Na verdade tenho algo urgente a partilhar com as gerações mais novas sobre Evolutionary Stable Strategies aplicadas a desaires amorosos. Preciso de umas horas...
A do avançar da idade, não sendo obsessão é pelo menos preocupação. Muitos iniciam-na no momento em que o número de anos carregados pelo corpo iguala ou supera os órgãos esmaltados da guarnição maxilar. VB
Para quem tem bom olho para estas coisas, a Vaidade quase nunca é um pecado das suas vítimas. É um seu engano. VB
Como há gestos sem redenção possível e é preciso continuar a viver, a religião impôs-se com naturalidade. Há alturas em que isto parece menos óbvio, mas nunca chega a ser um mistério. VMB
João Miranda escreve que se fazem "demasiadas teses sociológicas com base em eventos raros sem verificar se são estatisticamente significativos". O post vem acompanhado por uma série de notícias sobre massacres fora dos EUA. O reparo de JM está certíssimo, mas, muito ao seu estilo, ele apenas levanta uma hipótese. No tempo que ele demorou a encontrar todos os casos isolados, eu dei com esta lista de massacres com armas de fogo em escolas de todo o mundo. Desde 1996, houve 36 casos em escolas americanas, 7 em escolas europeias, 2 no Canadá, 1 na Ásia e 1 na América do Sul.
Admitindo que estes dados estão correctos, depois de os normalizarmos para o número de escolas ou de alunos, a diferença entre os EUA e o resto do mundo fica aumentada e vinga a tese de que nas escolas americanas a probabilidade de um acontecimento destes acontecer é baixíssima, mas mais elevada do que no conjunto dos restantes países. Não vale a pena tentar ser original: a cultura das armas de fogo e - favoreço esta ideia - efeitos copycat estimulados pela exploração mediática destes episódios talvez expliquem os dados.
Fica apenas por saber se estes números são reais ou enviesados para os casos americanos. Uma forma de avaliar a robustez da lista que encontrei é ver se inclui os 8 exemplos de JM. Na verdade, a lista só inclui 3 desses exemplos. Porém, entre os 5 que faltam, um ocorreu em 1964 e outro em 1989 (a lista começa em 1996), um foi executado com armas brancas (o que não diminui o horror, mas a lista refere-se a tiroteios) e um parece não ter ocorrido numa escola. Por outras palavras, a selecção de JM é esforçada e a lista que uso sai credibilizada pois só não aparece um dos 4 exemplos de JM passíveis de figurar nela.
Neste caso, como para o Global Warming e o Intelligent Design, JM gosta de lançar suspeitas sobre verdades adquiridas usando argumentos válidos (as baixas probabilidades são um problema válido) mas parece fazer prova da simples suspeição. Como se identificar um vício compatível com a interpretação fosse razão suficiente para a abandonarmos. Com tal estratégia, podemos criticar qualquer posição sobre qualquer assunto. VMB
O entrançado fictício de um recente trabalho de Alan Moore, de quem sou leitor professo, coloca na mesma encruzilhada episódios sórdidos da família real inglesa do século XIX e as mortes atribuídas a Jack, O Estripador. A premissa é dada pelo próprio ambiente da capital vitoriana, através do conceito subjacente à arquitectura de Nicholas Hawksmoor. Divaga-se dizendo que este, levado talvez por motivações de natureza maçónica, acreditava no princípio da coexistência dos tempos cujo corolário sugere que as coincidências não são afinal mais que recorrências ordenadas de eventos, representáveis porventura pela forma de uma ogiva gótica ou, subindo o Zêzere, pela das espirais manuelinas.
Por ser pouco dado ao uso de aventais, de nada me serviu esta ideia até ao dia de ontem, que nasceu aqui nos Estados Unidos com mais um trágico episódio de assassínio em série, desta feita numa Universidade da Virgínia. Desde as sete às dez da manhã, cerca de trinta estudantes foram fatalmente baleados por alguém cuja identidade permanece velada.
Deixo de parte as retóricas e, por conseguinte, inúteis perguntas do tipo: "quantas mais mortes serão necessárias para que alguém faça algo?" ou a vontade de encher de dedos a cara do porta-voz do FBI quando salientou (ou aproveitou a ocasião para dizer) que "ainda não é possível excluir a possibilidade de um atentado terrorista". O que mais me intriga é esta periodicidade quase matemática de assassinar educandos em estabelecimentos de ensino. Curiosamente, a população estudantil é uma das mais amadas pelo status quo (não apenas) estado-unidense. No entanto, nunca se ouve falar de tiroteios em instituições para os sem-abrigo, por exemplo. Tal pode dever-se a um certo (mesmo provável) desprezo das agências noticiosas para com a população pobre. Mas também pode dar-se o caso de serem os centros de educação colectiva alvos preferidos de lunáticos legalmente armados.
Não deveríamos, portanto, estranhar a proposta urgente de estudar as razões de tanto ódio para com quem anda a aprender. Sim, urgente, antes que o próximo homicida nos dispare. VB
por Michael Specter
The New Yorker, Março 12 2007

Pretende-se o escândalo pelo julgamento de um vírus mas, com tantas ganas na barrela, acaba-se acidentalmente incorrendo no risco de esfolar a casca a uma velha ferida.
A arrogância do "norte científico" facilmente cai na prática de dirigir dedos aos "feiticeiros do sul". Embora da Austrália também se fale (a propósito das arrojadas afirmações de Eleni Papadopulos Eleopulos) o "saco de pancada" deste artigo é invariavelmente a África. A do Sul principalmente na pessoa da sua Ministra da Saúde, mas também à figura do actual presidente da Gâmbia...
Critica-se a irracional negação dos tratamentos descobertos pela ciência e condena-se a igualmente estulta aceitação do tradicional, das ervas e demais mezinhas. Curiosamente porém, não é fácil encontrar dados científicos corroborando ou contradizendo as aclamações populares a tais receitas.
Será científico não procurar evidências claras de que as poções que hoje fazem frente às empresas farmacêuticas não são eficazes? Não é tarefa do investigador despojar-se do acidente e buscar a essência? Será neste caso degradante procurar a verdade do boato? Tenho a impressão que é sempre esta a separar o real do bruxedo. VB>
A maratona é o único desporto em que a chegada dos últimos é mais interessante que a do primeiro.
A tese de que não há alemãs giras não se rebate apresentando um exemplo. Uma experiência possível seria comparar todas as equipas femininas de volleyball - um desporto que não corrompe a beleza nem a aglutina - e resta-me esperar que, para o bem da coesão europeia, algum blogger mais diligente apresente esse tão inadiável trabalho.
Mas há exemplos que contam mais que outros. A mulher objectivamente mais bonita das que me deram alguma atenção e esperança - refiro-me, neste caso, aos 17 minutos que foram do momento em que começámos a falar até à sua revelação de que tinha um namorado - é alemã. Foi numa festa temática e ela estava com a pele pintada de prata. Uma teutónica de prata. Mais, uma teutónica de prata especialista em arte, deambulando por Paris à procura dos donos dos quadros que os nazis roubaram nos anos 40. Nunca mais a voltei a ver mas é a única página da caderneta com o cantinho dobrado.VMB

Dois garotos à procura de pérolas. Um é especialista, nasceu para isto e o que por ventura não encontra nas profundidades da "infomaré", sempre compensa com avultadas habilidades de prosador poético. O outro mal sabe nadar (iô!). Escreve nisto como um anacoreta por engano. Ainda assim, desconhecendo o que o resto do mundo diz deles, preferem esta forma de "diário" à total reclusão da gaveta das cuecas.
Ou então:
VB
Extra é o volume ocupado, (porém) mínimos os cornos. O que conquisto fazendo de palhaço alterna-se com as perdas devidas a nunca comportar-me de outro modo. Incessantes são as ideias megalíticas que trago em mãos. A maioria acha-as desnecessárias. Para a lide das mesmas eu próprio entendo com frequência necessitar de excêntricos instrumentos arquimedianos. VB
Um distante conhecido veio novamente a Nova Iorque por puro divertimento. Como grande parte dos que emergem de berço abastado, o jovem mexicano em causa é um sortudo de elevado calibre. Ao receber da agência de viagens uma entrada grátis para a ópera no Met, surpreendeu-se ao ver no folhetim a fotografia do seu antigo professor de música, dos tempos de colégio (nem mais nem menos que o Rolando Villazón). Afoito diante do desconhecido, o jovem decidiu usar esta coincidência para convencer o segurança a entrar nos bastidores. Foi, falou, convenceu e, num curto espaço de tempo encontrou-se diante de um dos maiores tenores do momento. Este, muito simpático, não só recordou-se do ex-aluno como convidou-o para jantar na companhia de uma sua colega e amiga. Ora essa amiga era uma mulher com quem ando a tentar eye contact há mais de dois anos. Anna Netrebko, por cada tremolo um tremor. Falem da minha womanity, mas evitem pôr em causa a sensualidade desta soprano.
Seguramente, a volúpia sempre teve o seu peso sobre a remuneração dos músicos. Mesmo assim, a nossa parece ser uma geração única na extensão do erótico a campos eruditos. Como nunca as artistas clássicas multiplicam-se em poses-Playboy pelas capas, cartazes e anúncios. (Espectáculo!!!) À mistura, uma certa componente nacionalista. A Karita Mattila pela Finlândia, a supracitada Netrebko pela Rússia, a Anne-Sophie Mütter pela Alemanha... Um leviano e (talvez por isso) cruél disse-me hoje que, sendo esse o caso, Portugal não teve muita sorte por possuir a Maria João Pires. Estará o da clássica a resvalar para o mundo das "misses"? Veja-se por exemplo o triste destino de Ruth Ann Swenson, rejeitada por critérios puramente estéticos após ter batalhado e vencido um cancro? Ímpios, despertem e saibam que a "conversão pela música" não pede ao catecúmeno senão os ouvidos!
Não obstante, sucumbo. A debilidade da carne não depende da prontidão do espírito. Para aquela nenhum elixir parece dar cura. No caso do de Donizetti, quer pela melodia como pela simplicidade do desejo antimilitarista, encontro naturalmente beleza ao ver Adina despindo Nemorino da sua jaqueta de soldado. Mas se juntar a isto a sensualidade da mulher em palco, saltam-me semicolcheias da usual sinfonia de sístoles. VB

Filhinho querido,
de inato o Homem não possui senão a linguagem e a inexorável susceptibilidade para “acomodar” problemas do espírito. Digo-te isto por ser quem sou e tudo saber. Tu, sendo homem, não fugirás à regra e, portanto, não temerás pelo teu futuro ou pelo da tua alma. Ao criar-te à minha imagem, insuflei em ti estes dois valiosos princípios para que consigas sempre discernir acertadamente. Serás por eles guiado como se eu próprio te servisse de cajado. Entenderás que um “Acordo” é possível em qualquer circunstância. O tempo e a prática desta devoção ensinar-te-ão a manter a lucidez diante do teu objectivo final: a fidelidade à noção de propósito, desígnio, intento ou fim de cada caminho.
Sabe porém que precisamente sobre este bem mais precioso, reduto último do teu ser, as forças do Inimigo não cessarão de lançar confusão. Não permitas um único passo ao desalento perante o rugir da batalha e a desordem do que outrora parecia intocável. Não caias na tentação de pensar que o propósito, desígnio, intento ou fim da Academia foi alguma vez o de educar teus irmãos. As forças malignas farão uso desta suposta ignomínia para baralhar-te os sentidos, apresentando-te com aparência de falso o que tão simples e verdadeiro é. A Academia servirá apenas à tua desonra prendendo-te perenemente num emaranhado de práticas fúteis. Ao dar-lhes ouvidos, enredar-te-ias nos afectos do teu próprio eu e corromper-te-ias na corrida a publicações e demais títulos de igual insignificância. Depressa perderias o rumo e demasiado tarde rangerias os dentes diante do teu erro e da tua perdição.
Do mesmo modo, o tentador apresentar-te-á como afronta a Via do Capital Privado. A Indústria, qual Grande Meretriz, chamar-te-á de braços abertos ao falso opróbrio. Não te deixes enganar, filho meu: não é afronta o Privado que eu criei nem rameira a Indústria do meu ventre. A Pharma e a Biotech, puras como pombas, esperam com desassossego a chegada triunfante do esposo ao segredo dos seus jardins. Elas a quem o mal nunca vencerá, e a cujo propósito, desígnio, intento ou fim jamais deixarão de ser fiéis. Pois que, no seu inefável pudor de virgens prudentes, nunca dissimularam o desejo de produzir uma cura ou encobriram a vontade de obter antídotos contra os males do corpo.
Vai, meu filho. Que seja brilhante o porvir na casa que te preparei. Vai, e nunca verás chegar o dia em que julgarás cada instante como igual ao do ano anterior. Vai e conhecerás a riqueza que mereces, a segurança para quem amas, o reconhecimento dos teus trabalhos e demais delícias que do alto desta torre eu aponto. Mais que gratidão, espero de ti o amor que um filho inevitavelmente encontra no seu criador.
Teu desde o prelúdio dos tempos,
Satanás
VB

Ao ler cientistas nomeando Unamuno pela blogosfera afora, pensei no significado das palavras abreviadas neste título que para aqui anda dependurado, Ph.D. Ligeiramente envergonhado, passei a procurar cultivar-me nos filósofos viventes. Cruzei-me de imediato com uma "estrela" da filosofia francesa, Luc Ferry que, como se diz, não só é um professor de alto nível como também um ensaísta capaz de chegar ao grande público. Na sua prolífica obra (que desconheço ainda), dá alguns toques em temas científicos.
Entre estes consta uma publicação intitulada The New Ecological Order (também editado em português pela ASA). Um soluço inicial (ou chamem-lhe preciosismo meu): este homem refere-se aos seres como "criaturas"! E isto depois de, logo nas primeiras páginas, ter deixado, a propósito da formulação dos Direitos dos Animais, a seguinte pergunta:
Do words still have meaning?
Posso responder com um "semipleonasmo"? "O respeito pela semântica deve ser grande para que nos entendamos". Sendo criatura a característica de quem (ou o quê) é criado, se Luc respeitasse as próprias premissas, não estaríamos agora a ponderar quanto às suas tendências criacionistas.
Mais por excesso de preguiça que por carência de desenvoltura (espero), da filosofia do New Ecological Order continuo pobre. Entretenho-me com os títulos um pouco "festivalérios" das suas secções. Se estes não servirem apenas para adoçar a atenção de um candidato a leitor que folheie o índice, o caso pode torna-se preocupante. Por exemplo, a primeira parte do livro traz ao cabeçalho um Animals, or The Confusion of Genres. Confundo-me já aqui. Um certo goofy dentro de mim solta risadinhas com as próprias piadas acerca dos problemas existenciais dos nossos camaradas inumanos.
Na segunda parte do livro, intitulada The Shadows of the Earth, o autor deseja lançar a semente da Deep Ecology. Será que foi pretensão sua adaptar para o próprio livro estilos do Pentateuco (Aquilo de que no primeiro dia eram as trevas, etc., etc., etc.)? Folheio para a frente. Pelos capítulos subsequentes mais expressões e termos curiosos como Think Like a Mountain, Nazi Ecology, The Incarnations of Leftism, Ecofeminism ou Democratic Ecology. O epílogo sugere até ou um elemento mágico ou uma crónica deficiência no campo das matemáticas - Nationalism and Cosmopolitanism: The Three Cultures.
Espero que o meu cinismo se esgote ao "beber desta água". Talvez aqui encontre o que sempre quis saber acerca do intuito moral da acção humana sobre a Natureza (e nunca tenha tido a coragem para perguntar?). Certo é que a minha mesquinhez teria sido mais madrugadora a despedir-se se não soubesse que Luc Ferry foi Ministro da Educação (e da Juventude, e da Investigação Científica) durante os dois primeiros governos de Raffarin. VB


Não deveria escrever tanto sobre ele por incorrer no risco de ser reconhecido como seu admirador. Por outro lado, é difícil voltar os olhos para um texto a popularizar Ciência sem identificar no autor um iconista de Albert Einstein sobre muitos muros e fundos. Quanto mais não seja para vender o artigo ao director de redacção e, por conseguinte, ao público.
Mesmo assim, imagino de modo relaxado a segunda visita de Einstein aos Estados Unidos (em 1931). Conta-se que, nesta, o físico encontrou-se com um outro "génio", Charles Chaplin, durante a première de City Lights. Testemunham-no algumas fotos e o rumor de uma frase do artista, ouvida à socapa, a propósito dos aplausos do público: They cheer me because they understand me, and they cheer you because no one understands you.
Claro que, fosse Albert, naquele instante, ainda vítima de jet-lag, um simples Whatever bastaria como réplica, a qual seria até desobrigada por Chaplin. (Não creio, porém, que Albert tenha chegado de avião.) A primeira das Obras de Caridade Intelectuais, se existissem, deveria ser "adiantar palavras à boca do pobre em dialéctica". Adianto pois à do cientista as seguintes: Meu caro Charles, tudo na vida é tão relativo... VB
Daquele consultório de dentista com cadeira invertida lembro-me pouco. Vagamente recordo porquê a inversão da cadeira: porque o médico não era dentista mas cirurgião colorrectal. Já que tudo me ascende ainda muito desfocado ao consciente e por respeito a quem almoça a ler blogues, poupo-vos mais detalhes.
Não descreverei portanto o que vi e ouvi durante os estados febris deste período pós-operatório. De resto ninguém acreditaria que fui invadido pelo Alien, que estive para parir um outro eu (ainda mais deforme) por um buraco ectópico (ironicamente) sobre a vértebra sacra, ou que, esperando que o operador fizesse (como previsto) uso de epidural, cheguei à respectiva sala de salto alto e vestido de noite.
Para variar assim, mais vale recorrer a quem de direito. Por exemplo, a Dennis Potter representado pelo grande Michael Gambon, sob a batuta de Jon Amiel (sim, esse que nos trouxe ao imaginário as contorções de Zeta Jones entre feixes de infravermelhos), na versão original do Singing Detective:
VB


Ao vê-lo assim desolado, "Origens" numa mão e Bíblia na outra (direita ou esquerda, sem relevância), medindo-lhes as lombadas e comparando-lhes a textura, destaca-se não o poder dos mecanismos evolutivos sobre a formação das espécies mas o do devir dos tempos sobre a formação de um Actor. No entanto, na obra Inherit the Wind recentemente regressada a Broadway, Christopher Plummer encarna também o vencedor de uma batalha que poderia servir de metáfora à survival of the fittest. Teatralmente falando não exagero: do outro lado da barricada combate Brian Dennehy que, embora representando sublimemente o "àletrismo" bíblico do advogado (de deus?) Matthew Harrison Brady, não sobrevive nem ao seu debilitado e fictício (espero) estado de saúde, nem ao devastador poder de Plummer, no papel do advogado Henry Drummond.
Aos 77 anos, Plummer mostra-nos com quantos alvéolos se faz um par de pulmões, sem envergonhar-se das visíveis "feridas de guerra": o intermitente tremor das mãos, as rugas superficialmente maquiadas, o rubor pré apopléctico ou a mirada distante, à caça do correcto através de um enorme conjunto de memórias. O homem convenceu-me que a avançada idade daquele público de Broadway não resulta da sua fama pelo "Música no Coração" mas da sua mestria como gigante do teatro.
A obra, essa sim produz um desapontamento difícil de definir. Embora vasta no universo de citações (desde de Marx aos Provérbios que aliás lhe dá o título) e rotulada como instrumento de luta contra o McCarthyismo, Inherit the Wind não nega que uma religião não pode ser senão substituída por outra, abrindo assim uma brecha na declaração de liberdade do pensamento. Por esta aceitação da substituição obrigatória e automática, a obra é causa de decepção. Talvez o ano da sua criação (1955) não permitisse mais "liberdades" do que aquelas manifestando desejo de liberdade? Talvez se trate apenas de uma impressão vã, saída deste teclado convicto de apenas um dos termos da equação? Talvez fosse a arte somente sofrível de todos os outros actores em palco?
Mas a explicação mais acertada pode residir no Presente: o actual engano na definição de progresso reflecte-se na constatação de que todos os debates sobre o Monkey Trial não são ainda "águas passadas". VB