setembro 20, 2006

ourique.jpg
Perto de Ourique, Alentejo, circa 1990.

Vou à procura de outras rotinas de escrita. Se não as encontrar, volto. Se as encontrar, reitero o que escrevi nas outras despedidas.

Envelhecer

gauloise203afp.jpgTambém é recentrar o interesse nos velhos prodigiosos e passar a desprezar os meninos-prodígio.

Foto: Charles Aznavour, que deu ontem um concerto no Radio Music City Hall, em Nova Iorque, onde cantou e dançou como se não tivesse 80 anos, a julgar pelos comentários de uma colega, boa rapariga e em quem acreditaria piamente se ela não fosse da Arménia, como os pais do velho Charles.

setembro 19, 2006

Subúrbios

Há um estilo na blogosfera que passa pelo culto do suburbano e que me diz muito pouco. A verdade é que cresci num subúrbio (os Olivais) e hoje acordei com saudades de um subúrbio ainda mais subúrbio, onde ia jogar bilhar russo. Tento reprimir aqui o impulso saudosista, a pulsão nostálgica, enfim, trazer à superfície objectos e afectos da nossa infância comum; trata-se de uma forma algo pornográfica de gerar empatia. Mas uma coisa é evocar a Abelha Maia e outra bem diferente é pensar em Moscavide. Não há subúrbio que não tenha o seu subúrbio.

setembro 18, 2006

Feitio*

Quando percebo que, afinal, a outra pessoa ainda estava com menos vontade de me ver do que eu de a ver a ela, sinto-me enganado. Reforçar depois o desprezo ou o enfado seria fazer batota, o que torna tudo ainda mais penoso. Sem pretender generalizar, não excluo que a misantropia subsista como solução radical para este problema.
* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

Peixes*

Churchill gostava de porcos. Dizia ele que os gatos nos olham de cima, que os cães têm um olhar subserviente e que os porcos nos tratam como iguais, presumo que "olhos nos olhos". Percebe-se a ironia, mas a seguir o argumento até ao fim ganham os peixes. Os peixes simplesmente não olham para nós.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

Blackberry*

É o gadget do momento: cabe no bolso, recebe e envia emails, dá para surfar na internet de todo o lado. Ou seja, um instrumento de tortura. Mas lá para 2014, a julgar pelo ano em que comprei o meu primeiro telemóvel, também eu terei uma.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

Um plano modesto*

Já me conformei com a ideia de morrer sem deixar a minha segunda canção acabada, mas terminar o refrão tornou-se uma questão de honra.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

"Bom na cama"*

Agora oiço isto todos os dias. É uma novidade. Deixa-me até algo embaraçado, mas ultimamente várias minhas amigas entenderam começar fazer alusões vagas à vida sexual que levam com os namorados.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

A coesão social*

Passa também por não conviver com pessoas da mesma idade que ganham mais de dez vezes o nosso salário e não nos parecem particularmente inteligentes ou capazes.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

Sotaque*

Facilita a chegada e a partida das raparigas.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

Pena de morte*

Creio que a congénita é suficiente.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

Super 8*

Não há episódios da minha infância filmados a Super 8, mas tudo o que recordo antes de 1979 surge na cabeça com o grão, os tons e a velocidade das imagens em Super 8.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

Assimptoticamente*

O meu grupo de amigos vai tendendo assimptoticamente para a excentricidade.

* Da série A fazer horas para um jantar com amigos.

Bairro Alto? Então e o Intendente?

Prostitutas, chulos, agarradinhos, passadores, os sem-abrigo, alcoólicos, pobres famintos, bem como chineses, ucranianos, variadíssimos africanos e casais envelhecidos não têm nem tempo para bloga nem banda larga. O plano tecnológico falhou.

setembro 17, 2006

Soprano Talk

Shut the fuck up.

(Alguma das personagens, em algum dos episódios, numa qualquer das séries, o terá dito).

setembro 15, 2006

Orelhinha d'ouro

Carlos do Carmo, claro. O fadista e o nosso Carapinha, que anda há anos a pôr música na blogosfera e ainda não errou um tema.

Citações avulsas do acervo das grandiloquências

Estou com uns anos de atraso.

setembro 14, 2006

Fair play

fag38.gifO Vasco Barreto insiste em apregoar, de forma vaga e não especificada, que eu só digo disparates, o que, pelos vistos, lhe eleva o seu sentimento de autoestima evolucionista e snobismo anti-criacionista. O que os "genes egoístas" não fazem...

Convido-o, diante de todos, a identificar exactamente os disparates que eu terei dito. Terei todo o gosto em esclarecê-lo acerca dos fundamentos das minhas opiniões. Escolha o blog que considerar mais adequado.

Convido-o igualmente a dizer, diante de todos, qual é para si a mais convincente evidência da evolução das espécies a partir de um ancestral comum. Assim poderemos conversar sobre coisas concretas, sem nos limitarmos a generalidades, banalidades e lugares comuns.

Terei todo o gosto em debater este tema consigo e não me importo nada que outros assistam à nossa discussão.

Depois da minha série de provocações, Jónatas Machado propõe um debate de ideias. Devo dizer que revela muito fair play. Creio que será uma discussão entre dois surdos que não dominam a mesma linguagem gestual, mas não posso recusar o desafio. De resto, ao contrário do que pensam vários cientistas meus colegas, o debate público destas matérias pode ser interessante.

Vejo isto como uma partida de xadrez por correspondência. As pedras de Machado estão já distribuídas no tabuleiro (ver 1, 2 e 3 ). Depois de posicionar as minhas, o que implica enunciar algumas generalidades sobre o Intelligent Design e o Darwinismo, bem como rebater certas afirmações de Machado, começaremos o jogo propriamente dito. Mas nem então haverá cronómetro. Creio que um debate pouco urgente como este poderá beneficiar com o tempo investido na preparação das respostas.

Para não desviar o MI dos objectivos que o norteiam, proponho que a discussão tenha lugar no Cabinet, o meu bastião para matérias desta natureza. Sempre que houver prosa fresca, minha ou de Machado, farei uma chamada aqui, já que o Cabinet tem estado moribundo. Machado, um criacionista, será o primeiro colaborador regular do Cabinet, se assim o desejar.

The sky is the limit

O facto de todos envelhecermos e morrermos mostra que o nosso genoma não é perfeito nem completo. O corpo com que Jesus ressuscitou (facto comprovado pelos apóstolos mais cépticos), esse sim, diz a Bíblia, era incorruptível, contendo um genoma perfeito e completo. Jónatas Machado*1, sublinhados meus*2

É reconfortante saber que falamos apenas dos apóstolos mais cépticos. Depois disto, Machado merece uma coluna na imprensa. A manutenção dos níveis de histrionia exige uma renovação do plantel dos cronistas lusos. Eu poria o Espada no banco e faria entrar Jónatas à experiência, pelo menos até ao Natal. César das Neves manteria a titularidade, apesar do desempenho irregular, para facilitar a ambientação de Jónatas à equipa.

*1Retirado da caixa de comentários do Blasfémias. Apresento desde já as minhas desculpas a Jónatas Machado se o texto não for da sua autoria e aproveito também para felicitar o hipotético impostor, pela arte no pastiche.

*2 O Alexandre Andrade topou um problema curioso nas citações que fazemos da prosa de Machado: é difícil destacar uma frase; tudo nos fascina.

Shyamalan reinventado

i_see_dead_people-769472.jpgI see creationists...*

Portugal, Setembro de 2006

O buldogue de Jónatas

Huxley_Thomas.jpgDarwin era um homem recatado, que privilegiava o debate epistolar com especialistas às contendas na arena pública. No calor da discussão sobre a sua teoria da evolução, foi Thomas Henry Huxley quem melhor o defendeu, o que lhe valeu o epíteto de Darwin's bulldog.
Não sei se Jónatas Machado teria escolhido João Miranda para seu cão de guarda, mas Miranda parece ter escolhido Jónatas para seu dono. Ao defender que Machado não é ignorante, Miranda fica com o ónus de defender a seguinte afirmação:

No one has seen the prebiotic soup or life emerging by chance through organic evolution. No one has really seen a dinossaur evolving to become a bird 100 million years ago. No one has really seen inequivocal evidence of evolution in the fossil record, in molecular biology of in present fauna and flora. No one has really seen a mutation or any other evolutionary process increasing the genetic information in the genome. Jónatas Machado.

Boa sorte, João Miranda. Olhe que precisa dela.

Seria obviamente uma honra se também o próprio Machado nos respondesse. Não cheguei a procurar uma foto de Miranda e optei logo por uma de T.H. Huxley. Gostos de um fanático.

setembro 13, 2006

Ontem Jónatas, hoje Matias

O Intelligent design é uma teoria científica que surge fundada em si mesmo e não contra o darwinismo. Nesse sentido é tanto uma desculpa esfarrapada contra o Darwin como o darwinismo uma desculpa esfarrapada contra o Intelligent design. Rogério Matias, in Voz do Deserto.

Rogério Matias, que é provavelmente docente ou discente na Universidade de Coimbra, tenta o costumeiro golpe de retórica. Saltemos airosamente sobre o anacronismo absurdo em que a afirmação de Matias se alicerça. Saltemos também sobre a ignorância de Matias, que obviamente não sabe nada da história do "movimento" Intelligent Design nem do tecido social que o envolve.
Darwin está sob o fogo cerrado dos cientistas desde que publicou as suas obras. Refiro-me a fogo verdadeiro, não às pirotecnias que vamos lendo por aí. É da natureza da ciência que assim seja. A verdade é que a sua teoria resiste, mesmo depois da radical transformação por que passou a Biologia no último século. Que se perceba uma coisa: os críticos mais acérrimos do Darwinismo, aqueles que melhor o conhecem, mais o testaram e alimentam o desejo de o corrigir, são evolucionistas. E aqui, caro Matias, não há equivalência possível, a menos que consiga indicar exemplos de polémica dentro desse clube que, como referiu, com fortuita propriedade, parece fundad[o] em si mesmo.

setembro 11, 2006

The Falling Man

fm07.jpg
Nova Iorque, 9:41:15 AM de 11 de Setembro de 2001.

setembro 10, 2006

Mas não pensem que passei a moço de recados da jovem burguesia lisboeta

De acordo, Eduardo, embora sugira um sistema de troca directa, impossível de saldar com precisão e que por isso que tenderá a perpetuar o intercâmbio, como naquela fabulosa cena entre o Becas e o Egas em que este - ou seria o Becas? - tenta igualar à dentada o tamanho da barra de chocolate de cada um, falhando sempre e acabando por devorar ambas. Divago. Ora toma nota: Diário Íntimo, de Manuel Laranjeira, numa qualquer edição, desde que desprovida de bonecos, qualquer CD do José Peixoto (guitarrista) a solo posterior a 2002, qualquer CD do Camané posterior a 2003, qualquer CD daquele moço que cantava nos Ornatos Violeta, na fase pós-Ornatos. Conto despachar a minha tarefa apenas durante o fim-de-semana, pois vivo numa zona da cidade que não disponibiliza esses artigos subversivos que encomendaste. A morada segue por correio, para me salvaguardar de fãs e credores.

O homem do momento explica

setembro 09, 2006

Primeiras frases a tinta invisível, por favor

Livra-te do São Tomé que te habita e sê feliz. A primeira frase está para o romancista como a energia de activação para a reacção química. E se esta traz alguma ordem ao mundo, aquela corta o ímpeto do aspirante a escritor, o que, por sinal, deve trazer alguma paz aos editores. São frequentes as listagens das frases iniciais dos grandes romances. Dá também jeito decorar algumas, para brilhar entre amigos. Como é que era? Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde... Hum... Bem, e por aí fora. Tenho sobre este assunto uma teoria sem fundamento: é o grande romance que faz a frase e não o contrário. Por outras palavras, há centenas de obras medíocres com primeiras frases brilhantes e frases de abertura sobrevalorizadas por causa do romance. O corolário é óbvio: a primeira frase não interessa, não querendo com isto dizer que a responsabilidade passa para a segunda frase. Digamos que não deveria haver uma primeira frase, ambição que o romance de tipo circular não satisfaz totalmente.
A obsessão com a primeira frase parece atribuir-lhe qualidades premonitórias, mas trata-se sempre de uma apreciação a posteriori. Só assim consigo perceber o fascínio pela frase de abertura de Ana Karenina, de Tolstoi: "Todas as famílias felizes são parecidas umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". Fisicamente desguarnecida do romance e da memória que dele se guarda, eu destruiria em três tempos uma frase que não me parece ter conserto nem com a inversão dos termos. Mas dizê-lo passa por pedantismo e idiotice, tudo por causa do calhamaço. Percebe-se assim que alguns autores, sob tamanha e inútil pressão, caiam tão facilmente no ridículo logo no arranque.
Vem isto a propósito de um hábito recente de pegar em livros nas livrarias de modo pouco criterioso e ler a primeira página. A descoberta de hoje foi um policial talhado para best-seller, escrito por um professor de direito de Yale. Acreditem que abordei o livro despido de preconceitos. Só que logo a abrir, li: There is no mistery to hapiness. [parágrafo].Unhappy men are all alike. Que subtileza e contenção. É verdade que muito pior seria algo como There is no mistery to hapiness. Unhappy men are all alike. Call me Ishmael, mas não cheguei à terceira frase.

PS: havia aqui mais um erro vergonhoso, que o Tiago por clemência ou distracção não assinalou.

Coisas para fazer em Maine quando chove*

Gastei $27 em livros usados. Gosto de livros usados, excluindo aqueles passíveis de funcionar como auxiliar erótico para um indivíduo normal - e o qualificativo é importante, pois ao Tiago Galvão até o mode d'emploi da Moulinex deve servir -, bem como todos os que apresentem notas escritas à margem e sublinhados. Por este crivo esgueirou-se uma bíblia de 1934, a $2.75, entre outros volumes que não divulgarei para não dar ares de falso intelectual, bastando referir que aumentaram a minha biblioteca em cerca de 60 cm lineares. A mania dos incrementos lineares é fálica e falaciosa, mas foi-me ensinada por um mestre bibliófilo e eu vergo-me sempre aos argumentos de autoridade.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta.

Adenda: Galvão reagiu, com elevados índices físicos e tácticos, identificando prontamente dois erros ortográficos meus, entretanto corrigidos. Um erro vergonhoso e uma gralha, que a pressa em igualar o record de Vital explica mas não desculpa.
O nosso saldo de calinadas? 6 a 0 para ti? Surpreende-me a manipulação do resultado, mesmo sabendo de antemão que és nortenho. Em todo o caso, meu caro, eu entrei no jogo para dar uma orientação à tua vida e não à tua ortografia. É algo que encaro como uma missão, no fundo compensando a ausência do irmão mais novo que nunca tive ou do ursinho hoje esquecido num qualquer armário.

Censo pessoal à distância*

Ao fim de 5 anos aqui, o número de amigos que morreram em Lisboa iguala ou anda perto do número de nascimentos entre os meus amigos lisboetas. Parece que para cada doença complicada há uma gravidez sem complicações.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta.

Uma epifania*

Getimage.asp.jpgQuando vi esta imagem da chegada das tropas italianas ao Líbano fez-se luz: Ermenegildo Zegna salvará o Médio-Oriente.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta

As entranhas de Corbusier*

MaisonBresil.jpgParole, parole... Quem pernoitou na Maison du Brésil sabe que não há bundinha capaz de reabilitar tanto betão armado.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta.

Da imensidão da preguiça*

Multiplico-me numa série de inactividades.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta.

Poema sobre o ciclo do tempo, a urgência do Outono e os barquilhos adiados*

O Estio estiolou.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta.

Girls who like girls who like girls who like girls*

Todas saindo do elevador e ignorando-me como se eu fosse mobília desprovida de design. Percebo-te bem.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta.

Da inteligência matutina*

Acordei hoje carregadinho de ideias brilhantes. É o que dá adormecer com a luz acesa e um bom livro tombado sobre o peito.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta.

Vitalismo*

Vital Moreira publicou 10 posts no dia 8 de Setembro de 2006. Uma lição para os mais jovens.

* Da série Faço menos ao Sábado do que Vital à Sexta.

Ainda Coulter

Escrever sobre Ann Coulter só serve para lhe aumentar a conta bancária, mas não resisto a dedicar este vídeo ao Eduardo Nogueira Pinto, que parece ser fã da senhora. Ao leitor ocioso menos familiarizado com a personagem sugiro que veja os outros vídeos de Coulter no You Tube. Nos EUA também existe o complexo da mordaça, tão caro à malta de direita, isto é, a ideia de que os media são sobretudo liberais ou de esquerda. Coulter, nos últimos anos, foi o opinion maker com a ascensão mais meteórica neste país, mas isso não parece ter feito ninguém mudar de ideias. Afinal, desde quando para os neocons os factos deixaram de ter uma importância facultativa?

setembro 08, 2006

"Just 5200 km from Iran"

Como é do conhecimento geral, Freitas do Amaral resolveu o problema dos emigrantes portugueses no Canadá. O vídeo que recomendo serve apenas como memória futura (ver Deportation, da semana de 11 de Abril).

klepsýdra! klepsýdra!

Os evolucionistas interpretam a existência de semelhanças genéticas como evidência de um ancestral comum, ao passo que os criacionistas as interpretam como evidência de um Criador comum. Os evolucionistas interpretam as mutações genéticas e a selecção natural como evidência de evolução. Os criacionistas mostram que as mutações acumuladas, além de não criarem informação genética nova, destroem o genoma. As mutações e a selecção natural operam em informação genética preexistente, estando longe de explicar a origem da vida e a transformação de moléculas em pessoas.
Os criacionistas não confundem variação adaptativa e especiação (que todos podem ver) com evolução (que nunca ninguém viu). Os fósseis e as rochas não trazem inscrita a sua antiguidade. Os evolucionistas datam as rochas e os fósseis de acordo com as premissas naturalistas, evolucionistas e uniformitaristas de que partem, impossíveis de validar quanto ao passado distante. As quantidades de isótopos são medidas no presente por cientistas no presente.
Os criacionistas sugerem que as evidências de decaimento radioactivo acelerado e de catastrofismo nos dados geológicos, a grande quantidade de "fósseis vivos" e a existência de biliões de fósseis nos cinco continentes testemunham a ocorrência de um dilúvio global, descrito na Bíblia e em muitas narrativas da antiguidade. Se milhões de espécies animais tivessem evoluído ao longo de milhões de anos, deveríamos encontrar biliões de fósseis intermédios e não apenas a mão-cheia de exemplos altamente controversos (v.g. Archaeopteryx) com que nos deparamos.
Os criacionistas também estudam biologia, genética, astronomia, astrofísica, geologia, antropologia, paleontologia, etc. Apenas entendem que nessas disciplinas a evolução naturalista é a premissa de que se parte e não a conclusão a que necessariamente se chega depois de seriamente analisadas as evidências. As leis da causalidade, da termodinâmica, da biogénese, das probabilidades, etc., e o princípio antrópico corroboram a criação e não a evolução.
Jónatas Machado, Coimbra, no Público, hoje. (Sublinhados meus).

Após alguma pesquisa, concluo que Jónatas Machado é Professor de Direito na Universidade de Coimbra e um especialista em Criacionismo, que conta no currículo com uma desconstrução crítica do mito da modernidade.

Confesso-me derrotado por KO técnico e não uso o MI para entrar nestes combates. Não pude foi deixar de me lembrar de uma conversa velha discussão com outro professor (de línguas) da Universidade de Coimbra, também criacionista, que foi incapaz de argumentar e viu-se obrigado a humilhar-me publicamente por eu ter pronunciado a palavra "clepsidra" com a sílaba tónica errada. Que triste consolo. Enfim, está explicado o título, um mero reflexo pavloviano ao palavreado destas criaturas.
Dois casos não fazem uma regra, mas ouso perguntar: o que se passa com o corpo docente da Universidade de Coimbra? Professor Vital Moreira, não quer comentar?

Cabinet

Tenho um brinquedo novo. Rascunhos sobre Biologia, quase sempre por acabar e publicados com a irregularidade que o leitor já conhece e aprendeu a tolerar.

setembro 07, 2006

Tanked (1)

aquaduct_lg.jpgI share a two-bedroom apartment in Brooklyn with a black man. He has his bedroom, I have mine, and in between we keep an empty room with no furniture, no phone, no painting, not even a closed umbrella leaning against the wall close to the entrance door. It may sound like a statement now, but we didn’t plan to have this no man’s land, we simply got used to it. Before entering my room, I decompress there when I get home, looking first at the street through the window, then turning around, to notice the numerous imperfections no one bothered to fix, the layers of dried out dripping white paint on top of white paint that the Latinos apply without any finishing or pride before a new tenant arrives. Except for these brief moments, neither of us spends much time there, and I have begun to refer to it as our “leaving room”, but Joe – that’s the black guy’s name – doesn’t get it. It must be because of my accent. I haven’t been funny for the last 32 years.

His room is packed and so is mine. No matter how light we live our lives, at 52 we end up with a lot of stuff. Joe is 47, by the way, not that a five-year difference really matters for housemates our age. We’ve been living together for the past four years but the cumulative time we have spent interacting is probably less than a week. Our schedules and culinary preferences are not quite compatible, to put it simply. We share the same bathroom, nonetheless, and seeing one of Joe’s curled pubic hairs engraved in the white soap does not prevent me from using it.

I haven’t been this obsessed with a bedroom since my teenage years. The room is a fortress; I feel it once again and more intensely than before. My severe, yet steadily increasing, lack of concern for the things that interest others must fuel this rediscovered passion. I lost my country first – though it’s debatable that Spain was ever my driving force - then my close family, then my career, then my interest in sex, and only after, my already vestigial interest in women. This list is incomplete, implying that I lost interest in all the missing items to the point of oblivion. Naturally, I would have expected to hit rock bottom after such a grand series, and then to eventually resurface. As it turned out, I’ve stayed in the bottom and it feels cozy here. I’m not really a masochist nor prone to depression. Such general lack of drive was and still is liberating, particularly after investing so many years in being an achiever. Out of boredom, I had to eventually focus on something and out of laziness I decided to keep it within these walls.

Someone entering my room ¬— not that anyone ever does — would immediately notice the wall opposite the door. I started buying television sets at flea markets, and soon I had collected more than 20 different sizes and brands, all in color — except one — a Grundig from the early seventies. With some degree of improvisation, I began to pile them from the ground up to the ceiling, leaving no space between the sets, thus building a wall of dead screens that looks a little sinister, but only in the morning and afternoon. Every night, not later than 8:59 pm, I take my position on the edge of the bed, with the lights off and a tray with snacks on my lap. I’m always slightly anxious, waiting for the wave of electricity that, running through the screens with the sound of distant rain, anticipates a climatic burst of light and cacophony, when all televisions are turned on at the same time. Only then the room comes alive, just like an amusement park after dusk. I took great care in synchronizing all sets so that there are no delays, and now they unanimously react as a single television with a huge screen broken down in small units. This makes me proud; it wasn’t easy to reconcile Japanese, American and German technologies, all united to give me this long-awaited daily kick, precisely at 9 pm. Over the last few days, I have noticed that the sound has been set at increasingly higher levels and that the colors are more and more saturated, but I take some comfort in knowing that TV addiction is epidemic as never before. I just do it in style.

The unleashed sounds invade my room; a wave of uninformative complexity at first, as if I were given God’s ears while keeping the same old mortal brain. After a while, I start noticing female voices taking over the baritone narrators, birds chirping, machine guns firing, and birds still singing in the rare instances when there are no catchy jingles from commercials on the air. I hear the ocean, broken conversations and laughs, languages I can’t understand and music, music being played simultaneously on forbidden tonalities and incompatible rhythms, creating a funny acoustic phenomenon that makes my heart race. Because this can’t go on for much longer than a few minutes, I reach for a painter’s palette with all the remote controls glued and disposed around it like the points of a star. I’ve learned to which remote control each TV set corresponds and I aim accurately, to avoid accidentally shutting down the wrong model. It took me some time to master this technique but now, one by one, as a patient conductor selecting which members of his orchestra to mute, I make silence for the soloist. Then, I clearly hear it for the first time: a harsh, frantic and disturbing sound, the opposite of a slow tune played by an oboe: Spanish.

The black and white Grundig is hung in the middle of the wall and broadcasts the contemporary TVE (the Spanish National TV) emissions exclusively. None of the other televisions is committed to a particular channel. In fact, I reset them from time to time, roughly on a weekly basis, to kill any incipient craving for a specific show. The channels are from all over the world, with no obvious selection criteria other than the exclusion of the so-called mainstream media. Just to give you an idea, I’m currently watching news from Tanzania and North Korea; traffic reports from Rio and a Taiwanese version of MTV; a few European channels, including a Turkish one; soft porn from Bangladesh – if one could fathom – and Gregorian chants from the Vatican; the final hour of a morning talk show from Moscow for the elderly, the unemployed, and housewives; the history of Nascar races from a Kentucky station; a Caribbean soap opera; the Old Testament in a bloody Manga version; Finnish home-shopping, which almost got me to order a blender from Perna; and the Rain Forest Witness, this week’s favorite: an eccentric project financed by a multimillionaire fanatic ecologist that broadcasts around the clock from thousands of cameras strategically placed in the heart of the Amazonian forest. I’ll probably reset all these televisions soon, but yesterday, shortly before falling asleep, I am sure I saw a Golden Lion Tamarin, live, which was exciting since I’m in Brooklyn, it has been snowing and I had thought these monkeys were extinct in the wild. I may keep the Rain Forest Witness going for a few more days, in case a unicorn sticks its horn in one of those camera lenses - something I would not want to miss.

Everything in the room, except for my TV sets, is disposable. I keep no pictures of relatives or friends, and the case with the saxophone has rusted locks which I doubt still open. I don’t buy or keep any books, except the volumes I bring from the New York Public Library that I visit occasionally. My clothes are in a closet and the room has a lot of unused furniture, piled up as if I am about to move elsewhere. Organizing a tag sale would probably be a good idea, but I am not going anywhere and I don’t need the money or the extra space, as long as the access to the window is not obstructed.

There is also an aquarium. This was a recent addition and one I had not planned. I have no interest in fish except as food, and the burden of pets is unappealing. The tank was inherited from a dying colleague; refusing it was not an option. It holds 300 gallons of salt water and now hosts a few cheap tropical fish. The former owner told me to keep the decoration as natural as possible: that a few live rocks, some algae and a bed of sand would be sufficient. Just before I left him, not knowing it was a final farewell, he reminded me again that “fish like it natural” — but this hardly qualifies as a last wish. For all I know, these fish watch TV at night and they are close enough to the window to notice the snow outside. These are not natural landscapes for tropical fish. Anyway, this rambling reveals nothing but my own discomfort. I couldn’t resist sinking an iron miniature of a Roman aqueduct minutes after I had the tank filled with water again. I was given this recuerdo many years ago, in one of my then regular trips to Spain. If one can refrain from looking at it with pedantic eyes, it is a well-crafted two-feet long piece, a perfectly miniaturized replica, so old that very few copies must have been produced. Too embarrassed to display it, I was keeping it inside a drawer. The fish tank came as a solution. That, or I was plain immature. First, I submerged the aqueduct halfway and then, rather imprudently, I released it. The piece went down in the water gaining speed fast and the bottom glass might have collapsed, if the sand weren’t there to attenuate the impact. Due to the currents generated by the operating filtration system, it took a few minutes for the water to clear out from the sand in suspension. When it did, there was the aqueduct, standing on its multiple columns, the sand fully covering its solid wooden platform, including the metal plate with the inscription “Segovia.” How appropriate. How natural. An aqueduct from Atlantis would not look any different, if one tolerates the slight imprecision in architectural style. Granted, it is kitsch, but not fake. And then one of the clown fish got curious, came closer, swam graciously through one of the top arches, turned back and crossed the aqueduct again, this time choosing one of the lower arches. Such a daring bastard... I was born in Segovia, I lived in Segovia until my teens and I spent my childhood in Segovia dreaming that one day I would fly through the aqueduct. All that clown fish needed was a few seconds to live my dream twice.

Vasco Granja

vascoGranja.jpgEsta blasfémia sobre Vasco Granja gerou alguma polémica. A imagem do pacato Granja como monstro comunista que devorava criancinhas ao pequeno-almoço só pode ser entendida como piada. E até é uma boa piada. Mas não vale a pena explorar o filão da nostalgia para reabilitar o senhor. Seria contraproducente.
Granja foi um bom exemplo da estirpe de comentadores de televisão em que o bom amadorismo precedia a "profissão". O que hoje predomina são os especialistas formatados de carinha laroca, junto dos quais Granja é um fóssil raro e Luís Lopes (o comentador de atletismo) o último dos Moicanos.

T(h)iagos

Se não fosse tão desconfiado, começaria ainda hoje a pescar Tiagos na lista telefónica. Sou fã - é a palavra - do Tiago Galvão e do Tiago Cavaco; sou amigo do omnipresente T.h., vindo "T.h." de Thiago. Tudo isto para dizer que o Cavaco criou mais um blogue, o Pranto e Ranger de Dentes. Se for altamente influenciável, não passe por lá. Detestaria estar a contribuir para o reforço das fileiras dos Baptistas.

setembro 06, 2006

Naples, Maine: a toponímia reciclada

napoli.jpg

setembro 04, 2006

O puto

Apesar de estar diante de um lago, no Maine, desarmado de acentos e cedilhas, pareceu-me urgente declarar que Tiago Galvao, com todos os exageros de estilo, provocacao e mimetismo, construiu o boneco mais interessante e divertido da blogosfera lusitana. Esclarecer se ele e mesmo como se conta parece-me irrelevante.