O efeito JPG continua a propagar-se na blogosfera. Já temos revelações, citações pescadas de livros pouco conhecidos, marcações homem a homem, acantonamentos, etc. Há algum azedume no ar. A coisa está ao rubro. Será que daqui a pouco alguém acende um fósforo junto do outro paiol de compadrio, imensamente mais perigoso e trágico do que o simpático mundo dos saraus literários? Quando as universidades começarem a arder e aparecerem universitários chamuscados, avisem.
Conheci uma rapariga que trabalha na Foreign Affairs. Digo-lhe que em Portugal não há think tanks, apenas think chaimites. Não percebe, claro. Mas ri-se, tem vontade de gostar de mim. Dizem-me depois para ficar longe dela, que despacha homens como quem (a rare breed, talvez) muda de roupa interior. Só que ela tem cabelos arruivados, um olhar de contida sacanagem. Para mais, aprecia tipos da América do Sul e eu, sem esforço, cumpro. Lá está, falamos de um foreign affair.
Surgiu a oportunidade de publicar um texto do MI numa revista de literatura. O texto iria sair na secção blogues, a indicar que se tratava de literatura de segunda, abaixo de Lobo Antunes, da poesia, da prosa poética e de toda a prosa que gasta tinta e papel de qualidade, embora hoje, com boa vontade, se equipare à prosa dos jornais - João César das Neves, Vera Roquete, aquele abraço - e esteja ligeiramente acima da literatura medicamentosa. Queria lá saber da secção. Estava orgulhoso. Senti-me eufórico. Pedi então a duas amigas que fizessem a purga necessária de gralhas, erros ortográficos e opções gramaticais de mérito duvidoso. Ficou uma coisa enxuta. Gosto daquele texto. Foi há mais de um ano. A revista morreu por falta de verba e antes que o número com o meu texto pudesse ter sido feito.
Jean Baptiste: Que músicas levarias para uma ilha deserta?
Frederico A Shakira, antes de ser loira e a Anne Sophie Mutter, antes de 1996.
Jean Baptiste: a música, pá, que música!?
Frederico Ah... Hum... os brandenburgueses? Who cares?
Josefina: Tu gostas de mim só por causa da minha beleza, não é?
Domenico: Que disparate, amor. Eu sou um esteta.
Josefina: Juras?
José Vítor Malheiros é um colunista que não hipoteca a inteligência e a clareza para chegar ao estilo. Não escreve para a plateia. Não é um prosador da minha geração.
* "breve" é a palavra em destaque nos dias que correm.
Viva Mozart, que nasceu há 250 anos. A propósito, Johann Sebastian Bach nasceu há 320 anos e 316 dias. Estamos pois em data oportuna para deixar aqui, directamente da minha discoteca, uma gravação da música de Bach por Andrés Segovia. Trata-se de uma preciosidade de 1952, digitalizada entretanto pela rapaziada da Deutsche Grammophon. O mestre toca uma versão do Prelúdio da Suite Número 1 em Sol Maior para Violoncelo (BWV 1007), transposta para ré maior, que é a tonalidade natural da guitarra.
Ainda não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Então festejarei o meu aniversário. A paráfrase inicial faz descarrilar os versos de Pessoa e peço perdão pelo sacrilégio, mas onde poderia ir buscar melhores palavras?
Tenho uma teoria sobre os dias de aniversário, peregrina e impopular entre certos elementos do sector terciário, amigos, familiares e namoradas. Sucede que é também uma teoria de bases sólidas. Que sentido faz festejar um dia de aniversário, se não fizemos mais do que viver? Que glória há em ir dos 12 aos 13, dos 20 aos 21, dos 43 aos 44? Nenhuma. Festejemos antes um feito, um reencontro, o nascimento de um filho. Deixemos as velas em paz. Com uma ressalva para quem esteve às portas da morte e se safou, só se justifica festejar o nosso aniversário quando atingimos e ultrapassamos a idade da nossa esperança média de vida. Dir-me-ão que é um argumento desolador, de quem se verga à estatística, mas só depois de atingida essa fasquia é que cada respiração merece ser gozada e celebrada. É verdade que com um esquema destes por vezes haveria falta de quórum e os poucos presentes não cantariam já com grande afinação. Mas seria uma festa de aniversário com mais sentido e poupar-se-ia nos croquetes.
João Pedro George fez um comentário sensato: não é nas colunas de crítica da imprensa que devemos escrever sobre as obras dos nossos amigos. Sobram as apresentações dos livros e os prefácios. Pena é que o exemplo escolhido por ele seja tão mau (mau como exemplo, esclareço). Se aquele texto é um panegírico, nem quero pensar no pobre escritor que um dia receba uma crítica negativa do Zé Mário. Não pretendo branquear o que o Zé Mário fez. Por princípio, o melhor é não meter os amigos ao barulho. Dito isto, não se arranjava um elogio entre compadres melhorzinho? Uma prosa mais extensa, mais centrada na promoção do livro e do seu autor, mais acrítica? Nem deve ser difícil, se o problema é assim tão agudo. E quantos posts é possível escrever sobre o mesmo assunto? JPG parece ser um ordenhador particularmente zeloso, que não larga a teta mesmo depois da teta estar seca. Para os iniciados, deixo aqui uns rudimentos da arte.
P.S. à epc: Cruzei-me fugazmente com o Zé Mário no curso de Biologia (ele é um ano mais novo, creio), falámos uma vez num percurso de metropolitano e um dia vi-o a subir a rua do Carmo com um cravo ao peito mas apenas dissemos "olá". Passaram-se muitos anos até começarmos a trocar alguma correspondência por causa dos textos que enviava para o BdE, mas interrompemos essa rotina quando arranquei com o MI. E foi tudo.
Esmagaste-me com o teu anúncio, maradona. Grandes contratações. Presumo que Cícero ande demasiado ocupado. Bem, eu sou mais modesto, mas não deixo de avisar que o Paul Auster começará a escrever no MI. E em português. Vou agora todas as semanas de bicicleta a Brooklyn, com uma sebenta e uma gramática. Ontem ensinei-lhe o presente do indicativo. É coisa para demorar. Sejam pacientes.
Parece que ontem nevou em Lisboa, onde não nevava desde 1957. E eu aqui, onde não neva desde o princípio de Janeiro. Quando falhei o cometa Halley senti a frustração que experimento agora. A mão quase escorrega para a versalhada, mas paro a tempo.
Gostava mais da blogosfera quando o único blogue em que se escrevia sobre sexo era o Pipi. O Pipi era um teórico da tanga, mas tinha piada. Agora é só teóricos da tanga que trocaram a graça pela presunção (incluo-me no grupo, obviamente).
Meu Deus do céu, tanta gente junta. A malta de esquerda que está sempre a pensar em revistas, a lançar reptos inconsequentes, etc., não responde? Não se organiza numa coisa mimética e simétrica? Convenhamos que para copiar títulos da imprensa estrangeira há opções em fartura. E a certa altura, isto fica um pouco como no filme do Moretti. Deixa de se preciso ter um discurso de esquerda e dizer alguma coisa, qualquer coisa, já é cumprir os mínimos olímpicos.
Gostaria de não ser tão desorganizado nas preocupações. No mesmo minuto em que me debato com a impossibilidade do amor, penso estabilidade dos mutantes de uma deaminase com que ando a trabalhar. Ao segundo 45, em como captar de forma capaz o tom de Vergílio Ferreira no Para Sempre e ao 59´´, in extremis, lembro-me que urge comprar papel higiénico (folha dupla?). Num outro minuto qualquer, outras preocupações quaisquer, sempre várias, sempre díspares.
A última mulher que nunca sorria, fui descobri-la um dia estatelada no asfalto. Não me custou encontrá-la, bastou seguir o vulto que passou em frente da minha janela, já bem acelerado. Os vidros duplos pouparam-me ao estrondo da queda, um barulho que imagino seco e profundo, a ressoar nos nossos ossos de quem ouve. A ambulância não demorou a chegar, mas foi para recolher um cadáver. Naquele tempo, uns viam o instituto como uma casa assombrada e os outros como um hospício. Em menos de 4 anos, três tinham conseguido matar-se, uma rapariga tentara envenenar-se e havia uma série de histórias mal esclarecidas, como a do homem que sucumbira a um cancro induzido por manipulação indevida de radioactividade. Eu olhava para os lados e só via casos clínicos: aquela mulher ainda nova que lavava as mãos de cinco em cinco minutos, a mulher deixada ao abandono, que todos os dias me lembrava das suas 38 publicações e me deixava com um verso de Leopardi, o homem a comer pistácios como um macado amestrado e a rabiscar experiências geniais com a lapiseira, o suiço inseguro com uma branca monumental no grande anfiteatro, o homossexual recalcado a dizer-me quase eufórico, com um ratinho na mão de ventre para cima, que “un mâle, voyez-vous, c´est bien un mâle…”, a secretária que procurávamos logo pela manhã, antes que o álcool tomasse conta dela, o tímido a querer ser excêntrico, que durante os seminários nos oferecia trapezismos de cabaret numa cadeira. O tipo mais saudável que conheci naquelas bandas chama-se Gabriel e espero que ainda hoje sirva pizzas na cantina. (reciclado)
Num bar em Chelsea um homem e uma mulher beijam-se apaixon desenfreadamente. Ao fim de uns minutos, são abordados por um dos empregados de mesa. O rapaz diz-lhes que tinha ficado tão animado que até telefonara à namorada. Por trabalhar num bar gay, sentia-se muito desacompanhado. A ornamentar a cena: dois mojitos.
Dedicado a todos os que não entendem a dinâmica das minorias.
Trago comigo as ruas preferidas
Num mikado de bolso
Que inventa cruzamentos, fere as virilhas
Pica-me quando lhe chego a mão
E se escapa pelos dedos
Caindo nestas cidades bárbaras
De passeios sem calçada.
Cidade que é cidade tem salas suficientes para alimentar 24 heures sur 24 et 7 jours sur 7 um dos seus habitantes subitamente necessitado de cinema.
Tem ciclos sobre realizadores obscuros de países obscuros organizados por tipos magros com casacos escuros.
Conheces as salas de cinema às quatro da tarde nos dias de semana? Aquele cheiro a remédio no ar, os dois casais de velhos enamorados e os trios de viúvas?
Eu sei, eu sei. No fundo apenas sonhas secretamente com uma rapariga que goste de se sentar nas filas da frente.
Diz-me: já tiveste vontade de esmurrar a tela? Vi tal coisa, mas era um jogo de futebol projectado numa parede branca, por isso não conta. Foi um argentino, que lixou os metacarpos... e a imagem do sacana do sueco saiu depois do buraco da parede com a leveza dos espectros. Sobrou a dor de um povo a latejar na mão, essas merdas.
Quando o filme é mau, pões-te a pensar se não haverá uma criança do outro lado, que nunca dali saiu, vê o mundo trocado e tem os cabelos desgrenhados como um selvagenzinho, mas fala um inglês irrepreensível e decifrou sozinha o alfabeto, a ler da direita para a esquerda o mau português das legendas ? Ou entras em raciocínios absurdos - quantos declives de sala de cinema são precisos para escorregar do topo do Everest até ao mar?
Nao faz sentido abandonar uma sala de cinema quando o filme é mau. As salas de cinema são os únicos espaços públicos íntimos. Fico sempre até ao fim da sessão. E se não gosto do filme, aproveito para dormir.
Deram entrada os seguintes enlaces:
A Invenção de Morel
Vidro Duplo
Glória Fácil
Diário
Avatares de um Desejo
Quase Famosos
Poesia Ilimitada
Seguindo a indicação do Tiago, cheguei aqui. Fica agendada a discussão. Deixo-vos por agora com esta pérola:
"But the vitriolic invective hurled at Christian believers today is symptomatic of the passions normally associated with a fanatical Inquisitor. Like the old Spanish Inquisition, anti-religious fanatics are constantly on the look out for fundamentalist plots."
Obviamente, isto passa por um bombonzinho de retórica e não é para levar a sério, mas conto escrever algo sobre a suposta "inveja" dos ateus. É um tema giro.
Passo dias inteiros com dezasseis anos
Desde que acordo até acordar outra vez
Sem que seja nostalgia, não sei o que é
Talvez um passatempo de fim de semana
Não por acaso, surge geralmente ao Sábado.
Era uma vez um homem desconfiado, num deserto como os desertos de dunas dos países subdesenvolvidos, mas com rede de canalização subterrânea que substituíra todos os oásis por chafarizes. Depois de ter caminhado durante três dias ao sol, o homem desconfiado avista um chafariz e precipita-se para ele. Curva-se para abocanhar o repuxo, mas depois hesita. Nunca tinha usado um chafariz, por desconfiar que a água recolhida no ralo é reciclada e volta a sair pelo repuxo. Ainda pensou que fazia provavelmente muito tempo desde que a última pessoa usara o chafariz e que qualquer perigo, que ele não conseguia imaginar muito bem, se teria entretanto diluído ou atenuado. Mas reparou depois numas pegadas que não eram as dele. Com o vento que fazia, só podiam ser recentes. Por isso não bebeu e por ali ficou, sedento. No dia seguinte, chegou um leproso. O homem desconfiado explicou-lhe como funcionam os chafarizes e o leproso entendeu que não tinha o direito de beber. Ficaram por ali os dois, sedentos, olhando o repuxo que brilhava sob o sol incandescente. Ao terceiro dia chegou um homem razoável, que ouviu o homem desconfiado e escutou depois o leproso. Tentando fazer-lhes ver o absurdo da situação, virou-se para o leproso e disse-lhe: "bebe tu primeiro, que eu beberei a seguir e assim ele perceberá que não há perigo e beberá no fim". O homem inspirava confiança e o que dizia fazia sentido. O leproso aproximou-se do chafariz e ainda molhou os lábios, mas naquele preciso momento houve um corte de água. No último diálogo que travaram, já com o leproso morto e enterrado, o homem razoável lamentou o progresso e desejou ter um poço por perto, ao que o homem desconfiado respondeu: "seria seguro beber do mesmo balde que usamos para ir buscar a água ao fundo?"
Onde se prova, sem entrar em considerandos de ordem moral nem invocando critérios jornalísticos (aqui e aqui), que na noite das presidenciais a RTP1 errou quando optou pela transmissão em directo das declarações de José Sócrates em detrimento das de Manuel Alegre.
Como apenas a RTP1 está obrigada a assegurar o serviço público, era seu dever transmitir as declarações de Alegre, a partir do momento em que se apercebeu que os canais concorrentes passavam as declarações de Sócrates. O que tivemos foi uma demonstração de jornalismo autista (incapaz de ver a concorrência como um colaborador acidental) e um atropelamento dos direitos de quem assegura o funcionamento daquele canal. Os tais critérios jornalísticos, até prova em contrário, passam bem por lambe-botice ou -sejamos simpáticos - inflexibilidade institucional.
João Pedro George oferece-nos outro texto com ferro JPG, provando mais uma vez que o Esplanar é um dos poucos blogues que "acrescentam". Foi oportuno afundar conjuntamente a prosa erótica de Rodrigues dos Santos e a de um dos gigantes do género, Henry Miller. Miller, sobretudo quando vertido para português, soa ridídulo. Suspeito que as mesmas passagens, no original, se aguentariam um pouco melhor. E que este efeito não resulta das eventuais limitações do tradutor, antes da relação que estabelecemos com a língua materna e as línguas estrangeiras. As letras da música pop, sobretudo as letras em inglês, gozam de idêntico estado de graça.
O desafio que faço ao João Pedro George é este: escrever um texto à JPG mas com boas passagens de literatura erótica. Como a provocação é algo sacana, por motivos que referi numa entrada recente, sinto-me obrigado a avançar com um exemplo. Pois bem, a prosa de Bukowski, no original, aguenta-se muito bem nas descrições de práticas sexuais. Penso no romance Women, por exemplo. A escrita em stacatto (esta roubei a alguém), a presença obsessiva do "I", a prudência no uso das metáforas, uma crueza que aumenta a credibilidade e que não poupa o próprio autor, mas sem cair no extremo fácil do humor autodepreciativo (a solução menos comprometedora nos textos autobiográficos sobre estas matérias), enfim, tudo contribui para uma escrita decente sobre actos eventualmente chocantes. Não dá tusa, mas ninguém fica com vontade de rir.
Há histórias que fluem nos troncos das árvores genealógicas, indiferentes aos rudimentos da cladística. É uma seiva elaborada que deixa os primos dos ramos mais distantes infinitamente próximos. Não é uma omnisciência, porque para cada história há pelo menos dois segredos. São memes, memes familiares. (Sabes o que são memes?) O teu bisavô a raptar a tua bisavó a cavalo, um meme brutal. Um meme que se imagina com requinte cinematográfico, o jovem montado à mongol ou à índio da América do Norte, abraçando o animal com as pernas e a moça com os braços, arrancando-a do chão e aos trisavôs. Todos novos, na altura, num Portugal rural, sem subúrbios. O problema é quando falta o álbum de família ou um deserdado rancoroso que evite a deriva mitómana. Rapto da bisavó a cavalo? Uma pileca, talvez pela calada, a coisa combinada em segredo, os trisavôs no sono dos justos. Não se sabe. Fica a reverberar aquele galope de cascos em terra fértil, a bisavó num vestido branco sujo de lama, o trisavô do alto de uma colina, a armar a espingarda e a hesitar, por falta de um tiro limpo que fizesse tombar o homem. Ao jantar, alguém sempre conclui o relato, dizendo: "não estaríamos aqui hoje". Raios partam o bisavô, que pôs a fasquia do romantismo a uma altura impossível. Nem tentei aprender a montar.
És simpático, até quando me insultas. Isto assim perde a graça toda. Gladiadores com espadas de pau são carne para leão. César e a plateia não perdoam. Salvemos o couro antes que venha o polegar geotrópico.

Gosto de Cigala e de Duquende, do seu mau aspecto e de tudo. São artistas imensos de uma música sublime.
O Flamenco, sobretudo o cante, é como o sushi, um gosto com curva de aprendizagem. O melhor dos gostos, portanto. E o Festival está quase a chegar. Não é como em Jerez, mas quando são os músicos que se deslocam até nós não podemos ser muito caprichosos. O concerto de Vicente Amigo é imperdível. Gosto muito de Amigo, do seu bom aspecto e de tudo. É um guitarrista sublime de uma música imensa.
1. Meu caro, deves pensar que atravessei a fronteira de Renault 4L, em 1977, rumo a uma escola primária de Moscovo. Deixei Portugal com 23 anos, há pouco mais de uma década.
2. Sou um péssimo emigrante à custa de não deixar de pensar constantemente em Portugal. Há dez anos que a primeira imprensa que leio é a nossa. Isto não é patriotismo, é um vício.
3. No fundo, tentas passar-me um atestado de incompetência para comentar o que se passa em Portugal. Mas os erros de interpretação que referes poderiam ser devolvidos ao emissor. Mais: desde quando estar a chafurdar no objecto de análise aumenta a capacidade de observação? Raios, quem me dera ter ousadia suficiente para invocar o exemplo de Eduardo Lourenço (outro que provavelmente arrumas na prateleira). Bem, acabo de o fazer.
4. Falas depois sobre Alegre. Aí estamos de acordo. Alegre faz da honra profissão, o que me parece ligeiramente obsceno. Mas eu votei em Louçã, que por acaso nem sequer se fez com o 25 de Abril.
5. Despachado Alegre, tudo o que dizes fica vazio de sentido, embora te repitas em dois posts. Soares, como sabes, existiu antes do 25 de Abril e logo a seguir, continuando activo nos vinte anos seguintes.
6. No teu texto anterior fazes uma ligação que me parece sem fundamento. A cunha, o atraso, a incompetência e até o subsídio não são consequências de Abril. A começar, porque existiam antes e não são apanágio das políticas de esquerda. A seguir, porque a transição para a Democracia foi relativamente rápida (não vamos entrar na lenga-lenga do 25 de Abril versus 25 de Novembro, pois não?). É claro que podemos passar uns momentos divertidos com exercícios de história alternativa, ler o VPV para a análise fria e consultar o João Pinto para os prognósticos. Não há revoluções perfeitas, mas transformar Abril em bode expiatório é abusivo.
7. Aliás, a necessidade de precipitar a purga de Abril é tão irritante quanto aquilo que criticas, se reparares. Estamos claramente numa situação recíproca de dar e apanhar no toutiço por tabela. Parece que ter feito a revolução de Abril passou a ser estigma. Aborrecem-te os cravos, os discursos, os capitães? Pronto, venha daí o histograma. Olha, também me aborrece a Sexta-feira Santa. Mas nem me queixo muito, apesar de levares quase dois mil anos de avanço.
8. Como vês, respeitei as condições impostas no teu post scriptum, um curioso p.s., assim à Eduardo Prado Coelho. A propósito, esse então é perigosíssimo. Como se não bastasse ter apoiado o Alegre, ao juntares um "r" e baralhares as letras da sua sigla o resultado é assustador. Coincidence? I think not.
Duas das pessoas mais perspicazes que conheço não apanharam a mensagem da minha alegoria. O primeiro leitor a descobrir que o ali se conta recebe um prémio. É favor usar o endereço de correio electrónico.
Actualização: o vencedor é dos arredores de Coimbra e chama-se Ana.
José Pacheco Pereira publicou uma mão cheia de posts da "mesa da SIC" . O acto revela algum despudor. Se algum dia JPP vier a minha casa e se sentar à mesa com o portátil ao colo, derramo-lhe o caldo verde sobre o keyboard, assim abruptamente. Enfim, ainda bem que as imagens mostraram JPP apenas da cintura para cima. Não é improvável que enquanto comentava para as câmaras e escrevia no blogue com as mãos, estivesse com o pé esquerdo a rematar a crónica de Sexta para o Público e com o direito a alinhavar o texto para a Sábado. Fontes seguras informaram-me ainda que José Magalhães telefonou ao comentador nesse preciso instante. JPP terá controlado o monitor do telemóvel de soslaio, mas acabaria por declinar a chamada. O multitasking tem limites e aturar o Magalhães é um full time job.
"Força de Bloqueio", o blog previously known as Memória Inventada, existirá como título até ao dia da tomada de posse de Cavaco Silva como Presidente da República, altura em esta página retomará o nome de origem, em sinal de respeito pelo sufrágio popular. Até lá, adoptaremos um estilo místico-alegórico.
Mais de três décadas depois do 25 de Abril, essa aberração histórica que pariu um país de "subsídios e cunhas, de incompetência e atraso", Portugal atinge finalmente o estadio de democracia tecnocrato-tecnológica. Aguarda-se a todo o momento a informatização do subsídio e da cunha, da incompetência e do atraso.
Não se sabe ao certo como se disseminou o vício de tocar trompete em todo lado. Ninguém aguentava mais de cinco minutos sem aproximar o bocal dos lábios. Conversava-se, mas entre fraseados melódicos. Às vezes era só um trilo, mas que bem que aquilo parecia fazer. Jazz, Telemann adorado como uma estrela de rock, melodias lânguidas entre os lençóis, depois do amor. As festas eram cacofónicas e nas ruas já nem se buzinava. O cidadão comum tinha pelo menos três trompetes. Gente abastada, três trompetes em cada assoalhada. A iconografia subjugava-se ao instrumento, da publicidade às galerias. Qualquer escritor aspirante fotografava-se abraçado ao seu trompete, com a bochecha encostada à trompete, jogando a trompete ao ar. Fizeram-se fortunas. Os grandes empresários da trompete concordaram em produzir instrumentos tão medíocres quanto tecnicamente possível. Não havia trompete que durasse mais de três dias, com o uso frenético que lhe era dado. Alimentar tal vício tornou-se então um problema para os agregados familiares mais necessitados. Houve penhoras. Nas lixeiras, mas depois nos parques e por todo o lado, acumularam-se trompetes enferrujados. Qualquer criança aprendia a tocar na rua como o Arturo Sandoval antes de saber a tabuada.
Passaram-se décadas. Um dia provou-se que o trompete matava. Era do verdete. A conclusão demorou a chegar porque toda a gente tocava e morria sincronamente. Perante esta revelação, alguns conseguiram cortar com o vício. Era um grupo minoritário, olhado com algum desdém pelos trompetistas, que os viam como traidores, gente patologicamente sadia.
Passaram-se anos. Trompetistas e não-trompetistas conviviam sem grandes atritos, apesar de tudo. Mas um dia provou-se que o barulho do trompete ensurdecia. E que arreliava ao ponto de chegar a matar. Deixou de haver paz. Alguém ainda conseguiu enriquecer com a venda de surdinas, mas era uma solução precária. Como conciliar o direito à trombetada com o direito ao silêncio absoluto?
O trompetista começou a sentir-se perseguido. Com aqueles dedos sempre à procura dos pistões, os lábios deformados, as bochechas caídas, era a imagem do homem fraco, vergado pelo vício. Ou pelo menos era assim que pensava que os outros o viam. Coisas complicadas. A verdade é que investiu tempo e energia em alguma produção panfletária curiosa, onde reclamava o seu direito à trompete.
Tudo isto se passou há muito tempo. Não há hoje trompetes enferrujados nas ruas. As crianças continuam sem saber a tabuada, mas por outros motivos. Toca-se trompete em casa, às vezes com amigos, uns que tocam também, outros que apenas escutam. A cidade recuperou o silêncio. Há agora um outro vício, em plena expansão: pintar. Anda tudo a pintar ou desenhar, mesmo quando falam uns com os outros. Ninguém dispensa a sua latinha de spray, para cumprir o graffiti diário. É coisa para durar, com tanta parede virgem e o hábito deselegante de pintar por cima. Vão também passar muitos anos até que alguém prove que o spray é tóxico. E mais anos ainda, até se perceber que a agressão pictórica em níveis saturantes pode levar à loucura. Ascensão e queda. Habituemo-nos.
Te Doy una Canción
Como gasto papeles recordándote
como me haces hablar en el silencio
como no te me quitas de las ganas
aunque nadie me vea, nunca contigo
y como pasa el tiempo
que de pronto son años
sin pasar tu por mí, detenida.
Te doy una canción si abro una puerta
y de las sombras sales tu
te doy una canción de madrugada
cuando más quiero tu luz
te doy una canción cuando apareces
el misterio del amor
y si no lo apareces, no me importa
yo te doy una canción.
Si miro un poco afuera, me detengo
la ciudad se derrumba y yo cantando
la gente que me odia y que me quiere
no me va a perdonar que me distraiga
creen que lo digo todo
que me juego la vida
porque no te conocen, ni te sienten.
Te doy una canción y hago un discurso
sobre mi derecho a hablar
te doy una canción con mis dos manos
con las mismas de matar
te doy una canción y digo patria
y sigo hablando para ti.
Te doy una canción como un disparo
como un libro, una palabra, una guerrilla,
como doy el amor.
Silvio Rodriguez, MUJERES (1978)
Pessoa credível nestas matérias disse-me que Silvio se refere a Cuba neste tema. Isto seria perfeitamente plausível, tendo em conta as opiniões políticas deste cubano e alguns dos versos, dúbios. Se desconfiei de tal interpretação foi por me parecer que não se escreve assim sobre um país ou uma causa. Um texto destes pode ser nacionalizado, inclusive pelo próprio autor, mas só depois de um desgosto de amor. Após uma curta investigação, confirmei a minha suspeita. Houve aqui propaganda castrista. Silvio dedicou o tema a Emilia, una novia que había tenido hacía cuatro años. O que faz muito mais sentido.
É claro que há diferenças entre os blogues femininos e os blogues masculinos. O primeiros são menos engraçados, mas interessantes, sobretudo quando falam de sexo. Os segundos tendem a ser mais engraçados e igualmente interessantes, excepto quando falam de sexo.
Aceito à partida que esta não será uma opinião consensual e sugiro à Almedina um segundo debate: "Falar de Blogues: feminino/masculino parte II: poderão os homens e as mulheres avaliar objectivamente as diferenças entre o feminino e o masculino?" Esta fórmula, como se percebe, assegurará uma série infinita de debates. A parte III: poderão os homens e as mulheres avaliar a opinião de homens e mulheres sobre as diferenças entre o feminino e o masculino?". A parte IV: "poderão os homens e as mulheres avaliar a opinião de homens e mulheres sobre as diferenças de opinião que homens e mulheres têm a propósito do feminino e do masculino?" E por aí fora. A isto chama-se um filão finito inesgotável. Se encontrássemos uma solução idêntica para a energia não haveria guerra e, na altura de expressar os seus desejos mais secretos, a Miss Universo deixaria de se poder safar com o sussurrado "world peace".
Também há quem entenda o windowshopping (ver as montras) como um preâmbulo para o shoplifting (surripianço). Não se esqueça de passar por aqui, para o subtexto.
Leio, no Mil Folhas de hoje, uma entrevista a Colin Firth, feita por Helen Barlow e traduzida por Cristina Silva. Arrisco uma conclusão: Cristina Silva não tem mais de 28 anos. A passagem reveladora é esta: Porém, as maiores esperanças de Grant em Hollywood foram temporariamente despedaçadas, quando o actor foi apanhado com um travesti num carro (...) Façamos uma nota introdutória. Como se sabe, este episódio marcou uma geração, ao ponto de ainda hoje se perguntar: "onde estavas tu no dia em que o Hugh foi apanhado com a Divine?" Eu deambulava por Londres e nunca mais esqueci que antes de passar uma noite sobre a notícia já andavam uns rapazes a vender T shirts com a chapa de actor tirada na esquadra de L.A. e o título "Hugh: sucker". Piccadilly Circus, bons anos. Seria tentador vergastar na lusa pátria e na sua proverbial incapacidade de iniciativa com o espírito empreendedor destes moços britânicos, mas é de justiça recordar aquele outro fulano - um anónimo português - que, no auge do escândalo sexual com um arquitecto famoso da nossa praça, teve a luminosa ideia de plastificar um exemplar de determinada revista e de o alugar ao minuto no Rossio, para satisfação do transeunte sedento de imagens. Década de oitenta, bons anos. Mas voltemos à citação. Aqui nos EUA, o escândalo de Grant ainda é mencionado regularmente na TV e tornou-se referência incontornável na pop culture. Como se diz na entrevista citada, a carreira de Grant foi apenas momentaneamente abalada. O actor acabaria por se safar com brio e singrou em Hollywood. Ninguém sabe ao certo o que terá levado Grant a recorrer à prostituição de rua, tendo ele na altura uma namorada como a Elizabeth Hurley. Mas a vida faz-se disto: rotinas e mistérios insondáveis. A verdade é que - para efeitos de estilo - a história é sempre contada frisando a beleza de Hurley e o físico pouco atrante de Divine Brown, pese embora o seu nome de guerra. Não sei se foi também para efeitos de estilo, assim ao jeito da hipérbole, que Divine vem descrita no Mil Folhas como sendo um travesti. Curioso abuso, para o qual existirá seguramente uma explicação psicanalítca profunda. Ficamos a aguardar as notas de protesto do associativismo GLBT.
Trabalho para me realizar, não percebo por que motivo tal expressão "devia (...) ser proibida", sinto que respondo a um desafio, desespero quando as coisas não correm bem - mas não para "poder ter uma vida" - e não tinha ainda notado que as palavras "realizar" e "desafio" estavam em voga. Ponto.
Na blogosfera portuguesa, esse covil de deslumbrados da pop britânica, há pelo menos duas pessoas que gostam de Silvio Rodriguez. Podia ser pior.
Há um estilo, popular na blogosfera, assente numa ressalva que faz da declaração de voto uma esmola ao candidato. O objectivo é ficar acima do lamaçal da política. Tais eleitores são os Nenés da democracia.
Adenda: olha que não. Isto apesar de o teu post ser um óptimo exemplo daquilo a que me refiro. Como há outros textos por aí, preferi não fulanizar a crítica, caso contrário estaria a transformar um simples desabafo numa "micro-causa". Mas tudo isto acaba por radicar numa questão de gosto, somos todos livres de escrever o que entendemos, etc. Não é uma discussão com pernas para andar. Escusado era teres ofendido o Pinto da Costa, que tem uma ironia muito mais fina do que a minha. E nem me refiro àquela prodigiosa memória, capaz de declamar o Cântico Negro até ao fim. Eu encalho sempre no "escorregar nos becos lamacentos". Ah, nem de propósito: sujo as mãos.
Evito escrever posts curtos porque se percebe imediatamente quando são maus.
The sunset out of my window is unbelievably dramatic. Thin, flat,
unyielding cloud reaching over from New Jersey, brilliantly
underlit in a pink that is too ridiculous to be believed, the sky
below orange like mercurochrome, you know, that disinfectant stuff
one used to put on wounds. (De um amigo)
Raparigas ao relento
Mordem bocas mordem-se elas
Nas praias do sotavento
De noite quando são belas
Iam primeiro as traineiras
E ficavam bem por terra
Mas sem acender fogueiras
Corpo a corpo sem ser guerra
Não perguntem dos perigos
Minha pele nada diz
Surrurraram-me os amigos
Falhei tudo por um triz
Terá havido trabalho no dia em que mostrar aqui a malfadada canção que te prometi e não há forma de acabar. Changing gears, e vê se dás uma achega: gostar de paredes com tijolo de vidro é foleiro?

Uma das vantagens da vida de casal era poder folhear o catálogo da Victoria´s Secret no sossego do lar. Lembro-me que tinha um gosto bem definido para bikinis e outros adereços: preferia sempre a roupa que a Heidi Klum vestia.
A probabilidade de se encontrar uma citação de Chopin nos livrinhos que acompanham os CDs de música para duos de guitarra é elevadíssima. O pianista terá dito que nada é mais belo do que uma guitarra a soar, excepto talvez duas guitarras. Melhor, só por encomenda.
Há dois duos para guitarra (clássica) incontornáveis: a parelha Julian Bream - John Williams e os irmãos Sérgio e Odair Assad. Os primeiros já não tocam juntos, mas os brasileiros Assad estão activíssimos. Para mim - e aqui não sou original -, são o melhor duo de guitarra de todos os tempos. Cheguei a ouvi-los na Gulbenkian, há muitos anos. Não sei se passam regularmente por Portugal, mas desconfio que não. Se fosse responsável por um calendário de concertos, não hesitaria em trocar muito pianista pelos Assad. Sucede que a guitarra clássica, apesar de tudo e de Chopin, ainda é coisa só para aficionados. É verdade que o instrumento tem uma limitação intrínseca - o baixo volume -, mas é a única. As outras estão na cabeça de quem só tem ouvidos para Sonatas de Beethoven e quartetos de cordas. Escutar os Assad uma vez por ano não é um privilégio, é um dever. Discografia? Todos os discos dos irmãos Assad.
Em tempos escrevi que o MI não era um barómetro da alma. Estava a mentir. É inegável que em muitos blogues se pode ir acompanhando as flutuações de humor do autor. Este fenómeno gera uma situação algo constrangedora. Já não é a primeira vez que amigos comentam: "pelo que vais escrevendo, vejo que andas animado". E, de quando em quando, lá surge um email sucinto: "estás bem?" Ou ainda esta conclusão, que quase me diverte: "andas a trabalhar pouco". Estes comentários aborrecem-me profundamente. Sei que são bem intencionados. O que me incomoda, na verdade, é não poder montar uma defesa decente. Dizer que a minha disposição não é da conta dos leitores do MI seria uma argumentação à Maria Filomena Mónica, que transfere para o leitor uma decisão que ele não está obrigado a tomar: "eu exponho-me e sei que as pessoas vão-me ler por isso, mas não deviam". Por que motivo nos expomos, então?
A única solução que encontrei para resolver este problema, de uma vez por todas, é de tipo tecnológico, à Sócrates. De vez em quando, deixarei umas entradas que serão publicadas só daí a uma ou duas semanas. Isto estilhaçará o "espelho emotivo-cronológico" (ena) do MI. Poderei estar de rastos e a acumular caixas de fast food à volta da cama, mas andar a publicar no MI prosa divertida e capaz de mobilizar a sociedade civil. Ou então encontrarão aqui versalhada de adolescente deprimido, na mesma semana em que me desloco às Bahamas com uma filha de embaixador, mulata e de olhos verdes. Está resolvido.
Houve uma altura em que, como toda a gente, andava obcecado com as estatísticas do blogue. Ao sitemeter chamava "narcisómetro". Outros tempos. Uma edificante discussão, entre Pacheco Pereira e Rui Tavares (creio), fez-me ver o absurdo da coisa. O sitemeter não traz paz a ninguém, vão por mim.
Consulto agora com regularidade o Technorati (que estabelece uma relação de um para um, sem massificar) e, de vez em quando, o mais que aldrabado ranking da weblog.pt. Se o MI tivesse chegado a "explodir", admito que as coisas se tivessem passado de outro modo. Não há aqui julgamento moral. Sou o primeiro a perceber o vício do sitemeter.
Quantos leitores tem o MI? 80? 500? A minha mãe apenas, numa rotina frenética pelos cafés cibernéticos de Lisboa, a manter o filho numa doce ilusão? Não faço a menor ideia. Aqui aprendi a contar como certas tribos: um, dois, três, muitos. Mais não é preciso.

Apesar da prosa de Freud, este Senhor teve o sonho mais famoso da história do século vinte.
Como quase toda a gente da minha geração que gosta de ler e de escrever, entusiasmei-me com o regresso de Miguel Esteves Cardoso ao Expresso. Passado o entusiasmo, gostaria que o cronista começasse a utilizar o dicionário de provérbios como ferramenta de análise da actualidade, em vez de inventar uma realidade para justificar o emprego do provérbio que lhe caiu no goto.
Ao Rui
Amigos destes não podem partir à chuva
Abusar das promessas, esboçar encontros
Futuros na reserva em que nunca se toca
As palavras não saem, só o abraço assim
Um segundo mais curto e dois fora de tempo
Estive a arrumar a "biblioteca" e dei com um livro velho: As Palavras dos Outros, de Baptista Bastos (3a edição revista e aumentada, editora O Jornal). O livro é de 1988. Li-o em 2002. É a minha escolha para o melhor livro de 2005 e sugestão de leitura para 2006.

Elephant, Gus Van Sant (2003)
A cena fulcral do aperto de mão (não exactamente esta).
Sob pressão e sem superstição, a série A Bola no Olival (BnO) atinge a entrada cem e fica agora arquivada. Para uma explicação anedótica de como isto começou, ver 1, 2 e 3. Algumas considerações, mas só mesmo para aficionados, podem ser lidas aqui.
Não queria terminar sem agradecer o incentivo que recebi de algumas pessoas, a saber: Rui Martinho, o amigo que apostou em mim apostando contra, Inês Setil, Paula Duque Magalhães, meu pai, "maradona", Pedro Paixão, leitores que me escreveram e com quem cheguei a ter animadas discussões. Pelas referências simpáticas, agradeço ainda aos autores dos seguintes blogues: Apenas mais Um, Aviz, Blogue de Esquerda (José Mário Silva), Complexidade e Contradição, Límpida Medida, A Montanha Mágica, Pitau Raia e Quatro Caminhos.
Éramos quatro amigos no lancil de um dos passeios da Praça da Figueira, com a euforia dos suburbanos no centro da cidade. A assistir tal felicidade, vários copos de ginjinha, consumidos duas horas antes numa pequena taberna. Na praça cuspíamos para o ar os caroços, até então guardados num lugar da boca que não atrapalhava a fala. Por volta das duas da manhã de um princípio de Verão, bêbados e com o ano escolar resolvido, não se podia pedir muito mais. Com o mesmo grupo havia já conquistado o castelo de Nodar e lá pernoitado. Lembro-me que nos trancámos por dentro e de urinar com eles do topo de uma das muralhas, todos virados para o pôr-do-sol, de costas para uma lua gigantesca e alaranjada. Coisas destas reforçam a camaradagem. Foi com a mesma malta que ganharia o hábito de andar depressa e o vício de viajar. Chegámos ao ponto de criar um nome para o nosso grupo ("Solas"), um logótipo e um poster. O poster mostrava uma fotografia com a pegada de Armstrong na lua, encimada pelo slogan "Por todo o lado" e era a preto e branco, um trabalho enxuto, coisa fina. É agora claro que por essa altura comecei a descolar do futebol. As urgências era outras e infinitas as possibilidades do comboio. Recusara já entrar em peladinhas, o que só me fizera confusão até à segunda nega. E com aqueles amigos, más companhias que nunca tinham experimentado o vício da bola e nem sequer viviam no prédio, tudo se facilitava. Viajar aparecia como uma tentação e eu, ignorando que pôr a paisagem a desfilar é um truque fácil para vencer o tédio, trinquei a maçãzinha com gosto. Nem nesse instante me ocorreu -assim ao jeito de uma revelação - que o futebol é a mais sublime das distracções. Estava frustrado com a bola, farto de ser defesa esquerdo e de não conseguir enviar um petardo do meio da rua ao poste com a bola sempre a meia altura. Viajar parecia até vir com o bónus do vazio competitivo e não podia antecipar o dia em que seria humilhado por um inglês, num posto da guarda nepalesa, a uns 3000 m de altitude, com ele libertar do polegar as páginas do passaporte - o pulha - enquanto enumerava em voz alta todos os países onde estivera. O mais grave foi não me ter apercebido do encanto das coisas depuradas: uma mão-cheia de regras elementares que não custara decorar e seria impensável esquecer, um descampado, quatro pedras, 8 amigos e uma bola garantiram horas, dias, semanas acumuladas de puro gozo. Nunca nos ocorria que o golo de cabeça a partir de um cruzamento do flanco esquerdo repetia a papel químico uma jogada da semana anterior. Parecia sempre que fazíamos tudo pela primeira vez. Estávamos em paz, é o que era. O frenesim das viagens, a ânsia absurda de novidade, só pode responder a um qualquer desequilíbrio.
Não havia forma de o autocarro chegar e optámos por apanhar um táxi de regresso aos Olivais. A caminho do Rossio, um de nós deu inadvertidamente um pontapé numa lata de cerveja vazia, fazendo-a entrar aos trambolhões na grande praça, numa cacofonia que encheu a noite e teria acordado a vizinhança se por ali vivesse gente um pouco menos surda. Aquele som convocou-nos de imediato. Esquecemos o táxi e avançámos ao pontapé na lata. É coisa de rapazes, isto de responder a um objecto que foi posto em movimento com os pés. Estará aqui resolvido o mistério do futebol? Ovo? Galinha? Restauradores. Lisboa era uma cidade praticamente deserta; até as prostitutas da Avenida da Liberdade pareciam ter dado a jornada por terminada. E fomos subindo pela afrancesada Avenida, gozando os passeios como se aproveita um corredor esquerdo livre de defesas. Sentíamos a cidade como o centro do mundo e íamos com a confiança de quem nunca hesita numa encruzilhada, falando cada vez menos uns com os outros, mas sempre ao pontapé na lata. Ninguém nos importunava, nem sequer o guarda-nocturno com a sua farda cinzenta infeliz. Foi neste estado de graça que contornámos o Marquês (três voltas) e nos enfiámos pelas Avenidas Novas. A lata era já mais disco do que cilindro, depois de um de nós lhe ter saltado em cima- "a aderência melhora e o pontapé sai menos caprichoso". O som que fazia tornara-se também mais simpático para a vizinhança.
Há uma hora certa para se dar por encerrado um jantar de amigos. Não sei se é pelo prenúncio de ressaca ou porque um excesso de confiança tende a inquinar o convívio prolongado. Lembro-me que um longo pontapé deixou a lata a dezenas de metros, estávamos já perto da Praça de Touros do Campo Pequeno. "E agora, dizemos o quê?", devemos ter pensado. Eu invejava o jeito para as mulheres de um, o bom senso de outro e a excentricidade tranquila do terceiro, um certo jeito de se conseguir viver num mundo que é só nosso. Eles teriam as suas invejas, também. Numa partida de futebol haveria uma solução fácil. Mas a altas horas da noite, quase sóbrios, num princípio de Verão e sem o futuro resolvido, tudo se complicou.
Acabei sozinho. Eu e a lata. Há coisas que não podemos dizer. Às vezes não nos percebem, outras vezes somos nós que não as entendemos. Não primei pelo raciocínio claro naquela noite. Uma lata ressalta mal e faltou-me a tal cadência da bola contra a parede, que disciplina a mente. Senti ali, talvez pela primeira vez, que todas as amizades são projectos inacabados e que um excesso de sinceridade pode ser contraproducente. A cumplicidade é isso: a mútua percepção da dúvida no outro, por dizermos e ele nos dizer sempre menos do que aquilo que pensamos. Eis uma conclusão que não teria agradado ao Padre Janela: mentir por omissão é um dever. Sorte minha a Igreja não ficar no caminho de regresso a casa. É que fiz ponto de honra de seguir com a lata até ao bairro, e vinha com fúria suficiente para usar a cruz enferrujada como mira e alvo.
Começo a acumular mensagens na minha caixa de correio a que ainda não tive tempo de responder. Sinto-me como um Fernando Luján (El Coronel No Tiene Quien Le Escriba) que ao fim de 27 anos recebe finalmente o dinheirinho da reforma, mas com bonificações e retroactivos. Alguém chega mesmo a dizer que gosta da minha poesia, o que é uma espécie de cúmulo da simpatia.
O Expresso, que nos últimos meses fez quatro contratações seguras (JPC, Daniel Oliveira, Sousa Tavares e MEC), podia arriscar um bocadinho. Incomoda-me ver um tipo como o Tiago Cavaco a escrever no Jornal Nova Terra.
16: 43, ontem, átrio do consulado de Portugal, 5a Avenida, Nova Iorque
O funcionário lacrou o envelope, num anacrónico ritual que estragou o tampo da bela mesa de reuniões do consulado. "Já não há reis nem rainhas, nem o car...", disse, em jeito de justificação. O meu voto está protegido e segue hoje em correio azul. Francisco Anacleto, meu caro, um já é teu. Aliás, tive oportunidade de lançar um olhar de esguelha à lista de pessoas atendidas na tarde de ontem. Deu-se a feliz coincidência de reconhecer alguns nomes e de estar a par das respectivas intenções de voto. A estimativa para a tarde de ontem naquela repartição de voto é a seguinte:
Cavaco 0%
GarciaPereira 0%
Jerónimo 0%
Louçã 100%
Soares 0%
Nulos 0%
Em branco 0%
O que aconteceu ontem foi uma vitór... ah, quase esquecia: Alegre 0%... dizia eu, uma vitória esmagadora de Francisco Louçã. Uma vitória da esquerda na Quinta Avenida, essa Meca do consumismo a precisar de terraplenagem, ah! Apresentar os resultados em número absoluto? Tenham juízo. Não serei eu a pôr em risco o emprego dos 4 (quatro) funcionários públicos de que dispus em regime de exclusividade para poder votar. A democracia faz-se assim, meus amigos, mas há sempre um manga-de-alpaca engravatado a pensar em cortes de pessoal, no downsizing e o caraças. Enfim, que importância tem tudo isto, se ontem me senti como uma velhinha iraquiana de dedo borrado, gozando um instante de pura e inconsequente felicidade?

Les Amants du Pont-Neuf, Carax (1991)
Binoche e Lavant na praia, ao lusco-fusco, ele de pau feito. E, no escuro da sala, a minha namorada a soltar uma exclamação que ficou até hoje sem resposta: "ena, é mesmo grande, não é?"

Le Placard, Veber (2000)
Um esgar de Depardieu, à mesa com Auteil, que dura um décimo de segundo e rouba o filme.

Big Lebowski, irmãos Coen (1998)
A cena na falésia, obviamente, que em 1999 quase me matou de riso numa sala de cinema do XVème arrondissement (Paris).
O Homem a Dias é o George Best da blogosfera portuguesa. Publica de mês a mês e, a cada vez, um tipo desabafa: ah, que ricos posts escreveria este moço se não andasse a perder tempo com outras coisas. Enfim, não sei se o Alberto se distrai com copos, miúdas ou carros desportivos, mas, parafraseando o saudoso George, espero que dê o seu tempo por bem empregue.
Adenda: as rotativas do Grande Capital, mas não o estimável Alberto Gonçalves, calaram o MI. Vou aconselhar-me junto de Manuel Alegre.

O sacrifício, Tarkovsky (1986)
Esta cena.
Respondo também ao desafio , mas caprichosamente. Uma cena de cada vez e mais que três.
Read all the Faulkner you can get your hands on, and then read all of Hemingway to clean the Faulkner out of your system. John Gardner
Identificar más cenas de sexo na literatura portuguesa é fácil. Mais interessante seria descobrir as boas descrições. Só que a dificuldade aqui não resulta apenas da escassez de exemplos. Defender uma boa cena de sexo é mais complicado, mais revelador e, eventualmente, até mais comprometedor do que fazer pouco de prosa erótica mal amanhada. Isto é mais ou menos óbvio, mas não custa lembrar.
You surface in my mind every other day
You surface in my mind every other day too
You surface in my mind every third day
You surface in my mind every third day too
And so do you surface every third day
You surface in my mind every fourth day…
Oblivion is nothing but a long period.
* Nota: Out of phase inaugura a sub-série Too risky, que acumula ainda os títulos alternativos Poemas para inglês ver e Aproximação a David Fonseca, funcionando este último como um disclaimer (inglês).
O texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso. O texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está confuso quando a minha mãe me diz que o texto está...
(...) não vamos pôr os poemas de Pessoa em banda desenhada para serem mais acessíveis, mas devemos desenvolver as estruturas pedagógicas para que as pessoas entendam os poemas tais como eles são. Isto é o ABC de uma política cultural: promover a qualidade e criar dispositivos de ensino que permitam a inteligência adequada dessa qualidade. Eduardo Prado Coelho, hoje, no Público.
O exemplo serve bem a tese de que é um erro levar a arte ao povo. Devemos, diz EPC, levar o povo à arte. Estou de acordo, mas identifico uma notável excepção: as crianças. Ao contrário do grosso da inteligência lusitana com mais de trinta anos, que provavelmente anda a reler a obra pela terceira vez, comecei a ler "o Quixote" (como os espanhóis dizem) em 2005. Até então a minha memória confiava numa notável adaptação da obra de Cervantes para desenho animado (creio que da TVE), que vi quando era miúdo. Não me incomoda nada, antes pelo contrário, servir os grandes clássicos à canalha recorrendo a este expediente. É um período que não volta: tem-se mais tempo e absorve-se melhor. É certo que também me lembro da Rua Sésamo e do enorme - Mourinho teria dito "brutal" - Professor Baltazar. Não faço, por isso, uma cruzada contra o lobby dos autores de literatura infantil, a existir um. Mas a verdade é que esqueci o grosso da ficção infantil da época. Ao invés, os anos provaram que foi útil aprender o clássico em desenho animado. O que se trata aqui é de aproveitar a lição do tempo, tendo também presente quão finito o tempo é. Se muitos jamais chegarão a folhear o original, pois então que venha uma boa adaptação infantil. A alternativa é contactar pela primeira vez com o Quixote num qualquer anúncio publicitário para a promoção da energia eólica que diabolize o cavaleiro da triste figura. Ou algo parecido. Isto para quem não relê. Ou lê pouco. Ou não lê de todo.
O protagonista que tratará uma velhinha como dano colateral faz-nos retrospectivamente antever o seu futuro quando, logo no início do filme, lê Dostoievski. Assiste depois às óperas La Traviata e Rigolleto, e ambas encerram parte do destino que começou então a cumprir. É possível que esta opção seja apenas uma forma de Allen admitir, antes de todos e para desarmar a crítica, a falta de originalidade do argumento de Match Point, que é uma colagem de situações exploradas já à exaustão. Percebe-se a preocupação. Ainda que seja possível reduzir toda a ficção a uma mão cheia de enredos, aqui o plot aproxima-se perigosamente da telenovela. Mas fica também a pairar outra hipótese: numa história que pretende pôr a nu a importância do acaso - o ressalto de uma bola de ténis na tela da rede abre o filme - as pistas que apontam para o futuro talvez não sejam um paradoxo, antes se pretendendo irónicas.
Nota: esta entrada marca o recomeço das cine dia, que interrompi por inibição, desde que comecei a ler os superlativos textos sobre cinema com que o Alexandre Andrade (ver 1bsk na lista dos enlaces permanentes) nos vem brindando. Como o MI é um espaço de puro amadorismo, tal inibição não faz qualquer sentido.
O correio do MI acumula essencialmente spam e teias de aranha. Só me enlaçam a sério quando inadvertidamente enceno o meu funeral. O MI é um lugar pacato. Até ao dia em que resolvo fazer uma brincadeira com a prosa erótica do Rodrigues dos Santos. Agradeço todos os enlaces e comentários simpáticos, mas perdoem-me se não resisto a destacar uma mensagem. É que acabo de receber de um leitor linhas de código javasript para melhorar o gerador (trabalho que está já agendado). Foi das mensagens mais comoventes que recebi até hoje. E, por uma vez, não estou a reinar.
O MI adere ao culto da personalidade e, ao bom estilo estalinista, não se coíbe de retocar imagens para favorecer o líder. No caso presente, a cabeça do jornalista à direita de Louçã foi apagada e aumentei o contraste, o que reforça o efeito da luz sobre o nosso homem. Como se percebe, inspirei-me na pintura de Caravaggio. Gostaria de chamar a atenção para o rosto quase espectral do homem à esquerda de Louçã, que representa o povo português. Para efeitos de comparação, eis o original.

Recebi um email do Ivan Nunes com um texto sobre Soares e que tem à cabeça a frase "Obrigado por votarem Soares". Esta mania de usar o agradecimento como arma de coacção faz do texto -de qualquer texto - spam. Obviamente, não li.
Não deixo é de ser um leitor fiel do blogue do Ivan. Aliás, recentemente ele abordou um problema que a todos preocupa, a saber: como conseguir dissimular perfeitamente a roupa interior - sobretudo a roupa interior branca - debaixo de uma camisa. Ivan, por causa das companhias, instrumentalizou logo a coisa e escreveu quase um manifesto, mas está a desconversar, pois a solução é conhecida há muitos anos. Ele que pergunte a Mário Soares. Da minha parte, fiz uns bonecos, que é a melhor maneira de transmitir ideias complexas. Assim, à esquerda temos o problema e, à direita, a solução. Não há qualquer mensagem subliminar contra Soares no posicionamento da T-shirt problemática à esquerda, até porque voto Louçã.
Siegfried: Olá. Pá, conheci um homem que me disse que tinha aberto um parêntesis na sua vida para uma existência amoral.
Theodorus: Ah, excelente ideia. Mas diz-lhe que não o feche antes de abrir outro para uma existência em amnésia profunda.
Tenho uma confissão que até num blogue dá mau aspecto e não é para me colar ao Kafka nem sequer para me armar aos cucos: às vezes, quando releio os meus textos, dá-me uma vontade incontrolável de rir. Acho que é só por ter má memória.
Vivo com um homem e tomamos o pequeno almoço numa mesa vastíssima, cada um diante do seu laptop. Enquanto comemos torradas, falamos sobre política nacional, bandas de rock alternativo exclusivamente femininas e instrumentos de culinária. Às vezes comunicamos por posts, assim face a face. Sou um casal moderno.
São José, com os seus enfermos parqueados nos corredores e as paredes a pedir uma nova demão, só não passava por hospital de campanha de tempos idos por míngua de amputados e de gritos lancinantes. Reinava uma atmosfera de anestesia geral, apenas perturbada pelas reclamações de quem ficava horas à espera. Fazia um mês que por ali andávamos e cruzávamo-nos então com total economia nas saudações. Uma simples negação com a cabeça a responder à pergunta que pairava no ar: "acordou?" Montáramos um plantão com turnos de 3 horas. Duas idas à cidade, quatro módulos das Carris e duas tardes de futebol comprometidas, tudo por solidariedade e difusa penitência. Solidariedade com o rapaz em coma, projectado por um táxi num voo aparatoso. Solidariedade também para com B., que atirara a bola à estrada. Fazíamos as viagens de autocarro sozinhos, ensimesmados em exercícios autopunitivos de história alternativa. De paragem em paragem, íamos num delírio crescente. "E se eu não tivesse passado a bola a B., que a rematou para a estrada? E se eu não tivesse subido tanto e trocado de posição com ele? Falhando eu o jogo, não teria sido outro o encadeamento das jogadas? Na véspera, com o capricho de dormir na cama de cima do beliche, perturbei o campo gravítico e alterei o mundo". A culpa apresentava-se tentacularmente retroactiva.
Fosse como fosse, é um pouco paradoxal que um comatoso puxasse por tanta conversa, e menos paradoxal que a orientássemos em proveito próprio. O sentimento de culpa atenuava-se com a chegada ao hospital. Bastava depois que o familiar de serviço se ausentasse para fumar um cigarro, que logo saía confissão. Mas não procedíamos como se estivéssemos num penedo ou diante de uma campa. Todo o segredo sério encerra um desejo de exposição, que se a sós não é puxado para fora, diante de uma multidão é impedido de sair. Só ali, perante a ínfima probabilidade de o nosso amigo poder acordar sem abrir os olhos, este jogo de forças pendia para a confissão. Por isso contávamos tudo, sem sequer ligar ao mais que provável carolo ou rasteira com que no passado importunáramos o moço que dormia à nossa frente. E em poucas semanas começaram a faltar segredos novos para lhe contar. Foi coisa rápida, talvez por sermos novos e miúdos com alguma instrução e poder de síntese.
Um arranjo perfeito. Até ao dia em ele acordou. Aí fomos da alegria ao sobressalto em fracções de segundo. Houve festa e abraços, claro. A pergunta engatada só saiu mais tarde, em algum elevador: "ouve lá, tu não te lembras de nada?" Como se demorássemos a acreditar no que ele nos dizia, insistimos - "nem daquela vez em que te belisquei a mão?" - e começámos a testar as suas recordações de eventos passados. Com a excepção do acidente com o táxi, ele lembrava-se de tudo para trás. Só do período em que esteve em coma é que não havia registo na sua memória. Porém, a dúvida persistia: "e se não fosse assim?" Ou se, lentamente, ele começasse a recordar todas aquelas vozes? Foi este temor que aos poucos nos afastou dele. Uma injustiça, creio agora, que não conseguimos contrariar. O rapaz isolou-se cada vez mais. Poderia ter acabado mal, no mundo da droga ou pior ainda. Curiosamente, tornou-se seminarista. Ainda me lembro da resposta que o pai de um amigo deu, quando fui jantar a casa dele e o filho lhe perguntou se os padres estavam também obrigados ao sigilo quando as confissões precedem a data da ordenação: "tenho o direito canónico esquecido. Vá, vê se acabas a sopa".
O telespectador atento tem presente o sorrisinho cúmplice e o cristalino entesado de José Rodrigues dos Santos, sempre que as câmaras a ele regressam depois de vermos imagens de uma passagem de modelos. Confirma-se agora que tal rosto é o fácies - melhor, o frontispício - de um debochado. Pedro Mexia [ver também 1 e 2], com a autoridade do crítico literário, pôs já a nu o imaginário da mente perversa que à hora de jantar entra nos pacatos lares portugueses. Protegei-vos, ó famílias! Dito isto, creio que a prosa citada por Mexia deve ser estudada com o afinco do devoto do Corão, gravada na pedra, parodiada também, se tal for o preço a pagar para melhor a decorarmos. Porque urge encornar - é o termo - a passagem de dos Santos (O Codex 632, Gradiva, 11 ª edição, Dezembro 2005, págs. 161-162), para efeitos de recitação futura. Na eventualidade de uma catástrofe natural ou deslize civilizacional que deixe todos os livros em língua portuguesa a arder, a memória colectiva é frugal mas exigente. Organizemo-nos, pois, para que, juntos, tenhamos decorado a escaldante passagem do último Opus de dos Santos. E tente-se, a seguir, se ainda nos sobrar vagar, fazer o mesmo com alguns cantos de Os Lusíadas, mas dispensando o nono, pois versalhada como Nuas por entre o mato, aos olhos dando/ O que às mãos cobiçosas vão negando só diminui o nosso estimável Luís Vaz, quando lado a lado com a voz de dos Santos. Enfim, talvez ainda nos amanhássemos com um sermão do Padre António Vieira, o O Sentimento de um Ocidental todinho, a Tabacaria, dois ou três textos de Os Passos em Volta, sem esquecer, mesmo ficando só pelo título, o A Arte de Bem Cavalgar em Toda a Sela...título que, com oportunidade, que nos reencaminha para o tópico da prosa erótica. Mexia diz que as cenas de cama na nossa literatura são más. Eu discordo. São momentos absolutamente hilariantes. Ora, o riso é um poderoso afrodisíaco, pelo que dos Santos e outros parceiros de ofício conseguem - algo fortuitamente, reconheço - atingir o objectivo último da literatura erótica. A passagem é particularmente exemplar, pelos motivos já avançados por Mexia. Da minha parte, atrevo-me a dizer que está encontrado o cânone.
Sucede que dos Santos, qual mestre flamengo, esboçou apenas as linhas principais da sua obra-prima, retirando-se com a altivez que só toca aos génios. Foi como um discípulo humilde que me acerquei da sua prosa e tive a ousadia de a completar. O que agora vos apresento, em versão beta, é o primeiro Gerador Automático de Grandes Momentos de Literatura Erótica, que tem por esqueleto a passagem de dos Santos. Ciente da erro irreparável que seria alterar a narrativa, cingi o meu trabalho ao colorido. O leitor do MI fica agora a dispor de largos milhões de variações sobre a cena entre o professor e a aluna. Sem mais demoras, convido-o a explorar as multiplicações semânticas e imagéticas que a prosa de dos Santos encerra.
"Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer com o leite das minhas mamas.
Tomás quase se engasgou com a sopa.
Como?
Quero fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas, repetiu ela, como se dissesse a coisa mais natural do mundo. Colocou a mão no seio e espremeu-o de modo tal que o mamilo pela borda do decote. “Gostava de
Tomás sentiu uma erecção
Incapaz de proferir uma palavra e com a garganta subitamente seca, fez que sim com a cabeça.
Tomás
Abraçou-a pela cintura e começou a chupar-lhe o mamilo
Nota: a versão 1.1 distinguia-se da anterior por tornar a segunda referência ao cozinhado dependente da escolha antes feita. Foi depois o próprio Telmo Félix, autor desta primeira emenda, quem reparou que na versão 1.1 era sempre o mesmo seio que espreitava para fora, independentemente da nossa escolha. Esta falha intolerável foi entretanto corrigida, dando origem à versão 1.2, que julgo ser a definitiva.
Ainda não tinha escrito sobre o Melancómico. Trata-se de um blogue exemplar, no título, no tamanho das entradas, na coerência, na disciplina e, como se não bastasse, em perpétuo estado de graça.
Em Lisboa brinquei com os filhos de dois amigos. Não os via há mais de sete meses e são crianças em acelerado período de crescimento. Sem discriminar a alegria que me deram - que o futuro recordará também na forma de uma hérnia discal, iminente depois de ter decidido levantar os três do chão ao mesmo tempo - deu-me um gozo especial brincar com M. (os nomes dos três começam por M., mas para quem os conhece não há confusão possível). M., que em Abril último ainda se comportava de modo vagamente vegetativo, em Dezembro entrou na sala de rompante e por seu próprio pé (sem a ajuda das mãos). É hoje uma criança muito divertida, de risada irresistível e com queda para brincadeiras um pouco violentas. Mas o mais curioso foi ter reparado, antes de ambos termos posto máscaras de mergulho e começado a marrar um no outro, que M. é uma espécie de versão bonsai de seu pai. O pai é pessoa que conheci já crescida, mas de repente abriu-se ali uma janela para o passado do meu amigo e, por instantes, julguei que estava a brincar com ele. Não sei que efeitos a parecença dos filhos com os pais tem nestes, mas a extrapolar a partir desta experiência deve ser uma sensação forte, e até algo perturbadora.
No fim de semana apresentarei o primeiro Gerador Automático de Literatura Erótica em Português (Portugal e Brasil), que disponibilizarei livre de custos. Trata-se ainda de uma versão beta, mas que me parece de enorme utilidade para escritores de best sellers e demais utilizadores em crise de inspiração.
De uma amiga, que obviamente lê os livros que lhe compro:
A propósito de fitness e sedução.
Para não variar, não há nenhum estudo, ou conjunto de estudos, realmente conclusivo nesta área. Mas há alguns resultados muito interessantes e que não validam a tua hípótese. A saber:
1. as pessoas (refiro-me à maioria) não procuram os ginásios e afins para seduzir ou melhorar as suas aptidões socio-sexuais.
2. ao fim de um ano de treinos regulares a satisfação com a sexualidade não melhorou significativamente; a satisfação com a imagem corporal melhora num grupo e piora noutro grupo, sendo que o segundo tem características psicológicas específicas (mais isolados, mais perfeccionistas, auto-estima mais baixa).
3. a generalidade das pessoas não se sente mais atraída sexualmente pelos companheiros/as após x tempo de frequência de ginásio.
Uma das conclusões/hipóteses que coloco é que a utilização patogénica do exercício tem muito pouca relação com a sexualidade. Factores como a insatisfação com a imagem coporal, uma personalidade do tipo obsessiva e aditiva e/ou pouca qualidade das relações interpessoais estão mais presentes num modelo explicativo mais coerente do que um modelo do tipo "darwiniano" (isto dá para andar à porrada à boa maneira dos nossos ancestrais... é que a sociobiologia e/ou a psicologia evolutivas são, para mim, pouco interessantes e limitativas). Estes factores que mencionei encontras também em algumas pessoas que fazem cirurgia correctiva compulsivamente, restrições alimentares e outras formas de alteração daforma corporal.
Felizmente que grande parte dos sujeitos utilizam o ex como factor de melhoria do estado de saúde geral, mas isso ainda é outra conversa...(...)
A fotografia mostra Olivia Newton John, em flagrante trip de endorfinas.
Sócrates dizia-se cidadão do mundo, mas numa altura em que o mundo era outra coisa. Quem hoje se diz cidadão do mundo - mas indo das palavras aos actos, bem entendido - só com muito talento e alguns passaportes não fica sendo cidadão de coisa nenhuma.
O hábito de comprar livros cuja leitura não inicio ou não termino é quase imoral. Defendo-me dizendo que estou a fazer uma biblioteca para os meus futuros filhos. O problema, aqui, não é ninguém acreditar que eu esteja a falar a sério. O problema é eu aceitar convictamente esta justificação.
Retrato
Tudo sempre foi fácil para mim. Toda a minha vida tem sido simplesmente feita de etapas confortáveis e rasgos de sorte. Nunca tive de me esforçar muito para atingir os meus objectivos. Sempre fiz o que quis e obtive o que pedi. Nunca tive grandes desilusões, não vivi uma guerra, não assisti a nenhuma revolução, não tenho lembranças dolorosas ou penosas, não tenho traumas, nunca tive insónias [sublinhado meu], não penso no futuro. Nunca tive desgostos de amor. Sou novo, sou jovem, as mulheres desejam-me. Nasci predisposto para a felicidade, a boa disposição, a despreocupação. A natureza concedeu-me este talento: viver com a certeza de vencer. João Pedro George
Como é sabido, estas coisas dos retratos e dos auto-retratos têm muito de exercício de estilo e a prosa citada é seguramente um contraponto a qualquer coisa. Em todo o caso, gostaria de assinalar que também nunca tive insónias. Por isso sublinhei.
"V., I´m gonna kick you somewhere unmentionable!" R., há instantes.
O melhor inglês em Nova Iorque é falado por indianas.
Estou a acusar alguma atracção por um tema passível de dar uma série. Nestas coisas não se hesita e sai logo título sonante: A barreira de Weissmann! A coisa deve ser meio críptica para quase toda a gente, mas explica-se já. Somos habitados por duas populações de células, uma que nos faz e outra que fará a nossa descendência. O pai deste conceito, aparentemente banal mas com profundas implicações, foi August Weismann. Os textos desta série, não sendo de biologia, estão remotamente ligados à percepção do corpo, da descendência e da senescência, do indivíduo e da espécie, de uma explicação do instinto incapaz de o anular, etc. Escusado seria dizer que são pura e descartável produção somática.
BW I
Encontrei em Portugal um anónimo irritado com o termo "fitness center". Dizia que "ginásio" serve perfeitamente. Ora, que eu saiba, não há tradução para "fitness", quando usada no sentido darwiniano (talento para gerar descendência). Temos um verbo (proliferar) e um adjectivo (prolífico), em consonância etimológica com o modo como em Evolução se entende a palavra "fitness". Porém, a nossa língua não produziu substantivo que, no contexto referido, substitua fitness de forma capaz*. Dir-me-ão que na expressão "fitness center" a palavra designa a "forma física", mas a verdade é que há cada vez mais gente a frequentar ginásios para aumentar as suas chances nos jogos de sedução, o que é meio caminho andado para a outra "fitness". E assim, como que por acidente, hoje o termo "fitness center" não podia ser mais rigoroso e é praticamente intraduzível.
* Gostaria que me corrigissem se não estiverem de acordo.
Censurei uma entrada que esteve disponível durante breve minutos. É a segunda vez que faço isto, creio, descontando as entradas que apago por azelhice. Explicação: após ter relido o texto que comentava e a discussão que se gerou mudei de opinião. Se tiveram a infelicidade de a ler e me deram razão, bem, eu discordo.
Seria descabido descrever o que penso fazer em 2006, mas deixo um pequena lista dos "projectos literários" que passarão pelo MI. A lista está organizada por ordem de prioridade, começando pelo mais importante. Acrescentei ainda um pequeno artifício: a estimativa da probabilidade de cumprir o objectivo (de 0 a 1, isto é, da impossibilidade virtual à certeza):
1. Atingir a BnO 100. (0.9)
2. Deixar de escrever poesia. (0.2)
3. Fazer da série "A vida cá fora" um diário. (0.4)
4. Continuar as séries "Explicação da Insónia" e "O México não se Acaba". (0.6)
5. Encontrar um nome alternativo e adulto para a série "O México não se Acaba". (0.8)
6. Publicar aqui cinco contos que estão arquitectados (0.4), caso não os consiga publicar noutro lugar. (0.9) (probabilidade final: 0.36)
7. Levar a série "O roteiro do guitarrista inepto" à exaustão e fazer dela o cunho idiossincrático do MI, que me deixará sem leitores mas autor de um blogue de culto. (0.5)
8. Apagar ou reescrever na totalidade a série "14 dias e o Nepal." (0.7)
9. Não plagiar em consciência e citar as fontes. (0.8)
10. Livrar-me da obsessão pelo sistema decimal. (0.010)
Nas intragáveis listas de discos, livros, blogues, efemérides, etc. de 2005, só a referência ao nascimento de um filho desperta em mim uma reacção de sana invidia. O problema é que o adjectivo tem prazo de validade.
Na hora da nossa morte desce sobre os homens um pudor excessivo. Leio a notícia do falecimento de Cáceres Monteiro no Público, na Visão e na TSF. Recordam-nos aspectos da vida do jornalista, o que agradeço. Mas fico sem saber a causa da morte. Será que não é importante? E que, ao invés, é fundamental ficar a par da hora a que nos deixou? Com eufemismos ou por omissão, é assim que geralmente se resolve este problema. Como se houvesse um problema.
Fala-se tanto na tal "doença prolongada" que mais parece ser algo indigno. E sei de outros relatos vagos, que se alastram aos cochichos, deixando a pairar no ar a hipótese nunca resolvida do suicídio. Como se o suicídio fosse humilhante. São casos de pessoas demasiado próximas para que fique indiferente. Nestas coisas, como em quase tudo, o silêncio é um vácuo que não demora a ser preenchido, quase sempre com insinuações e mentiras. Mais vale falar antes, e dizer a verdade.
(As minhas desculpas aos familiares e amigos do jornalista, por aproveitar este dia para abordar tão melindroso assunto).
Eduardo Prado Coelho (EPC), também conhecido "pelo Gonçalo M. Tavares da sua geração" (Mexia, 2005) , produz muitos livros, inclusive títulos que fazem pensar que não voltaria a publicar sem correr o risco de se repetir, como "Tudo o que não escrevi". Por isso, é para mim um mistério que nenhum editor, ou o próprio EPC, tenha ainda pensado num pequeno volume de capa simpática com a antologia de post scriptums do pensador. São pérolas raras, mas que se acumulam ao longo de anos de escrita diária, e é neste registo que EPC se supera em estilo e subtileza, captando o nervo do nosso tempo com um simples apontamento, recado, correcção ou piscadela de olho. Creio que tal livro - de possível título: "O P.S. em Eduardo" - seria um sucesso de vendas, sobretudo se prefaciado pelo próprio autor. À laia de exemplo, chamo à vossa atenção o post scriptum da sua crónica de hoje no Público. Destaco, entre outros detalhes, a escolha dos nomes, que encerra um tratado de sociologia, o requinte poético que é o "lindíssima em Cardiologia", que só perde para um "lindíssima em obstetrícia", mas também o uso sensualíssimo da pontuação, a terrível visão de uma cidade como um labirinto de afectos e, por fim, a forma como EPC assina a crónica, a alicerçar a tal ponte sem a outra margem, mas que é todo um programa, pois vai de um ilustre membro da nossa sociedade a uma personagem duplamente anónima. Estamos perante - e digo-o sem exagero - um dos grandes momentos da crónica lusitana deste começo de século. Aqui fica:
"PS. - Na minha crónica anterior, cometi um lapso: falei de uma Sandra lindíssima em Cardiologia, e afinal chama-se Sónia. Sei que me cruzei com uma Sandra, porque logo me lembrei do Vergílio Ferreira. Mas não me ocorre onde. Desculpe. Sónia. Professor universitário."
Tenho 34 anos e nunca passei um Natal sem a minha mãe. As outras datas, do dia do meu aniversário (e de quase toda a gente) à passagem do ano, trato com indiferença ou até desprezo. Entrei em 2006 a dormir, aproveitando a desculpa do jet lag. Mas ninguém marca uma viagem transatlântica para dia 31 de Dezembro sem ter um plano.
Se a quase todos agrada a ideia de organizar o tempo de um modo discreto, sempre preferi o contrário, o contínuo, um tempo com o menor número possível de marcos, para que as lembranças não se prendam a datas e as datas não embaracem o futuro.
Parece que há cerca de um milhão de portugueses homossexuais ou bissexuais. Eduardo Pitta refere que "a bimbalhada está em polvorosa" com esta manchete do Expresso. Com o devido respeito, e a ressalva de ter passado de fugida por Portugal, faço notar que ontem, por volta das 10 da manhã, no aeroporto de Lisboa ninguém comentava a manchete. Nas conversas que tive com amigos ninguém referiu a notícia. Nos blogues que costumo ler não se gerou discussão. 10% de homossexuais é um número que não suspreende ninguém, consistente com as estimativas de outros estudos e, sobretudo, validado pela nossa experiência quotidiana. Mais discutível é a estimativa de Pitta: "arriscaria dizer que os bissexuais correspondem a um terço da população". Parece-me arriscado, de facto.
Risco por risco, talvez até Cavaco Silva considerasse mais importante discutir outro dado do mesmo inquérito: "52,8% dos inquiridos [hetero e homossexuais, esclareço] mantêm relações sexuais não se preocupando com os riscos da sida e (...) um terço (33,5%) nunca usa preservativo". É verdade que seria necessário cruzar esta informação com a que faz referência ao número de parceiros, mas eu arriscaria dizer que anda por aí muito idiota.
A propósito dos casamentos entre homossexuais, Cavaco responde "talvez" e justifica-se dizendo que o assunto não é prioritário. Esta ideia de que só vale a pena emitir opiniões sobre assuntos prioritários só deve convencer a malta do Pulo do Lobo (sem enlace). Que Cavaco prefira jogar pelo seguro, o risco é dele. Escusava é de nos tratar por parvos.