Tenho algum orgulho em não me armar em especialista de temas sobre os EUA só por viver aqui. Quase todos os blogues de política e de cultura portugueses que leio percebem mais dos EUA do que eu. Creio que percebem pouco, mas percebem mais. Há gente que nunca aqui esteve e disserta longamente sobre a América e até há um cineasta europeu que faz filmes sobre americanos sem nunca ter atravessado o Atlântico. Não me parece imoral, nem contraproducente. O trabalho de campo não é importante. Viver aqui também não. Importa mais a inteligência, a capacidade de trabalho, a perspicácia, a cultura, a graça e o interesse que se tem pela coisa. Leituras, filmes e canais de televisão dão uma imagem da América mais precisa do que 15 dias de férias aqui ou 4 anos a viver em Nova Iorque. E no campo mais restrito da cultura, os erros de paralaxe geram efeitos curiosos. Uma América caleidoscópica, porque não?
Quase não privo com americanos. Vivo entre desterrados. E o que conheço dos EUA além desta cidade? Um bom restaurante em Chicago e os seus museus, algumas ruas de San Francisco, as tristíssimas Niagara Falls, umas pistas de ski (desporto que abomino) no Colorado, em Salt Lake City, no New Mexico e perto daqui, Miami e os Everglades, algumas estradas da Florida e Puerto Rico.
E eu vou já atalhando: se algum imbecil ousar piratear o código do template do MI, terá de prestar contas a esta menina, que assina a obra. Como se não fosse óbvio que uma coisa tão jeitosa não pudesse ser da minha autoria. Taan-tan-taaaaan, taan-tan-taaaaan, taan-tan-taan-tan-tan-tan-taan-tan-taaaan, tiiiiin... (musiqueta do Hill Street Blues, em sax-tenor).
The other matter I want to dismiss is the Freudan point of view. His Freudian biographers, like Neider in The Froxzen Sea (1948), conted, for example, that "The Metamporphosis" has a basis in Kafka´s complex relationship with his father and his lifelong sense of guilt; they contend further that in mythical symbolism children are represented by vermin - which I doubt - and then go on to say that Kafka uses the symbol of the bug to represent the son according to these Freudian postulates. The bug, they say, aptly characterizes his sense of worthlessness before his father. I am interested here in bugs, not in humbugs, and I reject this nonsense. Kafka himself was extremely critical of Freudian ideas. He considered psychoanalysis (I quote) "a helpless error", and he regarded Freud´s theories as very approximate, very rough pictures, which did not do justice to details or, what is more, to the essence of the matter. This is another reason why I should like to dismiss the Freudian approach and concentrate, instead, upon the artistic moment. Lectures on Literature. Vladimir Nabokov
Com o devido respeito, o nonsense atinge o próprio Nabokov. É possível rebater o que o biógrafo escreveu sobre as intenções de Kafka com base na opinião de Kafka sobre Freud, mas apenas enquanto permanecemos no plano do consciente. Não é possível provar se num plano inconsciente os motivos referidos tiveram ou não importância, tal como não é por um evangélico da Geórgia discordar da teoria da evolução que deixa de partilhar um antepassado com o chimpanzé. Faço apenas notar a falha lógica, que me parece óbvia. Nada adianto sobre quão credíveis as teorias de Freud são, o que aqui é irrelevante, pois Nabokov não oferece nenhum elemento substantivo que as invalide. Mas é verdade que as ideias de Freud são mais insidiosas que as de Darwin, o que talvez explique a irritação de Nabokov e um raciocínio que me pareceu, com alguma surpresa, pouco nabokoviano.
Acontece-me, mais vezes do que gostaria e com frequência crescente, pensar num post, desconfiar que já o escrevi, pesquisar com uma palavra-chave- como "esferovite" - dentro do blogue e dar com o post já publicado há meses ou anos. Depois desta experiência, nunca mais voltei a recriminar os meus amigos contadores de histórias por se repetirem ao serão.
M. engravidou, que Deus a tenha, mas não foi uma concepção imaculada. Houve russo na história. Topava-se logo pela forma como se encavalitavam um no outro pelos corredores que, não havendo pílula, aquilo não se controlava a preservativo. Ou então rebentou. Trojan. Os americanos têm uma marca de preservativos que se chama Trojan. Só lembra ao Diabo. Haverá quem pense na muralha antes de pensar no cavalo? Enfim, talvez tenha o russo em excessiva boa conta. Belo rapaz, bons bíceps, olhos rasgados, muita estepe deve ter passado por aquela retina antes da vinda para a América. E ela, com um corpo de holandesa, linda como uma boneca de porcelana. Os olhos: pequenos e arredondados. A pele: rósea e delicada. O cabelo: castanho com reflexos ruivos (naturais, creio, mas sem consultar o álbum de família nunca se sabe). Tudo banal, mas numa combinação feliz. O todo superior às partes, o mistério da beleza. Pronto, já chega. Falou comigo duas vezes. Dizem-me que é irritante, sobretudo na forma como se demora quando veste o cachecol. Quero lá saber, se só me lembro dela na Primavera. Nós não conversávamos; eu contemplava-a. Mas pronto, agora é agregado familiar. Vivas a M. e ao russo. Gosto destas miscigenações discretas. Paz na terra e nos corredores.
Vive no meu prédio, cruzo-me com ela todos os dias, é a mulher mais bonita da minha rotina. Deve saber o que penso dela, tudo por causa daquela fracção de segundo extra em que o olhar se demora. Tento ser discreto. Ela vive com um homem, espanhol também. Percebi que era espanhola à primeira vista. Aliás, não lhe conheço a voz, isto é tudo golpe de vista. Foi pelas roupas e pelo porte, a forma de se mover altiva mas sem arrogância. Parece-se com outra espanhola que conheço, o que também deve ter influenciado o palpite.
Hoje encontrámo-nos na cave. Ela dobrava a roupa lavada e eu enfiei a minha no secador e sentei-me a ler um livro. Ali nos demorámos uns 15 minutos. Não dirigimos a palavra um ao outro e fiquei entrincheirado nas páginas. Só no fim, quando ela estava de saída, cruzámos o olhar. Fui incapaz de sorrir. Provavelmente pensa que sou antipático, mas não me pareceu correcto dirigir a palavra a uma mulher que dobra roupa interior. As lavandarias públicas são lugares tão ou mais embaraçosos do que balneários comunitários. Perdoem a inconfidência: o companheiro dela tem umas cuecas com cabecinhas do rato Mickey. Fiquei algo esperançoso, mas a verdade é que eles parecem felizes. Em matéria de gostos a discussão é possível, mas há um reduto inviolável.
Teria feito maravilhas pela promoção da "comunidade blogger açoriana", dos "blogues açorianos" e do "próprio Arquipélago dos Açores" em Nova Iorque, Newark, Boston e nas vilas piscatórias do Maine e restante Costa Leste dos EUA. Sempre quero ver o que fará o Pedro Lomba pela promoção da "comunidade blogger açoriana", dos "blogues açorianos" e do "próprio Arquipélago dos Açores". Este post ilustra bem que por vezes perco a luta contra a inveja, não me elevando, não a sublimando e nem sequer dando conta da mesquinhez e do ridículo que é lançar-me assim aos pés do Grupo Bensaude, que gere o Hotel Cosa Nostra. Até fumego.
Por acaso, discordo. Tento anular a inveja que sinto dos outros, sublimando-a, elevando-me, combatendo-a no que tem de ridículo e mesquinho. É uma luta dos diabos. Conheço muita gente assim e gente melhor.
Recebo a revista Visão esporadicamente. Experimento sempre a mesma desilusão com as crónicas do Ricardo Araújo Pereira. Como é que um tipo tão talentoso, tão esperto, tão engraçado, continua a escrever como se o texto fosse para ser dito e escutado e não para ser lido? E a aceitar que lhe façam destaques com "marcador amarelo", como se estivéssemos a ler apontamentos usados? Imagino que para os editores da Visão a crónica do Ricardo se destine a um público jovem, estudantil, com olho treinado para sebentas, mas exige-se alguma subtileza.
Gostaria muito de ter uma base de dados com as primeiras frases dos romances portugueses, sem qualquer tipo de discriminação. Algo que inclua os grandes clássicos da nossa literatura, mas também os romances da malta das Produções Fictícias. Começarei pela minha mais do que incompleta biblioteca. Agradeço a quem me queira ajudar neste pequeno projecto. Não há prémios, mas prometo publicar uma lista se se conseguir um número razoável (acima da centena). Se decidirem enviar algo, confiem pouco na vossa memória e copiem do livro, por favor.
Caro Tiago,
Chama-me Sensei. Sou um mestre, um mestre na arte de te admirar. Nisso me regenero. Não me canso de te reler. Essa tua perspectiva juvenil sobre o seio, enfim, a teta, tem um óbvio défice empírico, mas que beneficia o teu verbo. Escreves da caverna, Tiago Galvão, tens o olhar enxuto. Olho para ti e reconheço-me. Há quinze anos, era assim. És mais culto, mais talentoso, mais arrogante, provavelmente mais baixo do que eu era (isto anda tudo ligado). Porém, temos o mesmo desajuste. Digo-te isto sem paternalismo gratuito, apenas para que não faças como eu fiz. Não ficarás apetrechado para todas as encruzillhadas futuras, mas sempre se veda um caminho. Vejamos se te posso ajudar nos outros tópicos da vida.
Profissão. Se queres continuar a escrever, deves escolher um ofício que abomines, a menos que gostes de ser médico. É o que a história nos ensina. A tua arte só tem a ganhar. Uma profissão que detestes deixar-te-á com raiva e urgência de escrita. A medicina... bem, não sei, mas é isso que a história nos ensina. Repito-me. Há outras possibilidades: não escolher profissão alguma. Não sugiro que te tornes um vagabundo. Podes casar bem, opção que recomendo. Ou podes andar a saltar de emprego menor em emprego menor, para a tua subsistência e pelas experiências (já lá vamos). É importante abraçar a escrita de peito aberto, não tentar outra carreira. Mas sobretudo, não te tornes jornalista, nem tradutor, nem professor universitário (sociólogo, nomeadamente), nem aceites biscates, como escrever legendas para documentários do circuito alternativo. Não vás pela solução de compromisso. Usa da tua arrogância. Se fores rico, melhor para ti. Se fores pobre, melhor para os teus leitores. Isto não é uma visão de esquerda, não barafustes.
Sexo. Eis a máxima norteia o escritor: o sexo deve ser levado à prática mas não à prosa. Creio que tens a ordem dos factores invertida, jovem Galvão. Reconheço que criaste um boneco com alguma graça, um Pipi shakespeariano, digamos, com consciência, mais sofisticado ainda que menos engraçado. Mas feitas as contas, trata-se de um tema batido, se me permites o deslize semântico. Depois de Roth, com aquela imagem do masturbador compulsivo que levava as peúgas para a cama e usava uma antes de dormir e outra ao acordar, que mais escrever sobre o tema? É certo que a máxima anterior pode ser treslida como "quando o sexo é levado à prática, não há prosa". Isto sucede a muito boa gente, mas não a um escritor. Para rematar, embora não fosse bem nisto que o incontornável Rilke pensava a 17 de Fevereiro de 1903:"evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes." É uma citação cirúrgica, como por certo repararás, mas que nos convém.
(Para continuar, versando sobre os seguintes outros tópicos: amigos, política, animais de estimação, família, honestidade, técnica, blogues, poesia ou prosa, influências, aulas de "escrita criativa" e eternidade.)
*Com a Escalada Panegírica pretendemos simbolizar o absurdo da corrida ao armamento nuclear e mostrar o valor das palavras por reductio ad absurdum (latim). Não é coisa modesta.
Um colega que publicou na revista Nature e foi entrevistado - o jornalismo científico português é pavloviano - teria dito que só lhe faltava publicar um segundo artigo na Nature antes de poder regressar em paz a Portugal. Perante isto, baixo a bolinha, assobio para o lado e mudo de assunto. Ou nem tanto. Dizem-me que o conceito de bruch chegou finalmente a Lisboa. Creio que já posso regressar em paz a Portugal.
Porque a deriva direitista que foram as entradas sobre o IKEA assim o exige.

Detalhe de Retrato de la burguesia, mural de 1939-40 do Sindicato Mexicano de Electricistas, Cidade do México, da autoria de Antonio Pujo, Luis Arenal, Miguel Prieto, Antonio Rodrigues Luna e Josef Renau.
Não é segredo que ambiciono casar com uma rapariga de posses e que um solar na região demarcada do Douro é cenário recorrente nas minhas fantasias conjugais. Jane Austen - que nunca li, mas conheço do cinema - já teorizou sobre o assunto e bastaria trocar os sexos para se explicar o mote. Ora, Frederico Pinheiro de Melo, que me enviou uma mensagem plena de humor, parece ser um homem de sorte. Com a autorização do autor, aqui fica:
Percebo a sua irritação com o (a?) IKEA. Traz-me à memória aquela definição de middle-class do saudoso, snobíssimo Alan Clark: "People who have to buy their own furniture". Por esta definição, eu tive a sorte de casar into the upper class e tenho a casa cheia de cómodas de cartas de avós e camas de casal de tios, mas nem assim me safo de umas prateleiras IKEA aqui, umas mesas de cabeceira acolá, e dúzias de copos acoli. Such practical stuff, my dear, and the servants will break them anyway.
PS: em resposta à graçola acima, que terá sido feita a propósito de Michael Heseltine, adversário político de Alan Clark, um tal Lord Deedes, cuja família fora durante séculos proprietária de Saltwood Castle, a casa actual da família Clark, terá comentado, sobre os Clarks: "People who have to buy their own castle". Live by the sword, die by the sword. Frederico Pinheiro de Melo, Lisboa
A minha existência divide-se em duas fases: quando tinha amigos que nunca diziam e jamais dirão "pathos" e quando comecei a ter conhecidos que escrevem (sobretudo na blogosfera) "pathos" por dá cá aquela palha. Aos 35 anos, aqui declaro que é a primeira vez que escrevo a palavra "pathos", que ainda não a pronunciei e é improvável que o faça durante a próxima década. É nestes pequenos detalhes que percebo não ter vocação para intelectual e não é com desdém que o afirmo. É mesmo com pena. Com pathos, acho. Mas viciando a etimologia. "Pathos", de patético. Ou então:
C6/9 D7/9
O pato vinha cantando alegremente, quém, quém
Dm7/9 G6/7
Quando um marreco sorridente pediu
C6/9
Pra entrar também no samba, no samba, no samba
C6/9 D7/9
O ganso gostou da dupla e fez também quém, quém
Dm7/9 G6/7
Olhou pro cisne e disse assim "vem, vem"
C6/9 F6/7 C6/9 C7/9
Que o quarteto ficará bem, muito bom, muito bem
F7+
Na beira da lagoa foram ensaiar
D7/9 G6/7 C6/9 C7/9
Para começar o tico-tico no fubá
F7+ Fm6 C7+/E C7/9
A voz do pato era mesmo um desacato
F7+ Fm6 C7+/E C7/9 F7+
Jogo de cena com o ganso era mato
Fm6 C7+/E D7/9
Mas eu gostei do final quando caíram n'água
G6/7 C6/9
E ensaiando o vocal
(C6/9 D7/9 Dm7/9 G6/7)
quém, quém, quém, quém
quém, quém, quém, quém
Sobre o Tulius e o Difool, só posso dizer que tenho saudades das jantaradas.
Fala-se muito de Clara Ferreira Alves e do seu eternamente anunciado romance. "Paris" seria o nome, creio, mas estas geografias são movediças e a história já se arrasta há muitos anos. Para campanha publicitária de tipo antecipatório, convenhamos que a coisa tem sido feita com um esmero excessivo. Haverá outros exemplos. Infelizmente, como não conheço o meio literário português, só me posso socorrer do instrumento dos excluídos: a televisão. Lembro-me que numa entrevista ao Joaquim Letria com mais de quinze anos, Paulo Portas, naquela combinação única de estilo assertivo e penteado de mérito duvidoso, disse andar a trabalhar num manuscrito de um romance que ia nas oitenta e tal páginas. Portas adiantou depois que não sabia se o publicaria porque tinha medo do ridículo. Enfim, Nova Iorque é uma cidade algo irritante pela profusão de escritores que nunca escreverão um livro. Mas tenho por esta malta que serve à mesa e ainda vive o sonho uma tolerância - não chega a admiração - que dificilmente transfiro para os nossos mediáticos e instalados romancistas delirantes.
O mobiliário IKEA irrita-me. É demasiado pinho e contraplacado para uma existência mortal. Os nomes dos móveis... não sei, talvez por causa daquela ressonância a nome de tinta nova. O simples facto de se dar nomes aos móveis me parece um mau princípio. O que incomoda, como se percebe, é o sucesso da companhia, a massificação. Chamem-me burguês, mas quando os meus amigos me recebem para jantar gostaria de sentir que saí de casa. Não me parece um desejo excêntrico. Mas como? Sentam-me numa cadeira "IVAR", igual às que tenho na minha sala e comemos a uma "JUSSI", também a minha mesa de jantar. A sopa vem depois numa tigela "MOTTO", que eu uso igualmente, por acaso como armadilha para caçar moscas, deixando-a sobre a bancada da cozinha com um fundinho de sumo Tropicana, onde os insectos vão beber e se afogam. É com a imagem de uma mosca num chapinhar de asas derradeiro que vou megulhando a colher e sorvendo; terminar o caldo-verde é uma prova de boa educação e disciplina mental.
Há duas gerações, um puto magoava-se numa das arestas de uma cómoda e logo a sua mãe via ali um pretexto para recordar um pouco da história da família: "pronto, pronto, já passou. Sabias que foi nessa cómoda de mogno que a avó guardava as cartas de amor do avô. Olha, aqui nesta gavetinha. Estás a ouvir? Pára lá de chorar, não sejas maricas..." Se eu tivesse um puto e o miúdo desse uma turra num dos cantos da mesa, o que lhe diria? Quase me ouço: "sabias que comprei estas madeiras a um pós-doc chinês e que ele pedia $20, mas o pai regateou e conseguiu trazer a mesa por apenas $15? Estás a ouvir? Pára lá de chorar, não sejas medricas". Há aqui um empobrecimento narrativo que me deprime. E o pior, dentro de duas gerações, não é que já ninguém se lembre das cartas de amor dos nossos avós. O pior - até me custa imaginar isto - é que ao consolar um filho seu lavado em lágrimas e a sangrar da testa, um neto meu dirá: "sabes, foi nesta mesinha "VIKA AMON" que o teu bisavô mandava mails à bisavó. Estás a ouvir? Pára lá de chorar, não sejas sampaio."
Creio que já aqui escrevi que não há morte mais estúpida do que tombar com uma bala perdida de uma guerra que nada nos diz. Erro meu. Ainda pior é morrer atropelado por causa de um passatempo que abominamos.
Juntando-me ao clube, eu não acredito num homem que não goste de carne. Assim a despropósito.
Diz-se que as mulheres não estavam na Última Ceia. É mais fácil encontrar argumentos em favor da sua participação do que da sua ausência. Não se tratava, afinal, de uma ceia pascal, isto é, de uma ceia de tipo familiar? O destaque dado, nas narrativas evangélicas, aos Doze Apóstolos obedece a outra lógica. Aliás, se esse argumento fosse tomado a sério, as mulheres também não poderiam ir à missa! Creio, por isso, que o cardeal Ratzinger fez bem em retirar do campo dogmático a impossibilidade da ordenação das mulheres para ficar, APENAS, numa posição "IRREFORMÁVEL". No estado actual das mentalidades eclesiásticas, não se vê bem como poderia dizer outra coisa.
(...) Mas não há, aqui, o elogio da mudança pela mudança: "Para melhor, está bem, está bem / para pior já basta assim"... Frei Bento Domingues, o.P, Público, hoje (sublinhados meus).
Uma noite de sono faz maravilhas, quando se trata de limpar um texto de erros. Nem tem de ser uma noite bem dormida. Se a vida fosse um texto, a errata póstuma seria coisa para apenas duas linhas.
Leio aqui que um dos livros de divulgação científica mais famosos de sempre celebra este ano três décadas de existência. Foi com alguma emoção que me reconheci nas reacções descritas por Dawkins de alguns dos seus leitores. A coincidência não surpreende. Provavelmente depende da idade com que se lê o livro e dos conhecimentos que ainda não temos, mas poucos ficarão indiferentes à ideia de que, enquanto indivíduos, mais não sejamos do que máquinas que propagam os seus genes. É também com algum desencantamento que vemos alguns exemplos máximos de altruísmo no reino animal serem explicados, de forma satisfatória, ainda como sacrifícios individuais mas que, afinal, contribuem para a propagação das cópias dos genes do mártir, carregadas por aqueles que se salvam. Quando contactei com o livro, não me era estranha a noção intuitiva e trivial de que não existe altruísmo puro, na medida em que nos sacrificamos pelos outros para responder a um imperativo de consciência. Porém, foi com este livro- certamente por ignorância e muito antes de travar conhecimento com as obras canónicas da tradição humanista - que deparei com uma primeira verbalização inteligível de um certo pessimismo antropológico, para mais com a carga fatalista da explicação evolutiva. A força do The Selfish Gene não está na explicação mecanicista dos princípios evolutivos, nem na escrita feliz de Dawkins ou, sequer, no instante inspirado que foi a invenção do termo "meme", enunciado pela primeira vez no livro e hoje um dos melhores exemplos daquilo que define (o meme é o equivalente cultural do gene, sujeito também a mutações e propagando-se no tempo e no espaço). Apesar das ressalvas do autor, o que marca neste livro são as implicações morais do que é apresentado e, embora por vezes fruto de simples equívocos de linguagem, as nossas convicções mais profundas foram por momentos abaladas.
(Excerto modificado de uma entrada que publiquei aqui).
João Case Study, que está no Expresso ninguém sabe muito bem por que motivo e agora é membro do nighmare team de Cavaco, idem idem aspas aspas, atinge o cúmulo histriónico sempre que escreve sobre Oxford. É conspícuo o prazer de Espada quando pega nas letrinhas "e", "f", "l", "o" e "w" e as combina assim: "Fellow". Fellow. Fellow, fellow, fellow... miauuuu. Há aqui uma conotação quase sexual, que não pode ser reduzida à mera associação fonética. Espada nunca escreve "Old Chap". Porquê? Por pudor. Divago.
Mas citemos um parágrafo. Chamo a atenção para o cuidado da composição: No dia seguinte, tomo um café tardio com os meus anfitriões ingleses. Somos servidos por duas jovens polacas de contagiante simpatia. «Gostei do seu ponto [sobre as vantagens da legislação laboral flexível] ontem à noite», diz-me um deles. «Se estas jovens fossem inglesas, provavelmente protestariam por tomarmos café no colégio fora de horas. Sendo estrangeiras, vivem com animação a oportunidade que alcançaram». De facto, é de uma animação "contagiante", mate. Digam lá, haverá coisa mais excitante que tirar um curso superior em Varsóvia e acabar a servir bicas ao João Carlos Espada?
George Clooney é um fenomenal actor cómico e aquela cara a personificação do erro de casting. Acho isto mais trágico que a história do homem da máscara de ferro.
Não comento as crónicas do João Pereira Coutinho há uns meses. Faço-o por uma questão de método, para não parecer obcecado com o homem. As obsessões quase sempre revelam fraquezas, desejos, temores e, por arrastamento, falta de originalidade. Veja-se essa espécie de bacanal verborreico que grassa pela blogosfera a propósito de Scarlett Johanson. As minhas desculpas pela imagem, mas chegámos ao ponto em que qualquer elogio à rapariga que julguemos sincero e bem esgalhado é sempre do tipo pegajoso. A propósito, corrigidas as diferenças que saltam à vista - JPC gosta de boxe, Scarlett prefere os patins em linha-, estamos perante dois ícones. Inibe-me escrever sobre um e outro, mostrar fotografias peladas de um ao outro, sonhar connosco passeando por Nápoles, vê-los apaixonando-se mutuamente numa sincronia de celulóide, seus dedos baloiçando e roçando-se casualmente, eu a ficar para trás numa rua suja, a sentir-me excluído como um patinho feio, esmagado fisica, moral, cultural e intelectualmente por aquelas criaturas perfeitas, enfim, possuído pela inveja e obrigado a pôr em marcha uma tragédia. Oh, Joáum.
Pelo substrato onírico que acabo de expor, percebe-se que estou - ou antes, que sou - inapto para comentar os textos de JPC. Tudo o que escrevesse seria a sublimação de uma paixão, que definiria como de tipo metassexual. JPC faz um comentário menos conseguido? Eu vibro. Vibro por sentir aquela inteligência privilegiada a descer ao meu nível. É um JPC de cócoras, metamorfoseado num chafariz de perdigotos, em linguagem de bebé, falando connosco. Nunca é mal conseguido; na pior das hipóteses, é quido, bidu bidu. E quando JPC é sublime? Vibro, claro. Raios, coagula-se-me o sangue por instantes, sou invadido por um torpor, leio sempre o Expresso em total reclusão.
E foi recluso e desesperado que devorei a crónica de hoje. JPC goza com as fracas capacidades de memória dos portugueses. Parece que há quem não consiga memorizar os quatro algarismos dos códigos dos cartões de multibanco. Ora, até aí ainda vou mas tenho uma memória débil. Sei o número de telefone de casa da minha mãe, o meu, o do meu local de trabalho e o do meu bilhete de identidade. Sou incapaz de repescar sozinho qualquer outro número. Por vezes apanho uns fragmentos. A minha conta bancária, por exemplo, começa num oito e acaba em cento e vinte seis. Pelo meio ficam uma quatro casas por preencher. Ou cinco. Não sei, precisaria de uma cábula. Perante isto, ver aquela cabeça a fazer pouco dos desmemoriados encheu-me de tristeza. João, desculpa a ousadia, mas se me enviasses o teu número de telemóvel, juro que o escreveria numa sebenta as vezes necessárias para o saber de cor, mesmo sob pena de esquecer os poucos números que guardo comigo. Mãe, então? Não se apoquente, não fique assim. Prometo que daria depois o seu número ao João, que ele logo decoraria. Assim estaríamos sempre em contacto, mesmo quando eu fosse passar o fim de semana ao Porto. Ou a Nápoles.
Queria conhecer em profundidade a obra do Lobo Antunes para poder dizer mal. A verdade é que gosto das crónicas, perdoem a falta de originalidade. Não chegou a ser uma rotina, mas houve um ou dois serões em casa da minha amiga P. passados a ler as crónicas do homem em voz alta - ora lia ela, ora lia eu - e a beberricar vinho do Porto, com Manhattan aos nossos pés (um vigésimo sexto andar). Tudo em grande estilo. Num momento de euforia (um Vintage), cheguei mesmo a apostar com ela que seria capaz de escrever uma crónica aceitável ao estilo de Lobo Antunes. Qualquer dia arrisco. Que raio, os estudantes de composição também rabiscam corais à maneira de Bach e ninguém neste mundo diria que o nosso escritor está para a literatura como Bach para a música, incluindo o próprio Lobo, que provavelmente se vê mais como Beethoven ou Mozart.
"O assessor para Assuntos Políticos e grande nome da revista Atlântica, António Araújo, o consultor para Assuntos Políticos, o notório dr. Espada, e a consultora para a Ética e Ciências da Vida, uma açoriana, podiam perfeitamente ter saído ontem de uma caverna qualquer do Bible Belt, a berrar por Bush." Vasco Pulido Valente, Público, hoje.
A citação contém ainda uma imprecisão em que os mais atentos não terão deixado de reparar. Saber se "revista Atlântica" é lapso ou ferroada intencional, eis mais um mistério insondável. Fosse outro o escriba, a segunda hipótese nem sequer nos ocorreria. Isto, já agora, recorda-me a primeira PGA (Prova Geral de Acesso) - e desculpem se agito algum trauma da adolescência - que tinha um texto de Vergílio Ferreira com um erro de concordância (creio), muito discutido à época. Teria sido intencional ou erro mesmo? Se a PGA versasse sobre um texto, sei lá, do maradona, jamais a primeira hipótese nos ocorreria. Ou a primeira. Não sei. Agora estou baralhado. Bem, pensemos na Vera Roquete. Numa PGA com um texto da Vera Roquete, jamais nos passaria pela cabeça que não fosse mesmo um erro, sobretudo se viesse rematado com um ponto de exclamação (Roquete pratica - é sabido - a prosa mais exclamativa da nação). E ainda dizem que não há argumentos de autoridade. Assim continua o mundo.
Acabo de abrir um precedente grave: tentar perceber o que Thom Yorke canta. Mais: depois de perceber as palavras, tentar perceber o seu significado. Não é coisa críptica por aí além, mas o esforço é desnecessário, nos casos em que não chega a ser uma via de perdição. Continuo a preferir a emoção em bruto que a canção induz, algo que não passa pela compreensão da letra, antes pelo contrário. A condição ideal para apreciar música pop? O analfabetismo funcional (mas não pretendo fazer disto agenda). Descobri que esta letra em particular despertou acesa polémica entre os fãs da banda. Who cares?
A gravação é do álbum Thom Yorke at the Bridge School (e vale a pena, apesar dos fragmentos de conversas se ouvem durante a canção). De enfiada, ainda pensei em meter o Paranoid Android, que é uma canção superior e tramada de cantar, mas já não tenho 20 anos para exageros destes. Em todo o caso, era importante sacrificar a originalidade e alinhar no mainstream da pop alternativa, para denunciar embustes que alastram pela blogosfera lusitana, como um inenarrável David Thomas Broughton ou lá o que é, que me fez gastar $10 em 5 canções soporíferas. Alguém me explica este fulano? Já o Yorke... o Yorke é um músico excepcional. Não compliquemos.
Enfim, são onze e meia, está escuro lá fora, etc. Foi um momento algo adolescente aqui no MI. Para rematar com compostura: os Radiohead têm fama de ser uma banda para malta deprimida, um boato obviamente espalhado por quem faz batota para se deprimir e - o que é mais grave - não gosta de música.
I'll drown my beliefs
To have you be in peace
I'll dress like your niece
And wash your swollen feet
Just don't leave
Don't leave
I'm not living
I'm just killing time
Your tiny hands
Your crazy kitten smile
Just, don't leave
Don't leave
And true love waits
In haunted attics
And true love lives
On lollipops and crisps
Just lonely, lonely..
Don't leave.. dont leave
Passo por espanhol, italiano e por português, mas ninguém pergunta. Se estiver com barba e bronzeado, vou quase a magrebino, mas apenas se o interlocutor for ignorante ou trabalhar na segurança dos aeroportos. Na Europa sou latino, só que aqui os latinos são os pobres e a classe média-baixa do México e ao sul do México, incluindo ainda o Caribe, embora não os seus pretos, que esses são arrumados na deliciosa categoria de "afro-americanos". Experimento pois um certo anominato étnico que não resulta de miscigenação, apenas da indiferença dos locais. Por vezes tratam-me por europeu, mas creio que Bruxelas ainda não estipulou que sejamos uma tribo. "Europeu" aqui define um modo de vida e é uma forma sofisticada de dizer que alguém é preguiçoso e tira muitas férias.
Gostaria de morar em Brooklyn. As casas são mais casas, as pessoas mais cidadãs e sempre está um pouco mais perto de Lisboa do que Manhattan.
*
Começo finalmente a gostar de ópera, um espectáculo que sempre me pareceu demasiado rico para poder ser apreciado sem cometer injustiças. Sucede que o meu recém-adquirido fascínio não resulta de um apuramento do gosto; apercebi-me, muito simplesmente, que o Met é dos poucos recintos nesta cidade onde ainda estou abaixo da média etária dos frequentadores.
As minhas desculpas aos puristas, mas este vídeo vale pela parceria. O pedido de desculpa - esclareço - não é por mostrar a Bardot, mas antes por incluir o Manitas entre os grandes guitarristas de Flamenco.
Gostaria de ir deixando uns apontamentos sobre os guitarristas e as peças, mas de momento "não tenho tempo".
Sobre a mania que o Pedro Mexia tem de descobrir sósias dele, apetece parafrasear: nunca tantos se pareceram tanto por tão pouco.*
Nota para as camadas jovens: a expressão original é "Never was so much owed by so many to so few" e foi o elogio feito por Churchill à Royal Air Force, em plena Segunda Grande Guerra.
Os amigos ficaram preocupados quando ele começou a afirmar que tudo o que dedicara a A. não era para Ana, mas para a Alfredinha, a tartaruga de estimação, que vivia numa bacia transparente com uma palmeirinha de plástico. Havia nos seus textos uma qualidade de prosa de horóscopo que não o traía e, como era mau poeta, certas passagens de pendor mais erótico salvavam-se até com a imagem do pequeno réptil. O que o traía era a sucessão de eventos: começo do namoro, poesia em ritmo torrencial, "A." em todas as páginas, separação, silêncio, teoria peregrina sobre a musa inspiradora . Um amigo disse-lhe, pegando num volume com uma recolha de poemas seus (edição de autor): "não se apaga uma tatuagem, rapaz". E um outro amigo não se atreveu a dizer, mas pensou: "se era para reescrever a história com tal desfaçatez, mais valia teres dado a autoria desses versos de merda à Alfredinha".
Gosto de crítica de poesia, mas de uma crítica que me explique ou contextualize o poema. Como aqui. A crítica táctil, emotiva e camaleónica (no sentido de se confundir com o objecto que critica), é absolutamente intragável, quando não chega a ser hilariante. A epêciana desta semana é disso um bom exemplo. Comentando umas letras do João Monge, Prado Coelho escreve (Público, hoje): Em Andei a ver de ti, o início é notável: "Andei a ver de ti em toda a parte / A marca dos teus pés nos areais / Mandei uma andorinha procurar-te / No silêncio azul das catedrais." Extremamente interessante que o silêncio seja azul. Porquê? Este "porquê" é das coisas mais insidiosamente irritantes que li nos últimos anos. Porquê? Porquê? Porquê? Ahhhhhhhhhhhhhhhh...
No fundo no fundo, sofre-se sempre do mesmo desgosto de amor. O que vamos arranjando ao longo da vida são os pretextos. No fundo no fundo, sofrer de amor é um grande aborrecimento.
O movimento mAMA não pára, mas é preciso insistir, perseverar, enfim, ser menos português e dar continuidade ao entusiasmo efémero. Quanto a ti, maradona, não escrevas mais sobre o assunto. Já perdi um signatário que primeiro diz "poucas pessoas devem perceber de futebol como o Maradona" e depois não assina porque não seria do teu "agrado". Para que fique claro: o mAMA não pretende atribuir um prémio de carreira; o mAMA pretende dar-te uma missão, acelerar o teu destino, mesmo que isso não te agrade.
Por razões óbvias, fico contente com o fim do O Espectro, mesmo se os autores recorrem à explicação mais irritante de sempre e que faz de todos nós - incluindo o laborioso Pacheco - preguiçosos: a "falta de tempo". Alguém consegue imaginar um Pulido Valente a escrever no papel de animador de clube? Pois é. Antes assim. O "O Espectro" será recordado nas futuras antologias da blogosfera como um erro de casting gritante, algo ao nível de um Paco de Lucia a tocar o Concerto de Aranjuez (um dia explico).
Notei algo diferente na crónica de hoje de Eduardo Prado Coelho. O tema, mórbido, quase tétrico. O estilo, ligeiro, quase solto. O humor, ubíquo, quase conseguido. Os artigos indefinidos suprimidos, numa sugestão de urgência, quase moderna. E a pontuação. Ah, a frase curta, a prosa às mijinhas. Sem tempo para uma análise aturada, comparei a crónica de hoje (15.9 palavras por frase, em média) com a crónica de Quarta-feira (24 palavras por frase). São dados preliminares, animadores. Por menos se começa uma tese de mestrado. Aqui vos deixo o texto:
As arcas frigoríficas
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
A história conta-se facilmente e aparece nas páginas do PÚBLICO no dia 3 de Março de 2006.
Estamos onde? Na freguesia de Arcos de Valdevez. Uma doméstica de 35 anos (idade mais do que respeitável) foi condenada pelo crime de profanação de cadáver. Não se profana com grande entusiasmo, nem se profana todos os dias. Só de vez em quando, quando o rei faz anos. A expressão é forte. A referida doméstica não se limitou a este acto simpático de profanar um cadáver. Movida pelo entusiasmo dos acontecimentos levou as coisas mais longe: matou o marido por envenamento e asfixia. Umas escolhem o envenenamento. Já não é mau. Outras enveredam pela asfixia. É mais trabalhoso. Agora somar o envenenamento com a asfixia denota uma boa vontade ilimitada.
Os três filhos da vítima pediram uma indemnização de 240 mil euros mas não tiveram sorte nenhuma. Os factos têm uma data: 30 de Junho de 2001. Data funesta. A vítima foi um trolha de profissão, tinha também 35 anos e chamava-se Gonçalo Araújo. É perigoso ser trolha. É profissão de alto risco. O mais triste é que ele regressou naquele dia a casa (lar, doce lar) na freguesia de Jolda São Paio, que não faço a menor ideia onde seja. Tinha ido à procissão da festa da terra. Desapareceu sorvido pelas trevas da religião e nunca mais ninguém o viu. Ao que parece - dizem -, apesar de uma religiosidade que o leva à procissão, o nosso trolha não se poupava em insultos e agressões. O que atingia os três filhos menores. Os tais da indemnização.
Qual foi a ideia da doméstica em relação ao trolha envenenado (ou asfixiado)? Colocá-lo na arca frigorífica.
É conhecido aquele estudante japonês que estudava em França a cadeira de Literatura Comparada. Convidou uma holandesa estudante das mesmas matérias, matou-a, cortou-a aos pedaços antes de a colocar na arca frigorífica. O curioso é, que já no Japão, onde não chegou a ser condenado, escreveu um ensaio que saiu numas actas de literatura comparada. Pois não é que foi o volume que mais vendeu (os outros apenas interessavam especialistas acinzentados)?
Donde, o canibalismo favorece as vendas. Depois de ter iniciado uma relação amorosa com outro homem (que ainda não foi nem cortado aos pedaços, nem estrangulado, mas o melhor é precaver-se), a doméstica mudou de casa. Mas - oh erro fatal - deixou de pagar à EDP, que, dando mostras de alguma insensibilidade, cortou o fornecimento da energia eléctrica. Que sucedeu? A arca começou a descongelar e a dada altura houve um cheiro horrendo que começou a espalhar-se pela casa. Era o marido revolvendo-se aos pedaços no interior da arca. O irmão da vítima, sensível aos odores, chamou a polícia em 9 de Maio de 2004. E o cadáver foi descoberto.
Extremamente interessante é o facto de a mulher ter pena suspensa porque os resultados da autópsia foram "inconclusivos". A juíza, num momento mais retórico, afirmou dirigindo-se à ré: "A justiça dos homens não chega a tudo, chega apenas onde pode chegar. As circunstâncias em que ele morreu ficam entre si e a sua consciência." Uma vez que ninguém viu as circunstâncias em que o homem morreu, "não provou que a arguida tenha sido culpada de morte". Mas, pelo sim pelo não, aposto que para a próxima vez vai pagar a conta da electricidade.
Conheço um rapaz com a cabeleira certa para revolucionário, que inclusive priva com o Gael García Bernal, moço seu conterrâneo e cuja presença ele por vezes anuncia - mas é bluff -, como se nós não soubéssemos que o Bernal, apesar de bem-apessoado, parece um gnomo quando de pé numa sala de média dimensão. (continua)
Retomo aqui a série "Cromos", após um longo interregno, em parte explicado por um decréscimo - entretanto anulado - na capacidade de me impressionar com as pessoas que vou conhecendo e, também, pela publicação de um livro homónimo da escritora Rita Ferro, que descreve tipos de figuras da sociedade, num exercício diametralmente oposto deste que aqui pratico, pois limito-me escrever sobre indivíduos, notoriamente atípicos.
Evito o recurso frequente aos estrangeirismos, mas sou muitas vezes tentado a abusar deles no texto, ao ponto de se deixar de perceber o que é estrangeiro. Um texto quimérico que funda duas línguas fica no alcance ao alcance de menos leitores e de ainda menos autores, mas expande o leque de recursos. Há por aí coisas preciosas. A minha maior frustração de não ser bilingue não é ser incapaz de falar fluentemente duas línguas sem sotaque, mas sim ser incapaz de as escrever e misturar de modo irrepreensível, mantendo o sotaque.
O mainstream e o maradona. Mais palavras (das minhas) para quê? Se não quer ser cúmplice de uma sociedade em que Miguel Sousa Tavares ganha provavelmente vários ordenados mínimos a escrever sobre bola e o nosso moço dá-nos prosa de borla, faça por isso.
"Assistimos ontem à maior desinfestação táctica do sistema "mourinho" de que há memória. É muito dificil perceber de táctica e, quando se vê um jogo pela televisão, entender o que é que tacticamente se está a passar tarefa absolutamente impossivel. Não percebo a ponta de um corno de táctica, conheço pessoalmente três pessoas que dizem que percebem, e uma que percebe realmente. O mais que se pode fazer é apontar os acontecimentos.
Qualquer jogador do Chelsea que ontem recebesse a bola, além de ter dois barceloneses em cima a babarem-se como cães com raiva, não tinha, radicalmente não tinha, ninguém a quem passar o testemunho que não fosse um companheiro que estivesse atrasado em relação a ele, o que resultava sempre, e esta é a história do jogo de ontem, que quando o carreiro de atrasos chegava (processo que demorava quase sempre pouco mais de dez segundos) aos aos defesas (Ricardo Carvalho, Terry, Gallas ou Paulo Ferreira), estes procediam à humilhante tarefa de simularem que estavam a tentar desmarcar um companheiro a 100 metros de distância, despachando um tiro com toda a potência muscular que tinham. Ou seja, em direcção à Inglaterra.
Não chega dizer que Mourinho tem piores jogadores que o Rijkaard: Mourinho tem os jogadores perfeitos para ganhar o campeonato inglês de manhazinha cedo antes do pequeno almoço, e ele escolheu-os por isso. Robben e Duff são jogadores que gostam de ver a bola a andar à frente deles, gostam de planicies esverdeantes sem ninguém, homens das estepes. Rijkaard não lhes deu nada disso e, façamos justiça, a - infelizmente inglória - vitória em Londres na primeira mão facilitou-lhe muito a vida.
Drogba passou todo o tempo a dar saltinhos em busca das bolas pontapeadas lá de longe pelos seus companheiros defesas e a levar cotoveladas na nuca. Joe Cole, um inglês minimamente digno, tem meia dúzia de quilos, e Puyol e Bronckhorst devem estar agora a tirar dos dentes os últimos bocadinhos daquele biscoitinho doce. No meio campo, vimos Lampard, coitado, um rei na albion dos cegos, e um génio, Makelele, tentando rodopiar sobre si, para trás para a frente e para os lados, louco por conseguir fazer uma passe que não fosse um atraso.
Temos que estar felizes pelo que aconteceu. O Barcelona comprou (optou) pelo preço do Beckham ou do Woodgate (façam Google deste, pode ser que descubram quem é), o Robaldinho Gaúcho, e, por um pouco menos, Deco. Estes dois jogadores são, aquilo que se pode chamar, a Federal Reserve do Barcelona. Uma pessoa pode estar certa que, passando a bola a uma deles, dali ela só sairá para outro da mesma equipa. Se for preciso esperar três procuradores gerais da república, espera-se, e tudo isto nas zonas do campo mais povoadas do planeta, a 25 metros da linha de golo adversária".
"Jogadores destes não existem por aí aos baldes, e de nacionalidade inglesa existe um, Rooney. O que acontece nesta tipologia de atletas é que se não se for mesmo muito bom é-se uma merda, practicamente inválido. Por isso é que o Barcelona sem Ronaldinho e Deco pouco mais é que o Atlético Madrid ou o Villareal. O Chelsea, ao invés, pode ficar sem meia dúzia de jogadores de um momento para o outro que ninguém nota a diferença; podem até perder os jogos, mas ninguém alguma vez duvidará de que foi o Chelsea a jogar.
Ronaldinho e Deco, no futuro próximo talvez também Messi, são, pelo contrário, jogadores que arriscaram uma carreira inteira pelo irresponsável egoísmo de serem reconhecidos pessoalmente por cada bola em que tocam. Portugal é um cemitério enorme de naufrágios destes. Em qualquer clubeco de aldeia português - e, ainda há poucos anos, de lés a lés pelas ruas e calçadas - é possivel descobrir carcaças e carcaças de jogadores que tomaram a decisão de não fugir atrás da bola apressada: olham-na, mexem-lhe, têm uma pequena conversa, conhecem-se melhor e depois combinam os dois uma maneira de fazer uma coisa bonita de se ver, que eventualmente poderá dar em jogada que, na remotíssima hipótese de resultar, seria uma coisa bonita de se ver, e em ultérrimo e extravagantemente rara ocasião, em golo.
Sucede que este tipo de jogadores, além de, quando apenas medianos, perderem sozinhos o quádruplo dos jogos que ganham, têm, invariavelmente, um resultado: destactitizam as equipas, ou, de outra maneira, a existir táctica a táctica é a táctica deles; basicamente, eles são a táctica (Valdano).
Equipa onde o Ronaldinho ponha os pés amanhã será amanhã, inevitavelmnete, muito mais Barcelona do que o Barcelona que ele abandonou, mesmo que fosse o Professor Neca a treiná-la. Até Mourinho, a comandar Ronaldinho, com certeza abdicaria de o treinar, concentrar-se-ia nos outros dez da equipa. Mourinho domesticou Deco, mas como é muito mais inteligente do que todos os seus instintos juntos (e isto é o maior elogio que se pode fazer a uma pessoa), deixou-lhe aberta uma nesga impercepticel, que só um génio como génio sabia Mourinho que Deco era seria capaz de ver, sendo assim campeão europeu com uma equipa de 3 milhões de contos, coisa que nem duzentos Rijkaards em duzentas tentativas conseguiriam.
Rijkaard deve ser o nosso heroi porque parece conseguir encafuar trinta selvagens numa mesma equipa sem perder o controlo táctico: Lá estão Ronaldinho, Deco, Messi, e até Eto'o, um preto louco, que só daqui uns aninhos estaremos em condições de apreciar convenientemente. Punha o meu cu à disposição dos paneleiros dos Renas e Veados só para trocá-los de equipa e ver o que é que cada um faria com os jogadores do outro.
Mourinho está a colher o que plantou, e, a menos que mude ligeiramente de trajectória, merece que um dia alguém do Renas e Veados o apanhe agachado. O Chelsea não jogou a ponta de um caralho, e se o árbitro fez um trabalhinho inteligente contra o Chelsea, mereceu cada uma das sacanices. Sete milhões de contos pelo Sean Wright-Philips? Foi uma angustia ver o Robben e o Duff, grandes jogadores, entalados em infinitas correrias vãs entre duas cortinas de jogadores imperturbáveis e confinates que, recuperando a bola, sabiam ter pelo menos dois minutos de descanso antes de alguém de azul aparecer novamente por aquelas bandas em posse de bola.
Foram estes dois minutos, multiplicados por toda a partida, que fizeram a diferença. Foram Ronaldinho e Deco (o único jogador do mundo que sem cair saca faltas atrás de faltas) que seguraram por aqueles segundinhos preciosos - para os maus jogadores horas infindas -, e por entre amazónias e amazónias de pernas hostis, bolas que pareciam impossiveis, dando tempo a que os coelgas, simples cidadãos deste mundo, pensassem no que haveriam de fazer, no que é que eles e o mister "trabalharam durante a semana".
José Mourinho, José Mourinho, José Mourinho... estás ver? Não podes fazer nada contra os melhores jogadores do mundo de cada momento. Devias dar-nos o prazer de te ver a dar graças a isso..... Isso sim, isso seria a segunda coisa mais bonita de se ver no jogo de ontem."
Um homem acende um cigarro e pousa o jornal sobre a mesa. É Sábado de manhã. Vai passado pelas páginas em diagonais, lê as gordas, não se demora nas fotografias. A cadência é constante, remadas de papel no ar. O fio do fumo de cigarro não tem tempo de se recompor. Só perto do fim hesita, não chega a largar o canto da folha, volta atrás. O título familiar de uma coluna chamou-lhe a atenção. Ignorava que o cronista tivesse voltado a escrever. Dizia-se que estava doente. Antes assim. Lê a crónica inteira, com um gozo que reconhece. Depois apaga o cigarro, paga o café que antes pedira e sai, deixando o jornal sobre a mesa.
Encontra um colega na calçada, cumprimentam-se e antes a despedida fala-lhe do jornal do dia, conta-lhe as novidades: "Mas ele voltou a escrever?" No almoço com os amigos, a mesma surpresa, multiplicada por seis. Fica na dúvida, dirige-se a um quiosque, abre um exemplar do jornal, o homem do quiosque refila, ele paga, acende um cigarro, não encontra a crónica. Passa-se uma semana, novo Sábado, o homem entra no café, outro café, outro cigarro, nova edição do semanário, perplexidade: uma fotografia na primeira página mostra a praça que ele contempla, mas em ruínas. Fora um terramoto. Olha então para os lados com um sorriso nervoso, joga a mão a um outro jornal, deixado sobre outra mesa. Desilude-se: era um semanário desportivo. Volta ao seu jornal, confere a data. Nova surpresa: a data era futura, precisamente daí a uma semana.
Guarda segredo até Terça-feira, é internado à Quarta, enlouquece à Quinta e na Sexta despacham-no para um asilo longe da cidade. No Sábado morrem metade dos habitantes da cidade. Fora um terramoto. O homem recupera ao fim de uns meses e recomeça a vida noutra cidade. Novo Sábado, novo café, outro cigarro, o jornal sobre a mesa, mas agora virado para um rapaz, a quem ele paga para que leia as notícias em voz alta e confira sempre a data no cabeçalho.
Ao fim de uns dias, um homem recorda, com saudade, a última vez.
Ao fim de umas semanas, um homem anseia, com sofreguidão, pela próxima vez.
Ao fim de uns meses, um homem pergunta, com receio, se o sexo será mesmo como andar de bicicleta.
E ao fim de uns anos, um homem abandona, com esperança, o Seminário.
Afinando as unidades de tempo à libido de cada um, estamos perante uma generalização de largo espectro.
Quem implora pelo regresso de Clara Pinto Correia à imprensa é a mesma pessoa que considera as crónicas de Clara Ferreira Alves ilegíveis. Um disparate não anula outro disparate, mas por vezes um disparate explica o disparate seguinte. Ou talvez não. Pulido Valente fala no "jornalismo da indignação"? Certíssimo. Mas está por fazer o levantamento de um outro género popular na imprensa: a opinião disparatada. A opinião disparatada diverte o leitor. Como é alimentada por ódios dissimulados, ajustes de contas e invejas, pode ser seguida como um folhetim de periodicidade irregular. E aqui o efeito surpresa compensa largamente os intervalos de calmaria. De resto, a qualquer momento há sempre alguém a disparatar; podemos ir fazendo o nosso zapping. É claro que isto cria um problema. Como há muito subtexto por aí e ninguém consegue acompanhar na íntegra a piovra de humores que é o colunismo nacional, o leitor começa a ficar inseguro. Chega inclusive a passar-lhe pela cabeça que uma qualquer opinião aparentemente bem fundamentada foi, afinal, alimentada pelos mesmos mecanismos que geram o disparate óbvio.
O MI passa a contar com um friso animado, de onde enviarei recados, insultos, ameças e elogios transitórios. Como se percebe, é uma forma de poupar posts e de exercer o tal magistério de influência sem deixar rasto.
Fica bem elogiar Jon Stewart. É uma espécie de elitismo alargado. Stewart tem tudo na medida certa: é vivo, eloquente, engraçadíssimo e tem bom aspecto, mas não com um sex appeal de afastar a rapaziada. Em Portugal, creio que beneficia ainda da menor exposição de outros que fazem um tipo de humor parecido, como Bill Maher, que é bem mais corrosivo e explora também uma inteligência rápida. Elogiar Ben Stiller, ao invés, é sempre arriscado. Stiller pratica um humor menos desalinhado e menos culto, quase pimba. Os seus filmes chegam a ser péssimos. Dito isto, a cena da gaffe do "homem invisível" vestido de verde foi o grande momento da noite de ontem. Em todo o caso, da metade da cerimónia que presenciei.
Depois de desfulanizado, o desgosto de amor sabe bem. É preciso dizer isto sem recear de que nos tomem por masoquistas.

Pelas palavras simpáticas a propósito dos 3 anos do MI, agradeço aos seguintes companheiros da bloga: Eduardo Pitta, masson, FTA, Catarina, Luís, Francisco José Viegas e Aly.
No Da literatura o post surge acompanhado por uma imagem da baixa de Manhattan. Aproveito para mostrar a parte da Manhattan que me acolhe e mais calcorreio, o Upper East Side, que nunca seria a minha primeira opção para viver em Nova Iorque, mas a vida é isto, uma sucessão de segundas escolhas. Na imagem vê-se ainda o Central Park (canto superior esquerdo), um nadinha da Roosevelt Island ( à direita) e a Queensboro Bridge, aquela ponte que Woody Allen e Diane Keaton contemplavam de um banco de jardim. O braço de água é o East River, que na verdade não é bem um rio.
Na blogosfera nada se cria, tudo etc. Bem-vindo, Filipe. O Avesso do Avesso é um óptimo título, mas confesso que teria preferido o menos ortodoxo "Pan Américas de Áfricas utópicas túmulo do samba mais possível novo quilombo de Zumbi".
Para um anfitrião uma festa é sobretudo uma sucessão de conversas interrompidas, mas o melhor fragmento que recordo última festa nem sequer surgiu no decorrer de uma conversa. Cito de memória, a partir de legendas em inglês projectadas na parede: "não é preciso ler todos os livros que temos. Os livros fazem-nos companhia. São como os cães, só que dão menos trabalho". É uma das deixas de um diálogo de Vai e Vem, de César Monteiro. Não estou a insinuar que convidei pessoas aborrecidas para a festa. Descobri inclusive um iraniano embriagado a um canto, o que me parece ser um bom indicador.
Fiel à tradição de não respeitar as datas redondas, antecipo em 8 dias o terceiro aniversário do MI. Esta brincadeira foi iniciada a 10 de Março de 2003, na blogspot, por onde andei durante cerca de um ano. Esses primeiros posts eram obras de juventude, posteriormente desprezadas pelo autor e retiradas de circulação.
Adenda: não é com inocência que antecipo o aniversário para o dia 2 de Março. Este truque deixa-me entre o dia de aniversário do 1bsk e do Voz do Deserto, do Alexandre e do Tiago. Agrada-me pertencer a esta geração.
On Bullshit
Harry G. Frankfurt
Professor of Philosophy Emeritus, Princeton University
5: 30 PM March 21, 2006
TALKS ON SCIENCE, POLICY AND THE HUMANITIES FOR THE ROCKEFELLER CAMPUS.
Estão todos convidados.

Dormir só exercita a imaginação
As pregas dos lençóis, coisas que nem Dali
Dormir só exercita a imaginação
A quem até duvida que um dia sonhou.

Foi há poucos dias que um livro da biblioteca de meu pai atravessou o Atlântico no porão de um avião, naquela que ainda não terá sido a sua derradeira situação de aperto e desgate físico, mesmo se a lombada já está quebradiça e as folhas começam a trocar de posição. Um leitor não dá tréguas e as primeiras páginas de Para Sempre são a prosa portuguesa que reli mais vezes.
A causa mAMA passará a figurar na coluna da direita. A 2 de Março, somos 25. Sem meios, sem apoios, contra o sistema... raios, isto faz-me lembrar qualquer coisa.
Mas, quanto a mim, há um terceiro factor a ter em conta [para explicar a aparente ausência de remorsos nos rapazes que terão assassinado Gis]: a questão da música (e do corpo dançado). As festas, com grupos rock que provocam um exacerbamento dos sentidos e o mergulhar numa experiência colectiva de tipo oceânico, em que a divisão entre o eu e o outro se desvanece(...) Eduardo Prado Coelho, Público, hoje.
A ideia de que o rock é um instigador de violência tem barbas, que ganham novos contornos na prosa patusca e sempre tangencialmente poética de EPC. Nada me levaria a defender uma música com menos de 4 acordes por tema, mas talvez seja pertinente lembrar que há aqui duas teses: a de que multidões excitadas são perigosas, algo que EPC expõe com colorido ultramarino; e uma outra, em que os múltiplos grupos e os subtipos de música funcionam como partículas de nucleação, algo que talvez EPC descrevesse como as muletas que o adolescente usa para erguer o seu "eu". Ou seja, estamos na presença de duas ideias antitéticas (a diluição da identidade e o seu reforço, respectivamente). Enquanto não surge uma síntese definitiva, vamos conversando.