Ao abusar da carga de ombro caí com P. A bola foi recuperada por outros e um contra-ataque deixou-nos isolados e por terra, numa das metades do campo. Por um acaso a minha mão ficou sobre o flanco de P. e foi então que senti no seu corpo uma curvatura inesperada, uma reentrância que cinzelava as suas ancas, tudo isto se passando sem que ele soltasse uma palavra, me agarrasse a mão ou se afastasse de mim, embora a sua respiração se fosse sobrepondo aos gritos longínquos dos atacantes. Julguei-me legitimado para avançar e em segundos a minha mão estava sob a T-shirt de P., tocando uma textura estranha, que talvez fosse gaze e parecia estar húmida de suor. Antes de perceber o que se passava, P. fez-me um pedido, com grande altivez, como se reclamasse os dividendos da minha ousadia: "Não digas nada a ninguém, prometes?" Só então entendi a razão dele jogar sempre com calças de fato de treino e de a sua audácia ultrapassar em muito a sua força física.
Era ainda o tempo em que acreditava numa certa ordem natural das coisas. Deliciava-me com o duelo entre a vilã Kratochvilova e a graciosa Marita Koch, por quem partilhava um fraquinho com o bom do Luís Lopes, o especialista em atletismo da RTP. E apesar do cavalos com arções, a ginástica desportiva era naturalmente mais espectacular quando praticada por mulheres. Só que o futebol estava num patamar diferente e a ideia de ter mulheres em campo parecia-me contranatura. Eu sabia que se tratava de um preconceito, porque aceitava a presença de G. e o rapaz era o pior jogador entre todas as formas vivas, incluindo mulheres e até manatins. A única atenuante era a paixão dele por futebol. Lembro-me de discutirmos este assunto e alguém ter dito: "Somos cúmplices de um crime sempre que deixamos G. jogar, mas ele gosta tanto disto que se trata de um crime passional". Nas mulheres jamais identificara sinais de tal paixão. Pediam-nos para jogar por capricho ou por pretenderem chamar a atenção de um dos nossos craques. Não era coisa séria.
P. mudara-se para o prédio fazia pouco tempo e, por ser filho de pais zelosos e exigentes, era o único a frequentar um colégio em regime semi-interno. Desaparecia nas madrugadas de Segunda e regressava na Sexta, já de noite. Na verdade, só o víamos aos Sábados de manhã, pronto para jogar, com calças de fato de treino, uma T-shirt larga e um boné de basebol, como aqueles que apareciam nos filmes americanos e mais ninguém no bairro usava. Era de poucas falas e um jogador razoável, que não falhava um passe e nunca arriscava uma finta.
O seu "prometes?" final saiu já com a voz absurdamente fina, mas depois P. recompôs-se, eu calei-me e continuámos a jogar. Durante um ano guardei segredo, até que P. se mudou para o liceu do bairro (apertos financeiros?). Percebendo que seria impossível continuar a enganar a rapaziada, compensou a frustração abraçando o basquetebol. E, da noite para o dia, apareceu como mulher, com umas calças de ganga justas, muitas alças sobre os ombros e os cabelos soltos e compridos. A metamorfose de defesa esquerdo em ícone sexual do bairro pode ter sido a sua vingança acidental. Sempre que por mim passava eu voltava ao dia em que caíramos juntos sobre a relva e ficava por momentos a imaginar como teria sido ajudá-la a livrar-se da gaze em que se enrolava para anular as curvas do seu corpo. O futebol é um desporto de contactos e só alguns - os mais lentos de raciocínio - não praticavam flashbacks semelhantes, porque tinham visto uma reportagem na televisão e para eles ela ainda era ele, um caso claro de travestismo.
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.
(…) Os conselhos que dei a Tatiana devem ter-lhe trazido algum consolo, pois o desprezo com que o rapaz continuou a tratá-la não a abalou. Ela afeiçoou-se depois a um dos homenzinhos, que seria presença regular no seu quarto nos meses seguintes. No começo do Verão Tatiana veio pedir-me explicações de Biologia, cedendo a um momento de frustração. Parecia seguir o mote “concertista ou nada” e entendia a Biologia como uma autoflagelação. Começámos pela mitose, mas resolvi assustá-la e complicar uma matéria que na verdade é muito simples. Não passámos da anafase e em duas semanas ela regressaria ao piano de um dos estúdios da cave. Senti-me então o mais discreto dos mecenas. E ainda hoje consulto o catálogo da Deutsche Gramophone, na esperança de a encontrar. É uma ilusão minha. Como se não bastasse, não me lembro do seu apelido, o que me obriga a inspeccionar com atenção todas as capas de mulheres pianistas. Sei também que devia olhar para editoras menos prestigiadas, mas opto por não o fazer. Gosto de sonhar o sonho dos outros.
Quem abandonaria de vez a música por um trabalho numa editora seria a Veerle, mas à época ela ainda investia na flauta de bisel e na música de câmara de Rameau. Veerle dava-me aulas de Francês e depois trocava-me as voltas com o flamengo (é Belga). Eu ensinava-lhe Português no meu quarto, num sistema de troca directa que só funcionou até Março. Ficámos amigos e, desconfio agora, ela chegou a estar perdidamente apaixonada por mim, mas só durante dois ou três dias. Costumávamos dar uns passeios ao luar e com ela eu conseguia abrandar o passo, o que interpreto hoje como um sinal de desfrute. (…)
Os dias cresciam e começava a fazer menos frio. Jane estava já em França, mas resolvera demorar-se em Biarritz. Comecei então a imaginá-la na minha cabeça: era seguramente caprichosa e geneticamente híbrida, mas não de forma ostensiva, talvez filha de pai húngaro e mãe irlandesa. Delírios para acalmar a ansiedade. (…) No laboratório conseguira ganhar o respeito – mas não a confiança – do meu chefe, Roger Karess. Ele impressionava-se com a minha dedicação ao trabalho e com tiradas em inglês que eu decorara ainda miúdo, quando via o Hill Street Blues. Roger alimentava um fascínio por línguas raro entre os cientistas americanos. Talvez isso tivesse facilitado a sua paixão por Françoise, mesmo se é verdade que ela se expressava num inglês escorreito, sem aquele sotaque anticlimático das francesas. Dois outros sinais da paixão de Karess por línguas eram a lista de expressões em latim perdidas num quadrinho, entre anotações para comprar reagentes, e um conhecimento razoável da obra em inglês de Fernando Pessoa, ainda que de tipo alérgico. Roger preocupava-se um pouco por eu ser tão voluntarioso e achava-me algo excêntrico. Trabalhávamos no C.N.R.S nos arredores de Paris, em Gif-sur-Yvette, e eu tinha já perdido o último comboio de regresso (RER, 23:45 ) a Paris um par de vezes, sendo por isso obrigado a dormir no laboratório. As minhas sugestões para nomear um gene que andávamos a tentar caracterizar também eram também por ele recebidas com alguma apreensão. Apesar de tudo, no final do meu estágio escrever-me-ia uma carta de recomendação catita.
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.
Só anos depois viria a perceber que Tatiana também estava perdidamente apaixonada por mim, coisa que à época nem ela imaginava. É verdade que entrava pelo meu quarto quase sem pedir licença e de camisa de noite, mas buscava apenas conselhos para guiar o seu irrequieto coração. É possível que o meu ar dócil a deixasse à vontade. Ou então seria por vivermos porta com porta e ambos sermos noctívagos. Tatiana era o que genericamente se designa por uma mulher fogosa, de apetites, mas daquelas que recriam a eternidade da chama da paixão apagando e logo reacendendo a vela. Recebia homenzinhos esquálidos e, sendo robusta, confesso que me divertia a imaginar o que se passaria pelo quarto; mais do que folhear mentalmente o kamasutra, era a imagem dos irmãos Cardinali e dos seus exercícios de força que me ocorria. Talvez farta de tais acrobacias, Tatiana andava então obcecada com a estampa da Maison du Portugal, um futuro engenheiro do técnico de feições clássicas e peitorais igualmente apolíneos, que até tinha sido modelo em Portugal. Lembro-me como se fosse ontem: quando lhe perguntei que anúncios fizera, o rapaz abriu um recorte de jornal que levava no bolso e mostrou-me um anúncio para O Expresso, onde apenas se via uma cama e uns pares de pés destapados entre os lençóis. Depois disse:"Estás a ver estes pés? São meus". Nem pedi para que tirasse as peúgas. Naquele tempo ainda tinha uma confiança inabalável nas pessoas. (...)
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.
Jane não chegaria na semana seguinte, como previsto. Tinha ficado retida em Burgos. “Aqui há Paco…”, desabafei, mas o Carlos, talvez por não me querer desapontar, ou então por desconhecimento, não comentou. (…) É verdade que tinha agora outro ânimo. Jane era a cenourinha imaginária que me deixava num trote sem carga. Sentia-me mais leve. E como o tempo psicológico é variável, o telefonema, feito há 28 dias, parecia à distância de muito mais luas. (…) Recuperara o gosto por certas rotinas, como pagar a renda e receber uma pianista russa no meu quarto todos os dias, por volta das duas da manhã. Ah, Françoise. Ah, Tatiana. A Madame Fraçoise, a secretária da residência, teria à época uns 50 anos. Hoje terá menos de 35 mas já então insistia para que a tratássemos por Mademoiselle. (…) De maneira que no final de cada mês eu tinha um encontro pejado de erotismo com esta pós-balzaquiana e a antecipação do seu sorriso matreiro no momento de receber o cheque da renda mensal fazia-me tremer a assinatura. Nos meses seguintes, já depois do meu regresso a Lisboa, quando vim a saber que Mademoiselle Françoise tinha uma paixão desenfreada por mim, estremeceria de novo. (…)
Tatiana tocava Nocturnos de Chopin como uma Florbela Espanca ao piano. Havia nos seus olhos o discreto amendoado das camponesas das estepes russas (...) Não sendo bonita, era arrebatadora.
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.
(…) Afundei-me no trabalho e andava tão embrenhado nas rotinas do laboratório que por vezes chegava a trazer moscas para o quarto, aconchegadas numa prega de roupa ou até nas guedelhas que então usava. Faço notar que tudo isto se passava sem violar os rigorosos critérios de asseio que sempre me nortearam, salvo raríssimas excepções (ver The Nepal Visa, A travel Notebook (March-April, 1998), inédito ), e que aquelas moscas não são de chafurdar nos excrementos do bestiário doméstico, preferindo a fruta. Deitava-me depois sobre a cama, lia Álvaro de Campos e nas pausas seguia com o olhar o silencioso e imprevisível voo das minhas companheiras. Pela manhã as moscas haviam desaparecido, coisa que sentia como mais uma traição. Era esta a dimensão da minha susceptibilidade. Nove dias tinham passado desde o telefonema mas o tempo psicológico é variável e parecia que o sofrimento durava há duas semanas. (…) O sinal para que saísse do vício laboral surgiu na cantina da Cité Internationale: eu e o meu couscous merguez, preparado para um repasto solitário e, de repente, à minha frente, uma miúda praticamente botticelliana. Quando ela abriu a boca, Oh, que boca imoral. E quando falou, Oh, que voz tão doce. E quando entabulou conversa comigo, Oh, céus, obrigado, vou a Fátima de joelhos, estilo allez-retour e com pausa apenas para verter águas, prometo. Porque aquela visão até sabia tocar guitarra. E quando lhe perguntei se tocava Villa-Lobos, Oh, céus, vou também a Santiago de Compostela. E Leo Brower? Oh, céus, faço de uma assentada o Grand Slam da peregrinação no sudoeste europeu: Fátima, Santiago e Lourdes. Ah, mas Deus é um brincalhão! Como se a rapariga tivesse adivinhado os meus pensamentos, pergunta-me de rompante se eu sou crente. Alerta laranja. Pergunta-me depois se eu queria conhecer a palavra de Deus. Alerta vermelho. Digo-lhe que sou uma ovelha tresmalhada, mas ela tinha ímpeto para evangelizar o Magrebe. Nem acabei o merguez. Fugi. Pelo menos o sangue voltara a correr-me nas veias, pensei, enquanto recuperava o fôlego numa escadaria, já ao relento. (...) Quando entrei em casa dei com Ema, uma refugiada chilena na casa dos cinquenta, que reinava no guichet do átrio. Tratava-nos com a arrogância de quem sabia que tinha a inteligência e a cultura espartilhadas pelas funções de recepcionista. Intimidava-me, portanto. E como o sotaque dela e o meu corrompiam a língua francesa em direcções diametralmente opostas, no fundo comunicávamos por gestos, apesar do palavreado. Talvez por isso não tivesse topado, mas nos meses seguintes, já depois do meu regresso a Lisboa, vim a saber que Ema tinha uma paixão desenfreada por mim. Naquela noite adormeci a pensar na Jane. (...)
Excertos do manuscrito Carte de Séjour, Memórias (Fevereiro-Setembro de 1995), do arquivo pessoal de V.M. Barreto.*
(…) A 10 de Fevereiro ela decidiu terminar comigo pelo telefone um namoro de quatro anos. Naquele dia, no meu quarto da Residência André de Gouveia, em Paris, deixei de acreditar no amor e, à falta de um busto de Marconi para atirar ao chão, caí num generalizado estado de prostração. Da janela do quarto fiquei a contar os carros com matrícula estrangeira que iam passado pelo periphérique. Talvez fizesse uma espera a um pensamento profundo, que não chegou a comparecer. (…) Acordei cedo na manhã seguinte, ao som do tema O Estrangeiro, de Caetano Veloso. Viciara-me no vigor daquele piano e o verso “….o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem”, reiterado durante semanas todos os dias, era o substituto acidental das matinais vozes familiares que antes me despertavam para a infância feliz. Oh... Só depois passei a mão pela testa, assim metaforicamente, e detectei dois altinhos, assim reais. Seguiu-se um esgar irónico, a urgência de um espelho e a visão reconfortante do acne, não já juvenil, mas quase. Tinha 22 anos, saúde e o futuro pela frente. Não seria uma mulher a deitar-me por terra. Passei o dia sem sair do quarto, de pijama, faltando ao laboratório e demais obrigações. (…)
O Carlos bateu-me à porta ao fim da tarde. Tinha andado a deambular pela cidade com a Maria, uma moça madrilena sua colega no curso de arquitectura, também estudante do programa Erasmus, que era muito bonita, com aquele rosto de pássaro comum entre as castelhanas. O Carlos parecia ter tempo e talento para tudo fazer pausadamente e em grande estilo, o que era um contraponto ao meu inconsequente frenesim. Ele andava a estudar as pontes de Paris e eu passava os dias a esmagar moscas. Mas havia algo que nos unia, que ia além da sua tendência natural para gostar das pessoas e do meu vício de gostar de quem gosta de mim. Conhecer o Carlos era também um antídoto contra a solidão, pois o seu quarto não ficava a perder para a sala de convívio da casa. Inteirado do problema, disse-me que eu precisava era de estar com outras raparigas e tentou animar-me com a chegada iminente da Jane, uma americana sua conhecida. Não mostrei grande entusiasmo, mas julgo ter sonhado de noite que era o John Weissmuller num rio africano, a crescer em estilo crawl para um crocodilo. Dos poucos sonhos que recordo, este é o mais pateta. (…)
*Inspirado na autobriografia de Maria Filomena Mónica
Como duvido que haja alguém da Continental Airlines que leia o Memória, aproveito para dizer que não fiz as malas que levo. É importante frisar que nem as malas nem o grosso do que lá dentro se encontra me pertence. Na eventualidade de um acidente, quem depois conseguisse salvar as minhas malas ficaria a pensar que levei uma vida dupla em Nova Iorque e que o pacato rapaz de Lisboa seguiu por um caminho de perdição e aderiu ao travestismo. Volto por isso a insistir: os 20 pares de sapatos de mulher que carrego não são meus. Mas há mais. Levo uns calhamaços de literatura académica sobre sexualidade e relações íntimas - The Role of Theory in Sex Research, The New Science of Intimate Relationships, the Handbook of Sexuality in Close Relationships, etc. Como se adivinha, estes livros também não me pertencem e não creio que os fosse compreender. Tenho sobre estas matérias apenas um precário entendimento empírico. De resto, defendo que é inútil importar literatura estrangeira sobre sexo e relações íntimas, pelo menos desde que me disseram que Maria Filomena Mónica (MFM) acaba de revolucionar o género. A ser assim, urge traduzir para inglês a autobiografia de MFM e exportá-la (o livro, note-se), com isto se dando uma valente guinada no fiel da tão desequilibrada balança de transacções intelectuais com o estrangeiro. Enfim, as minhas amigas pedem-me favores e como burro de carga até não me saio nada mal.
Fiiquei de rastos com esta leitura. A coisa tem uma riqueza lexical tal -"frémito" e "órfico", nomeadamente - que dei por mim a baixar a bolinha e a escrever "Artaud" no Google. Fiquei esmagado e cheguei a pensar que "davaneio" é uma palavra nova, antes de me ocorrer que talvez se trate de uma gralha. "A Bola no Olival" vai para a fogueira ainda hoje e nunca mais volto a escrever sobre futebol.
Adenda: esta entrada é um plágio de uma outra, do maradona. Plagiar o maradona não é crime, é sinal de bom gosto, mas impõe-se uma explicação, assim ao estilo da Clara Pinto Correia. Li a entrada do maradona, segui o enlace e depois li e reli a entrada no Avatares de Desejo. É claro que o maradona já tinha apreendido o essencial e, sem me aperceber muito bem do que estava a fazer, acabei por escrever praticamente a mesma coisa, com diferenças de pormenor. Peço por isso desculpa aos leitores do MI e ao maradona, que me enviou uma mensagem gentil esta manhã.
Encontrar uma americana acima dos trinta anos que, não sendo cientista nem camionista, não use regularmente maquiagem.
Há ideias para contos que fazem o meu coração andar mais depressa. Não sei se o coração é um bom avaliador destas matérias, nem se é objectivo. Sei que é consistente nas suas apreciações. O coração bate da mesma maneira pelas mesmas razões, o que é útil. Este aceleramento da pulsação acusa a percepção de algo original. Com o passar dos anos, aprendemos que a originalidade é apenas uma coincidência desfasada no tempo, de que daremos conta daí a uns dias. Mas o coração não tem juízo e insiste em responder como o cão de Pavlov. Há uma certa candura no entusiasmo dos ventrículos.
Tenho andado a namorar uma ideia para um conto que teve o aval do meu coração e resistiu ao sono de várias noites, cumprindo por isso os mínimos olímpicos nestas coisas da imaginação. A ideia é a seguinte: uma história passada em Lisboa, num futuro próximo (2054, por exemplo), em que as pessoas julgam que o insólito deixou de ter lugar e que há um ligeiríssimo aumento da probabilidade dos acontecimentos raros se concretizarem. Pareceu-me que este cenário geraria um rico filão para a narrativa e a reflexão. E, num pico de euforia, imaginei-me até a situar no tempo e no espaço esta epifania - "sabe, a ideia ocorreu-me quando visitava um mercado de peixe e...", num daqueles comentários à Saramago, quando interrogado sobre como lhe ocorreu a ideia para um romance. Ter-me convencido da originalidade desta ideia foi a mãe de todos os erros, é claro. Quantas vezes o insólito não foi já explorado pela ficção? O que é parte da obra de Paul Auster senão um exercício sobre o papel da coincidência, da sorte e do azar, obsessão que lhe ficou de um episódio de infância em que um raio fulminou um amigo e o poupou a ele? No fundo eu sabia que a ideia não era assim tão original. Difícil era explicar isto a um coração que ia já a galope...
Por azar - o que alude ao perigo de um acidente cardiovascular -, regra - que é como estes fenómenos se explicam -, ou sorte - o que exprime um desejo -, a tal coincidência desfasada reconcilou-se este fim-de-semana com o tempo, quando lia o Historias de Cronopios y Famas, de Cortázar. Um dos relatos é precedido da seguinte nota: Pequeña historia tendiente a ilustrar lo precario de la estabilidad dentro de la cual creemos existir, o sea que las leyes podrían ceder terreno a las excepciones, azares o imposibilidades, y ahí te quiero ver. O palerma do coração começou a acelerar de novo, e ficou num ritmo tão sincopado com o anterior que, na verdade, tinha parado, só que desfasado no tempo (assim se explica o mundo, já se viu). Lentamente, a excitação pela negativa foi-se atenuando, comecei a gozar a coincidência e, terminada a leitura do relato, percebi que afinal há uma diferença fundamental. Entre as duas manipulações da realidade - concretizando o insólito (à Cortázar) e alterando a percepção que dele temos - há um espaço para o onde o meu coração se mudou. E ainda bate.
(No enlace que se segue deixei o relato de Cortázar que é antecedido pela nota supracitada.)
.... confusión horrible. Todo marchaba perfectamente y nunca hubo
dificultades con los reglamentos. Ahora de pronto se decide reunir al
Comité Ejecutivo en sesión extraordinaria, y empiezan las dificultades, ya
va a ver usted qué clase de líos inesperados. Desconcierto absoluto en las
filas. Incertidumbre en cuanto al futuro. Pasa que el Comité se reúne y
procede a elegir a los nuevos miembros del cuerpo, en reemplazo de los seis
titulares fallecidos en trágicas circunstancias al precipitarse al agua el
helicóptero en el cual sobrevolaban el paisaje, pereciendo todos ellos en
el hospital de la región por haberse equivocado la enfermera y aplicádoles
inyecciones de sulfamida en dosis inaceptables por el organismo humano.
Reunido el Comité, compuesto del único titular sobreviviente (retenido en
su domicilio el dia de la catástrofe por causa de resfrío) y de seis
miembros suplentes, procédese a votar los candidatos propuestos por los
diferentes estados asociados de Ia OCLUSIOM. Se elige por unanimidad al
señor Félix Voll (Aplausos) . Se elige por unanimidad al señor Félix Romero
(Aplausos) . Se practica una nueva votación, y resulta elegido por
unanimidad el señor Félix Lupescu (Desconcierto). El Presidente interino
toma la palabra y hace una observación jocosa sobre la coincidencia de los
nombres de pila. Pide la palabra el delegado de Grecia, y declara que
aunque le parece ligeramente estrambótico, tiene encargo de su gobierno de
proponer como candidato al señor Félix Paparemólogos. Se vota, y resulta
elegido por mayoría.
Se pasa a la votación siguiente, y triunfa el candidato por Pakistán, señor
Félix Abib. A esta altura hay gran confusión en el Comité, el cual se
apresura a celebrar la votación final, resultando elegido el candidato por
la Argentina, señor Félix Camusso. Entre Ios aplausos acentuadamente
incómodos de los presentes, el titular decano del Comité da la bienvenida a
los seis nuevos miembros, a quienes califica cordialmente de tocayos
(Estupefacción). Se lee la composición del Comité, el cual queda integrado
en la siguiente forma: Presidente y miembro más antiguo sobreviviente del
siniestro, Sr. FéIix Smith. Miembros, Sres. Félix Voll, Félix Romero, Felix
Lupescu, Félix Paparemólogos, Félix Abib y Félix Camusso.
Ahora bien, las consecuencias de esta elección son cada vez más
comprometedoras para la OCLUSION. Los diarios de la tarde reproducen con
comentarios jocosos e impertinentes la composición del Comité Ejecutivo. El
Ministro del Interior habló esta mañana por teléfono con el Director
General. Este, a falta de mejor cosa, ha hecho preparar una nota
informativa que contiene el curriculum vitae de los nuevos miembros del
Comité, todos ellos eminentes personalidades en el campo de las ciencias
económicas.
El Comité debe celebrar su primera sesión el próximo jueves, pero se
murmura que los Sres. Félix Camusso, Félix Voll y Félix Lupescu elevarán su
renuncia en las últimas horas de esta tarde. El Sr. Camusso ha solicitado
instrucciones sobre la redacción de su renuncia; en efecto, no tiene ningún
motivo valedero para retirarse del Comité y sólo lo guía, al igual que los
Sres. Voll y Lupescu, el deseo de que el Comité se integre con personas que
no respondan al nombre de Félix. Probablemente las renuncias aducirán
razones de salud, y serán aceptadas por el Director General.
De Julio Cortázar, Historias de Cronopios y de Famas -"Material plástico"
Ediciones Minotauro Quinta Edic. (1969) Bs. As.
No dia 10 de Janeiro irei até à detestável Quinta Avenida votar antecipadamente para as eleições presidenciais em Portugal. Eis o que terá lugar, em prosa de consulado:
(...)iii. Introduz o envelope branco e o documento comprovativo do impedimento no envelope azul, que fecha.
iv. O envelope azul é depois lacrado e assinado pelo eleitor e pelo funcionário diplomático.
4. Recibo comprovativo: O funcionário diplomático entrega ao eleitor um recibo comprovativo do exercício do direito de voto.
5. Envio: O funcionário diplomático envia o envelope azul, pelo seguro do correio e pela via mais expedita, à mesa da assembleia de voto do eleitor, ao cuidado da respectiva Junta de Freguesia em Portugal.
Imaginar o envelope azul a chegar à antiga escola preparatória Fernando Pessoa é reconfortante, apesar da inconsequência do gesto.
É sabido que Maria Filomena Mónica acaba também de revolucionar a forma como em Portugal as mulheres comentam publicamente a beleza dos homens. Este sopro de ar fresco deixa-me à vontade para definir o rosto de Cortázar.
Fascina-me muito mais um homem que não é bonito mas ficou perto de o ser do que os projectos acabados. Ficamos a salvo de um consenso entediante e cada mirada é uma descoberta. O rosto de Cortázar é um desenho de um homem bonito feito por um artista pouco talentoso.
"Tu estás entre um guionista e um realizador". Falávamos dos escritores X e Y, sendo Y um conhecido de ambos. Não revelar o nome de X e, em particular, de Y, recupera um Portugal quebrantado que, como é do conhecimento geral, foi açoitado pela frontalidade autobiográfica de Maria Filomena Mónica. Avancemos. Para o meu correspondente, X e Y são escultores da palavra e este escriba está algures entre o guionista e o realizador. A minha primeira reacção foi defensiva, mas reparo agora que a comparação é neutra e, provavelmente, até rigorosa.
Quando finalmente aprendi o encadeamento de acordes e o ritmo subtil deste tema, já não havia roda de amigos para as guitarradas ao serão. O tempo não é elástico e tinha abusado do Sérgio Godinho, que também é bom escritor de canções. Aqui fica:
Morro Dois Irmãos
Dois Irmãos, quando vai alta a madrugada
E a teus pés vão-se encostar os instrumentos
Aprendi a respeitar tua prumada
E desconfiar do teu silêncio
Penso ouvir a pulsação atravessada
Do que foi e o que será noutra existência
E assim como se a rocha dilatada
Fosse uma concentração de tempos
E assim como se o ritmo do nada
Fosse, sim, todos os ritmos por dentro
Ou, então, como uma música parada
Sobre uma montanha em movimento
Chico Buarque, 1989
De dentro para fora é belo o mar
Mesmo quando esquecemos os ouvidos
No fundo é como se um búzio soprasse
Agora em cada orelha sem se ver
Oiço as ondas aqui e a toda a hora
E adio o otorrino, é que ainda
Penso se cheguei mesmo a emergir
Dentro dela é mais bela a tona de água
«Relativamente ao número de parceiros sexuais, os portugueses são dos mais comedidos: declaram ter sete parceiros ao longo da vida, em média, enquanto os turcos e os australianos afirmam ter o dobro.» [Jornal Público]
Trata-se de uma daquelas frases com pano para mangas, mas numa óptica de incremento das noções elementares de estatística pelo grosso da população é oportuno lembrar que a média, a norma e a moda, os costumeiros parâmetros de localização, são por vezes manifestamente insuficientes.
Exercício prático: penso nos meus amigos, faço um cálculo por alto e confirmo que a média de parceiros anda pelos sete. Sucede que a distribuição é bimodal e o valor de 7 descreve o português médio que, na verdade, é um português raro.*
* Não se exclui a hipótese de os meus amigos serem maus exemplos por se distinguirem dos outros nos hábitos sexuais; fica também por demonstrar que o inquérito citado e o método que usei são compatíveis, isto é, que ambos estimulam tipos de mentira qualitativa e quantitativamente comparáveis.

-That's an endangered species: what would be the scientific purpose of killing it?
-Revenge."
in THE LIFE AQUATIC WITH STEVE ZISSOU
O MI faz uma pausa. Vou até às Caraíbas à procura dos tubarões que me aterrorizavam e nunca cheguei a ver, quando era pequeno e mergulhava com viseira nas águas mornas da praia da Ponta do Sol (Ilha da Madeira).
1. Atingir a idade de Cristo parece ter inspirado Pedro Mexia a escrever uma das séries de posts mais negras que tenho lido por aí. Recordo que Mexia já teorizou bastante sobre a exposição da intimidade nos blogues, deixando sempre no ar que muito do que escreve é construção. Não interessa ir ao fundo desta questão. Também aqui não gosto que me perguntem se é verdade o que relato ou as sensações que descrevo. Nos blogues, como na ficção, o "baseado numa história verdadeira" não é selo de garantia. Dito isto, se fosse amigo de Mexia era provável que já o tivesse convidado para irmos beber uns copos.
2. No último dos posts negros, Mexia cita Kierkegaard:«(...) quando me apetece cuspir, cuspo na minha cara». Creio perceber o significado da expressão, mas é uma frase péssima. Pelo menos para mim. Porque começo logo a pensar em formas verosímeis de cuspir na minha cara. Ora isto é um problema de física pura para resolver, e uma coisa tão lúdica que anula a tom autopunitivo e mesmo repugnante da frase. Vejamos. Escarrar no espelho que reflecte a nossa cara é trivial mas soa a batota. Que um tipo se babe por um dos cantos da boca também não é coisa séria. Cuspir para o ar e esperar que a gravidade traga o cuspo de volta implica alguma técnica e a capacidade de elaborar uma gosma facultativamente verde, mas obrigatoriamente densa; afinal, creio que mesmo aqui há um resquício de brio e seria demasiado embaraçoso receber na cara apenas uns perdigotos de um repuxo esparso. Enfim, a melhor solução requer um veículo em andamento e a possibilidade de abrir a janela e colocar a cabeça de fora. Terminado o jogo, volto à citação mas sou logo dominado por uma paráfrase para uma campanha de publicidade sobre civismo e boas maneiras: "se lhe apetecer cuspir, cuspa na sua cara". Isto sim, parece-me uma frase bem conseguida. Que me perdoem os kierkegaardianos por esta ousadia, mas a auto-comiseração - real ou fabricada - é invariavelmente aborrecida.
... com a elegância que eu não tenho e a paciência que entretanto perdi. Nesta entrada encontrarão a discussão definitiva da polémica dos crucifixos, o que é uma forma de dizer que não voltarei a este assunto. Recupero o seguinte fragmento, que não dispensa a leitura do texto completo do Alexandre e do 1bsk inteirinho:
"Nunca se deve esquecer que, dada a impossibilidade lógica de demonstrar a inexistência de Deus, o ateísmo é apenas a crença de que Deus não existe. [João César das Neves]"
Isto é subverter completamente a questão. Eu diria que cabe aos crentes o ónus da prova, na medida em que são eles que defendem certas coisas (parte integrante da doutrina) verdadeiramente inconcebíveis: ressurreição, concepção de uma virgem, transsubstanciação, milagres... O ateísmo não é uma crença. Só defende que o ateísmo é uma crença aquele que vê na fé um estado natural ao ser humano, e no cepticismo uma bizarria que requer justificação. Contudo, se eu acreditar que a lua é feita de queijo da serra, é a mim que cabe demonstrar tão ousada asserção, e não àquele que nela não acredita (com alguma razão, acrescente-se).
Em Portugal toda a gente é doutor até prova em contrário. O Almeida que esvazia caixotes de lixo é, na verdade, o Dr. Almeida. Em Portugal, quando eu ainda não era licenciado, chamavam-me Dr.; acabada a licenciatura passei logo a Professor; ainda não tinha a tese de doutoramento escrita e já era catedrático... jubilado, claro. Parece também que há uma diferença entre Dr. e Doutor, mas estas subtilezas passam-me sempre ao lado.
Como acabar com esta vergonha? Defendo que os verdadeiros doutores sejam identificados com uma braçadeira amarela, que é método com provas dadas. Só assim perceberíamos imediatamente que há quantidade apreciável de imbecis que são doutores a sério e, de uma vez por todas, ninguém iria querer o título. Seria então também evidente que não vale a pena perder tempo com correcções à forma como se nos dirigem. Se calhar é da vivência no estrangeiro, mas quando acertam no meu nome dou-me por satisfeito. Haja modéstia.
Consequências do Happygate? Um doutoramento honoris causa para o poeta antes do fim de 2006. Trigo limpo.
O título desta nova série beneficiará da discussão em curso no Abrupto e que é já a microcausa das microcausas: que título dar à rubrica Lendo/Vendo..., de José Pacheco Pereira ? É impressionante a capacidade de mobilização da sociedade civil para esta magna questão e alguns contributos dos leitores do Abrupto são comoventes. Por isso esperarei até que JPP se decida e depois, com o devido respeito, adoptarei um dos nomes deixados de fora. A isto chama-se rentabilização de recursos e pretendo fazer do gesto exemplo para um Portugal que se quer moderno, na era do choque tecnológico e face aos desafios que a Europa e o mundo globalizado nos colocam. Portuguesas e portugueses, decidi candidatar-me...
Bem, atalhando: vale a pena ir ao Diário. A qualidade dos posts é muito desigual, mas há por lá verdadeiras pérolas e uma voz que faz do autor quase um Luís Fernando Veríssimo, mais breve e mais português. Como nesta entrada:
No outro dia fui sair com uma rapariga e disse-lhe que ela tinha uma face dolicopse, ou seja, que tinha uma face em que a altura predomina sobre o diâmetro bizigomático, segundo Quatrefages. Nunca mais me ligou.
Para Puerto Escondido voa-se. De carro só vão os remediados. E os tolos. E os enamorados. Éramos tudo isso e eu voltaria hoje a alugar o mesmo carro. Porque chegar a altas horas da noite, depois de horas a serpentear na montanha, foi abrir os ouvidos às ondas do mar e deixar todos os outros sentidos de vigília. Para uma ceia de camarões grelhados, com os pés assentes na areia fria, a fitar o oceano Pacífico pela primeira vez, pensado em todos os monstros do mar. E para te olhar depois pela enésima vez. Estavas debaixo de uma das lâmpadas do bar de praia e aquela tripa incandescente sobre ti, filtrada em auréola pela gordura que a lâmpada acumulara, dava-te um ar de anjo áptero e triste. Devia ter pedido ao homem que apagasse a luz para que a lua tivesse chegado aos teus olhos, mas lembro-me sempre destes gestos com anos de atraso.
Não sei se chegámos a molhar os pés no mar. Diria que sim, mas há coisas que só recordo por dedução. Ensinaram-me a chegar a uma cidade, vila ou aldeia e a dá-la por conquistada só depois de visitar o templo local. Aprendi também a não me sentar na areia da praia nova até ter sentido a temperatura da água. Só que era de noite e eu pensava nos monstros. A visão de um tentáculo rápido a arrancar-te da praia talvez me tivesse assustado e feito inventar uma desculpa para irmos ao mar apenas quando amanhecesse. Também não sei se fizemos amor no quarto do hotel e aqui não há regra que me ajude nas deduções. Mas é um dado adquirido que adormecemos encaixados um no outro; duas peças de Lego em Puerto Escondido.
CAR: já viste a crónica do Bénard?
A: vi e até li.
CAR: e então?
A: bem, aquela de se escudar na raiz etimológica de "laico" não é para levar a sério.
CAR: mas laicu não quer mesmo dizer apenas que se não é eclesiástico religioso?
A: fazes aquelas boquinhas à francês quando dizes "laicu", sabias?
CAR: não desconverses...
A: bem, quem sou eu para desautorizar o Bénard? Conto-te um episódio. Teria talvez uns 17 aninhos, andava a anilhar a passarada no Paúl do Boquilobo e na roda de amigos, ao serão, alguém diz: "o Sebastião já sabe quase tanto de cinema como o Bénard". O Sebastião era um conhecido nosso, jovem intelectual que chegava a frequentar as tertúlias da Natália Correia e era um cinéfilo do caraças. Vês? "Quase tanto como o Bénard..." Se o Bénard diz que é assim, é assim.
CAR: então?
A: ora, as palavras evoluem, pá. Achas que é com esse sentido que se diz que a República é laica? Ou que o Soares se diz laico? Bem, fiquemos pelo primeiro exemplo...
CAR: sobra a matriz.
A: aí pões o dedo na ferida.
CAR: não me referia às chagas...
A: seguramente que não. Mas as chagas, as quinas na bandeira, os sete feriados com conotação católica, o nome "palácio de Belém", etc. são apenas uma enumeração que serve o mesmo argumento: o da matriz católica.
CAR: e não é um argumento válido?
A: o Bénard entusiasma-se um pouco e a certa altura parece querer dizer que retirar o crucifixo nos impedirá de compreender os Lusíadas...
CAR: isso é caricatural, raios! Ele diz que a religião católica é parte da nossa cultura e que não a podemos branquear do catolicismo.
A: caricatural? O argumento do Bénard é essencialmente reaccionário. Desmonta-se facilmente com bom senso. Mais: que impacto tem a coisa, afinal? Nas secundárias que frequentei já não havia crucifixos. E recordo-te que não cresci em Marrocos. Quantos crucifixos haverá nas escolas públicas? Fez-se um censo?
CAR: mas não te parece essencial preservar a matriz? E não achas que se abre um precedente grave?
A: Imagina que as salas de aula tinham sido arquitectadas como as plantas das igrejas e catedrais, em cruz latina.
CAR: sim, e daí?
A: a sala de aula seria como que o próprio crucifixo, certo?
CAR: Vais dizer que faria sentido deitar as secundárias abaixo, terraplenar e construir de novo?
A: não, estou a dizer-te precisamente o contrário, que seria absurdo fazê-lo. Mas um crucifixo é essencialmente um objecto portátil.
CAR: continuo sem perceber.
A: é da natureza do crucifixo não ficar muito tempo no mesmo lugar. Um crucifixo pendura-se na parede, não é um baixo-relevo. Retira-se e volta-se a pendurar...
CAR: que disparate...
A: ... deixa-me acabar. Os católicos só estão preocupados com o simbolismo desta medida, mais nada. Mas depois da retirada do crucifixo ninguém vai exigir do Estado que ponha tapumes nas fachadas das catedrais. Ou que anule os feriados. Ah, no exemplo dos feriados o Bénard foi espertalhão e merece uma chapelada.
CAR: mas qual é o critério, então?
A: bom senso, meu amigo. O cimento que nos une e evita polarizar as discussões para lá dos limites da razão
CAR: continuo sem perceber.
A: deixa-me dizer-te algo que te tranquilizará.
CAR: ...
A: nós sempre precisaremos dos católicos. Gostamos deles. Todas as outras confissões religiosas - parece que há setenta e tal em Portugal- são folclore aos olhos de um ateu lusitano.
CAR: e demonstram isso exigindo a retirada dos crucifixos!
A: Repara: um ateu sabe que precisa de um nível basal de catolicismo. Um ateu que queira educar os seus filhos, precisa dos exemplos da religão católica. Dos seus maus exemplos, nomeadamente. Mas também de explicar o que a religião oferece, se tiver alguma abertura de espírito. E um ateu diz "abertura de espírito" sabendo o que está a dizer. Um ateu não troca forçosamente o "adeus" por "ciao".
CAR: acho que não estamos a falar dos mesmos ateus.
A: há fanáticos por todo o lado. Mas, como te dizia, as palavras evoluem ou são adoptadas à falta de melhor definição. O drama de quem não vê razões para acreditar na existência de um Deus é saber que só o definem por oposição aos que são crentes. Ele vê nisso uma falha e até uma injustiça, porque lhe parece que a sua condição é a inicial, a mais natural, em contraste com a religião, que seria uma construção subsequente e a precisar de fundamento. Mas ele compreende também que cresceu marcado pelo seu tempoe e que a sua matriz é essencialmente religiosa. Aprendeu a aceitá-lo, sob perigo de se desagregar.
CAR: isso não tranquiliza sequer um católico progressista. O que virá a seguir ao cruxifixo?
A: nada. É como te digo. O ateu acomodou-se e tem um papel sobretudo reactivo, tirando as franjas dos fanáticos. Ele sabe que varrer a religião é criar um vácuo que será ocupado por outra religião. Um esforço inútil, portanto. Porque as religiões estão desenhadas para seduzir as pessoas e ser-se ateu, na verdade, é um caminho de penitência. Vês? Eu estou completamente enredado na matriz. Afundado na matriz. Bénard: descontrai.
Que o catolicismo está em declínio é uma evidência. Mas, contrariamente ao que as almas positivistas mais excitadas pensam, isso não é razão para um ateu andar aos pinotes. Prefiro poupar os meus foguetes e dar a palavra a este senhor:
"The pianist Arthur Rubinstein was once asked if he believed in God. He said: "No. I don't believe in God. I believe in something greater." Our culture suffers from the same inflationary tendency. The existing religions just aren't big enough: we demand something more from God than the existing depictions in the Christian faith can provide. So we revert to the occult. (...)
As a child of the Enlightenment, and a believer in the Enlightenment values of truth, open inquiry, and freedom, I am depressed by that tendency. This is not just because of the association between the occult and fascism and Nazism - although that association was very strong. (...)
I was raised as a Catholic, and although I have abandoned the Church, this December, as usual, I will be putting together a Christmas crib for my grandson. We'll construct it together - as my father did with me when I was a boy. I have profound respect for the Christian traditions - which, as rituals for coping with death, still make more sense than their purely commercial alternatives.
I think I agree with Joyce's lapsed Catholic hero in A Portrait of the Artist as a Young Man: "What kind of liberation would that be to forsake an absurdity which is logical and coherent and to embrace one which is illogical and incoherent?" The religious celebration of Christmas is at least a clear and coherent absurdity. The commercial celebration is not even that."
2 de Dezembro de 2005 pode ficar na História como o dia em que Vasco Pulido Valente fez um elogio público sem alinhar pela lógica "uma no cravo, outra na ferradura", nem na instrumentalização do elogio a A para criticar B. Não, VPV diz bem de alguém pura e simplesmente. Pelo caminho destila algum veneno contra a máquina criadora de mitos do PCP, é certo, mas isso é a sua marca de água, um reflexo pavloviano associado ao simples contacto da polpa dos dedos com o teclado. O que emerge do seu texto é um desejo pungente, um chamamento que é quase de esperança, algo que muitos julgavam impossível no pessimista mor da República.
Trata-se de uma crónica absolutamente singular. Chegamos ao fim e imaginamos uma lágrima a brotar do canto do olho de VPV no momento em que rematou a prosa. A razão de tudo isto? Soube-se agora que Catarina Eufémia afinal não estava grávida quando morreu, um facto premonitoriamente ficcionado no romance dos anos oitenta Adeus Princesa, de Clara Pinto Correia. Meus amigos, sem saber, Clara Pinto Correia adivinhou. A criação, como lhe compete, criou a realidade. E Clara, por causa de um incidente trivial de plagiato, numa terra onde toda a gente plagia (e recebe prémios por isso) saiu dos jornais. No meio da obscena mediocridade que por aí se agita, faz falta a inteligência, a subtileza e o poder de uma grande escritora. Muita falta. Apetece-me dizer, e perdoem-me se vos soa mal: volta, princesa. Volta, Princesa.
Na foto (Expresso), CPC cobre-se com a sua produção literária - oportunamente vasta - junto de um gato, que representa o amor de Clara pelos animais e a natureza em geral. Ao fundo, uma lareira.