maio 30, 2006

Caravela Redonda de Velas Recolhidas*

Acaba de passar uma caravela East River acima.

* escrito ao abrigo da cláusula que autoriza o uso do blogue durante a semana, para relatar eventos excepcionais, em casos de vida ou morte e quando a soberania nacional está em jogo .

maio 29, 2006

Regressam as raparigas

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Repare-se que a posição de braços da moça reproduz a forma da cadeira. Tenho duas cadeiras daquelas em casa e não resisti a encavalitar uma sobre a outra, mas sem conseguir o efeito desejado. Deve ser da lente que o fotógrafo usou.

Gina Gershon, o melhor lábio superior a Norte do México.

Sempre pela meritocracia

Segundo as especialistas, a melhor cena de sexo entre mulheres não é a do Mulholland Drive mas a do filme Bound. Fui ver e confirmo. 6-4, 6-3, 6-1, vitória em pares para Jennifer Tilly - Gina Gershon sobre Naomi Watts-Laura Harring.

Pub Viagra

Porque também há quem precise de 80 anos para encontrar a pessoa certa.

Gosto deste slogan pela demagogia, que enobrece o produto. Para acompanhar - preferencialmente em registo radiofónico - o meu amigo T. seleccionou há anos a banda sonora ideal:

When you’re weary, feeling small,
When tears are in your eyes, I will dry them all;
I’m on your side. When times get rough...
(e prossegue, em versão instrumental)

(Bridge Over Trouble Water, Paul Simon 1969)

Speed blogging

Aquilo que eu verdadeiramente admirava no Pedro Mexia, enquanto blogger, não era a graça, nem a temática, nem a inteligência, nem a integridade. Era a rapidez. Os mais jovens não se lembram, mas o Mexia chegava a casa às tantas da manhã - ou não chegava a sair, pouco importa - e desatava a postar, zting, zting, como se uma equipa de servos lhe fosse passando bestas já armadas e a ele bastasse apontar e apertar o gatilho. Vão à Coluna , ao Dicionário, ao Fora do Mundo, reparem nos minutos que separam um post sobre Scarlett Johansson de outro sobre Ratzinger (exemplo hipotético). Às vezes são apenas segundos. A coisa aproxima-se de um exercício de associação de ideias e nós víamos o cérebro do Mexia em tempo real. Ou quase.

Um subtítulo

Dizem-me que The da Vinci Code bateu todos os números de bilheteira e que o facto até foi noticiado na BBC, por Portugal ser um país católico. Não li o livro e estou a duas horas de ir ver o filme, para me sincronizar com o mundo, mas fiquei a conhecer a história ontem, pelas críticas. Agora só mesmo aquele esquimó surdo-mudo e dois bosquímanes não estão a par da trama. O que me espanta é não ter havido coragem para adaptar o nome do filme ao mercado português. Com tanta criatividade à solta entre o pessoal que traduz e legenda, Silas, o mau da fita mereceria pelo menos ter chegado a subtítulo. De quem é a culpa? Do futebol, claro, que nos consome a memória e não nos deixa falar de filatelia nem de xadrez. Pacheco Pereira previu isto antes de toda a gente.

Nota: o MI respeita os feriados americanos e hoje é o Memorial Day, o que explica que ande a escrever entradas a uma Segunda-feira. Pareceu-me importante fazer este esclarecimento.

Na ressaca de uma lei

spersem.jpgTanto quanto me pude aperceber, aqui do desterro, e apesar de honrosas excepções, a lei da Procriação Medicamente Assistida foi discutida nos media e na vizinhança com a típica vertigem das causas fracturantes, isto é: a redução do oponente a um estereótipo e o predomínio da opinião sobre a informação. Por exemplo, já vai sendo altura de acabar com o hábito de se equiparar uma das facções a um grupo de beatos fanáticos. Quando Daniel Oliveira escreve que "Deixar de fora mães sós e casais homossexuais é fazer da infertilidade uma punição para os que não cumpram a moral cristã" tem razão e não tem. Tem razão, porque com esta prática a moral cristã acaba por sofrer apenas um pequeno beliscão, por comparação a uma lei mais universal que não limitasse o direito à Procriação Medicamente Assistida a casais heterossexuais ou que vivam em união de facto há pelo menos dois anos. Não tem razão, porque depois de transpostos o preconceito religioso e a tradição, subsiste um argumento, o mesmo que sobrevive nas discussões sobre os direitos de adopção. Não ignorando que esta lei em concreto levanta uma constelação de outros dilemas éticos, a questão central, que se deduz, às vezes se enuncia, mas, por algum motivo, não se discute além dos choque de opiniões inabaláveis, é esta: será que os direitos das futuras crianças são prejudicados se a Procriação Medicamente Assistida (disponibilizada pelo Estado) servir também mães solteiras e casais de lésbicas com problemas de fertilidade?

Entre os maus argumentos, há os pegajosos e escorregadios. Os argumentos pegajosos são produto da xenofobia, do racismo ou do fanatismo religioso, não têm ponta de lógica por onde se lhes possa pegar e facilmente os reconhecemos. Os outros, os escorregadios, são mais caprichosos. Também se desmontam, mas é preciso não ter medo do escorrega. Sem mais rodeios, uma criança filha de mãe solteira está em desigualdade face a um filho de um casal heterossexual por três motivos que não admitem grande discussão: não beneficia da estabilidade financeira (e outras) do casal (esqueçamos a taxa de divórcios, para simplificar), a probabilidade de ficar órfã aumenta e pode ser vítima de discriminação, óbvia ou subtil (podemos discordar do preconceito social, mas isso não o faz desaparecer). Diz-se também que a criança precisa de um pai (de um homem) e de uma mãe (de uma mulher), algo que a opinião pública aceita sem verificação empírica e que me parece mais discutível. No caso dos casais de lésbicas, sobram dois dos argumentos anteriores (admitindo que a desigualdade de direitos em relação aos casais heterossexuais estivesse já corrgida): o estigma social e a suposta vantagem de ter um pai de cada sexo. Aceitemos todos os quatro argumentos para os podermos desmontar por atacado, mesmo sabendo que num caso nos estamos a vergar e no outro não existe consenso. Aceitemos tudo. E daí? Por acaso algum direito fundamental da criança está a ser posto em causa? É verdade que a situação não é a ideal, mas não é isso que acontece em todo o lado e a qualquer hora? Há algum Estado que assegure condições ideais e homogéneas de nascimento? Será que quem nasce filho de um casal das barracas tem a vida tão simplificada como um bebé em berço de ouro num casarão da Lapa? A pergunta era retórica, mas por acaso alguém se lembra de proibir a natalidade nos bairros de lata? E, tendo em conta que a inteligência e a beleza são características com base genética que ajudam a singrar na vida , os filhos de gente burra e feia ficam a perder à partida para a descendência de casais bem-parecidos e espertos, certo? Retórica ainda, mas, que eu saiba, os delírios eugénicos passaram de moda. Por que motivo então esta discriminação das mães solteiras e dos casais de lésbicas? Que critérios se aplicam? Onde traçam a fronteira? Que direito essencial é esse que se nega à criança? Estará sua liberdade, segurança pessoal ou personalidade jurídica em jogo? Não se tratará, pelo contrário, de um caso de intromissão na vida privada dos pais?
Há um argumento que os partidários dos movimentos pró-vida gostam de esgrimir nos debates sobre a despenalização do aborto. Dizem eles que não conhecem nenhuma mãe que se tivesse arrependido de ter uma criança. O calibre demagógico é notável, mas para os que se deixam convencer proponho uma variação aplicada ao caso presente. É que eu também não conheço nenhuma criança que esteja arrependida de ter nascido, mesmo desconhecendo o pai, conhecendo-o mas não o podendo ter em casa ou não beneficiando dessa coisa aparentemente única e imprescindível que é o lar heterossexual.

Imagem: gâmetas de ouriço-do-mar.

maio 28, 2006

The Great White Hope

É pouco provável que venha a surgir um peso-pesado branco capaz de arrancar o título das mãos dos boxers pretos, mas no rap, mesmo sendo impossível esclarecer quem é o melhor rapper da actualidade, é inegável que de Vanilla Ice a Eminem o progresso entre a rapaziada branca foi assinalável. Vanilla Ice, que a Charlotte recorda, era um rapper caricatural. Não espanta que depois se viesse a converter num hardrocker de dreadlocks patético e a fazer outras afinações em função do que estivesse a dar no momento. A última vez que ouvi falar dele foi como inquilino numa Quinta das Celebridades da TV americana. No tema que o celebrizou, o melhor é a linha de baixo, roubada do tema Under Pressure, dos Queen. Faz sentido. Raios, passear na blogosfera dá uns flashbacks violentos.

Contra o Mundo

Em visita à Polónia, o Papa Ratzinger resolveu lembrar que hoje, como no passado, "também há pessoas que querem falsificar a palavra de Cristo e retirar a verdade ao Evangelho". E preveniu que se procura "criar a impressão de que tudo é relativo e que mesmo as verdades de fé dependeriam da situação histórica e da avaliação humana". Isto foi geralmente interpretado como crítica indirecta a um romance de aeroporto, sem pés, nem cabeça. Parece um exagero. A não ser que Ratzinger tome o sucesso do Código da Vinci como um gravíssimo e simbólico sinal dos tempos. Convém não esquecer que o mero nome que tomou, Bento, o de um monge da Idade das Trevas (que, apesar de "revisões" recentes, merece inteiramente a sua velha fama), revela o que ele pensa do mundo moderno.

O Bento original (480-547) fundou uma ordem com uma regra austera mas sensata, os Beneditinos, que nos quatro séculos seguintes foi decisiva na resistência à barbárie (tanto económica como política) e ajudou a conservar a herança clássica e a unidade e força da Igreja na maior e mais profunda crise da Europa. Embora reafirmando a esperança (porque, no fim, Bento e a Igreja acabaram por sobreviver e triunfar), a visão de Ratzinger é sombria. Sombria e lúcida, porque desde o Vaticano II, que ele sabe de onde vem o perigo: da heresia populista (a de Brown, por exemplo), da exegese bíblica e da investigação histórica, em que a Igreja, com razão, não vê grandes diferenças.
O catolicismo (e o cristianismo, claro) é, lugar-comum, uma religião histórica, no sentido prosaico em que assenta numa história: sucedeu isto e aquilo, Jesus disse isto e aquilo. Qualquer alteração, deturpação ou interpretação heterodoxa dessa história agride ou enfraquece a Igreja, até, ou principalmente, se for fundada e, pior ainda, indiscutível. Em grande parte, Ratzinger chegou onde chegou, por nunca pactuar com a gente que proclamava a primazia do inquérito académico e científico: ou seja, como sempre, o regresso à mítica pureza da origem. Contra ela, invocou a tradição e a autoridade, que a define e sustenta. Só que a tradição também está, por natureza, sujeita a escrutínio. O próprio poder do Papa vem de uma passagem, a passagem das "chaves", de autenticidade muito duvidosa (Mateus, 15- 18,19). Daí para baixo, nada, ou muito pouco, é sólido. Ratzinger conhece a fragilidade da Igreja e suspeita com certeza que a reforma esconde o caos. Para ele, como para Bento, basta por enquanto aguentar. De certa maneira, não se engana. Vasco Pulido Valente, Público, hoje.

Resposta aberta ao jovem Tiago Galvão

Talvez, mas estou em paz com o meu lado feminino, no fundo a única mulher a oferecer garantias de persistência eterna.

maio 27, 2006

Paco de Lucia (1947-)

Texto para breve, que este senhor merece empenho.
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Obviamente, desmentiu-o

delgado.jpgNem a Ditadura nem o Estado Novo interromperam a democracia em Portugal. Apenas substituíram um regime terrorista e que nunca conseguiu encontrar um ponto de equilíbrio por um autoritarismo formalizado, o qual nem sequer impediu grande número de adesões, da esquerda à direita. É por isso que o regime de 1976 herdou dele mais do que julga. Luciano Amaral, no Diário de Notícias, via 1bsk.

Sobre o naco de prosa de Luciano Amaral, o Alexandre Andrade sugeriu o essencial, desmentindo-o, mas pareceu-me oportuno ilustrar este exercício de esvaziamento a montante do 25 de Abril. Escolhi uma imagem de Humberto Delgado, no Porto, em 1958, durante a campanha para uma eleição presidencial de mérito democrático duvidoso. Anos depois, em 1965, seria assassinado pela PIDE, num acto de terrorismo de Estado seguramente perpetrado por um antigo operacional da Primeira República infiltrado nas estruturas da PIDE. A tese do terrorista septuagenário infiltrado não é validada por nenhuma das descrições do assassínio de Delgado e o leitor deve ter presente a remota possibilidade de o Professor Luciano Amaral ter abusado do detergente nesta operação de branqueamento, ou então de algum opiáceo.

HAPPY HOUR: Ventríloquos embutidos

Leffe.jpgOs ventríloquos eram quase todos maus. A gente percebia que a fala do boneco vinha da pessoa. Por outros motivos, o número do ventríloquo é hoje anacrónico e a profissão senescente. Se a censura abranda e o decoro se vai, ninguém precisa de um boneco para dizer as bojardas mais picantes ou inconvenientes. O que então se passou foi um dos fluxos migratórios mais subtis da História. Nuns casos, o boneco saltou para dentro o corpo do ventríloquo (é o tipo I); noutros, foi o ventríloquo a instalar-se dentro do boneco (o tipo II). Alguns desses remediados fizeram-se colunistas de jornal e consta que nem sequer passaram por um daqueles cursinhos de reconversão profissional pagos com dinheiro de Bruxelas. Do mal, o menos.
Para calibrar, enumero en passant alguns exemplos de colunistas que não são exemplos desta curiosa fauna: Pacheco Pereira, António Barreto, José António Saraiva, Clara Ferreira Alves, Vasco Graça Moura e João Pereira Coutinho, entre muitos outros. Quanto às aves raras, são exemplo do tipo I Vasco Pulido Valente e Maria Filomena Mónica. O lado humano ainda predomina. O boneco tenta saltar, mas bate invariavelmente com a cabeça nas meninges. Às vezes deve doer. A ambos. O resultado é uma espécie de enfant terrible esforçado da República, alguém que vamos lendo e de quem esperamos comentários fortes. Eles lá vão cumprindo, dispensando até a moedinha que o velho elefante do jardim zoológico pedia para tocar o sininho. Um comenta em público um convite (que não foi uma circular, seguramente), com uma indelicadeza que está à medida do conteúdo da resposta, vazia de sentido. Semanas antes, na linha da cruzada contra a cruzada anti-tabaco, publica uma crónica cheia de erros factuais, prontamente denunciados por um médico em carta enviada ao mesmo jornal e nada, não responde, não se retracta, está acima de toda a gente. Faz parte da figura e a plateia aplaude. O outro, no meio de um debate sobre o ensino dos clássicos da literatura, desabafa - «Só se fuzilássemos todos os que têm andado a fazer os currículos» - e os professores abandonam a sala, mas a malta deve ter gostado. É mais um número de circo. A mesma pessoa "arrasa a Casa da Música", quase que aposto num exercício clássico à la Princípe de Gales cuja leitura, de tão previsível, se dispensa, mas a malta rejubila. Daqui a 50 anos, ninguém lerá este epifenómeno, só que os filhos da malta frequentarão a Casa da Música, entretanto recuperada da terraplenagem.
O tipo II é ainda mais curioso e, pela sugestão lúdica, só aparentemente menos nocivo. Aqui vemos o boneco. Todo o exterior parece uma caricatura. Sentimo-nos atraídos para as criaturas como curiosidades de feira. As mais das vezes, ao contrário do que sucede para o tipo I, prevalece uma sensação de incredulidade. Um boneco humanizado sempre espanta, mesmo depois das novidades japonesas. São exemplos João Carlos Espada e João César das Neves, sendo também de realçar o sazonal Luís Delgado, que só exibe este comportamento em período eleitoral. Eles não nos seduzem pela retórica, antes pelo insólito. Como geram ódios de estimação, que são quase uma forma de simpatia, depressa chegam a ícones culturais, colhendo até o apoio de quem, discordando deles, quer parecer exótico e ir contra a corrente. Com tal dinâmica, a verdade é que conseguem ir marcando a agenda, viciando as discussões e distraindo-nos. Fazem remoinhos.
O cúmulo do espectáculo surge quando um ventríloquo de tipo I se engalfinha com um ventríloquo do tipo II. São situações raras, mas o combate seduz porque é difícil tomar partido. Nunca se sabe quem luta, se a parte que é boneco ou a que é humana. Seja como for, salvou-se uma profissão e oxalá o artesanato encontre tão airosa saída.

À vossa saúde.

Outra gente, minha gente

Por exemplo, um paramédico condutor de ambulâncias. Não sendo propriamente a personagem do Bringing out the Dead, o primeiro título do blogue foi Why I Hate Humanity, mas depois the antipsychotic medication seems to have kicked in, de modo que agora se chama Random Reality, com a epígrafe trying to kill as few people as possible. Pode ainda ser reflexo condicionado de esquerdista, mas ler um condutor de ambulâncias é infinitamente mais sedutor do que ler a malta gira, os jovens deprimidos ou professores universitários em prosa poética, e um pouco mais original do que acompanhar o diário de uma prostituta. Cito sem grande esforço na busca: I used to swim. I used to swim a lot and so it was a nice surprise to be called back to one of the swimming pools that I used to spend so much time in. Unfortunately it was for a drowning.
Na mesma linha, recomendo o recente Memórias do Cárcere, escrito pelo "único presidiário [português] com um blogue". Será mesmo o único? É irrelevante. Que pena cumpre? Não se sabe. Pode ser encenação? Pode. Mas até agora é credível e pareceu-me diferente. Lá se escreve: o tempo que me permite estar no sistema bloguístico já deu para perceber que existem muitas semelhanças entre nós, os cá de dentro, e os outros, os aí de fora. A única diferença é que nós cumprimos pena, enquanto os outros relatam a sua. É giro sentir-me em casa. Não fico indiferente ao facto de ter o MI na lista de enlaces. É coisa que vale por uns 3 ou 4 enlaces vindos do Abrupto.

maio 26, 2006

Lembrete

Não contar aos velhos
Que sei o que sentem
Sempre que os mais novos
Dizem que estão velhos

Rui Costa

RuiCosta.jpgRui Costa regressou ao Benfica e eu estou feliz não sei por que razão pois marimbo-me para o Benfica e na verdade nunca consegui explicar esta fixação num gajo que não explode como o Futre explodia não tem o carisma for lack of a better word do Figo nem faz aqueles truques de circo do puto Cristiano já para não falar na finura de toque do Zidane mas não sei pá ele pega na bola com cabeça levantada uma elegância natural e o catavento que o norteia tem a direcção certa ou tinha é verdade que hesito no tempo verbal ele que me perdoe pois um tipo que sabe rematar de longe e é magrinho merecerá para sempre o meu respeito para mais com aquela pinta não excluo que o aspecto aquele ar de ciganão também joga nesta equação sobretudo nestes tempos em que os jogadores de futebol são modelos de passerelle é reconfortante confirmar que o Rui Costa de óculos escuros de marca e relógio caríssimo ainda é um tipo de Chelas e a gente pensa que ele abafou o relógio não? mas mesmo com uma ligeira má pinta dá a impressão de ser irre irre irrepreensivelmente porreiro o mais porreiro da fornada e então se assim é como não haveria eu de estar feliz por ele estar feliz mesmo não sendo de me emocionar com regressos de filhos pródigos fico feliz pois fico algo embriagado até ao ponto de dizer que ele ainda faz falta na selecção e agora nem hesito no tempo verbal e vou mais longe fará falta fará sempre falta como talvez faça falta deixa ver deixa ver o Peyroteo aliás em jeito de remate e para explicar como vejo isto se não insisto mais para que o Peyroteo jogue na selecção não é por ele ser demasiado velho mas sim por eu ser demasiado novo e quem lembrar agora que o Peyroteo já morreu pode até não ser demasiado novo mas é suficientemente estúpido ah Rui Costa tu não és da geração d'ouro tu és platina o que de mais parecido ao Platini uma pátria habituada a parir só volfrâmio produziu e o melhor é ficar por aqui que este jeito de elogiar futebolistas não fica bem. Dito.

Os limites da experiência pessoal

Os argumentos forjados pela experiência pessoal tendem a persistir pelas piores razões, que são a cegueira de quem os formula e o respeito de quem os escuta. Um exemplo: pensava que a praxe académica decente era possível, pois essa foi a minha experiência, como caloiro (a beber todas as palavras de um brilhante falso professor) e como "veterano" (sem peso na consciência). Obviamente, estava errado.

Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida*

LA.gifIsto de olhar para as novas editoras portuguesas que brotam com a exuberância dos cogumelos é como apostar nos cavalos. O meu palpite - $20 - vai para a Livros de Areia. Razões? Publicam em tempo real livros de autores - Gordon Frankfurt e Jerzy Kosinski - que eu leio no original, ofereceram-me um livro, pagando até as despesas de envio - compraram-me, está visto - e não abusam da mailing list, escrevendo só de vez em quando. Levaram-me também a citar o líder dos UHF, António Manuel Ribeiro, o Jim Morrison do Barreiro; trata-se de uma ocorrência cuja improbabilidade roça o impossível e que me deixa ligado à Livros de Areia por um fiozinho de baba cósmica, assim imperceptível, mas onde a luz vai brincando. Estribilho: todos à banca da Livros de Areia.

* Cavalos de Corrida, António Manuel Ribeiro (1980)

maio 21, 2006

Uma gaffe

Pergunto a um colega distante se já foi pai. Responde-me que a criança morreu antes nascer. E logo o protocolo de emergência, o pedido de desculpa - "não esperava que soubesses, caso contrário não terias perguntado...", respondeu ele - o cérebro a 100 à hora, a procura de outro assunto.

- Como vai a ciência?
-Tenho um Nature Structural Biology in press.
- Parabéns.

Percebendo que havia criado o momento ideal para me despedir, é o que faço.

maio 20, 2006

Vaidade, inveja e vacuidade

Carrilho2.jpgApoiei Carrilho na corrida para a Câmara de Lisboa. Carrilho publicou agora um livro em que reflecte sobre as razões da sua não-vitória e é o saco de porrada da nação. Ou foi, que estas coisas acontecem a uma velocidade que não é compatível com um ritmo de escrita hebdomadário. Tenho o dever de estender a mão a Carrilho nestes momentos de adversidade. Resta saber se é para o tirar da lama ou para render alguém nesta amona colectiva que lhe aplicaram.
Não lerei o livro de Carrilho, o que me deixa ao nível de grande parte dos comentadores - excluindo Mário Mesquita e Rui Dâmaso -, mas quem se interessa por política tem obrigação de saudar a obra. A regra em Portugal e por aí fora, perante a derrota, é ficar-se calado. Ora, há mérito em continuar a espernear dentro do caixão. A obra de Carrilho é, à partida, o correspondente simétrico das dezenas de livros que se publicam durante as campanhas sobre o pensamento político ou a vida do candidato, que são obras hagiográficas, demagógicas e inúteis. Sucede que nesta comparação Carrilho sai imensamente favorecido. Escrever depois de perder, por mais alucinado que seja o estado do escriba, é mais interessante, porque a derrota exige mais de nós do que a vitória. Trivial.
Qualquer discussão sobre Carrilho desemboca no seu narcisismo. E este livro foi logo catalogado como mais um exemplo da pulsão narcísica do filósofo. Confesso que acho graça. As pessoas falam do narcisismo de Carrilho como se o tivessem desmascarado e, na posse do seu segredo, todas as suas acções ficassem explicadas e esvaziadas de outro sentido que não o da satisfação do ego. Este comportamento gera situações divertidíssimas, como ler Clara Ferreira Alves a denunciar o narcisismo de Carrilho. Clara Ferreira Alves e o narcisismo não bastaria? Não será a evocação de Carrilho - digamos - redundante? Convenhamos que esta explicação de Carrilho é insuficiente. Olho à minha volta e vejo pulsões narcísicas por todo o lado. Tipos que publicam livros com a sua cara a sair das margens da contracapa, gente que vai à televisão falar do que não sabe, outros que falam do que sabem mas com uma gula mediática que não admite outra explicação, malta que anda a escrever na blogosfera há mais de três anos, apenas para agradar, marcar presença, ser lido. Abreviando, a pulsão narcísica toma conta de toda a gente. Sobra a questão de grau. Será que Carrilho é um narciso ainda mais paciente do que o comum dos mortais? Sim e não. Carrilho é vaidoso, mas a minha linha de defesa na sua candidatura à Câmara não ignorava tal facto, antes pelo contrário. Ele parecia-me capaz e a sua vaidade um trunfo. Eu queria acoplar o ego de Carrilho a Lisboa. Depois do desaire, continuo a defender que a vaidade individual, quando justificada, deve ser aproveitada para o bem de todos. O que aconteceu a Carrilho foi uma castração pública com o machado a ser manuseado pelos virtuosos putativos de serviço. Fizeram-no friamente, aproveitando-se de um outro sentimento popular: a inveja. Ao contrário da vaidade, que tolera bem a nacionalização, a inveja tende a ser instrumentalizada e posta ao serviço de interesses individuais ou de segmentos da sociedade. Carrilho foi mais uma vítima, que tombou não por ser incompetente, mas por ser vaidoso. Há nesta história uma vacuidade confrangedora.
Portugal é uma nação de oportunidades perdidas. Carrilho foi mais uma. O homem tentou adaptar-se ao país e esse talvez tenha sido o seu erro maior. Porque sendo ele espantosamente vaidoso, a verdade é que continua aquém do seu verdadeiro potencial. É ainda o Portugal Amordaçado que se manifesta, agora instalado no inconsciente. O nosso filósofo é frequentemente comparado a Jacques Lang, o antigo ministro francês da cultura, mas, se me permitem, uma comparação mais esclarecedora é com o mega-mediático-multimilionário-escritor-filósofo-jornalista-bon vivant-sex symbol BHL, Bernard-Henri Lévy. Percebe-se a dimensão estratosférica de um homem quando a sigla do seu nome precede o nome propriamente dito. É o caso de BHL. Pois bem, Carrilho mais não é do que um BHL reprimido. Tudo nele é uma versão diminuída de BHL, uma adaptação de BHL ao território nacional tímida e falhada. Ambos são filósofos, mas BHL tem uma obra mais ambiciosa. Ambos escrevem, mas Carrilho não tem o talento do ficcionista. Ambos casaram com grande pompa e com mulheres mediáticas, mas a cintura de Bárbara Guimarães perde perde para a de Arielle Dombasle, Bárbara é vedeta de tevê, Arielle estrela de cinema, Bárbara soletra, Arielle canta. Ambos têm amigos famosos, mas se BHL priva com Yves Saint Laurent, a Carrilho parece ter sobrado Eduardo Prado Coelho. BHL tem um pensamento político, Carrilho sente-se atraído pela política. E por aí fora. Pergunto:que futuro tem este homem se o país não tolera a sua vaidade, mesmo quando a sua cabeleira de romântico só existe ainda em pensamento? Somos uma triste nação sob a ditadura da falsa modéstia.

Imagem: os casais Bárbara Guimarães-Carrilho (à esquerda) e Arielle Dombasle-BHL (à direita).

maio 19, 2006

Questões Fracturantes da Língua

DavidBowie.jpgPersonagem: excluindo alguns nomes próprios - Marlene, Mimi, Necas, etc - estamos em presença do caso mais gritante de androgenia lexical na Língua Portuguesa. Metade diz no feminino, metade no masculino. E na elite que chega a escrever a palavra, a coisa ainda vem bipartida. Fica por saber se o mesmo indivíduo vai mudando de opinião, se grafa "a personagem" de Junho a Outubro, por lhe soar mais estival, e "o personagem" de Setembro a Abril, ou se a escolha é aleatória e independente das Estações. Aprendi entretanto que a discussão é algo arcaica e ninguém deixa de ter razão. A palavra aos sábios: "o Dicionário Electrónico Houaiss da Língua Portuguesa (...), o dicionário Aurélio – Séc. XXI, o Dicionário da Língua Portuguesa – 2003 (Porto Editora) e o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências), todos eles consideram personagem um «substantivo de dois géneros». Daqui se depreende que, ao contrário da opinião do referido gramático brasileiro [Dicionário de Questões Vernáculas, Livraria Ciência e Tecnologia Editora, São Paulo, Brasil] (...), ‘personagem’ (já) não é uma palavra exclusivamente do género feminino: o seu uso dentro dos dois géneros assim o dita". Estas soluções consensuais aborrecem-me; fazem-nos menos ignorantes do que de facto somos. Ora, um linguista não se quer magnânimo, antes implacável. Haverá alguma mudança social que aconselhe "personagem" a passar a substantivo de dois géneros? Desconheço. Algum argumento do foro estético, como o que devemos usar para erradicar essa foneticamente obtusa palavra que é "poetisa", em favor de um "poeta" como substantivo de dois géneros? Nenhum. É por isso que dou voz ao autor do citado e desautorizado dicionário, que se mostra peremptório no modo como contesta a masculinização da palavra em questão: "é um francesismo". Nem mais. Tendo em conta que o linguista se chama Napoleão Mendes de Almeida, o argumento sai reforçado e eu estou com ele.

Imagem: David Bowie

O segredo

Vivia na aldeia um homem discreto, com quem os outros homens simpatizavam, por ser cordial e ter bom ar. Pelo mistério, teria também atraído as mulheres, isto - claro - se chegasse a ir aos bailes. Mal se dava por ele em grupo, mas na companhia de outra pessoa era capaz de ficar a falar pela noite fora e a conversa era depois retomada passado um dia, ao relento se era Verão, a um canto da taberna se fazia frio. Dependendo da cumplicidade, ao quarto ou quinto serão ele sempre falava do "terrível" segredo sem grandes rodeios. Contado o segredo, experimentava um certo alívio, vergonha e total desconforto, sempre por esta ordem. No dia seguinte, faltava ao encontro e não tardava a descobrir outro parceiro para reiniciar o ritual. Passaram-se anos, até que chegou o momento em que todos os homens da vila estavam a par do segredo. Virou-se então para as mulheres e começou a ir aos bailes, mas havia poucas raparigas solteiras; em poucos meses todas elas estavam a par do segredo "terrível". Na impossibilidade de encontrar a quem contar o segredo, o homem emigrou. Por ser ainda novo e não ter de voltar a mudar de lugar, escolheu uma grande cidade.

HAPPY HOUR

À atenção de quem lhe escrever a biografia

Guinness.jpgGosto de sentir o orgulho que Pacheco Pereira tem pelo seu trabalho e o gozo manifesto que a coisa lhe dá. Digo isto sem ironia. Repito: digo isto sem ironia. É verdade que Pacheco exagera e aquela esdrúxula série "Retratos do Trabalho", um elogio do trabalhador sem atender à qualidade da fotografia, já cansa. Há anos que Sebastião Salgado subiu a fasquia e, como se não bastasse, toda a gente percebe que o melhor elogio ao trabalho que se faz no Abrupto é a figura do próprio Pacheco Pereira, com o seu vigor e os "early morning", outra curiosa série cuja única missão é fortalecer o estereótipo do académico madrugador e laborioso (alguém lê aqueles poemas?). Este meu fascínio pela paz de Pacheco Pereira leva-me a extremos picarescos de culto da personalidade, como ter forjado esta máxima algo castiça: crescer é aprender a trocar a marmelada pela Marmeleira. Como se sabe, a Marmeleira é a vila onde Pacheco instalou a biblioteca, o escritório e - presumo - a luneta com que observa os astros. Percebemos que Pacheco está em harmonia com os elementos quando se encontra na Marmeleira. E queremos uma só para nós.
Devemos pois fazer um esforço para perceber os ódios de estimação de Pacheco Pereira: Louçã, oito nonos dos jornalistas e o futebol. À primeira vista, o ódio de Pacheco ao futebol parece ser puramente programático, visando fazer contraponto, velejar à bolina do entusiasmo das hordes bárbaras. Assim se percebe que Pacheco escreva sobre futebol como se o desporto só existisse em Portugal. Como se o fascínio pela bola explicasse o atraso de Portugal em relação a Inglaterra ou a Espanha. E como se a euforia que aí vem a propósito do Mundial na Alemanha fosse um sinal da "vitória póstuma do XVI Governo Constitucional" (Santana e os seus rapazes), uma ideia peregrina com o valor de uma metáfora. São exemplos que se acumulam, e é talvez caso para perguntar se esta obnubilação de Pacheco Pereira quando cresce o entusiasmo colectivo pela bola não terá raízes mais profundas, de tipo traumático. Ao discutirmos a psique do comentador é costume referir o passado maoísta, mas eu arrisco aqui uma tese inovadora e primordial: em criança, Pacheco era sempre mandado para a baliza e viveu a infância como um frangueiro.

À vossa saúde.

maio 14, 2006

Férias-fantasma

butch.jpg
- Do you want to join me for a Butch Cassidy/Sundance Kid excursion to Bolivia?
- Pá, contigo vou até ao fim do mundo. That´s not the point. When? How? For how long?
- Acho que nao fui claro: this would be forever babe, you, me, 4 six-guns and 1/2 of the bolivian army. You can pick, Newman or Redford, I don't mind.
- Em princípio diria "Newman", mas o Redford tem bigode nesse filme, certo? Não resisto a um bigode loiro.
- Great, I get to say “Kid, the next time I say: 'Let's go someplace like Bolivia,' let's GO someplace like Bolivia”. You get to say:”you just keep thinking Butch, that's what you're good at". And you get the moustache of course, but I get the funny hat. Something for everybody.
- …
- O roteiro do Bo Goldman é uma das pérolas do cinema. O gajo tem momentos de gênio e também escreveu, anos depois, o Princess Bride. A cena toda é ótima, isto é diálogo como não se escreve mais em Oliúde:

-Sundance: What's your idea this time?
-Butch: Bolivia.
-Sundance: What's Bolivia?
-Butch: Bolivia. That's a country, stupid! In Central or South America, one or the other.
-Sundance: Why don't we just go to Mexico instead?
-Butch: 'Cause all they got in Mexico is sweat and there's too much of that here. Look, if we'd been in business during the California Gold Rush, where would we have gone? California - right?
Sundance: Right.
Butch: So when I say Bolivia, you just think California. You wouldn't believe what they're finding in the ground down there. They're just fallin' into it. Silver mines, gold mines, tin mines, payrolls so heavy we'd strain ourselves stealin' 'em.
Sundance: (chuckling) You just keep thinkin', Butch. That's what you're good at.
Butch: Boy, I got vision, and the rest of the world wears bifocals.

-Can you reimind me of the woman I´m getting?
-Katherine Ross, em grande forma.The catch is, we share.
-Who goes first?
-I think it´s you. But I get to do her on a bicycle.
-That´s fine. Keep the bike as a consolation prize.

Da Patagónia ao Alasca, das praias da Baía às de Goa, dos projectos incontornáveis - Machu Pichu, Ilha da Páscoa, Expresso do Oriente - à única peregrinação que importa - as Ilhas Galápagos -, passando pelas cidades que são como as nossas cidades - Buenos Aires, Roma, Edimburgo, Rio de Janeiro, Berlim, Estocolmo -, pelas outras - Pequim, Tóquio, Deli, Istambul, Cairo, Cusco - e por tudo o que é paisagem - as florestas da Costa Rica, o Quilimanjaro, o Blue Hole do Belize, Yellowstone, o Nilo, o Amazonas, Moçambique, Fernando de Noronha -, visito em planos todos os lugares e chego até a bisar - "Ah, Patagónia, foi bom voltar".
O problema das férias passa por três fases, a saber: 1) quando se é novo falta dinheiro; 2) quando se tem dinheiro falta tempo; 3) quando há tempo e dinheiro começa a falhar a saúde. Uma das escapatórias possíveis é sonhar. É por isso que combino férias com toda a gente. 2007: tenho dois meses programados para a Baía e um tour do Brasil, uma ida ao Peru, o Bloomsday em Dublin se até lá acabar o Ulisses, um casamento na Índia, que com alguma sorte acontecerá e um pouco mais de sorte ainda incluirá elefantes, uma Viagem a Buenos Aires com a família, uma ida aos Açores e uma passagem meteórica por Quioto, estando ainda a ponderar explorar as Filipinas, se os diapositivos de uma amiga que por lá andou se revelarem convidativos. Dinheiro para isto? Não há. Tempo? Também não. Saúde? Toda. Aliás, desconfio que chegarei à fase 3 sem ter passado pelas anteriores.
Há dois tipos de amigos que contribuem para alimentar estas fantasias: os que são cúmplices - como o rapaz com quem tive o levemente babélico diálogo supracitado - e os que nos inspiram, isto é, os amigos que efectivamente viajam - como a moça dos diapositivos. Os cúmplices são uns tristes, como eu. Culturalmente bulímicos e até viajados, a verdade é que passam a vida a limar planos megalómanos que nunca levarão a cabo. Quando lêem no New York Times um texto de Edward Albee - o dramaturgo que escreveu Who´s Afraid of Virginia Woolf - sobre uma visita à Ilha da Páscoa à beira do seu 78º aniversário, comovem-se e sentem-se aliviados. Eles não sonham com a eternidade, apenas reclamam por uns vinte aninhos vigorosos de bónus. No fundo, anseiam pela chegada em vida de uma pílula que revolucione o turismo como o Viagra prolongou o sexo. Não querem excursões a Veneza enfiados com outros reformados num autopullman, antes um todo-o-terreno para, como dois mongóis, sujarem as ruas de Budapeste com a lama seca da Ásia Central.
O outro grupo de amigos é aquela malta que surge bronzeada no Inverno, mas não à custa de um fim-de-semana na Serra Nevada. A coisa envolve sempre troca de hemisfério terrestre, um mês de aventuras e os malfadados diapositivos, que deram entretado lugar às ainda mais virulentas fotografias digitais. Eles mantêm o sonho e seriam à partida seres estimáveis. A verdade é que os odeio, porque não se distinguem dos demais a não ser na sua prodigiosa capacidade de tirar férias. São bem-sucedidos nas suas carreiras, ninguém os deserda e dão-se ao trabalho de escrever da Birmânia postais aos amigos. São impecáveis, cheios de vida, gente com quem adoraria viajar e que até me convida para isso. Só que nunca vou e por isso ainda os odeio mais. Como os odeio quando me dizem que quando vierem os filhos não vão poder continuar a fazer o que fazem. Mas até este ódio é descabido. Bem vistas as coisas, para um turista de sonhos acordados a chegada de uma criatura que não o deixa dormir só irá contribuir para que viaje ainda mais: " ding dong, última chamada para o voo 736 das 3 da manhã com destino a La Paz". Enfim, I just keep dreaming, that´s what I´m good at...

Imagem: do filme Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969)

O fim-de-semana

Uma ilha rodeada de tempo por todos os lados
Onde dá à praia o náufrago dos dias inúteis

maio 13, 2006

A Revolta dos Fiscais

canto.jpg Tenho andado a pensar em pôr o Mundial da Alemanha ao serviço da prosa. Um caso claro de parasitismo, portanto, que enfrenta dois problemas. Por um lado, pesco cada vez menos de futebol. Por outro, muitos escreverão sobre bola nos próximos tempos. Ora, mesmo sabendo que a busca descarada da originalidade é algo muito pouco original, creio que encontrei o meu nicho. Escreverei sobre a figura do fiscal de linha. Os textos aparecerão a qualquer dia da semana, durante o Mundial. E por agora é tudo, que isto foi apenas um alçar de perninha com mijadela de encontro ao tronco. Fiquem com o Ronaldinho, que eu tenho o bandeirinha. Assim ninguém se chateia, embora haja o risco de todos se aborrecerem.

Das musas

mendonca_diana_2_0.jpgSerão as Musas inimputáveis? Se o poeta, entregando-se à sua musa, deu o que tinha e, visivelmente, ainda mais do que não tinha para burilar um poema frouxo, de quem é a culpa? O Direito ainda não chegou aqui, não há Jurisprudência, ninguém arriscará sequer um mestrado. Tampouco os clássicos nos iluminam, embora anunciem o problema, pela genealogia e pela taxonomia. Filhas de Zeus, o banco de esperma do Olimpo, as Musas canónicas saem mais à mãe, Mnemosine, deusa da memória. De outra forma não se explica que tomem conta da nossa cabeça, aquele ensimesmamento. Os efeitos secundários do abuso de musa, noutros tempos circunscritos à franja populacional que são as pessoas cultas e sensíveis, têm hoje, por dois motivos, uma altíssima prevalência epidémica. A começar, os antigos não estiveram com meias medidas: de um conjunto inicial de três, rapidamente criaram nove. Nove musas, um package ao nível das promoções da TV cabo mais agressivas. Temos Calíope, para a poesia épica, Euterpe, para a Música, e mais sete, incluindo Urânia, para a Astronomia. O apelo do zapping criativo é insuperável. Como se não bastasse, as Ninfas podem substituir as Musas, contribuindo para a descentralização dos serviços. Ainda assim, tudo sucedia dentro de trâmites normais. Havia uma colecção de Musas e Ninfas com selo de garantia, e ninguém as evocava levianamente, por respeito e temor. O verdadeiro descalabro começou quando, por capricho, comodismo ou mania das grandezas, surge a musa pirata. É por desenlaces deste tipo que eu sou pelas cotas de mercado e pelos direitos de autor. Camões foi, também aqui, paradigmático. O bardo conhecia os clássicos mas não se deu por satisfeito e inventou as Tágides, as ninfas do Tejo. Abriu-se então um precedente perigoso e em poucos séculos, numa dinâmica de escalada alimentada por invejas regionalistas, deixou de haver riacho que possa dispensar o seu cortejo de divindades. Até o rio Trancão deve ter a sua ninfa, um mutante genético que emerge das águas em noites de luar, sob o manto diáfano da película de óleo. Não espanta pois que tenhamos chegado à musa de 3º grau, de que é exemplo, justamente, a vizinha do 3º esq. Mas é importante perceber que uma praga de musas difere da dos jacintos de água. A situação é muito mais grave. Por um lado, temos as artes reféns das musas; por outro, ninguém está a salvo de uma tragédia, que espreita como uma sombra capaz de dobrar esquinas.

A total instrumentalização da arte por parte da musa constitui uma perversão da lógica da criação e o fenómeno é particularmente evidente na grande arte do século passado, o cinema. Quem perde tempo nas bizantinices de saber se o cinema deve ou não continuar a ser escravo da narrativa vive em completa negação e passa ao lado da única discussão que interessa. É que o cinema - qualquer cinema - pouco mais é do que uma fábrica de produzir musas. Não serei eu a fazer aqui o inventário de tais criaturas, pois elas desfilam já em rodapé na cabeça do leitor. Tudo nesta - enfim - arte se orienta para tal finalidade, da fantasia ao apuramento estético, da colectiva intimidade e penumbra da sala de cinema à ilusão, dada pelo DVD, de que se domestica a musa.

E por vezes a coisa descamba mesmo. É preciso dizer que estes casos, delicados e melindrosos, só não foram ainda diagnosticados por não serem matéria para clínicos gerais e faltar aos epidemiologistas treino e tacto. A suposta interacção com a musa faz-se na intimidade, sem vigilância. Não há contrato que nos proteja delas, das figuras ridículas que fazemos, da confiança com que nos atiramos para a frente julgando que temos asas para voar. Ícaro? Imprudência e total desconhecimento da temperatura de fusão da cera. Shame on him. Mas, então e o jovem poeta, num sétimo andar de subúrbio, levitando no sopro de sua musa, subindo a persiana, abrindo aquela janela calafetada com fita isoladora Tesa e ganhando o vazio? Suicídio, dirão depois os vizinhos- "escrevia versos". Já outros, inteirados dos factos, verão ali um homicídio involuntário. Mas não nos deixemos tentar, nem ensaiemos a metamorfose impossível - de ética e estética duvidosas - que seria fazer da musa um bode expiatório.

Na génese deste problema está um detalhe prosaico: quem cede à pirataria e inventa uma musa esquece-se geralmente de a avisar. A entrega com que se fascina parece bastar-lhe. Estamos pois perante uma relação absolutamente assimétrica e equívoca. É preciso acabar de vez com este vício, com a ilusão de que podemos ter uma musa a qualquer hora do dia, sem constrangimentos, sem esforço, sem talento; com a ideia, em suma, de que se pode evocar uma musa como quem chama por sua mãe. É por isso que sou de esquerda. O Estado tem obrigação de enquadrar a profissão de musa no sector terciário, de a regulamentar, fazendo aplicar com disciplina draconiana o regime de exclusividade e padrões de exigência elevados na selecção de quem exerce, bem como exigir a maioridade (digamos 34 anos) e uma licença de uso de musa a quem as evoca. Aceitemos que a musa é um bem escasso, que se protege evitando a massificação da procura e da oferta. Também por isso, sou pela meritocracia. Quem não tirar proveito da sua musa, perde a licença. E como há musas e musas, estendo o pessimismo antropológico às divindades. Musa que despreze o seu código deontológico deve ser punida; musa que não cumpra, obrigada a fazer serviço cívico de segunda, como bombear inspiração para as quadrinhas de Santo António.

Enfim, são medidas urgentes, mas que falharão, porque algo sempre falha. Ficaremos de novo abandonados à nossa sorte, e só nos sobrará o bom senso e o mais revoltoso de todos os conselhos, aquele em que se recomenda moderação. Bastará então lembrar que a musa deve voltar a estar para a arte como a lebre queniana nunca deixou de estar para o meio-fundo: nem aquém, nem muito além. Perto da vista, fora do coração.

A imagem mostra Diana Mendonça, mas faço notar que o presente abuso de metáforas é da minha inteira responsabilidade.

maio 07, 2006

A brecha

Brick_Wall.jpg
Brick Wall, Terje Sørgjerd

A política de higienização da cultura não ficou pela proibição da pornografia, do palavrão, da mensagem subversiva e da escatologia, pois logo se seguiu a interdição de pintar, representar, fotografar, dançar, filmar, tocar ou escrever sob efeito não apenas de substâncias ilícitas mas também daquelas que, permitidas por lei, fossem capazes de induzir estados de alma à margem da decência, de alterar a percepção das coisas e dos sentimentos ou de outro modo transformar a pessoa, incluindo-se na lista o álcool, o haxixe, a heroína, os barbitúricos, a cocaína, o crack, as anfetaminas, o ecstasy, os antidepressivos, o LSD, a mescalina e outros alucinogénios, sendo a lista rematada por uma última alínea que estendia a aplicação da proibição a qualquer outro produto por descrever, desde que capaz de gerar os efeitos descritos, sendo irrelevante a sua origem - se sintética ou de remota tribo que o use em rituais iniciáticos. A lei foi depois endurecida, na pena e no espectro, passando a proibir todas as obras que, mesmo havendo sido produzidas num estado de consciência - digamos - natural e sem qualquer referência pornográfica, ordinária, subversiva ou escatológica, estivessem, no plano da inspiração ou por uma vaga sucessão de causas, ligadas a comportamentos censuráveis, não sendo atenuante o facto de o autor nesses enredos ter desempenhado o papel da vítima. Simplificando, se traumas sexuais de infância ou uma adolescência revoltada, entre outros motivos, estiveram indirectamente na origem de um inocente livro de culinária, a obra seria censurada. A estas leis foi depois dado um efeito retroactivo, que na prática acabou com a literatura, o cinema, o teatro e as demais artes. A queima de livros, cópias de quadros e de películas, bem como a reciclagem para a construção civil dos materiais usados para fazer cópias de estátuas, vagou inúmeras bibliotecas, teatros, salas de cinema e galerias, que aos poucos foram sendo ocupadas por uma numerosa equipa de censores com vastas habilitações literárias e recursos tecnológicos, frequentemente artistas eles próprios, que trocaram de nome, de amizades e até de rosto. De cada obra censurada só se guardou um exemplar, numa fortaleza inviolável. Por falta de espaço e algum preconceito, as instalações foram excluídas desta colecção, tendo sido perdidas para sempre.
Alguns críticos desenvolveram uma curiosa argumentação em defesa das novas medidas, sem que por isso tivessem escapado do prisão, pois logo foram acusados de instigar a agitação social. Escreveram eles que a eliminação completa da herança cultural e as novas regras de censura potenciariam a longo prazo a produção artística. Só então, e pela primeira vez desde o Paleolítico, os artistas estavam livres da influência paralizante dos modelos passados, bem como de mecanismos psicológicos primários. A ajudar, o espartilho imposto pelas novas regras forçá-los-ia a encontrar novos caminhos.

Continua no próximo Sábado, tipo folhetim. Até lá, laborem como se fosse urgente agradar a Pacheco Pereira.

Woody Guthrie reinventado

This_land.gif Não creio que Portugal se importará se 10 quilos de areia da praia da Arrifana desaparecerem nas próximas semanas. A possibilidade de poder dizer aos meus convivas americanos, diante do aquário, algo do calibre de um "this sand is my land" justifica o esforço. Querendo Deus ajudar na alfândega, o homem sonha, a obra nasce.

Imagem: manscrito de "This land is your land" (1956), de Woody Guthrie.

Lamento estancado

Queria estar casado e divido a renda da casa com um amigo.
Pintar o quarto do bebé em vez de andar a montar um aquário.
Sentir-me realizado profissionalmente ou ter uma ideia do que se trata.
Viver mais perto da minha família e da minha cidade.

Mas o amigo é dos bons e nunca deixa as cuecas na casa de banho.
De água salgada será o aquário.
Estou sempre a uma experiência de me reconciliar com a Biologia.
E família ainda me visita em Nova Iorque, que não fica no Minnesota.

Some of the less musically inclined

woody Allen.jpg The worst thing is the waiting. Arturo has a guitar but can only play "Cielito Lindo", and while the men rather liked to hear it at first, he seldom gets any more requests for it. (...) Those of us who were not in the raid set around camp while Arturo favored us with some "Cielito Lindo". Morale remains high even though food and arms are virtually nonexistent and time passes slowly. Luckily we are distracted by the three hundred degree heat... (...) I, of course, remain loyal to the cooking but the men still do not seem to appreciate the dificulty of that assignment. The fact is, my life has been threatened if I don´t come up with an alternative to Gila monster. (...) Meanwhile we sit around the camp and wait . Vargas is pacing in his tent and Arturo sits playing "Cielito Lindo". (...) Finally, with frustrations at peak, Arturo struck up "Cielito Lindo" and some of the less musically inclined ones in the group took him behind a rock and forced-fed him his guitar. Viva Vargas!, de Woody Alleen, história originalmente publicada na Evergreen Review e depois na colectânea Getting Even (1966).

Não consigo argumentar que Viva Vargas! seja a melhor das histórias do Woody Allen de 1966-1975, mas posso explicar a preferência. Qualquer músico medíocre sabe que a sua vontade de tocar é superior à vontade que os outros têm de o ouvir. Este desajuste é causa de grande sofrimento. Daí eu gostar tanto de Arturo, o músico dos revolucionários que só sabia tocar o Cielito Lindo. A tragédia deste guitarrista funciona para criar tensão (efeito que se perde quando junto todas as referências a Arturo) e não é essencial à história, que conta em registo de diário as desventuras de um anti-herói sob as ordens de Emilio Molina Vargas. A história lembra um filme de Allen posterior, Bananas (1971). Por causa da espera, a frustração cresce entre os revolucionários. Eles torram sob o sol do México, estão forçados a uma monótona dieta à base de carne de lagarto ("Gila monster"), acumulam derrotas e sentem-se tentados a desertar. O final acaba por ser feliz para os revolucionários, que conquistam acidentalmente o poder, mas Allen não nos informa se Arturo recuperou da tortura e chegou a ministro da cultura. Reli hoje a história, na sua língua original. O "forced-fed" é uma expressão poderosa e não tenho presente qual a opção que o tradutor tomou na versão portuguesa que li na adolescência. O certo é que me marcou, ao ponto de ter andado anos com sal e pimenta dentro do estojo da guitarra, não fosse o diabo tecê-las. É claro que os anos vão limando estes desvarios; hoje em dia faço-me acompanhar de um boiãozinho com moutarde de Dijon e entretanto aprendi a tocar mais duas canções.

É mais fácil erguer uma catedral do que uma doutrina

O argumento de que a posição do Vaticano face ao preservativo é consistente (quem segue os ensinamentos da Igreja pode dispensar o sexo seguro) deixa por explicar a existência do confessionário.

Ainda mais grave

Não é possível desagradar a Gregos e a Troianos.

Balthazar

O problema de ser viver em Nova Iorque como se não houvesse amanhã é que se fica falido por volta das três da tarde e ainda sobra meio dia pela frente.

maio 06, 2006

1 spoiled man

Am4.jpgUma pessoa que deixa o seu país para se estabelecer noutro é um emigrante. Quem se estabelece num país que não é o seu, um imigrante. Sucede que estas definições, sendo feitas para uso do povo que se deixa ou que acolhe, coincidem no indivíduo que muda de país. O emigrante sente-se também imigrante, e vice-versa. Por sorte, a proximidade fonética entre as palavras é tal que numa conversa ninguém repara neste nosso instante de atrapalhação, mas vou preferindo recorrer ao termo "migrante", que é menos intrusivo e evoca os voos migratórios das aves, a coisa alada (passo a EPCiana).
Se um emigrante é um cidadão com menos direitos e a um imigrante sucede o mesmo, o migrante é duplamente lesado na sua cidadania. Quando tentei arranjar um segundo emprego, não tive hipótese, porque o meu visto de trabalho quase gera uma situação de exclusividade (para obter outro emprego é necessário um novo visto, que custa dinheiro à entidade patronal, fazendo de mim um candidato menos competitivo do que os cidadãos deste país). É claro que este lamento soa a autismo social, tendo em conta a quantidade de imigrantes ilegais que trabalham em condições por vezes de total exploração. Mas mesmo nesta aparente integração social em que vivo, não deixam de se acumular exemplos de diminuição dos direitos. Estou é limitado à minha nada heróica experiência e a barafustar por circunstâncias apenas aborrecidas, como não poder ausentar-me do país durante os meses em que o visto está a ser renovado.
Recebi há poucos dias uma intimação para ser jurado num julgamento. É possível que talvez me viesse a aperceber da estucha de tal função, mas por momentos fiquei entusiasmado. Fazer parte do júri de um julgamento na América, eis uma missão de cidadania que me interessava, rica, possivelmente única, plena de material para reflexão futura e, como se não bastasse, capaz de confundir o mundo do cinema com a realidade. Na cartinha assustavam-me com o aviso em letras garrafais de que estava obrigado a responder em 10 dias úteis, reparo inútil, pois a minha vontade era fazê-lo na volta do correio. Só que durou pouco o entusiasmo. Ao perceber que aquela brincadeira de adultos não era para mim, por não ser cidadão americano, quase me esqueci de mandar a carta dentro do prazo. Talvez o envio às cegas destas notificações seja inerente ao processo de selecção aleatória de jurados, mas não custava nada que o estado se limitasse a incomodar os seus cidadãos, em vez de deixar alguns dos imigrantes que acolhe ligeiramente amuados. Enfim, antes assim, para bem da justiça. Nesta minha ânsia de fazer de Henry Fonda, o mais certo seria ter contribuído para um erro judicial.

Imagem: fotograma do filme 12 Angry Men (1957)

Carrapatoso, de viva voz

Carrapatosofotojoaotuna.jpgSe há profissão que admiro é a de compositor. A música é, de longe, a expressão artística mais interessante e encurto já a discussão. Só na música a complexidade formal pode passar completamente despercebida, ignorada, até incompreendida, mas ser, ainda assim, gozada, apreciada na plena posse da nossa ignorância. Há um nível primário de fruição que atinge uma intensidade sem paralelo noutras artes. Nestas, como a literatura ou a pintura, só a aprendizagem permite chegar a tais patamares de desfrute. Acresce que também na música a aprendizagem de quem ouve funciona em proveito próprio. Por outras palavras, o patamar está mais alto à partida mas com o tecto ainda longe; a margem de progressão é enorme. Este efeito deve ser particularmente gratificante para um compositor, dando-lhe alguma margem de manobra, e não sei até que ponto não terá contribuído para a evolução da música ocidental, que me parece excepcionalmente rica e vertiginosa.
Talvez por esta razão, tenho um orgulho especial em conhecer compositores. Recordo com muita ternura as aulas de harmonia que o João Madureira me deu, com base nos clássicos da Bossa Nova, de guitarra ao colo. E embora a minha amizade de longa data com o Pedro Amaral não se explique pela circunstância dele ser compositor, tenho pelo seu percurso e métier uma indisfarçável admiração.
Foi já há muitos anos que ouvi do Pedro uma frase que me fascinou e que desde então passei a usar tão amiúde quanto possível: "andava como quem voa baixinho". Por sorte, não é preciso um bando de estorninhos para envergonhar os poucos voadores rasantes que fui acumulando na memória. Mas mesmo não tendo cometido assim tantas vezes o pecadilho de aplicar a frase sem referir a autoria, não deixo por isso de aproveitar a ocasião para corrigir a falha. O autor destas palavras não é o Pedro, mas um seu amigo, o também compositor Eurico Carrapatoso. Parece que as terá dito referindo-se a uma colega, Constança Capdeville.
Às vezes uma frase basta. Apesar de não ter o hábito de publicar correspondência e textos de outras pessoas, abro sem mais demoras uma excepção em forma de pequeno tributo, para dar voz a Eurico Carrapatoso, num bem-humorado e revoltado texto, que esconde uma tragédia: os leitores conhecerão certamente a música do autor visado mas não a do autor do texto. A tragédia, para que não sobrem dúvidas, é toda vossa.


"Nunca tive outra opção que não fosse a música: tirei um curso geral secundário de Administração e Comércio, ligado à contabilidade, que ainda hoje não me serve para nada porque a única matemática com que me entendo é a matemática da música: o três por quatro, o quatro por quatro, o três por seis ". Toy, revista da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)

(...) Na secção "três por seis", boutade que tem tanto de notável quanto de alvar, eu tive um sentimento misto de comiseração cristã e de gozo mafarrico, debruado em citações de Groucho Marx do tipo "se tivesse um cavalo, chicotear-te-ia!". Mas a culpa não é do Toy. De facto, a revista da SPA, a putativa revista dos autores portugueses, é que ultrapassou todas as marcas quando lhe deu, na sua última edição, um espaço de 3 páginas inteiras, numa entrevista de fundo onde triunfa de novo o prosaico, a anedota, e o boçal. E é nestas ocasiões que reflicto sobre alguns assuntos, tais como: abandonar pura e simplesmente a instituição que me representa como autor e que, simultaneamente, me emporcalha. É também nestas ocasiões que, finalmente, consigo perceber melhor o carácter profundamente antidemocrático das afirmações de Fernando Pessoa quando se refere ao povo numa prosa contundente. De quantos anos vai precisar ainda a SPA para realizar que, chamar compositor ao Toy, é o mesmo que chamar neurocirurgião ao bruxo de Nozelos ou ao curandeiro de Arruda dos Vinhos? Que uma coisa, é o conhecimento paciente e extremamente exigente, por via erudita, de matérias da mais alta transcendência, quer na sua forma, quer no seu conteúdo, conhecimento esse sustentado em dezenas de anos de estudos, de subtilezas universitárias, de pesquisas, de leituras, de contactos, de discussões, de seminários, de conferências, de descobertas, de progressos pessoais tantas vezes projectados num alcance benemérito do qual a sociedade é a primeira beneficiária. E que outra coisa, bem diferente, é o conhecimento castiço herdado por via popular de mezinhas e outras intuições, que, merecendo-nos uma simpatia condescendente, tem o valor que tem e apenas esse. E isto não é pedantismo. Poupem-me. Citando o outro, "É a Cultura, estúpido!"
Eurico Carrapatoso, compositor.

A vida

Investimento a fundo perdido.

Sem pejo

Azulejo.jpgA ignorar este rapaz, não conheço ninguém na blogosfera mais obcecado com os seus ortográficos do que eu. Que a expressão pública desta preocupação é uma estratégia para atenuar reprimendas parece-me trivial, mas a interpretação é algo redutora. Não são só os meus erros que me fascinam. O erro ortográfico informa-nos sobre a pessoa e o modo como nos relacionamos com ela. Ora, a blogosfera é o meio ideal para este exercício de contemplação dos nossos erros e dos erros alheios. Ao contrário do que sucede nos fóruns e chats, onde o erro é demasiado abundante ou simples gralha fruto do desleixe ou da rapidez com que se escreve, na blogosfera que leio há cuidado posto na escrita. Mas como o texto sai revisto apenas pelos olhos viciados do seu autor e muito boa gente não recorre aos revisores de ortografia automáticos, não se chega à desoladora assépsia ortográfica dos livros e dos jornais, onde o erro é menos frequente e publicamente anónimo (esta regra tolera o excepcional José Manuel Fernandes; nos tempos em que o lia, abundavam os erros e gralhas, não sei se por o director do público ser mal-amado entre os revisores, se por escrever os editoriais sobre o joelho e já ao som das rotativas).
Raramente aponto erros ortográficos. Registo, mas não me dou ao trabalho de avisar a pessoa, a menos que se trate de um amigo que também se preocupe com estas matérias ou de uma celebridade. Neste último caso, a coisa não se faz com inocência; apontar um erro ortográfico a Pacheco Pereira é como espetar uma bandarilha num touro de ganadaria afamada.
Desfiz-me dos comentários, em parte, por não lidar bem com os erros ortográficos de quem visitava o MI e não gostar de ser corrigido por estranhos em público. Quando escrevi "bébé", logo uma leitora tratou de me cortar a orelha e gozar um triunfo de novilhada. Foi há um ano, mas ainda sangro. Com as correcções feitas por amigos e familiares lido muito bem, agradeço e até melhoro o presente de Natal. O erro ortográfico é uma coisa íntima e, ao contrário das opções gramaticais de mérito duvidoso, não admite discussão. Deve ser corrigido à porta fechada. Não espanta pois que a um Batman da Mealhada ou outra das aves raras que andam por aí, prefira que seja a minha mãe a fazer o reparo, mesmo quando a palavra em questão é "escroto" (based on true events). É que os meus erros ficam a pairar durante décadas, como o remorso. Quem abrir o meu armário não descobrirá nem um cadáver, mas ficará soterrado por uma enxurrada de letras. Um exemplo? Recuemos aos anos da Prova Geral de Acesso, no final da década de oitenta: saio da sala com a noção de ter conseguido alguns parágrafos inspirados e até coerentes, vou confiante, o futuro é uma auto-estrada sem portagem, mas fico em sobressalto quando começo a ver "pejurativo" escrito em todas as paredes, como se alguém as tivesse pinchado, para mais com o requinte de ter copiado a minha horrenda caligrafia. Apercebo-me então que grafara "pejurativo" no raio do teste. "Pejorativo", palavra que à época metade dos meus amigos não conhecia e a outra metade dizia mal ("prejorativo"), estava claramente acima dos meus recursos linguísticos e, por sorte, também acima dos recursos dos professores que me corrigiram a prova. Salvo do percalço académico pela mediocridade alheia, a verdade é que foi preciso deixar o país e esperar mais de 15 anos antes de trazer a público este episódio.
Não devo ser o único a experimentar este desconforto e as diferenças que encontramos no modo como se reage ao erro ortográfico são de grau. Quando, ao corrigir um "saiem", a vítima - é o termo - me agradece cordialmente mas sente necessidade de rematar com um "não temos nada contra a perfeição", isto é melhor do que um retrato-robô. Quando vejo um revisor na televisão lamentando um erro logo na primeira página de um livro qualquer que editou, percebo a sua dor, aqui agravada pela sua condição profissional. Há um livrinho de contos de vários autores portugueses em que num texto de Rui Zink a palavra "gorjeta" surge como "gorgeta". Um erro menor, mas que atinge o próprio título do conto (precisamente, "A gorjeta") e é repetido várias vezes, manchando todas as páginas. O que terá acontecido ao revisor deste texto? Sim, suicidou-se, mas de que ponte?
Não há vagar nem competência para tratar do que os erros ortográficos nos ensinam sobre a memória, a cognição ou forma como se aprende a língua, nem para analisar o modo como Ricardo Araújo Pereira aproveita o erro ortográfico dos outros para ripostar. Acrescento apenas que o nosso Miguel Esteves Cardoso está completamente errado quando escreve: "os erros ortográficos não têm importância, desde que sejam absolutamente sinceros"(cito de memória). Não terão muita importância, pois quem - autor ou leitor - se deixar afectar por eles ao ponto de ficar incapaz de gozar de texto, está a fazer a figura daqueles melómanos incapazes de reconhecer uma interpretação magistral só porque o músico se esqueceu de uma nota numa passagem rápida. Mas os erros marcam e informam e, nesta medida, têm importância. Saber se são sinceros ou não é irrelevante, pois quase sempre se topa se o erro é genuíno ou uma caricatura. Há aqui talvez uma excepção, mas que acaba por comprovar a importância do erro. Na impossibilidade de eliminarmos a inefabilidade da designação de "intelectual" recorrendo a intelectuais, creio que é tempo de avançar para uma definição prosaica e operacional. Quando se atinge o estatuto de intelectual, afinal? Muito simplesmente, no dia em que, ao dar um erro de ortografia tremendo, um fulano deixa a pairar a hipótese de se tratar de escrita experimental. Um benefício da dúvida que, convenhamos, nunca se concede ao merceeiro.