julho 31, 2007

Novo colaborador

A blogosfera tem um lado de Ponto de Encontro. Já recuperei o contacto com alguns amigos de infância, mas nunca pensei que voltasse a encontrar o Zé Andrade. O Andrade - era assim que o tratávamos na escola primária 25 dos Olivais - fazia uns desenhos muito catitas e era péssimo nos ditados. Quando me mudei para a Preparatória Fernando Pessoa, o Andrade foi para o Colégio Moderno e nunca mais o vi.
Reencontrei-o ontem, aqui em Nova Iorque. O Andrade trabalha como corretor na bolsa, ganha um zero à direita a mais do que eu e lê blogues portugueses. Perguntei-lhe se ainda desenhava e convidei-o a fazer uns bonecos no MI.

A Helena Matos deve ter tido um fim de tarde feliz

...também uma certa brisa correrá no bafio dos costumes islâmicos quando as iranianas puderem observar no corpo de alguns jogadores, dos quais Cristiano Ronaldo é um excelente exemplo, a inspiração e alegria de deus quando criou o homem. in Blasfémias

Se me é permitido um comentário técnico, parece-me que o torso de C. Ronaldo está sobrevalorizado. Noto ali uma hipertrofia dos latíssimos do dorso - creio - que não é contrabalançada por idêntico desenvolvimento dos grandes peitorais, o que cria um desequilíbrio algo caricatural. Parece-me incontroverso afirmar que o corpo de David é mais harmonioso que o do jovem futebolista. Mas, enfim, é verdade que não têm faltado oportunidades sexuais a Cristiano e o mulherio e os gays gozam de opinião mais autorizada; apesar de tudo o que me têm feito, ainda sou um leigo nestas matérias.

Há duas sem três

Se um homem que não aprende à primeira é um idiota, se não aprende à segunda é um idiota apaixonado. Mas a realidade é misericordiosa tende a poupá-lo da terceira.

julho 30, 2007

Afinal, eu sou um democrata

Desejo que tenham um Agosto pleno de oportunidades sexuais.

julho 29, 2007

Dinastias republicanas, the dark side

bush.jpg
Logo que recupere a capacidade de acentuacao prometo alguns comentarios sobre as tecnicas de argumentacao de Joao Miranda.

julho 27, 2007

Angústia Bessa-Luís II

abl.jpgDesde a última entrada, dupliquei o meu conhecimento da obra de Bessa-Luís. Primeiro efeito: deixei de tratar a senhora por "Agustina", que é de uma petulância intolerável. Primeira conclusão: estava errado. Primeira hipótese: é possível que Deus exista. Primeiro temor: não conheço a minha língua. Segunda hipótese: na infância, adolescência, ou até - cf Pacheco Pereira - na sua tardo-adolescência, Bessa-Luís teve um encontro doméstico traumático com um rato. Vamos desenvolver.

Sobre Deus. Duas leitoras escreveram-me em tom algo repreensivo e maternal, depois do post de ontem, e eu chutei para canto. Mas logo a seguir, quando fechava os caixotes com os meus livros - que seguem já amanhã para Los Angeles -, descobri o volume Contos Impopulares. Tenho centenas de livros aqui. Qual a probabilidade de o meu único livro de Bessa-Luís ter ficado no topo de um dos caixotes? Ou qual a probabilidade de ter escrito um post sobre Bessa-Luís e horas depois, com a biblioteca soterrada na biblioteca, dar com o único livro da senhora que possuo? Por causa de probabilidades bem mais altas já correu muito sangue.

Vocabulário. O conto que li - O Búzio- não chega a 6 páginas e houve duas palavras cujo significado julgava conhecer, mas tratava-se de uma ilusão. O mais fascinante não é ter aprendido duas palavras novas. Basta ler um qualquer escritor pretensioso, dado a barroquismos ou com a mania que é uma reencarnação do Camilo para descobrir palavras novas. Mas "peanhas" e "prímulas" surgem porque não havia mesmo palavras melhores, há ali o rigor de um compositor a escrever uma harmonia dentro do espartilho da música tonal - a nota certa, no tempo e duração certos.

Traumas. Dois contos, dois ratos. O conto de ontem era sobre um rato, este de hoje mais psicológico, mas eis que: "...um rato, esgueirando-se da sua lura no tabique, deslizou e foi roer a orla dum velho calendário". Mais uma coincidência? I think not. Como seria a população de roedores nos anos 20 do século passado, em Vila Meã, Amarante? Que vidas moravam sob aqueles soalhos? Sinto já uma tese de mestrado transdisciplinar a germinar: Ecologia doméstica de roedores e seu impacto no imaginário de Agustina Bessa-Luís.

Falando agora de coisas sérias, remato com esta pérola: porque excêntricos não são os originais - são antes aqueles cuja isenção de espírito lhes permite fazer da vida um hábito confinado a determinados hábitos.

Cultura Científica

HookeFlea01.jpgCarlos Fiolhais elaborou um teste de Cultura Científica com 10 perguntas de escolha múltipla. O teste mede essencialmente o interesse com que as pessoas seguem notícias sobre ciência e não propriamente o domínio de noções básicas de ciência (que apenas é aferido pelas perguntas 1 e 7). O termo cultura científica é bastante elástico, mas não creio que seja particularmente trágico desconhecer em que universidade trabalha António Damásio. Ou desconhercer o nome do actual sistema de computação de maior desempenho em universidades portuguesas que, se não estou em erro, foi montado no Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, fundado e dirigido por, justamente, Carlos Fiolhais.

O teste faz parte de um artigo mais vasto publicado na revista Visão e admito que algo me tenha passado ao lado. Em todo o caso, se esta relativa tabloidização - onde trabalha Damásio é tão relevante como saber o número da porta de casa de Tom Cruise - é moda algo recente, a auto-referenciação faz escola na ciência há centenas de anos.

julho 26, 2007

Continuo a preferir a Comaneci ao Simão Sabrosa

Angústia Bessa-Luís

abl.jpgUma das maiores pechas na minha limitada cultura é nunca ter lido Agustina Bessa-Luís. Corrijo: li um conto, um conto péssimo - mas julgai, julgai -, que relata o confronto entre um homem e o rato que se instalou em sua casa. O conto é francamente mau, sem graça quando a pretende ter, o que é provavelmente o que de pior pode acontecer a um escritor. A impressão que me ficou foi tão forte que nunca mais peguei num livro da senhora, só leio as suas entrevistas, porque é uma pessoa extraordinariamente luminosa e isso até eu percebo. Mas quando vejo pessoas como o Alexandre a arrancar loas destas, aperta-se-me a garganta em lás de guia e só me apetece correr à Barnes and Noble, nem que seja para ler Agustina traduzida, coisa que - quase aposto - aquela cadeia não disponibiliza. A ser verdade o que o Alexandre escreve, entre os míseros portuguese rolls - com destaque particular para os intragáveis mealhada rolls - que alastraram por todos os supermercados e as traduções dos livros do Saramago que tomaram conta dos escaparates, não chega a Nova Iorque o melhor que a minha pátria produz. Nem Agustina, nem pão alentejano. O nosso adido cultural anda a perder-se nas cocktail parties de Washington DC, está visto.

Curiosamente

O Ana de Amsterdam é, de certa forma, o blogue que eu tinha imaginado escrever, não esta coisa em que o MI se tornou. Fica o consolo de saber como poderia ter sido.

Facilitando

Voltando à temática da semana, tem sido difícil não confundir o fio dental com a fita dentária. Apenas plano semântico, devo lamentar.

Mas desde quando isto é controverso?

lv.jpgSempre preferi Curb your Enthusiasm a Seinfeld e não há volta a dar. Ricardo Gross

A minha geração (os trintões) foi bafejada pela sorte, pois Seinfeld e Curb your Enthusiasm surgiram não só na ordem certa como também no tempo certo. Nada mais nos compensa dos inúmeros respingos de merda que apanhámos por não ser popular o uso de pára-lamas entre os companheiros de Vicente Jorge Silva. Aliás, a vaga parecença física entre Larry David e Vicente é Deus a reinar* connosco....

* O "i" esteve omisso durante aproximadamente 20 minutos.

Air Guitar 2007 Finals: contagem decrescente

images.jpgNada é tão tangível como o vazio. Anónimo, séc XIX

As Finais do Concurso de Air Guitar são já no próximo dia 16 de Agosto, em Nova Iorque. Com a fotografia de César Mendes, o MI promete marcar presença e regressar para contar como foi, naquela que será a primeira reportagem de grande fôlego, num exclusivo para a nação lusa.

A Air Guitar é desprezada pela Intelligentsia; veja-se Pacheco Pereira, por exemplo, homem com uma erudição de largo espectro mas que entre as Gálaxias e a Country Music não encontra espaço para um único post sobre a Air Guitar. Entre os vastíssimos metros lineares da sua biblioteca, nem um centímetro deve estar ocupado por um volume de um mundo que conta já com vasta bibliografia.

Não adoptaremos o tom paternalista nem ecoaremos o deslumbramento fácil do turista. Tão-pouco faremos da Air Guitar tópico para incursões pretensiosas. Barthes está morto. A Air Guitar não é o cúmulo da paródia ao vácuo virtuosismo dos guitar heros do rock, nem o atalho possível para a comunhão entre o fã e o seu ídolo. Saber se a Air Guitar é um género artístico de pleno direito não é uma provocação; provocação é querer que o ciclismo continue com desporto olímpico. Para perceber a Air Guitar é preciso que nos dispamos de preconceitos antes de iniciarmos o nosso caminho. Trata-se, afinal, de um percurso iniciático.

É para isso que aqui estamos. Até 16 de Agosto, daremos conta deste mundo e logo a 17, usando o método Nogueira Pinto de escrita na ressaca do concerto, apresentaremos o texto definitivo sobre esta arte.

julho 24, 2007

A patetice não tem geografia, o Algarve sim

Correndo o risco de fazer do MI o blogue sombra do Abrupto, chamo a vossa atenção para a fotografia com que JPP ilustrou o seu post sobre o Algarve. Aposto os dedos da minha mão esquerda - e sou canhoto - em como aquela praia é no Japão. JPP consegue de uma assentada manipular a informação e quase provocar um incidente diplomático com os nipónicos, visto que praticamente insulta quem vai para o Algarve. Julguem por vossa conta. Que importância tem isto? Nenhuma, mas vibrei com esta descoberta e apeteceu-me partilhá-la.

Super Santiago

HookeFlea01.jpgsuperman_main_logo.jpgOs bloggers são vistos como profissionais de mérito duvidoso, pois o grosso da actividade blogosférica ocorre durante os horários de expediente. É claro que há profissões que não se regem por tais horários ou chegam a dispensar um, mas também é frequente ouvir-se de alguém que "não tem tempo para blogues". Ora, é tudo uma questão de prioridades, se a pessoa prefere ler a Bola, falar ao telefone, coçar-se, enviar aviõezinhos de papel perfumados à colega, etc., ninguém lhe nega tal direito.

Vem este desabafo a propósito de um recente relatório elaborado por Philippe EVEN, antigo Director da Faculdade de Medicina da Universidade Paris 5 (Necker), sobre a produtividade dos cientistas afiliados em França, durante o período de 2001 a 2005, e que foi publicado no Echos; trabalhei nesse belo país, a coisa interessa-me. O relatório identifica os 0.8% dos cientistas de topo, a que chama Super-excelentes, Categoria "S" - sim, este léxico que funde os Marvel Comics com a tecnocracia meritocrática é sempre hilariante. Pois bem, entre os Super constam dois cientistas portugueses, Benedita Rocha e Paulo Vieira. Parabéns a ambos.

O Paulo é o meu amigo Santiago, com quem ando a escrever o Ciclope Cínico e a trocar posts e emails vai para uma série de anos. Como se vê, blogar é compatível com uma actividade profissional muito bem-sucedida.

A propósito, não seria má ideia se algum jornal -online mas de preferência em papel - investisse tempo e espaço de página a entrevistar o Paulo, usando este relatório como pretexto, não tanto para ecoar o orgulho algo bacoco de que aqui dou mostras - raios, sou amigo dele -, mas para ouvir o que o Paulo pensa sobre política de ciência em Portugal. Garanto-vos que daria uns destaques engraçados. De resto, com tanta irrelevância a ser escrita sobre Paulo Portas e Luís Filipe Vieira, é só fazer copy paste e tem-se logo o nome formatado. Vieira, Paulo Vieira. Não estou a ser nada subtil, mas a ideia é essa: se houver jornalistas por aí, mexam-se.

O Espírito e VGM

Inicio a leitura do romance Retorno ao Princípio, obra do Espírito Lucius, psicografada por Lucimara Breve. Se um dia Vasco Graça Moura traduzir algum romance psicografado, será que as letras do seu nome também serão maiores que as letras do nome do Espírito? Fica a dúvida. Conto tecer algumas considerações sobre este género literário terminada a leitura desta obra.

Trivialidade de Terça-feira

Na procura sôfrega de uma pessoa também conta a percepção de que se não se fizer um esforço acaba-se mesmo sozinho. Por outras palavras, a solidão não é assim tão terrível, não é como uma fogueira ou uma cama de espinhos, e isso é que é terrível.

(Esta entrada foi escrita a ranger os dentes)

Tresleituras

Pedro Arroja visitou o Museu Judeu em Berlim, irritou-se e chegou a uma tese:

Porém, é no plano da tese que a questão mais me interessa discutir. Seria possível a um povo sobreviver - e, mais ainda, prosperar - se, em lugar de evocar os seus grandes feitos e os seus grandes heróis, como normalmente todos os povos fazem, decidisse, em lugar disso [...] comemorar os seus grandes crimes e os seus grandes algozes?

Este texto de Arroja é uma resposta a um comentário comentário de Lutz e a substância empírica em que Arroja se baseou para contrapor, não só era à partida algo incompreensível como - para cúmulo - parece ter resultado de uma tresleitura grosseira. As tresleituras são lapsos e não vale a pena insistir numa interpretação psicanalítica para o lapso de Arroja, mas a ligeireza com que o Professor generaliza as suas impressões não deixa de me tentar. Diz Arroja que a maioria dos portugueses se oporia à construção de um museu sobre o Pogrom. Diz também que os alemães vão sentir um mal-estar permanente por causa daquele museu.

Argumentos de autoridade valem o que valem, mas Lutz Brückelmann é berlinense, pelo que muito provavelmente o único alemão a ter lido o post de Arroja discordou frontalmente do Professor. E no que toca a um eventual Museu Judeu em Portugal que inclua o Pogrom de Lisboa, disponibilizo-me desde já a fazer uma doação modesta mas honrada. Saber se Luz eu estamos em minoria ou maioria não é fácil - e existe o perigo de um enviesamento provocado pelo politicamente correcto, já lá iremos - mas admitamos que há pelo menos substância empírica para duvidar das opiniões de Arroja.

O que sobra, então, é a tese. Em qualidade, Arroja tem razão. A História de cada país tende a sobrevalorizar os feitos e a ocultar os desaires. Mas isso acontece dentro de certos limites. Em grau, a tese de Arroja não colhe, pois o crime dos nazi foi absolutamente excepcional. Não há equivalência moral entre os nazis e os negreiros portugueses ou os espanhóis exterminadores de índios nas Américas, ou os judeus opressores dos palestinianos (exemplo de Arroja). O genocídio dos judeus transformou um substantivo num nome próprio (Holocausto) e não vale a pena gastar mais palavras.

Acresce que a construção do Museu pode ter um efeito catártico sobre um povo que continua refém da lembrança do Holocausto. Talvez o melhor seja mesmo enfrentá-la, ver o museu não como uma âncora que prenderá para sempre os movimentos daquele povo, antes como uma bóia de sinalização que o fará navegar de novo. Creio ser essa a opinião de Luz e é a ideia com que fico quando - raramente e a medo - lá consigo falar do Holocausto com alemães.

Arroja é um blogger interessante. A sua chegada ao Blasfémias envolveu alguma pompa, tratava-se de um dos profetas do liberalismo em Portugal e um dos homens que mais fez pela liberdade no nosso país. Algumas dezenas de posts depois, Arroja sai do Blasfémias e migra para outro blogue. Arroja tem também a peculiariedade de tentar adivinhar o perfil psicológico e o currículo dos seus interlocutores. Por último, é politicamente incorrecto, o que ficou lavrado na pedra na famosa entrevista que surgiu na Grande Reportagem. O politicamente incorrecto suscita rancores, mas também atrai muitos comentadores, que praticam um politicamente incorrecto mais cauteloso, de segundo grau - veja-se o recente namoro de Pacheco Pereira a Patrícia Lança. Pondo de lado o calculismo, por muitas que sejam as virtudes - coragem, frontalidade, excentricidade, etc. - de quem o pratica, o politicamente incorrecto não vale como argumento e por vezes - como agora - é simplesmente absurdo, salvo erro de tresleitura da minha parte.

Elixir anti-séptico

20219826.JPG.jpg30 segundos a bochechar uma mistela que irrita a língua. Antropomorfizo os micróbios, vejo-os em lenta agonia, peço só mais um esforço às minhas células, lembro-me de uma vinheta de um álbum do Tarzan. A imagem que encontrei não faz justiça à lembrança, pois Tarzan lutava com o crocodilo debaixo de água, tinha o tempo contado; ou o matava depressa ou morria asfixiado. Não sei que distúrbio é este, que pulsão de heroísmo recalcada me faz pensar no abraço mortal de Tarzan ao crocodilo sempre que, de manhã ou ao fim da noite, bochecho o meu anti-séptico. No fundo, creio que tenho uma vida muito aborrecida.

Dentes de fêmea

dust.pngSó um atento observador como o Pedro Mexia me poderia ter chamado a atenção para a dentição canina de Kirsten Dust. Mexia tem toda a razão. Beijar aquela mulher é uma prova de confiança e é prudente não imaginar os actos mais íntimos. Os namorados de Dust devem andar sempre na linha e olhando para ela percebemos facilmente os efeitos dissuasores de se possuir um bom arsenal de guerra, a lógica das escaladas ao armamento. Sem excluir que a dentição talvez lhe tivesse valido o papel para o Entrevista com o Vampiro, não deixa de ser notável e louvável que aqueles dentes sobrevivam ainda numa cultura obcecada com a perfeição ortodôntica e que elimina logo na infância qualquer desvio ao padrão; a melhor forma de distinguir um americano de um inglês não é o sotaque e nem vocabulário, é mesmo o estado dos dentes.

Durst é pois mais excepcional que Vanessa Paradis, mas a francesa, com a separação dos incisivos, marca também presença no cardápio das fantasias sexuais. Disso trataremos amanhã.

Post patriota

A minha dentista em Paris partiu-me um dente. Gostaria muito de concordar com tudo o que Michael Moore descreve em Sicko, mas a minha dentista em Paris partiu-me um dente e se há coisa que não se esquece é o barulho de um dente a quebrar-se dentro da boca, sobretudo quando se está anestesiado e não há dor que nos distraia; ouve-se o som o morrer como se aquilo não fosse nosso, sentimo-nos um verdadeiro objecto, coisa para loja dos trezentos. Gostaria também de discordar de Michael Moore, pois vivo nos EUA e leio o João Miranda, mas a verdade é que por causa de uma dor de dentes quase fui à falência e passei a pior noite da minha vida, excluindo algumas outras que não posso aqui contar. A minha conclusão? Não se avalia o sistema de saúde de um país com base na nossa experiência pessoal, mas o que conta é a nossa experiência pessoal e por isso afrimo que Portugal é o melhor país para se tratar os dentes. O meu dentista em Lisboa é uma pessoa sofisticada, prepara um doutoramento, ouve boa música e conseguiu fazer de mim um maníaco da higiene oral. Quando me lembro do ar preocupado do dentista da Quinta Avenida, a consultar um directório qualquer para ver se havia colegas qualificados em Portugal... Deve certamente ter pensado que ainda usamos o alicate e o barbante atado a uma cadeira.

julho 23, 2007

Portas entreabertas

A velocidade com que alguns se precipitam a redigir a declaração de óbito político de Paulo Portas é o melhor indicador de que o homem ainda não quinou. Portas tem uma resiliência e... e... e uma dentadura notáveis.

Temática hebdomadária

root-canal-rs.jpgDepois de Acácio e Emmanuelle, introduzo uma nova prática no MI: o tema da semana. Esta semana o tema é a ortodontia. Só estou autorizado a fazer posts sobre dentes. Percebe-se, uma vez mais, a luta interna entre o blogger e o blogue. Não sei ainda sobre o que escreverei mas tenho uma imagem do Tarzan naquele abraço mortal ao crocodilo que gostaria de usar antes do próximo Sábado.

Mais uma tese de mestrado

Esta seria uma análise das formas de escrita na blogosfera em função da licenciatura. Creio que podemos reconhecer três grupos, a saber:

1. Direito: são uns incondicionais da pontuação e adoram a vírgula.

2. Humanidades e Ciências Sociais: incluem as formas de escrita mais picarescas e também as mais interessantes; gostam de complicar o que é simples, mas alguns extraem belos efeitos dos abusos de vocabulário e construção.

2. Ciências da Vida, Ciências Exactas, Engenharias e Arquitectura: são os mais básicos e frequentemente os mais claros.

Com o decorrer dos anos, as diferenças atenuam-se. Poderia dar exemplos, mas tenho uma semana complicada pela frente e não quero perder tempo com polémicas vãs.

Diplomacia radical

One time at Maimonides a local physician — a well-known figure in the community who later died tragically young — addressed a school assembly on the topic of the challenges that a modern Orthodox professional may face. The doctor addressed the Talmudic dictum that the saving of a life trumps the Sabbath. He explained that in its purest form, this principle applies only to the life of a Jew. The rabbis of the Talmud, however, were unprepared to allow the life of a non-Jew to be extinguished because of the no-work commandment, and so they ruled that the Sabbath could be violated to save the life of a non-Jew out of concern for maintaining peaceful relations between the Jewish and non-Jewish communities.

Depending on how you look at it, this ruling is either an example of outrageously particularist religious thinking, because in principle it values Jewish life more than non-Jewish life, or an instance of laudable universalism, because in practice it treats all lives equally. The physician quite reasonably opted for the latter explanation. And he added that he himself would never distinguish Jewish from non-Jewish patients: a human being was a human being.

This appealing sentiment did not go unchallenged. One of my teachers rose to suggest that the doctor’s attitude was putting him in danger of violating the Torah. The teacher reported that he had himself heard from his own rabbi, a leading modern-Orthodox Talmudist associated with Yeshiva University, that in violating the Sabbath to treat a non-Jew, intention was absolutely crucial. If you intended to save the patient’s life so as to facilitate good relations between Jews and non-Jews, your actions were permissible. But if, to the contrary, you intended to save the patient out of universal morality, then you were in fact guilty of violating the Sabbath, because the motive for acting was not the motive on the basis of which the rabbis allowed the Sabbath violation to occur.

Later, in class, the teacher apologized to us students for what he said to the doctor. His comments, he said, were inappropriate — not because they were wrongheaded, but because non-Jews were present in the audience when he made them. The double standard of Jews and non-Jews, in other words, was for him truly irreducible: it was not just about noting that only Jewish lives merited violation of the Sabbath, but also about keeping the secret of why non-Jewish lives might be saved. NYT

julho 22, 2007

"Ready? Modulate!" [priceless]

Rufus Wainwright


A propósito de grandes letras, isto é uma grande canção, que resiste até à desafinação final, depois do solo de piano. Este Rufus é genial.

Via Bomba.

julho 21, 2007

Dou erros ortográficos para estimular a ironia nos meus leitores

Saludos

Esperando que me conceda instrumentalizá-lo para arrebanhar-me uma réstia de funcionalidade, escrevo-lhe apenas para manifestar a minha dissonância, eventualmente subjectiva, com um par de minudências linguísticas (ou algo similar) que se mantêm no texto "Árvore da vida" que, na eventualidade de ser partilhada, estou em crer que poderá apreciar sanar (sanando de permeio a minha impertinência na irrelevância). Concretamente, arrisco que dentre as interpretações parcelares que suscita esse híbrido verbal que parece ser "irradicar", irradiar prevaleceria sobre erradicar ["irradicar" foi entretanto corrigido para "erradicar", VMB], o que fará toda a diferença ao leitor; e, para glosar um seu aforismo recente, a expressão «enterrar de vez com tal ideia», poder-se-ia dizer parecer estar a esforçar-se demasiado.
DanteporVGMouVGMporDante.jpgJá agora, aproveitando o ensejo, dado que na altura não me apeteceu estar a digitalizar a discordante capa mais recente da tradução da Divina Comédia que tenho, pelo famigerado VGM (que assim é sustento de - e/ou sustentado por - uma linha gráfica editorial uniformizada), nem me pareceu justificado estar a sugerir a vacilação não-significante de sólida argumentação, anexo-lhe agora imagem da dita capa (caso ainda não a conhecesse), apenas a bem da curiosidade e com a indulgência do tempo passado, onde poderá apreciar que, na escala VGM (cuja irrepreensibilidade, já agora assinale-se, apesar de tudo, já foi discutida, a despeito ou em função da sua coroação, precisamente na Divina Comédia, coisa que nunca poderei corroborar, podendo apenas comentar que a funcionalidade teatral da sua barroquista tradução da Berenice de Racine é débil - por certo, sim, para lá de consensos esotéricos, não me agrada a figura), Dante Alighieri também já não é melhor que os outros...

Sem mais,

cumprimentos

De um leitor "indevidamente identificado", segundo o próprio.

Amizade é aturar isto [estava no banho]

Amigo Apaixonado: Vasco, uma última coisa...
7/21/07 8:37 AM
...

Anda este verso do Pessoa a rondar-me desde há semanas: (estás aí?)
7/21/07 8:39 AM
...

"Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…"

[Caeiro 8/3/1914]
7/21/07 8:44 AM

...
Mas eu sempre preferi a variante manuscrita:

"...E toda a inocência não pensar…"
7/21/07 8:44 AM

...
Belo, não?
7/21/07 8:45 AM
...
"Amar é a eterna inocência,
E toda a inocência é não pensar…"
7/21/07 8:55 AM

Vasco M Barreto: Ya. Vai para o blogue.

julho 20, 2007

NY, 7:30 AM

zeppelinfeld_1909.jpg

A educação grega era sobretudo Ginástica, Música e Retórica. Fast forward para o Quadrivium, que incluía a Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música. Mas eu, quando criança, apenas aprendi a tocar o Hino da Alegria numa flauta de bisel de plástico, ensinado por uma senhora velhota que deixava o bocal dela com marcas de batom, isto é, que tocava como muitas mulheres bebem uma bica, detalhe que muito me desgostava e me afastou da música durante os anos críticos. A isto se chama, creio, o declínio da Civilização Ocidental.

Estou sem tempo, mas adianto já o essencial: ponham os vossos filhos a estudar um instrumento. Perguntem à criança de que instrumento gosta, mas tenham presente que é uma pergunta retórica. Se a criança não gosta de nenhum instrumento, escolhem os pais. Se a criança se manifesta contra a ideia, leva uns calduços. Até aos 7 anos, como se sabe, as crianças têm emoções mas não sabem o que é melhor para elas.

Um instrumento só se aprende quando se é novo. Depois escasseia a plasticidade neuronal e o tempo. Comecei a aprender guitarra só aos 16 anos e ainda hoje não sei tocar. É a minha maior frustração.

Vem isto a propósito de um momento musical sublime. Na despedida do laboratório de um colega, um outro colega tocou violoncelo, ontem. Bach na biblioteca da universidade, para um grupo pequeno, em ambiente de estudo, paredes forradas de livros, alcatifa esverdeada, tudo a cheirar e a parecer a anos 70. O Acácio conseguiu algo que não está ao alcance de nenhum músico consagrado: surpreender. Aqueles primeiros segundos, quando atacou o violoncelo, vão ficar na memória de toca a gente. Eu já sabia que ele só podia ser um bom instrumentista, porque quase se tornou um músico profissional, mas ignorava que tocasse assim tão bem. E os outros nem isso sabiam. Não sabiam que Acácio tem um som superior nos movimentos lentos e que nas passagens rápidas, se é verdade que por vezes não consegue abafar uns sons parasitas, ainda guarda a agilidade dos virtuosos.

Acácio é excepcional a vários níveis, talvez por ser alemão. Na família todos tocam. Fazem música de câmara durante as férias do Natal e garanto que não é para entoar a Noite Feliz. Acácio ao violoncelo, sua mãe ao violino, sua namorada ao piano. Reparem: Acácio tem uma namorada que lhe dá apoio harmónico, ou seja, a sua vida é praticamente perfeita.

É também excepcional por continuar a tocar. Ele já não tem o apuro de outrora, perdeu o pico de forma, mas toca para os outros e com outros. É para isso que a música serve. Em Portugal, convivi com muitos estudantes de música, que simplesmente deixaram de tocar quando perceberam que nunca chegariam a concertista e foram estudar - sei lá - Gestão. Percebo a frustração de se perder o som que se tinha, mas faz algum sentido passar os anos formativos a tocar 7 horas de piano por dia e o resto da vida sem um único acorde? Acácio tem a resposta.

Não percebo nada de ensino. Não sei que matérias são hoje leccionadas na instrução primária, mas eu incluiria a música e as línguas estrangeiras. Olho para trás e percebo que fui obrigado a decorar antes dos 12 anos informação que não serve para nada, que não forma um sistema, que não dá uma linguagem. Não aprender uma linguagem quando o cérebro funciona como uma esponja é quase criminoso. A música e o Inglês são linguagens; a Catequese e o nome dos rios não são linguagens. Bach, meus amigos. A terceira suite para violoncelo. Que se lixem os vendilhões do Templo e os nomes de todos os apeadeiros.

Sobre estes textos: a série "Os Grandes Aviões da Minha Vida" é feita de fragmentos repentistas, geralmente escritos a altas horas da noite ou baixas horas do dia, na cama ou deitado no sofá e sem grandes revisões. Para o nome da série não tenho explicações, mas é preciso dar trabalho aos biógrafos

Why I love the web

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Este ano, a horas de um casamento na Argentina, fui online, descobri esta imagem e salvei a honra.

Adenda: o Santiago sugere outro nó. Enfim, perfeccionismos...

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Isto é a sério

PROCURO VOCALISTA (homem ou então uma contralto) para projecto musical na área do songwriting urbano pós-tropicalista.

Árvore da Vida

HookeFlea01.jpgA nossa árvore genealógica comum, que não chega ao grau de resolução dos apelidos mas abraça todos os organismos vivos, das Arqueobactérias a Laetitia Casta, encontra-se aqui.

Esta árvore da vida reflecte uma das propostas de Darwin: a do common descent, isto é, a ideia de que todas as espécies vivas e mortas descendem de um antepassado comum. Na série A Teoria da Evolução e os Seus Inimigos conto esmiuçar este conceito. Por agora deixo apenas três apontamentos.

Um dos nomes mais esquecidos quando se discute esta ideia é Lazzaro Spallanzani (1729-1799), um dos cientistas que contribuíram para erradicar a noção de geração espontânea. Em rigor, seria preciso esperar por um contemporâneo de Darwin, Pasteur, para enterrar de vez tal ideia e Darwin não se empoleirou propriamente nos ombros de Spallanzani. Mas a teoria do common descent pressupõe uma sucessão ininterrupta de gerações, que dura há mais de 3 500 000 000 anos e se ramificou milhentas vezes. Não deixa de ser algo electrificante dar conta que o ADN das células da nossa linha germinal anda a replicar-se há milhares de milhões de anos, inclusive o ADN dos gâmetas dos criacionistas. E se é hoje trivial pensar que cada organismo tem um progenitor, nem sempre foi assim.

A ideia do common descent não foi nova em qualidade, apenas dramaticamente revolucionária no grau. Muitos naturalistas - e taxinomistas em particular - admitiam pequenas variações dentro de cada espécie. O rasgo de Darwin foi ter visto a própria espécie como uma variedade dinâmica. O seu labor foi ter juntado provavelmente todas as evidências à época possíveis que apoiavam a sua ideia. E a sua visão é hoje confirmada por dados vindos de todos os campos da Biologia e áreas próximas. Utilizando a terminologia moderna, Darwin explicou a macroevolução generalizando um modelo então inconsciente de microevolução (voltarei a esta ideia).

Um aspecto curioso da teoria do common descent é que a árvore da vida actual ainda segue, em traços gerais, o esquema de classificação de Lineu, que viveu antes de Darwin e não era um evolucionista. O common descent foi uma daquelas ideias luminosas que explicou o que andava a ser feito e o que fazer a seguir. Deu um sentido à taxonomia, elevando-a, talvez não à condição de uma ciência como a Física - não queremos perturbar as ossadas de Rutherford - mas seguramente um pouco acima da Filatelia. E juntamente com mais umas ideias de Darwin, o common descent veio também a dar um sentido à Biologia.

Darwin de borla para todos

HookeFlea01.jpggalapgos.jpgTudo o que Darwin escreveu, num total de mais de 50 000 páginas que podemos pesquisar com palavras-chave, incluindo edições e manuscritos, bem como 40 000 imagens e uma extensa bibliografia.

Imagem: HMS Beagle ao largo das Galápagos, às 2 horas, 15 minutos (hora local) de 17 de Outubro de 1835, admitindo que o relógio de John Chancellor (o pintor) estava certo.

Esta entrada migrou do Cabinet - que está a ser aproveitado para outros fins - para aqui.

Fundir é preciso

Saramago primeiro (a Ibéria), Júdice agora (o PPD-PSD-CSD). É a silly season, mas que nestes dois casos dará duas excelentes crónicas de Vasco Pulido Valente. Aliás, o MI lança um concurso: escreva um pastiche da crónica que VPV irá fazer sobre estes dois tópicos e os seus autores. A crónica mais parecida com a de VPV será publicada com as devidas honras.

Provavelmente o mais lembrado dos factos hoje esquecidos

Manuel fez questão de relembrar um facto hoje esquecido: o José Saramago foi um dos maiores inimigos da liberdade de expressão em Portugal. Henrique Raposo

Baixando a bolinha

Youthful communist, aged liberal conservative Patrícia Lança

Desde que sei que Patrícia Lança tem mais de oitenta anos e esteve no exército do lado dos bons durante a Segunda Grande Guerra, passei a admirar a senhora. Podem desmontar esta reacção da forma que entenderem - e até dá para umas piadas de mau gosto - mas é a pura verdade. Não preciso é de um mestre-escola como intermediário. Que mania tem Pacheco Pereira de dar lições!* Apre!*.

* Dois dos raros pontos de exclamações que podem ser lidos no MI.

E de repente veio à lembrança o Nené

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As was his habit, in the memo Nixon referred to himself repeatedly in the third person. Bonnie Goldstein

A propósito de Nixon, se houver por aí quem esteja a planear umas férias em Nova Iorque, recomendo a peça Nixon-Frost.

julho 19, 2007

Da parolice

A prosa sobre tipos sociais é um exercício estafado e geralmente ingrato, mas a Ana não se tem safado nada mal.

A propósito, Bárbara Guimarães não é uma mulher sensual. Se quiserem, eu depois explico.

Preto e branco

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A vantagem de ter um blogue sem cores não se esgota na mais-valia estética. Hergé racista? A preto e branco estamos sempre no centro da actualidade. Em todo o caso, apesar do que a Helena Matos certamente já escreveu sobre o assunto - e eu posso citá-la de cor, é aquilo a que se chama uma reminiscência antecipada, creio -, o problema não é novo. O Casanova explica e esgota a questão - é por isso que ele é tecnicamente um mau blogger, não deixa pontas por atar. Prevejo que a seguir apontarão baterias ao Le Secret de la Licorne, por causa do alcoolismo do capitão Haddock. É triste.

Vão agora dizer outra vez que a proibição - estou a cortar caminho - de fumar em espaços públicos fechados é uma má lei, porque vem à boleia desta onda de patrulhamento. Ora, uma tal proposta de lei, contra hábitos enraizados, só pôde mesmo nascer e sobreviver por causa da onda higienista. Isto é inegável. Vontade já havia, mas só se ganhou momento capaz de vencer a inércia social - mais uma destas e sou teletransportado para uma RGA na faculdade de ciências - quando os radicais tomaram conta disto. E os radicais lá vão continuando, de exagero em exagero. Dito isto, apontar o dedo aos radicais e tomá-los como prova do slippery slope que aí vem é um truque velho e que não convence.

Por vezes a inércia é tanta que é preciso pôr o plano a 90 graus para mover o objecto um milímetro. É por isso que precisamos dos radicais, mas eles apenas mostram o fim da rua, não nos atiram necessariamente para lá. Eis um paradoxo: se as forças reaccionárias fossem um pouco mais confiantes, não precisaríamos dos radicais. No fundo, a culpa é vossa, desculpem lá.

Em resumo, que a proposta de acabar com o fumo nos locais públicos e uma eventual censura ao capitão Haddock surjam ao mesmo tempo não é simples coincidência. Já toda a gente percebeu isso. Porém, a realidade é suficientemente complexa para que seja possível considerar justa a lei que proíbe o fumo nos espaços públicos fechados e ridícula a censura dos livros do Tintin por causa do capitão Haddock. Aos anti-patrulheiros pede-se um pouco mais de imaginação.

Lincografia: BBC news/Guardian/Le Monde/L'éternelle affaire Hergé/ Hergé.

julho 18, 2007

Usando o MI como janela

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O interior do meu frigorífico, instantes antes de abrir a porta, Manhattan, hoje, 6:45 AM.

Como interpretar a série Usando o Abrupto como janela, o último capricho de JPP? Quererá o autor revelar-nos a impossibilidade de captar a transitoriedade da existência? Estaremos perante uma indisfarçável ambição de omnisciência? O que levará o cidadão comum a participar de livre e espontânea vontade em tal projecto? A vã satisfação de ver o seu nome figurar no Abrupto? Nunca antes o banal serviu tão misteriosos propósitos. Quase tenho saudades dos Retratos do Trabalho.

Experiência

Ver o relâmpago e ter por certo o trovão.

julho 17, 2007

Pena de morte

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Vander Weyde, William M.
American (1871(?)-1929)
DESCRIPTIVE TITLE: Electric Chair at Sing Sing
negative, gelatin on glass
6.5x8.5 in.

Essa razão sabe a pouco. Quais são as outras, Charlotte?

Em todo o caso, um dos melhores indicadores da pena de morte como coisa ruim é o top five de 2006:

1. China (1010 execuções)
2. Irão (177)
3. Paquistão (82)
4. Iraque (65)
5. Sudão (65)

Tudo bons governos, como se vê.

Aqui há mais argumentos contra a pena de morte. Aprendi, por exemplo, que no país em que resido a pena de morte sai mais cara ao contribuinte do que a prisão perpétua. Ou seja, mesmo antes de chegar aos argumentos grandiloquentes, já encaro com indiferença a possibilidade do serial killer ficar viciado em paciências ou se afeiçoar às paredes do cubículo onde o enfiaram. A vida ou a morte? A prisão perpétua, sempre.

Grandes entrevistas, pá...

Otelo (TSF) e Vítor Silva Tavares (Público do último fim-de-semana).

How insensitive

As letras da Bossa Nova são, em regra, uma grande piroseira. Os grandes clássicos do género funcionam bem em inglês porque têm harmonias de standards de Jazz. Full circle. É por isso que as letras são tantas vezes um empecilho. Enfim, o mais importante neste vídeo é mesmo a fatiota do Metheny. Por pouco não penteava a gadelha.

Imaturidade

Bloggers que se esforçam demasiado. É longo o caminho até se chegar ao tom displicente*.

* Por exemplo, "displicente" esteve durante 15 minutos grafado como "displiscente".

Maturidade

Ando há quatro anos nisto e só agora me lembrei de fazer um blogue a preto e branco, quando é óbvio para toda a gente que esta é uma solução ganhadora.

Regressam as raparigas

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Vanessa Redgrave

Tauromáquicas

Pila.pngA ideia de que os portugueses não votam como forma de protesto merece um estudo sério (Pedro Magalhães?), mas excluindo eleições para referendos e para a Europa sempre me pareceu que os portugueses não votam por preguiça.

Tenho um amigo vagamente anarca que nunca vota por considerar esta democracia um embuste. É uma posição respeitável, só que infelizmente minoritária. O grosso do fenómeno é feito pelos abstencionistas flutuantes, a malta que só vota se isso não lhes estragar os planos de Domingo. Não defendendo o voto compulsivo, a verdade é que não tenho qualquer respeito por esta gente.

Existe uma forma consagrada pelo mecanismo eleitoral de protestar contra as eleições, pela forma como surgem, a campanha, a lista de candidatos ou outro qualquer motivo. São os votos em branco e os votos nulos, obviamente.

A figura do voto em branco ou nulo está cada vez mais desacreditada, pese embora o esforço recente de um romancista famoso. Já nem aparece nas tabelas com os resultados finais (Público e DN) e é preciso lá chegar por subtracção a partir de tabelas publicadas por fontes obscuras.

Sem publicidade, sem verba, desprezado pelos fazedores de opinião, ainda assim o voto em branco (2.32%) fica à frente de cinco forças políticas e a coligação Brancos e Nulos (2.32%+1.56%=3.88%) ultrapassa até o partido de um génio da política (3.70%). Como ponto de partida para a sua profunda reflexão, Dr. Portas, aqui fica: são mais os lisboetas a votar em branco e a desenhar obscenidades do que a votar no seu partido.

Admitindo que a esferográfica não falhou, a mensagem do voto em branco é clara. O voto nulo, pelo contrário, é ambíguo e não apenas uma expressão mais enfática do voto em branco. Mãos trémulas, má visão, um impulso juvenil ao abrigo do anonimato, uma zanga conjugal na véspera e um almoço previsto ou consumado com os sogros, o protesto propriamente dito, enfim, são múltiplas as interpretações. Mas também por isso e por não ser formatado pela grelha impressa no boletim, o voto nulo tem uma riqueza incomparável que é imperioso preservar. Surgiu-me pois esta dúvida: o que acontece aos boletins de voto depois de usados?

Presumo que sejam todos incinerados, mas trata-se de um erro. Uma forma de cativar os portugueses para o voto seria com uma exposição de votos nulos. Tenho curiosidade em saber como se anulou para a Constituinte. Quais as palavras de ordem? Como eram as pilas em 1975 ? Teriam já o requinte pictórico que é a pilosidade testicular? Haveria interesse público numa exposição deste tipo. E interesse académico, pois imagino que um fulano que se tornou mestre à conta dos escritos nas portas das casas de banho públicas tenha desenvolvido as ferramentas de análise e o empenho para fazer dos votos nulos tema de doutoramento. Antecipo já um coro de protesto, os zeladores do costume, mas democracia madura é aquela capaz de se rir das suas próprias fraquezas. E é claro que ao preservarmos o voto nulo, pela sua riqueza, nada nos impediria de pensar em soluções criativas para os outros votos, também com o intuito de cativar o eleitorado. Encher a piscina olímpica dos Olivais com os boletins de todas as eleições do Portugal democrático e convidar os jovens a um mergulho? Acolchoar almofadas com votos no PS (para meninas) e no PSD (para meninos)? Não seria previsível que uma almofada enchida a votos no Dr. Garcia Pereira ultrapassasse o preço das almofadas de pena de pato? Garcia como artigo de luxo? PCTP-MRPP vintage? A doce ironia do capital? Só vejo possibilidades.

Mas divago (são 6 da manhã). Reafirmo o essencial: os portugueses andam com índices cívicos baixos, não se queixem da "falta de projectos para Lisboa". Se houvesse projectos para Lisboa o lisboeta médio não estaria a par, porque seria preciso lê-los, compará-los, discuti-los. Preguiça, meus amigos. As eleições são sempre à medida dos políticos que temos e estes à medida dos eleitores. Aliás, em abstenção os lisboetas estão quase como os nova-iorquinos de 2005, pelo que não devo acusar grande choque cultural quando regressar. Obrigadinho.

Votei Roseta

julho 16, 2007

Gramática das onomatopeias

Quando a emoção infiltra a razão, sofre o juízo. Invertendo os termos, sofre o amor.

Egas Moniz?

Sempre nos livrávamos da mancha que é o seu Nobel. lourenço

A manhã começou com uma despedida tramada, depois o aeroporto, a deprimente leitura da imprensa lusa enquanto voava sobre o Atlântico - horas salvas pela visão da ilha do Pico a furar as nuvens e de um cargueiro mesmo no meio do oceano -, a ridícula salva de palmas após a aterragem bem-sucedida (coisa que só os bravos portugueses fazem), a institucional antipatia dos guardas americanos, a viagem de autocarro de Newark até minha casa, esta humidade de país em vias de desenvolvimento, um banho retemperador e a constatação de que não tenho cuecas lavadas, o que antecipará a ida para a cama. Perante este quadro, resolvo vir à blogosfera procurar algum consolo e encontro esta boutade tua. Não te peço que respeites o comité Nobel, mas podias ser misericordioso com os emigrantes.

julho 15, 2007

Corto[1].jpg

julho 11, 2007

Sim. Não. Sim. Não. Sim. Não...

Por último eu não estou errado. Tu é que estás. Deus existe. Sorry about that, ó céptico. Tiago

Mas leste o artigo?

Judeu Errante

judeuerrante.jpg

Mais uma corrida, mais uma viagem*.

Lisboa. Jovem, sempre queres ajustar contas? Escolhe o balneário.

*Como ainda seria "Oliveira" caso os apelidos não se perdessem com as gerações, é possível - mas não é certo - que esta apropriação de uma imagem de marca de José Pacheco Pereira não seja ilegítima. A propósito, se houver por aí especialistas em genealogia e apelidos de Cristãos-novos, gostaria de trocar umas ideias sobre o assunto.

No cravo e na ferradura

peacock.jpgA bem da verdade, a relação milenar entre homens e mulheres resume-se perfeitamente a uma gaiola de pavões. Andamos cá todos para mostrar as penas e para nos entretermos uns aos outros. Coisas que uns farão melhor, com mais sucesso, que outros farão de forma sofrível e que os menos hábeis morrerão a tentar fazer. No mais, se não formos amibas assexuadas... LAC

Há aqui duas referências à Biologia - um facto notável - que urge comentar. Numa gaiola de pavões quem mostra as penas é o macho. O dimorfismo sexual nas aves tende a ser algo ingrato para com as fêmeas, mas apenas porque a pressão está do lado da "rapaziada". Por outras palavras, a imagem falha. Quanto a "amiba assexuada", louvo o rigor. Embora possa soar a pleonasmo para efeitos de estilo, a verdade é que - acidentalmente ou não - a expressão é adequadíssima, visto que há amibas que se reproduzem sexuadamente, mesmo se a imagem de livro de texto continua a ser a de uma amiba reproduzindo-se por fissão binária (assexuadamente). Sobre os restantes aspectos do post, dos mais mundanos aos mais cosmológicos, não arrisco um comentário.

Serve esta entrada também para anunciar outra inovação no campo do design. O MI passa a ser o primeiro blogue nacional a funcionar exclusivamente a preto e branco e ter reduzido a cauda do pavão à gama dos cinzentos dá a medida da minha convicção. A juntar ao capricho, a aposta numa futura edição em livro fac-simililada e a baixo custo. Sou um visionário.

Zzzzzzzzzzzzzzzzz

Nos últimos anos, um dos efeitos secundários mais perniciosos da "cretinice ambiental" tem sido o humor cretino. Além do CAA, alguém mais ainda acha graça a isto? Parece que os anti-ambientalistas são contra a reciclagem de tudo excepto das piadas.

Onde se aprende sobre a simetria e que a persistência compensa

HookeFlea01.jpgIn this review article we examine the question as to which parameters of facial attraction are amenable to measurement and which tools are available to perform these measurements. The evaluation of facial images, artistic standards, cephalometry, and anthropometry are discussed. Furthermore, we consider how the attractiveness of a face is influenced by symmetry, averageness and distinguishing features such as dental esthetics or genderspecific characteristics.There is a shared concept of what constitutes an "ideal" face. Anthropometric methods are preferable to cephalometric methods in determining the "ideal" face's dimensions, since anthropometric methods are valid, three-dimensional, non-invasive, suitable for a great variety of purposes, and easy to implement.Symmetry and averageness play important roles in determining the attractiveness of a face; although distinguishing features make it extraordinarily beautiful. Such features make a female face appear both childlike and mature as well as expressive. Women's preferences as to what constitutes a particularly attractive male face are controversial, since female observers are greatly influenced by their menstrual cycles or their environment when responding to male faces. Finally, allowance has to be made for the fact that the ideal of beauty is subject to certain fluctuations in fashion. J Orofac Orthop. 2007 Jan;68(1):6-16.

Mas bom, mesmo bom, é este pdf.

Beyond Demonic Memes

Why Richard Dawkins, [Tiago de Oliveira Cavaco and Pedro Arroja are] Wrong About Religion

Richard Dawkins and I share much in common. We are both biologists by training who have written widely about evolutionary theory. We share an interest in culture as an evolutionary process in its own right. We are both atheists in our personal convictions who have written books on religion. In Darwin’s Cathedral I attempted to contribute to the relatively new field of evolutionary religious studies. When Dawkins’ The God Delusion was published I naturally assumed that he was basing his critique of religion on the scientific study of religion from an evolutionary perspective. I regret to report otherwise. He has not done any original work on the subject and he has not fairly represented the work of his colleagues. Hence this critique of The God Delusion and the larger issues at stake... David Sloan Wilson

Esta é a primeira crítica com substância que é feita ao livro de Dawkins. Todas as outras são ajustes de contas vácuos, corporativismos - it's a business, after all - e análises espertalhonas que revelam as simetrias entre as religiões e o ateísmo. A leitura não é fácil, mas o esforço vale a pena.

Em vez de andarem a exibir Jónatas Machado e outros intelectuais excêntricos como curiosidades de feira, os nossos jornais bem podiam gastar algum dinheiro e traduzir este artigo. Havendo garantia de publicação, faço a tradução de borla.

Manhattan, uma definição

Lugar onde é possível descer no elevador com um prémio Nobel e a seguir, já na rua, ajudar um transeunte que não sabe ler os números a encontrar o seu caminho.

julho 10, 2007

Rui Veloso

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Este blogue reafirma que Rui Veloso é um grande músico e um compositor que se perdeu. Aconteceu o mesmo a muito boa gente. Stevie Wonder, por exemplo.
Falemos de estilo. Olho hoje para a juventude de Williamsburg e o que vejo? A sua falta de higiene - também a cheiro-, o cabelo seboso, os piercings, as tatuagens sem imaginação - para quando a gaivota de cimento de Moebius numa homoplata? -, uma estética completamente forçada. Olho depois para Rui Veloso nos idos de oitenta, bigodinho, cabelinho, focinhozinho, aquelas armações, uma estética completamente acidental e cool, eternamente cool.

Retrato possível de Acácio

GiacomettiPorttraitdhommelithograph1961.jpg
Alberto GIACOMETTI
(1901 – 1966)
Portrait d'homme.
Lithograph, 1961.
265x190 mm, full margins.

Gambrinus, El Bulli...

ferran.jpgAgradeço ao Eduardo Pitta a sugestão para o melhor restaurante de Lisboa. Se a sua opinião não é um argumento de autoridade, não há argumentos de autoridade. Repare-se neste outro post, também sobre o tópico. O Gambrinus entra directamente para a Lista. O que é a Lista? Um projecto para a vida que ando a desenvolver com Th.: conhecer os melhores restaurantes do mundo. Visitámos 3 nos EUA (Charlie Trotter's, Daniel e Gramercy Tavern) mas devido a entraves orçamentais fomos obrigados a suspender actividades. Recomeçaremos em 2008, com o Gambrinus e o El Bulli, na Catalunha. Segue-se o País Basco, depois Paris, depois o mundo.

Imagem: Ferrán Adria, do El Bulli.

julho 09, 2007

Anger Management (3)

250px-Incredible-hulk-20060221015639117.jpgPerdi a paciência para o estilo críptico na blogosfera. O post que no fundo é um bilhete para alguém, carregado de segundos sentidos, que é uma inside joke, etc. Poupem-nos. Usem o correio electrónico, raios. Faço aqui um mea culpa, também recorri a tal género, mas é coisa de adolescente.

Uma das práticas mais irritantes que o hábito gera - mas não esgoto o problema - é o uso indiscriminado de uma inicial seguida de um ponto. Há alguma regra estabelecida que desconheça? A inicial corresponde à primeira letra de um dos nomes da pessoa? Podemos usar códigos pessoais, como escolher a terceira letra do nome próprio? Ou será que a escolha é completamente aleatória? E sendo aleatória, como manter consistente o anonimato da pessoa mencionada em dois posts escritos com algum tempo de intervalo? Alguém se preocupa com isto? "R." em Julho é ainda a mesma/mesmo "R." em Setembro? Estas dúvidas consomem-me. Para que serve esta prática? Pretende-se proteger a identidade da pessoa, até aí eu chego, mas será a melhor forma? Os amigos do blogger devem perder horas a tentar descobrir o princípio que os levará a identificar o visado; o que me salva é não ter amigos em comum com bloggers, só mesmo bloggers em comum. Há da parte do blogger um gozo sádico em espicaçar a curiosidade de quem o lê. Não seria melhor dar um número à pessoa cujo anonimato pretendemos proteger? Ou usar referências culturais comuns? Por exemplo, recorrer aos Marretas. Atente-se nestes dois exemplos, adaptados do blogue do Pedro Mexia:


Conversa a altas horas com Miss Piggy, alegre e decidida como de costume, animada por uma espécie de espírito de aventura infantil. Ela diz que «conhece» as mulheres. Eu digo a Miss Piggy que «conhecer» as mulheres é um conceito inútil para os homens. Um homem nunca «conhece» uma mulher. É um conhecimento que nos está vedado. A mulher é absolutamente diferente do homem, fala outra linguagem e pensa de modo diferente. O nosso fascínio pelas mulheres deriva aliás dessa estranheza e desse desconhecimento. Miss Piggy. «conhece» as mulheres porque não as deseja. Os homens desejam as mulheres porque não as «conhecem».

O cozinheiro sueco conta que «as pessoas» dizem isto e aquilo por causa deste texto ou daquele. Explico ao cozinheiro sueco que me é indiferente o que «as pessoas» dizem. Mas depois percebo o temível silogismo. É que 1) se me é indiferente o que as pessoas dizem e 2) se o cozinheiro sueco é uma pessoa 3) então é-me indiferente o que o cozinheiro sueco diz. É nestes momentos que a amizade é um gelo muito fino.

Se calhar este mau gosto morrerá comigo, mas vejo nesta fusão do pathos mexiano com o universo dos Marretas um filão histriónico inesgotável, sem que o texto perca substância. É claro que a Miss Piggy pode retaliar, este método implica algum cuidado, mas pelo menos não é invasivo para o leitor. E o problema que devemos resolver é mesmo esse: como escrever sem perturbar o leitor com o acessório?

A minha solução, que adoptarei de imediato, simplifica tudo. Criei duas figuras - Emmanuelle e Acácio - que passam a funcionar como os representantes dos anónimos que marcarão presença no MI. Emmanuelle e Acácio não têm uma personalidade, não têm uma biografia, não têm uma morada. São toda a gente e não são ninguém - quase oiço a uma guitarra portuguesa a resolver a cadência: tuum, tum.

Emmanuelle pode ser a minha mulher a dias à Segunda, uma colega de laboratório à Terça, uma amiga à Quarta, uma figura excêntrica que vi na rua à Quinta , alguém da minha família à Sexta, o leitor que me envia uma mensagem, etc. O mesmo para Acácio, mas no masculino. Uma terceira figura - piscadela de olho ao movimento LGBT - parece-me por agora desnecessária, mas admito recorrer a "Júlia", que sempre me soou vagamente andrógino.

Este método não só mata a curiosidade do leitor como anula o protagonismo dos anónimos. Tudo se concentra no episódio propriamente dito e, enfim, na minha pessoa, mas aprendemos ontem que o blogue é isso mesmo, uma extensão do pénis - estes insights plenos de frescura esmagam-me, andava eu convencido que a extensão do pénis era o Lamborghini...

Estão pois feitas as apresentações: Emmanuelle e Acácio, a posta restante da onomástica.

julho 08, 2007

Nova Iorque, 23:48 de Domingo

a261156.jpgDetesto ténis. O mundo do ténis, os aficionados do ténis, os ídolos do ténis. Wimblendon? Um desperdício de pastagem. Roland Garros? Um desperdício para a construção civil. O ténis é uma ritualização do combate levada a um extremo absurdo, porque não há contacto físico entre os jogadores. Já não sei onde li isto, mas é verdade que qualquer desporto em que os oponentes estão separados por uma rede não merece respeito. No ténis ninguém se lesiona por causa do adversário, é preciso que o jogador dê um mau jeito qualquer ou então que desça alguém da bancada com vontade de cravar uma faca nas costas do tenista, um impulso compreensível e até estimável, que garante espectáculo, só que aí já não estamos no domínio do desporto. Entregue aos seus próprios meios, os grandes momentos de tensão no ténis surgem - rufo de tambor - quando a vedeta mais temperamental refila com o juiz de linha, um fulano que ama o jogo, ou com o busca-bolas, uma criança. Uuuuuuui, é coisa viril, estremeço de excitação... Até a Fórmula 1 consegue ser menos entediante, sempre há a possibilidade de alguém sair a voar.

Entristece-me ver dois dos meus bloggers preferidos a perder tempo com o ténis. Enfim, um está claramente viciado em todos os desportos que a televisão transmite, não encontro outro denominador comum, e o outro talvez também aposte nos jogadores de ténis como faz com os cavalos. Mas Federer é aposta a fundo perdido e se é verdade que investir em qualquer outro jogador deixa em aberto a possiblidade de se acordar multi-milionário, trata-se de uma hipótese meramente matemática.

Se isto não bastasse, o ténis é um desporto sinistro. Sinistro, sim. Como se explica que os jogadores de ténis sejam em regra muito mais giros do que os praticantes de outras modalidades*? Alguém tem uma teoria? Uma sugestão: apesar do esforço de democratização, o ténis continua a ser um desporto para as elites e as elites são, em regra, mais esbeltas que a plebe. Isto revolta-me, sou um gajo de esquerda. O ténis é também o único desporto que sai beneficiado sempre que falta o som. Transmitido décadas a fio durante as tardes de Domingo, não vingou como espectáculo para toda a família. Se até o Júlio Isidro conseguiu tal feito, o que se passa com o ténis? Não sou freudiano, mas creio que o marido associa aqueles gemidos de esforço - eeaaaaaaaaaaaaahhhh - ao serão de Sexta em que esteve a fazer horas extraordinárias no escritório, enquanto a mulher - sem rasgo criativo - apenas se lembra do instrutor de ténis (invertam a gosto, não quero perder as feministas que aqui chegam vindas do Womenage a trois). Em suma, não há condições para o convívio conjugal diante de uma partida de ténis.

Imagino que o leitor esteja agora a pensar que não percebo nada deste desporto. Erro crasso. Nos anos oitenta, fui um jogador razoável. Frequentei as escolas de ténis do Sport Lisboa e Benfica e tinha uma esquerda a duas mãos escapatória. Encarem isto com uma confissão pública. Um sportinguista de esquerda frequentou as escolas de ténis do Benfica. Como justificar esta nódoa dupla na biografia? Nada posso argumentar, mas esclareço que fui sempre um outsider. Gozavam com o meu nome, faziam piadinhas que metiam o Vasco Gonçalves e o Vasco Lourenço. Reaccionários de merda, só mesmo o corpo docente das escolas de ténis do SLB para cuspir na herança de Abril. Foi um erro não termos nacionalizado o Estádio da Luz logo em 1975, nem teria sido preciso gastar dinheiro em tintas.

Um dos meus adversários regulares era um ídolo do ténis. Não sei se venci alguma partida com ele, mas arrancar um set era motivo de orgulho. Eu via-o todos os fins-de-semana na televisão a esmagar adversários, numa epopeia de meses como não havia memória de ter acontecido na história do desporto em Portugal. Dizíamos que era o nosso John McenRoe porque nos faltava a presciência para saber aquele homem era na verdade o nosso Federer. Não sei como lhe consegui ganhar alguns sets. É verdade que ele brilhava num programa do Luís Pereira de Sousa como campeão de Mach Point, uma simulação primária de ténis para ZX spectrum , mas despediram ou colocaram o Pereira de Sousa na prateleira sem que o meu adversário tivesse perdido a invencibilidade.

Creio que desisti do ténis quando me apercebi que me realizava plenamente sempre que vencia um set de ténis a sério ao campeão português de Match Point. Teria sido preciso mais amor-próprio e mais talento para continuar a praticar um desporto que, no fundo, vai contra os princípios que me regem. Isso e o facto de o branco não me favorecer.

* Adenda: não fui claro. Quando me refiro à beleza dos desportistas, não penso na perfeição dos corpos como resultado da selecção natural para um determinado desporto e/ou da sua prática. É evidente que o timoneiro de uma equipa de remo nunca será tão alto e espadaúdo como um jogador de Volleyball,, tal como é evidente que o corpo de um xadrezista tende a ser menos apelativo que o de um nadador. Mas isso é irrelevante para aquilo que apelidei de "sinistro". Referia-me apenas às linhas do rosto, que em princípio não dão ao tenista qualquer mais-valia para o jogo propriamente dito. E nem sequer pensava nas tenistas. O fenótipo russo não me atrai minimamente porque uma mulher bonita terá necessariamente de ser morena - um dia demonstrarei este teorema - e desde a Gabriella Sabatini o melhor que apareceu no ténis foi o par de pernas da Steffi Graf. Por acaso pensava mais no homens, mas admito que tudo isto seja ainda resquício de uma paixoneta de adolescente por Mats Wilander. Em todo o caso, Shyz, estiveste bem, correspondeste às expectativas e impunha-se este esclarecimento.

Quem é MAV?

A escrita de João Pereira Coutinho é prosovérmica mas a doença não é incurável, como se percebe ao acompanhar algumas das suas vítimas. É por isso que periodicamente preciso do meu Ramadão e nem ao Sol posto leio o moço. Sucede que, de tanto o ter consumido no passado, juro que consigo reconstruir parcialmente os seus textos a partir de comentários que lhes são feitos. Aqui, por exemplo. Escreve MAV: A história da edição portuguesa está toda por fazer; e as novas gerações tendem a pensar que, antes delas, só existia o caos e o vazio. Como próprio MAV reconhece, JPC referia-se à inexistência de livros de Wodehouse nas livrarias e não nas bibliotecas. Por outras palavras, é óbvio que JPC vive convencido de que, em Portugal, antes dele - ou fora dele, trata-se de um distúrbio espácio-temporal - só havia - há - o caos e o vazio, mas o exemplo escolhido por MAV não terá sido o melhor.

Em todo o caso, estamos perante mais um dado para o retrato-robô de MAV, o misterioso companheiro de Viegas no Origem. De uma assentada, ficamos a saber que é provavelmente um homem - é prosa masculina, sem dúvida - de letras entre os 40 e os 65 anos. A acreditar em JPC, estes elementos seriam suficientes para resolver o enigma, por causa da percentagem de analfabetismo e iliteracia naquela faixa etária, mas receio que o grupo tenha, ainda assim, pelo menos dois elementos. Entretanto, o post de MAV foi comentado no Livros de Areia e um anónimo sugeriu que MAV é "Manuel Albero Valente", "o sapiente timoneiro da ASA". Terá ali faltado um "t" (Ockham's razor), pelo que a hipótese de trabsalho actual é: "Manuel Alberto Valente". Continuarei a manter o bloguitório informado sobre este outro fascinante caso de semi-anonimato na blogosfera.

Diácono Remédios

Ora não há qualquer prova de que tal existiu, nem o bom senso e o conhecimento da realidade no terreno o revela, até porque, meus amigos!, estamos em Portugal e em Portugal ninguém conspira sem que não se saiba ou se venha a saber, e as conspirações são umas coisas amadoras e adolescentes, mais espertas do que inteligentes, e nunca resultam. JPP

Talvez seja uma piada, mas, meus amigos!, é prosa de JPP e em JPP o humor não costuma marcar presença. Ora, se não é uma piada, é uma afirmação tão absurda como alguém dizer que nunca foi enganado. Como é que se sabe? A outra curiosidade é esta: apesar de elogiar e chamar a atenção para o trabalho de João Ramos de Almeida Eleições Viciadas? O Frágil Destino dos Votos. Autárquicas de 2001 em Lisboa , concluída a leitura da sua crítica ficamos ainda com menos vontade de ler o livro. Não deve ter sido de propósito.

La Catedral, de Agustín Barrios Mangoré


Denis Azabagic

"... as a guitarist/composer, Barrios is the best of the lot, regardless of ear. His music is better formed, it's more poetic, it's more everything! And it's more of all those things in a timeless way. So I think he's a more significant composer than Sor or Guiliani, and more significant composer - for the guitar - than Villa-Lobos." John Williams, 1993

julho 07, 2007

Giro d’Italia

p_gdip.gifE por falar em roupas ridículas, acabo de comprar 6 camisas, o que não é record pessoal - a camisa é a única peça de vestuário que compro com genuíno prazer - mas não deixa de representar um marco: entre o lote conta-se a minha primeira camisa cor-de-rosa. É verdade que o almoço me abalou - "és demasiado heterossexual para ela" - mas ainda não percebi que leis determinaram esta compra. Enfim, encontro finalmente algum valor nas palavras do meu (e do Th.) wardrobe consultant de Chicago, que tentou vender-nos uma camisa cor-de-rosa recorrendo à psicologia reversa (isto diz-se assim?): "só um homem plenamente seguro da sua sexualidade usa uma camisa desta cor". Parole, parole. Uma coisa é comprar uma camisa, outra - bem diferente - usá-la. Tal como com os livros. Mas pode ser que isto ainda dê outro relato.

Rescue Dawn, de Herzog

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slide show

Spoiler warning

Nada como uma boa noite de sono para organizar os pensamentos; nunca percebi como é possível fazer crítica de teatro imediatamente depois de se assistir a uma peça e é também por isso que gosto de ir sozinho ao cinema.

Às 10 horas e 15 minutos da manhã, experimentei uma epifania: Rescue Dawn é um grande filme, mas Herzog não se explica bem. O realizador fala da condição humana. Curiosamente, Margarida Rebelo Pinto, numa entrevista a Margarida Marante (sim, ouvi o combate das tias e até repeti a dose), refere também a condição humana. Mas o que é a condição humana, afinal? Seja lá o que for, é certamente um filler no discurso dos artistas pretensiosos. Raios, há algum filme ou livro que não seja sobre a condição humana? O último que me lembro de ter visto foi há muitos anos, chama-se Microcosmos e é sobre a condição dos escaravelhos, mas até aí a própria condição humana está à distância de uma metáfora e nem é preciso incomodar o Lobo Antunes, ou não será verdade que a nossa vida mal se distingue de andar empurrar uma enorme bola de bosta? Nem mais. Concluo que quem fala sobre a condição humana tem uma noção exagerada da sua pessoa ou então tenta alguma profilaxia para evitar reacções alérgicas, como as de Rogério Casanova e James Wood a propósito de Don DeLillo; o artista quer deixar claro que trata a condição humana como Conrad a tratou.

Esqueçam pois Herzog, que escreveu e realizou o filme mas não o percebeu. Rescue Man não é sobre a condição humana. Se fosse para armar aos cucos, dirse-ia sem perda de rigor que é sobre uma condição, sim, mas a condição animal, segundo a fórmula do saudoso Germano Sacarrão: fugir, comer, foder - faço aqui uma adaptação livre dos escritos do Professor, obviamente.

A figura recriada com mestria por Bale - actor que me leva ao cinema como só Philip Seymour Hoffman, Edward Norton, Daniel Auteuil e Javier Bardem conseguem - é uma caricatura do americano: patriota, movido por um sonho de infância - voar -, seguro de si e optimista ao ponto de parecer que não se dá conta da realidade. Só um homem destes, predisposto para a loucura, pode fazer do heroísmo perante situações adversas algo natural. Bale sabe que vai ser salvo, ele passa pelas provações clássicas de todos os filmes com prisioneiros de guerra que se evadem, mas tem fé. Fé e fome. Sobretudo fome. Rescue Man é um filme sobre a nossa necessidade imperiosa de comer. As cenas mais gore - o sorriso de Bale com a boca atafulhada de larvas, a magreza progressiva dos actores, as sanguessugas alimentando-se dos corpos sem alimento, a estupidamente simbólica mordidela de Bale na cobra crua a instantes de ser salvo -, pouco contam perante o discurso. Sente-se também que Herzog deve ter devorado o Crusoe do Defoe na juventude - as cenas na selva são o grande momento de cinema do filme - mas é o festim verbal dos escanzelados que eu recordo: cada um dos prisioneiros descreve o que tem no seu frigorífico e protege as suas prateleiras imaginárias como se a opinião dos outros fosse uma mão capaz de lhe sacar a tarte de maça. Palavras que se comem, num sentido muito mais profundo daquele proposto por Natália Correia. Não me lembro de ter visto tamanho elogio à nutrição e isto reconcilia-me com a arte, sobretudo quando pensava já que as descrições de lanches da Enid Blyton me haviam divorciado irremediavelmente das referências gastronómicas na literatura. E no remate final, quando tudo está montado para o grande discurso patriótico capaz de galvanizar os soldados mais novos, do que Bale se lembra é de um bife. "Comer um bife", não como uma opening line cómica para a grande tirada, mas como o essencial do discurso. Poderosa ironia e sublime bofetada com luva na filmografia de guerra americana.

A condição humana está presente em Rescue Dawn. Há medo, coragem, companheirismo, traição, cobardia, loucura, mas a resumir o filme numa frase, talvez escolhesse esta: a condição animal subjuga a condição humana. Atafulhamos a boca com a palavra liberdade depois de tratarmos do estômago. Trivial, mas bem contado. E não se pede mais.

julho 06, 2007

Irmãos Assad de regresso


Infelizmente não foi possível encontrar um vídeo sem o palerma do Yo Yo Ma.

Bom fim-de-semana.

Tango en Skai


Quatro anos de MI e só agora aparece uma referência a Roland Dyens. Shameless. O que vale é que ninguém avalia blogues.

O silêncio como alarme


Este homem, Leo Brouwer, é cubano e um dos três mais importantes compositores para guitarra clássica do século passado.

Jerzy

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Voyeurismo intelectual, aqui.

Via Livros de Areia.

SOS

Após alguns textos de pornografia gastronómica, não sei se esta é a melhor altura para esclarecer um leitor do MI, que pergunta: "what is reputed to be the best restaurant in Lisbon?"

Todos os bloggers estão convidados a participar, nomeadamente Eduardo Pitta, Francisco José Viegas e Alfredo Saramago (terá blogue?).

Bastidores da excelência

Ando a rebentar de ideias para o MI, mas sem tempo. Talvez durante o fim-de-semana. Aos dias úteis só posso mesmo ir colocando uns vídeos. Reparem nesta master class de Segovia; parece o Tribunal da Santa Inquisição. Uma estatística que ninguém faz: quantos músicos são destruídos para produzir um concertista clássico? Pensem nisto antes de meterem os vossos filhos na flauta de bisel.

Segovia sobre o portamento...

julho 05, 2007

Less is more


Versão de Don't Know Why, um standard instantâneo de Norah Jones.

Beatles revisitados


Victor Wooten, brilhante.


Stanley Jordan, ainda mais brilhante.

Já não tenho idade para delirar com acrobacias na guitarra, mas Stanley Jordan era - e é- um génio. Malmsteen, Satriani, Petrucci, Vai? Eh...

Master class impossível: Rafael Rabello ensina Segovia


Boooooooooooooooooring. Com o devido respeito, maestro Segovia, este estudo de Villa-Lobos toca-se assim. O mais impressionante é que, pedrado, Rabello toca melhor do que um Segovia sóbrio.

“The best guitarist I’ve heard in years. He has overcome the technical limitations of the instrument, and his music comes unhindered from his soul, straight to the hearts of we who admire him.” — Paco de Lucia

“Raphael Rabello was simply one of the greatest guitarists who has ever lived. His level of insight into the potential of the instrument was matched only by the great Paco de Lucia. He was ‘the’ Brazilian guitarist of our time, in my opinion. His loss at such a young age is an incredible loss, not only for what he already did, but for what he could have done.” — Pat Metheny

julho 04, 2007

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julho 03, 2007

Uma descoberta


Os Gato Fedorento são um fenómeno curioso, pois conseguem fazer alguns bons números com uma equipa de 4 em que 2 não sabem representar nem têm instinto cómico. Apesar da regularidade e brilhantismo de RAP e de alguns bons momentos do Quintela, o Gato vive sobretudo de alguns bons textos e boas ideias e a representação é muito mediana. O sucesso do Gato baixou a grau de exigência com o trabalho do actor.

Tenho seguido alguns dos novos talentos cómicos lusitanos, nomeadamente a fornada saída do boom da stand-up. São quase todos pouco interessantes, incluindo um rapaz muito alto e magricela cujo nome agora não me ocorre e que até já faz anúncios. Mas ontem - via Blasfémias - descobri um actor que tem qualquer coisa. É verdade que o tópico gera obrigatoriamente alguma empatia, mas este "Matos" é um bom cómico e os bons cómicos são raros.

Ideia

Projectinho para cadeira de um qualquer curso de sociologia/antropologia, essas coisas: estudar a variação do tempo de vida dos blogues colectivos em função do seguinte conjunto de parâmetros:

1. efectivo;
2. rácio sexual;
3. interacções profissionais entre os elementos;
4. tipo de blogue;
5. interacções passionais entre os elementos (admitindo que não há problemas de amostragem);
6. média e medida de dispersão para a idade;
6. existência de divergências profundas quanto às opiniões do João Miranda;
7. sucesso/insucesso na blogosfera, de acordo com o sitemeter;
etc...

Com um software de análise de componentes principais, meus amigos, tal tese seria uma sinopse da natureza humana.

julho 02, 2007

Fardo do homem branco

Uma das minhas melhoras amigas é indiana. Sempre que passamos por um bebé preto, activa-se nela o mecanismo pavloviano que a leva a dizer: "black babies are the cutest, caucasian babies are the >uggliest ugliest [foi mesmo feio*]". Ora, eu concordo com a primeira afirmação e discordo da segunda. Mas sou sempre evasivo e calo-me, porque -curiosamente - para mim os bebés mais feios são os indianos. Está feito o desabafo.

* É sempre o mesmo sacana - "NARCISO, Ó OGRE, VOA "- que me inteira destas catástrofes. Se conseguir subornar algum higienista de janelas, prometo cobrir a fachada norte do Empire State Building com a palavra "ugliest", escrita a times new roman - afinal, vou beber à The Life of Brian, dos Monty Python - tamanho 10. Em minha defesa, devo esclarecer que o post foi escrito às 3 da manhã, após uma longa jornada de trabalho.

Filantropia e Ciência em Portugal

A minha geração, em cluster feminino, escreve na Embo sobre coisas importantes*.

*Adenda: pergunta-me um leitor imaginário: "terias feito o mesmo comentário se fossem 5 homens?" Resposta: "não sejas chato".

julho 01, 2007

Plano hebdomadário

mary.jpgEsta semana conto escrever sobre José Sócrates, Dawkins e Michael Behe, uma pretinha que me fez um truque de magia no Central Park, Bruce Willis - para esmagar o Pedro Mexia - e Michael Moore, Don DeLillo, o valor nutritivo do Bloody Mary, os Cohen, os Coen e os Cohanim, a infidelidade (por alguma razão deixei de ter pachorra para aquela série, mas prometo empenho) e os cromos da minha rua, texto que incluirá uma crítica à ideia de que as pessoas tendem a ficar parecidas com os cães que passeiam e a descrição de uma mulher que parece ter resultado do cruzamento da dama de ouros com o Joker - ah, sexo no baralho de cartas, dir-se-ia que roubei um pesadelo a Patrícia Lança.
É todo um magazine cultural, meus caros, ando armado em Marcelo Rebelo de Sousa, que nos anos setenta quase escrevia sozinho um jornal - diz-se. Mas não se surpreendam se já amanhã meter férias.