A quem consegue ler um livro de cada vez em paz a monogamia também não deve custar.
Chamem-me elitista, mas se para um fumador passivo o fumo é todo igual, há fumos mais iguais do que outros. Ontem, em Central Park, num anfiteatro ao ar livre, a noite estava calma e nem brisa havia. Kevin Kline, a fazer de cozinheiro do coronel, soltou uma primeira baforada e uma espessa nuvem de fumo ficou a pairar, resgatada da penumbra pela luz forte dos holofotes. O "tiny pipe", na expressão dúbia de Streep, que fez de Mãe Coragem, demoraria depois duas cenas até ser usado por ela. Com uma elegância lasciva, Streep envolveu-se no seu próprio fumo, que de novo teimou em partir. Das duas vezes, passaram minutos até que pudesse detectar as partes por milhão daquele aroma adocicado. Foi uma comunhão e uma festa para os sentidos. Compare-se isto com o resto de SG ventil aprisionado nos pulmões do Silva e que a dois andares de se chegar à repartição pública de finanças já saturou a atmosfera do elevador.
O único percurso coerente na literatura é começar no conto, passar para o romance e acabar na poesia.
Não terá escapado ao leitor mais atento a minha ligeira tendência para começar séries e não as acabar. O que temos aqui não é uma metáfora para a minha vida, mas a minha vida propriamente dita. Apesar de um esforço louvável (A Bola no Olival, morta na praia), todos os outros impulsos têm dado uns abortos assombrados e, como é próprio das assombrações, a possibilidade de os ressuscitar tende para a improbabilidade. O MI parece-se assim com o quarto de um miúdo mimado que só repara nos brinquedos que lhe compraram quando neles tropeça. Dito isto, conto persistir no erro. Aliás, os erros são dois:
1. Retomar a Route 66. Aqui impõe-se um esclarecimento: nunca cheguei a sair de Nova Iorque e nunca entrei num Mustang. O resto que escrevi é praticamente verdade, embora sobre pouco. Nesta série vou juntando experiências que acumulei nos Estados Unidos, como se tivessem ocorrido durante uma viagem e com umas enxertias de ficção verosímil (não gozarei de visão raios-X em Nashville).
2. Iniciar uma nova série em inglês. Trata-se de um projecto condenado a ser alvo de chacota, mas o MI é um lugar de experimentação e uma língua estrangeira levanta obstáculos interessantes. O projecto tem ainda nomes provisórios - Think Tank, Aqualit ou Tanked - e contornos indefinidos. Andará seguramente à volta do meu aquário. Se falhar na discussão da condição humana, não deixarei pelo menos de contrariar obsessão por gatos que tenho constatado por aí. Eis uma missão à medida das minhas possibilidades.
«Com apenas uma célula removida, o embrião mantém a plenitude do seu potencial de desenvolvimento. Contudo, [notou monsenhor Elio Sgreccia, que preside à Academia Pontifícia para a Vida, do Vaticano], o novo método não tem em conta que mesmo aquela única célula removida pode teoricamente evoluir para um ser humano totalmente desenvolvido. «Se o resultado que aguardamos - ou seja, reproduzir apenas células embrionárias - é resultado de uma manipulação de um processo que, de outra forma, resultaria num embrião, a objecção ética mantém-se.» Notícia do Portugal Diário, citado pelo Cibertúlia.
O tema é demasiado complexo e delicado para ficarmos apenas pelo soundbyte anticlerical, mas vale a pena seguir a lógica de Monsenhor Screccia até às suas últimas consequências. Se a célula totipotente removida pode em teoria originar uma vida, devendo por isso ser protegida, por que razão a Igreja não defende também o direito à vida das outras sete células totipotentes que não são removidas? Se se eleva a remoção por micromanipulação à condição de toque divino, não teremos a obrigação de tocar em todas as células totipotentes, deixando que cada uma evolua para um ser humano totalmente desenvolvido? Imaginemos que Screccia era concebido nos dias de hoje. Seria legítimo condenar cada uma das suas 8 células totipotentes a originar um oitavo de Monsenhor, quando em teoria de cada uma dela se poderia obter um Papa inteirinho?
(Para uma crítica ligeiramente mais inteligente do que a de Sgreccia, vá até aqui).
Num estado de espírito próximo da melancolia, encontrava-me esta tarde no edifício do Nederlands Kanker Instituut de Amsterdam quando me pediram para ceder a vez da consulta, vendo-me de súbito com meia hora de inactividade.
Espalhados pelo hall há computadores com internet e, ligando um deles, pus-me a visitar blogues conhecidos e desconhecidos. Corri pelo seu, procurando se lá haveria algo sobre a viagem trans-americana. Subi, desci, nada. Parei um instante na foto de Sylvia Kristel com o colar de pérolas.
A meia hora quase passada fui-me para a sala de espera onde havia apenas outra pessoa e, quando a encarei, V. calculará o choque: defronte de mim Sylvia Kristel lia o jornal. Não a jovem do seu blogue, mas a mulher serena de cinquenta e poucos anos, em cujo rosto se lê que o que perdeu em beleza ganhou-o em dignidade. Dela se sabe pelos jornais que sofre de cancro, que já lhe amputaram um seio e dentro em breve perderá o outro.
Num pensamento fugidio, quando os nossos olhares involuntariamente se cruzaram, imaginei que ela talvez gostasse de saber que, minutos antes, um estranho a tinha visto no blogue dum outro estranho. Mas seria ridículo dizer-lho. Chamaram-na. Ela levantou-se, fez-me com a cabeça um ligeiro aceno de despedida, e saiu.
No meu livro “O Joalheiro” (1987) há um conto intitulado “A Quinta do Mobutu” que começa assim:”
“Naquele parte do Universo onde o Todo-Poderoso continua a manter escondidos os seus escritórios e arquivos, certamente se atarefam funcionários que, das nove às cinco, fazendo horas extraordinárias nas urgências, enredam, puxam, destrinçam e alisam o infinito número de linhas invisíveis que de maneiras diferentes, com espessuras variadas, ligam os humanos uns aos outros.
Sem essa crença ou outra semelhante, torna-se difícil compreender, e mais ainda explicar, que o Zé Manel, eu e o presidente Mobutu participemos numa mesma história.”
Assim também, durante o tempo de um relâmpago, Sylvia Kristel, você e eu encontrámo-nos enredados numa dessas linhas cuja existência não preocupa a ciência nem interessa à religião. José Rentes de Carvalho
Houve um instante em que pensei se iria sentir remorsos. Tinha nas mãos uma pesada tábua, armada como uma guilhotina e alinhada com o pescoço do bicho, que não se mexia. Tal exercício de projecção no futuro é o cúmulo da premeditação e fez-me ainda mais ignóbil, mas a verdade é que já passaram alguns dias e ainda estou em paz. Lembro-me de me forçar a ver um esquilo como uma espécie de rato de cauda rebuscada (a minha vida é matar ratos). Lembro-me que recordei depois o They Shoot Horses, don't they?, livro lido ainda em criança numa edição traduzida de capa amarelada. O bicho nada pediu, em rigor, apesar de se arrastar com uma das patas traseiras partida e de ter ignorado a comida que lhe dei. Esperei até ao dia seguinte, na esperança de que a noite o levasse, só que de manhã o animal ainda lá estava. Uma mosca pairava ali por perto e nenhum abutre, apenas porque não há abutres em Brooklyn, mas os cães queriam vir para o quintal e não parecia que fossem ter a paciência das hienas. Nenhuma linha telefónica apresentava uma solução. Era Domingo e os anfitriões pediam-me que resolvesse o problema. De maneira que procurei assegurar uma morte rápida e fiz o necessário.
A este bem-apessoado moço não bastou a caixinha de madeira que quando se abre toca um trecho de Karlheinz Stockhausen e lhe chegou às mãos com uma dedicatória do compositor gravada na base. Daqui a uns anos, serei eu a ter uma caixinha de música com dedicatória dele e - aceite-se o capricho - uma bailarina de porcelana rodando lentamente ao som de Transmutations (1999). Por agora, abramos estas várias caixinhas e fiquemos à escuta.


O número 1 já está disponível. Consegui meter lá prosa sem que o projecto tivesse implodido. O mérito é todo do Henrique Fialho.
No que toca à beleza feminina, urge acabar com dois equívocos: a magreza e a musculatura abdominal. É preocupante que, numa atitude reveladora de vegetarianismo sexual, sejam tantas as mulheres a não perceber a obsessão da rapaziada por Scarlett Johansson.

Adenda de T.h.: Pago para ver a Scarlett, pode até ser em filme do Manuel de Oliveira, consisting of 2 hours of Ms Johansson desalting cod and looking out the kitchen window.
Mas gostei de a ver tal como a conheci: de cabelo caído, muitas vezes apanhado. Mas sempre com grande serenidade e beleza. Também a beleza tranquila pode ser revolucionária. Eduardo Prado Coelho, Público, há uns dias.
E eu corria para a água. De início, não custava nada. Tinha andado a chapinhar pela areia no limite das águas serenas da baía (...). Mas depois ia avançando, pé ante pé, na experiência do frio. E havia um momento crucial: quando a água chegava à barriga e um estremecimento nos fazia hesitar. Até que punha a cabeça debaixo de água, nadava um pouco e o frio desaparecia. Mas esse momento da água na barriga, esse sentimento de uma faca que nos corta o corpo, essa oscilação pusilânime entre avanço ou não avanço, perseguem-me até hoje. É algo de universal, de uma intemporalidade que se cola ao nosso corpo como uma medusa ou uma água-viva. EPC, Público, hoje.
O que me leva a citar este homem? Precisamente isso. EPC parece humano, distinguindo-se dos Espadas, Delgados e Neves da Lusitânia, que são praticamente irreais. Mas há mais. A prosa de EPC é das mais ricas que podemos ler na imprensa portuguesa. O que falta a quase todos os cronistas portugueses, mesmo aos melhores, é extensão no registo. JPC e VPV? Brilhantes, mas monolíticos, previsíveis, frios. Um bom programa de computador pode em teoria escrever uma crónica como JPC. Seria mais complicado pedir à máquina que fosse do tom acintoso à desastrada ternura em 24 horas. Que semeasse elogios com calculismo e depois reproduzisse a misteriosa panca que homens acima de cinquenta anos têm pela soporífera Ana Sousa Dias. Ou que falhasse. A arte de falhar não é para as máquinas. Olhemos para Pacheco Pereira, a melhor máquina das redondezas. Pacheco não tem sentido de humor, mas nunca tenta ser engraçado. Não erra. Pelo contrário, EPC tenta e quase sempre falha. Como é próprio dos homens. Pacheco é racional. EPC é sportinguista. Como é próprio dos homens. Há ainda um elemento de imprevisibilidade no tom de EPC e que não encontro noutros cronistas. É isso que me agarra às suas metáforas e ao seu estilo Barthes de segunda. No fundo, ler EPC todos os dias é uma forma subreptícia de restaurar a infância e de prestar um tributo a essa qualidade rara que é a patusquice involuntária.

Agora que revisionismo chegou também à Astronomia, rezemos para que Luciano Amaral não compre um telescópio.
The best model of celebrity philanthropy is perhaps that practiced by Paul Newman and his wife Joanne Woodward. Newman is said to devote half his time to his food company, Newman’s Own, Inc., and charitable giving. Newman and Woodward established the Hole-in-the-Wall Gang Camp for terminally ill children, and the anti-drug Scott Newman Foundation, named in memory of Newman’s only son, who died of an accidental drug overdose in 1978. Through his, Newman’s own line of food products, he has donated more than $100 million to countless charities. What’s more, the food products are good: I speak as a regular purchaser of Newman’s Own Balsamic Vinaigrette. Joseph Epstein

No caminho para o trabalho vi uma mulher ao volante de um Jaguar preto. Morena e bem pintada, tinha um longo colar de pérolas que dava duas voltas no pescoço e depois se perdia corpo abaixo. Ainda pensei que fosse aproximar o colar à boca, mas o sinal entretanto abriu.
Os recentes casos Hadke e Grass foram pretexto para se defender a liberdade de expressão e o valor da obra pela obra, independentemente da personalidade, declarações ou actos do seu autor. Creio que o aviso é pertinente no caso Hadke e algo forçado no caso Grass, mas queria sobretudo frisar um aspecto que - salvo erro - não vi referido em nenhum dos posts sobre o assunto. Defendo que a independência entre a obra e o seu autor deve ser respeitada por quem decide sobre cultura mas não forçosamente pelo indivíduo que a consome. Se não discordo de Luís Mourão quando ele escreve que «toda a leitura que valha a pena será sobretudo uma relação impessoal com uma voz que passa através daquilo a que chamamos autor», a verdade é que não conheço ninguém capaz de ignorar o criador da obra, sobretudo no caso de autores contemporâneos. De resto, assim se percebe mais facilmente que os autores sejam cada vez mais utilizados como veículos de promoção das suas obras e que isso não cause grande atrito. Também a incontornável exibição do crápula de estimação como prova de que o princípio da independência da obra é seguido me parece exemplar, mas para ilustrar a tese contrária. O simples facto de se apreciar a escrita de Céline não prova que a figura do escritor enquanto cidadão não influenciou a forma como o lemos. As leis da atracção vão bem além da simples admiração. Por exemplo, se aprendi a custo a escrever "Houellebecq" e até leio o autor, não excluo que tal se deva em parte ao show montado em volta da sua a vários níveis execrável e fascinante figura. Deverei sentir-me instrumentalizado ou ver nesta curiosidade uma fraqueza de adolescente?
A prontidão com que se defende a independência da obra perante o seu criador (ou alguma circunstância) visa como é óbvio evitar os lamentáveis casos de censura que se têm repetido, mas no plano individual parece-me abusiva e, em certos casos, uma violência. Quando Barenboim defende que se toque Wagner em Israel, ele é o primeiro a lembrar que pessoas cujos familiares caminharam para as câmaras de gás ao som do compositor têm o direito de não o querer ouvir. Não podem é exigir que mais ninguém em Israel ouça Wagner. É esta diferença que importa defender.

São raras as mulheres capazes de arrancar um homem da cama às 6 da manhã de Sábado.
Fotografada por Annie Leibovitz

O défice de estilo manifesta-se de várias formas. Por exemplo, vivo em Nova Iorque há 5 anos e nunca pisei os Hamptons.
Depois de quatro anos em Inglaterra, o que mais me surpreendeu, quando cheguei à América em 1994, foi o traje. Parafraseando Bertie Wooster, não se pode atirar um tijolo, na América, sem atingir um homem impropriamente vestido. Achei que as coisas tinham passado das marcas quando pernoitei no Harvard Faculty Club: ao pequeno-almoço, ninguém usava gravata.
Resolvi escrever a um amigo, que era membro da fundação americana Liberty Fund. Tinha-o conhecido em Oxford, e apreciara a sua compostura «sartorial»: botões de punho, suspensórios, e fato de riscas.
Ele convocou-me de imediato (...). O motorista que me foi buscar ao aeroporto trajava casaco e gravata.
... na minha primeira conferência da Liberty Fund. O director era James Buchanan, Nobel da Economia e fundador da «Public Choice» - um velho senhor, sempre de casaco e gravata...
(...)Olhei à volta, e não vi ninguém sem gravata ao pequeno-almoço. Lembrei-me de que no Harvard Faculty Club eram quase todos a favor da intervenção do Estado. (...)
...devo ter ido a dezenas de conferências da Liberty Fund. O rigor «sartorial» certamente decaiu - embora não ao jantar. João Carlos Espada, Expresso, ontem.
Lembras que eu fiquei embaralhado com uma mulher que tinha vindo cá fazer entrevistas? Um espécime magnífico do género. A senhora voltou agora, a encontrei na festa de início de semestre. Conversámos, estavámos num bar, conversámos muito e ela me beijou, softly, e depois me disse "I'm trouble". Then she walked away. Você não tem ideia de há quanto tempo eu não encontro uma mulher assim! Mesmo que nunca mais a veja, I know I still love women! it's girls I'm sick of, my brother...
Acho que não transmiti bem o evento, but lets just say it was a moment from the classics. The way she did. A Bacall moment, like in To Have and Have Not (quando Hollywood payed more script writers than FX men, this one was written by Papa, mas também Faulkner, Graham Greene e outros escreviam filmes nesta época, as you know).
"You know you don't have to act with me, Steve. You don't have to say anything, and you don't have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and... blow."
T.h.
Adenda:By the way, bela foto da Bacall. Mas como sabes, com ela era mais a voz do que qualquer outra coisa. Uma voz que transmigrava, como a tal pilgrim soul do Yeats, não lhe pertencia. Passou dela para a Kathleen Turner - d'onde saiu para passear nas curvas da Sra Rabbit- e agora está em vias de possuir (no sentido Exorcista da palavra) o magnífico corpo da Scarlet Johansson. E a miuda é nova, mas pelos vistos sabe alimentá-la. A Voz, as you know, vive de whiskey, cigarros e estilhaços dos homens que passam pelo caminho.
Será que o português do Brasil e o português de Portugal Continental (para excluir os Açores e não complicar) são uma mesma língua? Depende. Não certamente no Consulado Brasileiro de Nova Iorque. T. havia subliminarmente sugerido que eu não fizesse uso do meu esforçado sotaque carioca, tentando poupar-me ao embaraço. Em retrospectiva, creio que foi um erro seguir o seu conselho. Cheguei a ter a segunda via que ele me pedira nas mãos, mas logo o funcionário detectou "um ligeiro sotaque português" no meu lisboeta cerrado e me pediu o documento de volta, com tal nervosismo que por momentos senti estar na posse de um segredo militar. "Não podemos fornecer estes documentos a estrangeiros", adiantou o homem. Tentei argumentar, lembrando que se tratava apenas de um formulário. Em vão. Enfim, uma cena típica de repartição pública, mas com um hygiaphone vindo da Torre de Babel. Sei que a minha dicção não é exemplar e por isso desacelerei o discurso, soletrei, infantilizei a fala. Disse, tornei a dizer, reformulei. Nada. A incompreensão era literal e a pior de todas, porque dissimulada. Mil vezes um chinês, para que a derrota fosse épica. Saí desmoralizado. Contei depois o episódio a T. e ele soltou um desabafo, também pleno de frustração mas que em mim restaurou a lusofilia: "... e essa palhaçada toda por causa do serviço militar! As gloriosas armas latino-americanas só matam estudante desarmado com choque elétrico! Meia dúzia de ingleses põe todo mundo para correr."
* Os posts com referências ao amigo T. formam a partir de hoje a série "T.h.". Com a inclusão do "h" perde-se em encriptagem mas ganha-se em sofisticação. Há uma série de criaturas estimáveis com "T.H." no nome.
A recusa de um prémio havia sido, até então, episódica. Um escritor mais consciencioso, outro mais oportunista, nenhum desportista. Não se sabe por que motivo de repente se tornou habitual e a seguir uma moda. Galardoados caprichosos eram como uma praga de gafanhotos em greve de fome sobre as viçosas folhas das plantações. Havia emulação e peer pressure. Um recusava um Pulitzer, vinha nas notícias, e logo alguém juntava os populares para o verem enfiar a medalha da associação recreativa na sarjeta; fulano desprezava um Nobel por carta, sicrano ia à cerimónia e humilhava a Academia Sueca durante o seu discurso. Sempre a subir. Foi preciso fazer algo. Universidades, comités vários, governos, federações desportivas e ordens profissionais tentaram então uma resposta concertada, não sem alguma ironia baptizada de Devolução Preventiva. Tratava-se de um esquema simples. A atribuição do prémio era noticiada pela manhã, depois de se assegurar que o premiado não estaria disponível nas horas seguintes para uma declaração pública. Antes da hora do almoço era emitido um segundo comunicado, com a anulação da atribuição do prémio e um parágrafo assassino que arrasava a reputação do ex-premiado. Viveram-se a seguir anos de verdadeira guerrilha intelectual, com queda de todos os indicadores económicos e do alento em geral. Na ausência de um representante dos indivíduos passíveis de receber um prémio, a solução diplomática para o conflito era impossível. A atribuição de prémios teve inevitavelmente de ser proibida e recomeçou a florescer como actividade subversiva.
Pá, não tenho mais paciência para estas coisas. Só nos casos extremos, onde, como dizia o velho caçador de nazistas, se trata de velhinhos que perderam o direito de morrer em paz. Mas estes já eram, se ainda tem alguém graúdo vivo é porque se escondeu, não em Bariloche, but with yogurt-eating-russians somewhere in the Caucus*.
Na verdade não é de agora, sempre houve uma enorme diferença entre um gajo na Wehrmacht e um sujeito da Waffen SS ou da Gestapo. No primeiro caso, o gajo nao é melhor ou pior do que um americano que incinera uma aldeia de vietnamitas, ou um português que "desapareceu" angolanos, ou até mesmo os brasileiros que jogaram na selecão de 2006. Bem, é mais complicado, porque várias unidades da SS eram tão somente o equivalente às forças especiais, e há também uma distinção importante entre as unidades de combate e as outras, mas enfim. The point is, já dizia meu velho pai: "um alemão aqui, outro ali, tudo bem, mas quando eles se juntam para formar uma nação é uma péssima ideia." Eu não confio... Até recentemente as leis de cidadania na Alemanha ainda eram um horror, basicamente raciais. Por outro lado, em Israel é assim até hoje, se me permite uma sobreposição cretina. O que irrita mesmo nisso tudo é que em todos os critérios os austríacos foram muito piores do que os alemães, a percentagem de nazistas na Áustria era muito maior, a começar pelo velho Adolfo and leading up to certified SS man Kurt Waldheim; e, claro, namorando com o Barbie-and-Ken-doll-fascism of Jorg Haider. In the end, como diria o (highly over rated) John Lennon, "everyone has something to hide except me and my monkey"... Viste por exemplo no Sunday Times de algumas semanas atrás a história de como os Polacos agradeceram aos Nazis por terem eliminado os judeus poloneses, e que de 1946 a 1950 se esforçaram imenso para terminar o servico?
Do amigo T., o homem mais vezes citado no MI (publicação devidamente autorizada). O que me levou a publicar isto? Apeteceu-me. É relevante para o caso Günter Grass? Tão irrelevante quanto a pergunta.
* Não sei se isto caiu em desuso, mas quando eu era jovem noticiava-se uma longevidade absurda em certas populações de velhinhos (invariavelmente homens, go figure) nas montanhas da Rússia. Supostamente o segredo era a vida ao ar livre e uma dieta baseada em yogurt. Muito yogurt. Não sei se foi um boato que a Danone começou no Brasil. In any case, all I am saying is that if any high ranking nazis are left, they should be centenarians now. Unless they were wunderkids like Albert Speer.
Ela tinha uma enorme colecção de guias da Lonely Planet, só que não viajava. Havia livros sobre todos os lugares. Dizia-me: "Nova Iorque tem de tudo" e eu não a percebia. À quarta noite beijou-me na boca, mas disse depois que ainda era prematuro. Despedimo-nos. Passou-se uma semana antes que me voltasse a ligar. Pediu-me desculpas, pois pensara que o seu velho guia de Espanha teria servido. Voltou a convidar-me para ir a sua casa. Só de manhã reparei num novo Lonely Planet, pousado na mesinha de cabeceira e com o canto da página 12 dobrado. Concluí que havia gostado muito das fotografias.
Em relação a uma eventual visita a Cuba, não acuso qualquer objecção de consciência. Ainda não calhou. Mas não tendo ido lá, de certa forma Cuba já veio ter comigo. Em Dezembro de 2005, na companhia de alguns amigos e com a lembrança do comandante Cousteau reavivada pelo filme The Life Aquatic, fui mergulhar para um atol ao largo do Belize. The scientific purpose of the expedition? Nenhum. Aprender a mergulhar. Vi peixes fantásticos, lagostas, raias e uma tartaruga. Falhei o almejado tubarão, mas de brinde tive uns balseros cubanos. Nos primeiros instantes do nosso encontro, foi quase impossível tratá-los como gente. Décadas de informação noticiosa operam a sua discreta lavagem cerebral e fazem de um balsero, antes de mais, um símbolo da tirania castrista, da fome de liberdade, do desespero e da coragem. Pensava, por exemplo, que a deontologia do balsero o obrigava a jogar-se ao mar sentado numa câmara-de-ar de pneu de camião, munido apenas de uma tábua com que remar as 200 e tal milhas até Miami. Na minha visão açucarada, casais enamorados nem isso tinham e partilhavam um par de braçadeiras encarnadas surripiadas em Varadero ao filho de uma família de turistas. Por isso, foi quase indignado que naquela manhã vi chegar dúzia e meia de Cubanos num barco de pelo menos 10 m, bem pintado a cores garridas, equipado com bússola e até com o requinte de um toldo de lona que os protegia do sol abrasador. Já não se fazem mártires como antigamente, pensei. Com o passar das horas, a história foi melhorando. Tinham construído a embarcação clandestinamente, ao longo de vários serões. Andavam no mar há já duas semanas e as garrafas de água estavam quase vazias. Não tinham feito uma navegação desastrada, como inicialmente julguei. O seu objectivo era chegar às Honduras e daí, por terra, entrar nos EUA, depois de atravessar a Guatemala e o México. Uma volta que implicava ainda passar a fronteira dos EUA a salto, mas que lhes era imposta pela apertada vigilância da Guarda Costeira Americana. A coisa começava a ganhar contornos épicos, mas foi só quando me aproximei do barco e espreitei para dentro que finalmente me senti testemunha da História e, de algum modo, vingado. Emergindo do convés, em posição central, estava o motor. Um motor totalmente exposto. O canadiano quarentão, ao meu lado, soltou: “aposto que é um Belarus”. E era. Senti o coração aos pulos. Um motor dos tractores de Minsk, a fábrica da Bielorrússia, ali, alimentado pelo gasóleo de Chávez e lavrando de esperança – pá! - o mar das Caraíbas. Ah, uma suprema ironia, a tecnologia soviética posta ao serviço de uma fuga para a liberdade. Começava a gostar daqueles tipos. Ao motor de Chevrolet, haviam preferido o de um tractor de Minsk. Podiam ser gente humilde, pescadores e agricultores, mas não resistiram a uma derradeira bofetada de luva branca no Comandante. O canadiano foi ainda mais longe nas deduções abusivas e, não podendo reprimir o seu entusiasmo por aquele súbito regresso aos anos da Guerra fria, logo lhes dirigiu a palavra em russo (a língua de sua mãe). Não houve resposta. De equívoco em equívoco – como se aqueles pobres diabos pudessem ter gozado umas temporadas de estudo em Moscovo... -, aos poucos lá nos fomos entendendo. Entabulei conversa com um deles, que me garantiu, convicto: “Fidel? Não vai morrer nunca. Injecta-se com elixires de $10 000 todas as noites”. (continua)
Coulter clearly knows better. I conclude that the trash-talking blonde bit is just a shtick (admittedly, a clever one) calculated to make her rich and famous. (Look at her website, where she whines regularly that she is not getting enough notice.) Her hyper-conservativism seems no more grounded than her faith. She has claimed that the Bible is her favorite book, she is rumored to go to church, and on the cover of Godless you see a cross dangling tantalizingly in her décolletage. But could anybody who absorbed the Sermon on the Mount write, as she does of Richard Dawkins, "I defy any of my coreligionists to tell me they do not laugh at the idea of Dawkins burning in hell"? Well, I wouldn't want Coulter to roast (there's not much meat there anyway), but I wish she'd shut up and learn something about evolution. Her case for ID involves the same stupid arguments that fundamentalists have made for a hundred years. They're about as convincing as the blonde hair that gets her so much attention. By their roots shall ye know them. Jerry Coyne
Não sei se esta criatura é conhecida em Portugal, mas se, fruto da habituação, o Delgado, o Espada e o César das Neves já não dão a moca do costume, Anne Coulter é claramente o caminho a seguir.
A modernidade, ao acelerar as relações, e a vivência urbana, ao impossibilitar o galinheiro, tornaram a mulher dependente da fidelidade canina e a melhor cliente das lojas de animais. Há pouco mais de uma geração, o homem apaixonado lutava com o fantasma do amante ideal imortalizado nos romances cor-de-rosa. Hoje, o seu maior rival chama-se Bobby, Tareco ou - nos casos de pedantismo extremo - Napoleão Bonaparte. A mulher fez as contas à vida e percebeu que a esperança de vida de um cão é três vezes superior à do casamento. Alguns gatos vivem mais de 20 anos, quase umas bodas de prata. E um papagaio bem ensinado pode soltar tiradas como Humphrey Bogart mesmo após as bodas de ouro. Para alguns homens esta é a situação ideal. Quando se diz que não há nada melhor do que ser amante de uma mulher casada, esquece-se a condenação social, que pode frustrar os frívolos, impedidos de frequentar os bons restaurantes, bem como a cumplicidade com a mentira, que pode minar a consciência dos escrupulosos. Uma mulher livre e com bicho em casa é uma solução de compromisso. O homem sabe que terá sempre uma posição subalterna mas a presença do animal alivia-lhe as tarefas e a responsabilidade. Os amores estivais deixam assim de ter estação. Feita a ressalva, é inegável que para os românticos da linha ortodoxa o futuro não é risonho.
A imagem do homem nunca esteve tão má como agora. Parece que os livros de literatura feminina propagandeiam a ideia de um homem imaturo, egoísta e infiel. Artigos de vulgarização da ciência cimentam tal opinião, fazendo as escapadelas do macho tão inevitáveis como a estocada do escorpião no dorso da rã durante a tal travessia fluvial. Perante os factos, a mulher jogou pelo seguro, matando dois coelhos de uma cajadada. Não só trocou o homem, como na troca o deixou sem o seu melhor amigo, o cão.
A reacção do homem foi de desistência. Ele tinha já a preguiça natural e a capacidade de abstracção suficiente para preferir animais de estimação de baixo investimento afectivo. Ganhou depois a alienação que o levou ao cágado e daí, numa escalada vertiginosa, a qualquer exemplar de taxidermia, como uma cabeça de javali embalsamado. É verdade que ainda opta pelo cão, mas só o faz para atrair raparigas quando vai à rua passear o animal, mal sabendo que se sujeita invariavelmente ao papel de pau-de-cabeleira.
Do outro lado da barricada a obsessão por animais não pára de crescer. Por acidente, levou-me a cumprir a fantasia de muitos homens: dormir com duas mulheres. Só que tudo tem um preço e hoje apenas sobra o relato, um exemplo da incontornável decadência moral e - como se verá - física do macho. Vivi um curto idílio com A., uma adorável parisiense da Butte aux Cailles. A. tinha uma cadela, Marie-Dominique, que se movimentava sob os lençóis com o à vontade da toupeira em solo brando. Numa madrugada talhada para o erotismo, quando da rua vinha ainda a frescura da noite mas se sentia já a fragrância dos pólenes e a ténue luz da alvorada que embeleza os corpos, acordo num crescendo de prazer e quase toco nos estuques do tecto, sustentado pelos efeitos antigravitacionais do sexo oral. Quando regresso ao colchão e me viro para o lado, reparo que A. dorme como um anjo. Após este episódio, a relação não durou mais de uma semana. Via-me numa perpétua tortura por estiramento, de um lado puxado pelo bom senso, que me impedia de desiludir a rapariga, do outro lado agarrado pela verdade, que me açoitava com a lembrança de uma conversão acidental mas inegável à zoofilia. Anos volvidos, conheci um rapaz que me confessou uma história semelhante com uma mulata de Manaus, dona de um jacaré bebé. Senti-me tomado por uma compaixão imensa e não pude reprimir um abraço. Depois chorámos.
Como sair disto, admitindo que se saiu inteiro da primeira vez? Não tenho uma solução óbvia. Uma mulher economicamente autónoma numa sociedade ocidental está hoje mais perto do ideal de liberdade que é a existência solitária bem-sucedida do que o homem. Ela tem a competência biológica para gerar prole e atenuou a dependência passional, podendo olhar para o homem como um par de testículos ambulante ou um brinquedo sexual gratuito mas com zero anos de garantia. O homem, feito à imagem e semelhança de Deus, bem pode protestar, mas a autocrítica - é sabido - não é um dos pontos fortes do Senhor. Pois bem, se assim é, chegou a hora de o homem tomar o seu destino em mãos e usar outro modelo. Por exemplo, um Golden Retriever.
À vossa saúde.
José Miguel Júdice publicou um artigo sensato sobre os exageros da cruzada antitabagista. Em causa, um anúncio de emprego que discrimina fumadores e uma interpretação à letra da proibição de fumar em espaços públicos fechados, que negou o charuto à personagem de Winston Churchill numa peça apresentada em Edimburgo. Estes dois episódios são péssimas notícias para a causa dos não-fumadores e dão aparentemente razão a quem vê numa ambição razoável - proibir o fumo em espaços públicos fechados - a ponta do iceberg de uma cruzada antitabagista que faz dos fumadores criaturas a exterminar.
Qualquer polémica tem as suas franjas de fanáticos, que ambos os lados tentam instrumentalizar. Os nossos fanáticos são úteis, porque deslocam a solução de compromisso para o nosso lado; os fanáticos dos outros são úteis também, porque dão uma imagem caricatural de todos os oponentes, incluindo os mais moderados. É evidente que o episódio do charuto censurado, como outros, foi e será explorado até ao limite, elevado à condição de cena de um capítulo que estará bem próximo se se ceder às pretensões dos não-fumadores. Ora, responder a um deslize de fundamentalistas com a costumeira reacção é uma forma de se perpetuar, com inegável animação, o estado das coisas. Mas por mais divertido - ou preocupante, como diriam os caçadores do politicamente correcto - que tudo isto nos pareça, convém recordar alguns factos e chamar de volta o bom senso.
1. Durante décadas, e mesmo depois de serem conhecidos os malefícios do tabaco, o direito do não fumador a não fumar não foi salvaguardado.
2. A proibição de fumar em espaços fechados encontrou sempre resistência, mesmo em casos que hoje todos aceitam, como não se poder fumar dentro de aviões ou elevadores.
3. Há uma literatura científica que tem continuado a crescer, detalhando e sistematicamente confirmando os efeitos graves para a saúde do fumo inalado de forma passiva.
4. Em países onde a legislação que proíbe o fumo em locais públicos foi mais longe, como nos EUA, surgiram já situações de claro abuso e de perseguição. Em todo o caso, anos depois de a lei ter entrado em vigor em Nova Iorque, não preciso de binóculos ou de armadilhas para descobrir um fumador. Houve uma mudança de hábitos, apenas e só. As pessoas saem dos restaurantes ou dos clubes e vão fumar à rua. Costumam ir em grupo. Às vezes em subgrupos, para dizer mal de alguém que ficou lá dentro. Com um pouco de sorte, conhecem outro ostracizado lá fora e não regressam à mesa. De resto, está por fazer um estudo que relacione a alteração da dinâmica social com a proibição do fumo em espaços públicos fechados, mas os resultados talvez ajudassem a convencer os mais cépticos. E posso testemunhar que na última representação de Glengarry Glen Ross, de David Mamet, na Broadway (rufo de tambor), um dos actores fumou durante o primeiro acto e (rufo a subir de intensidade) talvez fosse até um cigarro sem filtro. Se a um simples empregado de uma imobiliária não é negado este direito, quem ousaria esconder os charutos de Winston Churchill? Quem? Macário Correia? Vindo de Tavira? Em suma, o que vejo não é trágico e se isto sucede numa cidade com um Inverno rigoroso, não me peçam para ter pena dos fumadores da lusa pátria.
Em Portugal, esta polémica tem gerado momentos divertidos, como a comparação que Macário fez entre lamber cinzeiros e beijar fumadoras, o habitual grito de liberdade de Manuel Alegre quando se proibiu o fumo no Parlamento, um artigo ignorante de Pulido Valente (VPV) quanto aos malefícios do tabaco sobre os fumadores passivos, um facto ainda desconhecido no século XIX e, claro, a já longa série de crónicas de João Pereira Coutinho (JPC), que em breve estarão reunidas num único volume patrocinado pela Tabaqueira SA. Os exemplos de Macário e de Alegre anulam-se mutuamente num choque de absurdos. Já VPV e JPC vão beber à mesma fonte e têm um fundo de razão. É verdade que para alguns loucos fumar está associado a uma imagem de fraqueza moral e os impulsos desta gente devem ser combatidos, embora fosse escusado mentir. O essencial é não confundir as lutas que se travam. Parafraseando Franklin D. Roosevelt, esses fanáticos não são os meus filhos da mãe, são, na prática, os filhos da mãe de VPV e JPC.
A minha história preferida dos delírios antitabagistas, que tem já alguns anos, é a do cigarro de André Malraux, apagado dos selos franceses ao bom estilo soviético do retoque de fotografias. Estamos perante o cúmulo do disparate, mas qualquer pessoa que vá hoje a França perceberá que a profecia do selo de Malraux ficou, digamos, aquém das expectativas. O cenário do totalitarismo higienista não passa de um exercício de retórica que infantiliza os cidadãos. E enquanto se perde tempo com estas diversões, fica por fazer o essencial.
As judias casadas de Brooklyn e arredores saem à rua com perucas porque a sua religião não permite que mostrem o cabelo a outros homens que não o marido. Muitas usam perucas caras, feitas de cabelo verdadeiro. De onde vem esse cabelo? Da Índia, onde as mulheres cortam as longas cabeleiras no templo de Tirupati, desfeando-se perante uma estátua de Venkateswara, como pagamento de uma promessa atendida.
(Contado por uma colega e sujeito a confirmação.)
O eterno retorno do emigrante é a única forma de tirar férias do seu país.
No seu texto, Pacheco Pereira refere-se à ausência de conflitos armados em território europeu, mas há alguma falta de rigor quando diz que a sua geração (recuemos 5 ou 10 anos, se necessário) não conheceu a guerra. A tal paz europeia de 1945-90 inclui pelo menos duas guerras coloniais. É evidente que uma guerra disputada à distância não tem um efeito directo sobre os civis do país que desloca as suas tropas. Dito isto, Pacheco Pereira é particularmente infeliz (e não me refiro apenas à ortografia) quando escreve que "pudémos [sic] viver grande parte da nossa vida em paz, em Portugal mais do que no resto da Europa, sem sequer as angústias dos nossos pais e avós..." Em Portugal, portanto, mais do que na Noruega. Escrito assim, as "angústias" do Ultramar desaparecem. Longe de mim pretender implicar com Pacheco Pereira, mas a geração do meu pai foi marcada por uma guerra. Há inúmeros relatos de gente que regressou com traumas. Os retornados são um caso particular de refugiados de guerra e, de certo modo, os 800 000 mil de soldados mobilizados para África são outro exemplo. Consta até que morreu gente. Não é como poder levar com uma bomba dentro do quarto ou um estilhaço a entrar pela janela, mas uma sociedade também fica marcada por uma guerra feita à distância. Creio que estamos de acordo e a minha reacção é do tipo intempestivo, embora haja uma atenuante. Como se sabe, anda por aí um certo revisionismo, que fez do 28 de Maio um fim à choldra, da ditadura de Salazar uma catequese compulsiva e do 25 de Abril uma inconsequente brincadeira de magalas, tendo em conta o prognosticável - ao bom estilo de João Pinto - estiolamento do Marcelismo. Duvido que fosse essa a intenção de Pacheco Pereira, mas para frisar que a Europa vive sob a protecção dos EUA muito me custaria se, por omissão, a experiência de um familiar ferido em combate passasse à História como paintball radical.
- I don’t remember my dreams. Tell me about yours, what's a typical plot?
- Mostly people trying to kill me.
- In color?
-Technicolor, wide screen. When did you stop remembering your dreams?
- A long time ago.
- But as a child you would remember them, right?
- Yes.
- So, you’ve actually lost your dreams as you grew older.
- Literally and metaphorically, I’d say you’re right.
- How sad. We have to find the hole in your conscience from where they are escaping and sew it.
- I think I prefer to leave it as it is. Maybe there’s a reason they’re running away.
- You could be right. God bless you.
- I´m an atheist.
- Oh, don´t worry about that. I've a feeling God will find a way to sneak in through that same hole.