junho 30, 2007

Uma Soleá de Vicente Amigo


Um leitor devidamente identificado comunicou-me que está viciado nesta soleá de Amigo. Bem-dito seja entre os leitores do MI. O que temos aqui é um momento de génio absoluto. Amigo olha para cima e só pode estar a falar com Deus.

Devem porém evitar os comentários que são feitos a este vídeo e a qualquer vídeo de Flamenco no Youtube. Para quem lá escreve, tudo se resume a saber quem é o melhor guitarrista, se Paco de Lucia, se Vicente Amigo, se... Kurt Cobain (???). Aceito que o suicídio dê pontos, mas no dia em que Kurt Cobain for canonizado como grande guitarrista eu transformo a minha guitarra em serradura e prometo usá-la para panar bifes. Apesar de ser um adepto incondicional da web 2, defendo que o amadorismo e a ignorância devem estar sujeitos a coima. Ou praticados apenas para os géneros menores que são consequência directa desse mesmo amadorismo e ignorância, como a música pop. Deixem o flamenco em paz, por favor. A propósito, leiam isto.

Ciganos em Castro Verde


Afinal há um vídeo com música do Jóia.

Aposto que o RAP nem um acorde de ré maior sabe fazer


Filipa Pais transformou-se capilar e vocalmente. Ainda bem, porque a Filipa Pais da fase Vitorino & friends tinha uma voz irritante e uma ausência de instinto rítmico preocupante. Salvou-se uma artista e o penteado pouco interessa. Aliás, o importante neste vídeo é mesmo o trabalho de José Peixoto nas oito cordas da sua guitarra. Infelizmente, não há mais vídeos de Peixoto no YouTube - vídeos dos Madredeus não contam, porque em tal postal acústico Peixoto não pode voar. Também não há um único vídeo do notável guitarrista que é Ricardo Rocha, nem do laborioso Pedro Jóia. Adolescentes do meu país, menos Gato Fedorento e mais guitarradas, por favor. Já ninguém quer ser guitar hero?

Não te esqueças de mim quando fores famoso

Jesus Cristo, foi como encontrar um pickle numa salada de frutas. T.G.

870 °C

É muito difícil encontrar uma situação que provoque apenas tristeza. A tristeza vem geralmente associada a uma série de outros sentimentos e destila mal. Talvez este fenómeno se aplique a todos os sentimentos e a toda a gente; se refiro a tristeza é por ter identificado recentemente uma situação que a induz em estado puro: o fim do amor entre as pessoas que nos são queridas. Como testemunha privilegiada, experimentei um conformismo por antecipação - ando a ler Proust, desculpem - e quase juro que a tristeza é amarela, inodora, pouco densa e - como já calculava - com elevado ponto de ebulição fusão.

junho 29, 2007

Sem esquecer a reacção alérgica à espanholada

De vez em quando, a monotonia da blogosfera é interrompida por opiniões de pessoas altamente idiossincráticas. Lembro-me de Jónatas Machado, por exemplo. Temos agora Patrícia Lança (PL). Não leio o Insurgente, mas cheguei a mais um post de PL a partir desta criatura. Depois de ter distorcido a realidade sobre as possíveis implicações para a saúde da prática do sexo anal - e há algumas, mas prestou um péssimo serviço como divulgadora, apesar das suas credenciais-, PL debruça-se agora sobre o sexo oral, versão fellatio. Prevejo que ainda venha a tratar o cunnilingus. Aguardemos.

Caro Lourenço,

Agradeço-te a atenção, mas entre mentir e ser humilhado publicamente opto pela terceira solução: ignorar o repto. Se quiseres envio-te uma mensagem electrónica.

Adenda: toma lá, pá, que já não tenho idade para estas birras (são livros a que dediquei algum tempo, digamos, não necessariamente os útimos 5, seguramente do último ano; deixei de fora a banda desenhada, volumes de formação contínua e manuais).

Intelligence, Race, and Genetics: Conversations with Arthur R. Jensen

Falling Man, Don DeLillo

O Livro do Meio, Armando da Silva Carvalho e Maria Velho da Costa

The Heart Is a Lonely Hunter , Carson McCullers

La Possibilité d'une île, Michel Houellebecq

Ah... Rayuela, Cortázar

Passo a bola a: Rui Zink, José Luís Peixoto, Dr. Pacheco Pereira, , Charlotte e Florbela Espanca.

Touradas (se eu fosse o João Miranda)

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Aqueles que se opõem à sobrevivência das touradas devem explicar por que motivo não se manifestam também de forma veemente contra a pesca desportiva. Por outras palavras, que direitos negativos tem o touro e não o espadarte? A pergunta é pertinente, nomeadamente porque o touro nasceu e viveu na total dependência do homem, ao passo que o espadarte não precisa de nós para nada.
Quem se opõe às touradas e não é um vegetariano da linha dura deve também esclarecer: 1) se pensa que o bife emerge de um caldo químico depois de prolongada incubação num tonel de um complexo industrial; 2) se sabe o que se passa num matadouro. E antes de justificar o sofrimento dos animais como mal menor para uma necessidade inevitável - por contraste ao caprichoso desejo do aficionado -, deve procurar informar-se sobre as propriedades nutritivas da soja. Ou do feijão.

Em circunstâncias normais, neste parágrafo apareceria a minha opinião sobre as touradas, mas isso seria estragar o exercício. Não resisto porém a juntar um detalhe biográfico, coisa que Miranda nunca faria, pois ele discute ideias sempre em abstracto - aliás, eu desconfio que o João Miranda não existe. Aqueles que fazem pouco da bravura dos toureiros, dos matadores e dos forcados nunca devem ter visto um touro de 700 kg. Certo dia, estava eu num prado, um animal começou a acelerar na minha direcção. Borrei-me todo e era uma ovelha.

Défice de cortesia

Os homens são melhores bloggers do que as mulheres. As gaussianas interpenetram-se, mas é a conclusão a que chego. Com tranquilidade.

Adenda I: na verdade, creio que as guassianas coincidem no pico, mas a dos homens espraia-se mais. Ou seja, os homens são os melhores bloggers e também os piores.

Adenda II: para que não sobrem dúvidas, aqui fica um boneco. Ilustração do modelo original (cor de rosa- mulheres; verde- homens) e ilustração do modelo corrigido (vermelho- mulheres; azul- homens). É claro que estas imagens são caricaturais. Todas as distribuições tendem assiptoticamente para os infinitos, mas a resolução das imagens comprime este potential humano para o disparate e a excelência.

Não espero ganhar leitores.

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Cirrocumulus

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Usando o MI como clarabóia.

Sempre sobra o estilo

«Viver sem fumar é como escrever sem pontuação. Pelo menos, para mim.» VPV

Belo texto. Completamente irrelevante para o que está em discussão, mas é uma rica prosa. E neste caso concreto, o registo autobiográfico não só cativa como impede o autor de escrever mais mentiras. Bom esforço.

junho 28, 2007

Cumulus Congestus

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Usando o MI como clarabóia.

Preciso de mudar de tema

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O Eduardo Nogueira Pinto deixou de ter um blogue bonito, mas escolher blogues em função do template é o mesmo que - insisto nesta imagem - ler Os Cus de Judas por causa da peidola que figura na capa de algumas edições.

E com esta imagem estival de um Verão que é sempre o dos outros, despeço-me até Agosto.

Blindness

Saramago, que escreveu livros magnificos, é o único escritor português discutido nos EUA fora dos círculos literários especializados. Lôubâu who? O nova-iorquino não conhece Lobo Antunes, não o discute. Eu, por exemplo, até tenho três livros dele em casa, mas li Os Cus de Judas enganado pela capa - bela peidola - e apenas folheei os outros dois, inspirando profundamente com o nariz bem próximo das folhas, um método muito meu.
O Ensaio sobre a Cegueira é o livro de Saramago mais conhecido por aqui e ocupa posições de destaque nas livrarias. Em todo o caso, o brutal - e natural - desconhecimento da nossa literatura equipara qualquer improvável referência a um autor português à descoberta de uma ostra com pérola numa sucata. Há aqui um prazer algo parolo, reconheço, mas não somos criaturas perfeitas. Foi o que aconteceu quando, por deveres de amizade, escutava o podcast da Slate sobre o último livro de Cormac McCarthy. Espero que gostem ou que pelo menos alguém goste.

Em Portugal sempre houve vocação para a farsa

Creio que hoje [em Nova Iorque] não se fuma em lado nenhum. E. Pitta

Obviamente. Não só não se fuma, como já não se discute o tópico. Quando algum maluco quiser probir o fumo na calçada, ou no Jardim da Estrela, contem comigo. Até lá, deixo aos grandes defensores de sofá da liberdade essa ingrata tarefa de reproduzir, com o seu pífio protesto, uma história já escrita, que aqui - Nova Iorque, não confundir com a Califórnia - leva uma década de avanço e fez uma vítima mortal, um zeloso porteiro de bar, esfaqueado quando tentava impedir alguém de acender um cigarro. Cumprida a versão trágica da História, não sobram muitas alternativas. Marx, afinal, tinha mesmo razão.

Blind date

Subitamente, há imensos transeuntes ou clientes no bar que podem ser a pessoa que vamos encontrar. A ruiva sentada ao balcão e que lê Don DeLillo? O clone de Jean Seberg que beberica um Riesling? E o passar dos minutos só faz alargar o leque de hipóteses - o simpático mexicano que limpa as mesas? Há aqui um mecanismo curioso: a blind date é precedida de uns minutos em que a capacidade de observação é absolutamente histérica, mesmo se gerida absoluto em silêncio. É uma cegueira, sim, mas das que encandeiam.

Lisbon

A revistinha do campus, onde em tempos escrevi umas palhaçadas, lembrou-se de me entrevistar para uma secção intitulada New York State of Mind. Resolvi sabotar a coisa, fazendo uma declaração de amor à cidade de Lisboa. Gostaria de dedicar este post a Fernando Negrão, pois solidariedade é dar uma mão a quem está a passar por um mau momento, mas aproveito também para desabafar. Sempre que afirmo preferir Lisboa a Nova Iorque, toda a gente acredita, excepto os lisboetas. O problema dos lisboetas é nunca terem vivido fora de Lisboa. Não me refiro a 10 dias de férias em Nova Iorque ou em Paris, essa outra mítica metrópole. Passem 10 anos fora e depois conversamos.

1. How long have you been living in New York?

Almost six years.

2. Where do you live?

I live in the Upper East Side. I hope you’re not going to ask me next what’s my favorite color.

3. Which is your favorite neighborhood?

Marine blue. I like some residential streets in the Upper West Side.

4. What do you think is the most overrated thing in the city? And
underrated?

Dental care and the number of sunny days in the winter, respectively.

5. What do you miss most when you are out of town?

If I’m not in Lisbon, I tend to miss Lisbon.

6. If you could change one thing about NYC, what would that be?

Its geography. I would make New York a suburb of Lisbon. Actually, I would take only Manhattan and Brooklyn, with all due respect to the locals of the remaining boroughs. As a bonus, I would also bring the Statue of Liberty back to Europe. We have a huge statue of Christ—similar to the one that dominates Rio de Janeiro—on the south bank of the Tagus River, in Lisbon, and I would like to replace it. Anyway, I’m digressing. I would prohibit traffic noise after 10 p.m. and before 8 a.m. I always thought the famous lyrics meant that you don’t want to sleep in this exciting city, but I’ve learned that you actually don’t have an option.

7. Describe a perfect weekend in NYC.

Friday evening: weather forecast is good and it will only rain on Monday. I assign a summer student an insane amount of work to be accomplished during the weekend. In the evening I go to Central Park and I run the big loop; I see fireflies in courtship rituals, extenuated runners doing essentially the same and other fine specimens. Finishing in less than 42 minutes—a personal best—I’m still in time to come home, change and catch a performance of Bach’s Brandenburg concertos at Lincoln Center, my favorite concert hall here. Then I meet some friends for drinks in the East Village; the taxi driver that takes me there is from Senegal and we discuss music and French politics on our way downtown. None of my friends gets excessively drunk and I meet an old one from elementary school who made it here and now owns a two star restaurant; he tells me I have to try his tasting menu for free and gives me his phone number. Saturday: I wake up at sunrise and I go sailing on a friend’s boat with a bunch of people. No one gets seasick and I even manage to save one of the girls from drowning; she is a heiress of a great fortune and gives me an open invitation to spend the summer in her Hamptons’ house, but I politely decline because that would interfere with my future humanitarian work in Africa—I get the feeling she is impressed. A huge brunch follows, in Brooklyn. Later we go to the theater, it’s a Off Off Broadway show but none of the actors is fully naked, they don’t throw water at us, and the plot follows the laws of logic; we leave slightly disappointed and decide to go for dinner in Greenwich Village. Sunday: there is an important soccer match in Europe, which I follow while having breakfast in a pub on the Upper East Side. The New York Film Festival is still going on so and I get to see the latest Almodovar and in the Q&A session that follows I ask Pedro if “dinero,” a lizard from one of his early movies, was molested during the shooting; I can feel the tension in the room while he answers, I had clearly touched a nerve of our collective consciousness that not even a New Yorker journalist had come upon. In the evening I go to one of the shows from the Flamenco festival and I get home broke and exhausted, but before falling asleep the phone rings. It is my student. He speaks broken English and the connection isn’t good, but I get the impression we’ve done something remarkable. I go to sleep thinking that a cure for cancer is just a few cloning steps ahead. My student had actually destroyed some important stocks and that’s why he was so agitated, but I would only find out this in the morning and by then the weekend would be over.

8. What is the most memorable experience you have had in NYC?

At risk of sounding predictable, it was September 11.

9. If you could live anywhere else, where would that be?

See above. I’m actually moving there.

10. Do you think of yourself as a New Yorker? Why?

No. I believe one has to be faithful to a single city and Lisbon will always be my hometown. New York comes second, though. Since I’ve lived in Paris for a long time too, “second” is not so bad.

Adenda: este texto, que copiei a partir de uma versão antiga, esteve durante 15 minutos corrompido por um erro vergonhoso, prontamente assinalado por dois leitores devidamente identificados, que me escreveram, de Paris e de Lisboa (creio), quase em simultâneo. Fica o agradecimento, mas reservo-me o capricho de não identificar o erro.

junho 27, 2007

Há os tradutores e há VGM

Cyrano.jpgTenho imenso respeito pelos tradutores. Trata-se de uma profissão ingrata, são os guarda-redes da literatura; se não cometem erros, não se dá por eles, se são notados é por terem feito asneira. Como se não bastasse, ganham mal.

Isto válido para quase todos os tradutores, mas não para Vasco Graça Moura (VGM). VGM é um tradutor acima de todos os outros. Tem ousadia: escolhe as grandes obras do cânone ocidental. Tem métier e talento: faz traduções irrepreensíveis. Tem uma capacidade de trabalho sobre-humana: além de múltiplas actividades, é o lusitano que até hoje escreveu mais versos decassilábicos, esmagando o próprio Luiz Vaz. É também, por mérito próprio, uma figura mediática.

586695.jpgAssim se explica que o seu nome surja em destaque nas capas das traduções que vão aparecendo. Porém, há limites, que acabam de ser ultrapassados. A título de comparação, repare-se numa edição com já alguns anos, a tradução de VGM de A Divina Comédia, de Dante. Os nomes do autor e do tradutor têm letras do mesmo tamanho, sendo a posição do autor cimeira. Parece-me correcto, tanto mais por se tratar de um livro de poesia, em que a tradução atinge um máximo de prestígio. Vejamos agora o que se passa com a mais recente tradução de VGM. O tradutor aparece na posição cimeira e o "O" de "Moura" quase circunscreve o "o" de "Rostand". A agravar, estamos perante a tradução de uma peça de teatro.

O que temos aqui é um caso de bimbalhice editorial, marketing grosseiro e cobardia intelectual - sim, também me exalto. Com o Dante não se metem, mas quando é um autor de segunda linha já se arrisca o abuso. Parece que andam a comparar o prestígio do autor com o prestígio do tradutor e a tirar conclusões que informam o grafista. Imagino que a obra já esteja no domínio público, mas se não corrigem isto na próxima edição apresento queixa aos descendentes de Rostand e não se livram do escândalo. Ai este país, meu Deus, ai este país, que me obriga a ir do sexo anal ao Cyrano de Bergerac... Ainda vão pensar que foi por associação de ideias.

Sexo anal: uma achega filogenética

É a grande discussão do momento, seguramente fruto da época estival, sempre rica em estímulos visuais. Gostaria de contribuir com um argumento filogenético que complementa esta defesa da sodomia.
A zoologia ensina-nos duas coisas. A primeira: que o sexo anal, como possibilidade, não surge com os mamíferos placentários; certos peixes ósseos têm uma barbatana anal modificada - o gonopodium - que usam para penetrar a fémea pelo oviduto, que está separado do sistema excretor, mas seriam capazes de a penetrar por outro orifício. A segunda: que o sexo anal, como coisa porcalhona, também não é apanágio dos mamíferos placentários. A cloaca, como sabeis, é a câmara onde- enfim - desaguam os sistemas intestinal, urinário e genital dos anfíbios, dos répteis e das aves. Por impossibilidade anatómica que dispensa qualquer superioridade moral, em rigor jamais um aglomerado populacional de tartarugas descambaria numa Sodoma e Gomorra. Mas a verdade é que o sexo cloacal das tartarugas, pela ausência de assepsia, está mais próximo do sexo anal do que do sexo vaginal. Por outras palavras, a sodomia não é contranatura, vai apenas contra as ideias de quem só concebe o sexo para fins reprodutores.
Fica ainda o aviso para casais conservadores: os piriquitos e os cágados, esses animais de estimação aparentemente tão inocentes, são agentes infiltrados do diabo que cedo ou tarde acabarão por corromper os vossos filhos queridos. (Remate com gargalhada aterradora, em fade out).

House fear

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Usando o MI como clarabóia.
Cumulus mediocris - © Bernhard Mühr.

Always- I tell you this they learned-
Always at night when they returned
To the lonely house from far away
To lamps unlighted and fire gone away,
They learned to rattle the lock and key
To give whatever might chance to be,
Warning and time to be off in flight:
And preferring the out- to the indoor night,
They learned to leave the house door wide
Until they had lit the lamp inside.

Robert Frost, in The Poetry of Robert Frost, página 127.
Não resisto a realçar a inclusão de HTML que satisfaz as necessidades do leitor com conhecimento médio de Inglês, um conceito inovador e que recomendo ao Dr. Pacheco Pereira e a toda a malta que, para armar ao pingarelho, disponibiliza poesia em estrangeiro. Esforcem-se, caraças, vamos fazer coisas bonitas.

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Usando o MI como clarabóia.

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Usando o MI como clarabóia.


junho 18, 2007

Férias enormes no MI*

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Gerhard Richter Seestuck (Gegenlicht) / Seascap (Contrejour)
1969 200 cm X 200 cm Oil on linen

It's easier to leave than to be left behind
Leaving was never my proud
Leaving New York, never easy

blá blá

* Eventualmente interrompidas por motivo de força maior; caso contrário, estarei de volta em Dezembro e a emitir do Bairro do Anjos.

junho 17, 2007

Compadres


Lembro-me de ter visto isto em directo, no solstício de Verão de 1990. Paco de Lucia e Manolo Sanlúcar representaram a Espanha num programa com ligações em directo para momentos musicais em diferentes países de todo o mundo; Portugal entrou com uma guitarrada (Verdes Anos) de Carlos Paredes, tocada no claustro do Mosteiro dos Jerónimos. Este vídeo tem um valor sentimental porque desde então passei a gostar de Flamenco. Mas guardo alguma objectividade para reconhecer nesta actuação um dos melhores duos de guitarras flamencas que ouvi até hoje. E aqui também se prova que Manolo de Sanlucar é um guitarrista que nada deve a Paco. Peço-vos, ainda, que reparem na fina qualidade do tecido das camisas que os mestres vestem.

Proust

Une attention particulière a été apportée à la numérisation.

À la Recherche...

junho 14, 2007

Não sou porta-voz de entidades anónimas

Deixas-me numa posição difícil. Como indica o título que dei ao post com a mensagem do leitor devidamente identificado, havia ali substância que transcende a discussão de saber se o Coutinho tem graça ou não. Eu acho que tem, mas prefiro o Veríssimo. Em todo o caso, trata-se de uma polémica pouco ambiciosa, que não merece os tais 30 minutos. Se não houvesse conflito no Médio-Oriente... Nem Darfur. Enfim, que posso eu dizer? Talvez ele tenha lido o livro "de uma ponta à outra" mas começando pela ponta errada, sei lá. Há inúmeros cenários, não forces a dedução. Andas tão axiomático que já pareces o João Miranda.

What's done cannot be undone.—To bed, to bed, to bed!*

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* Shakespeare.

junho 13, 2007

Dulcíssimo Santiago

Folgo em saber que te preocupas com o meu bem-estar, mas só é Quarta-feira e a menos que um Jónatas Machado escreva a secção inteira do Espaço Público, teria sempre tempo de recuperar até Sábado. Em todo o caso, o exemplo que apresentas até é defensável. Primeiro, trata-se de uma imagem e não vale a pena começar a espingardar. Segundo, o que se aprende da ecologia é que as espécies estabelecem relações de interdependência, formando uma rede com ramificações muitas vezes inimagináveis. Sem entrar em grandes complicações, na ausência da espécie que serve de hospedeiro a espécie que o parasita em regime de exclusividade não sobrevive. Haveria outros exemplos, mas como tudo começou com uma discussão sobre o teatro...

Dedicado ao Tiago de Oliveira Cavaco

Gosto dos internos de medicina, da sua inexperiência e voluntarismo. Ontem fui ao hospital com um propósito muito bem definido. Em cinco minutos de conversa com o meu médico despachei a papelada necessária, mas depois ele sentiu-se na obrigação de fazer mais qualquer coisa. Espreitou-me primeiro a garganta com uma lanterna pequenina, mediu-me a tensão ( tensão baixa, de "healthy young people"), auscultou-me o peito, mandou-me depois inspirar profundamente enquanto tinha o estetoscópio encostado a um dos lombos das costas e depois ao outro. Ainda pensei que fosse usar um martelinho quando me pegou pelas pernas, mas tanto quanto percebi limitou-se a sentir a pulsação ao nível dos tornozelos. A rotina terminou com uma agradável - devo confessar - palpação da barriga, rematada com mais uma expressão que me encheu de orgulho: "You have muscles... It´s so hard to feel abdominal muscles these days". Em rigor, não é verdade, o que tenho é ausência de gordura. Com o correr dos anos, a magreza, tão traumática na adolescência, quase se tornou invejável.

Afinal é uma transição na continuidade

Chirac também tinha fama de glutão e beberolas.

Conversa interrompida

Estou razoavelmente satisfeito com a minha orientação sexual. Talvez seja pouco rigoroso formular uma apreciação nestes termos, mas é possível generalizar e concluir de forma algo pífia que a heterossexualidade, por oposição a outras tendências, facilita a vida. Dito isto, já dei por mim a desejar que certas mulheres fossem homens, porque a heterossexualidade também pode atrapalhar a vida.

Pequena Palestra de Pacheco Pereira


Eis uma comunicação bem estruturada. JPP sabe muito a quem se dirige e adapta o discurso. Só tenho uma correcção a fazer: Moby Dick não é uma baleia, é um cachalote (uma baleia com dentes, digamos), mas isto é uma nódoa imperceptível em toalha de linho.

junho 12, 2007

Just another rejection letter

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Note-se que esta top-quality inclui gente que faz uma maratona em 6 horas.

Sobre o humor, o sexo oral, as esferas de influência, Oxford, a varicela, a decadência da geração vindoura, flores e simiescas lanugens

«escrevem todos como o João Pereira Coutinho: prosa mijadinha, perguntas ao leitor, purga de artigos definidos.» ... e o mais grave é isto: li o livro das crónicas de uma ponta à outra sem me rir uma única vez.
E olha que não desgosto da prosa dele; quando escreve sobre a literatura de que gosta - e quando sentimentaliza o problema, em vez de fugir para o humor tipo O'Rourke para o qual não tem o mínimo jeito - é difícil melhorar aquilo. O problema é que a malta que o segue encarneira atrás dos maneirismos que tu catalogaste, e daquele humor manco e pateta que consegue enfiar Oxford na taberna sem aproveitar o melhor de cada. Ele tem mesmo um anti-talento para a comédia; há piadas que qualquer pessoa normal deixaria no chão a morrer e o Coutinho vai a correr oferecer-lhes flores.

Isto é uma herança horrível para as crianças. Mas o Galvão, por exemplo, que tem mais génio cómico num dos seus diminutos pêlos púbicos do que o JPC em toda a sua simiesca lanugem, parece estar a afastar-se dessa onda. No fundo a criançada, enquanto criançada, gosta de 'pertencer'. Aquilo de 'ser conservador' parece-me um upgrade do 'ser gótico' das escolas secundárias. Mas conservadores há por aí aos trezentos, e génios cómicos há muito poucos. Tu, que pareces exercer uma saudável influência sobre o Galvão, não o deixes fugir. Aliás, recomenda-lhe uma dieta intensiva de Roth, Amis antigo e stand-ups, e proíbe-lhe liminarmente o Coutinho, que só lhe faz é mal.

Já vi por aí nos blogues carradas de elogios à última crónica dele na Atlântico, apontada como prova de que os conservadores são os mais engraçados quando escrevem sobre sexo (teoria que até nem é absurda). Epá, não sei se leste, mas num parágrafo sobre os perigos do sexo oral, ele remata "...persistem em enfiar o nariz onde, literalmente, não são chamados". Isto, fora de um programa da SIC, parece-me imperdoável.
De um leitor devidamente identificado.

Almeida Santos faz escola

Tenho seguido com algum distanciamento a discussão sobre a localização do novo aeroporto. Sem opinião fundamentada sobre o assunto, concordo com tudo o que E. Pitta tem escrito, apesar das fotografias que acompanham os posts. Há, porém, uma questão que ainda não vi abordada: os efeitos secundários da toponímia. Vamos decompor. Das três propostas - "Poceirão", "Ota" e "Alcochete" -, a primeira é claramente a pior. Nenhum cidadão merece viver num país em que o principal aeroporto fica em Poceirão, nome que nem de apeadeiro seria digno. Já a decisão entre "Ota" e "Alcochete" é de natureza sobretudo geoestratégica. "OTA", por escrito, está muito perto do acrónimo francês para a NATO, OTAN (Organisation du traité de l'Atlantique Nord). Tendo em conta a influência da França no Magrebe e no Médio-Oriente, não é de estranhar que um radial islamita faça alguma confusão e planeie um atentado na OTA. Teríamos aqui uma versão hardcore dos faux amis, meus amigos. Em contraste, "Alcochete", que em árabe significa "o forno", deixar-nos-ia ainda e com reforço de garantia à margem da Guerra das Civilizações. Se tudo isto vos parece algo imbecil, recordo que, a propóstio desta discussão, um político com responsabilidades invocou a possibilidade da explosão de uma ponte sobre o Tejo; limitei-me aqui a prolongar essa linha de raciocínio.

Da superioridade estética das morenas

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Inés Sastre

A acuidade depende da motivação. É por isso que olho para as loiras como se fossem chineses: acho que são todas iguais.

junho 11, 2007

Space Invaders

Space%20Invaders.jpg- Bom dia. On a scale of one to ten, how do you feel today?
- O inglês faz parte da metodologia?
- É apenas uma idiossincrasia minha, que deve perdoar.
- Reparo que tem muita leitura em estrangeiro.
- São as minhas origens.
- Não é lisboeta?
- Sou como Sócrates.
- O ministro?
- Não, o outro. Mas não fuja à questão.
- A questão?
- Como se sente.
- Vamos andando.
- Você e as suas múltiplas personalidades?
- Então, Dr.? De si esperava mais. É uma expressão coloquial, escusa de ripostar com um lugar comum. Pergunte-me antes pelos remorsos.
- Sabe que não gosto de perguntas encomendadas.
- Quem cobra o que o Dr. cobra perde o direito a esses escrúpulos deontológicos.
- Você é que rejeitou a comparticipação do Estado.
- Para que não houvesse um registo. Já lhe expliquei o motivo. Quando a moda passar, Dr., esta coisa de ter um psiquiatra vai ficar tão estigmatizada como ir às putas. Ninguém dará emprego a maluquinhos ou gente com fragilidades.
- Acaba de empatar comigo na partida dos lugares comuns. É como se vê? Como um maluquinho?
- Em absoluto, sim. Alguém que deixou de usar a razão em benefício próprio. Mas não creio que esteja em minoria.
- Hum...
- Hum.
- Fale-me então dos remorsos.
- Andam tranquilos.
- Essa sua fulanização do remorso é muito curiosa.
- Bem, não lhes dou nomes...
- Hum...
- É do convívio, Dr. Uma pessoa habitua-se, deita-se e acorda com eles. Estão sempre à espreita. Seguem-nos como uma sombra, uma sombra que se projecta para dentro.
- Algo fatalista, não?
- Agora menos, vejo a vida como um jogo.
- Mas isso só acentua o seu espírito competitivo.
- Não, Dr., falo-lhe do elemento lúdico e de um certo desprendimento. Olhar de fora, como se olha para um peão, uma carica, uma pedra num tabuleiro.
- Hum...
- É uma forma de relativizar. A pior tragédia é apenas uma penalização, não se deixa de jogar. Os remorsos ficam arquivados, como vidas que se foram perdendo, mas cada vida nova é uma vida enxuta. Conhece o Space Invaders?
- A ficção científica não é o meu forte. Prefiro a grande literatura russa.
- É um jogo de computador, Dr.
- Ainda pior, só jogo bridge.
- Só jogo Bridge, só jogo Bridge, vai vai vai vai vai...
- Perdão?
- João Gilberto, diz-lhe algo? Deixe-me adivinhar: só ouve Ópera.
- Noto um certo sarcasmo no seu tom de voz.
- Impressão sua, Dr. Bem, estamos a chegar ao fim da sessão, não?
- Não. Ainda temos 20 minutos.
- Proponho transformar 20 minutos inúteis em 40 minutos úteis...
- Como assim?
- Ora, tenho uns assuntos pendentes para tratar e é possível que Dr. tenha algo para fazer também. Hum? Hum.

Prodígios II

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Uma saltadora gira. Giríssima. Aliás, flawless. Se a semana começa assim, lá para Sexta ainda descubro uma lançadora do martelo jeitosa.

Via: este gajo casado
.

Dica

O meu problema com os talentos literários entre os jovens conservadores e/ou liberais lusitanos é que escrevem todos como o João Pereira Coutinho: prosa mijadinha, perguntas ao leitor, purga de artigos definidos. Algo contra? Nada contra. Se gosto? Gosto muito. O problema é outro. Meus amigos, com a oferta de crónicas, recortes de diário, entrevistas e crítica que o próprio João Pereira Coutinho nos oferece todas as semanas, recomendo um pouco menos de Stuart Mill e um pouco mais de teoria económica. Assim não vão lá.

Fim-de-semana quase prodigioso

Vivo em Nova Iorque há quase 6 anos e se há coisa que me surpreende nesta cidade foi nunca ter visto visto um acidente de carro. A surpresa aumenta quando penso no tráfego rodoviário e nesta população de taxistas que muitas vezes passaram de carroça (Azerbaijão) a automóvel (Lower East Side) em menos de uma semana. Pois bem, no Sábado passado fui testemunha de dois acidentes (em rigor, das consequências) independentes no período de 4 horas. E não era o St. Patrick's Day.
Domingo: na sessão da tarde, cinema da esquina, vejo o microfone a entrar pelo topo num dos enquadramentos. Já consumi centenas de filmes e isto também foi novidade.
Perante estes dois acontecimentos prodigiosos, só me restou passar o resto do Domingo a deambular pelas ruas, forçando as probabilidades. Mas nunca funciona assim e nenhuma miúda gira me abordou.

Metabloguismo

Resolvi um problema de etiqueta que me consumia há semanas: como enlaçar ("linkar") um blogue que nos convidou a escrever num post? Por outras palavras, enlaça-se o post propriamente dito ou o blog? Creio que só faz sentido enlaçar o blog. Isto foi a teoria. Agora a prática: Analfabeto. Para o post em questão, que junta Ayatollah Khomeini - como se escreve Khomeini em Português? - e Glenfiddich no mesmo parágrafo, vão descendo pela coluna. Parabéns ao autor por uma iniciativa que nos enriquece interiormente.

junho 10, 2007

I rest my case too

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E julgava-me eu um cidadão informado

Nesta animação, que julgo pretender reunir a nata da blogosfera mediática, só reconheço 23 caras em 39. Em todo o caso, não se percebe a selecção. Por exemplo: falta lá o puto-maravilha, o JPC, bem como um dos pioneiros desta brincadeira, o MEC. E se o Pulido Valente é convocado por ter andado a levar cacetada durante apenas um mês, é justo que José Magalhães, embora autor de um dos blogues menos interessantes de sempre, também figure. Mais: o Professor Marcelo, não entra? Diiiiiiiiiiiiiiiscriminação. Uma palavra amiga também para Carlos Pinto Coelho, outro injustiçado. Quanto ao Rui Tavares e ao João Miranda, chegaram aos jornais mas ainda devem contar como promessas, pois não figuram. Há depois um fulano que aparece duas vezes. Enfim, talvez tenha dois blogs. Ou é da famíia do web designer.
O problema da blogosfera é este, meus amigos: voluntarismo de mãos dadas com o amadorismo. Nada que não se topasse logo pelos efeitos visuais, programados em BASIC no ZX Spectrum do avô. Só não se percebe a estafa que aquilo deve ter dado. Ainda se fosse um levantamento exaustivo dos rostos das nossas bloggers... Critérios.

junho 09, 2007

O factor delta

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A propósito de Chuck Palahniuk.

Já a seguir...

Afinal é possível gostar de musicais

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Once.

junho 08, 2007

Início da temporada

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Objectivo: terminar o big loop

R., bem que podias ainda cá estar e fazer de lebre.

Nova Iorque, 8:15 AM [revisto às 4:15 PM]

StLouis_2.jpgMuitos anos depois, vim a saber que Charles Lindbergh, um dos meus heróis anacrónicos heróis de infância, havia sido um simpatizante dos nazis (Roth fez há uns tempos um exercício de história virtual partindo daí, The Plot Against America). Que impacto teve esta informação na memória do meu fascínio de infância por Lindbergh? Nenhum. Continua intacto. O que conta é a construção que dele fiz com base nos elementos de que dispunha: um livreco em que se contava as façanhas do aviador.
Se esta resistência ao revisionismo (académico) funciona com Lindbergh sem custos, com pessoas a sério é inevitável pagar-se um preço. O problema é o presente. Lindbergh está bem arquivado, mas quando o presente colide com o passado, lá está, sacrifica-se o futuro. Tudo para preservar a construção. No fundo, sou um negacionista por norma.

Imagem: Spirit of St. Louis

[Entrada corrigida às 4:15 PM]

junho 07, 2007

Prontos para o Verão

Terminada a pausa retemperadora e o desaustinanço de links, é altura de recuperar o autismo que nos caracteriza e retomar trabalhos, a saber:

1. continuar as Infidelidades (faltam umas 180);

2. recuperar o O México também se acaba, uma série que não chegou a granjear adeptos, mas é a vida;

3. passar para o papel uns apontamentos sobre antidepressivos;

4. Apologia do nariz (6000 caracteres e suporte visual);

5. Recensão: o pior livro que li nos últimos dois anos.

6. E se o cargueiro vai a pique?, especulação sobre um episódio trágico-marítimo que leva ao desaparecimento do património acumulado em Nova Iorque e que pretendia enviar para a pátria.

7. Turno da noite, o tão aguardado poema.

8. Imagine que é obrigado a decidir entre sacrificar Valentim Loureiro ou todas as fêmeas panda do planeta e que a sua decisão não o compromete legalmente. Direitos dos animais, umas notas.

9. Continuar a série Os Melhores Aviões da Minha Vida, apontamentos repentistas com indicação de hora.

10. Extensão do domínio do vocabulário: exercícios usando palavras que nunca escrevi (auxiliares: dicionário da Porto Editora e dicionário ilustrado da Verbo).

11. Route 69, o regresso, quando partir de novo de férias e desta vez é mesmo para chegar a São Francisco.


Tudo em ainda em Junho, num blogue perto de si, numa galáxia muito longe.

PS: o Vítor está de castigo.

Pausa passageira

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GERHARD RICHTER Klo Rolle / Toilet Paper 1965
Óleo 55.9 x 40 cm

Provavelmente o único blogger que me mostrou boa música desconhecida

Carlos do Carmo Carapinha.

Provavelmente o único blogger que me dá problemas de consciência

Yesterday Man: interpelou-me e ainda não lhe respondi.

Provavelmente a blogger mais gira

A Fernanda leva a coroa e nem precisa de dizer "world peace".

Provavelmente o melhor blog temático

Rua da Judiaria.

Provavelmente o melhor Português

Rogério e Alexandre.

Provavelmente o blogger que mais invejo

Rodrigo Moita de Deus, por ser quem é.

Provavelmente os meus bloggers preguiçosos preferidos

Ana Sá Lopes e Alberto Gonçalves, que praticamente não escrevem mas que são de longe os melhores bloggers sem post que conheço.

Provavelmente o meu blog activista preferido

O Womenage a Trois. Têm graça.

Provavelmente o meu blogger de direita preferido

Gosto muito do Eduardo Nogueira Pinto. O Eduardo é um duro, até quando escreve posts melancólicos, ou seja, não ficamos com pena dele mesmo sabendo que o post é honesto. Isto é muito raro.

Bomba Inteligente is the limit

Gostaria também de destacar João Paulo Sousa, provavelmente o meu crítico preferido se excluir aqueles cujo nome próprio começa por um "l".

Galvanizaste-me *

Tiago Galvão, provavelmente o meu blogger preferido no escalão sub-25, com quem em tempos comecei a escalada panegírica. Recupero um exemplo (camarada, continuamos isto?):

Exageras, jovem Galvão. É a tua arte que transcende. Faltam elementos para a elogiar. Elementos. Elementos mesmo. Fogo, água, terra e... o outro. É que não há prosa para a tua prosa. Qualquer parágrafo teu é um diamante, inconquistável, rebatível apenas pelas tuas próprias palavras, como o gume do diamante noutro diamante. Eis o teu drama: vives sem críticos que te alcancem e só podes crescer por autofagia. E eis a nossa sorte: ficarmos agarrados à tua primeira frase, imobilizados, como se nos descobríssemos cobertos por uma camada de zinco. Nos palácios e nos barracões, o poder encantatório do teu verbo fez já uma legião de estátuas de metal, Galvão. Ah, a vida é brincalhona; ainda ontem alinhavas soldadinhos de chumbo. Só que agora estas são estátuas vivas! Tétrico? Será talvez a opinião de analfabetos, ignorantes e desafortunados. Gente civilizada e hedonista sabe - e secretamente alimenta tal desejo - que não há felicidade maior do que gozar a eternidade contemplando uma das tuas páginas.

*Com a Escalada Panegírica pretendemos simbolizar o absurdo da corrida ao armamento nuclear e mostrar o valor das palavras por reductio ad absurdum (latim). Não é coisa modesta.

Provavelmente a minha blogger preferida*

Não gosto de blogs de mães. As crianças largam um peido e as mães correm a partilhar isso com o mundo.Ana de Amsterdam

* Parece que Pacheco Pereira decretou o fim dos elogios na blogosfera, mas há uma forma de contornar a nova regra: o sistema das compensações. Assim, se um post estiver corrompido com um elogio, pode ser reabilitado se tiver também um insulto. Mel e fel na dose justa. Como não estou com tempo para mais links, remato dizendo que Pacheco Pereira pode ser chato como o caraças.

junho 05, 2007

Epifania

CFB217.gifBem sei que me falta um divórcio no currículo para reforçar a minha credibilidade quando digo que voltei a acreditar no casamento. O casamento produz um efeito tampão - expressão que vem da química, esclareço - essencial para a estabilização das relações. Mas há outra razão, que se reforça de cada vez que esta discussão - sempre latente - volta à baila. Casar nos dias que correm, com tanto estímulo ao adultério, é um acto de coragem e um gesto que, em contracorrente com a vaga fracturante, vai recuperando alguma da graça que perdera. Dito isto, segundo dados do The Economist não me posso entusiasmar tanto com o sorriso da nova menina da caixa registadora aqui da cantina*.

*Como creio ter chegado a uma conclusão fundamental, optei por escrever esta entrada a negrito.

junho 03, 2007

Sugestão de leitura

HookeFlea01.jpgRacism, it must be understood, was promulgated by fully credentialed professionals in white lab coats who by their own self-understanding conducted impeccably dispassionate scientific research. The German Medical Association informed Nazi leaders that they certainly would soon devise a foolproof way to detect Jews, Gypsies and homosexuals through blood tests. Few professional groups was more supportive of the Nazi blueprint than physicians. Deichmann points out that biologists enjoyed substantial state funding and, if they didn’t fuss about dismissals of Jewish colleagues or Nazi ideology, had “substantial freedom of research,” including the freedom to experiment on psychiatric and concentration camp inmates: “The fact that some of them made use of this option reveals the abyss of a science without a humane orientation, an orientation that cannot come from science.” Science, in this crudely reductive but widespread rendition, made mass murder all that much easier. Physicians on trial at Nuremberg for camp experiments were quick to cite American examples to show that the task of eliminating "inferior elements" was not a mission unique to Germany. Nuremberg prosecutors, many of whom were themselves under sway of eugenicist notions picked up at home or in the Ivy League, never prosecuted Nazis for sterilizations, only for deaths. (...)
Possibly the eugenics episode may work today as a sobering reminder of how mortal our rulers are and how fallible the scientist is. The eugenics story need to be retold and reviewed so that the wider community weighs the risks in this scientific game and brings to bear the necessary degree of skepticism to ballyhooed claims. As for modern genetical fancies, it is hardly possible to improve on the advice of Herbert Muller who himself flirted with eugenics half a century ago before coming to the conclusion that in order to call the bluff of genetic correctness we first need to organize a "cooperative society [where] inequalities due to artificial class distinction, race prejudice, inherited fortunes and privileges are done away with, which will bring us much closer to the ideal eugenic conditions in which practically every individual will have as favorable opportunities for development as every other, and thus have his potentialities recognizable for what they are...then for the first time we shall have an estimation of a man's intelligence from a genetic standpoint."
The Mystique of Genetic Correctness, por Kurt Jacobsen

junho 02, 2007

Nova Iorque, 13:25 de Sábado

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Estou febril quando me queria fabril. Trocadilho fácil mas rigoroso. Ando pelos 39 C e precisava de trabalhar. Sinto o corpo a arder mas sem labaredas, mais como uma fosforescência capaz de brilhar no escuro e fazer-me fantasma. Mas luz é o que não falta, tenho estores que apenas me resguardam do olhar dos vizinhos. Estar acamado depois dos 10 anos, sem torradas nem chazinho nem mimo materno, não compensa. E a doença potencia a necessidade de afecto, raios.
Vou saltando de livro em livro, hábito frequente em quem lê para esquecer. É o meu caso, o que também explica esta sensação de triunfo pateta sempre que termino um volume. Como hoje aconteceu com o O Livro do Meio. Não posso garantir que interiorizei todas as páginas, mas assegurei uma cobertura acima dos 4/5. Há parágrafos de Armando Silva Carvalho, no registo vencido da vida em sublimação, que galguei. Maria Velho da Costa pareceu-me mais sólida, na prosa e nos humores, o baluarte daquela amizade. O que me traz a P. Tenho pensado muito nela, nos nossos serões em sua casa, nas sestas - digamos - cinéfilas, nas leituras em voz alta – foram só duas noites, mas das boas. Priceless. A amizade é uma almofada de penas (Agustina B.L.) mas é sobretudo um talento que se cultiva. Tenho amigos talentosos e sinto-me como barro nas mãos deles. Ao menos isso. O mais nobre dos sentimentos? O menos volátil - esta arrisca-se a levar a palma da trivialidade.
O apartamento de P. era mesmo nova-iorquino, um vigésimo sexto andar. E agora aqui, obrigado a ter as janelas do meu quarto abertas, percebo que o que me encantava da sua janela não era a vista de postal, era o silêncio, capaz de me deixar a contemplar o trânsito sobre a Queensboro Bridge durante largos minutos e ser visitado por aquele desejo de omnisciência: no que estarão a pensar todos aqueles condutores? Esta cidade, à altura a que vivo – trabalho e moro num quarto andar – é uma cacofonia de buzinas, sons de camiões que nunca transportam materiais acusticamente inertes, como o algodão, motorizadas, apitos de marcha à retaguarda, canalha a brincar no jardim e passarada, tudo sobre um fundo por identificar mas que não é silêncio. O silêncio aqui está muitas camadas debaixo destas demãos sonoras e - enfim, deliro – quase parece que se acumulam com o tempo e que se as fosse calando sucessivamente talvez chegasse aos estrondos do 11 de Setembro de 2001, depois aos ritmos dos tijolos da break dance e por aí fora. Nada disto faz muito sentido pelas leis da física, mas esta massa acústica não se fez em três dias, é o que voz digo. Espanta-me que ande há quase 6 anos a apanhar com isto sem protestar, 24 horas por dia. Não admira que tivesse deixado de tocar guitarra, o rácio de som organizado/ruído consumido desequilibrou-se e começa agora também a pôr em risco a melomania. Como sobrevivem os músicos de Jazz nesta cidade é para mim um mistério, mas é verdade que de noite isto acalma um pouco. A propósito, obriguei-me ontem a ouvir o Köln Concert do Jarrett – tá tá tá táaaaaaaa -, como quem coloca turcos humedecidos sobre a testa. Preciso de sair daqui quanto antes e foi bom ter encontrado mais uma justificação; qualquer dia já só oiço punk e percussão nipónica. Mas é melhor parar. Armando Silva Carvalho também polvilha a sua prosa com referências musicais e não o quero imitar, até porque acusaria o tal declínio lexical.

A imagem é de um Supermarine Spitfire.

Penso que isto é o que se chama choque tecnológico

War and Peace, online, 365 capítulos a 0,00 euros cada.

junho 01, 2007

Jacques, aquele abraço

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O elogio a quem está na lama tem tanto de oportunismo como a crítica, embora ainda seja tangencialmente mais original. Falemos pois de Jacques Chirac. Anda a direita eufórica com Sarkozy, o gaullismo está enterrado e já antes se sabia que o nosso Jacques não era flor que se cheirasse. A verdade é que nunca na história das democracias modernas um político pronunciou o nome do seu país de forma tão enfática. É um fraco título e nem sequer dará entrada no Guinness, mas quando Jacques soltava um "La Fraaaaaaance" eu esquecia a minha carte de séjour e sentia-me quase gaulês.

Os exemplos que temos em Portugal só frisam a excepcionalidade de Chirac e é por isso que o mostro com a nobreza do preto e branco. Sócrates, na sua cadência de mestre-escola, não galvaniza. Cavaco, com problemas de dicção não totalmente solucionados pelas aulas que teve nos idos de oitenta, não seduz. Haverá talvez um homem capaz de ombrear com Chirac, um homem que se julga a reserva moral da nação, quando não passa da sua referência fonética. Refiro-me obviamente a Manuel Alegre, embora nunca venhamos a saber que efeitos sinérgicos a presidência e a bandeira teriam sobre a forma como entoaria "Portugal". Chirac não é promessa por cumprir. Chirac é valor seguro e creio que não viverei o suficiente para encontrar político com um talento destes à sua altura.

Mais respeitinho por Oswald T. Avery, McCarty e MacLeod

HookeFlea01.jpgEspero que esta notícia tenha tido alguma repercussão na imprensa lusa. O Santiago fez uma boa piada sobre o assunto e a sequenciação de genomas pessoais, que arrancou com o genoma de James Watson, o co-descobridor da estrutura do ADN - tem implicações várias que urge - repito:urge - discutir. Não é o que farei aqui e quase oiço o vosso lamento a dar à costa de Long Island. Limito-me a apontar uma calinada brutal que deixa o NYT a dever um pedido de desculpa aos familiares de Oswald T. Avery McCarty e MacLeod, faz do seu autor - Dr. Rothberg, dono da companhia que sequenciou Watson - um ignorante e recorda-nos que devemos desconfiar do NYT como sempre desconfiámos do Jornal do incrível. Mas este erro é também exemplo paradigmático e até ilustrativo - acho que me repito - de um fenómeno de aglutinação indevida de descobertas muito frequente na imprensa e nessa entidade de contornos mal definidos que conhecemos pelo nome de "cultura geral". Explicando melhor: sempre que alguém faz uma descoberta importante, a tendência é para que comece a adquirir fama por descobertas próximas que não lhe pertencem.

Escreveu este palhaço* do Rothberg que Watson foi ?the right guy to do first? because of his discovery that DNA is the basis of heredity. Isto é absolutamente falso, caro leitor. Rothberg merece passar a eternidade a tentar reproduzir um verso de Shakespeare usando exclusivamente as bases do ADN- "A", "C", "G" e "T". O que Watson descobriu foi a estrutura do material hereditário, sugerindo também - com a famosa tirada "it has not escaped our notice...", que só para irritar eu quaso juro ter sido escrita pelo Crick - um mecanismo de replicação. Mas que o ADN era o material hereditário já se sabia e o trabalho é de Avery, McCarty e MacLeod. Estas coisas estragam-me o fim-de-semana, que já não se anunciava famoso.

* É nestas alturas em que a bengalada verbal se impõe que lamento não ter lido Camilo Castelo Branco - esse grande mestre do bota-abaixo - com afinco.


A culpa é de Gonçalo M. Tavares

Autora celebrada, porém parcimoniosa (oito livros em vinte anos)...

E. Pitta