traço distintivo? Talvez só mesmo a desproporção entre destros e canhotos- de 9 para 1 - seja a assinatura da nossa espécie. Bem, isso e a música de Bach.

Olivais

O meu bairro.

Procuro fotos de António Barreto*

ab.jpg

Um rosto magnífico e o português mais fotogénico entre os portugueses em actividade, mulherio incluído.

* Não somos da mesma família, o MI não toleraria comportamentos nepotistas.

A vida tranquila

23426033.jpgAs pessoas fazem coisas terríveis quando as abandonam. Contam-me histórias de vingança profundamente cruéis e egoístas. Pasmo sempre. Nunca me vinguei por causa de um amor não correspondido. Depois da dose normal de humilhação, dor e rancor, a vida volta a seguir tranquila. Mas não sei se é por ser boa pessoa ou mau no amor. E não vejo forma de esclarecer esta dúvida.

Foto de Dennis Lane

Adenda: ora essa, Mónica. Eu sou pretensioso mas simpático, não a poderia descartar. Isto da blogosfera é como os nichos ecológicos e o do prentensioso antipático já estava ocupado quando me instalei. A propósito, não podemos trocar a Vera Fisher por uma mulher morena?


Exit Strategy


agosto 14, 2007

Do pessimismo*

Nice tits will drop. It's not my fault, it's Sir Isaac's law.

De um correspondente devidamente identificado.

* Adenda: o título anterior era um comentário sobre a minha própria decadência física, mas só depois reparei que se prestava a outras interpretações, pouco elegantes. As minhas desculpas se alguém o leu e ficou incomodado, não era essa a intenção - palavra de honra.

O argumento do bom gourmand

De um ponto de vista lógico, é impossível que um gourmand liberal defenda o fumo nos restaurantes. Vamos decompor:

1. O fumo interfere com o olfacto e o olfacto é um dos sentidos estimulados pela comida.

2. Nos restaurantes, as pessoas não terminam as refeições ao mesmo tempo.

3. O direito de fumar após as refeições interfere com o direito de não levar com fumo durante as refeições.

Há duas formas de compatibilizar estes dois direitos: 1) sincronizando as refeições, recorrendo a uma sineta e a um fiscal; 2) proibindo o fumo na sala e convidando as pessoas a um passeio até à rua no fim da refeição. Qual é a solução menos absurda?

O argumento do bom gourmand é particularmente pertinente, porque não alinha com as posições higienistas que, segundo os nossos especialistas em liberdade, estão na origem destas leis proibicionistas. Por outras palavras, não quero que fumem enquanto estou a comer porque gosto de gozar a comida. Podem guardar as comparações com as políticas nazis para ocasião futura.

Este post é dedicado a Eduardo Pitta, Francisco José Viegas, Carlos Loureiro e Daniel Oliveira.

Da decência

No Domingo joguei uma peladinha - num magnífico relvado - no Central Park e não abusei das fintas ao marido gringo de uma antiga namorada. É reparando nestes detalhes que restauro a minha fibra moral.

agosto 13, 2007

Tempo de estio

Choveu e fez frio na Sexta-feira. Decretei logo o óbito do Verão. Precipitei-me e foi sintomático.

O Verão é mais longo quando somos pequenos e há uma explicação lógica: se três meses são uma porção significativa para quem tem uma memória que cobre apenas três anos de vida, contam pouco para quem já leva trinta anos de recordações. A reforçar o encurtamento relativo do Verão, há as preocupações, as férias cada vez mais pequenas, etc. Mas tudo isto é bastante trivial.

O que me parece menos evidente é o discreto deslizar do Verão pelo calendário, no sentido do passado. O meu Verão tende para Janeiro. Este fenómeno mede-se em um ou dois dias por ano e é perturbado por flutuações que prejudicam a leitura. É preciso ter paciência e alguma matemática para dar por ele. Enfim, não pretendo fazer disto um princípio universal.

Precipito o começo do Verão e antecipo ainda mais o seu fim. Se vivesse até aos 170 anos, o Verão chegaria a Janeiro mas teria a duração de um dia. O Verão a deslizar pelo calendário é como um iceberg a navegar para latitudes mais temperadas. Só não sei precisar em que momento começou esta deriva.

Miranda

A relationship between handedness and sexual orientation has been suggested but not verified by a number of researchers, who report that homosexual individuals are somewhat more likely to be non-right-handed than heterosexual individuals. The relationship between handedness and sexual orientation appears to exist within both sexes and may reflect the biological etiology of homosexuality.Wikipedia, citada por João Miranda

A semana passada foi boa para João Miranda. Um artigo no New York Times deu-lhe tema para a crónica de Sábado - a tese de Clark. E a Wikipedia e o Google nunca o desiludem; com aguma paciência sempre se encontra um argumento. Mas o sucesso desta estratégia é também o grande handicap de Miranda. O homem cita e escreve tanto, que é só uma questão de dias até começar a encontrar os seus posts nas suas pesquisas. Miranda entrará então num ciclo vicioso de autocitação que, como se sabe, é um sinal de declínio. Aguardemos.

agosto 10, 2007

Francofilia

18689140.jpgA minha última crise de francofilia levou-me a um filme muito fraquinho, apenas salvo por uns instantes de contemplação. Julie Gayet tem uma beleza maternal, no sentido em que apetece fazer-lhe um filho. Distingue-se nisso de Virginie Ledoyen e de Ludivine Sagnier, com quem apetece ter oportunidades sexuais inconsequentes.

Imagem: Daniel Auteuil e Julie Gayet, em Mon Meilleur Ami.

Exemplar

um_bom_homem_capa.jpgMais um argumento contra os editores do trabalho de VGM como tradutor. Clara Pinto Correia pode ser uma figura menos relevante que VGM para a literatura lusitana, mas Flannery O'Connor conta seguramente menos do que Dante para a literatura universal. Ainda existe algum bom senso no mundo editorial.

Como este foi um post apenas para aficionados, pareceu-me oportuno acrescentar o original do conto que intitulou o volume de O'Connor (tempo de leitura: cerca de 10 minutos).

A Good Man Is Hard To Find The grandmother didn't want to go to Florida. She wanted to visit some of her connections in east Tennes- see and she was seizing at every chance to change Bailey's mind. Bailey was the son she lived with, her only boy. He was sitting on the edge of his chair at the table, bent over the orange sports section of the Journal. "Now look here, Bailey," she said, "see here, read this," and she stood with one hand on her thin hip and the other rattling the newspaper at his bald head. "Here this fellow that calls himself The Misfit is aloose from the Federal Pen and headed toward Florida and you read here what it says he did to these people. Just you read it. I wouldn't take my children in any direction with a criminal like that aloose in it. I couldn't answer to my conscience if I did." Ler mais

Budismo para todos

HookeFlea01.jpgScience is under pressure globally, and from every religion. As science becomes an increasingly dominant part of human culture, its achievements inspire both awe and fear. Creationism and intelligent design, curbs on genetic research, pseudoscience, parapsychology, belief in UFOs, and so on are some of its manifestations in the West. Religious conservatives in the US have rallied against the teaching of Darwinian evolution. Extreme Hindu groups such as the Vishnu Hindu Parishad, which has called for ethnic cleansing of Christians and Muslims, have promoted various "temple miracles," including one in which an elephant-like God miraculously came alive and started drinking milk. Some extremist Jewish groups also derive additional political strength from antiscience movements. For example, certain American cattle tycoons have for years been working with Israeli counterparts to try to breed a pure red heifer in Israel, which, by their interpretation of chapter 19 of the Book of Numbers, will signal the coming of the building of the Third Temple,7 an event that would ignite the Middle East.

In the Islamic world, opposition to science in the public arena takes additional forms. Antiscience materials have an immense presence on the internet, with thousands of elaborately designed Islamic websites, some with view counters running into the hundreds of thousands. A typical and frequently visited one has the following banner: "Recently discovered astounding scientific facts, accurately described in the Muslim Holy Book and by the Prophet Muhammad (PBUH) 14 centuries ago." Here one will find that everything from quantum mechanics to black holes and genes was anticipated 1400 years ago.

Science, in the view of fundamentalists, is principally seen as valuable for establishing yet more proofs of God, proving the truth of Islam and the Qur'an, and showing that modern science would have been impossible but for Muslim discoveries. ler mais.

agosto 08, 2007

Viver sem acentuar

Qual Georges Perec, vou serpenteando o idioma, mas neste caso por imposta necessidade. Uma primeira aposta: tenderei a abandonar a negativa, isto de andar privado de acentos obriga-me a ser optimista. Uma proposta: alargar o jogo ao dia a dia, como o catraio do mais recente DeLillo que apenas usa palavras com - creio - um cardinal fixo de fonemas. E vem a calhar ter-me lembrado do DeLillo, porque o livro estava a agradar-me, pelo menos antes de o perder na barafunda dos pacotes. Andam a dizer mal do homem mas para romance sobre o 11 de Setembro a obra cumpre. Funciono um pouco em contracorrente, ou seja, sendo o tema pretensioso as minhas expectativas baixam; escrevesse DeLillo sobre as gotas que caem da torneira da cozinha e seria eu mais exigente. Enfim, com um nome como Don DeLillo, acho muito complicado tentar fazer um mau livro. Don DeLillo parece-me mesmo o nome mais conseguido entre todos os escritores vivos. E como "...DeLillo, Don DeLillo" soa ainda melhor que o original, o homem tem uma carreira alternativa se o Casanova continuar a denegrir os seus livros.

agosto 07, 2007

Best of MI

I would really suggest a great portuguese place in Newark, mas isto talvez [seja] melhor depois. She seems like she has been to the 'it' spots, but looks to be a lady who might enjoy an ethnic touch, you know, you speaking to the maitre in your own mysterious dialect, full of jungle rhythms, she can almost hear the waters of the mighty Congo rushing through Coimbra... Th.

agosto 06, 2007

Pregas e vincos

23393954.jpgA explicação oficial para a aquisição de uma cama de casal quando se vive sozinho é o conforto, mas a verdade é que se trata de um sinal de optimismo. Tudo se complica, porém, quando o optimismo é infundado, pois a cama de casal só aumentará a ansiedade do madrugador. Não é possível generalizar os marcos temporais que descrevem esta deriva; uns funcionam a dias, outros a semanas e para os mais sólidos serão precisos anos. Tarde ou cedo, todos experimentarão o momento em que, deitados de barriga para baixo, com o pescoço rodado a 90 graus e sob efeito da vigília matutina, os lençóis se transformam. Numa cama de casal, as pregas e vincos desaparecem num infinito nebuloso quando se foca o primeiro plano. O que se vê é talvez uma paisagem coberta de neve, depois um afloramento rochoso de encostas polidas pelo vento, as formas de um museu modernista, o cenário de uma má série de ficção científica e, por fim, sempre vem a puta da anatomia. Geralmente começa por ser uma perna, aquela prega longilínea que parece estar sob a tensão de uma bolsa de ar passa bem por uma coxa. Ora, é sabido que havendo uma porção de mulher, num instante se faz a mulher inteira, a coisa funciona como os núcleos de condensação. Para os espíritos mais efabuladores ou que consumiram muita publicidade na infância, a metamorfose pode revestir-se de considerável sofisticação cénica, com a mulher a emergir de um líquido lácteo, sendo a mudança de estado físico acompanhada pelos respectivos reflexos e até por uma alteração de temperatura - a cada vez, tenho sempre um calafrio. Nascida a primeira mulher, é importante evitar que apareçam outras, não se quer uma praga de mulheres na cama, por pudor e necessidade de conter a alucinação. E nestas alturas a cama de casal volta a não ajudar, pois não há envergadura que chegue para alisar todas as pregas e faltam mãos para manter submersas as mulheres - sinto que lhes toco na cabeça ainda elas não ergueram um joelho. Como num round perdido, o que me salva é a primeira buzinadela vinda da rua, ou então o toque do despertador. Mas o coração demora a desacelerar. É por isso que preciso urgentemente de encontrar uma solução que acabe com estas miragens. Trocar uma das duas almofadas por um travesseiro parece-me uma boa ideia. Realista, num duplo sentido.

PS: o computador foi para o galheiro e vejo-me obrigado a meter ferias de blogosfera forcadas, pois nao gosto de escrever durante o horario de expediente. Acresce que nao acentuar adverbios de modo por saber que nao levam acentos e diferente de nao ter a possibilidade de dar tal erro e nao gosto de iludir os meus leitores. Volto as paginas manuscritas, faltam 181 infidelidades. Vamos cumprir. Boas ferias e escolham bem a companhia.

Seremos já três?

Se der para fazer o curso por correspondência, contem comigo.

agosto 03, 2007

Pódio Mohammed Saeed al-Sahhaf©

Image-36.jpg1. Al-Sahhaf de ouro: um dos maiores entusiastas da invasão do Iraque foi Pacheco Pereira. A invasão continua a ser, todos os dias, um desastre completo. Em meses de Abrupto, não se vê uma referência ao Iraque, mas a primeira que aparece é para dizer que "não há só bombas no Iraque". Desde o começo da intervenção, a estimativa de baixas civis é 68000-75000 e o número de baixas nas Coalition Forces quase dobra os 4000. Estas listas, aliás, estão permanentemente desactualizadas; na semana que passou, num único atentado terrorista em Bagdad morreram pelo menos pelo menos mais 50, sem contar com os feridos. Mas, enfim, o que são 70 000 mil pessoas? É a guerra, é a guerra, o mundo está mais seguro, o Médio-Oriente então parece um cartão postal em tons de sépia. E como brinde até tivemos esse altíssimo momento civilizacional que foi o enforcamento televisionado do monstro que era Saddam.
Ninguém sabe como resolver o problema, mas havendo 3 opções para os que apoiaram esta intervenção, apenas duas continuam a ser populares: fazer como Pacheco ou assobiar para o lado, que é que quase todos os bloggers e cronistas da direita preferem. Também aqui Pacheco se distingue dos demais.

2. Al-Sahhaf de prata: o veto político de Cavaco ao novo estatuto do jornalista foi menorizado por Vital Moreira. Tendo em conta a posição antes expressa por Vital, estavam criadas condições para um happening sahhafiano e o constitucionalista de Coimbra não desiludiu. Cavaco Silva faz uma alusão à salvaguarda da liberdade de imprensa, aponta uma incoerência grave entre o Código de Processo Penal e um artigo do Novo Estatuto sobre a quebra do sigilo profissional (entre outras imprecisões), exprime uma dúvida sobre a necessidade de habilitação académica de nível superior para se exercer a profissão e remata com uma crítica ao regime sancionatório proposto. Admitamos que Vital só acusaria algum desconforto se Cavaco tivesse expressado o seu desacordo pinchando os muros de Belém, mas este veto, sobretudo considerando a até então vegetativa presidência, teve um peso político insustentável.*

3. Al-Sahhaf de bronze: numa lógica de descoberta de novos valores, o Al-Sahhaf de bronze ficará sempre reservado a figuras ainda pouco mediáticas, mas que denotem qualidades ímpares na manipulação da realidade. O prémio desta semana vai para Xatoo, por causa da sua inflamada defesa do regime cubano.

* E teve já como efeito benéfico o reaparecimento de Ana Sá Lopes no Glória Fácil.

Meatloaf

A minha colega alemã diz que é preciso coragem para pedir rolo de carna picada na cantina, a uma Sexta-feira. Na verdade, basta ter confiança nas instituições.

Ascendência moral de mérito duvidoso

Marques Mendes foi à Madeira mendigar uns votos e os comentadores indignaram-se. Ambos cumpriram o seu papel. Marques Mendes e os comentadores.

Morte estúpida

Ao contrário do que se diz, morrer atropelado não é necessariamente uma "morte estúpida". Se atravessamos a rua na passadeira, com o sinal vermelho para os carros, e somos passados a ferro por um camião, não há estupidez neste enredo. Distinto é descobrir o filho de 25 anos morto no quarto, presumivelmente vítima de suicídio, muito provavelmente por andar a tomar esteróides, por causa do body building. Isto é uma morte estúpida e devastou uma colega, tia do falecido, que ouviu tudo ao telefone e se desfez num pranto.

agosto 02, 2007

Musil

m979617a.jpgNão sei se está traduzido em Português, mas POSTHUMOUS PAPERS OF A LIVING AUTHOR, de Musil (ando a ler a tradução em Inglês), é uma maravilha. Para quê escrever um romance, se se pode fazer tanto com três páginas, olhando só para a forma como as moscas morrem?

As he strolls among his several selves, Musil becomes a flaneur of thought. He loiters among impressions as much as objects, regarding them with equal amplitude and precision. Having defined our various traits, he has a particular alertness to popular culture, the kitsch and more-than-kitsch that saturate our lives. After years in Berlin and Vienna, he was too shrewd to condemn the masses' entertainment. Though exquisitely refined, he was no cultural elitist. Musil's conceit is that the only alternative to the generalized mess he has revealed is the coherence of his meandering thought. His linguistic facility - the merging of aim, manner and result - is virtuosic. He's such a consummate stylist that after him Kafka may seem immature, Mann chatty, Brecht arch, Rilke precious and Walter Benjamin hermetic. NYT

O filler do culto

Nunca houve um tempo em que os animas falavam, mas existiu um tempo em que os jogadores da bola não sabiam falar. Foram os anos oitenta. Apesar de Fernando Gomes e de Eurico, que se expressavam como doutores, os craques eram ridicularizados pelo discurso pobre, em que o "portanto" aparecia a cada três palavras, saturando a linha de raciocínio com relações causais inexistentes. O "portanto" era, portanto, um filler, permitia-lhes ganhar tempo na gramática, parafraseando Gabriel Alves. Desde essa altura, gosto de coleccionar estas palavras.

Nos EUA há essencialmente dois fillers: o "you know what I'm saying", que na versão ebonics sai como "ya know w'am sayin' " - e corta transversalmente todas as etnias na versão curta "you know" - e o "like", a que sobretudo as raparigas e os gays recorrem para minar a língua do bardo.

Em Portugal, o "portanto" está em franco declínio, tanto mais que os jogadores de futebol falam hoje melhor do que os seus dirigentes. Tirando algumas idiossincrasias - mas, em rigor, o "tranquilidade" de Paulo Bento é mais uma obsessão semântica do que um filler - e certos anacronismos - como o "pá" de Otelo -, a nossa língua empobreceu-se dramaticamente em fillers, se me é permitido o paradoxo. A única história de sucesso recente é o "prontos", cuja sonoridade desagradável nunca poderá tornar apelativo enquanto objecto de estudo. Daí o meu entusiasmo ao descobrir o filler dos cultos.

O filler dos cultos é o unicórnio da linguística, uma criatura que pura e simplesmente não deveria existir. Mas ela existe. É o "enfim". Se ouvirem com atenção entrevistas a Ricardo Araújo Pereira ou João Pereira Coutinho, repararão que o "enfim" surge amiúde. O Ricardo e o Coutinho são pessoas cultas e operários da língua portuguesa, eloquentes, com um domínio muitos furos acima do cidadão comum e até do Eurico. Porém, não dispensam um filler. A escolha é preciosa. Se repararem, o advérbio "enfim" não quer dizer nada, ou melhor, antecipa uma conclusão, mas que se tira a contragosto, ou uma ressalva, que se despreza. É provavelmente a palavra com a maior carga autodepreciativa sobre o discurso que a nossa língua produziu, o que gera logo empatia. Até o Coutinho, quando a usa, parece modesto. O filler do culto, enfim, preserva a marca da sua cultura.

Bad News

Scarlett_Johansson_07.jpg"Unfortunately it looks like Scarlet Johansson won't be playing the role of Jenna Jameson in the film version of her novel, How to Make Love Like A Porn Star: A Cautionary Tale, to be called Heartbreaker, despite the world famous Porn Star wanting her to.

Previously Jenna Jameson talked up the possibility of Scarlett Johansson saying that she would be perfect for the role with her on screen sexuality.

However Johansson has put paid to that when her representative told People.com through StarpulseNews Blog that she wasn't interested:

“Scarlett has never seen a script nor been approached about this project. She also has no interest in playing this role.”

agosto 01, 2007

A primeira grande autoridade em ciência da minha geração*


*Em muitos casos, também a última.

Alentejo

ourique.jpgAs mais belas paisagens, as mais belas aldeias, a costa mais bela, a mais bela música, o melhor pão, as melhores carnes (porco preto), os melhores cantores, os melhores vinhos, a nossa melhor matéria-prima (a cortiça), a cozinha mais criativa, o rio mais enigmático, a mais digna das províncias, ainda e apesar de tudo o que lhe têm feito.

A foto foi tirada nos arredores de Ourique, ainda eu acreditava no amor eterno e que um dia conseguiria tocar na guitarra "A Catedral", do Barrios.

Godinho

sg_ossobreviventes.jpgSérgio Godinho é o melhor letrista do último quartel do século XX. Isto parece-me matematicamente irrefutável. Apetece-me até alargar o período e só não o faço para não perder credibilidade. As minhas três canções preferidas do Sérgio - pá, sou de esquerda, é como se o conhecesse - são: "As horas extraordinárias" (acompanha-se só com dois acordes, esta maravilha), "Espalhem a Notícia" (que gerou um happening aquando das lutas blogosféricas sobre sobre a IVG) e "O primeiro dia". O Godinho engajado interessa-me menos e envelhece pior, mas lá no âmago a gente de direita não discordaria da minha mãe, que diz ser o cantautor "um homem cada vez menos medonho".


A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebem-se as certezas num copo de vinho
vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Depois vem cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se um descanso por curto que seja
apagam-se as dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérigo Godinho "Pano cru" (1978)