fevereiro 28, 2006

Newark revisitado

A Ferry Street de Newark é aquele sítio feioso onde se vai ver a bola, comprar Sumol e comer açorda de marisco com os amigos. Mas eis que hoje alguém se sai com uma ideia peregrina: I would really suggest a great portuguese place in Newark, mas isto talvez [seja] melhor depois. She seems like she has been to the 'it' spots, but looks to be a lady who might enjoy an ethnic touch, you know, you speaking to the maitre in your own mysterious dialect, full of jungle rhythms, she can almost hear the waters of the mighty Congo rushing through Coimbra...

fevereiro 27, 2006

Living on borrowed time

Encontro-me com amigos e conhecidos na midtown, num local acima das minhas possibilidades económicas, que me recordou uma série de restaurantes parisienses onde nunca cheguei a entrar. Em conversa de circunstância no bar, enquanto esperamos por uma mesa, digo a minha idade. Compasso de espera e previsível veredicto: pareço mais novo. É verdade. Não ao ponto de me pedirem um documento de identificação quando compro cerveja, mas com um ar ainda jovem. Fico sempre é sem saber se serei apenas demasiado velho para a cara que tenho ou se o comentário cobre também a vida que levo.

Tocar-se em público

Desejei hoje boa sorte a um amigo que se tocará em público por volta das sete da tarde. A amizade é isto: apoiar os nossos amigos nas alturas difíceis. Espero sinceramente que dirija bem os músicos que tocarão uma peça sua.

fevereiro 26, 2006

Da utilidade da excepção

Aqui desenvolve-se uma interessante observação: à medida que cresce a intimidade com o outro, há a perda do apelido, depois o uso da inicial apenas, a seguir o tratamento quase anónimo através de fórmulas. Só a ruptura faz com que o outro recupere o apelido. Em jeito de corolário: "a afeição é proporcionalmente inversa ao registo de nascimento". Entre gente civilizada e algo fleumática, diria eu. Conheço casos em que a ruptura queimou irreversivelmente o registo de nascimento e deixou até o notário chamuscado, o que destrói o corolário. Mas também é verdade que foi para salvar conclusões esteticamente apelativas que inventámos as excepções.

fevereiro 25, 2006

Orangotangos

Orangotango.jpgO sem-abrigo assassinado no Porto era travesti ou teria mudado de sexo. Contudo, não será a homofobia a explicar o espancamento e agressões que o vitimaram. Helena Matos, Público, hoje.

A reacção de certos sectores da sociedade civil a este crime era previsível e, de forma involuntária, confirma que até prova em contrário estamos perante um exemplar crime de ódio. Há alturas tramadas em que a realidade nos obriga a optar: mantemo-nos fiéis à nossa agenda política ou preservamos o bom senso? Percebo o drama. O que chega quase a ser obsceno é a pressa com que estas opiniões vão saindo. O João Miranda, como se percebe, só podia mesmo discordar.

Como isto não abala o Médio-Oriente

Sou pró-semita.

Telepatia

Percebo isto e, salvaguardadas as distâncias, norteei-me pelos mesmos princípios. Sempre me pareceu imoral seduzir raparigas à custa de uns encadeamentos de acordes de MPB. Com as músicas do Zeca Afonso não tinha tantos pruridos, mas as raparigas eram tendencialmente bem menos bonitas, pelo que os efeitos práticos foram os mesmos. Enfim, tudo isto se passou há muitos anos. Entretanto, quase deixei de tocar em público. Não direi que estou recluso, porque a reclusão é um acto voluntário e uma análise fria dos factos indica que as pessoas foram deixando de ter pachorra para me ouvir cantar e tocar. Ou então começaram a ter crianças, o que dá no mesmo. A última vez que estive numa tertúlia - agora que penso nisto - foi com duas meninas adoráveis. Obrigaram-me a sacar de memória uma canção popularizada pela Lara Li e divertimo-nos imenso. Eu, empenhadísssimo em melhorar o arranjo. Elas, enamoradíssimas uma da outra. Quase gosto da vida que tenho.

fevereiro 24, 2006

Lento assai e cantante tranquilo

Beethoven.jpgA ubiquidade é possível. Pelo menos dentro da cabeça, revisitando em paralelo os sítios que conhecemos. Basta ficar a ouvir o terceiro andamento do Quarteto para cordas n 16, em Fá maior, Op. 135, de Beethoven. Então quando se vem do quarteto para cordas n 23, em Fá maior, K. 590, de Mozart, percebe-se que estamos diante um dos grandes momentos da música ocidental. Acho de um cinismo atroz montar um programa destes - com o requinte malévolo de se fixar a tonalidade - no ano em que se comemora qualquer coisa sobre Mozart. Como melómano, aplaudo.

Massamá

Começa a haver material para uma tese sobre Massamá e o imaginário colectivo do lisboeta esclarecido. Até o pouco ortodoxo Alexandre Andrade cede ao atractor suburbano que é Massamá. Sempre que se inventa uma entrevista de rua, é seguro que aparece alguém de Massamá. A ocasião é oportuna para lembrar a notícia do suicídio de uma cançonetista. Parece que tudo se passou em Massamá e a simples invocação da terriola prolongou a reverberação da tragédia. Constato também que a passagem da adolescência à vida adulta faz-se de pequenos nadas, como substituir a Picheleira por Massamá quando se trata de pensar num cu de Judas. O que se passa com Massamá, afinal? Alguém já lá foi (tirando o Luiz Pacheco, que - se não estou em erro - até lá viveu)? Não me surpreenderia que Massamá fosse até uma localidade simpática, sem banda mas com um coreto pintado de verde escuro.

fevereiro 23, 2006

Últimas palavras

As últimas palavras não são bem palavras. Se são ditas, não devem ser escutadas; se as ouvimos, o melhor é acreditar que chegaram extraviadas. Às últimas palavras só podem suceder últimas palavras. Há um silêncio que se aguenta melhor quando ainda sobram palavras. O melhor, então, é poupá-las. E em caso de desespero, escrevê-las numa carta sem remetente para a Posta Restante de uma cidade longínqua.

Já andava há 16 dias sem mostrar raparigas

Nataliportman.jpg


Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

Robert Frost

(Sugestão - Portman e poema - vinda de Birmingham, Alabama.)

Os Espantalhos

Não se sabe como começou o hábito dos amores vagos. Parecia claro que era uma forma de espantar um desgosto de amor passado e de prevenir o desgosto futuro. A moda pegou. Por toda a cidade, nunca se amara tanto e de forma tão vaga. Um dia passou por lá um sábio, que num ajuntamento festivo a todos se dirigiu: "lembro-me bem de um campo de cultivo que resistiu durante anos à passarada e aos gafanhotos. Era a melhor terra das redondezas e os aldeões faziam tudo para a proteger. Até que alguém se lembrou de colocar um espantalho no meio do campo. No ano seguinte, colocaram dois. Não demorou a que todos quisessem demonstrar o seu apreço por aquele campo. E foi uma praga de espantalhos que acabaria por matar as culturas. De tanto insistirem em espetar espantalhos, não sobrou um palmo de terra arável. Esta cidade é um pouco com aquele campo. Perdoem-me, mas tenho diante de mim uma multidão de espantalhos. Reparem nos vossos braços, abertos mas hirtos. Como espantalhos. Ainda se lembram como se abraça?" Fez-me silêncio e depois ouviu-se uma voz, tímida e anónima: "vagamente..."

TO WHOM IT MAY CONCERN

É improvável que entre os leitores do MI se conte um director de jornal desportivo. Mas é menos improvável que um seu amigo leia estas palavras. E seria uma sorte que uma sua amante caprichosa passasse a vista por aqui. Importante mesmo é alguém lhe dizer que o Campeonato do Mundo de Futebol está quase a chegar e que os portugueses merecem ser servidos pela melhor das prosas. Acho escandaloso que ninguém se tenha ainda lembrado do maradona. Urge contratar este homem em regime de exclusividade para uma cobertura dos jogos na Alemanha. Só num país de calhaus se aceita que em Junho e Julho de 2006 maradona ande por aí a trabalhar como geólogo ou lá o que é que ele faz. Merecemos ler a prosa de maradona feita in situ, directamente do melhor assento do estádio. Conseguem imaginar cronista mais capaz? O homem tem os conhecimentos, a paixão, o verbo e - até parece combinado, raios - adora cerveja. O homem tem também o défice de estatura que na Alemanha lhe despertará o melhor humor autodepreciativo. Que alguém faça o necessário e que o sindicato dos jornalistas não acuse grande sobressalto. Seria uma medida extraordinária. De resto, por ser amador o moço nem sequer ficaria muito caro. Eis-nos perante uma macrocausa da blogosfera. Fazemos lobby? Algo assim chato e vagamente alemão, como : movimento de apoio à ida de maradona como enviado especial para a cobertura do campeonato do mundo de futebol na Alemanha.

Adenda: o que temos aqui é a força de uma coincidência e o embrião para um levantamento popular...

fevereiro 21, 2006

Rua com vista sobre o rés-do-chão

Uma rua com vista sobre um rés-do-chão
Eis como avaliar uma cidade
Nem praças nem jardins nem monumentos, sabes
Que as estátuas não te podem render
Esqueço o carro, o trânsito, o asseio das ruas
Os bares com os seus rostos que me arrastam
As repartições públicas que bem despacham
Até um chafariz na madrugada
Faço por ignorar os acasos urbanos
Que os acasos se esgotam no presente
E ignoro os desamores, eternos pois claro
Porque as ruas se querem respeitadas
Mais não sobra que um rés-do-chão no 13ème
De um casal tão feliz que se deixava ver
Não que fosse vaidade ou exibicionismo
Era só compaixão pelos peões.

Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos - actualização

Uma das causas ignoradas no século XIX é a burocracia. E o nosso Carlos Carapinha acaba de dar um exemplo cabal, pois precipitou-se a oficializar o novo nome do MI quando é sabido que se trata de um título provisório, que desaparecerá no dia em que Cavaco Silva tomar posse como Presidente da República. Carlos Carapinha terá então que voltar a reunir a sua equipa, compor um novo edital e uma nova minuta, lavrar a nova acta, enfim, gastar recursos, perder tempo. É este o retrato do país. Lamento, mas ainda não foi com a minha geração que isto mudou. O melhor é entregar de imediato às camadas jovens o testemunho que temos andado a passar de mão em mão, numa estafeta em que não chegamos a arrancar os pés dos blocos. No enlace que se segue, ficam a dispor do famoso discurso proferido por Antero de Quental numa sala do Casino Lisbonense, no ano de 1871.

Discurso proferido por Antero de Quental, numa sala do Casino Lisbonense, em Lisboa, no dia 27 de Maio de 1871, durante a 1.ª sessão das Conferências Democráticas

Meus Senhores:

A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.

Conheço quanto é delicado este assunto, e sei que por isso dobrados deveres se impõem à minha crítica. Para uma assembleia de estrangeiros não passará esta duma tese histórica, curiosa sim para as inteligências, mas fria e indiferente para os sentimentos pessoais de cada um. Num auditório de peninsulares não é porém assim. A história dos últimos três séculos perpetua-se ainda hoje entre nós em opiniões, em crenças, em interesses, em tradições, que a representam na nossa sociedade, e a tornam de algum modo actual. Há em nós todos uma voz íntima que protesta em favor do passado, quando alguém o ataca: a razão pode condená-lo: o coração tenta ainda absolvê-lo. É que nada há no homem mais delicado, mais melindroso, do que as ilusões: e são as nossas ilusões o que a razão critica, discutindo o passado, ofende sobretudo em nós.

Não posso pois apelar para a fraternidade das ideias: conheço que as minhas palavras não devem ser bem aceites por todos. As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independente delas, se não acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão - o amor e a procura desinteressada da verdade. Que seria dos homens se, acima dos ímpetos da paixão e dos desvarios da inteligência, não existisse essa região serena da concórdia na boa-fé e na tolerância recíproca! Uma região onde os pensamentos mais hostis se podem encontrar, estendendo-se lealmente a mão, e dizendo uns para os outros com um sentimento humano e pacífico: és uma consciência convicta! É para essa comunhão moral que eu apelo. E apelo para ela confiadamente, porque, sentindo-me dominado por esse sentimento de respeito e caridade universal, não posso crer que haja aqui alguém que duvide da minha boa-fé, e. se recuse a acompanhar-me neste caminho de lealdade e -tolerância.

Já o disse há dias, inaugurando e explicando o pensamento destas Conferências: não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão: essa discussão, longe de nos assustar, é o que mais desejamos, porque; ainda que dela resultasse a condenação das nossas ideias, contanto que essa condenação fosse justa e inteligente, ficaríamos contentes, tendo contribuído, posto que indirectamente, para a publicarão de algumas verdades. São prova da sinceridade deste desejo aqueles lugares e aquelas mesas, destinadas particularmente aos jornalistas, onde podem tomar nota das nossas palavras, tornando-lhes nós assim franca e fácil a contradição.

Meus Senhores: a Península, durante os séculos XVII, XVIII e XIX; apresenta-nos um quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quanto contrasta dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do papel que desempenhámos no primeiro período da Renascença, durante toda a Idade Média, e ainda nos últimos séculos -da Antiguidade. Logo na época romana aparecem os caracteres essenciais da raça peninsular: espírito de independência local e originalidade de génio inventivo. Em parte alguma custou tanto à dominação romana o estabelecer-se, nem chegou nunca a ser completo esse estabelecimento. Essa personalidade independente mostra-se claramente, na literatura, onde os espanhóis Lucano, Séneca, Marcial, introduzem no latim um estilo e uma feição inteiramente peninsulares, e singularmente característicos. Eram os prenúncios da viva. originalidade que ia aparecer nas épocas seguintes. Na Idade Média a Península, livre de estranhas influências, brilha na plenitude do seu génio, das suas qualidades naturais. O instinto político de descentralização e federalismo patenteia-se na multiplicidade de reinos e condados soberanos, em que se divide a Península, como um protesto e uma vitória dos interesses e energias locais, contra. a unidade uniforme, esmagadora e artificial. Dentro de cada uma dessas divisões as comunas, os forais, localizam ainda mais os direitos, e manifestam e firmam, com um sem-número de instituições, o espírito independente e autonómico das populações. E esse espírito não é só independente: é, quanto a época o comportava, singularmente democrático. Entre todos os povos da Europa central e ocidental, somente os da Península escaparam ao jugo de ferro do feudalismo. O espectro torvo do castelo feudal não assombrava os nossos vales, não se inclinava, como uma ameaça, sobre a margem dos nossos rios, não entristecia os nossos horizontes com o seu perfil duro e sinistro. Existia, certamente, a nobreza, como uma ordem distinta. Mas o foro nobiliário generalizara-se tanto, e tornara-se de tão fácil acesso, naqueles séculos heróicos de guerra incessante, que não é exagerada a expressão daquele poeta que nos chamou, a nós Espanhóis, um povo de nobres. Nobres e populares uniam-se por interesses e sentimentos, e diante deles a coroa dos reis era mais um símbolo brilhante do que uma realidade poderosa. Se nessas idades ignorantes a ideia do Direito era obscura e mal definida, o instinto do Direito agitava-se enérgico nas consciências, e as acções surgiam viris como os caracteres.

A tais homens não convinha mais o despotismo religioso do que o despotismo político: a opressão espiritual repugnava-lhes tanto como a sujeição civil. Os povos peninsulares são naturalmente religiosos: são-no até de uma maneira ardente, exaltada e exclusiva, e é esse um dos seus caracteres mais pronunciados. Mas são ao mesmo tempo inventivos e independentes: adoram com paixão: mas só adoram aquilo que eles mesmos criam, não aquilo que se lhes impõe. Fazem a religião, não a aceitam feita. Ainda hoje duas terças partes da população espanhola ignoram completamente os dogmas, a teologia e os mistérios cristãos: mas adoram fielmente os santos padroeiros das suas cidades: porquê? porque os conhece, porque os fez. O nosso génio é criador e individualista: precisa rever-se nas suas criações. Isto (junto à falta de coesão do maquinismo católico da Idade Média, ainda mal definido e pouco disciplinado pela inexorável escola de Roma) explica suficientemente a independência das igrejas peninsulares, e a atitude altiva das coroas da Península diante da cúria romana. Os papas eram já muitos: mas os bispos e as cortes eram ainda bastantes. Para as pretensões italianas havia um não muito franco e muito firme. E essa resistência não saía apenas da vontade e do interesse de alguns: saía do impulso incontrastável do génio popular. Esse génio criador via-se no aparecimento de rituais indígenas, numa singular liberdade de pensamento e interpretação, e em mil originalidades de disciplina. Era o sentimento cristão, na sua expressão viva e humana, não formal e ininteligente: a caridade e a tolerância tinham um lugar mais alto do que a teologia dogmática. Essa tolerância pelos Mouros e Judeus, raças infelizes e tão meritórias, será sempre uma das glórias do sentimento cristão da Península da Idade Média. A caridade triunfava das repugnâncias e preconceitos de raça e de crença. Por isso o seio do povo era fecundo; saíam dele santos, individualidades à uma ingénuas e sublimes, símbolos vivos da alma popular, e cujas singelas histórias ainda hoje não podemos ler sem enternecimento.

No mundo da inteligência não é menos notável a expansão do espírito peninsular durante a Idade Média. O grande movimento intelectual da Europa medieval compreende a filosofia escolástica e a teologia, as criações nacionais dos ciclos épicos, e a arquitectura. Em nada disto se mostrou a Península inferior às grandes nações cultas, que haviam recebido a herança da civilização romana. Demos à escola filósofos como Raimundo Lúlio; à Igreja, teólogos e papas, um destes português, João XXI. As escolas de Coimbra e Salamanca tinham uma celebridade europeia: nas suas aulas viam-se estrangeiros de distinção atraídos pela fama dos seus doutores. Entre os primeiros homens do século XIII está um, monarca espanhol, Afonso, o Sábio, espírito universal, filósofo, político e legislador. Nem posso também deixar esquecidos os mouros e judeus, porque foram uma das glórias da Península. A reforma da escolástica, nos séculos XIII e XIV, pela renovação do aristotelismo, foi obra quase exclusiva das escolas árabes e judaicas de Espanha. Os homens de Averróis (de Córdova), de Ibn-Tophail (de Sevilha) e os dois judeus Maimónides e Avicebron serão sempre contados entre os primeiros na história da filosofia na Idade Média. Ao pé da filosofia, a poesia. Para opor aos ciclos épicos da Távola Redonda, de Carlos Magno e do Santo Graal, tivemos aquele admirável Romancero, as lendas do Cid, dos Infantes de Lara, e tantas outras, que se teriam condensado em verdadeiras epopeias, se o espírito clássico da Renascença não tivesse vindo dar à Poesia outra direcção. Ainda assim, grande parte, a melhor parte talvez, do teatro espanhol saiu da mina inesgotável do Romancero. Para opor aos trovadores provinciais, tivemos também trovadores peninsulares. Dos nossos reis e cavaleiros trovaram alguns com tanto primor como Beltrão de Born ou o conde de Tolosa. Quanto à arquitectura, basta lembrar a Batalha e a Catedral de Burgos, duas das mais belas rosas góticas desabrochadas no seio da. Idade Média. Em tudo isto acompanháramos a Europa, a par do movimento geral. Numa coisa, porém, a excedemos, tornando-nos iniciadores: os estudos geográficos e as grandes navegações. As descobertas, que coroaram tão brilhantemente o fim do século XV, não se fizeram ao acaso. Precedeu-as um trabalho intelectual, tão científico quanto a época o permitia, inaugurado pelo nosso infante D. Henrique, nessa famosa escola de Sagres, de onde saíam homens como aquele heróico Bartolomeu Dias, e cuja influência, directa ou indirectamente, produziu um Magalhães e um Colombo. Foi uma onda que, levantada aqui, cresceu até ir rebentar nas praias do Novo Mundo. Viu-se de quanto eram capazes a inteligência e a energia peninsulares. Por isso a Europa tinha os olhos em nós, e na Europa a nossa influência nacional era das que mais pesavam. Contava-se para tudo com Portugal e Espanha. O Santo Império alemão oferece a orgulhosa coroa imperial a um rei de Castela, Afonso, o Sábio. No século XV, D. João I, árbitro em várias questões internacionais, é geralmente considerado, em influência e capacidade, como um dos primeiros monarcas da Europa. Tudo isto nos prepara para desempenharmos, chegada a Renascença, um papel glorioso e preponderante. Desempenhámo-lo, com efeito, brilhante e ruidoso: os nossos erros, porém, não consentiram que fosse também duradouro e profícuo. Como foi que o movimento regenerador da Renascença; tão bem preparado, abortou entre nós mostrá-lo-ei logo com factos decisivos. Esse movimento só foi entre nós representado por uma geração de homens superiores, a primeira. As seguintes, que o deviam consolidar, fanatizadas, entorpecidas, impotentes, não souberam compreender nem praticar aquele espírito tão alto e tão livre: desconheceram-no, ou combateram-no. Houve, porém, uma primeira geração que respondeu ao chamamento da Renascença; e enquanto essa geração ocupou a cena, isto é, até ao meado do século XVI, a Península conservou-se à altura daquela época extraordinária de criação e liberdade de pensamento. A renovação dos estudos recebeu-a nas suas Universidades novas ou reformadas, onde se explicavam os grandes monumentos literários da Antiguidade, muitas vezes na própria língua dos originais. Entre as 43 Universidades estabelecidas na Europa durante o século XVI, 14 foram fundadas pelos reis de Espanha. A filosofia neoplatónica, que substituía por toda a parte a velha e gasta escolástica, foi adoptada pelos espíritos mais eminentes. Um estilo e uma literatura novos surgiram com Camões, com Cervantes, com Gil Vicente, com Sá de Miranda, com Lope de Vega, com Ferreira. Demos às escolas da Europa sábios como Miguel Servet, precursor de Harvey, filósofos como Sepúlveda, um dos primeiros peripatéticos do tempo, e o português Sanches, mestre de Montaigne. A família dos humanistas, verdadeiramente característica da Renascença, foi representada entre nós por André de Resende, por Diogo de Teive, pelo bispo de Tarragona, Antonio Augustin, por Damião de Góis, e por Camões, cuja inspiração não excluía uma erudição quase universal. Finalmente, a arte peninsular ergue nessa época um voo poderoso, com a arquitectura chamada manuelina, criação duma originalidade e graça surpreendentes, e com a brilhante escola de pintura espanhola, imortalizada por artistas como Murillo, Velásquez, Ribera. Fora da pátria guerreiros ilustres mostravam ao mundo que o valor dos povos peninsulares não era inferior à sua inteligência. Se as causas da nossa decadência existiam já latentes, nenhum olhar podia ainda então descobri-Ias: a glória, e uma glória merecida, só dava lugar à admiração.

Deste mundo brilhante, criado pelo génio peninsular na sua livre expansão, passamos quase sem transição para um mundo escuro, inerte, pobre, ininteligente e meio desconhecido. Dir-se-á que entre um e outro se meteram dez séculos de decadência: pois bastaram para essa total transformação 50 ou 60 anos! Em tão curto período era impossível caminhar mais rapidamente no caminho da perdição.

No princípio do século XVII, quando Portugal deixa de ser contado entre as nações, e se desmorona por todos os lados a monarquia anómala, inconsistente e desnatural de Filipe II; quando a glória passada já não pode encobrir o ruinoso do edifício presente, e se afunda a Península sob o peso dos muitos erros acumulados, então aparece franca e patente por todos os lados a nossa improcrastinável decadência. Aparece em tudo; na política, na influencia, nos trabalhos da inteligência, na economia social e na indústria, e como consequência de tudo isto, nos costumes. A preponderância, que até então exercêramos nos negócios da Europa, desaparece para dar lugar à insignificância e à impotência. Nações novas ou obscuras erguem-se e conquistais no mundo, à nossa custa, a influência de que nos mostrámos indignos. A coroa de Espanha é posta em leilão sangrento no meio das nações, e adjudicada, no fim de doze anos de guerra, a um neto de Luís XIV. Com a dinastia estrangeira começa uma política antinacional, que envilece e desacredita a monarquia. E esse rei estrangeiro custa à Espanha a perda de Nápoles, da Sicília, do Milanês, dos Países Baixos! Em Portugal, é a influência inglesa, que, por meio de cavilosos tratados, faz de nós uma espécie de colónia britânica. Ao mesmo tempo as nossas próprias colónias escapam-nos gradualmente das mãos: as Molucas passam a ser holandesas; na índia lutam sobre os nossos despojos holandeses, ingleses e franceses: na China e no Japão desaparece a influência do nome português. Portugueses e Espanhóis, vamos de século para século minguando em extensão e importância, até não sermos mais que duas sombras, duas nações espectros, no meio dos povos que nos rodeiam!... E que tristíssimo quadro o da nossa política interior! As liberdades municipais, à iniciativa local das comunas, aos forais, que davam a cada população uma fisionomia e vida próprias, sucede a centralização, uniforme e esterilizadora. A realeza deixa então de encontrar uma resistência e uma força exterior que a equilibre, e transforma-se no puro absolutismo; esquecendo a sua origem e a sua missão, crê ingenuamente que os povos não são mais do que o património providencial dos reis. O pior é que os povos acostumam-se a crê-lo também! Aquele espírito de independência que inspirava o firme si no, no! da Idade Média adormece e morre no seio popular. O povo emudece; negam-lhe a palavra, fechando-lhe as Cortes; não o consultam, nem se conta já com ele. Com quem se conta é com a aristocracia palaciana, com uma nobreza cortesã, que cada vez se separa mais do povo pelos interesses e pelos sentimentos, e que, de classe, tende a transformar-se em casta. Essa aristocracia, como um embaraço na circulação do corpo social, impede a elevação natural de um elemento novo, elemento essencialmente moderno, a classe média, e contraria assim todos os progressos ligados a essa elevação. Por isso decai também a vida económica: a produção decresce, a agricultura recua, estagna-se o comércio, deperecem uma por uma as indústrias nacionais; a riqueza, uma riqueza faustosa e estéril, concentra-se em alguns pontos excepcionais, enquanto a miséria se alarga pelo resto do país: a população, dizimada pela guerra, pela emigração, pela miséria, diminui de uma maneira assustadora. Nunca povo algum absorveu tantos tesouros, ficando ao mesmo tempo tão pobre! No meio dessa pobreza e dessa atonia, o espírito nacional, desanimado e sem estímulos, devia cair naturalmente num estado de torpor e de indiferença. É o que nos mostra claramente esse salto mortal dado pela inteligência dos povos peninsulares, passando da Renascença para os séculos XVII e XVIII. A uma geração de filósofos, de sábios e de artistas criadores, sucede a tribo vulgar dos eruditos sem crítica, dos académicos, dos limitadores. Saímos duma sociedade de homens vivos, movendo-se ao ar livre: entrámos num recinto acanhado e quase sepulcral, com uma atmosfera turva pelo pó dos livros velhos, e habitado por espectros de doutores. A poesia, depois da exaltação estéril, falsa, e artificialmente provocada do gongorismo, depois da afectação dos conceitos (que ainda mais revelava a nulidade do pensamento), cai na imitação servil e ininteligente da poesia latina, naquela escola clássica, pesada e fradesca, que é a antítese de toda a inspiração e de todo o sentimento. Um poema compõe-se doutoralmente, como uma dissertação teológica. Traduzir é o ideal: inventar considera-se um perigo e uma inferioridade: uma obra poética é tanto mais perfeita quanto maior número de versos contiver traduzidos de Horácio, de Ovídio. Florescem a tragédia, a ode pindárica, e o poema herói-cómico, isto é, a afectação e a degradação da poesia. Quanto à verdade humana, ao sentimento popular e nacional, ninguém se preocupava com isso. A invenção e originalidade, nessa época deplorável, concentra-se toda na descrição cinicamente galhofeira das misérias, das intrigas, dos expedientes da vida ordinária. Os romances picarescos espanhóis e as comédias populares portuguesas são irrefutáveis actos de acusação, que, contra si mesma, nos deixou essa sociedade, cuja profunda desmoralização tocava os limites da ingenuidade e da inocência no vício. Fora desta realidade pungente, a literatura oficial e palaciana espraiava-se pelas regiões insípidas do discurso académico, da oração fúnebre, do panegírico encomendado – géneros artificiais, pueris, e mais que tudo soporíficos. Com um tal estado dos espíritos, o que se podia esperar da arte? Basta erguer os olhos para essas lúgubres moles de pedra, que se chamam o Escorial e Mafra, para vermos que a mesma ausência de sentimento e invenção, que produziu o gosto pesado e insípido do classicismo, ergueu também as massas compactas, e friamente correctas na sua falta de expressão, da arquitectura jesuítica. Que triste contraste entre essas montanhas de mármore, com que se julgou atingir o grande, simplesmente porque se fez o monstruoso, e a construção delicada, aérea, proporcional e, por assim dizer, espiritual dos Jerónimos, da Batalha, da Catedral de Burgos! O espírito sombrio e depravado da sociedade reflectiu-o a Arte, com uma fidelidade desesperadora, que será sempre perante a história uma incorruptível testemunha de acusação contra aquela época de verdadeira morte moral. Essa morte moral não invadira só o sentimento, a imaginação, o gosto: invadira também, invadira sobretudo a inteligência. Nos últimos dois séculos não produziu a Península um único homem superior, que se possa pôr ao lado dos grandes criadores da ciência moderna: não saiu da Península uma só das grandes descobertas intelectuais, que são a maior obra e a maior honra do espírito moderno. Durante 200 anos de fecunda elaboração, reforma a Europa culta as ciências antigas, cria seis ou sete ciências novas, a anatomia, a fisiologia, a química, a mecânica celeste, o cálculo diferencial, a crítica histórica, a geologia: aparecem os Newton, os Descartes, os Bacon, os Leibniz, os Harvey, os Buffon, os Ducange, os Lavoisier, os Vico – onde está, entre os nomes destes e dos outros verdadeiros heróis da epopeia do pensamento, um nome espanhol ou português? Que nome espanhol ou português se liga à descoberta duma grande lei científica, dum sistema, duma facto capital? A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos. A alma moderna morrera dentro em nós completamente.

Pelo caminho da ignorância, da opressão e da miséria chega-se naturalmente, chega-se fatalmente, à depravação dos costumes. E os costumes depravaram-se com efeito. Nos grandes, a corrupção faustosa da vida de corte, onde os reis são os primeiros a dar o exemplo do vício, da brutalidade, do adultério: Afonso VI, João V, Filipe V, Carlos IV. Nos pequenos, a corrupção hipócrita, a família vendida pela miséria aos vícios dos nobres e dos poderosos. É a época das amásias e dos filhos bastardos. O que era então a mulher do povo, em face das tentações do ouro aristocrático, vê-se bem no escandaloso processo de nulidade de matrimónio de Afonso VI, e nas memórias do Cavaleiro de Oliveira. Ser rufião é um ofício geralmente admitido, e que se pratica com aproveitamento na própria corte. A religião deixa -de ser um sentimento vivo; torna-se uma prática ininteligente, formal, mecânica. O que eram os frades, sabemo-lo todos: os costumes picarescos e ignóbeis dessa classe são ainda hoje memorados pelo Decameron da tradição popular. O pior é que esses histriões tonsurados eram ao mesmo tempo sanguinários. A Inquisição pesava sobre as consciências como a abóbada dum cárcere. O espírito público abaixava-se gradualmente sob a pressão do terror, enquanto o vício, cada vez mais requintado, se apossava placidamente do lugar vazio que deixava nas almas a dignidade, o sentimento moral e a energia da vontade pessoal, esmagados, destruídos pelo medo. Os casuístas dos séculos XVII e XVIII deixaram-nos um vergonhoso monumento de requinte bestial de todos os vícios, da depravação das imaginações, das misérias íntimas da família, da perdição de costumes, que corria aquelas sociedades deploráveis. Isto por um lado: porque, pelo outro, os casuístas mostram-nos também a que abaixamento moral chegara o espírito do clero, cavando todos os dias esse lodo, revolvendo com afinco, com predilecção, quase com amor, aquele montão graveolente de abjecções. Todas essas misérias íntimas reflectem-se fielmente na literatura. O que eram no século XVII a moral pública, as intrigas políticas, o nepotismo cortesão, o roubo audaz ou sub-reptício da riqueza pública, vê-se (e com todo o relevo duma pena sarcástica e inexorável) na Arte de Furtar do Padre António Vieira. Quanto aos documentos para a história da família e dos costumes privados, encontramo-los na Carta de Guia de Casados de D. Francisco Manuel, nas forças populares portuguesas, e nos romances picarescos espanhóis. O espírito peninsular descera de degrau em degrau, até ao último termo da depravação!

Tais temos sido nos últimos três séculos: sem vida, sem liberdade, sem riqueza, sem ciência, sem invenção, sem costumes. Erguemo-nos hoje a custo, Espanhóis e Portugueses, desse túmulo onde os nossos grandes erros nos tiveram sepultados: erguemo-nos, mas os restos da mortalha ainda nos embaraçam os passos, e pela palidez dos nossos rostos pode bem ver o mundo de que regiões lúgubres e mortais chegámos ressuscitados! Quais as causas dessa decadência, tão visível, tão universal, e geralmente tão pouco explicada? Examinemos os fenómenos que se deram na Península durante o decurso do século XVI, período de transição entre a Idade Média e os tempos modernos, e em que aparecem os gérmenes, bons e maus, que mais tarde, desenvolvendo-se nas sociedades modernas, deram a cada qual o seu verdadeiro carácter. Se esses fenómenos forem novos, universais, se abrangerem todas as esferas da actividade nacional, desde a religião até à indústria, ligando-se assim intimamente ao que há de mais vital nos povos estarei autorizado a empregar o argumento (neste caso, rigorosamente lógico) post hoc, ergo propter hoc, e a concluir que é nesses novos fenómenos que se devem buscar e encontrar as causas da decadência da Península.

Ora esses fenómenos capitais são três, e de três espécies: um moral, outro político, outro económico. O primeiro é a transformação do catolicismo, pelo Concílio de Trento. O segundo, o estabelecimento do absolutismo, pela ruína das liberdades locais. O terceiro, o desenvolvimento das conquistas longínquas. Estes fenómenos assim agrupados, compreendendo os três grandes aspectos da vida social, o pensamento, a política e o trabalho, indicam-nos claramente que uma profunda e universal revolução se operou, durante o século XVI, nas sociedades peninsulares. Essa revolução foi funesta, funestíssima. Se fosse necessária uma contraprova, bastava considerarmos um facto contemporâneo muito simples: esses três fenómenos eram exactamente o oposto dos três factos capitais, que se davam nas nações que lá fora cresciam, se moralizavam, se faziam inteligentes, ricas, poderosas, e tomavam a dianteira da civilização. Aqueles três factos civilizadores foram a liberdade moral, conquistada pela Reforma ou pela filosofia: a elevação da classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em que os destronou: a indústria, finalmente, verdadeiro fundamento do mundo actual, que veio dar às nações uma concepção nova do Direito, substituindo o trabalho à força, e o comércio à guerra de conquista. Ora, a liberdade moral, apelando para o exame e a consciência individual, é rigorosamente o oposto do catolicismo do Concílio de Trento, para quem a razão humana e o pensamento livre são um crime contra Deus: a classe média, impondo aos reis os seus interesses, e muitas vezes o seu espírito, é o oposto do absolutismo, esteado na aristocracia e só em proveito dela governando: a indústria, finalmente, é o oposto do espírito de conquista, antipático ao trabalho e ao comércio.

Assim, enquanto as outras nações subiam, nós baixávamos. Subiam elas pelas virtudes modernas; nós descíamos pelos vícios antigos, concentrados, levados ao sumo grau de desenvolvimento e aplicação. Baixávamos pela indústria, pela política. Baixávamos, sobretudo, pela religião.

Da decadência moral é esta a causa culminante! O catolicismo do Concílio de Trento não inaugurou certamente no mundo o despotismo religioso: mas organizou-o duma maneira completa, poderosa, formidável, e até então desconhecida. Neste sentido, pode dizer-se que o catolicismo, na sua forma definitiva, imobilizado e intolerante, data do século XVI. As tendências, porém, para esse estado vinham já de longe; nem a Reforma significa outra coisa senão o protesto do sentimento cristão, livre e independente, contra essas tendências autoritárias e formalísticas. Essas tendências eram lógicas, e até certo ponto legítimas, dada a interpretação e organização romana da religião cristã: não o eram, porém, dado o sentimento cristão na sua pureza virginal, fora das condições precárias da sua realização política e mundana, o sentimento cristão, numa palavra, no seu domínio natural, a consciência religiosa. É necessário, com efeito, estabelecermos cuidadosamente uma rigorosa distinção entre cristianismo e catolicismo, sem o que nada compreenderemos das evoluções históricas da religião cristã. Se não há cristianismo fora do grémio católico (como asseveram os teólogos, mas como não podem nem querem aceitar a razão, a equidade e a crítica), nesse caso teremos de recusar o título de cristãos aos luteranos, e a todas as seitas saídas do movimento protestante, em quem todavia vive bem claramente o espírito evangélico. Digo mais, teremos de negar o nome de cristãos aos apóstolos e evangelistas, porque nessa época a catolicismo estava tão longe do futuro que nem ainda a palavra católico fora inventada! É que realmente o cristianismo existiu e pode existir fora do catolicismo. O cristianismo é sobretudo um sentimento: o catolicismo é sobretudo uma instituição. Um vive da fé e da inspiração: o outro do dogma e da disciplina. Toda a história religiosa, até ao meado do século XVI, não é mais do que a transformação do sentimento cristão na instituição católica. A Idade Média é o período da transição: há ainda um, e o outro aparece já. Equilibram-se. A unidade vê-se, faz-se sentir, mas não chega ainda a sufocar a vida local e autonómica. Por isso é também esse o período das igrejas nacionais. As da Península, como todas as outras, tiveram, durante a Idade Média, liberdades e iniciativas, concílios nacionais, disciplina própria, e uma maneira sua de sentir e praticar a religião. Daqui, dois grandes resultados, fecundos em consequências benéficas. O dogma, em vez de ser imposto, era aceite, e, num certo sentido, criado: ora, quando a base da moral é o dogma, só pode haver boa moral deduzindo-a dum dogma aceite, e até certo ponto criado, e nunca imposto. Primeira consequência, de incalculável alcance.

O sentimento do dever, em vez de ser contradito pela religião, apoiava-se nela. Daqui a força dos caracteres, a elevação dos costumes. Em segundo lugar, essas igrejas nacionais, por isso mesmo que eram independentes, não precisavam oprimir. Eram tolerantes. A sombra delas, muito na sombra é verdade, mas tolerados em todo o caso, viviam Judeus e Mouros, raças inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares tanto deveram, e cuja expulsão tem quase as proporções duma calamidade nacional. Segunda consequência, de não menor alcance do que a primeira. Se a Península não era então tão católica como o foi depois, quando queimava os judeus e recebia do geral dos Jesuítas o santo e a senha da sua política, era seguramente muito mais cristã, isto é, mais caridosa e moral, como estes factos o provam.

Rasga-se porém o século XVI, tão prodigioso de revelações, e com ele aparece no mundo a Reforma, seguida por quase todos os povos de raça germânica. Esta situação cria para os povos latinos, que se conservavam aliados a Roma, uma necessidade instante, que era ao mesmo tempo um grande problema. Tornava-se necessário responder aos ataques dos protestantes, mostrar ao mundo que o espírito religioso não morrera no seio das raças latinas, que debaixo da corrupção romana havia alma e vontade. Um grito unânime de reforma saiu do meio dos representantes da ortodoxia, opondo-se ao desafio, que, com a mesma palavra, haviam lançado ao mundo católico Lutero, Zwingle, Ecolampado, Melanchthon e Calvino. Reis, povos, sacerdotes, clamavam todos reforma! Mas aqui aparecia o problema: que espécie de reforma? A opinião dos bispos e, em geral, das populações católicas pronunciava-se no sentido duma reforma liberal, em harmonia com o espírito da época, chegando muitos até a desejar uma conciliação com os protestantes: era a opinião episcopal representante das igrejas nacionais. Em Roma, porém, a solução que se dava ao problema tinha um bem diferente carácter. O ódio e a cólera dominavam os corações dos sucessores dos apóstolos. Repelia-se com horror a ideia de conciliação, da mais pequena concessão. Pensava-se que era necessário fortificar a ortodoxia, concentrando todas as forças, disciplinando e centralizando; empedernir a Igreja, para a tornar inabalável. Era a opinião absolutista, representante do Papado. Esta opinião (para não dizer este partido) triunfou, e foi esse triunfo uma verdadeira calamidade para as nações católicas. Nem era isso o que elas desejavam, e o que pediram e sustentaram os seus bispos, lutando indefesos durante 16 anos contra a maioria esmagadora das criaturas de Roma! Pediam uma verdadeira reforma, sincera, liberal, em harmonia com as exigências da época. O programa formulava-se em três grandes capítulos fundamentais. 1 ° Independência dos bispos, autonomia das igrejas nacionais, inauguração dum parlamentarismo religioso pela convocação amiudada dos concílios, esses estados gerais do cristianismo, superiores ao Papa e árbitros supremos dó ' mundo espiritual. 2 ° O casamento para os padres, isto é, a secularização progressiva do clero, a volta às leis da humanidade duma classe votada durante quase mil anos a um duro ascetismo, então talvez necessário, mas já no século XVI absurdo, perigoso, desmoralizador. 3 ° Restrições à pluralidade dos benefícios eclesiásticos, abuso odioso, tendente a introduzir na Igreja um verdadeiro feudalismo com todo o seu poder e desregramento. Destas reformas saía naturalmente a humanização gradual da religião, a liberdade crescente das consciências, e a capacidade para o cristianismo de se transformar dia a dia, de progredir, de estar sempre à altura do espírito humano, resultado imenso e capital que trouxe a Reforma aos povos que a seguiram. Os graves prelados, que então combatiam pelas reformas que acabo de apresentar, não desejavam, certamente, nem mesmo previam estas consequências, o próprio Lutero as não previu. Mas nem por isso as consequências deixariam de ser aquelas. Bartolomeu dos Mártires e os bispos de Cádis e Astorga não eram, seguramente, revolucionários: representavam no Concílio de Trento a última defesa e o protesto das igrejas da Península contra o ultramontanismo invasor: mas a obra deles é que era, pelas consequências, revolucionária; e, trabalhando nela, estavam na corrente e no espírito do grande e emancipador século XVI. Se houvessem alcançado essa reforma, teríamos nós talvez, Espanhóis e Portugueses, escapado à decadência. Quem pode hoje negar que é em grande parte à Reforma que os povos reformados devem os progressos morais que os colocaram naturalmente à frente da civilização? Contraste significativo, que nos apresenta hoje o mundo! As nações mais inteligentes, mais moralizadas, mais pacíficas e mais industriosas são exactamente aquelas que seguiram a revolução religiosa do século XVI: Alemanha, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos, Suíça. As mais decadentes são exactamente as mais católicas! Com a Reforma estaríamos hoje talvez à altura dessas nações; estaríamos livres, prósperos, inteligentes, morais... mas Roma teria caído!

Roma não queria cair. Por isso resistiu longo tempo, iludiu quanto pôde os votos das nações que reclamavam a convocação do concílio reformador. Não podendo resistir mais tempo, cede por fim. Mas como o fez? Como cedeu Roma, dominada desde então pelos Jesuítas? Estamos em Itália, meus senhores, no país de Machiavelli !... Eu não digo que Roma usasse deliberada e conscientemente duma política maquiavélica: não posso avaliar as intenções. Digo simplesmente que o parece; e que, perante a história, a política romana em toda esta questão do Concílio de Trento aparece com um notável carácter de habilidade e cálculo... muito pouco evangélicos! Roma, não podendo resistir mais à ideia do concílio, explora essa ideia em proveito próprio. Dum instrumento de paz e progresso, faz uma arma de guerra e dominação; confisca o grande impulso reformador, e fá-lo convergir em proveito do ultramontanismo. Como? Duma maneira simples: 1 °, dando só aos legados do Papa o direito de propor reformas: 2°, substituindo, ao antigo modo de votar por nações, o voto por cabeças, que lhe dá com os seus cardeais e bispos italianos, criaturas suas, uma maioria compacta e resolvida sempre a esmagar, a abafar os votos das outras nações. Basta dizer que a França, a Espanha, Portugal e os estados católicos da Alemanha nunca tiveram, juntos, número de votos superior a 60, enquanto os italianos contavam 180, e mais! Nestas condições, o concílio deixava de ser universal: era simplesmente italiano; nem italiano, romano apenas! Desde o primeiro dia se pôde ver que a causa da reforma liberal estava perdida. Provocado para essa reforma, o concílio só serviu contra ela, para a sofismar e anular!

Composta e armada assim na máquina, vejamo-la trabalhar. Para sujeitar na Terra o homem, era necessário fazê-lo condenar primeiro no Céu: por isso o concílio começa por estabelecer dogmaticamente, na sessão 5.ª, o pecado original, com todas as suas consequências, a condenação hereditária por seus merecimentos, mas só por obra e graça de J. Cristo. Muitos teólogos e alguns poucos sínodos particulares se haviam já ocupado desta matéria: nenhum concílio ecuménico a definira ainda. Um concílio verdadeiramente liberal deixava essa questão na sombra, no indefinido, não prendia a liberdade e a dignidade humanas com essa algema: o Concílio de Trento fez dessa definição o prólogo dos seus trabalhos. Convinha-lhe logo no começo condenar sem apelação a razão humana, e dar essa base ao seu edifício. Assim o fez. De então para cá, ficou dogmaticamente estabelecido no mundo católico que o homem deve ser um corpo sem alma, que a vontade individual é uma sugestão diabólica, e que para nos dirigir basta o Papa em Roma e o confessor à cabeceira. Perinde ac cadaver, dizem os estatutos da Companhia de. Jesus.

Na sessão 13 a confirma-se e precisa-se o dogma da eucaristia, já definido, ainda que vagamente, no 4 ° Concílio de Latrão, e vibra-se o anátema sobre quem não crer na presença real de Cristo no pão e no vinho depois da consagração. É mais um passo (e este decisivo) para fazer entrar o cristianismo no caminho da idolatria, para colocar o divino no absurdo. Poucos dogmas contribuíram tanto como este materialismo da presença real para embrutecer o novo povo, para fazer reviver nele os instintos pagãos, para lhe sofismar a razão natural! Parece que era isto o que o concílio desejava!

Na sessão 14.ª trata-se detidamente da confissão. A confissão existia há muito na Igreja, mas comparativamente livre e facultativa. No 4 ° Concílio de Latrão restringira-se já bastante essa liberdade. Na sessão 14 a de Trento é a consciência cristã definitivamente encarcerada. Sem confissão não há remissão de pecados! A alma é incapaz de comunicar com Deus, senão por intermédio do padre! Estabelece-se a obrigação de os fiéis se confessarem em épocas certas, e exortam-se a que se confessem o mais que possam. Funda-se aqui o poder, tão temível quanto misterioso, do confessionário. Aparece um tipo singular: o director espiritual. Daí por diante há sempre na família, imóvel à cabeceira, invisível mas sempre presente, um vulto negro que separa o marido da mulher, uma vontade oculta que governa a casa, um intruso que manda mais do que o dono. Quem há aqui, espanhol ou português, que não conheça este estado deplorável da família, com um chefe secreto, em regra hostil ao chefe visível? Quem não conhece as desordens, os escândalos, as misérias introduzidas no lar doméstico pela porta do confessionário? O concílio não queria isto, decerto: mas fez tudo quando era necessário para que isto acontecesse.

Na parte disciplinar e nas relações da Igreja com o Estado predomina o mesmo espírito de absolutismo, de concentração, de invasão de todos os direitos. Na sessão 5 a tornam-se as ordens regulares independentes dos bispos, e quase exclusivamente dependentes de Roma. Que arma esta na mão do Papado, que já de si não era mais do que uma arma na mão do jesuitismo! Na sessão 13 a só o Papa, pelos seus comissários, pode julgar os bispos e os padres. É a impunidade para o clero! Na sessão 4 a põem-se restrições à leitura da Bíblia pelos seculares, restrições tais que equivalem a uma verdadeira proibição. Ora, o que é isto senão a suspeição da razão humana, condenada a pensar e a ler pelo pensamento e pelos olhos de meia dúzia de eleitos? Nas sessões 7.ª, 9.ª, 18.ª e 24.ª estabelecem-se igualmente disposições tendentes todas a sujeitar os governos, a impor aos povos a polícia romana, apagando implacavelmente por toda a parte os últimos vestígios das igrejas nacionais. Finalmente, a superioridade do Papa sobre os concílios triunfa nas sessões 23.ª e 25.ª, pela boca do jesuíta Lainez, inspirador e alma do concílio... se é permitido, ainda metaforicamente, falando dum jesuíta, empregar a palavra alma... A redacção dum catecismo vem coroar esta obra de alta política. Com esse catecismo, imposto por toda a parte e por todos os modos aos espíritos moços e simples, tratou-se de matar a liberdade no seu gérmen, de absorver as gerações nascentes, de as deformar e torturar, comprimindo-as nos moldes estreitos duma doutrina seca, formal, escolástica e subtilmente ininteligível. Se se conseguiu ou não esse resultado funesto, respondam umas poucas de nações moribundas, enfermas da pior das enfermidades, a atrofia moral!

Sim, meus senhores! essa máquina temerosa de compressão, que foi o catolicismo depois do Concílio de Trento, que podia ela oferecer aos povos? A intolerância, o embrutecimento, e depois a morte! Tomo três exemplos. Seja o primeiro a Guerra dos Trinta Anos, a mais cruel, mais friamente encarniçada, mais sistematicamente destruidora de quantas têm visto os tempos modernos, e que por pouco não aniquila a Alemanha. Essa guerra, provocada pelo partido católico, e por ele dirigida com uma perseverança infernal, mostrou bem ao mundo que abismos de Pódio podem ocultar palavras de paz e religião. O padre não dirigia somente, assistia à execução. Cada general trazia sempre consigo um director jesuíta: e esses generais chamavam-se Tilly, Picolomini, os mais endurecidos dos verdugos! Salvou então a Alemanha e a Europa a firmeza indomável de um coração tão grande quanto puro, sereno em face dessas hordas fanáticas. O verdadeiro herói (e único também) dessa guerra maldita, o verdadeiro santo desse período tenebroso, é um protestante, Gustavo Adolfo. Enquanto ao Papa, esse aplaudia a matança! O segundo exemplo é a Itália. O terror que inspirava ao Papado a criação em Itália dum estado forte, que lhe pusesse uma barreira à ambição crescente de dia para dia, tornou-o o maior inimigo da unidade italiana. É o Papado quem semeia a discórdia entre as cidades e os príncipes italianos, sempre que tentam ligar-se. É o Papado quem convida os estrangeiros a descerem os Alpes, na cruzada contra as forças nacionais, cada vez que parecem querer organizar-se. «O Papado», diz Edgard Quinet, «tem sido um ferro sagrado na ferida da Itália, que a não deixa sarar.» Hoje mesmo, se essa suspirada unidade se consumou, não foi no meio das maldições e cóleras do clero e de Roma? O único pensamento, que hoje absorve o Papado, é desmanchar aquela obra nacional, chamar sobre ela os ódios do mundo, o ferro estrangeiro, podendo ser; é assassinar a Itália ressuscitada! Estes factos são por todos sabidos. O que talvez nem todos saibam é o papel que o catolicismo representou no assassínio da Polónia. «A intolerância dos jesuítas e ultramontanos», diz Emílio de Lavelaye, «foi a causa primária do, desmembramento e queda da Polónia.» Esta nação heróica, mas pouco organizada, ou antes, pouco unificada, era uma espécie de federação de pequenas nacionalidades, com costumes e religiões diferentes. Encravada entre monarquias poderosas e ambiciosas, como a Áustria, a Rússia e a Turquia de então, a Polónia só podia viver pela liberdade política, e sobretudo pela tolerância contra o inimigo comum, os grupos autonómicos de que se compunha. A essa tolerância deveu ela, com efeito, a força e importância que teve na história da Europa até ao século XVII: católicos, gregos cismáticos, protestantes, socinianos, viveram muito tempo como irmãos, numa sociedade verdadeiramente cristã porque era verdadeiramente tolerante. Um dia, porém, os jesuítas, lá do centro de Roma, olharam para a Polónia como para uma boa presa. Aquela nação era efectivamente um escândalo para os bons padres. Tanto intrigaram que em 1570 tinham já logrado introduzir-se na Polónia: o rei Estêvão Bathory concede-lhes, com uma culpável imprudência, a Universidade de Wilna. Senhores do ensino, e em breve das consciências da nobreza católica, os jesuítas são um poder: começam as perseguições religiosas. Em 1548, João Casimiro, que antes de ser rei fora cardeal e jesuíta, quer obrigar os camponeses ruténios, sectários do cisma grego, a converterem-se ao catolicismo. Estes levantam-se, unem-se aos cossacos, também do rito grego, e começa uma guerra formidável, cujo resultado foi separarem-se cossacos e ruténios da federação polaca, dando-se à Rússia, em cujas mãos se tornaram uma arma terrível sempre apontada ao coração da Polónia. Nunca esta nação teve inimigos tão encarniçados como os cossacos! Sem eles, a Polónia, enfraquecida entre vizinhos formidáveis, devia cair, e caiu efectivamente. A partilha espoliadora de 1772 não fez mais do que confirmar um facto já antigo, a nulidade da nação polaca.

Assim pois, meus senhores, o catolicismo dos últimos séculos, pelo seu princípio, pela sua disciplina, pela sua política, tem sido no mundo o maior inimigo das nações, e verdadeiramente o túmulo das nacionalidades. «O antro da Esfinge», disse dele um poeta filósofo, «reconhece-se logo à entrada pelos ossos dos povos devorados.»

E a nós, Espanhóis e Portugueses, como foi que o catolicismo nos anulou? O catolismo pesou sobre nós por todos os lados, com todo o seu peso. Com a Inquisição, um terror invisível paira sobre a sociedade: a hipocrisia torna-se um vício nacional e necessário: a delação é uma virtude religiosa: a expulsão dos judeus e mouros empobrece as duas nações, paralisa o comércio e a indústria, e dá um golpe mortal na agricultura em todo o Sul da Espanha: a perseguição dos cristãos-novos faz desaparecer os capitais: a Inquisição passa os mares, e, tornando-nos hostis os índios, impedindo a fusão dos conquistadores e dos conquistados, torna impossível o estabelecimento duma colonização sólida e duradoura: na América despovoa as Antilhas, apavora as populações indígenas, e faz do nome de cristão um símbolo de morte; o terror religioso, finalmente, corrompe o carácter nacional, e faz de duas nações generosas hordas de fanáticos endurecidos, o horror da civilização. Com o jesuitismo desaparece o sentimento cristão, para dar lugar aos sofismas mais deploráveis a que jamais desceu a consciência religiosa: métodos de ensino, ao mesmo tempo brutais e requintados, esterilizam as inteligências, dirigindo-se à memória, com o fim de matarem o pensamento inventivo, e alcançam alhear o espírito peninsular do grande movimento da ciência moderna, essencialmente livre e criadora: a educação jesuítica faz das classes elevadas máquinas inteligentes e passivas; do povo, fanáticos corruptos e cruéis: a funesta moral jesuítica, explicada (e praticada) pelos seus casuístas, com as suas restrições mentais, as suas subtilezas, os seus equívocos, as suas condescendências, infiltra-se por toda a parte, como um veneno lento, desorganiza moralmente a sociedade, desfaz o espírito de família, corrompe as consciências com a oscilação contínua da noção do dever, e aniquila os caracteres, sofismando-os, amolecendo-os: o ideal da educação jesuítica é um povo de crianças mudas, obedientes e imbecis, realizou-o nas famosas -missões do Paraguai; o Paraguai foi o reino dos céus da Companhia de Jesus; perfeita ordem, perfeita devoção; uma coisa só faltava, a alma, isto é, a dignidade e a vontade, o que distingue o homem da animalidade! Eram estes os benefícios que levávamos às raças selvagens da América, pelas mãos civilizadoras dos padres da Companhia! Por isso o génio livre popular decaiu, adormeceu por toda a parte: na arte, na literatura, na religião. Os santos da época já não têm aquele carácter simples, ingénuo, dos verdadeiros santos populares: são frades beatos, são jesuítas hábeis. Os sermonários e mais livros de devoção, não sei por que lado sejam mais vergonhosos; se pela nulidade das ideias, pela baixeza do sentimento, ou pela puerilidade ridícula do estilo. Enquanto à arte e literatura, mostrava-se bem clara a decadência naquelas massas estúpidas de pedra da arquitectura jesuítica, e na poesia convencional das academias, ou nas odes ao divino e jaculatórias fradescas. O génio popular, esse morrera às mãos do clero, como com tanta evidência o deixou demonstrado nos seus recentes livros, tão cheios de novidades, sobre a literatura portuguesa, o Sr. Teófilo Braga. Os costumes saídos desta escola sabemos nós o que foram. Já citei a Arte de Furtar, os romances picarescos, as farsas populares, o teatro espanhol, os escritos de D. Francisco Manuel e do Cavaleiro de Oliveira. Na falta destes documentos, bastava-nos a tradição, que ainda hoje reza dos escândalos dessa sociedade aristocrática e clerical! Essa funesta influência da direcção católica não é menos visível no mundo político. Como é que o absolutismo espiritual podia deixar de reagir sobre o espírito do poder civil? O exemplo do despotismo vinha de tão alto! os reis eram tão religiosos! Eram por excelência os reis católicos, fidelíssimos. Nada forneceu pelo exemplo, pela autoridade, pela doutrina, pela instigação, um tamanho ponto de apoio ao poder absoluto como o espírito católico e a influência jesuítica. Nesses tempos santos, os verdadeiros ministros eram os confessores dos reis. A escolha do confessor era uma questão de Estado. A paixão de dominar, e o orgulho criminoso de um homem, apoiavam-se na palavra divina. A teocracia dava a mão ao despotismo. Essa direcção via-se claramente na política externa. A política, em vez de curar dos interesses verdadeiros do povo, de se inspirar de um pensamento nacional, traía a sua missão, fazendo-se instrumento da política católica romana, isto é, dos interesses, das ambições de um estrangeiro. D. Sebastião, o discípulo dos jesuítas, vai morrer nos areais de África pela fé católica, não pela nação portuguesa. Carlos V, Filipe II, põem o mundo a ferro e fogo, porquê? Pelos interesses espanhóis? Pela grandeza de Espanha? Não: pela grandeza e pelos interesses de Roma! Durante mais de 70 anos, a Espanha, dominada por estes dois inquisidores coroados, dá o melhor do seu sangue, da sua riqueza, da sua actividade, para que o Papa desse outra vez leis à Inglaterra e à Alemanha. Era essa a política nacional desses reis famosos: eu chamo a isto simplesmente trair as nações.

Tal é uma das causas, se não a principal, da decadência dos povos peninsulares. Das influências deletérias nenhuma foi tão universal, nenhuma lançou tão fundas raízes. Feriu o homem no que há de mais íntimo, nos pontos mais essenciais da vida moral, no crer, no sentir – no ser: envenenou a vida nas suas fontes mais secretas. Essa transformação da alma peninsular fez-se em tão íntimas profundidades que tem escapado às maiores revoluções; passam por cima dessa região quase inacessível, superficialmente, e deixaram-na na sua inércia secular, Há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, há lá oculto, dissimulado, mas não inteiramente morto, um beato, um fanático ou um jesuíta! Esse moribundo que se ergue dentro em nós é o inimigo, é o passado. É preciso enterrá-lo por uma vez, e como ele o espírito sinistro do catolicismo de Trento.

Esta causa actuou principalmente sobre a vida moral: a segunda, o absolutismo, apesar de se reflectir no estado dos espíritos, actuou principalmente na vida política e social. A história da transformação das monarquias peninsulares é longa, e, para a minha pouca ciência, obscura e até certo ponto desconhecida: não a poderia eu fazer aqui. Basta dizer que o carácter dessas monarquias durante a Idade Média contrasta singularmente com o que lhe encontramos no século XVI e nos seguintes. Os reis então não eram absolutos; e não o eram porque a vida política local, forte e vivaz, não só não lhes deixava um grande círculo de acção, mas ainda, dentro desse mesmo círculo, lhes opunha à expansão da autoridade embaraços e uma contínua vigilância. Os privilégios da nobreza e do clero, por um lado, e, pelo outro, as instituições populares, os municípios, as comunas, equilibravam com mais ou menos oscilações o peso da coroa. Para as questões sumas, para os momentos de crise, lá estavam as Cortes, onde todas as classes sociais tinham representantes e voto. A liberdade era então o estado normal da Península.

No século XVI tudo isto mudou. O poder absoluto assenta-se sobre a ruína das instituições locais. Abaixou a nobreza, é verdade, mas só em proveito seu: o povo pouco lucrou com essa revolução. O que é certo é que perdeu a liberdade. A vida municipal afrouxa gradualmente: as comunas espanholas, depois dum sangrento protesto, caem exânimes, aos pés dum rei, que nem sequer era inteiramente espanhol. As instituições locais, cerceadas por todos os lados, sentem faltar-lhes em volta o ar, e o chão debaixo de si. Quem poderá jamais contar essas invasões surdas, insensíveis do poder real no terreno do povo, essas lutas subterrâneas, as abdicações sucessivas da vontade nacional nas mãos de um homem. as resistências infelizes, a longa e cruel história do desaparecimento dos foros populares? É uma história tão triste quanto obscura, que ninguém fez nem fará jamais! Vê-se o desfecho do drama: os incidentes escapam-nos. Mas ao lado dessa luta surda houve outra manifesta, cuja história se erguerá sempre como um espectro vingador, para acusar a realeza. Essa luta é a grande guerra communera das cidades espanholas. Vencidas, esmagadas pela força, as cidades espanholas encontraram um herói, de cujo peito saiu ardente um protesto, que será eterno como a condenação de quem o provocou. Eis aqui o que D. Juan de Padilla, chefe dos communeros, escrevia à sua cidade de Toledo, horas antes de ser decapitado. «A ti, cidade de Toledo, que és a coroa de Espanha, e a luz do mundo, que já no tempo dos Godos eras livre, e que prodigalizaste o teu sangue para assegurar a tua liberdade e a das cidades tuas irmãs, Juan de Padilha, teu filho legítimo, te faz saber que pelo sangue do seu corpo mais uma vez vão ser renovadas as tuas antigas vitórias...» A cabeça de Padilha rolou, e com ele, decapitada também, caiu a antiga liberdade municipal. A centralização monárquica, pesada, uniforme, caiu sobre a Península como a pedra dum túmulo. A respiração de milhares de homens suspendeu-se, para se concentrar toda no peito de um homem excepcional, de quem o acaso do nascimento fazia um deus. Se, ao menos, esse deus fosse propício, bom, providencial! Mas a centralização do absolutismo, prostrando o povo, corrompia ao mesmo tempo o rei. D. João III, esse rei fanático e de ruim condição, Filipe II, o demónio do Meio-Dia, inquisidor e verdugo das nações, Filipe III, Carlos IV, João V, Afonso VI, devassos uns, outros desordeiros, outros ignorantes e vis, são bons exemplos da realeza absoluta, enfatuada até ao vício, até ao crime, do orgulho do próprio poder, possessa daquela loucura cesariana com que a Natureza faz expiar aos déspotas a desigualdade monstruosa, que os põe como que fora da Humanidade. A tais homens, sem garantias, sem inspecção, confiaram as nações cegamente os seus destinos! Se Filipe II não fosse absoluto, jamais teria podido tentar o seu absurdo projecto de conquistar a Inglaterra, não teria feito sepultar nas águas do oceano, com a Invencível Armada, milhares de vidas e um capital prodigioso inteiramente perdido. Se D. Sebastião não fosse absoluto, não teria ido enterrar em Alcácer Quibir a nação portuguesa, as últimas esperanças da pátria.

Outras monarquias, a francesa por exemplo, sujeitavam o povo, mas ajudavam por outro lado o seu progresso. Aristocráticas pelas raízes, tinham pelos frutos muito de populares. A burguesia, a quem estava destinado o futuro, erguia-se, começava a ter voz. As nossas monarquias, porém, tiveram um carácter exclusivamente aristocrático: eram-no pelo princípio, e eram-no pelos resultados. Governava-se então pela nobreza e para a nobreza. As consequências sabemo-las nós todos. Pelos morgados, vinculou-se a terra, criaram-se imensas propriedades. Com isto, anulou-se a classe dos pequenos proprietários; a grande cultura sendo então impossível, e desaparecendo gradualmente a pequena, a agricultura caiu; metade da Península transformou-se numa charneca: a população decresceu, sem que por isso se aliviasse a miséria. Por outro lado, o espírito aristocrático da monarquia, opondo-se naturalmente aos progressos da classe média, impediu o desenvolvimento da burguesia, a classe moderna por excelência, civilizadora e iniciadora, já na indústria, já nas ciências, já no comércio. Sem ela, o que podíamos nós ser nos grandes trabalhos com que o espírito moderno tem transformado a sociedade, a inteligência e a natureza? O que realmente fomos; nulos, graças à monarquia aristocrática!,Essa monarquia, acostumando o povo a servir, habituando-o à inércia de quem espera tudo -de cima, obliterou o sentimento instintivo da liberdade, quebrou a energia das vontades, adormeceu a iniciativa; quando mais tarde lhe deram a liberdade, não a compreendeu; ainda hoje a não compreende, nem sabe usar dela. As revoluções podem chamar por ele, sacudi-lo com força: continua dormindo sempre o seu sono secular! A estas influências deletérias, a estas dias causas principais de decadência, uma moral e outra política, junta-se uma terceira, de carácter sobretudo económico: as conquistas. Há dois séculos que os livros, as tradições e a memória dos homens andam cheios dessa epopeia guerreira, que os povos peninsulares, atravessando oceanos desconhecidos, deixaram escrita por todas as partes do mundo. Embalaram-nos com essas histórias: atacá-Ias é quase um sacrilégio. E todavia esse brilhante poema em acção foi uma das maiores causas da nossa decadência. É necessário dizê-lo, em que pese aos nossos sentimentos mais caros de patriotismo tradicional. Tanto mais que um erro económico não é necessariamente uma vergonha nacional. No ponto de vista heróico, quem pode negá-lo? Foi esse movimento das conquistas espanholas e portuguesas um relâmpago brilhante, e por certos lados sublime, da alma intrépida peninsular. A moralidade subjectiva desse movimento é indiscutível perante a história: são do domínio da poesia, e sê-lo-ão sempre, acontecimentos que puderam inspirar a grande alma de Camões. A desgraça é que esse espírito guerreiro estava deslocado nos tempos modernos: as nações modernas estão condenadas a não fazerem poesia, mas ciência. Quem domina não é já a musa heróica da epopeia; é a economia política, Calíope dum mundo novo, se não tão belo, pelo menos mais justo e lógico do que o antigo. Ora, é à luz da economia política que eu condeno as conquistas e o espírito guerreiro. Quisemos refazer os tempos heróicos da idade moderna: enganámo-nos; não era possível; caímos. Qual é, com efeito, o espírito da idade moderna? É o espírito de trabalho e de indústria: a riqueza e a vida das nações têm de se tirar da actividade produtora, e não já da guerra esterilizadora. O que sai da guerra não só acaba cedo, mas é além disso um capital morto, consumido sem resultado. E necessário que o trabalho, sobretudo a indústria agrícola, o fecunde, lhe dê vida. Domina todo este assunto uma lei económica, formulada por Adão Smith, um dos pais da ciência, nas seguintes palavras: «O capital adquirido pelo comércio e pela guerra só se torna real e produtivo quando se fixa na cultura da terra e nas outras indústrias.» Vejamos o que tem feito a Inglaterra com a índia, com a Austrália, e com o comércio do mundo. Explora, combate: mas a riqueza adquirida fixa-a no seu solo, pela sua poderosa indústria, e pela sua agricultura, talvez a mais florescente do mundo. Por isso a prosperidade da Inglaterra há dois séculos tem sido a admiração e quase a inveja das nações. Pelo contrário, nós, Portugueses e Espanhóis, que destinos demos às prodigiosas riquezas extorquidas aos povos estrangeiros? Respondam a nossa indústria perdida, o comércio arruinado, a população diminuída, a agricultura decadente, e esses desertos da Beira, do Alentejo, da Estremadura espanhola, das Castelas, onde não se encontra uma árvore, um animal doméstico, uma face humana!

Um exemplo, o da agricultura portuguesa antes e depois do século XVI, porá em evidência, com factos significativos, essa influência perniciosa do espírito de conquista no mundo económico. Esses factos são extraídos de três obras, cuja autoridade é incontestável: a Memória histórica de Alexandre de Gusmão sobre a agricultura portuguesa; o livro de Camillo Pallavicini La economia agraria del Portogallo; e a História da Agricultura em Portugal, pelo Sr. Rebelo da Silva. Uma coisa que impressiona quem estuda os primeiros séculos da monarquia portuguesa é o carácter essencialmente agrícola dessa sociedade. Os cognomes dos reis, o Povoador, o Lavrador, já por si são altamente significativos. No meio das guerras, e apesar da imperfeição das instituições, a população crescia, e a abundância generalizava-se. A arborização do país desenvolvia-se, a charneca recuava diante do trabalho. As armadas, que mais tarde dominaram os mares, saíram das matas semeadas por D. Dinis. No reinado de D. Fernando era Portugal um dos países que mais exportavam. A Castela, a Galiza, a Flandres, a Alemanha, forneciam-se quase exclusivamente de azeite português; a nossa prosperidade agrícola era suficiente para abastecer tão vastos mercados. O comércio dos cereais era considerável. No século XV vinham os navios venezianos a Lisboa e aos portos do Algarve, trazendo as mercadorias do Oriente, e levando em troca cereais, peixe salgado e frutas secas, que espalhavam pela Dalmácia e por toda a Itália. Sustentávamos também um activo comércio com a Inglaterra. As classes populares desenvolviam-se pela abundância e o trabalho, a população crescia. No tempo de D. João II chegara a população a muito perto de três milhões de habitantes... Basta comparar este algarismo com o da população em 1640, que escassamente excedia um milhão, para se conhecer que uma grande decadência se operou durante este intervalo!

Dera-se, com efeito, durante o século XVI, uma deplorável revolução nas condições económicas da sociedade portuguesa, revolução sobretudo devida ao novo estado de coisas criadas pelas conquistas. O proprietário, o agricultor, deixam a charrua e fazem-se soldados, aventureiros: atravessam o oceano, à procura de glória, de posição mais brilhante ou mais rendosa. Atraída pelas riquezas acumuladas nos grandes centros, a população rural aflui para ali, abandona os campos, e vem aumentar nas capitais o contingente da miséria, da domesticidade ou do vício. A cultura diminui gradualmente. Com essa diminuição, e com a depreciação relativa dos metais preciosos pela afluência dos tesouros do Oriente e América, os cereais chegam a preços fabulosos. O trigo, que em 1460 valia 10 réis por alqueire, tem subido, em 1520, a 20 réis, 30 e 35! Por isso o preço nos mercados estrangeiros, nem sequer pode cobrir o custo originário: a concorrência doutras nações, que produziam mais barato, esmaga-nos. Não só deixamos de exportar, mas passamos a importar: «Do reinado de D. Manuel em diante», diz Alexandre de Gusmão, «somos sustentados pelos estrangeiros.» Esse sustento podiam-no pagar os grandes, que a Índia e o Brasil enriqueciam. A multidão, porém, morria de fome. A miséria popular era grande. A esmola à portaria dos conventos e casas fidalgas passou a ser uma instituição. Mendigavam os bandos pelas estradas. A tradição, num símbolo terrivelmente expressivo, apresenta-nos Camões, o cantor dessas glórias que nos empobreciam, mendigando para sustentar a velhice triste e desalentada. É uma imagem da nação. As crónicas falam-nos de grandes fomes. Por tudo isto, decrescia a olhos vistos a população. Que remédio se procura a este mal? um mal incomparavelmente maior: a escravidão! Tenta-se introduzir o trabalho servil nas culturas, com escravos vindos da África! Felizmente não passou de tentativa. Era a transformação dum país livre e civilizado numa coisa monstruosa, uma oligarquia de senhores de roça! A barbaridade dos devastadores da América, transportada para o meio da Europa! Com estes elementos o que se podia esperar da indústria? Uma decadência total. Não se fabrica, não se cria: basta o ouro do Oriente para pagar a indústria dos outros, enriquecendo-os, instigando-os ao trabalho produtivo, e ficando nós cada vez mais pobres, com as mãos cheias de tesouros! Importávamos tudo: de Itália, sedas, veludos, brocados, massas; da Alema

fevereiro 18, 2006

Cheney

O New York Post publicou hoje na primeira página o rosto cadavérico e feito num passador do amigo que Dick Cheney alvejou de morte, num acidente de caça. É a apoteose da falta de decoro, depois de todas as piadinhas que foram aparecendo por aqui. Perder o amigo e não perder a piada é uma questão para ser deixada à consciência de cada um. Arriscar a piada sobre a perda (física e trágica) de um amigo de outra pessoa, também. Mas são questões diferentes. Para que não haja equívocos: o que escandaliza não é que haja liberdade de expressão, mas que lhe seja dado um uso tão mau.

fevereiro 16, 2006

José Peixoto

peixoto2.jpgTive o privilégio de escutar José Peixoto de ouvido encostado à porta de um dos pequenos estúdios de guitarra da Academia de Amadores de Música, num sótão mágico com vista sobre Lisboa. Peixoto é um guitarrista introspectivo de um bom gosto extremo, que se manifesta também nas capas dos seus discos e nos títulos dos temas.


O andamento do tempo (As Vozes dos Passos, 1996)

fevereiro 15, 2006

Criticando a crítica

Os portugueses conhecem-me. Sabem como aprecio Pedro Mexia enquanto blogger e que, de algum modo, comecei a escrever aqui por causa dele. Estes elementos deixam-me à vontade para discordar de um post de Jorge Melícias, de título Blogs e Vomitórios. Sobre o vomitório não me pronuncio, mas parece-me claro que a violência de certos comentários entre as gentes das letras deveria ser um exemplo usado pela defesa (ou pelos consultores de imagem) de Valentim Loureiro, para efeitos de relativização. Sobre Mexia, Melícias faz um elogio citando um post tipicamente mexiano, isto é, de humor autodepreciativo sobre sexo. O problema de Mexia nesse registo não é a qualidade dos posts, mas o "típico" não ser sinónimo de "original", apenas de imagem de marca. Uma imagem tão forte que, há umas semanas, a propósito da promessa de abstinência sexual de Berlusconi, apeteceu-me escrever uma entrada e só não o fiz por ter pensado que Mexia a iria escrever também. Sem pretender fazer disto prova (dependo da boa-fé de quem me lê), a verdade é que acertei. Ora, premonições destas só costumo ter em relação aos textos do Delgado em período de campanha eleitoral e, em regra, não favorecem a leitura. Nunca seria este humor (ele tem outros registos também, reconheça-se) que eu usaria para elogiar Mexia, apesar de esse ser o estilo mexiano na blogosfera. O tal "humor fino e inteligente" não nos remete "obrigatoriamente, para um certo habitante de Manhattan [Woody Allen, presumo]". Há variadíssimos cómicos de stand up que usam o mesmo registo. Pode ser que seja uma coisa pouco portuguesa, mas na cultura anglo-saxónica é mato.

Lendo blogues/papéis/imprensa regional/panfletos/minutas de repartições públicas/cartas de suicidas/declarações a navalha nos plátanos/SOS em garrafas com rolha de cortiça/recados no gravador/mensagens desenhadas a dedo na condensação do espelho

JPP passou dos comentários às "leis". Qualquer dia ainda lhe dá para a matemática e passará a intervir na forma de teoremas. Mas não deixo de aplaudir o exercício de sistematização. De resto, JPP fala de "previsibilidade" na blogosfera e, previsivelmente, o seu post gerará muitos comentários e acesa polémica. O número das "leis" de JPP também é desconcertantemente previsível, mas deve ser ironia.

fevereiro 14, 2006

Pareceu-me urgente partilhar isto

Não deve haver por aí um conjunto de sons mais arrebatador que o começo da abertura da Suite no 1 em dó maior, BWV 1066, do João Sebastião Ribeiro. Só para as camadas jovens e suburbanas que acompanham o MI: cultivai-vos.

"Eu que me comovo por tudo e por nada"

"...se estivesses por aqui, íamos experimentar a nova Super Bock Abadia."

De um amigo.

Sentimentos analfabetos

É uma dedução abandonada e quase
São estes sentimentos quase analfabetos
Uma quase saudade só que por engano
Quase profundo o sono e a insónia desperta
Quase a palavra aaí quase um grito cigano
Sem quase reparar que é uma despedida
Vou num vaivém até ao quase volte-face
Aprendendo sozinho o reencontro quase.

fevereiro 13, 2006

Grande Gabriel

Poet_art_b.jpgVi o Al Pacino a fazer de Herodes num reading da Salomé de Oscar Wilde, há já uns anos. Pacino é sempre genial, mas é sempre o mesmo Al. Disseram-me até que há um argumentista que se ocupa da alpacinação das deixas do actor antes do começo das filmagens. Soa a calúnia, mas por vezes é o que parece. Há duas semanas, vi o Gabriel Byrne numa peça de Eugene O´Neill, A Touch of the Poet (a única peça do ciclo Possessors self-dispossessed que O´Neill concluiu). Byrne interpreta Cornelius Melody, um oficial megalómano, apaixonado pela sua imagem ao espelho, por glórias passadas e por um copo de whisky . Os primeiros instantes dele em palco causam alguma apreensão. Byrne parece não saber muito bem o que faz. Só depois percebi que a falha foi minha. Não era o Byrne de The Usual Suspects, nem de Miller´s Crossing. Era Melody, Cornelius Melody.

Uma dúvida

Até nem desgosto dos textos da Fernanda Câncio, mas esteja ela a dissertar sobre Freitas ou as queijadinhas de Sintra, o que sempre me intriga é o motivo que a leva a escrever sem maiúsculas. Espero que não seja só para marcar a diferença. Já dizia o Herberto Helder que o estilo é muito importante e eu concordo. Ora, estilo por estilo, ao menos que se escolha um original. Assim de repente não me ocorre, mas quase juro que não é a primeira vez que dou com modernices daquelas. Enfim, pode ser que haja um significado profundo: manifesto, tributo, promessa... a tecla "shift" estragada? É mais um dos mistérios da blogosfera e algo que faz da nossa época um tempo fascinante para se viver.

Payback day

Comecei o MI porque estava cansado de escrever para a gaveta. O MI funcionou mais ou menos bem. O problema só surgiu nos últimos tempos, quando me começou apetecer escrever sobre matérias que ficariam melhor dentro da gaveta. É que entretanto perdi o jeito de escrever para a gaveta (há jeitos para tudo). Feitas as contas, creio que ando a escrever muito menos agora. E a escrever merda.

(O MI não acaba; já não tenho idade nem lata para fazer anúncios desses.)

fevereiro 12, 2006

Um homem feliz

vicente 25.jpgVicente amigo é um guitarrista de indisfarçável fotogenia e a imagem do lado só não era a minha preferida por parecer demasiado encenada. Erro meu. Amigo, ao vivo, está sempre a oferecer a jugular à assistência.
Dando de barato que discorrer sobre vidas alheias a partir de uma mão cheia de impressões revela alguma presunção e é um exercício condenado ao fracasso, pela forma como Amigo goza o palco e pela modéstia com que se dirige ao público, só posso concluir que ontem estive diante de um homem feliz. Há nele uma descontracção sem espalhafato que seduz antes da primeira nota. A primeira nota, convém precisar, foram várias, uma cascata de sons arrancados a solo e de rompante, numa afirmação de pirotecnia de quem se sabe virtuoso mas prefere prová-lo de imediato. Seria dispensável, mas nele o virtuosismo surge com naturalidade, alguma urgência e serve quase sempre a música. Amigo é o melhor guitarrista da sua geração, o mais premiado e o mais requisitado. Mesmo quem não gosta de Flamenco provavelmente já o ouviu (o solo sobre o tema da banda sonora de Hable con ella que acompanha o genérico final, por exemplo, é dele).
Tirando alguns temas com um som demasiado "EMC" (acompanhamento a baixo eléctrico, pianola e falsete à Milton Nascimento), foi um concerto irrepreensível. Não sei se me fascinou mais a complexidade rítmica que habita a mão direita de Amigo ou a fluidez das suas falsetas, mas trata-se de uma dúvida irrelevante. Bom foi testemunhar a alegria com que se tocou, bailou e cantou a buleria final, um encore memorável. Benditos sejam os ciganos da Andaluzia.

(Town Hall, noite de 11 de Fevereiro, sozinho entre muitos espanhóis.)

fevereiro 11, 2006

DQ

Tancredo:: O que queres ser quando fores crescido?

Ismael: Menino prodígio.

Cúmulo do vício opinioso

Momento hilariante do dia: Rui Tavares, ainda há poucos meses o blogger mais sensato e inteligente da pátria, protesta por não poder comentar um abaixo-assinado. Para seu espanto, queriam apenas a sua assinatura. É, de facto, um ultraje. Eis Tavares, fac-similado: ...Aqui chegamos ao abaixo-assinado. Cheguei ao computador convencido que o ia assinar. Vou contrariado porque, ao menos, PORRA, já que os primeiros signatários prezam a liberdade de expressão, porque é que não deixaram um espaço para comentários. Meus amigos, detecto um princípio de ensandecimento na sociedade civil.

Praia da Rocha I

As três primas
De um amigo
Iam nuas
Pela porta
E a moldura
Definiu
Como agora
Mais que imagem
Fotograma
Ele próprio
Animado

fevereiro 10, 2006

Outros mates

Este senhor esmagava o pessoal em partidas simultâneas na residência André de Gouveia (cité U, Paris). Aqueles serões só não eram um enorme desperdício de inteligência porque antes de aparecer na sala de convívio, o rapaz deixava o computador a carburar overnight. Teoria de redes. Inteligência artificial. Algoritmos genéticos. "Coisas complicadas", como diria o nosso JPP.

Anda tudo ao mesmo

O MI está a ficar refém da actualidade. Vamos corrigir a rota.

Xeque-mate

ma.jpg
(Depois de publicar esta minha variação sobre um dos desenhos dinamarqueses, reparei que um dos cartoons originais explora a ideia da barra sobre os olhos. Noutro contexto, retiraria o post.)

Nunca tantos ansiaram tanto por tão pouco*

[...] é legítimo caricaturar o sagrado? Em princípio, o sagrado está acima de tudo o mais, e em particular acima das caricaturas, sejam elas quais forem. Aquilo que é sempre uma degradação dos traços poderá estar sujeito à arma visual? Estou convencido de que não, e, mesmo sem ser crente, acredito que o religioso é demasiado importante para que as pessoas façam sobre ele caricaturas. E isto envolve Maomé. Estamos perante questões que põe problemas essenciais. As imagens matam e e o religioso não pode morrer. Pelo menos, não deve. Eduardo Prado Coelho, Público

* um cartoon de António que salve um povo. Faltam poucas horas.

fevereiro 09, 2006

Saturação argumentativa

"Pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu será pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo." Tiago Barbosa Ribeiro e Rui Bebiano, num abaixo-assinado que apoiei e aproveito para divulgar.

"On the world stage, should we really apologize for Dante, Shakespeare, and Goethe? Mozart, Beethoven and Bach? Rembrandt, Vermeer, Van Gogh, Breughel, Ter Borch? Galileo, Huygens, Copernicus, Newton and Darwin? Penicillin and computers? The Olympic Games and Football? Human rights and parliamentary democracy?" Ibn Warraq , Spiegel Online

É com emoção que reparo que Galileu e Darwin são os únicos a bisar. Creio também que o Ibn é algo tosco e gosta mais de pintura do que os meus compatriotas.

Nojo

"Enoja-me o comunicado do governo, em que se «lamenta» e «discorda» da publicação dos cartoons sobre o profeta Maomé. Enoja-me a posição do Prof. Freitas, do Eng. Sócrates e do Dr. Sampaio. Sobretudo a do Prof. Freitas, que nem uma palavra proferiu sobre a desproporção e a total iniquidade da reacção da «rua árabe» - perdendo esta, desde logo, qualquer pingo de razão - contra cidadãos e interesses dinamarqueses, franceses, etc. (ou seja, todos os que, horror dos horrores, cometeram o «crime» de publicar uns cartoons). Nenhum governo se devia imiscuir em assuntos desta natureza. Nenhum governo devia ceder a pressões de supostos «ofendidos» relativamente a putativos delitos de opinião. Neste caso, a única resposta que qualquer governo a ocidente devia dar seria a de negar qualquer tipo de retractação, deixando bem claro que a publicação daquelas peças são da exclusiva responsabilidade de quem as publicou e que o assunto cabe inteira e objectivamente no âmbito da chamada «liberdade de expressão». Não foi o governo de um país que publicou os cartoons. Não foi a «Dinamarca» que, através de cartoons, exprimiu uma posição «oficial». Tudo o resto – as comiserações cobardes, as lamentações hipócritas, o relativismo e a pusilanimidade – perante a reacção absurda, irracional e ridícula da chamada «rua árabe», é mais um sinal de que, a ocidente, governos, responsáveis e uma certa opinião pública insistem em prostrar-se face a certos comportamentos reactivos que mais não são do que as «idiossincrasias» de um fanatismo que diária e cronicamente pontapeia os mais elementares valores e direitos humanos." Carlos do Carmo Carapinha, um rapaz de Évora dono de uma boa biblioteca e com quem geralmente estou em desacordo, mas que surge aqui citado na íntegra e a negrito.

fevereiro 08, 2006

Galvanizaste-me *

Exageras, jovem Galvão. É a tua arte que transcende. Faltam elementos para a elogiar. Elementos. Elementos mesmo. Fogo, água, terra e... o outro. É que não há prosa para a tua prosa. Qualquer parágrafo teu é um diamante, inconquistável, rebatível apenas pelas tuas próprias palavras, como o gume do diamante noutro diamante. Eis o teu drama: vives sem críticos que te alcancem e só podes crescer por autofagia. E eis a nossa sorte: ficarmos agarrados à tua primeira frase, imobilizados, como se nos descobríssemos cobertos por uma camada de zinco. Nos palácios e nos barracões, o poder encantatório do teu verbo fez já uma legião de estátuas de metal, Galvão. Ah, a vida é brincalhona; ainda ontem alinhavas soldadinhos de chumbo. Só que agora estas são estátuas vivas! Tétrico? Será talvez a opinião de analfabetos, ignorantes e desafortunados. Gente civilizada e hedonista sabe - e secretamente alimenta tal desejo - que não há felicidade maior do que gozar a eternidade contemplando uma das tuas páginas.

*Com a Escalada Panegírica pretendemos simbolizar o absurdo da corrida ao armamento nuclear e mostrar o valor das palavras por reductio ad absurdum (latim). Não é coisa modesta.

Freud?

Bela posta de VPV sobre Freitas. Quem não gostaria de ter sacado a gaffe da "licenciosidade"? Fica por esclarecer se o erro se deve à ignorância de Diogo ou se foi um acto falhado. Afinal de contas, os dramaturgos - mesmo aqueles que só gostam de peças com "princípio, meio e fim" (Freitas, citado de memória) - têm uma imaginação poderosa por deformação de ofício.

Podias ter discutido o assunto apenas com o teu psiquiatra

Dois anos depois (e muita pancada levada em tudo o que era blogue nacional, como se tivesse criticado o meio em si, o que obviamente não sucedeu...), no momento em que vejo Vasco Pulido Valente chegar à blogoesfera, não resta palavra sobre palavra desse meu texto. Engoli-as todas, uma a uma, humildemente. Confesso que há sempre um bom bocado do meu dia que é passado a saltitar de blogue em blogue, lendo o que pensam aqueles que respeito ou admiro, ou descobrindo talentos desconhecidos. Tenho a minha lista de favoritos. E já tive, heresia das heresias, a tentação de criar o meu próprio blogue... Pedro Rolo Duarte.

Não te inibas, Pedro. Os bocados dos nossos dias passados nos blogues também são só para saber o que pensam aqueles que respeitamos e admiramos.

Penalty com a baliza escancarada

Freitas do Amaral: "o direito de ver respeitados os símbolos fundamentais da religião que professa. (...) Para os católicos esses símbolos são as figuras de Cristo e da Sua Mãe, a Virgem Maria". António? Vasco? Bandeira? Luís Afonso? Ninguém? Rafael Bordalo Pinheiro, acorda, pá...*

* Actualização: a associação portuguesa de columbofilia acaba de enviar uma nota de protesto às grandes agências noticiosas por Freitas do Amaral ter omitido o Espírito Santo nesta sua listinha de intocáveis.

fevereiro 07, 2006

Fausto Bordalo Dias

Fausto.jpgAinda se fará justiça ao lavor de Fausto Bordalo Dias. Há momentos absolutamente sublimes no Por Este Rio Acima (estou a escrever para as camadas mais jovens; se alguém da minha geração não se apercebeu do valor deste homem, já não vai a tempo). O que mais impressiona neste trabalho é que não envelhece. Nove décimos da música portuguesa dos anos setenta e oitenta está mal tocada, mal cantada e mal produzida, ouvindo-se apenas porque o cérebro se acomoda às melodias pela ordem com que nos vão chegando. Nove décimos do décimo que se safa, é música datada, ceifeira-debulhadora a rimar com pastora ou modernices mal amanhadas. O Por Este... respira de outra maneira. Há temas belíssimos, ritmos bem explorados (o grande problema estrutural da "música portuguesa") e arranjos feitos com arte. Se não digo mais, é para não reforçar (à minha pequena escala) a imagem de Fausto como autor de um único trabalho. Outra injustiça, de resto.

Voltarei ao tema...

Saudades já

Gostava mais do tempo em que VPV apenas nos tratava como imbecis nos jornais e não dava troco a ninguém. O insulto vinha com a autoridade da letra impressa, algo que corre o risco de se perder.

Mais do mesmo

A mobilização de inteligências para a discussão sobre o ranking das civilizações voltou a acontecer. A coisa não surge com regularidade sazonal, só que é de uma previsibilidade pavloviana, no género "cão que saliva no deserto". O sentido de oportunidade é absolutamente suicida. Desde quando a defesa dos nossos valores passa pela humilhação do opositor? Menos bílis, menos ego e mais cabecinha.

A braços com um problema

Há mulheres que, não sendo minhas amigas e com quem não tenho grande contacto, quando se despedem por escrito enviam-me um abraço. Suponho que o abraço substitui o "beijo" como uma saudação menos íntima. Sucede que eu distribuo menos abraços do que beijos. Para abraçar alguém (sóbrio) preciso de estar à vontade e de gostar muito da pessoa. É possível que se procure uma saudação neutra. Mas aos meus ouvidos parece-me uma liberdade excessiva e, como se não bastasse, que se masculiniza o cumprimento. Se é para fintar o "um beijo", prefiro que me mandem "beijinhos" ou o asséptico "até breve". Enfim, depois deste desabafo, o mais certo será receber um "vai bugiar".

fevereiro 06, 2006

Escalada panegírica

A Escalada Panegírica será uma nova série e o primeiro projecto MI a duas mãos, contando com a colaboração do Tiago Galvão. De uma assentada, pretendemos simbolizar o absurdo da corrida ao armamento nuclear e mostrar o valor das palavras por reductio ad absurdum (latim). Não é coisa modesta.

Pesadelo do ateu intelectualmente desleixado

Queira deus que eu não morra com uma bala perdida dispararada em nome de um Deus qualquer. Morte estúpida por morte estúpida, prefiro o acidente rodoviário.

Béart

beart-1.jpgO pai da Emmanuelle é um senhor (se calhar faleceu, não faço ideia) que toca guitarra e canta, o Guy Beárt. Era (se for vivo ainda é) chato na quinta casa (estas coisas não melhoram com a idade). Ora, quando eu vivia em Paris, vi vezes sem conta os escândalos televisionados do Serge Gainsbourg, já finado, mas nem por isso deixando de piorar com a idade. Não por culpa dele, o pobre. É que aqueles arquivos eram explorados à exaustão: o Serge a queimar a nota, o Serge a dizer em directo à tonta da Whitney Houston que a queria papar, um grande plano sobre um Serge prestes a chorar diante de um coro de mini-Serges, miúdos mascarados com a barba de três dias e o requinte do copo na mão, a entoar a La Javanaise (seria?). Na semana seguinte, repetia. Rival à altura, só as imagens do Maio de 68, mas o Daniel Cohn-Bendit carecia de versatilidade e ficava-se pela oftálmica em exoftalmia ao polícia. O Serge, não; tinha um cânone completo. E, de quando em quando, lá entremeavam uma raridade dos arquivos. Como um debate (os franceses são imbatíveis na arte do debate, ao ponto de dispensarem o tema) entre criadores, que juntou o Serge e o Guy Béart. Gainsbourg devia ter acordado mal disposto, ou já tinha bebido, ou ainda não tinha bebido (e nenhuma das hipóteses exclui as outras, em França é assim). O certo é que resolveu embicar com o Guy, que estava no estúdio de guitarra ao colo. Não fazendo por menos, disse que quem cantava acompanhado à guitarra não podia ser levado a sério. É sabido que o Serge era um pianista competente embora frustrado, bem como um provocador, mas o Béart levou aquilo a peito e tentou argumentar. Não foi bonito. Pobre Guy. Emmanuelle teria uns 16 aninhos quando aquilo aconteceu. O que andaria ela a fazer? Bem, ficamos assim. A ideia era colocar esta foto da filha do Guy, que aprecio de sobremaneira, mas como já não tenho idade (ou o estatuto do Mexia) para mostrar fotos de mulheres por dá cá aquela palha, senti necessidade de juntar uma nota mundana. Fui bavard, o que até calha bem.

fevereiro 05, 2006

Confissões domésticas

Um dos problemas da vivência prolongada a sós é que vamos deixando de saber comer à mesa com bons modos.

(Isto é reversível, mãe, não se preocupe).

Um rosto familiar numa boa fotografia

Publico422006.jpg
No Mil Folhas de ontem.

A actualidade projectada: Europa, circa 2050.*

(Um casal de mulheres em trajes humildes, diante de uma lareira, a luz vindo apenas por um fogo moribundo; do lado de fora da janela, as estalactites de um Inverno nuclear, iluminadas por uma lua em quarto crescente)

- Não vais usar o exemplar histórico do Jyllands-Posten de 2005, pois não? Sabes quanto dinheiro dão por isso?

- Dinheiro? Ardeu todo.

* Postoon, o "cartoon conceptual" (série).

No sofá: da guerrilha à filosofia

O jornalzinho entusiasmou-se com a criatura Bluitgnen, que se queixava que tinha havido desenhadores que se recusaram a ilustrar um livrinho seu, e fez manchetes denunciando o medo do Ocidente em relação ao Islão, convidou ilustradores e fez um editorialzinho a alertar os muçulmanos que têm de aprender que a liberdade de expressão "implica desafiar, blasfemar e humilhar". (...) E é em nome desta criatura que desatou a alegre cruzada pela liberdade de imprensa que pulula em alguns jornais de referência europeus e blogues por todo o lado. Quando é que começam a defender a propaganda anti-semita, nazi, fascista, etc.? Vá lá, façam favor. Eles estão no meio de nós, não estão na rua árabe. Ana Sá Lopes

O que a História recente nos ensina é claríssimo: os grandes símbolos da liberdade de expressão são criaturas pouco recomendáveis. Não havendo História, seria previsível, não?

fevereiro 03, 2006

Agradecimento inesperado

2005 foi um ano importante. Com alguma pena, percebi que nunca serei um bom pedagogo e comecei a orientar a vida noutro sentido. Agradeço a todos os maus professores que me formaram, pelo exemplo em que me reconheci. Se não deixo aqui uma lista longa é para evitar um lapso de memória que pudesse ofender alguém.

Não há pachorra.

Vivi em Paris (1995-2000) e Nova Iorque (2001- presente). Sigo com interesse o que se passa em Portugal. A inércia de tipo social, própria de cada nação, fez com que eu esteja há uma década a aturar uma ridícula polémica a propósito do "casamento homossexual". São sempre os mesmos palermas, a mesma hipocrisia, a mesma cegueira. Só muda a língua.

Breaking News: Marrocos exige um pedido de desculpas a Freitas do Amaral

XXVII [SONETO DO MOURO DESMORALIZADO]

Veio Muley — Achmet marroquino
Com duros trigos entulhar Lisboa;
Pagava bem, não houve moça boa
Que não provasse o casco adamantino:

Passou a um seminário feminino,
Dos que mais bem providos se apregoa,
Onde a um frade bem fornida ilhoa
Dava d'esmola cada dia um pino:

Tinha o mouro fodido largamente,
E já bazofiando com desdouro
Tratava a nação lusa d'impotente:

Entra o frade, e ao ouvi-lo, como um touro
Passou tudo a caralho novamente,
E o triunfo acabou no cu do mouro.

(Manuel Maria etc)

Actualização: recordando a condição de Bocage (um súbdito dos Braganças), D. Duarte Pio acaba de se disponibilizar para mediar o incidente diplomático.

Antológica regressão meta-ontogénica

"Ora isto [é irrelevante] parece-se horrivelmente com um dos mais famosos versos de Keats (que eu li de ponta a ponta quando ainda estava nas Trompas de Falópio da minha mãe), (...) Ao contrário de Wordsworth que morreu velho e parvo e cuja poesia (que li de ponta a ponta ainda em forma de esperamatozóide nos colhões do meu pai) (...) Lucrécio, um verdadeiro herói (que li de ponta a ponta quando ainda estava espalhado na pool genética dos invasores visigóticos) (...)" maradona (fac-similado)

fevereiro 01, 2006

Tó Zé

Lovers2_s.jpgO que é que se espera no “casamento” que não se tem na união de facto? A obrigação contratual de “fidelidade”? JPP, sobre os casamentos entre homossexuais.

Como a discussão sobre os compadrios na cultura não lhe estava a correr de feição (ver esta sublime cacetada), Pacheco Pereira acaba de lançar uma "questão fracturante" para o ar. Estamos perante uma manobra familiar, mas mordamos o isco. Não serei eu a revelar aqui alguma incoerência. Afinal de contas, votei Louçã e deixo-me sempre levar nestas cantigas.
Imaginemos um JPP homossexual que, fiel à tradição grega, cujos clássicos leu, vive com um companheiro jovem (moço para 22 anos, não resvalemos). Chamemos-lhe António José, o Tó Zé da Marmeleira. Fast forward de umas décadas, play: vemos agora JPP no ocaso da sua existência e Tó Zé um homem feito, para mais académico, interessado na história dos partidos de esquerda em Portugal. Só mais um esforço. Imaginemos que, por caprichos do futuro, JPP criou imensos inimigos, a situação política não lhe é favorável e que é inviável criar uma fundação onde albergar o espólio por ele recolhido com dedicação ao longo de uma vida de trabalho, de muito trabalho. Imaginemos também a família de JPP como gente sem pachorra para cuidar daquela papelada; um dos filhos, depois de semanas agarrado à calculadora e a catálogos raros, conclui que vender a colecção do pai a retalho é a solução mais rentável. Imaginemos então o pânico de um JPP moribundo, que não conseguirá passar a biblioteca da Marmeleira para o aplicado Tó Zé. E isto porquê? Porque os dois viviam em união de facto e, não estando casados, Tó Zé não goza de direitos sucessórios*. Assim se vê que não estamos propriamente a discutir o direito a usar véu e grinalda. Aliás, melhores razões do que as do JPP genuíno teria este nosso JPP imaginário para não se colar à tradicional imagem dos noivos e a outras tradições. É que o Tó Zé jamais abdicaria do seu Ermenegildo Zegna. Imaginemos...

A imagem mostra Erastes e Eromenos. O facto de Erastes ter barba é mera coincidência. Eromenos também não deve ser visto como o Tó Zé, pois concebi o moço com cabelo mais curto e caracóis. Loiros.

* Nota: os direitos sucessórios do sobrevivente de uma «união de facto» são muito limitados quando comparados com os do cônjuge sobrevivo (artigos 2139º e segs do Código Civil): o cônjuge é herdeiro sozinho, em concorrência com os filhos ou os pais do de cujus. Mesmo em França, com o seu Pacs (Pacto civil de solidariedade), o «companheiro» é um «terceiro» em matéria sucessória. Em resumo, o Tozé não poderia ficar com a biblioteca de JPP, salvo se este expressasse tal desejo em testamento. E aqui chegamos ao âmago do problema. A sucessão testamentária têm imensas limitações e não se pode equiparar um herdeiro testamentário a um herdeiro legítimo. Ou seja, o filho agarrado à calculadora poderia obter uma redução do que é deixado em testamento por ofensa da legítima (o valor mínimo que os filhos têm direito a receber da herança).
É claro que não é necessário entrar nas minudências legais. Como se expica aqui, "qualquer pessoa deve ter o direito a casar e o direito a não casar por sua opção. (...) Aquilo que é conservador ou revolucionário é definido pelo lado em que está a hegemonia, a ordem, a prescrição e a proibição." Tudo isto é muito óbvio e Pacheco não é tonto. É verdade que vai deixar toda a gente a discutir a questão. Escusado era ter ficado com uma fractura exposta.

"Golden age happens to be whenever you´re 12" Isaac Asimov

f-joyce.jpgAlberto,

Sem querer desvalorizar a irrepetível interacção entre a Davenport e o Furillo, não te parece que incorres no típico erro de paralaxe geracional?

Retratos do trabalho em Nova Iorque (Zoo de Bronx)

nap.jpg
Pequena pausa. Até breve.

E agora vê lá se retribuis o elogio (mas deixa passar uns dias para que não reparem)

O MI continua a tecer a sua teia de contactos e volta a chamar a atenção para o Diário. Já alguém reparou no que por ali se escreve? Não percebo por que motivo se diz que a blogosfera está em crise, se o melhor deste mundo, antes como agora, não passa por arregimentar os consagrados da imprensa (em sistema de vasos comunicantes) mas sim pela descoberta de vozes novas. E estas continuam a aparecer, provavelmente a um ritmo mais acelerado do que há 2 ou 3 anos.