Parto no Domingo para a outra América e é improvável que volte a escrever antes Maio. O Vítor fica a tomar conta disto. Levo uns caderninhos e se depois perceber a minha caligrafia talvez dê para contar, mas não é certo.
O Ciclope, um dicionário satírico condenado a ficar como obra incompleta, é a minha mais longa e fecunda - adoro esta palavra - colaboração com um blogger, o meu amigo Santiago. Santiago de Paris, agora o homem do leme no Conta Natura. Vou começar a publicar as ciclópicas também aqui. Seria preciso descer ao nível de resolução da sílaba para se descobrir quem escreveu o quê e isso dá-me um grande gozo. Com tanto trabalho de grupo na universidade e depois de alguns chefes, tinha ficado com a forte convicção de que não é possível escrever um texto a duas mãos. Afinal é. Aqui fica a última entrada:
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Autópsia (s.f. do gr. auto, próprio + ópsis, visão) Exame de si próprio, mas que em medicina é um acto auxiliado e geralmente tardio. 1. Graves erros etimológicos Embora seja esta a palavra usada para descrever a inspecção e dissecção de um cadáver humano, alopsia, usando a raíz gega állos ("outro; "diferente") é que correctamente significaria: "Ver com os olhos dos outros" 2. Poirot desvenda o passado Na autópsia forense etimologicamente pura o crime é cometido no acto da sua investigação, daqui decorrendo que está resolvido antes de acontecer, mas infelizmente, tal como a cirurgia oftálmica ou a proctoscopia, é impraticável pelo próprio, mesmo com recurso às mais modernas técnicas de imagiologia. Jesus Cristo é o único indivíduo conhecido que a poderia ter realizado logo ao 3º dia, mas as crónicas coevas (ver Actos dos Apóstolos em dicionários menos cínicos) indicam apenas que Ele desapareceu quase 6 semanas depois, deixando um mistério ainda hoje mal solucionado. Vinga a tese de que não é adoptada mais vezes por, sendo o culpado simultaneamente vítima e médico legista, o enredo sair enfraquecido, quiçá implausível (sobre a implausibilidade, ver também criacionismo).
Há um tipo de prosa, resultado do cruzamento de um entusiasmo ainda juvenil com o domínio da escrita, a que podemos chamar a hiperbolização do eu (passo a cagança). O registo funciona muito bem na crónica, na stand up e é praticamente inevitável na autobiografia. Mas é um registo perigoso. A vantagem óbvia - autoridade para se falar daquilo que melhor se conhece - e a escapatória - o humor autodepreciativo - só ajudam quem tem realmente muito talento e está menos entretido com o seu ego do que aparenta, caso contrário muito cedo os maneirismos da escrita começam a ser lidos com desconforto. Este comentário era para uma pessoa que comecei a acompanhar na blogosfera e com quem nunca troquei mensagens - não, não és tu - mas não quero aborrecer ninguém e fica assim. Pode ser que também eu me vá lembrando disto mais vezes.
Trata-se de um homem impossível de imaginar sem barba, o que é uma prova de carácter e grandeza. Parece que anda por aí um documentário assinado por ele. Quando a coisa chegar à net ou ao DVD, lembrem-se de me avisar.
Há momentos em que não se consegue chegar às palavras. Podemos vê-las, mas como se espreitássemos pela vigia de um batiscafo afundado e não fosse possível apanhá-las. Só à superfície o anzol funciona, mas não são já as palavras de águas profundas. Convive-se bem com as palavras inalcansáveis. O que custa é não haver a garantia de que um efeito de óptica criado pelo vidro da vigia as corrompeu.
Segundo alguns especialistas, cada época tem o seu e apenas um melhor jogador do mundo de futebol. Podemos discutir se isso resulta das contingências do desporto-rei ou da natureza humana; podemos também perguntar se é verdade que cada época também tem o seu melhor deprimido do mundo. A pergunta parece-me mais interessante, sobretudo se ficarmos por Portugal e pela última década (para não complicar). O último grande deprimido no sentido mediático e comercial do termo foi Pedro Paixão, que conseguiu destacar-se de um pelotão de poetas. Depois veio a blogosfera, esse campo pelado em que a linha de fundo se confunde com o horizonte. A blogosfera complicou tudo. Mostrou que há um capital inesgotável de recursos humanos, mas nenhum olheiro se orienta com tão grande opção de escolha. Eis o polilema da estante de supermercado de país capitalista levado ao extremo: centenas de talentos fazendo os seus malabarismos em público, no anonimato da multidão. Destacar um é praticamente impossível mas a tentação persiste ( o que explica também a exclusividade do título de melhor jogador do mundo de futebol). É por isso que voto no Nuno Costa Santos, sem grandes hesitações. O melhor dos deprimidos públicos tem de conseguir despertar alguma inveja e este critério, quase impossível de cumprir sem se correr o risco da desclassificação por burla, distingue o trigo do joio. O filme de promoção em particular é muito simpático, aqueles sacos de plástico estupidamente iconográficos e não resisto a chamar a vossa atenção para o agradecimento final. Temos ali uma ironia subtil ou então a prova de que o nosso homem conseguiu a performance recorrendo a químicos, o que seria ainda mais meritório (uma das idiossincrasias deste desporto é que o dopping diminui os índices físicos). Em todo o caso, está encontrado o vencedor. Agora é preciso esperar uma geração e entretanto mais vale ir experimentando a felicidade, que sempre é um campo menos concorrido.
Concluo que a minha escolha para a cena de cinema mais hilariante dos últimos 15 anos não é propriamente original, mas o mundo também se divide entre os homens que denunciam os seus gostos - morenas narigudas, en passant - e aqueles que os forjam. No fundo no fundo, eu sou um representante da geração rasca. As versões que aqui apresento são péssimas, como é apanágio do amadorismo sem subsídios.
Versão 1.
Versão 2.
E a cena original.
por Jonathan Rosen
The New Yorker, Fevereiro 12 2007

O que me surpreendeu enormemente na leitura deste resumo das mais recentes biografias de Russel Wallace não foi a clássica e invariavelmente amarga acusação do seu esquecimento histórico nem o modo como para este contribuíram as "demoníacas" maquinações de Charles D. e amigos, apontando a ribalta na direcção que quase todos conhecemos e popularizamos. De scooping e manipulações editoriais estará, de resto, o diabo cansado de ouvir falar.
A queixa acerca da falta de reconhecimento de Wallace pelas fossas colectivas da memória deveria apenas ser chorada por quem é incapaz de distinguir um humano que com sucesso usa a razão para interagir com (e conhecer algo novo da) matéria, de um outro que une e até combina biologia com espiritismo. Por miúdos: a vida de Russel seria o melhor instrumento na luta do movimento renovador cristão evangélico pela vitória do Intelligent Design; esperemos, portanto, que seja prolongado este olvido.
Mesmo a citação de G. K. Chesterton (Wallace was one of the world's great men because he led a revolution and then a counter-revolution) não desperta grande interesse. Primeiro, porque parece ser esta a palavra perenemente usada para recuperar de modo póstumo a credibilidade de uma conduta duvidosa (e até mesmo "antónima"): Revolução. (Depois, porque a derrota de qualquer movimento revolucionário, desde sempre, há-de ter um aspecto de contra revolução. Que mérito haverá no inevitável?)
O que sim provocou-me alguma dilatação nas pupilas foi a descoberta de um certo Samuel Stevens, taxidermista. No tempo de Darwin e Wallace a vulgarização do interesse em história natural criou no Mercado um espaço para descrições científicas, exposições de novos ecossistemas, catalogação de espécimes, colecção de amostras e toda a quinquilharia embalsamada de animais, plantas e membros de muitas tribos indígenas, que preenche ainda hoje os museus e salões vitorianos. O biólogo era portanto um tipo de celebridade e, como tal, requeria um agente. Samuel Stevens era um desses agentes, conseguia contratos para biólogos junto das instituições organizadoras de expedições (pagas pelos estados/impérios interessados). Partiam então os cientistas rumo à aventura, um olho na ciência e outro na fortuna. A desgraça de Wallace ao ver naufragado o barco que o regressava da sua primeira viagem (à Amazónia, em 1848) estava tanto no atraso da formulação de um modelo que lhe traria fama como na negação de uma confortável economia futura.
Estala-se assim o verniz que recobria a romântica imagem dos naturalistas na berra: Darwin, Huxley, Hooker? VB
Depois do caso das caricaturas de Maomé, depois da prisão de David Irving e depois do "congresso negacionista" de Teerão, parece que vai sair agora uma comédia (um filme) sobre Hitler. Para mim a liberdade de expressão deve ser total e não condeno a comédia (aliás, de um suíço). Só não percebo como a personagem, directa ou indirectamente, pode fazer rir (não ri com Chaplin e não conheço Lubitsh). O filme, que se acha "subversivo", apresenta Hitler como um impotente (quase com certeza que sim), um farmacodependente (verdade), um cobarde (mentira) e uma criatura "traumatizada" pela pancadaria que tinha levado do pai (uma tese absurda). Não me parece que nada disto seja divertido e sirva de catarse para o horror nazi. Pior ainda, principalmente para uma comédia, ignora o verdadeiro Hitler. Vasco Pulido Valente, Público, [14 de Janeiro de 2007]
Convém lembrar, a bem do rigor, que comédias inspiradas no Nazismo são mato na segunda metade do século XX. Nos musicais - área que não domino - temos dois clássicos - The Producers e Cabaret- e Herman José no seu O Tal Canal foi fuscar a Hitler os maneirismos do boneco Fabrícius. Creio que haverá outros exemplos. Parece-me pois forçado concluir que uma nova comédia sobre Hitler corresponde a um certo ar do tempo. Também convém lembrar, para salvar já a imagem de Chaplin, que o The Great Dictator é de Outubro de 1940, quando a América ainda não havia entrado na guerra e o brutal extermínio dos judeus não era uma realidade, apesar das perseguições. Por outras palavras, Hitler é hoje ainda mais terrível do que era em 1940. But that's not the point. VPV não compreende que uma personagem como Hitler possa fazer rir. Ora, eu acho graça a este Chaplin (ver vídeo) e nem por isso me sinto estúpido ou acuso problemas de consciência.
Um outro exemplo é Dr. Strangelove. Este filme sobe a parada, porque foi feito depois dos julgamentos de Nuremberga. Pode parecer um paradoxo, mas o que safa Dr. Strangelove é justamente conseguir ser ainda mais engraçado do que Chaplin.
Como resolver este paradoxo? Como tentar defender que quem gosta destes filmes não é um monstro, um idiota ou um ignorante? Em tempos trabalhei com uma judia que fazia piadas sobre judeus e sempre acrescentava no fim, com uma certa malícia: "lembra-te que só eu posso fazer estas piadas". No fundo, aplicava o "princípio Sacha Baren Cohen" (criador de Alig G e Borat), o judeu inglês que se sente legitimado para explorar o anti-semitismo dos seus apanhados. O que estas cenas de dois grandes filmes revelam é outro princípio (as raízes judaicas de Kubrick são aqui irrelevantes), creio que menos primário e mais legítimo. Tudo é passível de ser usado como matéria-prima para o humor, sucede que quanto mais delicado o tema é mais talentoso deve ser o humorista. Esta regra não mata a polémica, pois o sentido de humor não está normalizado e haverá sempre um VPV a resmungar. A regra serve apenas para assegurar alguns mecanismos inibitórios, para deixar claro que a liberdade de expressão também facilita as tristes figuras e que a crítica ao mau humor não deve ser confundida com censura. A regra, de resto, é conhecida por um outro nome mais geral: bom senso.
Sem pretender repetir o grande embate Wikipedia (Inglês) versus Encyclopaedia Britannica que a Nature organizou para a área das ciências e em que o resultado foi um empate técnico (logicamente interpretado como uma vitória para a Wiki, a enciclopédia do povo para o povo), resolvi fazer uma pequena comparação. A estratégia é sempre a mesma: pegar num tema que dominamos razoavelmente e ver o qual a qualidade, quantidade e elegância da informação que se encontra. Escolhi a guitarra. Como tenho um fraquinho pela Wikipedia e sei que esta ganha por falta de comparência do adversário em tudo o que é quantidade de informação a menos de uma geração de distância, pareceu-me justo avançar com três nomes de guitarristas-compositores activos no século XIX (ou no princípio do século XX). Como a guitarra não é tema exclusivo ou favorito dos nerds da internet, pareceu-me que também não estaria a viciar o estudo. As minhas sondas foram Fernando Sor, Francisco Tárrega e Agustín Barrios. Nenhum era anglófono, o que aumenta o grau de dificuldade, mas todos são grandes nomes do mundo da guitarra clássica e não preferências de um excêntrico. O resultado é claríssimo. A Wikipedia tem entradas decentes para os três: Fernando Sor, Francisco Tárrega, Agustín Barrios. A Britannica ignora Barrios, dá a entrada "guitar" para Sor e as entradas "guitar" e "Julian Bream" para Francisco Tárrega. Por outras palavras, estes três nomes não são para a Britannica dignos de uma entrada individual e Francisco Tárrega, que escreveu grandes clássicos do repertório guitarrístico aparece como vassalo de Julian Bream, apenas um notável intérprete do instrumento que, não por acaso, era inglês. (continua)
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A diferença entre um escritor eminente e um iminente escritor nem sempre é percebida pelo segundo.
O fim-de-semana ficou marcado pelo golo de Quaresma e por este post de Rogério Casanova.
Absolutamente de acordo quanto à ausência de humor em Everyman, embora o único trecho que encontrei capaz de arrancar um sorriso seja diferente daquele que o Rogério escolheu (não encontro agora o livro e não consigo citar de memória). Um bom complemento ao texto do Rogério é o podcast da Slate sobre o livro, que curiosamente ouvi esta semana durante as rotinas de ginásio. Estou sem força anímica sintetizar a discussão e apetece-me ver um episódio da Hill Street Blues, mas acreditem que vale a pena, mesmo se uma das raparigas tem uma voz insuportável.
As personagens de ficção querem-se complexas. A complexidade assume várias formas. Uma personagem que muda de opinião no decorrer da história, por exemplo, pode ser um sinal de complexidade, quando não é simples aselhice do autor. Mas a complexidade geralmente usa-se como sinónimo de ambiguidade moral. Só assim a personagem imita a vida real. O mais curioso é que na vida real tentamos eliminar a ambiguidade moral. Ou seja, o modelo a imitar é o de uma má personagem de ficção. Como falhamos sempre, não espanta que a realidade ultrapasse a ficção.
Mascarenhas foi a correr digitalizar uma crónica de Vasco Pulido Valente. Há ali labor. Mascarenhas pensa que um elogio de VPV vem com uma mais-valia conferida pelo tom crítico de 99.9% dos textos do cronista. Não tem de ser necessariamente assim. Há muito que se discute se o tom de VPV lhe vem da lucidez ou do estilo. Este elogio pontual a Portas, como um passado elogio excepcional a Clara Pinto Correia, não resolve a contenda. Uma coisa é certa: VPV bem pode tentar rebater a ideia de que quem compra a biografia de Paiva Couceiro está mais interessado no biógrafo do que no biografado, mas sabe que não tem razão. E também a sua crónica parece interessar mais por causa de VPV do que de Paulo Portas. Esclarecidas as regras do espectáculo, não nos devemos espantar com os equívocos de um paquete voluntarioso.
Este post Pedro Lomba descreve uma discussão sobre matérias privadas que decorreu diante de um taxista, cuja presença terá funcionado para enfatizar os pontos de vista e para dar algum conforto. É precisamente isso que faz o blogger praticante do registo intimista: usa o leitor para enfatizar o seu ponto de vista e para desabafar, mas sem lhe reconhecer autoridade para que o interpele. E de onde vem essa autoridade? Do simples facto de ser o leitor a tomar a iniciativa de visitar o blogue. Se o blogger enviasse um email colectivo perderia esse ascendente. O leitor, por aceder de forma gratuita e por sua iniciativa ao blogue, é o verdadeiro taxista. É ele quem cobra uma bandeirada compulsiva (a informação que lê) e por isso perde o direito a ver as suas eventuais perguntas respondidas. A blogosfera não trouxe nada de novo, este esquema reproduz a tensão que existe entre quem se exibe e quem se sente tentado; o primeiro exerce uma pressão passiva e com isso ganha direitos sobre o segundo. Mas sobra um problema: entre o blogger e o seu leitor - sobretudo quando se trata de um amigo - a relação não é tão protocolar como entre o cliente e o taxista.
O jogo dos feios giros tem alguns adeptos. Aqui faz-se alguma pedagogia, explicando-se o que é uma gira gira, uma feia gira e uma feia feia. Identificar um(a) gira(o) gira(o) só serve para efeitos de calibração. Ninguém marca pontos por mostrar fotos da Bellucci ou do - pulha... - Paulo Pires. A(O) feia(o) feia(o) cumpre o mesmo objectivo, mas uma pessoa de bem não abusará dos exemplos. A(O) feia(o) gira(o) diz um pouco mais sobre os gostos de quem escolhe, a sua sofisticação estética, além de ser uma categoria simpática para quem segue o jogo, que não oprime e levanta a possibilidade de que, afinal, mesmo quem passa ao lado dos estereótipos da beleza pode possuir essa qualidade inefável - o sex appeal - que lhe trará idênticos dividendos. É uma ilusão, mas a projecção funciona. Porém, falta aqui a categoria simétrica, a(o) gira(o) feia(o), aquela pessoa que tem tudo nas doses e proporções certas, mas que não funciona como objecto de desejo. Sou um homem com responsabilidades e no MI já não há espaço para este jogos, mas dou um exemplo: Jennifer Aniston. Um exemplo luso polémico? Bárbara Guimarães.
Como tantas, Filadélfia é uma cidade suja. O que não vi com a mesma frequência noutras urbes foram os pobres caminhando pela parte da rua destinada às viaturas. Caminham como se expulsos dos passeios ou esperançosos na fortuita manobra automóvel, candidata a álibi para um suicídio realmente desejado. VB
(Dezembro de 2006)
Cumpriu-se o prognóstico: grande noite, festa brava. Ainda estou em alvoroço e deixo apenas umas breves notas, pinceladas para um fresco adiado.
Lugar e suas gentes Joguei em casa, na minha sala de concertos preferida. Sem a imponência parola - que vem dos candelabros - do Met, sem aquele palco desolador do Carnegie que mais parece um salão de festas por onde passou uma quadrilha de ladrões de quadros, há também um argumento ontogénico que explica este fascínio: as ripinhas de madeira a forrar toda a sala, num aconcheco de bicho-carpinteiro, as colunas de betão armado dos corredores laterais, enfim, a solidez espartana do lugar lembra-me sempre o grande auditório da Gulbenkian, onde há muitos anos e por mão sabedora se operou a transformação de um suburbano embrutecido num quase melómano. Estas coisas ficam.
Gente que a vida tem tratado bem, para ter figurado numa das festas dos filmes do Woody Allen, mas do fim de 70. É desolador levar com tão invertida a pirâmide etária. Parecia que estava a ir à missa. Não me aborrecem os velhos, antes pelo contrário. Nova Iorque tem os velhos mais interessantes e bonitos que conheço; a qualquer altura ainda me posso cruzar com um sobrevivente do Holocausto, o que de resto já aconteceu. Custa-me é não ver gente nova. E não ver mulheres bonitas. Há um rigor quase estatístico na afirmação de que só a Ópera atrai as mulheres atraentes. Também não vi pretos. Centenas de pessoas e nem um único preto, se descontar a simpática empregada que, com a demora necessária, lá me explicou onde era o meu lugar (fiquei num daqueles balcões laterais, dominando o palco e a plateia). Não havendo tempo para discorrer sobre todas as implicações sociológicas desta observação, confesso um certo fascínio por certos fenómenos de exclusão étnica e o meu passatempo preferido no Harlem é ir pela rua e contar o número de pretos até aparecer o primeiro branco. Sobre a exclusão dos pretos do Lincoln Center mais de um século depois de Abraham Lincoln, não há grande mistério: os brancos gostam da música dos pretos mais que estes da música dos brancos (e como não lhes dar razão?) e os bilhetes eram caríssimos.
Cromatismos e ilusões de óptica Vermelhos. Vermelha a face interna do tampo do cravo, vermelhos os vestidos de uma violinista e de uma flautista, intermitentemente vermelhíssima a face do trompetista no Segundo Concerto, que ruborescia com a cadência de um sinal de trânsito. Algumas parecenças: contrabaixo (um jovem Salman Rushdie), cravo (Hernâni Lopes), violino 3 (Pete Sampras), violino 2 (um senhor que se encontra sempre nas mercearias), violoncelo 2 (um John Waters de smoking). Não posso esquecer um interessante fenómeno resultante da observação alternada da segunda flauta e do quarto violino, ela enorme, ele pequeno, mas tornando-se progressivamente mais minúsculo a cada nova comparação com a gigante da flauta. O homem teria sobrado para violinista de Polkas da Raquel Wesh no Fantastic Voyage, se a alternância dos ensembles de instrumentos entre os concertos não os tivesse desemparelhado.
A música. Não ouso escrever sobre a música. Para mim os Brandenburgueses são essencialmente 4 momentos: o trio para dois oboés e fagote do Concerto 1, o tema a passar de instrumento e a adiar a sua resolução pela flauta no Andante do Concerto 2, as duas desbundas de violino no Concerto 4 e o solo de cravo no Concerto 5. Realço a alegria dos músico. Deve dar uma pica tremenda tocar estes concertos, porque a música vem de agrupamentos pequenos (cerca de 10 pessoas, variando de concerto para concerto) e, não havendo propriamente naipes, todos são solistas. Ouvir os 6 concertos de seguida é uma experiência única, porque há variadíssimas combinações de timbres, concertos para cordas (3 e 6), concertos com a inesquecível trompete (2), com oboés (1), com flautas (2, 4, 5) ou em que o cravo não se limita ao baixo-contínuo (5). Confesso não ter percebido a lógica do alinhamento (1,3,2,5,4 e 6), não propriamente por me fazer confusão a desordem. Percebo que se comece pelo primeiro concerto, que é o que tem uma textura de timbres mais rica mas acabar com o sexto é algo frustrante, ou não se tratasse de um concerto para cordas, para mais menos empolgante que o segundo. Aliás, o segundo concerto é o que mais ganha ao vivo por comparação com as gravações, pois o tema corre os viololinos e as violas numa hola acústica que resulta muito bem no palco. Dito isto, quem realmente sabe explica, e eu remato com as impressões sobre os meus quatro momentos:
Momento 1.A primeira peça de música que ouvi lendo a partitura foi este trio para dois oboés e fagote. O oboé produz o som mais bonito sobre a terra (e os céus), mais bonito que o barulho de um penalti do adversário à trave e que os sussurros de amor. Curiosamente, quem reina no trio é o fagote, que faz uma linha de baixo deliciosa e dirige os outros dois instrumentos. E se numa gravação perto de dois oboés um fagote é um elefante entre gazelas, ao vivo torna-se muito mais gracioso; nenhum outro músico dança com o seu instrumento como o fagotista. O trio teria sido suficiente para pagar o bilhete.
Momento 2 Um curto motivo passeia pelo violino, o oboé e a flauta, juntam-se vozes subalternas, o tempo é lento, os instrumentos expressivos, mas instala-se uma certa ansiedade e não há forma de a melodia resolver. Chega a ser algo torturante. Na verdade, é logo ao minuto 1 e segundo 13 que a flauta dá a estocada final, só que parece demorar uma eternidade. Como explicar isto? Há muita arte e mistério em quem consegue aumentar o tempo psicológico dos momentos bons. Por isso sempre invejei o flautista no preciso instante em que conclui o tema. O tipo de ontem percebeu a importância do que fazia. Teria sido dramático se a passagem lhe saísse mal.
Momento 3 O solo de cravo no Allegro do concerto 5 é um dos grandes momentos da música ocidental. Não surpreende que impressione tanto, visto ter sido escrito precisamente para esse fim (a ideia era exibir o cravo que Bach havia comprado em Berlim). Mas o facto de os Brandenburgueses terem ficado tanto tempo esquecidos e serem hoje tão populares traz ao solo uma dimensão quase trágica. Porque entretanto o piano tornou-se um instrumento de referência. O piano, cujo nome original era pianoforte, foi inventado em parte para satisfazer o desejo de expandir as possibilidades de dinâmica de instrumentos de teclado incapazes de produzir sons fortes, como o cravo, sem os transformar em órgãos (cujo chinfrim era habitual à época de Bach). Ora, o que se percebe neste solo é precisamente isso: uma enorme necessidade de tocar mais alto, de crescer mais. É nesta luta inglória contra o instrumento que reside o segredo do arrebatamento que o concerto 5 provoca*. E só se pode pedir do solista que toque como se estivesse na iminência de desconjuntar o cravo. Que não tenha receio de o partir. Que seja um Pete Townshend superlativo e use aquela ridícula violência pós-climática, com que o palerma destruía belas guitarras, para escavacar o cravo durante a performance. Não foi o que aconteceu. Salvou-se um cravo, adiou-se a História.
Momento 4 As duas entradas de violino no concerto 4 parece que não são arrancadas de uma partitura, resultando antes de um rasgo de improvisação, como se um deputado começasse aos berros durante um sóbrio debate parlamentar (algo nesta imagem não funciona). Há nelas um virtuosismo que não pode morar nas semicolcheias da pauta, é preciso o duende do flamenco. A violinista Ida Kavafian (foto) foi de um fervor incompatível com o vestido de lantejoulas e o porte de mãe de 3. Eu diria mesmo- se preferirmos uma imagem à Eduardo Nogueira Pinto - que fustigou o violino com a violência de uma esposa assídua de quermesses quando vergasta o marido em insuspeitadas rotinas sadomasoquistas.
*A luta é mesmo "inglória" porque - como P. oportunamente relembra-" tanto faz tocar forte ou menos forte: o cravo não tem variabilidade dinâmica. Podes usar dois teclados ao mesmo tempo, e criar um "forte" artificial, mas tocar com mais força não faz - como no piano - com que o som fique mais ou menos forte". Isto, como se percebe, apenas reforça o meu argumento.
Esta facilidade de uma mulher, de um certo nível cultural (? ou que, na sua cagança, assim o julgue) flartar ou ir para a cama com um tipo afamado, de quem ouviu falar pelo menos repetidas vezes verdades ou mentiras ou leu e admirava, releva de um certo folclorismo. Turismo de almas, irrequieto e frívolo. Vaidade em conhecer e acompanhar o bicho, saber-se que, interesse humano para confronto com o escriba, aprender com ele alguma coisa se também tem pretensões de literata (e quase todas têm; agora, até a Ção quer publicar um livro de poemas, raio!); depois, a fama de libertino que só com a publicação de O libertino de Braga se complicou bastante - e pode, em muitas, despertar repugnância (conto com isso; é idêntica ao desdém que dedico às fressureiras, coitadas!) - atrai. Etc. Terei que me resignar a dar com mais tipas ou casos destes a não ser que mude de zona (para o Minho, o Minho!) e fale com desconhecidas de mim. Que venham a mim só pelo m/ olhar magnético...
Mas ainda há um mas. Com as bas[caracter ilegível]bleu ou admiradoras babosas (isto acontecerá a todo o tipo de algum renome) o mais eficaz é ir-lhes logo para cima e passar à frente. Não criar complicações sentimentais; elas são coleccionadoras de trabalhos de vedetas? como as mais tolinhas de autógrafos? dê-se-lhes só isso e só isso. Luiz Pacheco, Exercícios de Estilo
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A diferença entre um escritor eminente e um iminente escritor nem sempre é percebida pelo segundo.
Letters from Iwo Jima e Flags of Our Fathers são filmes supostamente reconciliadores e eu confirmo que havia duas japonesas na sala a chorar convulsivamente - quase escrevia "compulsivamente" - no final do primeiro, mas não são filmes corajosos. Os gestos magnânimos estão sempre do lado dos vencedores e qualquer filme entre Japoneses e Americanos sobre a Segunda Grande Guerra Mundial que não aborde Hiroshima ou Nagasáqui não pode ser um filme corajoso.
Letters from Iwo Jima é uma história de guerra banal, que ganha seguramente à filmografia para efeitos de propaganda e recrutamento, mas perde para os clássicos da catarse do Vietname (The Deer Hunter e Full Metal Jacket, por exemplo). Pode talvez emparelhar-se com Saving Private Ryan na composição das personagens com uma pitada de complexidade, sem exagerar na decomposição da - hum - natureza humana. Adormeci a ver este filme, fui vê-lo uma segunda vez e quase adormecia de novo. Há algo de soporífero no segundo quarto de Letters from Iwo Jima. Depois começa a guerra e as metralhadoras já não deixam ninguém dormir, o que denota algum respeito por quem compra o bilhete ($11+$11=$22).
Flags of Our Fathers é uma história revoltantemente fraca. Ao fim de 15 minutos percebemos que estamos perante os conflitos internos e de consciência de um grupo de soldados promovidos e vendidos como heróis por um feito de mérito duvidoso. É de aplaudir a subtileza e ironia de tratar de um não-trauma de guerra, de uma falsificação menor - Paths of Glory trata de uma falsificação maior -, mas não chega. O filme desbobina sem que aconteça alguma coisa que não se pudesse antecipar. Não é uma história feita pela ausência de acontecimentos, como o recente Jarhead. Flags é simplesmente um filme aborrecido e é um mistério não me ter posto a dormir também.
Os últimos 4 filmes de Easwood que vi foram experiências frustrantes: Mystic River (falha como thriller e tem um final estapafúrdio), Million Dollar Baby (violinos) e agora o épico do inimigo ( Letters from Iwo Jima, is ) e o anti-épico (Flags of Our Fathers, ). Continuo a preferir Bird, Unforgiven e, sobre todos os que conheço, A Perfect World. Falta ver The Bridges of Madison County e outros mais obscuros, mas esta excitação crescente pelo realizador Eastwood, que pode até ser coisa de homem, passa-me ao lado.
Adenda: "A tua critica ao Clint is very misleading to those who don't know you. Dependendo da hora e do que jantaste, poderias adormecer ao lado do amplificador num concerto do Sepultura or during sex with Monica Belluci." De um leitor devidamente identificado.
"Scooped" é uma palavra que se usa muito na minha área. Somos "scooped" quando alguém publica o trabalho que andávamos a fazer, condenando-nos - havendo sorte - às catacumbas do mundo das revistas científicas. Isto acontece e não é agradável. Mas também se abusa do termo. Há uma estranha forma de auto-promoção que passa por dizer que fomos "scooped" quando na verdade estávamos a milhas de acabar o trabalho. Um tipo lembra-se no banho de fazer uma experiência, fica dois anos sem mexer uma palha, um dia abre uma revista, vê um artigo baseado nessa ideia e julga-se no direito de se sentir "scooped", comentando até com um colega: "eu teria feito melhor". Pois.
O ridículo tem limites, mas não necessariamente na blogosfera. Só por isso digo que fui "scooped". Aprendo que alguém vai publicar um romance com o título "O homem que queria ser Lindbergh". Lindbergh, o meu herói de infância, o simpatizante nazi, alguém sobre quem sempre quis escrever. Perde-se um projecto, ganha-se um livro para ler a partir de Maio. O autor chama-se João Lopes Marques. Um sacana.

Contar uma história do fim para o princípio levanta uma série de problemas, por se saber como acaba e pela dificuldade que é manter um fluxo narrativo contínuo. É possível ir de Z a A aos soluços, isto é, de X a Z primeiro, depois de V a X, de U a V, e assim sucessivamente, até se chegar ao segmento que vai de A a B. Cada episódio acaba por ser relatado de uma forma convencional, como no filme Memento. Uma alternativa mais ousada é a rebobinagem, que acaba por criar uma outra história e até uma outra realidade. O difícil aqui é evitar o ridículo, sobretudo quando se aplica este modelo de uma forma literal. A um Benny Hill talvez tivesse servido, mas é pouco apelativo acompanhar as acções de um homem que parece sorver o vomitado do chão. Deve ter sido para testar os seus próprios limites que Martin Amis acabou por tentar um exercício destes no livro Time's Arrow, mas mesmo ele, um virtuoso da narrativa, viu-se obrigado a fazer algumas cedências e o resultado final é algo caricato. O livro conta a história de um criminoso de guerra nazi e Amis inverteu totalmente a sequência de eventos, criando uma série de situações insólitas, só que poupou os diálogos, invertendo a ordem das entradas mas deixando-as foneticamente inteligíveis, isto é, a personagem recebe dinheiro do taxista ao entrar no veículo, mas agradece normalmente e não solta um "uoy knaht". Talvez não fosse possível fazer de outro modo, para benefício do leitor.
Vem isto a propósito de um anúncio da televisão britânica à marca Guinness[clique na imagem]. A ideia é brilhante: três amigos estão num bar e acabam de experimentar com inegável prazer um gole da cerveja Guinness. O tempo então pára e depois começa a andar para trás, mas muito para trás. E assim acompanhamos, de um modo vertiginoso, o percurso evolutivo destes três camaradas, de Homo sapiens sapiens a menos sapiens, depois a símio e por aí fora, retrocedendo glaciações e passando por um cometa pelo cometa que terá ensombrado a Terra no Cretácico, até os vermos como peixes pulmonados à beira de uma poça, bebendo um trago de água lamacenta e soltando um som de desconsolo. Good things come to those who wait, é o remate. Nada contra. Aliás, a Guinness é uma das minhas cervejas preferidas e uma refeição aceitável. Chapelada para a Guinness, também, por não ter medo de pegar no tema da evolução, coisa que parece pouco corajosa mas só até ficarmos a saber que as empresas americanas não quiseram patrocinar uma recente exposição em Nova Iorque sobre Charles Darwin, por receio de alienar a sua clientela. Aceito também que quando se trata de rebobinar a história da evolução do Homem 400 milhões de anos num produto de cultura popular é inevitável não fazer cedências, para benefício do leigo. O tempo precisa de ser acelerado e não se podem evitar alguns atalhos nas transições entre espécies. O certo é que aquele percurso evolutivo não vai recuando nos antepassados comuns (C, Z, Y, X), mas sim passando de um modo grosseiro pelos parentes sucessivamente mais afastados (C, B, A, D). O resultado é um hino à evolução assente em preconceitos de criacionista.VMB
Só recordo três episódios de claustrofobia. O primeiro parece-me agora inteiramente justificado: encontrava-me numa passagem estreita a uns 15 metros de profundidade, entre duas pessoas, numa das grutas da Serra da Arrábida. O segundo, logo na altura percebi ser coisa pouco máscula: estava sentado perto da janela num voo New York-Lisboa e tinha dois matulões por perto, nomeadamente um que extravasava o espaço que o bilhete lhe garantia. O terceiro foi o mais curioso: na plateia de uma sala de teatro durante a peça Journey's End, que relata a vida nas trincheiras de um grupo de soldados ingleses durante a Primeira Guerra Mundial. Não era só o cenário que transmitia uma sensação de clausura; as cadeiras e as filas de cadeiras, demasiado próximas naquele teatro (fica o aviso), deixaram-me numa compacta multidão de velhinhos prostrados. Sair dali era coisa para Houdini.
Exceptuando o segundo caso, em que o problema era de fácil resolução e mais por preguiça que desespero fingi estar em desarranjo intestinal e pedi para trocar de lugar com o passageiro da coxia, consegui que ninguém tivesse reparado, na gruta como entre os velhinhos. Houve um momento em que quase perdi o domínio da situação, mas depois, guiado pela razão, consegui acalmar-me. Duas discretas vitórias, como se a sensação de claustrofobia desenhasse um arco, na parte ascendente dependendo não sei bem do quê e na parte descendente dependendo só de mim. Duas lições: quando perante outras situações de aperto, em vez do preceituado pensamento positivo talvez seja mais inspirador pensar na sensação de claustrofobia. Chacun son truc...
Um brilho nos olhos é ainda um brilho nos olhos, mesmo se alimentado a néones, certo? É que do outro brilho nos olhos, o brilho que durou a tarde toda, não sobrou nada. E tinha sido um brilho tão intenso... Um brilho de demente, admito, uma daquelas expressões de exoftalmia clinicamente descritas, se esquecermos o pormenor da luz a deslizar pelo cristalino aguçado. Brilhar agora à custa do néon, procurando ali o conforto que o crepúsculo não dava, parecia uma forma pouco nobre de acabar o dia. Reparei a seguir no porto-riquenho que limpava o chão com uma daquelas vassouras largas que não varrem, empurram. Julguei ter visto a minha senha perdida no monte de talões que se acumulavam e avançavam como a babugem de uma onda na praia, mas tive vergonha de me ajoelhar para vasculhar no lixo. E os $10 000 lá foram, entre os copos de plástico, os papéis amarrotados e alguns cabelos de etnia incerta. Ou então foi apenas uma impressão. Tinha sido uma tarde de ilusões.
Chegámos cedo. Th. repetia-me "We must find a system. If you have a system you can´t lose." Th. sempre foi assim, um concentrado de ironia, perfeito a misturar optimismo e fatalismo. Tínhamos encontro marcado com S., um matemático. Th. continuava, entusiasmado: " Juntos temos mais de 10 anos de estudos doutorais... Dois biólogos e um matemático... Nós tratamos de avaliar os cavalos e o S. calcula as probabilidades. Entendes de cavalos, não? Só pode funcionar. We have a system, my friend. We can´t lose".
Há na manhã uma frescura que facilmente se toma por esperança. O corpo descansado, os cabelos molhados, um hálito fresco restaurado a pasta dentífrica e detalhes acidentais, como o contacto com um corrimão de metal ao sol mas ainda frio, tudo contribui para um estado de optimismo. Raras vezes passa do meio-dia, mas ainda não eram nove quando o ascensorista nos levou até ao último andar. Demos com um restaurante em socalcos, com janelas enormes que mostravam a pista oval de terra batida. Comia-se em família ou entre amigos. A probição de fumar preservava o ar e os perfumes e fazia do lugar um aquário de água limpa. Nos guichets a aposta mínima de $50 foi motivo para a primeira troca de olhares com Th., em jeito de quem pensa mas não diz: "somos um erro de casting". Um tipo enorme que tresandava a riqueza e crime miúdo passou por nós com ar altivo e quase escondemos as mochilas, envergonhados. Foi então que percebemos que tínhamos subido demasiado alto e lá fomos descendo sem elevador nem ascensorista, descendo, descendo até ao piso térreo, onde escasseavam os brancos e os que havia tinham mau aspecto. Pretos, hispânicos, white trash e a aposta mínima de $5 contribuíram para que nos sentíssemos em casa. O lugar tinha ainda o encanto de um oásis de pecado. Nova Iorque era uma cidade higienizada, mas ali, a uma hora de comboio de Manhattan, fumava-se e bebia-se a sério, dentro de portas e ao ar livre. Tínhamos álcool, fumo e jogo; só faltavam as mulheres. Corrijo: S. irrompeu da multidão cheio de mulheres, mas era um daqueles grupos impenetráveis como uma formação tartaruga de legionários romanos. Todos se conheciam há muitos anos, falavam com os seus códigos, vinham aos pares ou faziam referências constantes a amigos e namorados ausentes. Muito ao seu estilo, Th. apressou-se a resumir a situação: "prefiro perder meu dinheiro nos cavalos". Em rigor, Th. referia-se ao meu dinheiro. Apercebendo-me do estado de desolação financeira da carteira dele, propusera-lhe, já imbuído do espírito de jogador, dar-lhe $60 na condição de ter direito a metade dos eventuais lucros que ele viesse a ter. O dinheiro serve para estas coisas e ser estúpido mas magnânimo é uma condição que prezo. Bebemos, bebemos e depois consultámos as tabelas com todas as estatísticas e o histórico dos cavalos naquela e noutras pistas. Decidi-me por dois cavalos do meio da tabela; S., com a Argentina em chagas, apostou em jockeys com nomes alusivos à sua terra e Th., com a sua queda condescendente para a cultura popular, no cavalo Elvis. O empregado do guichet topou que éramos estreantes naquelas andanças, mesmo depois de eu ter praticado a frase com que compraria as minhas apostas (a ideia é transmitir a informação da forma mais condensada que se consiga, pois qualquer palavra a mais denuncia o novato).
A dinâmica das corridas de cavalos é pouco subtil, um longo crescendo do princípio ao fim, que atinge o clímax antes da meta e se sustenta no limite das forças no último terço. Não admira que haja nas bancadas tanta gente com tiques nervosos...
(Continua)

Faz hoje um ano que surgiram na blogosfera dois posts do VMB tocando o tema dos direitos dos animais segundo Martha Nussbaum e Auberon Waugh. Lembro-me bem deles porque vieram encavalitados sobre uma chamada de atenção ao mundo por ocasião do meu aniversário.
Hoje passa a ser tradição o surpreendente vínculo entre a minha idade e a moral do modo como tratamos os bichos. A recorrência desta passa assim a ocupar-me o espaço mental que de outro modo entreter-se-ia com a carga emotiva de testemunhar pela trigésima quinta vez a memória de um nascimento.
Lançado em 1993, o projecto Great Ape (GAP) entra agora numa espécie de crise adolescente. Gary Francione (e outros subscritores originais da declaração dos direitos dos antropóides como nossos "pares") retirou o seu nome do livro e desvia a própria rota em direcção a definições mais abrangentes. Enfim, são os Homo sapiens a tentar decidir quem faz ou não parte da mesma "família moral".
Algo que não entendia muito bem no discurso dos defensores dos animais era a expressão "tratamento inumano". Pensava que por mais caviar, música clássica e paninhos quentes que alguém quisesse aplicar ao próprio cachorro, o tratamento nunca seria realmente "humano" por ser o ser um Canis lupus familiaris. Felizmente, aprendi da filósofa Florence Burgat que a teoria do direito natural moderno (séc. XVII) apoia-se na ideia de que Deus colocou nos seres humanos (e não em qualquer outro animal), como "peça de origem", a propriedade de representar a lei natural. O laicismo do presente apenas reconduz o motivo com o intuito de eliminar Deus da equação: o humano degrada a própria humanidade ao infligir inutilmente a dor sobre outros animais. Parece que dentro da noção dos deveres indirectos, desenvolvida por Kant, cabe este dever do humano para consigo mesmo. "Não farás sofrer os animais inutilmente ou por prazer", portanto.
Eu trabalho com moscas-do-vinagre. Mato milhares desses bichos por semana, disseco-lhes os ovários e destruo-lhes os embriões. Desconheço se (ou quanto) sofrem elas com isto. Tampouco sei ao certo a utilidade da minha investigação, sobretudo por ignorar a quem ou para o quê é ela útil. Ao menos uma certeza existe: gosto do que faço. Portanto, usar os critérios do GAP seria um modo cómodo de justificar o trabalho que me sustenta. Assim, tal como com a pena o filósofo, também eu no laboratório faço (quase inconscientemente) dos animais estas "ficções conceptuais destinadas a delimitar o conjunto dos que não possuem as qualidades necessárias à obtenção de direitos e ao outorgamento de qualquer dignidade". VB
Em casa dos meus avós, no Alentejo, havia um relógio de sol. O relógio estava debaixo de um alpendre e o sol só lhe chegava ao fim da tarde. Como a parede era perpendicular à orientação poente, a luz entrava rasteira mas a sombra quase não nascia. O relógio era o símbolo daquele tempo, das corridas com caracóis, da matança e preparação do porco que demorava dias, das noites sem hora para acordar em que ia buscar os livros dos autores americanos à estante do antigo quarto de um tio, preservado na sua adolescência.

Discutir a Teoria da Evolução (TE) como alternativa à teologia natural, cerca de 150 anos após ter sido proposta por Charles Darwin, é uma frustração. Custa perceber que ainda haja tanta gente com instrução a recusar ou a pretender minar esta teoria por puro preconceito religioso, mais ou menos mascarado. Custa ver a forma como muitos a atacam, citando de forma descontextualizada ou desonesta o que os evolucionistas escrevem. E é revoltante ver que quem marca a agenda para estas discussões na praça pública são os criacionistas (ortodoxos), os praticantes do Intelligent design (ID) e sua Santidade o Papa. Tal pressão mediática deixa os evolucionistas numa situação de aperto. Se ripostam, são vistos como um grupo de ateus em pé de guerra com a religião; se ficam calados, passam por arrogantes. Haja bom senso. Os evolucionistas só pretendem que os deixem trabalhar e divulgar as conclusões a que têm chegado. Afastam-se desta polémica porque, justamente, não lhe querem conferir o estatuto de discussão científica. A razão é muito simples: não há dados empíricos nem foram identificadas falhas lógicas que ponham em causa a TE. O que move os críticos não é o rigor científico.
A TE, especialmente como Darwin a descreveu, é, pela sua simplicidade, uma ideia mais bela do que qualquer mito da criação. É deste gosto pessoal que vem a vontade de escrever sobre Evolução mas, em última análise, a relevância da fruição que cada um retira da TE é nula; Darwin não foi importante por ter escrito dois livros de leitura agradável, controversos e que esmagaram a teologia natural, mas por ter dado à Biologia uma teoria geral, que continua a funcionar.
A ideia de que as espécies evoluem não é de Darwin, mas só com a publicação da sua obra The Origin of Species , em 1859, a sociedade despertou para a polémica. O debate dos debates teve lugar em Oxford, a 30 de Junho de 1860, e opôs T.H. Huxley, que fez a apologia das ideias de Darwin, a Samuel Wilberforce, bispo de Oxford. A acreditar no relato de uma das testemunhas, o bispo argumentou…
…[condenando] a teoria de Darwin como não sendo baseada em princípios filosóficos, mas em especulações infundadas, e negando que Darwin tivesse conseguido mostrar uma vez que fosse a alegada transformação de uma espécie noutra. Mencionou ainda a autoridade dos críticos que se lhe opõem - homens eminentes como Sir B. Brodie e o Prof. Owen -, para concluir, já com grande agitação na sala, que se trata de uma teoria degradante para o homem, assente em invenções e não em factos.
O valor deste comentário não se esgota no contexto histórico, pois não só encerra já todos os argumentos que têm sido repetidos desde então e até hoje pelos críticos de Darwin, como explica o alarido. A Igreja, por recusar ver negada ao homem a sua condição de excepção, e a dificuldade natural do Homem em aceitar o macaco na família, de resto um sentimento bem secular que assenta num dos pecados capitais, fazem aqui uma aliança de conveniência que é a causa última de toda a controvérsia. A TE vista como algo degradante para o homem é ainda um resquício da noção antropocêntrica do Universo, que mesmo depois de atacada a dois tempos, primeiro com Copérnico e depois com Darwin, continua a resistir em bastiões e a afiar uns aríetes. Um dos bastiões: a Igreja Católica, cujas fortificações a cada declaração do Papa em serviço parecem recuar no terreno o que ganham em altura. Um dos aríetes: o movimento criacionista, que inclui uma forma particularmente sofisticada, o Intelligent Design (ID). A TE nunca seria alvo de ataques se excluísse o Homem do seu universo de estudo. No fundo, os críticos mais fervorosos estão menos preocupados com o valor da TE e justeza das suas extrapolações do que com a protecção do estatuto do Homem. Um criacionista informado tenderia em teoria para uma posição irredutível à Alfred Wallace, que ao contrário de Darwin defendia para o Homem um estatuto de excepção. Desinformado ou então ciente da insustentabilidade da posição de Wallace, o criacionista decide atacar a própria TE, de uma forma amadora, com argumentos facilmente rebatíveis e particularmente embaraçosos para quem os formula, ou mais sofisticada, com ideias que não enriquecem a discussão sobre a TE, mas exigem algum cuidado e trabalho na resposta.
Para esta batalha são também convocados argumentos meritórios, embora idealmente o contexto devesse ser outro. Uma das críticas incide sobre os “princípios filosóficos” da TE e tem, ainda hoje, um inegável interesse histórico. Até que ponto a TE cumpre os critérios actuais que definem uma teoria científica?
Noutra discussão, que se relaciona com a primeira, haverá lugar para avaliar se a TE tal como Darwin a formulou no seu longo argumento estava bem fundamentada, que outras contribuições foram feitas a seguir, e de que forma validaram as ideias de Darwin e redefiniram a polémicas internas à TE (por outras palavras, em que trabalham os evolucionistas contemporâneos?).
O ID aceita a microevolução; não contesta, por exemplo, que o aparecimento de bactérias resistentes a antibióticos siga os princípios darwinianos de diversidade, hereditariedade e selecção natural. O trunfo do ID, em curiosa sintonia com o actual Papa, é a macroevolução, a tal transformação de uma espécie noutra que Samuel Wilberforce referia já em 1860. Darwin serviria então para explicar os micróbios, mas não como se chega de uma rã a um carneiro (perdoe-se a simplificação). Será este o ponto de partida para discutir alguns dos princípios do ID, como a complexidade irredutível e a complexidade específica, bem como a natureza profundamente anti-científica deste movimento.
O último tópico mencionado por Wilberforce é o dos argumentos de autoridade. Importa o que se diz e como se diz, não quem diz. T.H. Huxley lembrou que "todo o avanço nas ciências naturais passa pela rejeição dos argumentos de autoridade". Esta é uma regra basilar da ciência. Não é por não se ter formação ou currículo de cientista que alguém fica proibido de provar que Einstein ou Darwin estavam errados. Nem de escrever disparates, acrescente-se. Infelizmente, nesta polémica os argumentos de autoridade são abundantes, inclusive na sua forma mais perversa, que é a apropriação indevida. Simplificando: uma táctica recorrente entre os criacionistas é a citação descontextualizada, em que se procura transformar os cientistas em aliados à força. Aos cientistas, por outro lado, é apontado o desprezo pelos adversários, mas perante o grau de ignorância de alguns criacionistas ortodoxos a única alternativa seria a condescendência. Sem grandes surpresas, do argumento de autoridade ao ataque ad hominem é um passo. O debate entre Huxley e Wilberforce, nos seus aspectos mais picarescos, é disso um bom exemplo e o calor da discussão não abrandou entretanto. Richard Dawkins é tido em certos meios como uma espécie de encarnação de Lúcifer.
Há ainda dois elementos, omissos do comentário de Wilberfoce, que são essenciais para se explicar as razões desta polémica. A TE tem qualquer coisa de ovo de Colombo. T.H. Huxley, que produziu em vida um cardápio de citações, ilustrou-o muito bem quando, ao tomar contacto com as ideias de Darwin, exclamou: “como pude ser tão estúpido e não ter pensado eu nisto antes!" Se houve aqui um elogio implícito a uma ideia manifestamente luminosa, também se percebe que a rapidez com que se julga apreender a TE dá azo a grandes equívocos. Comparada com outras teorias em que o formalismo matemático e/ou previsões muito pouco intuitivas (a teoria da relatividade e a mecânica quântica, por exemplo) as deixam a salvo do assalto dos leigos, pela simplicidade dos seus postulados e linguagem corrente com que foi inicialmente descrita a TE fica à mercê de todos.
Por último, o sucesso da TE, a forma como influenciou algumas políticas e chegou a outras disciplinas, explica também alguns dos atritos. O darwinismo social trouxe-lhe má fama por arrastamento e a explosão da sociobiologia nos anos 70 provocou reacções corporativistas entre antropólogos e sociólogos. Slogans grosseiros como "a sobrevivência dos mais aptos" e as sempre apetitosas alusões à selecção sexual conquistaram a linguagem popular e as publicações de divulgação de ciência. A noção de adaptação e o mecanismo de selecção natural passaram a ser usados ad nauseum, da simples blague aos algoritmos genéticos, passando pela teoria da literatura, a memética e a psicologia evolutiva, entre muitas outras áreas, como o tal "canivete suíço conceptual" (esta citação não é de T.H. Huxley mas do meu amigo Rui Martinho), dando alguma razão a quem vê a selecção natural mais como um programa metafísico de investigação do que uma teoria científica. Importa mapear todos estes desenvolvimentos, mas sem esquecer a definição e o objecto de estudo originais. VMB
O Cabinet, um blogue de nome amaricado e que ninguém lia, deixa de existir. O MI passa a acumular posts sobre ciência e a contar para essa empreitada com a participação especial de Vítor Barbosa, drosofilista e cidadão do mundo, homem com passagens efectivas e/ou afectivas por Barcelos, Brasil, Porto, Itália, Oeiras, Dundee, Cambridge (UK), México, Midtown de Manhattan e Cuba. Perto dele sou um provinciano. A criatura ainda arranjou tempo para se casar com uma mulher linda, esperta e que o atura, inclusive no seu larguíssimo espectro e baixíssimo limiar de excitação para actrizes do eixo Hollywood-Sundance-Cannes-Veneza-Fantas (este último entra mais por bairrismo do que por tara necrófila). Tudo isto é motivo de admiração e até de algum espanto. Imagino que a curiosidade da rapaziada que aqui chegou seja outra, mas a única foto que estou autorizado a revelar é a do Vítor. Habituem-se.
Nota: o Cabinet, com a minha meia dúzia de posts e os 345 comentários de Jónatas Machado, implodirá ainda esta semana. Sinto-me um kamizaze ao serviço do Evolucionismo. Baaaaaanzzzzaiiiiiiiiiiiiii!
Cada quarto tem a sua paisagem sonora. Os sons da rua. Privilegia-se o silêncio, mas um quarto demasiado silencioso não chegou a existir. Foram os pardais (Olivais), os alarmes e as buzinas dos carros (Lumiar), o burburinho do Periphérique, primeiro, depois as vozes dos loucos do hospital psiquiátrico vizinho (creio que as inventei, na verdade), por fim o trânsito normal de uma rua normal e a Gymnopedie n 1 de Satie, tocada incessantemente pela vizinha do andar de cima e que agora desperta violentas rememorações, nenhuma particularmente nostálgica (Paris). Aqui em Nova Iorque é o apito dos camiões em marcha à rectaguarda, vozes bêbadas nas noites de Sexta e as sirenes das ambulâncias. Se me concentro, ainda oiço o aquário, um som de cascata que vem da sala, um kitsch acústico que dizem induzir alguma tranquilidade. Dizem o mesmo da Gymnopédie n 1, de resto, como se o contexto não bastasse para até Beethoven se transformar numa tortura.
Ver cinema em condições sem sair de casa era um sonho antigo, recentemente concretizado com a compra de um projector, colunas a preceito e amplificador. Não entro em detalhes técnicos. Há uma parede branca, sem quadros, que faz de écran. Há também um futon cheio de almofadas onde nos instalamos. Confesso com algum embaraço que tenho adormecido várias vezes diante de obras primas. Há alguns ajustamentos óbvios: não ver três filmes de enfiada, por exemplo, sobretudo quando se começa à meia noite, nem anteceder a sessão de uma jantarada substancial. Mas desconfio também que o excesso de conforto do futon não ajuda nada. E ao pensar nisto lembrei-me de um dos meus heróis de estimação, Charles Lindbergh, o primeiro homem a voar sobrevoar o oceano Atlântico. Conta-se que a sua preocupação em não adormecer enquanto pilotava era tão grande que escolheu a cadeira menos confortável que conseguiu encontrar. Se o desconforto serviu a Lindbergh, talvez seja essa a solução para prolongar a vigília cinéfila. De resto, o antigo Éden, com as suas cadeiras sem estofos, aplicou de forma involuntária o mesmo princípio.
As paredes de uma casa alugada são menos importantes que a pele do corpo. Deixamos a casa e escamamos da pele, mas a tatuagem - da gótica à buarquiana - não desaparece quando a pele escama e o que fizemos às paredes de uma casa que se abandona não fica, nem connosco nem com ninguém, desaparecendo nas duas demãos de tinta branca que os mexicanos passarão sem olhar aos acabamentos finais antes que se instale o novo inquilino. Se se faz tábua rasa de uma casa, a casa não tem assim tanta importância. Mais um prego, mais uma prateleira, que importa isso? Um certo desprezo por uma casa alugada não deve ser confundido com falta de amor-próprio. O tecto da sala acumula pequenas rachas que parecem varizes? As paredes da cozinha perderam o branco imaculado? O chão de ladrilhos falsos tem os cantos encaracolados? Há azulejos para voltar a colocar na parede, retirados há meses para consertar um cano? É deixá-los ficar. É deixar tudo ficar, ser testemunha da decadência física do lugar. Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade, escreveu Ruy Belo, mas a casa deixa de nos interessar quando desaparece o interesse pela intimidade que proporciona. Eu, senhor do meu destino e o senhorio do destino da pilha de azulejos da casa de banho. Toda a caução tem a sua margem de manobra.

Ricardo Chibanga
Tudo rodopia em torno de um cartaz de touradas, não sei se pelo vermelho tauromáquico, o negro do touro ou o sorriso de Ricardo Chibanga. A impossibilidade física de edificar uma vila a partir de um cartaz desaparece dentro da cabeça. No fundo, trata-se de uma reconstrução que tem muito de restauro. Imagine-se no cinema. O cartaz aparece a voar, depois a rebolar amarrotado pelos montados, até parar num descampado com a certeza dos pioneiros, porque pressentiu a frescura de um riacho ou uma futura concentração de caminhos. O cartaz abre então como uma flor e fica a pairar à altura dos olhos, a pedir parede. E logo surge a parede, depois a casa que a justifica, a rua, dez ruas, o reservatório de água, mais ruas, antenas de televisão, a câmara municipal ao cimo da avenida que ainda não nasceu. O sorriso de Chibanga na canícula das três da tarde de Agosto é radioso, vence o branco incandescente da cal e permanece como o centro geométrico da vila, que alastra em todas as direcções. O desabafo do médico da vila-"Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel"- ecoa ainda, primeiro ampliado pela ignorância de quem levou muitos anos a entender tais palavras, e depois renovado, não em eco, antes como se o médico se tivesse cruzado comigo outra vez, ainda com o jornal debaixo do braço e a umas dezenas de metros do café: "Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel". Não fora pelo médico e Ourique podia ser uma vila de surdos, rica apenas nos sons dos animais: o latido do cão, o guincho final do porco a estilhaçar o frio de Dezembro, o chilreio das ninhadas das andorinhas nos beirais. O tempo passava e Chibanga, curtido pelo Verão e ensopado pelas chuvas, parecia agarrar-se ao cartaz com a tenacidade dos náufragos numa jangada à deriva. Mas a vila morreu aos poucos: primeiro os avós, depois a romãzeira, a pocilga sem porcos, a casa a acumular varizes, a distância que não parou de crescer. A morte de Chibanga está ainda envolta em algum mistério: teria sido uma criança a descolar o último farrapo de cartaz? Teria sido o desleixado dono da casa, quando ao fim de vinte anos voltou a caiar as paredes? Ou terão colado um cartaz por cima a publicitar algo alheio à planície (o circo Cardinalle)? Nunca mais voltei a passar naquela rua. Às vezes penso que Chibanga não teve um final inglório. Imagino o matador a morrer de pé, no momento em que a parede ruiu e não me apetece ir ver se tenho razão.
Uma história simples, para S.
Notre Dame, Paris
Depois da batalha, o alívio e a tristeza reinavam na taberna. A vitória sabia demasiado a sangue para que o vinho jorrasse em abundância. Bebia-se, mas em tragos lentos e as velas pareciam ainda mais ténues do que era costume.
- Eles vão voltar. Conseguimos rechaçá-los hoje, mas vão voltar pela manhã - era Afonso quem falava, um plebeu que ganhara autoridade pelo desempenho no combate, do qual os senhores dos feudos tinham desertado. Afonso expulsara os infiéis do telhado da igreja, último bastião dos aldeões, reorganizara os homens e com eles perseguira os inimigos pelas ruas até os deixar fora de muros.
Homens e mulheres ouviam-no agora desanimados e adormecidos pelo cansaço, preparando-se para o inevitável. Para lá da planície, recortando-se no contorno da colina, tinham avistado dez silhuetas de mouros para cada um deles. Afonso procurava o alento que também lhe faltava mas o silêncio voltou a tomar conta de todos. Passara-se minutos até que alguém irrompe pela porta com grande estrondo, a fazer lançar a mão às espadas.
- Desapareceram três gárgulas!
-Que dizes, homem ? ! Caíram ao chão com as pedras que os infiéis lançaram? - era de novo Afonso, lançando um olhar repreendedor ao aldeão esbaforido.
-Não, Afonso... Não estão no chão, ao pé da igreja. É como se tivessem fugido com a noite - Afonso sentia a sua gente em alvoroço e sabia que devia falar bem alto.
-Que disparate. Bebeste demais ou é o medo que te faz ter visões. Regressa a casa e descansa, que vais precisar de forças amanhã.
Sem demora, do fundo da taberna e quase na penumbra, alguém pareceu querer reacender a discussão:
- Cumpriu-se a profecia...- todos os rostos se voltaram então para o ancião e Afonso não falou.
-Há muitos anos atrás, ainda o avô do meu avô era apenas uma criança e a igreja acabava de ser feita, passou pela aldeia um homem, misto de adivinho e vendilhão, que, olhando para as gárgulas esculpidas no granito, disse: " quando escorrer sangue por estas pedras, de noite elas vão ganhar vida e libertar-se da parede e regressar no dia seguinte com a alma do sangue que por elas escorreu ". Cumpriu-se a profecia...
- Que mais disse o homem?- alguém perguntou.
-Mais nada. Não era pessoa bem-vinda e convidaram-no a partir.
Afonso ganhou o centro da taberna e disse :
- Virão pois pela manhã, para nos atacar?
- Não me ouviste com atenção, Afonso. Tudo depende do sangue que por elas escorreu. - Uma vaga de murmúrios encheu a taberna pela taberna. Afonso então gritou :
- Ide-vos todos. Há guarda para render e muito que descansar - para rematar, já mais calmo - E tu, velho, pouco nos ajudas com essas histórias. Vai-te daqui e fica em tua casa. Se não podes com o peso de uma espada de pouco nos serves agora. Lentamente, a taberna ficou vazia. Afonso teve ainda tempo de chamar a si um dos seus homens mais valentes e de lhe perguntar quantos dos seus tinham morrido no telhado da igreja.
- Morreram 5, Afonso.
- E quantos deles?
- Contei 7. Por que perguntas, Afonso?
Tocando-lhe no ombro, ele disse apenas :
- Lutaste bem. Conto contigo amanhã. Podes ir dormir.
A noite estava fria e a lua cheia. Não havia nuvens no céu. Alguns homens juntavam-se na praça e confirmavam o desaparecimento das gárgulas, como que arrancadas da parede por uma mão gigantesca. A chegada de Afonso dispersou o ajuntamento e ele demorou-se algum tempo por ali, contemplando a igreja. Procurou lembrar-se das gárgulas que ali estavam antes mas só deu pela falta de um cão aterrador. Olhou então para o carvalho centenário que dominava a praça, com os ramos mais altos tão finos que seria impossível trepá-los, desenhados a negro pela lua. Deles pendia um estandarte rasgado, que para ali voara durante a batalha. Era um estandarte cristão, que uma brisa por momentos agitou. Afonso viu ali um bom augúrio mas logo sacudiu tal ideia e apressou-se a refugiar-se num dos torreões da muralha, onde crepitava um fogo acolhedor. Poucas luzes havia agora na aldeia e os que não faziam guarda tentavam dormir. Todos menos uma rapariga, de nome Leonor, inconformada com a morte do seu amado na batalha e consumindo-se em choro e tristeza. Se fechava os olhos era ele que via, um corpo quase decapitado, empapado de sangue e rasgado de feridas. Por isso ali estava, de olhos bem abertos, aliviando-se com imagens passadas. Via-o de sorriso radioso, ao pé do ribeiro onde tantas vezes iam. Lembrava-se de como ele podia ser criança, nos sonhos e nos gestos, de como ficava a olhar os pássaros e os invejava por não poder voar. " Se pudesse voar, seria tão feliz ". " Levavas-me contigo? " - perguntava ela. E ele : " Ora, os homens não podem voar. Não digas tolices " Então dava-lhe um beijo e depois fazia a cabeça cair para a esquerda, para a direita, para a esquerda outra vez, muitas vezes, até ela se fartar e desatarem ambos a rir e a rebolar na relva. Leonor perdeu-se nestas recordações até ao amanhecer, antes de ceder ao cansaço e por fim fechar os olhos. O Sol começava então a despontar e Afonso chamou todos os homens. Apressaram-se a armar a catapulta, mas alguém deu conta de que apenas tinham uma pedra mais para lançar.
- Deixem-na armada, sempre serve para intimidar...
- Quando atacarão eles, Afonso?
- Como queres que saiba? Não sou adivinho...- Não terminara de dizer estas palavras quando, de pontos cardeais distintos da planície ergueram-se 3 figuras gigantes, estátuas de pedra animadas, correndo em direcção à aldeia. Afonso conserva lucidez suficiente para mandar chamar o ancião. E foi devagar, pela mão de um dos homens, que o velho sobiu as escadas que conduziam à muralha,. Já próximo de Afonso, desembainhou uma frágil adaga e disse :
- Vês como te podes enganar, meu bravo Afonso. Com esta lâmina ainda vou trespassar muitos mouros- remantando a provocação com um riso miudinho.
-Não há tempo para brincadeiras, velho. Já viste o que corre pela planície?
O velho, sem mesmo olhar, respondeu-lhe sem hesitar:
- Ora, rapaz, são as 3 gárgulas que desapareceram, como te falara...
- Como podemos vencê-las?- pela primeira vez, Afonso revelava alguma aflição.
- O fogo e o ferro nada podem contra a pedra. Só podes vencer a pedra com a pedra. Sobram-te muitas?
-Apenas uma.
- Então dá-lhe bom uso...
Homens mulheres e crianças estavam agora todos na muralha. Aquela visão tinha tanto de aterrador como de fantástico e o povo deixara-se por instantes embevecer pelo espanto, antes de o pânico se instalar. Só o ancião se mantinha calmo.
- Lembra-te, Afonso, que nem todas as gárgulas são más. Atingir a gárgula boa por engano pode ser a nossa perdição, pois só uma gárgula pode vencer outra gárgula.
- Vou apontar a catapulta ao cão, que parece ser o mais feroz. Nem o unicórnio nem o touro têm um ar agressivo - e logo Afonso deu ordem ao seu homem mais certeiro para executar a tarefa. A norte, o cão estava já a poucas dezenas de metros da muralha e dava passadas tão amplas que parecia poder transpô-la sem a menor hesitação. Mostrava-se feroz, com a fileira de dentes à mostra e músculos a brotar do granito. Mais distantes estavam o unicórnio, a Sul, e o touro, a Poente. A catapulta acumulava agora uma tensão brutal e a madeira, percorrida pelas forças invisíveis, rangia de impaciência. O alinhamento era perfeito e o homem, de mãos na alavanca, apenas esperava o sinal de Afonso. Este não tardou a baixar o braço. Porém, antes que a pedra pudesse partir, um corpo frágil mas veloz atingiu homem e catapulta, ao mesmo tempo que cortava o ar com um “não!” cavernoso... A pedra sempre partiu, mas com a trajectória irremediavelmente comprometida. Não chegou sequer a rasar o cão. O bicho estava então na iminência de galgar a muralha, mas Afonso não pôde evitar dirigir a sua ira a quem perturbara a manobra. Dos escombros, dorida, levantou-se então Leonor...
-Senhor, não faça mal ao cão, pois nele vive o meu amor...
-Que dizes, mulher ?
-O cão fez, ainda ao longe, os mesmos acenos de cabeça que...
Leonor não teve tempo de terminar. O cão estava agora sobre a muralha e espalhava terror. Ignorando os aldeões, dirigiu-se à ala Poente. Aí esperou a investida do touro, que embateu com violência contra a muralha, abrindo uma brecha por onde um carro de bois poderia passar. Mas antes de poder entrar, tinha já o cão a morder-lhe o cachaço. A luta foi feroz e as lascas de pedra saltavam como estilhaços e faziam faíscas. Porém, minutos depois, jazia o touro por terra, partido em dois pedaços que eram agora granito inerte, em tudo idêntico a outras pedras, não fosse pelo fio de sangue que se perdia pelo chão, já o cão seguia desenfreado, ainda que coxo, para a muralha Sul, ao encontro do unicórnio. Aí a luta foi ainda mais brutal, com o unicórnio a arrancar um lombo de pedra do dorso do cão, logo no primeiro embate. Só após um corpo a corpo que parecia não ter fim, ganhou o cão ascendente para desferir uma dentada mortal, que o deixou sem dentes a ele e sem vida ao opositor, agora simples estátua equestre sem cavaleiro, derrubada e empapando o solo de sangue. Da muralha, os aldeões tinham seguido os fantásticos confrontos com fervor e gritos de incitamento ao cão, então já plenamente convencidos de que tinham na gárgula mais feroz o seu único aliado. Corria agora como podia o animal, coxo, desdentado e exausto, em direcção à colina, onde espreitavam os infiéis. Estes ainda armaram os arcos, mas fugiram sem disparar uma única flecha, mal a distância encurtou e os fez ver o gigante de pedra, pleno de rachas e ainda mais ameaçador que antes. A batida em retirada dos inimigos fez com que os aldeões saíssem para a planície, numa explosão de alegria. Rodearam o cão de pedra e as crianças e as mulheres foram os primeiros a afagar o granito. O animal repousava sobre um dos lados, a respiração era cada vez mais espaçada, os olhos pediam descanso. As brechas começavam a abrir devagar, cedendo ao peso das partes. Desfazia-se assim o bicho em bocados, sem soltar um latido sequer, perante o olhar desconsolado de todos. Foi Leonor quem então se aproximou, abraçando-se à cabeça do cão. Murmurava algo muito baixinho, mas ia ouvindo o que à sua volta diziam. Soube que o seu amor combatera no telhado da igreja e que aí tinha morrido. Soube da profecia e ouviu as palavras elogiosas de Afonso ao ancião. É nesse instante que a cabeça do animal se separa definitivamente do corpo e do granito nasce um fio de sangue. Sem hesitar, Leonor faz das mãos a concha que recolhe o sangue e como se escutasse uma voz distante depressa se ergue, corre para a aldeia, sobe ao telhado da igreja e, não dando tempo a que o coágulo se formasse, faz escorrer o sangue pela goteira de uma gárgula.
Naquela noite houve festa. Alguém reparou que mais uma gárgula desaparecera. Leonor não festejou, mas apressou-se a adormecer, sem medos, ansiando pela manhã seguinte. Com a alvorada, subiu Leonor à muralha. Olhou o céu incessantemente durante horas mas só viu pardais e estorninhos. Foi com desânimo que desceu os olhos à terra. Só então reparou que tinha ao seu lado, quase imóvel, como se de pedra apenas se tratasse, uma águia colossal. Logo a abraçou e o granito pareceu-lhe morno como carne. Atravessando a aldeia onde bichos de pedra já não causavam surpresa, Leonor e a águia caminharam até ao ribeiro. " Se voasses, levavas-me contigo ? ... Que desgraça, meu amor, pensei que te faria feliz dando-te asas, mas esqueci-me que com asas de pedra não podes voar. Perdoas-me? ". A rapariga não se cansava de falar com a águia, que não lhe podia responder. De noite trouxe-lhe água e comida, que deixou à entrada de sua casa, onde a rapina pernoitou, pois tamanha envergadura não passava pela porta. Quando, na manhã seguinte, de novo se encontram, Afonso, que retomara o ofício de ferreiro e por ali passava, não pôde deixar de reparar...
-Bom dia Leonor. Ora esta, ia jurar que o estandarte que a nossa águia tem ao pescoço é o mesmo que voou para cima do carvalho- e olhando para a árvore- pois é, já lá não está. A verdade é que não soprou sequer uma brisa esta noite. Curioso... – E fez-se de novo Afonso ao caminho.
Os olhos de Leonor estavam já cheios de brilho. Percebendo tudo, agarrou-se ao estandarte com força, acariciou a águia e segredou-lhe algo ao ouvido. Então abriram-se as asas e os dois voaram.
Fotografia: Araantonak, 2006.
Lê-se na tabuleta: “PRIVATE PROPERTY. Hunting, fishing, trapping or trespassing for any purpose is strictly forbidden. Violators will be prosecuted.” Noutras circunstâncias, o incidente teria passado despercebido. Quantos adolescentes não estarão neste preciso instante a vandalizar casas de subúrbios abastados pelo simples gozo da transgressão, de tocar com a palma da mão no fundo de uma piscina, como quem espeta uma bandeira? Sucede que Holden Caulfield não era um adolescente e cumpria um plano detalhado. Sem álibi e sem demência, a sua honra ficou presa por um fio e o fio era o próprio nome.
Nascido numa cidadezinha da Nova Inglaterra, em 1974, não se sabe o que passou pela cabeça dos pais no momento de escolher o nome. Talvez a ignorância os desculpe: eram, como agora, gente humilde e de poucas leituras além da Bíblia. Também revelaria fervor persecutório assacar hoje responsabilidades a quem soube do nome antes do seu registo oficial, admitindo que a alguém se lhe avivou a memória. Quanto ao pároco, consta que só em plena cerimónia de baptismo se lembrou dos desabafos de uma das beatas da congregação sobre a cena do rapaz de 16 anos no quarto com uma prostituta. Talvez por julgar que quem leva o paramento vestido não deve sequer pensar em tal assunto, quanto mais discuti-lo, terá feito um sinal da cruz com a mão, encadeado com um movimento brusco do braço, encadeado com um movimento brusco do braço. E assim, como quem enxota uma mosca, se pôs em marcha um destino. Em rigor, para excluirmos a hipótese de uma fantástica coincidência, seria preciso enumerar os Holden Caulfield que andam por aí à solta, o que não seria difícil, e apurar se levam vidas normais, tarefa mais complicada. Sem ter folheado a lista telefónica, arrisco dizer que não existe outro. Sei-me refém da falácia da análise a posteriori, mas são várias as forças que nos EUA afastarão da órbita da normalidade alguém chamado “Holden Caulfield”.
É provável que Holden tenha crescido sem percalços de maior. Em todo o caso, a sua vida só lhe começou a fugir em Dezembro de 1980, no dia em que John Lennon foi assassinado. Recordemos: o criminoso, depois de disparar cinco tiros sobre o músico à porta de sua casa, sentou-se tranquilamente no lancil do passeio a ler o The Catcher in The Rye, de J.D. Salinger. A cópia do livro tinha uma inscrição manuscrita: “To Holden Caulfield from Holden Caulfield”, um sinal de que este desequilibrado mental se identificava com a personagem do romance. Alegadamente, Lennon fora morto por se ter deixado corromper pelo sistema, transformando-se num “phony”. O crime teve ampla cobertura mediática e os nomes de Salinger e Caulfield foram ouvidos como nunca, ainda que nenhum deles houvesse caído no esquecimento, longe disso. À época, o Catcher era vendido às 200 000 cópias por ano nos EUA, apesar de a primeira edição ser de 1951. E Salinger, fruto da sua intransigente reclusão e das obras que publicara vinte anos antes, conservava o estatuto de figura de culto. Só que a tragédia de Lennon daria ao livro uma dimensão quase maldita. Como se não bastasse, menos de 4 meses depois deste incidente, um outro demente, desta vez para impressionar Jodie Foster, tentou assassinar o presidente Reagan. Num dos bolsos, levava uma cópia do Catcher, maltratada pelo uso. A rematar esta série negra, em 1989, encontrou-se o mesmo livro entre os pertences do homem que mataria uma jovem actriz de televisão. Os anos oitenta não foram fáceis para o jovem Holden Caulfield.
Menos por iniciativa dos seus amigos do que dos pais destes, o rapaz começou a ser pouco apreciado. Não o votaram ostensivamente ao ostracismo, mas abriu-se caminho para uma existência solitária, interrompida por provocações pontuais, tão frequentes e repetidas que Holden foi construindo uma imagem precisa do seu homónimo pelos reparos que lhe faziam. Ficou a saber como ele usava o boné de basebol porque no dia em que resolveu pôr para trás a pala do seu, alguém lhe perguntou: “Não te chegava teres o mesmo nome?” Foi o suficiente para que, no futuro, desenvolvesse o reflexo condicionado de rodar a pala para a frente sempre que o apresentavam a alguém, num gesto curioso que desiludia os mais velhos, por instantes convencidos de que ele descobriria a cabeça. Esta era apenas uma das muitas idiossincrasias condicionadas de Holden. Todos sonhavam ficar altos e alguns até o pediam nas orações, menos ele, que estremecia quando um dos rapazes do bairro voltava espigado do campo de férias, porque sabia que, aos 16 anos, o outro Holden media mais de 1.85 m. E o seu hábito de fumar às escondidas não era sentido como transgressão e vício naturais, antes lhe pesando na consciência como mais uma aproximação incontrolável à personagem da ficção, que passa o livro a acender cigarros. Qualquer informação sobre o outro Holden punha em marcha uma sucessão de eventos que os aproximava. A consciência do paralelo parecia reforçá-lo, como se Holden estivesse sob efeito de uma força misteriosa, um tropismo de homonímia.
Por volta dos 14 anos, Holden desenvolvera uma relação estranha com o Catcher. Passeava-se com um exemplar do livro, mas era incapaz de avançar além da primeira página, que decorara e recitava a sós: “If you really want to hear about it, the first thing you´ll probably want to know is where I was born, and what my lousy childhood was like, and how my parents were occupied and all before they had me, and all that David Copperfield kind of crap, but I don´t feel like going into it, if you want to know the truth...”. Estava também a par da história, sabia que se tratava das desventuras de um miúdo de 16 anos, narradas na primeira pessoa, com uma capacidade de observação apurada, descrença e cinismo, mostrando-nos um duplo náufrago, num espaço – Nova Iorque – e num tempo próprio – a adolescência. Holden conhecia todos os episódios. Ganhara estima pelas freiras que encontrava na rua, e logo raiva, só porque o outro Holden as descreve com especial ternura. Mas o que conhecia era por dedução ou por prosa interposta. Temia, embora não o quisesse admitir, vir a ser possuído pelo livro se avançasse na leitura, quando era evidente que o livro já o dominava. Não terá reparado que, no hábito de se deslocar para todo o lado com o Catcher num dos bolsos, assemelhava-se aos criminosos que o marcaram.
O Catcher é a obra emblemática de Jerome David Salinger, uma figura de culto e o exemplo máximo do escritor recluso. Nascido a 1919, no seio de uma família nova-iorquina da classe média alta, viveu a infância e adolescência em Nova Iorque e arredores, abandonou os estudos universitários, esteve na Europa em 1937, fez nova passagem fugaz por outro College e frequentou um curso de escrita criativa em 1939, o que lhe deu menos os rudimentos da arte do que os contactos necessários para começar a publicar. Os seus contos não demoraram a ser notados, ao ponto de a prestigiosa New Yorker aceitar uma história sua para publicação em 1941. A história, Slight Rebellion off Madison, marca o nascimento literário de Holden Caulfield, mas não para o grande público. O ataque japonês a Pearl Harbor arrastaria os EUA para a Segunda Grande Guerra, adiando a publicação dos caprichos de um adolescente revoltado de um bairro fino. A personagem autobiográfica – como Holden – e o seu autor são um pouco como gémeos siameses. Têm uma convivência sobreposta e só quando separados pelo bisturi da escrita pode cada um ir à sua vida. Enquanto Holden se entediava na penumbra de uma gaveta dos escritórios da New Yorker, Salinger vivia o dia D, o desembarque nas praias da Normandia, e meses passados em França a contar pesadas baixadas entre os parceiros da Quarta Divisão. Regressado aos EUA, vê finalmente a sua história publicada na New Yorker. O fascínio de Salinger por Holden é evidente, pois a personagem voltará a aparecer noutras histórias ao longo da década de 40. O Catcher, publicado em 1951, recicla e expande alguns desses relatos e fará de Salinger um escritor célebre. Já nos anos 50, diz-se que em consequência da quebra de um acordo de cavalheiros, começam a ser notórios a intolerância e o desprezo do escritor pelo mundo editorial, comportamento que dura até hoje. O escritor deixaria de publicar em 1964, embora já antes houvesse começado a ausentar-se do mundo, ao proibir notas biográficas e fotografias suas nas edições dos seus livros. Sobre as causas profundas da decisão de Salinger, as opiniões dividem-se, havendo umas mais conspiratórias ou cínicas – incapacidade de lidar com a crítica? Truque publicitário? – e outras mais psicanalíticas, com referências à infância, aos traumas da Guerra, aos fantasmas sexuais “and all that kind of crap, but I don´t feel like going into it, if you want to know the truth”.
Interessa mais recuar a 1992, quando o jovem Holden Caulfield, regressado da Guerra do Golfo, vê uma fotografia de Salinger publicada num jornal. O escritor mudara anos antes para New Hampshire e fora já alvo das investidas de alguns paparazzi, mas era a primeira vez que o surpreendiam. A foto mostra um Salinger acossado, visivelmente incomodado, e é uma imagem poderosa, hipnótica quase, apesar da comiseração que também inspira. Para Holden foi um choque. Os crimes mediáticos dos anos oitenta já tinham ido na enxurrada da actualidade noticiosa, pairando apenas entre os aficionados de Salinger, gente que não se encontra ao virar de cada esquina. Holden abandonara o hábito de andar com o Catcher e poucas vezes pensava no livro que, de resto, continuava por ler. Arranjara forma de o tratarem por “H.C.” ou apenas “H.” A própria maioridade terá sido o melhor dissuasor para os reparos jocosos ou de simples surpresa que antes surgiam quando alguém associava o seu nome ao Catcher. Fizera-se, pois, homem com o trauma do seu nome atenuado. Só que nessa noite a imagem de Salinger parecia não o querer abandonar e ele viu-se tentado a abrir o Catcher, com a urgência de quem quer acalmar um remorso reavivado e a curiosidade de quem responde a um chamamento. Procurou então a sua velha cópia, de cantos quebrados e lombada pelas costuras. E de manhã ainda estava agarrado ao livro.
O Catcher é um romance sem resolução, com um final anticlimático, mesmo se o relato na primeira pessoa de uma experiência passada assegura o leitor de que nenhuma tragédia irreversível sucederá ao narrador antes do fim. Uma obsessão começou, nesta altura, a tomar conta de Holden. A obra de Salinger não oferece pistas quanto ao destino do Holden ficcional, antes pelo contrário. No conto This Sandwich Has No Mayonnaise, o irmão de Holden informa-nos que ele foi umas das baixas americanas da Segunda Grande Guerra. Mas seria impossível que, em 1949, o adolescente Holden tivesse participado na Segunda Grande Guerra, que terminou em 1945, como é improvável que andasse a deambular por Nova Iorque uns anos depois de ter morrido no Pacífico, mesmo sendo do conhecimento de todos que esta cidade tem o seu quinhão de excêntricos. Holden teve assim uma morte literária literalmente prematura que se explica sem dificuldade: o conjunto da ficção de Salinger sobre a família Caulfield forma um todo anacrónico e em que a mesma personagem pode trocar de nome. Ora, para Holden, o Holden genuíno era o de o Catcher. O que lhe teria acontecido, afinal? “O que acontecerá que lhe aconteceu?”, terá talvez brincado. Em 1992, o Holden do livro teria 59 anos e ele, 20.
Foi apenas há uns meses que escapou para as páginas da imprensa um depoimento de Holden Caulfield feito às autoridades americanas. O que se sabe dele e aqui se contou vem exclusivamente desse documento, mas os últimos dez anos são um mistério. Parece que, aos poucos, a ideia de descobrir a história da sua personagem o foi dominando, ao ponto de perder o emprego e abandonar os estudos a que regressara depois da Guerra, bem como de quase cortar relações com a família e com os amigos por nenhuma razão aparente. Não sabemos como chegou perto da casa de Salinger, apenas que por lá deixou dedadas. “Nunca pretendi assustá-lo, nem sequer falar com ele. Queria apenas encontrar o manuscrito, trazê-lo comigo para o ler e devolvê-lo mais tarde.” É verdade que Salinger afirma não ter visto Holden Caulfield. O escritor acrescentou depois que este novo Caulfield de que lhe falavam parecia ser uma personagem de ficção e que, como sucedia há mais de 40 anos com o Holden que criou, também não o interessava. Holden expressou outra opinião: “Quem inventa Holden Caulfield não o pode abandonar. Não tem essa opção. Eu nunca acreditei que Salinger se tivesse desinteressado dele. Salinger queria apenas que o deixassem em paz e mentiu. Vocês não viram o que eu vi”. Fez depois uma detalhadíssima descrição do estúdio de Salinger e das resmas de folhas dactilografadas que estavam cuidadosamente arrumadas nos favos amplos de um móvel a toda a altura de uma das paredes. “Demorei tempo a encontrá-lo. Há muitos textos sobre os Glass [uma outra família do universo ficcional de Salinger], mas por fim dei com o Holden e antes de fugir certifiquei-me de que tinha a história completa, lendo as últimas páginas na diagonal”. Ao todo, Holden terá estado umas duas horas no estúdio de Salinger, uma espécie de bunker afastado da casa principal. As breves declarações do escritor confirmam que naquele dia só saiu de casa depois de almoço, altura em que deu com o estúdio vasculhado e chamou a polícia. O que Salinger não confirmou foi se Holden lhe levou ou não um manuscrito. Não soube responder e quando interrogado especificamente sobre Holden, Salinger percebeu mal e foi como se repescasse um comentário seu numa das raras entrevistas que deu nos anos 70: “Read the book. It´s all in the book. There´s no more to Holden Caulfield. Over and over... I´ve just let it all go. I don´t know about Holden anymore”.
Não tendo sido dado como provado que levara algo da casa de Salinger, em pouco tempo Holden se viu livre das autoridades. What Took You So Long? (A Longa Espera, na tradução que agora se apresenta) surgiu meses depois, publicado por uma pequena editora e sem trabalho de promoção prévio. J.D. Salinger surge como o autor e, na versão original, o livro tem uma decoração espartana e nenhuma informação adicional sobre o escritor ou a obra, tal como as outras edições dos livros de Salinger. Depressa o livro foi notado pela crítica literária e pela imprensa, não demorando a esgotar. Desde então, têm sido publicadas novas edições. Salinger não fez qualquer declaração pública sobre o livro (ou sobre o que quer que fosse) após a sua publicação, o que só aumentou a especulação sobre a verdadeira autoria da presente obra. Há quem veja no seu silêncio uma legitimação do livro visto que, no passado, lutou com vigor contra uma publicação pirata de contos seus da juventude. Mas há também quem pense que, aos 87 anos, está apenas cansado, deixando que alguém aproveite o putativo roubo de sua casa para explorar o seu nome, uma acusação que os editores refutam, lembrando que Salinger receberá aquilo a que tem direito. E não faltam inclusive os especialistas do costume, que vêem Holden e Salinger como cúmplices num esquema arquitectado para assegurar a divulgação de um livro efectivamente de Salinger, mas num contexto que deixaria o escritor com a opção de rejeitar a autoria caso as críticas fossem negativas ou o sucesso comercial ficasse aquém do esperado. A hipótese, dizem, ganha algum peso dada a dificuldade de Salinger em lidar com a crítica e o hiato de mais de quarenta anos entre a publicação deste livro e a da anterior obra do escritor. Chegam depois ao ponto de sugerir que Salinger criou ambos os Holden, o que é da ordem do disparate. O certo é que a polémica cresceu e até psicólogos foram chamados à televisão. Como nada se pode esperar de Salinger e dos seus supostos editores, a chave deste mistério está com Holden Caulfield, que entretanto deixou os EUA e foi visto pela última vez no México. Ao contrário do Holden ficcional e invertendo a ordem natural da coisas, dir-se-ia que o Holden de carne e osso concretizou o plano de se evadir da sua vida, deixando-nos reféns de um mistério.
Se o interesse de A Longa Espera se esgota na rocambolesca história da sua autoria, a decisão pertence, em última instância, ao leitor, que se pode sentir incomodado com esta incerteza ou, pelo contrário, deixar-se seduzir pela oportunidade rara de ler uma obra cuja autoria é apenas uma probabilidade, com tudo o que isso traz de libertador. Sobre o livro, adiante-se somente que, ao escolher a narrativa na terceira pessoa, o autor parece ter tido algum pudor em entrar de novo na cabeça de um Holden Caulfield trinta anos mais velho. Persistem alguns dos vícios de linguagem do jovem Holden, entretanto filtrados pelo tempo e temperados por uma existência que foi cedendo à lei da gravitação social, fazendo dele o burguês previsível. Há em A Longa Espera uma tensão latente, uma espécie de energia potencial elástica que se acumulou em quem tanto se foi vergando e que faz deste livro uma obra potencialmente menos desencantada e mais explosiva do que o contemplativo e submisso Catcher. A pergunta que o livro coloca, e a que responde no fim, é esta: haverá uma solução de compromisso para Holden, uma bissectriz entre a demência e a acomodação que possa funcionar como um caminho para uma existência feliz? Não é certamente questão para fazer deste livro obra de culto entre a gente de meia-idade, até porque o putativo Salinger usa as ferramentas da literatura e deixa de lado a prosa de auto-ajuda e o seu, em tempos tão comentado, misticismo. Esta é a ressurreição possível para Holden e para Salinger, ensombrada pela dúvida e com uma sugestão de intemporalidade e omnisciência, três características próprias das ressurreições, incluindo a canónica.
Seys meses estuuo en la cama Tomas, en los quales se secó y se puso, como suele dezirse, en los huesos, y mostraua tener turbados todos los sentidos. Y aunque le hizieron los remedios possibles, solo le sanaron la enfermedad del cuerpo, pero no de lo del entendimiento, porque quedó sano, y loco de la mas estraña locura que entre las locuras hasta entonces se auia visto. Imaginose el desdichado que era todo hecho de vidrio, y con esta imaginacion, quando alguno se llegaua a el, daua terribles vozes, pidiendo y suplicando con palabras y razones concertadas que no se le acercassen, porque le quebrarian, que real y verdaderamente el no era como los otros hombres, que todo era de vidrio de pies a cabeça.
Para sacarle desta estraña imaginacion, muchos, sin atender a sus vozes y rogatiuas, arremetieron a el y le abraçaron, diziendole que aduirtiesse y mirasse como no se quebraua. Pero lo que se grangeaua en esto era que el pobre se echaua en el suelo dando mil gritos, y luego le tomaua vn desmayo, del qual no boluia en si en quatro horas, y quando boluia, era renouando las plegarias y rogatiuas de que otra vez no le llegassen. Dezia que le hablassen desde lexos y le preguntassen lo que quisiessen, porque a todo les responderia con mas entendimiento, por ser hombre de vidrio y no de carne, que el vidrio, por ser de materia sutil y delicada, obraua por ella el alma con mas promptitud y eficacia que no por la del cuerpo, pesada y terrestre.
(...)
Pidio Tomas le diessen alguna funda donde pusiesse aquel vaso quebradizo de su cuerpo, porque al vestirse algun vestido estrecho, no se quebrasse; y assi le dieron vna ropa parda y vna camisa muy ancha, que el se vistio con mucho tiento y se ciñó con vna cuerda de algodon. No quiso calçarse çapatos en ninguna manera, y el orden que tuuo para que le diessen de comer, sin que a el llegassen, fue poner en la punta de vna vara vna vasera de orinal48, en la qual le ponian alguna cosa de fruta de las que la sazon del tiempo ofrecia. Carne ni pescado, no lo queria; no beuia sino en fuente o en rio, y esto con las manos. Quando andaua por las calles, yua por la mitad dellas, mirando a los tejados, temeroso no le cayesse alguna teja encima y le quebrasse. Los veranos dormia en el campo al cielo abierto, y los inuiernos se metia en algun meson, y en el pajar se enterraua hasta la garganta, diziendo que aquella era la mas propia y mas segura cama que podian tener los hombres de vidrio. Quando tronaua, temblaua como vn azogado y se salia al campo, y no entraua en poblado hasta auer passado la tempestad.
Tuuieronle encerrado sus amigos mucho tiempo; pero viendo que su desgracia passaua adelante, determinaron de condecender con lo que el les pedia, que era le dexassen andar libre, y assi le dexaron, y el salio por la ciudad, causando admiracion y lastima a todos los que le conocian. Cercaronle luego los muchachos; pero el con la vara los detenia, y les rogaua le hablassen apartados, porque no se quebrasse, que, por ser hombre de vidrio, era muy tierno y quebradizo.
Novela del Licenciado Vidriera.
A semelhança entre o bairro que Kieslowski filma e o bairro dos Olivais é enternecedora e cria um efeito curioso: histórias universais no cenário da minha infância e adolescência, mas numa língua que desconheço.
Kieslowski's magnificent Decalogue
God's finger reached down to Mount Sinai and there, before the astonished and terrified eyes of Moses, wrote the Ten Commandments in fiery letters so hot that they dug grooves in a stone tablet. That's the story according to Cecil B. de Mille, the Barnum of Biblical movies, who took his religion literally. In his 1956 version of The Ten Commandments (Charlton Heston as Moses), the writing of the Commandments was a major highlight, not only because it was so graphic but also because the Ten Commandments remain, thousands of years later, embedded in our civilization.
Three decades after de Mille's movie came out, Krzysztof Piesiewicz, a Warsaw civil rights lawyer, said to his friend, Krzysztof Kieslowski, the movie director: "Someone should make a film about the Ten Commandments. You should do it." Kieslowski first considered that a truly terrible idea, but then thought, "Maybe." He and Piesiewicz soon began work. They wrote 10 TV films, one per Commandment, each about an hour, 562 minutes in all. Collectively titled The Decalogue, it may be the best dramatic work ever done specifically for television, and the most impressive religious art produced in any field during recent decades.
The Decalogue took a year to shoot, was broadcast in Poland in 1988-89, then appeared on networks all over the world. Ever since, its reputation has grown. Five book-length critical studies have been written about it (in English, French, Italian, German and Polish), a Danish psychoanalyst has produced a book explaining its Freudian implications, and the scripts have been published in English with an admiring foreword by Stanley Kubrick. The Decalogue is on video and DVD, with English subtitles.
Unlike de Mille, Kieslowski approached his subject obliquely, through stories set in Warsaw in the 1980s. He had all his characters live in one bleak cluster of apartment buildings. ("It's the most beautiful housing estate in Warsaw," he said, "which is why I chose it. It looks pretty awful, so you can imagine what the others are like.") The stories are self-contained, but occasionally a character from one plays a minor role in another. There's also a continuing character who appears only briefly, often at critical moments: He says not one word, but watches the other characters with all-knowing eyes. He's there to add a dimension of mystery. Is he God, or the human conscience, or an angel? Does he represent Kieslowski? We never know for sure.
The Ten Commandments lurk behind the stories, but no one mentions them. Kieslowski said, "The films should be influenced by the individual Commandments to the same degree that the Commandments influence our lives." They are buried, but they are never absent.
In North America, the de Mille film enhanced for a while the media fame of the Commandments. After that, they retreated into Exodus and Deuteronomy, Bible classes, sermons and an occasional joke perpetrated by infidels. (Moses brings good news and bad news down from the mountain: "The good news is, I talked Him down to 10. The bad news is, adultery's still in.")
But the de Mille film and the Kieslowski series are current again because the Commandments themselves have once more become a potent symbol in the secular world. In the United States, a fair-sized movement now advocates improving public morals by hanging the Ten Commandments in public buildings, schools above all. (Both supporters and detractors call the plan "Hang Ten.") The Supreme Court explained in 1980 that the whole idea was unconstitutional, but in the 1990s it made its way through a dozen state legislatures and recently came to Congress as a bill called the Ten Commandments Defense Act of 2002, reflecting the view of its sponsor (an Alabama congressman) that the Commandments need defending against judges and civil libertarians. The same zealots have a plan to put Moses on a postage stamp, holding the Ten Commandments, and to Hell with the Constitution.
Kieslowski (who died in 1996, when he was 54) was an agnostic who had little in common with these earnest campaigners, but he shared their unease about purpose in the lives of individuals. In the 1980s, his world had lost direction and structure. Disillusionment had drained Marxism of its content, and perhaps religion, too, had been emptied of meaning. Individuals had infinite moral choices, but few knew how to use them. Travelling abroad, Kieslowski sensed a similar malaise, embodied in questions for which politics had no answer. "What is the true meaning of life? Why get up in the morning? Politics doesn't answer that."
The stories, while offering no answers, explore the questions. They deal with the themes we expect: murder, adultery, theft, bearing false witness, etc. (The false god that a physicist worships is technology.) The stories are beautifully shaped, the characters credible and attractive. The material isn't solemn but it is substantial. Nothing dissolves in irony. Christopher Garbowski, a Canadian scholar who lives in Poland, pointed out in his book Krzysztof Kieslowski's Decalogue Series (Columbia University Press) that the characters share, above all, a conscious or half-conscious desire to transcend the details of their existence. Their environment isn't exactly universal but it isn't local either. Because he wanted an international audience, Kieslowski ignored the specific daily humiliations and irritations of Polish life in the 1980s, such as queuing for food.
He cast the best actors of Poland and sculpted their faces intimately with lighting that seems dazzling even on second or third viewing. The Decalogue reveals an acting community of wonderful range and depth. In 10 hours, it's hard to find a mediocre performance, impossible to find a bad one.
The films that Kieslowski made for the theatre, while interesting, are less memorable than masterpieces should be. The Decalogue, on the other hand, stayed with me long after my first viewing, both style and content lingering in a corner of my memory. When I watched it again the other day, I discovered it was as remarkable as I had remembered. It could be, as several critics have suggested, the finest work of Kieslowski's too-short career. Perhaps he thought so, too. In his last days, when he had no idea that his heart condition was about to kill him, he was talking about doing something similar, three films on Heaven, Hell and purgatory. Robert Fulford, The National Post, May 14, 2002
Estou com Hitchens quando ele diz que a maternidade não é assunto para brincadeiras. Nos baby showers, a única solução é gozar com o futuro pai. E falo de um gozo pertinente, que evita o confronto com as mulheres tristes - há sempre pelo menos uma - e adia a introspecção, quando contemplo a possibilidade de ser um dos fins na linhagem dos Barretos, tão ameaçada de extinção. A verdade é que o nome não me interessa salvar, nem sequer os genes. Porque a paternidade deve ser também um outro gozo, bastando-se na forma como se constrói (momento Ana Drago). Talvez para prevenir estes estados de alma melancólicos, nunca fico muito tempo nos incessantes baby showers dos trintões, apenas o mínimo necessário, nem invisto a escrever nos cartões de felicitações, deixando insípidas frases protocolares - logo eu, sempre a tentar seduzir pelo dito espirituoso. Na semana passada houve mais uma destas festinhas para dois colegas de laboratório, uma grávida de uma menina e um futuro pai de um rapaz. Metade da mesa estava decorada a azul e a outra metade a cor-de-rosa, o que respeita a tradição mas também a possibilidade de os dois rebentos saírem gay. Confirmei que nunca se bebe nada se jeito nos baby showers e que a própria comida vem infantilizada. Pelo menos nestes encontros as pessoas têm a inibição que não se vê nos casamentos e não me chateiam com insinuações de que o próximo serei eu. Sim, acuso um certo azedume. Continuo a ir sempre que me convidam e admito que haverá num futuro longínquo uma altura em que só os filhos dos outros são engraçados. Mas estes são dias em que os filhos dos outros não têm toda a graça que porventura merecem.
Será que um Steinway & Sons flutua? Esta é a primeira pergunta. A segunda: admitindo que as juntas estão bem calafetadas e que a água não começa a entrar na caixa-de-ressonância pelo teclado, será que veleja? Isto é, será que o tampo, aberto a 45 graus, pode funcionar como uma vela? E sendo assim, que trajectória descreve o piano na água? Podemos pensar que a combinação de três pés afundados faz de quilha? De triplo fin? Ou será que os pés não sabem para onde ir e o piano fica a descrever círculos na água, com a parte mais leve rodando sobre a parte mais pesada? E mesmo este cenário, será que faz sentido pelas leis da física clássica? E seria pedir muito, que tudo se passasse no mar alto, sem terra ou embarcação à vista, e que uma ave qualquer - mas de preferência um improvável albatroz cansado - ao pousar no instrumento tocasse sem querer um acorde de quatro notas brancas com nona aumentada, ficando as membranas interdigitais esticadinhas sobre as pretas, no limite da pressão que ainda as deixa caladas?