abril 30, 2006

E depois do adeus (versão americana)

1974porp.jpg- Oh, que linda. É para mim? Obrigada...
- Não é para ti, desculpa. É minha.
- Então por que a trazes? Vais-te encontrar com outra a seguir, é?
- Não. Recebi-a agora.
- De quem?
- De uma amiga.
- Tens amigas muito especiais.
- É o dia que é especial.
- Pois, parece que sim. E um bom dia para ir cada um à sua vida.
- Não sejas caprichosa. A história é complicada.
- Complicada? Agora estou curiosa. A tua imaginação sempre me surpreendeu.
- ...
- Anda, conta.
- Bem, quando eu era muito pequeno vivia-se no meu país sob uma ditadura. Houve depois um golpe militar e quando os soldados estavam a passar perto de uma florista alguém colocou cravos no cano das espingardas. Os cravos passaram então a ser o símbolo da revolução. Até hoje.
- Os soldados que faziam a revolução colocaram flores nos canos das espingardas?
- Sim.
- Então e se tivessem que disparar?
- Foi uma revolução quase sem tiros.
- É surpreendente.
- Sim. É uma história bonita...
- ...É surpreendente a lata que tu tens.
- Não acreditas? Contei-te a verdade.
- Desaparece daqui.
- Não sejas tola.
- Desaparece, não te quero ver mais.
- Sê razoável. A história é verdadeira. Vê no Google.
- Se não te vais embora, vou eu...

(E já alguns metros afastada, gritando)

- Vê se enfias a flor no cu, sacana. Usa uma espingarda para ajudar, se a tua amiga não estiver por perto. Não me voltes a ligar. Nunca mais. Ouviste?

(Depois de uns segundos de silêncio e com a população de transeuntes renovada, ele começa a cantarolar, baixinho, primeiro sua língua materna e logo depois num murmúrio)

- "Quis saber quem sou, o que faço aqui, quem me abandonou, de quem me esqueci, perguntei por mim, quis saber de nós", huummm hummmm hummm...

Imagem: Paulo de Carvalho, circa 1974

Esplendor na relva

Hershey_4.jpgJá devia ter vindo a Laboratórios de Cold Spring Harbor há mais tempo. É um lugar mítico, a Meca tolerável da Genética Molecular, que tem funcionado como ponto de encontro há várias décadas para todos os grandes nomes da ciência que pratico. Há algo que irrita em Cold Spring Harbor: o culto da personalidade do seu director, James Watson. Mas foi também por um desejo de legitimação histórica - mais generoso - que se foi criando um fabuloso conjunto de fotografias dos grandes cientistas que por lá trabalharam, ensinaram ou apresentaram os seus trabalhos. Houve aqui um pressentimento de que se estava a documentar as décadas mais importantes da Biologia, desde Darwin; desde sempre, na verdade, se pensarmos nas implicações futuras destes trabalhos. As apresentações dos simpósios costumam ser reunidas e publicadas numa série que faz parte de qualquer biblioteca de Biologia decente. Quando estudei em Gif-sur-Yvette, nos arredores de Paris, por vezes dava comigo a folhear aqueles volumes e a demorar-me na secção das fotografias dos cientistas, instantâneos dos beberetes e das cavaqueiras que decorriam num dos relvados do instituto. Reconhecia os nomes, associava as caras, via quem se dava com quem, registava as excentricidades. Numa palavra, comportava-me como um leitor da Hola, gozando a frivolidade. Ao pisar finalmente um daqueles relvados, muitos anos depois, ainda houve um sobressalto e um sopro de ânimo. Um arrebatamento.

Imagem: Alfred Hershey, em primeiro plano


abril 29, 2006

Novo MI

MI passará a ser o único blogue português a ser escrito exclusivamente durante o fim-de-semana. Este é, como se percebe, mais um esforço inglório para combater um vício. Também a actualidade, essa puta que me desnorteia, será domesticada. Todas as excitações provocadas pelo que leio na imprensa aparecerão condensadas num único post semanal. Os impulsos infantis - como mostrar Bénard da Costa ao lado de uma lapa e a legenda: "unidos na eternidade" - serão contrariados. A troca de galhardetes com outros bloggers, eliminada sem apelo nem agravo. Desfiz-me também de enlaces e de bookmarks. O Google passou a ser o meu dealer, só para dificultar as coisas. Vou perder amigos, eu sei. Vou perder leitores. Paciência. Na fase autista, ocupar-me-ei das séries que figuram no topo e de uns contos que sairão aos poucos. Uma viagenzinha da blague à boredom. Paciência. Falta cumprir a "Memória Inventada" e tudo o resto tem sido palha. Defendo-me com Thoreau: I should not talk about myself if there were anybody else whom I knew as well. Unfortunately, I am confined to the theme by the narrowness of my experience. Um tirinho no pé.

abril 25, 2006

A Portela ainda é "Nova Iorque"

Maia.jpg

Tudo está a correr de acordo com a ordem de operações. Todas as forças vão atingindo os seus objectivos. A coluna do Regimento de Infantaria 10, de Aveiro, chega junto dos portões do Regimento de Artilharia Pesada, da Figueira da Foz, às 3.40. O comandante é preso. Aguarda-se a chegada das forças do CICA 2, também da Figueira, e do Regimento de Infantaria 14, de Viseu. É o agrupamento Norte que, depois de concentrado, se dirigirá aos seus alvos, controlando um segmento da fronteira com Espanha, ocupando o Forte de Peniche, a Pide/DGS do Porto... Outras forças correm para outros objectivos: quartéis da Legião Portuguesa, unidades da GNR e da PSP, as fronteiras mais próximas, as antenas de rádio... Tudo corre bem. No posto de comando, na Pontinha, apenas uma preocupação: o aeroporto da Portela ainda não foi tomado. A Escola Prática de Infantaria (EPI), de Mafra, deveria ali ter chegado à hora H (às 3.00) para tomar a torre de controlo, ocupar as pistas, interditando a descolagem e aterragem de aviões. Terá corrido mal alguma coisa? Finalmente, às 4,20 recebe-se uma comunicação:

- Nova Iorque, conquistada e controlada!

O aeroporto de Lisboa [código: "Nova Iorque"] está em poder da Revolução!

Dedico esta entrada à União dos Blogues Livres. Pode ser que acusem a cortesia e se inibam de nos recordar, com o dedo espetado, a outra data. Novembro ainda vem longe.

Nota: esta entrada foi publicada há dois dias, naquilo que constitui uma infame antecipação da celebração do 25 de Abril, antes dos versos de Sophia, das outras fotografias de sempre e dos elogios a Salgueiro Maia.

abril 24, 2006

mAMA ou a força de um povo*

Maradona_4.jpg maradona ao Mundial na Alemanha. O objectivo é conseguir convencer um jornal a contratar o maradona para escrever, da Alemanha, crónicas sobre o Mundial de Futebol de 2006. JUNTA-TE A NÓS. O envio de uma mensagem assegura um enlace a partir do Memória. Se não têm blogue, o vosso nome conta a dobrar.
Como ando algo ocupado, agradecia que fossem acrescentando os vossos nomes à lista usando a caixa de comentários (respeitando a numeração, se possível).

NOTA: estou a preparar uma pequena metamorfose no MI, que retirará a mAMA da coluna da direita. A caixa de comentários a esta entrada continuará à disposição de todos.

1. João Pedro Henriques, jornalista, Lisboa.
2. Vasco M. Barreto, biólogo, Nova Iorque.
3. Lourenço Ataíde Cordeiro, arquitecto, Lisboa.
4. (desertou)
5. Francisco Trigo de Abreu, jornalista, Vale do Tua.
6. Paulo Pinto Mascarenhas, jornalista, Lisboa.
7. joão miguel amaro correia, arquitecto nº8763 [cotas em dia], Lisboa.
8. Inês de Maria, intelectual free-lancer, Lisboa.
9. José Rino, cientista, Lisboa.
10. Tiago Galvão, pornógrafo erudito e o melhor escritor do país nos escalões etários abaixo dos 23 anos, Região Norte.
11. João H. de Jesus, físico, Madison.
12. Augusto M. Seabra, crítico, Lisboa.
13. Sara Pais, filha dedicada e cabeleireira frustrada, Lisboa.
14. Jorge Emanuel Espinho, empresário em crise e noctívago, Lisboa.
15. Daniel Rogrigues Valente, técnico de Autocad, Lisboa.
16. Vítor Fernandes, desempregado, Guimarães.
17. Maria_das_Flores, evolucionista, boémia fadista, chinela no pé, um ar de ralé, Cambridge, UK.
18. Vasco Campilho, blogger anónimo, Lisboa.
19. Ricardo Neto Silva, gestor social em declínio de carreira, Nova Iorque.
20. filipe damil vicente, geógrafo com pendor para a fotografia a preto e branco e para a letra minúscula, torres vedras.
21. Tiago de Oliveira Cavaco, pai, músico de "panque", intelectual underground em vias de legitimação pelo mainstream, kierkegaardiano e ex-aluno de EPC, Moscavide
22. Nuno Graça, ex-futuro melhor jogador do mundo, Lisboa.
23. Bruno Miguel Castro, jornalista frustrado, blogger agarrado, Lisboa
24. Duarte Perú, part-timer, Alentejo da Linha.
25. Musaranho coxo, agitadora, Lisboa.
26. Sílvia Vaz Guedes, -, Portugal.
27. Miguel, elemento da banda do Tiago de Oliveira Cavaco, Lisboa.
28. Rititi, gestora, cronista, comentadora televisiva, criativa, substituta da sua mulher a dias, cozinheira ao domingo, leitora da Hola, fumadora compulsiva, dançarina de discoteca de aldeia, Madrid.
29. Vitor Paixão, calceteiro marítimo, sem-abrigo
30. PAC, aspirante a baixista, Lisboa
31. Lúcia Garrido, aspirante a quase tudo, Londres
32. Franciso Bairrão, -, Portugal
33. Ana Cunha, bioquímica, Porto/Coimbra
34. Pedro Lobo, protozoário, S.D. Rana
35. Eduardo A. Silva, bioquímico, Boston e Vila do Conde
36. Afonso Azevedo Neves, -, Portugal
36. Rita A. 53Kg, a descer, Portugal
37. Harry Lime (aka Rui Silva), 34, blogger preguiçoso, cinéfilo furioso e sportinguista desiludido
38. Rui Paulo Lobão Afonso, Técnico de Comunicação (seja lá o que isso for), Braga
39. Bruno Sena Martins, Antropólogo de Interiores, Coimbra.
40. Francisco Mendes da Silva, Advogado, Viseu.
41. Bruno Afonso, informático e biólogo, Boston.
42. Daniel Rodrigues, engenheiro, Geneve.
43. José Mário Silva, platini com minúscula (e geómetra frustrado), Lisboa.
44. David Barreto, professor desterrado, a 500Km de Portimão.
45. Diogo Pipa, lote 484, Olivais, Lisboa
46. Pedro Caro de Sousa, blogger, ignorante e inútil
47. António Calheiros, sniper que vai nu, Coimbra
48. José Nunes, manipulador de falanges e títeres de pelica
49. Gilberto Pereira (poeta, diseur, pseudo-comentador de futebol e portista ferrenho
50. Miguel Nogueira, Porto
51. isabel mendes ferreira.
52. Cãocompulgas
53. Paulo, bulldozer dos relvados e laboratórios, Londres
54. josef v.
55. homemDASneves
56. Nuno Gouveia, Poeta ou nada de nada
57. Hugo Damião Dias, Engenheiro, Valência
58. José Severo, vale-tudista
59. azia, poeta arruaceiro e blogger da triste figura, miratejo-estocolmo.
60. João Macdonald, gajo que não gosta de futebol.
61. Joe Indian, ponta de lança do Carvalhosa Futebol Clube, Prestador de Serviços da Construção Civil, beneficário ilegal do fundo de desemprego, porteiro do Maxime e fodilhão periódico.
62. Vasco (aka Chico-Mauser) - hired-gun. Faço trabalhos no estrangeiro.
63. Luis Oliveira, Fã confesso de sir Karl Popper, Oeiras
64. Vitor Barbosa, masturbador de moscas-da-fruta, Luanda, Vila Nova de Cerveira, Rio de Janeiro, Vila do Conde, Barcelos, Valença do Minho, Porto, Florença, Oeiras, Cambridge, Dundee e Nova Iorque.

(Novas adesões só por correio electrónico)

abril 23, 2006

Mexiana

Também a mim o "bfs" com que alguns rematam as mensagens soa pouco a "bom fim de semana" e mais a outra coisa. Não me ofendo, deprimo. Se nem chego ao acto singular, que fazer daquele plural?

A Barreira de Weismann feita por quem a não lê

Ter filhos - ou filhas, três, no meu caso - passa por ser uma coisa muito agradável. Quando se tem porque se queria realmente ter, realiza-se um sonho. Conquista-se a imortalidade, nem que seja através dos genes. Paulo Pinto Mascarenhas

São três frases notáveis. Detenhamo-nos na segunda. PPM revela-nos que um dos seus sonhos era ter filhos com vontade de realmente os ter. Isto é subtil, porque sugere que há quem tenha filhos com vontade, mas pouca convicção, e, suponho, quem tenha um filho sem vontade de o ter. As razões que conduzem a estes infelizes cenários podem ser várias e a seguinte lista não pretende ser exaustiva: 1) por acidente, errando no calendário e/ou no parceiro; 2) para agradar à mãe ou aos avós; 3) para arreliar a sogra, que preferia ver a filha ou o filho com outra pessoa; 4) por também não haver vontade de o não ter; 5) para testar se havia vontade de o ter; 6) porque o sexo da criança matou a vontade que havia; 7) para assegurar que os negócios continuarão a ser geridos pela família; 8) por se tratar de um imperativo religioso; 9) para calar as insinuações de incompetência no leito conjugal; 10) para justificar a presença em casa da peituda ama-de-leite brasileira; 11) por causa do abono de família ou de outros benefícios fiscais; 12) para gerar mão-de-obra barata; 13) por dever patriótico, tendo em conta a actual pirâmide etária.

A terceira frase é de uma sinceridade comovente: o móbil para a procriação parece ser a conquista da imortalidade, "nem que seja através dos genes". Devo concluir que adoptar um filho, mesmo quando se tem "realmente" vontade de o adoptar, é um sonho de segunda categoria? Na dúvida, espero que passe pelo menos por ser uma "coisa muito agradável".

Acordai: Perdão?

Na homilia, Bento XVI apresentou a ressurreição como "um salto de qualidade na história da "evolução" e da vida em geral para uma nova vida futura, para um mundo novo que, a começar em Cristo, incessantemente penetra já neste nosso mundo, transforma-o e atrai-o a si". Darwin e Teilhard de Chardin estão, finalmente, vingados. Frei Bento Domingues, O.P., Público, hoje.

Não cruzei esta informação e pode haver aqui um equívoco, mas parece que Igreja não aprende. É emenda sobre emenda e o soneto só se afunda ainda mais. Primeiro condenou a teoria da evolução. Depois caucionou-a. Agora apropria-se dela. Esquece que a ciência e a religião serão, na melhor das hipóteses, dois magistérios de influência que não se tocam (Gould). Há uma forma menos polida de expressar a mesma opinião: Bento, mind your own business. Mas a entrar nesta charada, por amor de Deus (sinto-me legitimado para invocar nomes em vão), deixem Darwin em paz. Quanto a vingar Teilhard, enfim, é um gesto de catolicismo vintage: um discreto e tardio pedido de perdão que deixa sempre a face protegida do eventual tabefe e, também, uma forma de emendar a mão com a prata da casa. Se é para brincar às metáforas, não nos acanhemos. Se a ressurreição é um salto qualitativo, quem devemos lembrar é Richard Goldschmidt, que defendia a existência de hopeful monsters, criaturas que resultariam de mutações sistémicas e que marcariam de uma assentada (instantaneamente) o aparecimento de uma nova espécie. Por outras palavras: organismos que representam saltos qualitativos. Nem mais. Ora, isto faz de Cristo ressuscitado um monstro providencial. Mas não se apoquentem: é só semântica, senhores.

abril 22, 2006

Instante pouco original

Há muitos anos, antes da era dos correctores de texto automáticos e dos dicionários online, a principal força motriz a contribuir para o enriquecimento lexical do que ia escrevendo era a dúvida quanto à forma de grafar a primeira palavra que me ocorria, que me levava a procurar sinónimos ou até a mexer na estrutura do texto para evitar a cilada. Fala-se muito nas mensagens de texto dos telemóveis, mas vejo nos correctores automáticos um problema mais grave para a extensão do domínio da língua.

Ciclope Cínico

pV.jpgAs entradas do dicionário satírico de ciência resultam de um ping-pong transatlântico de mensagens com o parisiense Santiago. Quase todos os textos são escritos pelos dois, mas há um complexo e algo críptico código que indica a autoria e a contribuição relativa de cada um. Avançamos por letra, mas sem respeitar a ordem alfabética dentro de cada letra. Estimamos terminar no Verão de 2007 as palavras em "A" que listámos. Creio que ninguém se surpreenderá se eu revelar que planeamos depois tratar as palavras começadas por "B". Este é um projecto de dimensões enciclopédicas e que possivelmente consumirá duas gerações de escribas. O nosso objectivo é chegar em vida ao "L" e passar a empreitada a outros, mas sem deixar de participar nos trabalhos finais de revisão, já após a nossa morte. Contamos também comparecer no beberete que assinalará a publicação da primeira edição do Ciclope Cínico, lá para Janeiro de 2072.

Aqui encontrarão a lista de palavras já definidas. Se se lembrarem de alguma outra (incluindo nomes de cientistas ou de eventos com relevância para história da ciência) começada por "A" que ainda não tenhamos tratado e também ausente da seguinte lista de palavras, seria simpático que enviassem uma missiva para o endereço do MI.

Palavras começadas por "a" que trataremos nos próximos meses (por ordem alfabética):

Astrofísica
Arrhenius, Svante
Aristarco de Samos
Aplicada, Ciência
Algas
Ácidos Nucleicos
Abstracção
ablação
abcissina
abrasão do Lat. abrasione
acomodação
acumulação
acetona
acetilcolina
alpha eridani
acústica
acre
actina
acção (potencial de)
activo (transporte)
adaptação
adenina
adenóides
adenovirus
ADH
adiposo (tecido)
ADP
adrenalina
aeon
aerodinâmica
aerosol
afinidade
agar
aglutinação
agressão
agnatha
agonista
agricultura
ar
alabastro
albedo
albumina
algebra
algoritmo
alcalino
alelo
alergia
alogamia
alotropia
aluvião
AC
alula
alumínio
Alvarez, Luis Walter
alvéolo
amálgama
ametista
amido
amina
amino ácido
amónia
ampere
Ampére, André-Marie
anfetamina
amplificador
amplitude
ampula
amígdala
amilase
analgésico
análogo
análise
Anaximandro
androceu
Andrómeda
anestético
angiospérmica
anemofilia
ângulo
Angstrom, Anders Jonas
anidrito
animal
animismo
anião
anôdo
annulus
anóxia
antácido
antagonista
antárctico
antena
anterídio
anthrax
anterozóide
anticlinal
anticoagulante
antigénio
antimatéria
antipartícula
antípodas
antiséptico
aorta
apatite
Apolonius de Perga
apêndice
aquarius
aqua regia
aqua fortis
arboreto
arco
arquea
arquitectura
arquegónio
arctíco
arcturus
are
argon
argumento
ariel
Aristarcos de Samos
artimética
armilar, esfera
aromático, composto
Arrhenius, Svante Augusto
arsénio
arteríola
artéria
artificial, inteligência
ASCII
ascomicetos
ascórbico, ácido
assexual, reprodução
aspirina
assimilação
astrolábio
astrometria
astronomia
astrofísica
aten
atmosfera
atol
ATP
atrium
atenuação
atractor
atrito
auriga
aurora
autoimunidade
autólise
autopoliploidia
autorradiografia
autosoma
autotrófico
avalanche
axioma
axónio
azuleno

Melancólico

Acabou um blogue bom.

abril 21, 2006

Onde há um português há um Carlos Magno

Mexia pode ter spleen mas V tem mais spin.

Carrilho

Carrilho.jpgLeio que Carrilho faltou a uma votação na Câmara Municipal de Lisboa e que a sua ausência pode ter influenciado o resultado final. Lera antes que Carrilho acumula já 23 faltas (todas justificadas) no Parlamento. Carrilho tem o dom da ubiquidade invertido: a qualquer momento, não está em parte alguma. Teria votado nele para a presidência da câmara, mas concluo que este homem se transformou no Wally da nossa República.

O lar Rushdie é uma sala de troféus

Padma_lakshmi10023.jpg

Padma Lakshmi, trophy wife*1

Rushdiepix.jpg

Salman Rushdie, trophy husband *2

*1: este é o primeiro mamilo que se mostra no MI e, de algum modo, um mamilo a contracorrente, que escapou ao processo sublimatório com que vinha a cumprir a revigorante purga de catraias.
*2: a dimensão das fotografias não é proporcional ao valor estético dos fotografados. Rushdie foi largamente ampliado para facilitar a sua identificação.

abril 20, 2006

Acordai

A vela ainda estava acesa.

Quase-mexiana

Terminei um romance hoje. Já não terminava um romance há imenso tempo. Gostei de ficar a saber o fim da história. Isto de começar vários romances ao mesmo tempo é a melhor forma de nunca os acabar. É preciso interromper esta prática. Por coincidência, também terminei de ler um romance hoje e já não chegava ao fim de um livro há imenso tempo.

Henri Cartier-Bresson (1975)

visual-full.jpeg
Subtítulo: sublimando Helena Christensen (note-se que a rapariga da foto é mais do que uma rapariga, o que não corrompe o exercício).

abril 19, 2006

Air conducting

M.jpgO air guitar (playback digital sobre o braço de uma guitarra virtual) não morreu, mas definhou quando o guitar hero e o virtuosismo pelo virtuosismo passaram de moda. Confesso que gostava do vício. Desintoxiquei-me a tempo, porque alimentava a ilusão de poder vir a ser um bom guitarrista a sério e o air guitar era coisa de adolescentes sem talento e sem os talentos para a guitarra. Mas é verdade que a prática democratizava o solo e nos anos oitenta todos tínhamos um Yngwie Malmsteen dentro do peito.

Entretanto engordei, rapei o cabelo, só já toco guitarra acústica e tenho vergonha de escutar Heavy Metal no carro. Comecei também a ouvir música clássica de outros períodos que não o Barroco. Enfim, aburguesei-me e o air guitar está morto e enterrado. Sucede que trabalho agora à bancada - como um talhante, mal comparado - com um colega melómano. Falamos dos últimos quartetos de Beethoven e outras preciosidades. Mas quando não falamos, e enquanto ele vai mexendo nos tubos e na maquinaria, sempre que fica com um braço livre, o membro anima-se com uns compassos da grande música. Há ali talento, o gesto seguro. O homem tem todos os naipes na mão e quando enrija as falanges eu vejo o acorde mais tenso. É absolutamente hilariante. E é também de um grau de dificuldade apreciável, porque ele até trabalha bem. Duvido que o Furtwängler fosse capaz de semelhante multitasking.

Mon ami Amaral

Amaral/Stockhausen
This evening (Thursday, April 27, 2006, 8:30pm / IRCAM, Espace de projection) dedicated to percussion, confronts a new work by young Portuguese composer, Pedro Amaral, and the famous "Zyklus" by Stockhausen who states "enclose an open form in a circle, incorporate static into the dynamic, indecision in precision, neither desire nor exclude nor destroy nor drive towards a third level of synthesis".
Stockhausen’s Zyklus is a classic of the percussion repertoire. Throughout its huge cyclic curve, minutely orderd structures stand alongside totally ambiguous and random ones. The performer chooses his own progression and creates his own sense.
Pedro Amaral, the author of an indepth analysis of Gruppen and a thesis on Momente, conceived Script as a ginormous journey from stage direction to catharsis. Thanks to today’s score following techniques, the performer becomes the active reader of the musical text, slowly revealing the sense of the piece.
Program
Pedro Amaral extracts of Script, for percussion and electronics. World Premier
Karlheinz Stockhausen Zyklus, 2 versions
Distribution

O massacre dos judeus de Lisboa: 500 anos

Vela.jpgSingela homenagem com a prata da casa (dois textinhos sobre judeus antes aqui publicados e agora revistos):

I. Os morangos sobre a mesa

Antes de chegar aqui, Klara passou fome em Itália, num campo de refugiados. Decidiam o seu destino: saindo "cara", ia para a América, saindo "coroa", para Israel. Klara não teve voto na matéria, mas fez figas com os dedos de ambas as mãos. Podia ser que a sorte que a fizera judia estivesse com ela outra vez. Em 1990, ser-se um russo judeu em São Petersburgo dava jeito pois podiam sair do país com relativa facilidade. Subitamente, todos os amigos de Klara queriam ser judeus. É mais uma daquelas ironias da história. Ser-se judeu alemão em 1935, na Alemanha, não era sorte nenhuma. Ser-se judeu na Península Ibérica, há muitos e durante tantos anos, era um grande azar. Enfim, ao olhar para trás, ser-se judeu, qualquer que fosse o lugar, raras vezes foi uma sorte. Mas em São Petersburgo, em 1990, era a melhor maneira de deixar um país feito em cacos. Quando chegou à América, Klara não falava um palavra de inglês. O título de advogado não servia para nada. Acolhida por uma comunidade judaica dos arredores de Boston, ela nada sabia das tradições judaicas, apesar de ser mesmo judia. Lá a deixaram empanturrar-se com bacon e salsichas durante um mês, até que o inglês dela fosse suficiente para perceber a reprimenda. Mostraram-lhe também os electrodomésticos com enorme minúcia didáctica, como se ela viesse da Idade do Bronze. Uma outra vez, depois de uma visita a um pindérico museu suburbano, perguntaram-lhe, a ela, a Klara vizinha do Hermitage, se lá de onde vinha havia museus. Muitos anos depois, estariam todos a rir-se num banquete de casamento, à conta destes primeiros episódios. Os olhos de Klara contam estas histórias num estado pré-lacrimejante perpétuo, como se a dor daquelas lembranças e de ter deixado uma vida para trás se equilibrasse, na justa medida, com a imagem dos morangos sobre a mesa: "o frigorífico estava cheio e nós passáramos um mês à fome em Itália. Quando depois vi aqueles morangos sobre a mesa, sabes? Morangos sobre a mesa em Março..." Eu não sei nada. Quando ela me conta que mentiu com todos os dentes diante do rabino, jurando que um amigo também era judeu, vou dizer o quê? Se não tivesse mentido, o homem teria sido sumariamente recambiado. O final desta história é apenas parcialmente feliz. Klara encontrou um trabalho decente, continua com o marido, que também refez a sua vida e tem um filho, um virtuoso do violino que toca na Orquestra Sinfónica de Boston e lhe telefona todos os dias. Só lhe falta revisitar as origens e reconciliar-se com as recordações. Nunca mais lá voltou e já passaram 14 anos. Disse-lhe que já vai sendo altura de esquecer Petrogrado para abraçar finalmente São Peterburgo. Ela concordou. Não lhe cheguei foi a perguntar se teria preferido ir para Israel. Creio que não me teria sabido responder. Ela fez figas, sim, mas para que se apressassem a lançar a moeda.

II. A recompensa

Em Novembro de 2003 fui assistir à projecção do documentário Under Strange Skies, de Daniel Blaufuks, num centro cultural alemão, aqui em Nova Iorque. Sob um ângulo muito pessoal, o Daniel relata a experiência dos judeus que chegaram a Portugal durante a segunda grande guerra. O documentário tem um tratamento de imagem muito cuidado e desvenda uma história que é uma miríade de histórias pouco conhecidas entre os portugueses. Ainda assim, o momento mais memorável da noite aconteceu já depois da projecção. Discutia-se o filme. Alguém perguntou: "por que motivo não recorreu a testemunhos de pessoas ainda entre nós que viveram aquela experiência? Será que evitar o testemunho foi uma forma de preservar a juventude dos intervenientes na história?" Com outras perguntas ainda a ecoar, uma senhora levantou-se depois, pediu a palavra e começou um relato, num inglês fluente mas com um ligeiro sotaque. Falou com o tom pausado dos contadores de histórias seguros. Fomos então percebendo que, ainda criança, fugira de França para a Península Ibérica, embarcando depois para Nova Iorque. Era como se uma personagem tivesse saltado da tela para a sala, como naquele filme. A senhora não se cansou de elogiar o documentário, pela forma rigorosa como evocava experiências com 60 anos mas que estavam bem presentes na sua memória. Terminou a agradecer ao Daniel. Daqui a 20 anos não haverá ninguém no mundo capaz de proferir proferir tais palavras de gratidão e aquele comentário, longo, terno e tenso foi um remate tão perfeito que parecia coisa combinada. Não consigo imaginar melhor recompensa.

abril 18, 2006

Acordai

Meduse1m.jpg"Breves Notas Assassinas" é título da crónica de hoje de EPC (EPC). Comecei o dia logo a salivar. A primeira de nota, de três, é anticlimática. Como alvo surge Marta Crawford e, já se sabia, EPC não consegue ser agressivo com as mulheres. Ele bem tenta, mas não tem a mão feita. Com aquela ladainha sobre as dimensões do desejo que agora escreveu, mais parece que quer engatar a senhora. Salva-se um comentário de fundo: "Como de costume, o criticado não é capaz de aceitar qualquer razão do lado daquele que critica, que normalmente o faz por torpes razões pessoais". O que EPC nos diz, de forma algo trapalhona, é que o criticado pensa sempre que é alvo de um ataque ad hominem. Registemos. Laurent Fabius está na mira da segunda nota, ou seja, não há alvo; é um pouco como cuspir para o chão e pedir meças a Golias, sabendo que ele não vai ouvir. Conheço o truque. Mas eis que depois destas duas notas pífias, que são apenas palha, chegamos à verdadeira chacina. A vítima é João Pedro George. Escreve EPC: no conjunto da obra de Margarida Rebelo Pinto, considerado a partir da obra do "crítico" João Pedro George, Couves & Alforrecas - Os segredos de Margarida Rebelo Pinto. O livro é da nova editora Objecto Cardíaco, e fico contente com um êxito que permitirá publicar coisas mais interessantes. A tese é simples: Margarida Rebelo Pinto plagia-se a si mesma. A reacção ao tom do livro foi uma providência cautelar da autora. Se a reacção é absurda e desproporcionada, se a tese é verdadeira, o livro é miseravelmente desinteressante, e João Pedro George, esse mirabolante admirador de Luís Pacheco, mostra aquilo que é: um crítico literário que o não chega a ser e que é uma verdadeira alforreca da vida cultural portuguesa. Pode-se pôr em causa a obra de Margarida Rebelo Pinto (e eu tenho-o feito implacavelmente), mas não desta maneira indigente. Caso, não chega a existir. Ora bem, isto não é uma crítica. Estamos perante um chorrilho de insultos. E é caso para perguntar se EPC não o terá feito por "torpes razões pessoais", tendo em conta a forma como George gozou com ele no Esplanar. Só para os mais distraídos: a pergunta é retórica. Os exemplos acumulam-se, mas só os topamos quando acompanhamos com atenção estas novelas. A extrapolar a partir do nosso pequeno universo, a imprensa de opinião portuguesa sofre de uma epidemia de ataques pessoais. Para sair deste lamaçal, um cronista decente só pode seguir um lema: todos os meus argumentos são ad hominem a menos que vos consiga convencer do contrário. Enquanto a moda não pega, foi este o ponto de partida que, como leitor, adoptei.

Nota: sobre o uso do termo "alforreca", George e, sobretudo, EPC, andam a ser pouco rigorosos. As alforrecas são criaturas nobres. Têm um ciclo de vida mais complexo do que o nosso, isto é, têm vidas mais interessantes. Numa das suas fases, reproduzem-se assexuadamente, o que é meio caminho andado para ficaram a salvo de uma série de humilhações. Na outra fase, exploram as vantages do sexo, sem as complicações que nós introduzimos. Por outras palavras, nunca uma alforreca escreverá como o Pedro Mexia. Mais: ao contrário do que parece pensar EPC, as alforrecas não são parasitas. E têm um esqueleto hidrostático, um termo de sugestão superior ao grosso dos versos pacientemente por ele dissecados ao longo de décadas. Quem se lembra das alforrecas moribundas sobre o areal antes de pensar na dança das medusas precisa de repensar a sua existência. Para saber mais.

abril 16, 2006

Sargaços

A calmaria social também existe. Mesmo em dias ventosos.

abril 15, 2006

Ao serviço dos jovens casais

Vi hoje uma invenção que gostaria de ter assinado: um capacete para putos endiabrados, aqueles que estão sempre a colocar em risco a sua integridade física e as finanças da família, nomeadamente quando dão uma marrada na mesa com a terrina Companhia das Índias. Conheço casais que atenuam todos os vértices e arestas da casa com espuma. Apesar das boas intenções, trata-se de uma má prática. Não só há sempre algo que fica esquecido como, em boa verdade, parece que estão a proteger a mobília das crianças e não as crianças da mobília. Posso estar a ser injusto, mas é a ideia que fica e isto é perfeitamente inadmissível, sobretudo com o mobiliário IKEA. Se estivermos a pensar num contador decorado a laca da china, embutidos de madrepérola e decoração fitomórfica, enfim, hesito sem ceder; o que há de melhor neste mundo são as crianças. O capacete emerge, assim, como a solução ideal. Aquele que encontrei, numa das minhas deambulações, era impressionante. Chegava a dar ao miúdo um ar de cosmonauta, o que é menos uma maçada em que se pensar no Carnaval. Estava aderente à cabeça como se fosse uma máscara rebelde, que esconde toda a cabeça menos o rosto. E o puto ia feliz, posso garantir. Sorria como um sacana. Com a babysitter por perto, compreenderão que tivesse optado por não lhe aplicar um calduço. Reconheço que é essencial para completar este relatório técnico mas terá de ficar para outra ocasião, se entretanto encontrar um modelo para o meu tamanho que me proteja das pretas calmeironas que passeiam os miúdos branquinhos do Upper East Side.

Cães como eu

O João Pereira Coutinho anda a fazer de João Pereira Coutinho há muito tempo, com prejuízo para o leitor. Mas este rapaz traz uma lufada de ar fresco. É o mesmo ar, mas fresco. Tão fresco que, quando me trata como um cão, eu ofereço a barriga e dobro as patinhas da frente.

(...)Pessoalmente, acho que acreditar na ressurreição de Jesus não prova nada. Para mim, isso é um dado adquirido. Aliás, gente que tem a mais vaga dúvida metafísica, aos domingos de manhã, não é merecedora de um mínimo de consideração. São ateus. E os ateus são cães. São um grupelho quase tão desumano como os agnósticos e os comunistas. Enfim, é gentinha que não leu, nem dois versículos do génesis. Adão ter conseguido perpetuar a espécie perante, a tudo menos erótica, nudez de Eva, isso sim é passível de cepticismo. Ah, e depois ainda vem aquela velha ideia de que somos todos irmãos. Não imagino nada que dê menos pica do que o incesto.

Recentemente, o sumo pontífice, Bento XVI, veio a público revelar que o tempo passado a fazer qualquer outra coisa que não seja ler a bíblia, é pecado. Entre outras actividades mais óbvias, e perfeitamente mais ilícitas, incluía-se ler jornais, ver televisão e navegar na Internet. O povo tremeu. O povo riu. O povo gozou. Não percebe esta gente que toda a teologia da igreja católica assenta no pecado. Mais propriamente, na consciência do pecado. O que seria do livro sagrado sem Judas? Sem a preta com que Abraão teve um filho à socapa, com o consentimento do Senhor? Pouco mais que banal. Uma história casta para beatas ressabiadas. Portanto, meus queridos amigos, dirijam-se à casa de alterne mais próxima, cometam adultério e fomentem a doutrina cristã. E nunca, nunca, mas nunca mesmo, se esqueçam: o sustento do nosso templo está todo no confessionário.

Dedicado a Joseph Ratzinger e uma boa Páscoa para todos.

Como quem se espreguiça

Os poetas são uma raça curiosa. Começam a escrever sem perder muito tempo, publicam-se em antologias antes de tempo e renegam as obras da juventude fora de tempo. Muitos são como Joey, do filme Interiors: têm a ansiedade do artista mas não o seu talento. Isto só se resolve com exercícios obrigatórios, tipo patinagem artística, mas talvez fosse uma violência e humilhação.

abril 14, 2006

Da magra produção epistolar

No último ano escrevi apenas duas cartas. Fui ontem deixá-las no Correio. São praticamente iguais, embora com destinatários diferentes. Parece falta de educação minha, mas limitei-me a responder ao que me pediam e as pessoas pedem quase sempre o mesmo.
Faço revelações incríveis, que não ficaria bem mostrar aqui. E ambas as cartas me obrigaram a um exercício de síntese que desembocou em introspecção. O que fiz eu para ajudar as vítimas do furacão Katrina, por exemplo? Nada. Ajudei alguma criança desaparecida? Algum ecossistema? Não. Nem mesmo quando sou parte mais interessada, como nos combates ao cancro da próstata e à doença de Alzheimer, me comovi. Custou-me um pouco. Já me tinha esquecido destas derivas que por vezes surgem quando escrevemos uma carta. Não sei se a culpa é do envelope selado, que parece menos violável do que os agora habituais emails, mas não é costume expor-me tanto. Como se não bastasse, acedi a revelar que não tenho filhos e que vivo sozinho. Sei que serei penalizado por isso e é um pedido meio caprichoso da parte dos meus destinatários, mas eles são pouco tolerantes. Se há coisa que não quero é ter chatices com aquela gente. Seguiram ontem, as cartas; uma para o Internal Revenue Service, a outra para o New York State Department of Taxation and Finance.

It can be accepted as true

Intellectual and performance measures were taken on 7688 school children tested on three behavioral measures of handedness and one measure of eyedness. Test results were compared against all combinations of handedness and eyedness and against a measure of socio-economic level. No relationships of any kind were found. Comparisons of the present results are made against 33 studies concerned with possible deficits associated with left-handedness. The results of the present study combined with a review of the majority of studies on deficit and handedness strongly suggest that the hypothesis of no difference in intellectual and cognitive performance between right- and left-handed subjects can be accepted as true. Hardyck C, Petrinovich LF, Goldman RD. Left-handedness and cognitive deficit. Cortex. 1976 Sep;12(3):266-79.


E o Lomba é sagitalmente atravessado pela falta de gosto

"Todas as mulheres de cabelo curto são suspeitas de qualquer coisa que as atravessa. Não quero fazer pouco da minha antiga professora nem das mulheres de cabelo curto nem das mulheres de esquerda." Pedro Lomba

abril 13, 2006

Max Beckman: Self-Portrait in Tuxedo (1927)

Max_beckman_self_portrait.jpg

Subtítulo: sublimando Natalia Imbruglia.

Metabloguismo da treta

Duas entradas recentes são sobre posts a que cheguei através de outros blogues, que os comentavam. Alguém se indignou por eu não ter feito a referência, qualquer coisa como "post descoberto via X". Com o devido respeito, gosto de fazer os enlaces estritamente necessários e vou por atalhos, isto é, limito-me a citar o original. Descobrir um post não me parece um acto merecedor de grande deferência, com franqueza. Aliás, está implícito que aqui estamos permanentemente a ser conduzidos por outros.
É claro que sobra a hipótese do plágio como móbil do crime, ou seja, a de que omiti o intermediário para poder fazer o mesmo comentário. É uma acusação algo irritante e que deve ser discutida caso a caso. Estamos aqui para isso.

Nunca é tarde para aprender, VPV

Proteger os fumadores passivos

Na crónica de 9 de Abril, Vasco Pulido Valente (V.P.V.), a propósito da nova lei contra o tabaco que o Governo se prepara para promulgar (interditando o fumo em alargado número de locais), afirma a dado passo que "... a evidência que o fumo passivo prejudica a saúde está longe de ser conclusiva e não conseguiu persuadir a maioria dos peritos. Pior: há boas razões para supor que o fumo passivo num bar ou num restaurante, uma ocorrência por força rara, intermitente e breve, não afecta ninguém". Estas afirmações são, à luz da evidência científica actual, profundamente erradas.
O fumo que os fumadores passivos inalam é designado como fumo do tabaco ambiental. Este é constituído pelo fumo que sai directamente do cigarro (ou cachimbo, ou charuto) em combustão e pelo fumo exalado pelo fumador activo. Ambos contribuem para a nocividade do fumo, por apresentarem as mesmas substâncias carcinogénias e ateroscleróticas.
É possível medir o fumo ambiente e as suas consequências na saúde de duas maneiras: a primeira é através da detecção dos componentes do fumo do tabaco na atmosfera (e cabe aqui afirmar que estudos realizados em bares com espaços dedicados a fumadores e não-fumadores detectavam as pequenas partículas de fumo do tabaco em todo o recinto por igual, provando assim a inutilidade prática da divisão dos espaços). A segunda é através da detecção de biomarcadores no sangue, na urina e na saliva dos não-fumadores (e através dela está calculado que um bebé de colo exposto a mãe fumadora de um maço de cigarros por dia inala fumo equivalente a 3-4 cigarros inteiros!).
A história dos fumadores passivos e o seu aumento de risco inicia-se formalmente em 1981, com dois estudos determinando uma associação entre o fumo passivo e o cancro do pulmão em dezenas de milhares de sujeitos. A base da evidência científica de que o fumo passivo é responsável por aquele tipo de cancro estava construída por volta de 1986 e, mais tarde, investigação clínica de excelente qualidade veio a determinar que o fumo passivo causava outras doenças em adultos. Já em 1997, uma revisão de um conjunto de 37 estudos envolvendo 4600 doentes com cancro do pulmão demonstrou um aumento do risco de 24 por cento se a pessoa vivesse com um fumador. Os estudos relacionando a doença coronária (especialmente o enfarte de miocárdio) com o fumo do tabaco estão publicados há alguns anos e são muito claros nas suas conclusões do efeito prejudicial do tabagismo. (...)
V.P.V. tem o direito de não gostar das medidas antitabágicas do Governo, medidas essas que nós, médicos, apoiamos com entusiasmo. Tem o direito até de se opor a elas. O que não pode é fazer afirmações de cariz científico sem antes se ter documentado sobre este assunto, ainda por cima tão bem estudado, induzindo os seus leitores a pensarem que esta magnífica e corajosa medida do Governo é decidida ao arrepio da ciência, sugerindo que aquela serve intuitos "politicamente correctos".

António Vaz Carneiro
Médico, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Público, hoje (sublinhados meus).

Como dizia o outro, "concordamos com VPV em tudo, excepto nos assuntos que dominamos".

Acordai

Alexandre Soares da Silva entendeu ser importante partilhar connosco as lombadas da sua biblioteca. Vai mesmo ao ponto de destacar algumas capas, um pouco como uma antiga minha vizinha que arrumou os volumes de uma edição de luxo das obras completas de Victor Hugo em pirâmide no centro da sala (Les Misérables em posição cimeira). Nada disto me repugna, sinceramente. Até já fiz algo parecido no MI. Por definição, o blogger é um exibicionista. Sucede que há o Bookporn ligeiro e o Bookporn pesado. E alguém que não saiba revelar quantos metros lineares (JPP™) de lombada entram por mês em casa está a desconversar. É esta a única dimensão fálica de uma biblioteca. A única que importa. Exibam-se com profissionalismo.

A taxonomia pode esperar

frog1.jpg
Mostrar fotografias de raparigas bonitas está para a arte da bloga como a piada envolvendo bufas para o humor. É um expediente fácil. Como se não bastasse, anda tudo a mostrar as mesmas mulheres, tirando o Pedro Mexia, que lá vai fazendo os trabalhos de casa, embora com resultados duvidosos.
Resolvi abandonar esta prática, de uma vez por todas. Ninguém acrescenta. E assim, sempre que sentir necessidade de mostrar uma miúda, sublimarei a pulsão com uma imagem de algo belo. Caso não tenham ainda reparado, há mais coisas belas neste mundo além das belas raparigas. Saber se há coisas mais belas do que as belas raparigas é outra questão, mas o MI não tem solução para tudo.

abril 12, 2006

Acordai*

"Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória. Nuno Guerreiro (A citação que antes aqui se encontrava foi por lapso meu atribuída a Nuno Guerreiro).

É um debate que alastra (a Zazie, o Rui do Adufe, o Miguel do Tempo dos Assassinos, o LNT do Tugir, a Abrunho do Contemplamento, o JPT do Ma Schamba, o Dragão no seu Dragoscópio, o Marco do Povo de Bahá, a Helena no 2 Dedos de Conversa, a Ana Cláudia no Amigo do Povo, o João Tunes do Água Lisa 6, o AMC do Porque e o Luís da Natureza do Mal).

Feitas as contas, o que fica é a série de textos históricos sobre o assunto que o Nuno Guerreiro tem vindo a mostrar. O debate propriamente dito vai pelos caminhos de sempre: insinuações de anti-semitismo passivo, relativizações, manias de perseguição, o fanstasma da instrumentalizão da causa para fins políticos. Não encontrei a palavra "Palestina", mas certamente porque lá mais para o fim comecei a ler na diagonal.

Faço minhas as palavras de Francisco José Viegas: acender uma vela por cada uma das vítimas [ROSSIO, 19 DE ABRIL], ou acender uma vela por todas as vítimas do pogrom e dos assassínios cometidos na Lisboa de 1506, não significa senão isso: relembrar a matança da Páscoa de 1506 e as suas quatro mil vítimas. Lembrar. Não esquecer.
Não debaterei o significado da ida ao Rossio para acender uma vela, nem creio que isso tenha outro significado que não esse -- o de que a memória não pode ressuscitar os mortos, mas também não quer massacrar os vivos com a sua intromissão. Limita-se a ser isso: uma memória
.

Estarei em Nova Iorque e acenderei uma vela à janela no dia 19 de Abril, Quarta-feira. Com alguma sorte, ainda me baterá à porta um vizinho judeu distraído, a perguntar: já é Sexta? Nada mau para começo de uma amizade.

* O péssimo título "Early Morning Bojardas" foi entretanto substituído pelo presunçoso "Acordai". A origem do nome está menos no poema de José Gomes Ferreira Acordai (Acordai/ homens que dormis/ a embalar a dor/ dos silêncios vis/ vinde no clamor...) do que na harmonia que Lopes Graça fez para as palavras. Cantei e ouvi cantar essas vozes, que hoje habitam a minha cabeça como uma mneumónica feliz.

Dream Team

Dia 23, 18h30, Casa Fernando Pessoa: PATRIOTISMO E FUTEBOL. Que selecção vamos apoiar? Todos somos portugueses no futebol?

João Querido Manha, Jorge Madeira (“maradona”), Miguel Guedes, Pedro Mexia e Rui Tavares.

abril 11, 2006

Ainda há mulheres com piada

Nada que não se soubesse já, mas escrito com muita graça.

Uma boa notícia

"Quando o perigo de perder a fé é latente, é um dever cortar qualquer comunicação com pessoas que tenham se afastado da doutrina católica" Bento XVI

E assim se evita perder tempo com idiotas (aqueles que seguem este conselho papal, bem entendido).

Acordai

Crónica de Eduardo Prado Coelho, Público, hoje:
Segundo Koppl, em condições realistas, a tortura não funciona: "Há situações nas quais a tortura funciona, mas são raras. As experiências do século XX com a tortura demonstram que na maior parte dos casos é fútil."
Tudo isto é muito negativo porque os governos "não conseguem fazer uma promessa credível de que acabam com a tortura depois de a vítima dizer a verdade. As vítimas sabem isso perfeitamente e portanto dizem qualquer coisa excepto o que os torturadores querem saber." E chegamos à argumentação: quando as vítimas falam, nada permite saber se dizem a verdade ou se mentem. Os governos "usam a tortura porque ainda não sabem a verdade, Mas isso significa que não conseguem reconhecer a verdade quando a vítima a diz." Com este problema do reconhecimento, estamos em plena epistemologia.
Em segundo lugar, "mesmo que soubessem que tinham conseguido a verdade, a vítima receia continuar a ser torturada". Donde, afirma Koppl, "decidir se se deve dizer a verdade não é só um problema moral: pode também ser uma escolha estratégica". E o director da revista, Alvin Goldman, professor de Filosofia na Universidade Rutgers, em Newark (New Jersey, também) sente-se habilitado a concluir: "Koppl demonstrou que era errado partir simplesmente do princípio de que a tortura funciona."
Ficamos boquiabertos. A tortura é uma das práticas mais abjectas de que temos conhecimento e apoia-se em pulsões bem suspeitas nos torturadores. A tortura corresponde a uma desconsideração do outro de um modo radical: o outro torna-se um instrumento reduzido a coisa manipulável. A tortura revela a humanidade no seu lado mais lamacento e é difícil falar dela sem um movimento de repulsa. Nada disso acontece com o professor Koppl, porque para ele a tortura é apenas um objecto de análise como qualquer outro. E a grande pergunta é: de acordo que felizmente a tortura é inútil, mas se fosse útil, o nosso professor defendia-a? Aparentemente, sim.

Antes pelo contrário. A demonstração de que a tortura não pode funcionar fornece elementos passíveis de convencer quem não se comove com os princípios recordados por um EPC indignado. De resto, a discussão evoluiu um pouco nos últimos anos, por motivos óbvios. Ninguém se angustia ao tentar decidir se um generalíssimo qualquer tem ou não o direito de torturar os seus cidadãos para se perpetuar no poder. O cenário que se discute agora é o da bomba-relógio. Imaginemos que a PJ captura um terrorista - a nossa imaginação é poderosa - e que temos forma de saber de fonte segura que ele deixou uma bomba programada para rebentar dentro de uma hora numa zona movimentada de Lisboa (se o leitor mora no Porto, pode trocar de cidade). Justifica-se torturá-lo? Somos todos pessoas decentes, sobretudo no conforto do lar e sem esquecer que isto é um jogo, mas alguns por certo hesitarão, mesmo sabendo que a "tortura revela a humanidade no seu lado mais lamacento e é difícil falar dela sem um movimento de repulsa". É neste contexto que se sente algum alívio se um especialista, com uma fundamentação lógica e analisando a História, prova que a tortura não funciona. É talvez uma fraqueza moral deslocar a discussão para este plano, mas é uma prática que pode ainda repescar quem, perante o tic-tac da bomba, já abdicara dos nobres princípios. Não tendo lido o artigo e o editorial mencionados por EPC, quase juro que é neste contexto que a tortura se discute. O meu problema é outro. Espero sinceramente que seja um efeito secundário da técnica de citação de EPC, mas a demonstração de que é errado partir do princípio que a tortura funciona não me pareceu muito convincente. Fica a sensação de que o autor demonstrou apenas que os resultados obtidos por tortura não são absolutamente fiáveis, o que é trivial.

Bom dia.

abril 09, 2006

Já o ego do Francisco, ele próprio, nem mesmo numa Toyota Hiace

"O dia 8 de Abril de 2006 ficará na imberbe história da blogosfera ao lado do dia 10 de Junho de 2003, o último da Coluna Infame. O fim do blog fundador do Pedro Mexia, do Pedro Lomba e do João Pereira Coutinho (que chegou a editorial de José Manuel Fernandes no Público), num tempo em que os leitores de blogs cabiam ainda num Renault Twingo, marcou, ele próprio, o fim de um tempo." Francisco Mendes da Silva, no Acidental.

Páscoa Feliz em Nova Iorque

Fico profundamente feliz por não haver nesta cidade uma comunidade de filipinos dinâmica. É que na Primavera começam os desfiles das comunidades de imigrantes e as práticas de autoflagelação não jogam bem com a Madison e a Quinta Avenida. Só nos aproximamos de tal cenário quando o Mel Gibson aqui aparece para umas comprinhas nas lojas finas.

Gostar de homens© : raising the bar

Serge_gainsbourg_la_javanaise-front.jpg

La Javanaise

J'avoue
J'en ai
Bavé
Pas vous
etc.

Por ser algo meloso, este tema deve ser acompanhado com outro, também de Serge: Le Poinçonneur de Lilas. Na minha imodesta opinião, é a melhor canção que ele escreveu, mas o mp3 é grandote e só posso oferecer a letra. Ao contrário do que se afirma impunemente por , a canção E o video clip são excelentes. 1958. Outros tempos.


J'suis l'poinçonneur des Lilas
Le gars qu'on croise et qu'on n' regarde pas
Y a pas d'soleil sous la terre
Drôle de croisière
Pour tuer l'ennui j'ai dans ma veste
Les extraits du Reader Digest
Et dans c'bouquin y a écrit
Que des gars s'la coulent douce à Miami
Pendant c'temps que je fais l'zouave
Au fond d'la cave
Paraît qu'y a pas d'sot métier
Moi j'fais des trous dans des billets

J'fais des trous, des p'tits trous, encor des p'tits trous
Des p'tits trous, des p'tits trous, toujours des p'tits trous
Des trous d'seconde classe
Des trous d'première classe
J'fais des trous, des p'tits trous, encor des p'tits trous
Des p'tits trous, des p'tits trous, toujours des p'tits trous
Des petits trous, des petits trous,
Des petits trous, des petits trous

J'suis l'poinçonneur des Lilas
Pour Invalides changer à Opéra
Je vis au cœur d'la planète
J'ai dans la tête
Un carnaval de confettis
J'en amène jusque dans mon lit
Et sous mon ciel de faïence
Je n'vois briller que les correspondances
Parfois je rêve je divague
Je vois des vagues
Et dans la brume au bout du quai
J'vois un bateau qui vient m'chercher

Pour m'sortir de ce trou où je fais des trous
Des p'tits trous, des p'tits trous, toujours des p'tits trous
Mais l'bateau se taille
Et j'vois qu'je déraille
Et je reste dans mon trou à faire des p'tits trous
Des p'tits trous, des p'tits trous, toujours des p'tits trous

Des petits trous, des petits trous,
Des petits trous, des petits trous

J'suis l'poinçonneur des Lilas
Arts-et-Métiers direct par Levallois
J'en ai marre j'en ai ma claque
De ce cloaque
Je voudrais jouer la fill'' de l'air
Laisser ma casquette au vestiaire
Un jour viendra j'en suis sûr
Où j'pourrais m'évader dans la nature
J'partirai sur la grand'route
Et coûte que coûte
Et si pour moi il n'est plus temps
Je partirai les pieds devant

J'fais des trous, des p'tits trous, encor des p'tits trous
Des p'tits trous, des p'tits trous, toujours des p'tits trous

Y a d'quoi d'venir dingue
De quoi prendre un flingue
S'faire un trou, un p'tit trou, un dernier p'tit trou
Un p'tit trou, un p'tit trou, un dernier p'tit trou
Et on m'mettra dans un grand trou
Où j'n'entendrai plus parler d'trou plus jamais d'trou
De petits trous de petits trous de petits trous

Acordai*

É inegável que a melhor prosa sobre futebol é escrita por sportinguistas. Falo da blogosfera, porque no tempo em que lia jornais desportivos só havia benfiquistas n' A Bola e não se podia comparar. Serrão e Sousa Tavares têm uma prosa acantonada e agressiva, mesmo quando o seu clube é o melhor há duas décadas. O próprio Franciso José Viegas, prosador impecável, só se agiganta a escrever sobre bola com o Teófilo Cubillas, o que é fazer batota. E este moço, que já seria meu amigo se eu vivesse em Lisboa, faz uns posts tristes, tristes, tristes - tlistes de tristeza, não de maus - na ressaca do jogo, que contrastam com o tom alucinado com que prognostica. É preciso levar o João Pinto mais a sério, mas o benfiquista sofre da maldição do Terceiro Anel e de nada lhe vale ler revistas de arquitectura em inglês.
Por pudor e respeito, quero evitar alongar-me aqui sobre o maradona, que é o melhor exemplo desta tese. Há uma silenciosa angústia neste homem. Ele sabe que desde que escreve publicamente as derrotas do Sporting começaram a fazer sentido e - mais do que isso - a valer a pena. É um fardo terrível.

David, mano, um abraço de apoio fraterno.

Duche de água fria (16:40): dito isto, é possível encontrar um tripeiro que pensa como um lampião e escreve como um sportinguista. Diz Tiago Barbosa Ribeiro: "Quando os bárbaros querem Lisboa a arder, hiperbolizam. Eles dirigem-se ao Benfica. Só. Os sportinguistas representam uma simpatia aristocrática e inócua, uma espécie de czarismo onde os bolcheviques nunca teriam existido porque haveria sempre paz e pão para todos e até os Invernos russos teriam sido mais amenos."

*Nota: ao fim de semana, a tolerância de ponto prolonga as Acordai até às 10:30 da manhã.


abril 08, 2006

Telefonia wireless

Foto4.jpgDeve ser por viver fora, mas ninguém conhece o site da TSF como eu. Oiço tudo, incluindo as entrevistas datadas da Margarida Marante, autora das apresentações do tema e convidado mais trapalhonas da história do éter. Há uma entrevista que recomendo e que, por acaso, até recuperou alguma pertinência: Marante versus Rebelo Pinto, o combate das tias, imperdível. A certa altura, diz Marante, maternal: "a Margarida cresceu". Comovi-me. Mas faço pior: oiço o António Feio, que compõe um boneco desprovido de humor. A culpa nem sequer é dele, é de quem lhe escreve os textos. Mas eu lá o vou ouvindo, numa acrítica bulimia patriota. No extremo oposto encontra-se a colecção de entrevistas do Carlos Vaz Marques. Tenho uma teoria peregrina e já antiga: há linhas de cocaína perto do gravador. Vaz Marques labora com um entusiasmo que, após dezenas de entrevistados, só não conseguiu contagiar o Pedro Paixão. A coleccção merece ir já para a Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional ou qualquer outro lugar que lhe assegure a eternidade, mas na Terra. Esta semana, por exemplo, Vaz Marques deu-me a conhecer uma moça de 25 anos, ex-modelo fotográfico, que cozinha a ouvir ópera, vagabundeou pelo Sul de França, escreveu dois livros premiados de gastronomia e tem romances na gaveta. Chama-se Diana Mendonça. Foi com pena que não lhe topei um sotaque nortenho e é improvável ela que possua solar na região do Douro, mas a vida é a arte do compromisso (Diana, hum? memoria_inventada@hotmail.com). Outro senhor que me delicia é o Carlos Pinto Coelho. O homem tem duas obsessões, Portugal e a dicção. É muito complicado gerir uma obsessão, mas Pinto Coelho safa-se airosamente com duas. É um jongleur. O que faz quanto à primeira é engenhoso: encontra títulos e convidados que dão a ideia de que se está a discutir um tópico novo. Na verdade, é sempre a mesma conversa. Mas para quê mudar, se aquilo sabe bem? A dicção de Pinto Coelho também merece ser patenteada. Há ali um esforço pedagógico no fio da navalha, que o leva quase a soletrar algumas palavras. Simplesmente admirável. TSF online: oiço tudo e volto a ouvir. É o meu Portugal portátil.

Excesso de zelo

Foi ideia de secretário de estado, mas que vingou. Em todas as banheiras e lavatórios, em todas as garagens, no tablier de todos os automóveis, em todas as caixas de comprimidos, preso por um atilho a todas as cordas, na coronha das pistolas, nos terraços, nos miradouros e no cimo das pontes, gravado nos troncos das oliveiras e dos sobreiros, por todo o lado o mesmo aviso: "o suicídio mata".

"Eu sou da América do Sul"

Não errei no Continente, errei no Hemisfério.

abril 07, 2006

Eduardo Rego, matemático e homem corajoso

Portugal despreza a ciência. Os portugueses têm desempenhos medíocres nos testes que medem a "cultura científica" do cidadão comum. Refiro-me a questões como "anda o sol à volta da Terra?" É possível corrigir esta vergonha nacional melhorando o ensino no secundário, nomeadamente o ensino da matemática. E fazendo programas de divulgação. Mérito para a TSF, que dá atenção aos cientistas. Mas também aqui é preciso algum cuidado. A minha rubrica preferida é a 125 perguntas sobre ciência. Não sei quem selecciona as perguntas, mas é por causa deste programa que podemos assistir a um esclarecimento de 3 minutos e sem suporte visual da seguinte dúvida: a conjectura de Poincaré identifica esferas no espaço quadridimensional? Há aqui algo profundamente errado. O Silva tem um entendimento ptolemaico do sistema solar, mas andam a explicar-lhe a conjectura de Poincaré.

Plano de acção

Quero muito voltar à série Corpo a Corporação e aos sociólogos. Depois conto escrever sobre os dentistas, os publicitários, os seguranças, os biólogos, os homens do lixo, os pastores, os agricultores, os pescadores, os arquitectos, os jardineiros e os porteiros, deixando de fora, numa primeira fase, os médicos, os advogados, os informáticos e os engenheiros, que são profissões pouco interessantes, bem como os taxistas, por se tratar de um alvo demasiado fácil. É provável que encerre a série com algo sobre a profissão de juiz desembargador, mas só pela ressonância do nome, que me soa feliz.

Acordai

A proibição de fumar em recintos fechados é uma boa proposta. Pausa. Começo a já ouvir a lamúria dos 31% de homens e 18% de mulheres fumadores. Sentem-se perseguidos. É verdade. Mas tal sensação resulta de terem andado décadas a usufruir de direitos que lesavam os não-fumadores. Habituem-se. Falam também de "fundamentalismo antitabágico". Na cabeça deles, uma estátua de Macário Correia poderá vir a aparecer na Praça do Comércio. Duas palavrinhas apenas: têm razão. Anda por aí uma ditadura da saúde e convém estarmos atentos. Fotos de cadáveres em maços de tabaco? Uma perfeita estupidez e um insulto aos fumadores. Mas com tanto liberal a escrever na blogosfera, pensei que fosse mais fácil chegarmos a um acordo quanto ao que são os direitos de cada um. É muito simples. Proibição de fumar em recintos públicos fechados? Sim. Proibição de fumar na rua, nas praias, nos parques, etc? Não. Proibição de fumar em espaços fechados privados? Fica ao critério de cada um. O resto é espernear. Fumem antes um cigarro. Para descontrair.

abril 06, 2006

Early Morning Bojardas

A notícia do óbito do metabloguismo foi algo exagerada. E o blogger em bicos de pés, provando pela enésima vez as virtudes do meio, não é uma espécie extinta. Pacheco Pereira não se preocupou em apurar se a iniciativa de publicar textos inéditos é, de facto, pioneira na blogosfera lusa. O Zé Mário explica e refere um exemplo, a pré-publicação no BdE (II) de um trecho de A Vida Sexual de Immanuel Kant, de Jean-Baptiste Botul (traduzido por ele e publicado na Cavalo de Ferro). Na discussão que ali se gerou, alguém lembra outro caso: o conto "Porque Combatemos", da autoria de Alexandre Andrade, publicado também no BdE. E eu recordo as experiências que foram os livros interactivos de Rui Zink e de Miguel (ai rigor, a quanto obrigas) Ângelo. Exemplos imperfeitos? Seguramente. A pré-publicação de uma tradução não tem o impacto da publicação de um original; o aparecimento do conto "Porque Combatemos" ganha o estatuto de pré-publicação a posteriori, visto que o livro em que depois viria a aparecer - As Não-Metamorfoses - provavelmente (mas fica a dúvida) ainda não estaria previsto (embora estivesse já pensado); os livros interactivos escritos online e depois publicados são mais do que pré-publicações, isto é, a sua característica distintiva não é surgirem antes do livro, antes a escrita com feedback do leitor e quase em tempo real. Mas são exemplos que convém lembrar. Porque o trecho da tradução é inegavelmente uma pré-publicação, porque a publicação do conto do Alexandre não é o mesmo que publicar um conto do vizinho de cima (o Alexandre já tinha obra publicada, não como edição de autor) e porque as experiências de Zink e de Miguel Ângelo foram, também, pré-publicações. O que sobra então como argumento a Pacheco Pereira e à © Guerra &Paz editores? Sobra o nome "Agustina Bessa Luís". Ou seja, sobra o argumento cagão. Perante os factos, sugerir que a experiência é inédita na Europa parece-me silogisticamente falso, não deixando também de ser um caso de megalomania.

Bom dia!

Duche de água fria: ao longo de um dia um homem vai recapitulando a sua evolução e estas Acordai são escritas no período Australopithecus, isto é, na fase pré-duche, quando ainda não estou sintonizado com a civilização e experimento o fade-out dos sonhos e pesadelos. O raciocínio é feito sobretudo com o hipotálamo, com prezuízos óbvios para mim mas algum benefício - assim o espero - para a fruição do leitor. É durante o duche matinal que me recomponho e me apercebo das barbaridades que acabei de escrever em estado - digamos - inimputável. Assim se percebe que a nota "duche de água fria" comece a ser presença regular nesta série. Em vez de censurar o post, publicarei uma adenda, que é quase uma errata. Desto modo, teremos as sub-séries Acordai com Duche e Acordai sem Duche, mas gostaria de deixar claro que tomo banho todos os dias e que por vezes até biso.
Há um ponto a favor de Pacheco e da editora: o grau com que a coisa é feita, que vai além do argumento cagão. Ao que parece, publica-se o texto integral (ou uma parte substancial da obra) no Abrupto. Excluindo os livros interactivos, isto é realmente original em Portugal. Mais: vai contra a moda (perfeitamente estúpida, mas é outra discussão) de volatilizar textos de blogues assim que o autor e a sua editora chegam a um acordo para os publicar.

abril 05, 2006

Early Morning bojardas

Os blogues colectivos tendem para uma fase de reality show, cuja duração tem uma correlação positiva com o grau de encenação e que invariavelmente antecede o fim da brincadeira.

Early Morning bojardas

É preciso dizer uma verdade sobre a New Yorker: a disposição e o número de anúncios, conjugados com a fina largura das colunas de texto, tornam o objecto praticamene ilegível. Não deixa de ser uma forma eficaz de conservar o título de "melhor revista do mundo".

Bom dia!

Louis XIV on New York

Dze one who nevér sleeps, c'est moi...

abril 04, 2006

I have a dream

O caso Margarida ®ebelo Pin™o está claramente em fase senescente, no sentido de não ser difícil adivinhar o seu desfecho. O único roque possível de Pinto™ - que não a estupidez da providência cautelar, prontamente convertida em manobra de génio publicitário pela opinião especializada - seria convencer um escritor consagrado pela crítica a fazer de nègre do seu futuro livro, esperar pelos comentários pavlovianamente negativos e, num golpe de teatro que fosse o reverso da armadilha de Sokal e Bricmont, revelar a autoria do texto, embaraçando a crítica. Há falta disto em Portugal; esperiências controladas, meus amigos, surpresa, rasgo. Consta que Lobo Antunes até gosta dos diálogos da rapariga™. Tenham medo, tenham muito medo.*

*nota: como agora está na moda cascar no João Pedro George (fase besta, depois do período bestial), acrescento que este comentário não o tem na mira. O método georgiano não me inspira particularmente mas parece-me robusto e não o levaria a cair na ratoeira.

abril 03, 2006

Sociólogos

Uppercut.pngCresci com as RTPês. De vez em quando, aparecia um sociólogo a comentar um tema da actualidade. Nunca ouvi de um sociólogo convidado para o telejornal uma ideia decente. Nunca. Acreditem que ficava sempre atento, expectante. No fundo, cada novo sociólogo era a great (white) hope seguinte, que acabava invariavelmente por se agredir a si próprio com um uppercut. Simulem o murro ao retardador, as vossas falanges no vosso queixo. Não é um gesto fácil. Lá está, deve ser preciso tirar um curso de sociologia.

(Continua)

Nota: Sem tempo para estas andanças, queria só anunciar que esta provocação sugeriu-me uma enésima série MI: Corpo a Corporação, ou a destruição metódica das classes profissionais. É provável que o Miguel Esteves Cardoso tenha feito em tempos um exercício parecido, mas não há perigo. Esta série será seguramente pior e, como tal, diferente.


abril 02, 2006

Um argumento prosaico

O metabloguismo morreu, como é do conhecimento geral, mas na sua época áurea ninguém avançou com a razão que explica a longevidade do MI. Abdiquei de escrever cartas a namoradas antes da primeira grande ressaca de amor. As minhas metáforas transmutavam-se por culpa de uma caligrafia ilegível, com resultados potencialmente perigosos. E o uso da impressora, mesmo tendo o cuidado de recorrer a aproximações da letra manuscrita, não colheu. Capricho delas, claro. Haverá coisa mais romântica do que receber uma carta de amor parida em horário pós-laboral por uma Hewlett Packard a jacto de tinta? É verdade, tudo isto aconteceu há muito tempo. A marcha imparável da tecnologia marc... Bem, em síntese, tenho uma caligrafia críptica, incompatível com Moleskines e namoradas de apetites epistolares. O blogue é mais amigo e faz-me a prosa com letra bonita. É um estímulo que me convém.

Confissões públicas

Comparada com a ida ao confessionário ou ao psiquiatra, ambas uma higiene íntima da alma com assistência (perdoem o paradoxo), a confissão pública é muito mais nobre e, por definição, espectacular. É verdade que, na escrita, "confessar" foi adquirindo um significado pueril. Toda a gente se confessa, mas a palavra é usada apenas para se ganhar empatia sem nos comprometermos. Pior, não raras vezes pretende-se induzir o outro a pensar que, afinal, somos virtuosos; não esperamos que ele o diga, mas secreta ou inconscientemente queremos que pense algo como: "se esta irrelevância que me contas vem com a carga de uma confissão, deves ter uma consciência imaculada". Enfim, uma aldrabice.
O único critério que legitima uma confissão é o risco. Podemos enfrentá-lo por desespero, pela urgência do leito de morte, por vaidade, por uma série de razões, mas a verdadeira confissão, ainda assim, pode ter um efeito pífio junto dos outros. A resolução de uma tensão interna alheia nem sempre nos toca. Não foi o caso da crónica de Paulo Moura, que li hoje no Público. Trata-se de um texto provavelmente escrito a quente, algo desequilibrado até, um maná para cínicos. Dito isto, reconheci ali a qualidade rara de uma confissão solidária e corajosa. A última vez que vi a Inteligência Lusa deslumbrada com confissões públicas foi quando Maria Filomena Mónica resolveu expor a sua rota sentimental, uma confissão que, francamente, fica a ecoar no vazio de um ego imenso. O que Paulo Moura escreveu tem outro nervo e, sem surpresa, será ignorado. Mas aqui fica:

Também Sou um Ilegal

Sou um ilegal. Por exemplo (e isto é uma confissão que faço publicamente pela primeira vez): numa escaldante noite de Agosto, peguei na moto, a minha saudosa Honda VFR 800 FI, e fui de Lisboa ao Porto a 280 km/h. Nem os radares me detectaram. (...)

Magdalene, uma menina de 16 anos, não tinha dinheiro para pagar, aos mafiosos como Karim, a travessia do Estreito e estava a morrer de febre tifóide numa floresta dos arredores de Ceuta. Como era muito boa aluna na Nigéria, acreditava que, mal chegasse à Espanha, teria uma bolsa do Governo para prosseguir os estudos. Quando lhe perguntei porque teria essa sorte, quando todas as outras nigerianas são obrigadas a prostituir-se, deu-me a resposta mais inteligente que eu ouvi em toda a minha carreira de jornalista: "Porque o meu Deus te vai usar a ti para me ajudar".
Eu decidi escondê-la na mala do carro, trazê-la para Portugal e tratar dela. Fui à fronteira investigar as probabilidades de sermos revistados e apanhados, congeminei planos e estratégias, mas decidi não a trazer. Abandonei a Magdalene.

O chefe da floresta, um nigeriano alto com ar de cowboy a quem chamavam o "Americano", fez-me prometer-lhe outro tipo de ajuda. Regressou à Nigéria e pediu-me por email que entregasse na embaixada uma carta de recomendação com um termo de responsabilidade e um convite para visitar Portugal.
O "Americano" era um homem inteligentíssimo que, se tivesse realmente nascido nos EUA, seria um prestigiado professor ou advogado.
Como nasceu na Nigéria, era o chefe da Mafia.
Num outro email, mandou-me fotografias de duas estatuetas africanas do século XII A.C saqueadas num museu. Explicava que pertenciam à sua família e pedia-me que lhe encontrasse comprador. Seria o início da sua vida de homem de negócios em Portugal.
Pensei numa das tiradas Michel Houellebec: nós não odiamos os imigrantes por os considerarmos inferiores. Tememo-los porque achamos que são melhores do que nós.
E menti: escrevi ao embaixador português dizendo que o sr. M. Era um homem de bem e que vinha passar férias a minha casa. Se o plano do "Americano" para obter um visto resultou, cuidado: ele está aí a chegar!

Ao contrário de Magdalene, Aimee conseguiu atravessar. Mal desembarcou em Algeciras, a mafia enviou-a para Lisboa, onde se prostitui na praça do Intendente. Fui lá muitas vezes entrevistá-la, no âmbito dos meus trabalhos sobre imigração. Tornei-me amigo dela e das outras jovens nigerianas. Um dia, soube que ia haver uma grande rusga da Polícia e telefonei a avisá-las. "Aimee, fujam daí rapidamente, a Polícia vai prender todos os ilegais". Salvei-as.
Foi um dos dias mais felizes de que me lembro, confesso-o publicamente pela primeira vez.
Sou famoso no Intendente. Chego lá e um enchame de prostitutas negras corre a abraçar-se a mim: Paulô, Paulô! A Polícia pensa que sou um traficante disfarçado de chulo e deixa-me em paz.
Paulo Moura, Público, hoje.