agosto 31, 2005

Helena Matos

A resposta de Helena Matos a Maria João Seixas é o pior texto de jornalismo que li nos últimos anos. Em qualquer jornaleco de província o texto seria vetado. Parece que a senhora dirige uma revista para as elites. Faz sentido.

Vantagens de não ter caixa de comentários

Não revelar a estupidez que se encontra aqui.

Coeficientes de ponderação

Parece que hoje morreram mais de 650 pessoas no Iraque devido à possível presença de um suicida no meio de uma multidão de peregrinos. Apliquemos um coeficiente de 0.6 para ponderar a distância geográfica, outro de 0.3 para a diferença cultural, um de 0.2 para o timing (um atentado bem tardio, se quisermos fazer a associação à Invasão do Iraque), outro de 0.3 para a possibilidade de não ter havido ameaça real; e mais um de 0.8 por estarmos todos de férias, outro de 0.5 por se tratar de um conflito "tribal", um de 0.8 para a factura repartida que é o terrorismo global, outro de 0.5 por não termos visto imagens aterradoras, um de 0.4 por os relatos falarem sobretudo de idosos e não de crianças. Aplique-se ainda um coeficiente de 0.4 para o caso de algum parâmetro ter sido esquecido e outro de 1.5 para o provável aumento do número de vítimas. Em síntese: o número de vítimas hoje no Iraque foi de 0.27, o que aponta para uma fractura exposta do antebraço em algum peregrino perdido na multidão. No Iraque, afinal, 'tá-se bem.

agosto 30, 2005

Jongleur de causas públicas

Admiro sem vestígio de ironia o vigor de pessoas como Pacheco Pereira (JPP) e Vital Moreira na defesa de causas públicas. É impressionante o espectro que cobrem e o ritmo a que escrevem. Geralmente estou de acordo com ambos, e até quando eles discordam um do outro. Infelizmente para mim, JPP continua preocupado com moinhos de vento. Não vale a pena repetir o óbvio: se os moinhos proliferam é porque a negociata é boa. Controle-se a coisa e proteja-se a paisagem cujo "conjunto pictórico" pode ficar comprometido com a instalação das hélices. Duas notas apenas: 1) o suposto dano que se faz à paisagem é neste caso facilmente reversível; não estamos a falar de lixeiras, detritos radioactivos, pedreiras e indústrias na Arrábida, construção clandestina junto à orla costeira, canos de esgoto a entrar no mar sem uma prévia passagem numa estação de tratamento, cartazes antigos do Alberto João Jardim de difícil remoção, etc; 2) o argumento do "distúrbio visual" é altamente discutível. Começo a ler: "the degree of visual intrusion, relating this to the character and quality of the surroundings, bearing in mind that modern wind-turbines are eye-catching because they are very large (over 100 metres high and growing), usually prominently placed...", e logo interrompo a leitura. Fico com vontade de acrecentar que é "eye-catching", pois é, mas no sentido em que cativa o olhar. Sempre que penso em hélices descaio para a versalhada e o melhor é parar por aqui, mas os monstros que tanto incomodam JPP são para mim objectos belíssimos. Até sem vento, atrevo-me a dizer, sem que com isto defenda a instalação indiscriminada das hélices.

Um piparote no Rei

Vou perder a aposta que fiz com o Átila. Não terei os 100 BnO escritos antes de 31 de Agosto. Rui, podes marcar a jantarada.
Chegarei às 100 entradas nos próximos dias. Tenho as próximas três entradas na cabeça e tenho um plano para as últimas dez.
A entrada 101 será para agradecer todos os incentivos (serei exaustivo) e para tecer algumas considerações sobre este projecto (serei breve). Terei também tempo para colocar online todas as entradas entretanto desaparecidas devido a um problema técnico.
É ainda provável que a série se prolongue depois até ao Natal e além das 100 entradas, mas antes de 2006 darei por encerrada esta série de textos, para meu descanso e descanso dos leitores.

agosto 29, 2005

Sobre os escritores prolíficos

Primeiro entranha-se, depois estranha-se.

BnO (87)

Um jogo em que nenhum dos adversários pretende ganhar roça o absurdo, mas podemos imaginar enredos verosímeis que conduzem a tal desordem. Em regra são situações que tendem para a simetria: A equipa A é comprada para perder e o mesmo acontece com a equipa B; impera na equipa A um sentimento de culpa que se tenta atenuar forçando a derrota, mas a equipa B carrega fardo idêntico; num jogo de uma equipa de pais contra os seus filhos, os pais torcem pelos filhos e os filhos - enfim, depende das idades - têm pena dos pais. Percebe-se a ideia. A arte de perder é muito mais elaborada do que a de ganhar. Não faço aqui o culto dos vencidos, que me parece uma moda de intelectual um pouco tonta. Não discuto o diferencial moral que dizem existir por defeito entre quem ganha e quem perde. Limito-me aos requisitos técnicos: perder é mais difícil do que ganhar quando não se deseja propriamente a derrota, mas antes que o adversário ganhe e fique com a sensação de ter realmente conquistado a vitória.
No futebol tudo pode convergir na mente e consciência de cada um dos armadores de jogo. Eles são os pólos num jogo em que todos os outros desempenham um papel secundário. Um pequeno comentário para os guarda-redes: guardam a chave da derrota, mas não é fácil simular um frango. Também muitas vezes perguntei se não haveria nos registos das televisões imagens de guardiões dementes, que comprometem a equipa entrando pela baliza a passo, com a bola nas mãos. Nunca vi tal imagem. O guarda-redes que sobrevive aos anos de formação deve ter nervos de aço e uma mente sadia que não se presta a caprichos. Não era o caso de T. e O.
Uns anos mais velho que T., O. alimentava com ele uma relação mestre-discípulo que o outro negava. T., por seu turno, nutria por O. uma admiração doentia, razoavelmente assexuada. O. costumava dizer-lhe: "o dia chegará em que tu passarás a dominar os jogos. Então deixarei de jogar e arranjo outro entretenimento"; que na verdade já existia e era a fotografia. O. andava obcecado com as maravilhas da câmara escura, aquele momento mágico em que o nitrato de prata traduz o que viu e a imagem emerge da folha. Havia um interesse adicional, que se conciliava na perfeição com os tempos mortos do processo de revelação: Sofia, despida e iluminada pela sombria luz vermelha. O. queria perder, dar a T. a confiança necessária para assumir o comando da equipa e poder enfim dedicar-se à fotografia e ao amor. Era uma pretensão legítima e seria num jogo de treino, em que jogávamos entre nós, com T. e O. em equipas diferentes, que tudo viria a acontecer. Alguma economia narrativa faz com que assistamos nos filmes ao momento em que os dois inimigos se procuram no campo de batalha, como se todos os outros guerreiros não existissem e nenhuma outra espada contasse. No relvado sucede o mesmo. O. insistia em falhar os passes, mas com a mestria de quem consegue fazer parecer que foi o companheiro de equipa que não deu o seu melhor. Rematava muito, mas sempre a rasar a barra. T. logo percebeu e abrandou o ritmo. Começou a cometer erros clamorosos, mas que compensava depois com jogadas geniais e inconsequentes. Ambos mantinham o seu estatuto, mas nenhum deles ajudava a equipa. O jogo arrastou-se nesta arte do quase-bom-futebol, sem que os companheiros percebessem o que se passava. Já no fim do encontro, o resultado e um canto trazem o guarda-redes da equipa atacante para a zona de remate (era um bom cabeceador), mas o canto resulta em contra-ataque. Não me perguntem exactamente como, mas a dada altura eu só vi T. e O. correndo para a bola e mais ninguém entre eles e a baliza deserta. O. e T. teriam talvez mais vontade de trocar ideias do que de jogar futebol. O. que levava alguma vantagem, abrandou ligeiramente a corrida e nisto foi seguido por T. Não chegaram a parar porque um deles se apercebeu quão ridícula a situação seria. O. jogou então uma cartada forte e simulou uma cãibra, que o atirou para o chão, e o fez rebolar ao bom estilo do Manuel Fernandes. T. viu-se encurralado e sem outro destino senão marcar o golo do empate, mas resolveu abusar da sorte, desinteressar-se do lance e correr em socorro de T., como se a lesão fosse um caso de vida ou morte. A bola perdeu-se pela linha final, enquanto T. agarrava e esticava a perna de O. Percebemos que conversavam, mas ninguém sabe exactamente o que diziam um ao outro. Ambos sorriam.

agosto 28, 2005

BnO (86)

L. gostava de futebol como ninguém, mas não sabia dar um chuto na bola. A sorte dele foi ter topado a sua vocação bem cedo. Jogava-se à conquista do mundo: dois canivetes pesados, o mundo representado por um círculo traçado na terra e o objectivo de conquistar território à força de espetar o canivete a menos de um palmo da posição onde se tinha enterrado antes, unindo depois os dois pontos como quem traça uma fronteira. Na altura de recomeçarmos um novo jogo, procurávamos terra incógnita, mas antes que alguém tivesse tido tempo de desenhar um círculo, L. traçou um rectângulo. "Oiçam-me por uns momentos". Este "oiçam-me por uns momentos" viria a torná-lo famoso no prédio. Rapidamente percebemos que quando L. pedia que o ouvíssemos ele tinha realmente algo para contar: tácticas, desdobramentos, notas à margem para os desempenhos individuais, dicas sobre como gerir o esforço físico e, claro, o discurso arrebatador que nos enchia de confiança e sede de vitória. "Sou um treinador sem contrato, imune à chicotada psicológica. Os jogadores procuram-me". Ao contrário do que se possa pensar, L. não esmagou todas as outras equipas. A explicação é castiça: quase por acaso ele acabou a treinar todas as equipas. A sua excepcionalidade fazia com que todos o procurassem; a sua generosidade, com que a todos desse atenção; a sua visão, com que o tacanho espírito competitivo não o aprisionasse- "estou no futebol para resolver problemas". Cada jogo era uma partida de L. contra L., como um xadrezista misantropo.
Só por uma vez este fora de série cedeu à vaidade e estimularia o culto da personalidade. Havia obras na rua, era já um fim de tarde e os trabalhadores regressavam a casa. Faziam a recuperação de um tanque de lavar a roupa comunitário que havia no bairro. O tanque estava praticamente em ruínas e era coisa de outros tempos, que já ninguém usava, mas alguém na câmara se lembrara de o transformar em monumento. Naquela altura as obras de reabilitação consistiam em cimentar os volumes. Os trabalhadores tinham deixado uma superfície lisa e de alguns metros quadrados com cimento fresco, protegida apenas por um cordel. A tentação cresceu, claro. Quem nunca gravou o seu nome para a eternidade que atire a primeira pedra. Só que M. chegou lá primeiro e disse: "oiçam-me por uns momentos". No dia seguinte o génio de L. estava gravado no cimento: vários campos, campos sobre campos, setas, setas sobre setas, enfim, havia ali a força do rascunho, do traço sobre o traço que parece dar vida aos desenhos. Nós contemplávamos a superfície do cimo do prédio e aquilo parecia-nos simultaneamente belo e profundo. Depois vieram os homens das obras, que disseram umas caralhadas, cobriram tudo de cimento outra vez e ficaram de plantão até o cimento secar.

BnO (85)

Na única província anfíbia do país, a natureza híbrida parecia extravazar para todos os domínios do tempo e do espaço. Havia arrufadas e vendedores de barquilhos, mas também um toque de modernidade que vinha com as últimas criações das multinacionais da geladaria. Havia imprensa estrangeira e mulheres estrangeiras, que eram levadas para as enseadas recônditas entre a Praia da Rocha à Praia do Vau e depois reapareciam peladas em postais vendidos ao lado de ancinhos de brincar. Havia bólides alemães, que se cruzavam com carroças puxadas por burros. E em Setembro, durante a grande feira, freaks produziam artesanato moderno à base de arame e disputavam com vendedores de polvo assado a atenção dos turistas.
No Algarve fazia férias de verdade e, naturalmente, procurava ficar longe da bola. Respeitava o defeso. Havia outras atracções. Uma delas era entrar clandestinamente nas piscinas vigiadas e tocar com a palma da mão no fundo da parte sem pé, como quem espeta uma bandeira. Chamem-me purista, mas o futebol de praia não é coisa para se levar a sério. Provas? Todas. Jogava no areal da Praia da Rocha um moço pequeno e entroncado, quase como o Maradona, só que loiro. Era forte como um buldogue e comentava-se que iria ter uma grande carreira pela frente. Anos depois o moço já homem feito seria dispensado pelo Portimonense. Aquele hábito de levar a bola até à beira-mar? Não fica bem a um lateral consciencioso. A vocação marítima não passa seguramente por avançar no terreno com água pelo joelho. Sobre a tentação de jogar à baliza nem vale a pena falar: quando todos querem ser guarda-redes algo está errado.
As férias no Algarve eram um verdadeiro descanso. Quase não se pensava em bola. Às vezes vinha um desejo agudo de centrar, que podia surgir nas alturas menos apropriadas: quando se levava uma miúda de noite para a praia, por exemplo. As luzes dos barcos da pesca da lula ao longe, o joelho nu dela, aquele relento bom e a vontade de centrar, a mente a pensar se haveria rapaziada suficiente na praia, todos emparelhados e dispersos pelo areal, entretidos em jogos carnais, subitamente mobilizados para um encontro nocturno. Mas era coisa passageira, que não voltava duas vezes na mesma noite.
No regresso aos Olivais, naqueles Setembros sem aulas e em que se voltava a pegar na vida devagar, tinham lugar os melhores jogos. A fome de bola era imensa, o tempo infinito, os dias ainda longos, a temperatura propícia para a prática do futebol e -perdoem-me a vaidade - o bronzeado ainda vivo realçava o branco da camisola branco-pérola do Real Madrid. Por esta ordem.

agosto 27, 2005

A vida, essa brincalhona

Quem diria que João Pereira Coutinho viria a contribuir para uma certa reaproximação familiar que envolve quem tanto o critica? Após anos a cascar no moço, impõe-se este reconhecimento, que tem como causa próxima circunstâncias pouco relevantes para o leitor e, como causa última, o talento do cronista.

BnO (84)

panoramix.jpgEstamos a chegar a uma altura em que já se escreveu sobre tudo. Há duas décadas também seria essa a sensação e é assim há muitos anos, o que diz muito mais sobre nós do que sobre o incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandria. Mas parece-me deveras improvável que não exista por aí um tratado sobre a alcunha. Se calhar é edição de autor de um professor de instrução primária de um pueblo na periferia de Cusco, Peru. Sabemos lá. Se eu escrevesse tal livro - coisa que não farei - dividiria a alcunha em quatro tipos, a saber: 1) a alcunha auto-imposta, a mais ridícula de todas e que tende a ser um reflexo megalómano ; 2) a alcunha inspirada nas características físicas, geralmente a mais cruel e a menos imaginativa; 3) a alcunha que traduz características psicológicas, que pode ser muito castiça ou não; 4) a alcunha biográfica, isto é, aquela que surge na sequência de um episódio. É na infância e adolescência que a alcunha se estabelece. A explicação leva-nos seguramente para os mecanismos ontogénicos, mas há também uma rede de interacções sociais que promove este fenómeno. A cada um a tarefa de indexar as alcunhas que conhece. Aqui escreverei apenas sobre Panoramix.
Falamos de uma alcunha que dispensa chave dicotómica; é sem margem para dúvidas do tipo biográfico. O instante fundador aconteceu a meio de um dos nossos campeonatos. A nossa equipa perdia, essencialmente por falta de forma física. Há por aí a ideia de que as crianças e os adolescentes têm uma energia inesgotável. É uma ideia errada. Os outros corriam claramente mais do que nós. Talvez fosse resultado das nossas noitadas com o ZX spectrum. O certo é que naquele Verão não estávamos com força. Foi então que N. se lembrou dos suplementos vitamínicos. A equipa começou a tomar doses moderadas de vitamina C, mas em menos de uma semana tínhamos feito a escalada para o exagero: consumíamos doses inconcebíveis, em pastilhas efervescentes que coloriam a água. "O meu mijo já sai cor de laranja", queixou-se um a dada altura. Nada mudou: continuávamos a perder e sem fôlego. Só N. não desarmou e insistiu em explorar outras alternativas. Dos produtos orgânicos às afinações na dieta, nada parecia resultar. O eureka de N. surgiu numa tarde de televisão, durante um intervalo para publicidade: a Coca-cola. N. experimentara já o ligeiro frenesim que tomava conta dele depois de beber três Colas. O seu golpe de génio foi perceber que era preciso isolar do refrigerante o princípio activo que dava energia. Fosse outro o lugar e a época, talvez houvesse no prédio um engenhocas, ou um daqueles tipos com kits de química e microscópio. Não havia ninguém. As ciências naturais não entravam ali. Só que N. tinha um raciocínio escorreito e lembrou-se simplesmente de evaporar a água da Cola-cola. As primeiras experiências falharam mas ao fim de uns dias tinha o método optimizado: uma simples fervedura prolongada num caldeirão destapado. Ao fim de umas horas, 10 litros de Cola-cola estavam reduzidos a uma pasta caramelizada que cabia numa mão fechada. N. moldava depois a pasta com ajuda de uma forma, punha o produto no congelador e após algumas horas apresentava-nos uma tablete de aspecto duvidoso, que se trincava fria "para não perderem a energia vital nos dentes" e era insuportavelmente doce. Confesso que tomei aquilo. E funcionava. Consumida a meia-hora do encontro, entrávamos com fogo no rabo e com uma dose suplementar ao intervalo ninguém nos agarrava. Cada jogador ficava a 20 litros de Coca-cola por encontro, a época ia a meio e a equipa tinha 8 elementos. Basta fazer as contas para perceber que era uma brincadeira cara. Mas funcionava e ninguém tinha vontade de parar.
O volte-face veio de novo da televisão: escândalo de dopping na Volta à França. Os mais reflexivos acusaram o toque. N. ainda argumentou: "A Coca-cola não é uma substância proibida. Não sejam parvos". Mas a verdade é que nós tínhamos uma vantagem sobre os outros. Em poucas semanas passáramos para a frente. "Querem perder o campeonato, é?" ameaçou-nos N. Ninguém queria perder. Movidos a Cola-cola limpámos os jogos que faltaram e conquistámos a nossa primeira taça. Ficámos eufóricos nessa noite. Veio depois uma leve ressaca, que foi crescendo devagar. Como se nos quiséssemos livrar de uma recordação má, nos dias seguintes a taça foi passando de mão em mão, até acabar no quarto de N. E ele, que continuava feliz e em paz, percebeu finalmente o que decorria. Então todos chamou e disse: "Quem de entre vós não tem a colecção dos álbuns do Astérix?" Todos tinham, menos um. "Não te preocupes, empresto-te os meus. Queria que esta noite lessem o Astérix entre os Bretões. Amanhã voltamos a falar, está bem?". Assim fizemos. Ninguém percebeu a ideia de N., mas de manhã ele explicou-nos:
- Lembram-se de me terem dado dinheiro para as Colas? Bem, eu acabei por comprar uma bicicleta e para os últimos jogos aldrabei as tabletes. Aquilo era só açúcar. Açúcar castanho. Comido gelado nem se percebia a diferença.
- Tu compraste uma bicicleta com o nosso dinheiro?
- Sim, e peço-vos desculpa por isso. Mas não estão a perceber? Não leram o livro? O açúcar dos últimos jogos foi como o chá que o druida deu aos Bretões na falta de poção mágica. A malta não precisou daquilo para vencer os últimos jogos. Ganhámos com mérito, pá. Sem dopping!

As sensações ambivalentes provocam alguma azia e uma geral sensação de mal estar: queríamos esmurrar N. e queríamos abraçá-lo também, por nos ter devolvido o título. A taça voltou a ser um objecto cobiçado. Ninguém chegaria a ver a bicicleta nova de N., mas ou não nos lembrámos mais disso ou não houve coragem para colocar a pergunta. Panoramix é hoje o homem mais bem-sucedido de todos os que moravam naquele prédio.

O gomo do Havaí

Num gesto que mistura magnanimidade, forretice, malícia, a típica precipitação lusitana e algum espírito, o Átila (com quem mantenho a aposta de chegar às 100 BnO até à meia noite de 31 de Agosto) resolveu escolher o fuso horário do Havaí como referência para a meia noite de 31 de Agosto. Com esta cedência, que humildemente aceito, ganho algumas horas (não sei ao certo quantas).

agosto 26, 2005

BnO (83)

pardilh 016.jpgDois de nós conversam junto ao prédio:

-Já sabes o que aconteceu ao Jaime?
-O Jaime craque?
-Sim.
-Não.
-Sim, o Jaime craque.
-O quê?
-Teve um acidente de vespa e ficou tetraplégico.

Chega outro:

- Pá, sabem o que aconteceu ao Jaime?
- Sim.
-Sim.
- Agora os médicos vão-lhe pôr uns ferros pelos ombros.
- A sério? Não sabia que um tetraplégico podia voltar a andar.
- Bem, a ideia é transformá-lo em boneco de matraquilhos.
-...
-...
- Estás a gozar?
- Claro.
- Não tem piada.
- Pá, tem piada.
- Foste tu que a inventaste?
- Sim. As piadas não nascem por geração espontânea. Pá, é gira, não é?
- Não.

Chega mais um:

-Sabem o que aconteceu ao Jaime?
-Transformou-se em boneco de matraquilhos...
-Como é que te lembraste disso?
-Ele contou-nos a piada.
-Mas eu acabei de inventar a piada e ainda não a tinha contado.
-Pá, a piada é minha.
-Não, a piada é minha.
-Então conta lá a tua versão.
- O Jaime foi atropelado ontem, certo? Coitado, ficou tetraplégico. Bem, os médicos puseram-lhe uns ferros pelos ombros. Agora eu perguntava:"sabem para quê?". E vocês:"para quê?". Então eu dizia: "é para jogar matraquilhos".
- Pá, essa é a minha anedota, mas está mal contada.
- Bem, eu contei como a contaria, o que não é a mesma coisa que contar para fazer rir, mas a piada é minha.
-Devias dizer "boneco de matraquilhos" e não "jogar matraquilhos". O gajo não joga matraquilhos, é peça do jogo. Também não podes perguntar se sabem para que servem os ferros, meu. Isso mata a piada. Deves confiar no raciocínio das pessoas e só depois puxas o tapete. Não podes ter inventado a piada. Não a percebeste.

Chega ainda outro:

- Nem sabem o que aconteceu ao Jaime!
- Eh, bem, diz lá.
- Caiu do alto de uma escadaria e ficou paraplégico.
- Ah, Benfica ou Sporting?
- Não, foi nas escadinhas do Duque.
- Os matraquilhos, pá. Vai jogar pelo Benfica ou pelo Sporting?
- Eu acho que ele não volta a andar...
- Não sabes a piada do ferro?
- Ah, sei sei. A do craque de futebol que fica tetraplégico e depois atravessam-lhe um ferro pelos ombros?
-Sim, essa.
-Antiquíssima. Isso é anedota pré-Travassos.

Chega o Jaime:
- Já sabem o que me aconteceu?
-Sim, mas não há nada como ir à fonte.
-Hã? Já sabem do ferro?
-Mas tu estás bem!
-Anda alguém a gozar comigo. Telefonaram à minha mãe a dizer que um ferro das obras me tinha atravessado a cabeça.
- Estás a contar isso como deve ser? Não teria sido um ferimento ao nível dos ombros?
-Não. E que fiquei paralítico...
-Tetraplégico?
-Foda-se, quero lá saber. Mas tu estás a par disto?
-E os matraquilhos?
-O que é que tem?
-Não disseram à tua mãe que agora és um boneco de matraquilhos?
-Pá, eu não jogo a essa merda. Alguém me explica o que se está a passar?

Chega o último:

- Pessoal, vamos jogar matrecos?

Neste momento o Jaime esmurra o sexto de nós. Este responde e desequilibra o Jaime, que bate com a cabeça numa aresta de pedra.

-Foda-se, mataste o Jaime.
- Eu? Eu não fiz nada.
- Então como é que sabias dos matraquilhos?
- Hã?


Tanto quanto posso avaliar, esta anedota começou a circular em Portugal numa data muito posterior à da ocorrência destes diálogos, o que adensa ainda mais este mistério.
A imagem foi tirada daqui.


Vantagens de não ter caixa de comentários (13)

As pessoas mais intolerantes que conheço são, em regra, católicas. Das duas, uma: ou andei muito distraído nos meus tempos de catequese e baralhei as escrituras, ou há aqui um terrível paradoxo.

agosto 25, 2005

BnO (82)

O sol de chapa nas caras suadas e a gota de suor a galgar as costelas, aos 10 minutos de jogo. O corpo a corpo? O corpo contra o corpo, a pele fria e o atrito dos gestos que surgem logo atrasados. O fio de cabelo depois colado às têmporas, uma gota de suor como uma jóia brilhante na ponta dos cabelos, um respingo de suor na pequena área e o suor a escorrer para a boca, aos 25 minutos. Um primeiro sinal a brotar da pele, vista como uma planície, quase desfocada. O suor dos outros no mano a mano, o suor na bola amansada com o peito e o suor novo a diluir o suor seco, no recomeço do encontro. A mão no peito, a palma dos pés quase húmida e o umbigo com um travo salobro. A grande mancha de suor nas costas, as manchas pequenas no peito e o suor perto da ferida, a meio da segunda metade. Um brilho novo nos ombros e em tudo o que é redondo, a luz em bicos de pés na penumbra do quarto. A terra a beber o suor do avançado, a roupa interior empapada e o suor que a T-shirt leva do rosto, sobre o apito final. O ventre a encharcar o ventre, até ao descanso que guarda um mar entre os corpos. O suor velho a arrefecer ao relento. Soltos os corpos, o suor morno a voar do teu corpo para a rua.

agosto 24, 2005

Repita comigo: common descent, common descent, common descent, comm...

Sabem qual é a diferença entre um intelectual da área das letras e um cientista? Simples: o cientista sente-se tão desprezado pelo intelectual que à menor atenção deste perdoa toda e qualquer calinada. O intelectual faz então o que fez sempre: ignora-o. Ah, se não fosse pela calinada do "apoio científico pouco convincente" e do "chimpanzé", o post até estaria catita.

"Evolucionismo: 1. Hipótese especulativa, sem apoio científico convincente, produzida por Darwin, segundo a qual as espécies evoluem muito lentamente, de acordo com os princípios da adaptação ao meio e da sobrevivência do mais apto. De acordo com tal hipótese, o homem teria evoluído a partir do chimpanzé. 2. Opõe-se ao criacionismo, patente no Livro do Génesis, segundo o qual todos os seres vivos foram criados por Deus, em meia dúzia de dias, na sua forma actual, Alberto João Jardim incluído. 3. Nos EUA, pátria da democracia e da livre expressão, as duas teorias são ensinadas equitativamente nas escolas, sobretudo naqueles Estados em que a moléstia moderna do secularismo (v.) não pôs ainda em causa as verdades reveladas no Livro. 4. George W. Bush é totalmente a favor da liberdade de ensinar a versão criacionista, pese embora a força dos dogmas pseudo-científicos de ateus como Darwin ou Galopim de Carvalho. 5. Bento XVI, o padre João Seabra e João César das Neves não podiam concordar mais. 6. «Basta ir a um Zoo para perceber que o macaco não é o nosso parente mais próximo…»

agosto 23, 2005

Heróis a prazo? Então e a franca hipocrisia?

Parece que Armstrong se dopava. Como sucedeu com Carl Lewis, é pouco provável que o seu estatuto de herói se altere. Armstrong é único por ter vencido um cancro antes de fazer a razia do Tour. O facto de consumir Epo torna-o apenas mais parecido com todos os outros. Alguém duvida? Note-se que não estou a desculpabilizar o corredor. Se a notícia do L´Équipe se confirmar, Armstrong mentiu com todos os dentes. Mas do que eu gostei mesmo foi deste naco de prosa, tão, mas tão francesa: "Ces analyses ont été effectuées par le laboratoire de Châtenay-Malabry, celui-là même qui a mis au point le procédé de détection de l'EPO. Le labo a travaillé, à partir de 2004, sur des échantillons prélevés et congelés entre 1998 et 1999, une époque où l'utilisation de l'EPO était monnaie courante dans le peloton. Les scientifiques avaient pour objectif d'améliorer leurs méthodes de détection, et non de tenter de contrôler les urines des coureurs plusieurs années après." Mais à frente voltam a deixar claro: "Au total, douze échantillons ont été analysés par le célèbre laboratoire dans ce but exclusivement expérimental..." Pois, pois. Vivi em Paris de 1996 a 2001. Se o Armstrong corria, surgia logo a suspeita. Os franceses sempre quiseram apanhá-lo, basta ir aos arquivos de imprensa para confirmar tal mania. Não venham agora com essa de que as amostras do americano foram utilizadas só para testar o método. Ao menos o Armstrong sabia aldrabar.

BnO (81)

K., de kamikaze. Um tipo instável, maníaco-depressivo, um dia eufórico, na manhã seguinte de rastos. Constante na sua vida, só mesmo o futebol. É dos livros que a depressão suga a vontade, mas K. era tomado por uma pulsão suicida que tentava realizar no campo. Nós estávamos avisados e entre carregar pela vida fora o fardo de ver K. enforcado num abrunheiro e correr o risco dos cortes de carrinho suicidas dele, a decisão era fácil. As tendências suicidas de K. no campo tipicamente geravam três comportamentos, que passo a descrever por ordem crescente de perigo: colocar-se na ponta da barreira quando o livre directo era marcado pelo Samagaio; tentar entrar em voo de peixe pela baliza dentro; o exercício anterior, mas quando a baliza estava desenhada na parede do prédio. Havia outras manias dele, que nos podiam magoar. O já referido corte de carrinho, que era implacável e levava K. da relva ao empedrado, por vezes arrastando o avançado com ele. Algumas corridas desenfreadas também, que ele fazia com os olhos fechados, na esperança de ser plaqueado por uma faia, acabando quase sempre por lesionar um defesa mais distraído. E o volley com o corpo suspenso a meio metro do chão, que ele executava a pensar na queda desamparada, sem ligar ao pontapé nem aos adversários. O Kamikaze chegava sempre vivo ao fim do jogo e o seu rosto era uma expressão de alívio e de cansaço. Às vezes cuspia sangue da boca.
No dia seguinte, o Kamikaze aparecia radiante, inchado de optimismo. Tudo era positivo, o seu polegar perpetuamente arrebitado, as suas palavras de apoio aos colegas - "Vamos lá!"-, as palmas que batia sempre que cada ataque morria e a forma disparatada como festejava os golos, raros. O Kamikaze tentava jogadas impossíveis e tudo falhava, a tripar na megalomania: os slaloms de baliza a baliza que não passavam do meio campo e os remates estratosféricos do meio da rua. Só não perdia o entusiasmo. No fim do jogo o seu rosto era uma expressão de apreensão e de de cansaço. Mas ainda cuspia com confiança para o chão, de mãos nas ancas. E dizia: "Vamos lá!"

BnO (80)

"Chutar a bola contra a parede pontua o meu raciocínio e organiza-o. Basta entrar na cadência certa e sinto-me mais inteligente. O som da bola na parede, a frequência com que armo o pé, enfim, tudo isso estrutura o pensamento. Antes de arrancar uma redacção vou sempre para a rua e fico diante da parede umas duas horas. A minha mãe chega, irrita-se comigo e diz-me para ir para casa fazer os deveres. Como é que lhe explico isto, diz-me? Ninguém percebe, soaria a desculpa. Insisto em ficar mais algum tempo, retomo o ritmo e depois subo. Em dez minutos tenho um texto pronto, que sai à velocidade da minha mão. O texto foi escrito diante da parede, a jogar à bola. Com as decisões passa-se o mesmo. A parede dá-me sempre a solução. Se há algo que a parede não resolve? Sim, claro. O conflito moral. Uma vez tentei usar a parede para esse fim mas fiquei a sangrar da testa e não foi bonito. Para o resto funciona sempre. Até nas discussões com mulheres sobre namoros e essas coisas. Elas tendem a ter uma inteligência emocional mais desenvolvida, o que é uma forma de dizer que nós somos algo primários a abordar tais matérias. Mas até a Sandra, que não só tem uma inteligência emocional superior como é bem mais veloz de raciocínio do que eu, até ela eu consigo anular se estiver a chutar a bola contra a parede. Olha, foi há dois dias. Sabes o que aconteceu? Parecia um jogo de xadrez entre tipos de níveis diferentes. Eu antecipei tudo o que ela dizia, por causa da parede, claro. Sim, foi a conversa em que acabei com ela antes de ela acabar comigo. Já te tinha dito, certo? O quê? Não me lixes. Achas? Tudo arquitectado por ela? Para não me deixar de rastos? Coisa que tu agora estás a tentar fazer, meu sacana...

BnO (79)

-Então? E esta noite?
-Esta noite? Até te passas. Estava à defesa e vem uma bola em balão, a crescer para mim. Bem, eu pensava que era a bola que crescia, mas depois percebi que era eu que diminuía de tamanho...
- Andas a ler o Gulliver?
- Sim, porquê?
- Por nada, continua.
- Então eu estou minúsculo, a bola cai finalmente sobre mim e de súbito fica tudo mais escuro. Eu acabara de entrar pelo pipo para dentro da bola, percebes?
-...
- Estou dentro da bola e sinto-me a levitar, no meio daquele ar comprimido, ganho lentamente o centro do espaço e é quase como se a bola passasse a ser parte do meu corpo. Vista por dentro, num dia de sol, a bola é uma coisa fantástica. Está mais escuro do que lá fora, mas a luz entra pelas costuras e é depois filtrada pela câmara-de-ar cor de laranja. É como estar no centro de um sol que se está a pôr, hã? Só que a temperatura é amena, o ar denso e húmido. Os sons surgem adulterados, às vezes grotescos, outras vezes parecendo que as pessoas respiraram hélio e ficaram com aquelas vozes de desenho animado, sabes? Os gritos do Samagaio, lá fora, são um gozo de ouvir dentro da bola, só te digo. E quando alguém remata, tu sentes a aceleração, és momentaneamente projectado para trás, mas logo retomas o centro, como se estivesses aos comandos de uma nave, mas cuja rota não depende ti...
- ...
- Ah, há duas sensações que viciam. Uma é ficar a olhar para a câmara-de-ar quando alguém remata com efeito e a bola começa a girar sobre um eixo imaginário. Aquilo parece um caleidoscópio, pá. A outra é quando a bola fica a saltar e ninguém lhe toca até ela parar. Aí é como abrandar um trote...
-...
- Só tive um receio: que a bola fosse parar à estrada e um autocarro a rebentasse. Mas o mais certo era sair disparado a voar e aterrar numa daquelas flores encarnadas carregadas de néctar que o pessoal chupa. Já te imaginaste a mergulhar naquele açúcar e a ir depois à boleia, levado por uma abelha?
-...
- Bem, foi mais ou menos assim. Marcamos encontro amanhã à mesma hora?
-Sim. Posso pagar-te só no final da semana? Ainda não recebi a mesada.
- Sem problema. Mas, pá, não andas a abusar disto de ouvir os sonhos dos outros?
- Isso é lá comigo.
- O J. contou-me que agora também lhe pagas.
- Não te preocupes. Os teus sonhos continuam a ser os melhores.
- Bem, tem cuidado com isso. Agora preciso de ir. Até amanhã.
-...

agosto 22, 2005

BnO (78)

A história da propriedade privada era algo que não dominávamos. Nenhum de nós se inquietava com a ideia de dar posse a alguém de um bem finito, nem de como seria paradoxal só dar direito de posse sobre os bens infinitos. Uma coisa pertence-nos mais quando os outros a reclamam também. Isso nós entendíamos e cedo o experimentámos na pele.
O campo era nosso, obviamente. Era nosso porque estava perto de nossa casa e nele jogávamos todos os dias. Isto até o pessoal do Norte do bairro resolver aparecer por ali a meio da tarde, a uma hora do dia em que o campo não era utilizado. Não se chegou a saber muito bem o que os levou a fazer aquilo, nem por que motivo estavam tão longe de suas casas. Tomaram-lhe o gosto, claro; era um bom campo. Os jogos deles começaram a ficar mais demorados e a ser mais frequentes. E o impensável precipitou-se: não poder jogar no nosso campo por causa da malta do Norte. Não os obrigámos a sair e fomos para um relvado distante, mas nessa noite muitos tentaram marcar o tema de conversa à hora de jantar e ouviram os pais falar da utilização dos espaços públicos e de uma série de obrigações e deveres, numa espécie de visita guiada ao lado negro da vida cívica. Só um de nós ficou fascinado com a palavra “usucapião”. Seduzia-o a sonoridade, primeiro, e a forma adequada como parecia reflectir o seu estado de espírito perante o problema do uso do campo. A usucapião foi uma daquelas descobertas que fazem uma pessoa sentir-se subitamente mais próxima de toda a gente, ao perceber que outros já antes haviam pensado da mesma forma.
A tolerância recomendada ao jantar não nos convinha. No dia seguinte discutimos o problema com a malta do Norte, já instalada no campo. É claro que a usucapião foi logo aplicado como argumento, mas sem surtir efeito “Mas o que é que eu tenho a ver com o capitão da vossa equipa e o uso que ele dá ao campo?” A aquisição de propriedade pela posse continuada não era coisa que os bárbaros do Norte pudessem conceber. Para eles a lei era a de quem primeiro tivesse chegado ao campo naquele dia.Talvez por pensarmos que podíamos tirar partido da proximidade ao campo, não prolongámos a discussão. No dia seguinte aparecemos à hora do almoço, mas eles tinham já uns 6 tipos de plantão, a fazer passes longos, cobrindo o campo todo. No outro dia chegámos de manhã, mas dois calmeirões deles jogavam baliza a baliza, imperturbáveis. Um de nós irritou-se e nessa noite demos com ele a sair do prédio com uma tenda às costas. Só nos disse: “sempre vamos ver quem chega mais cedo ao campo amanhã? Ajudam-me a montar a tenda?” Percebemos que se caminhava para a insensatez e resolvemos recuar. Nas semanas seguintes jogaríamos sempre no relvado mais distante, a Sul. Tratava-se de um campo plano, pouco frequentado por peões, sem árvores, praticamente rectangular, com a relva em bom estado. Numa palavra, era um campo fantástico, em tudo melhor que o nosso campo cheio de árvores, inclinado, atravessado por passeios, cheio de zonas peladas e com regos junto ao lancil que faziam a bola seguir encarreirada ao longo da linha lateral. A distância até ao relvado novo também se fazia bem. Só que a nossa terra era outra e não havia nada a fazer. Por aquela altura, ao serão, lembro-me de alguém ter comentado a propósito do conflito israelo-palestiniano: “estes gajos andam a matar-se uns aos outros por uma terra paupérrima que nem cabras alimenta”. As imagens que via na televisão vinham ao encontro do comentário - colinas nuas, vegetação pobre, um quase deserto, bairros degradados, nenhum campo decente-, mas a incursão da malta do Norte fez-nos ver quão idiotas eram aquelas palavras. Recuperar a nossa terra tornou-se então um desígnio e uma sucessão de eventos fez com que tudo se fosse decidir numa partida de futebol; nós contra os do Norte e quem ganhasse ficaria com o campo por um ano. O combate ritualizado não é a pior das soluções.
Tremíamos das pernas mas começámos com garra e passámos os primeiros minutos a carregar. A tensão fez-nos bem e parecia que nunca antes jogáramos tão bem. O bairro estava em peso connosco e até a nossa porteira -pobre senhora - mas a sorte tinha outro endereço naquele dia. Bolas ao poste, grandes defesas do guarda-redes adversário, falhanços à boca da baliza, zero a zero ao intervalo e o segundo tempo a começar da mesma maneira. O nosso domínio era avassalador, as jogadas fluidas, mas não havia maneira de marcarmos golo. Sobre o apito final, na única avançada deles, sofremos um golo e perdemos o encontro. Ainda hoje oiço o berro de M. inconsolável: "estou farto de vitórias morais, caralho!" Depois ninguém mais abriu a boca, nem sequer um tipo muito dado a trocadilhos e que deve ter pensado: "pior do que perder o Norte, só mesmo perder para o Norte." Abandonámos o campo a olhar para a relva e em silêncio.
Na tarde seguinte juntámo-nos na calçada, a espreitar o campo. Mas fez-se noite sem que a malta do Norte aparecesse. Seria assim no segundo dia, ao terceiro e durante toda a semana. Prurido de vencedor? Súbito desinteresse? Um gesto magnânimo? Nunca chegámos a perceber, mas aos poucos, sem grande glória, fomos colonizando o campo de novo. Quando deixámos de jogar lá, muitos anos depois, foi por vontade própria e fome de outros territórios.

SOS BnO

Perdi as entradas BnO da 47 à 60 (inclusive). É altamente improvável que alguém tenha cópias destes textos, mas se for o caso a ajuda seria preciosa.

A ajuda preciosa já aconteceu. Obrigado.

agosto 21, 2005

BnO (77)

Qualquer manifestação imprevista de alegria na praça pública deve ser rapidamente investigada com minúcia e discrição. Na justificação oficial para tal urgência invoca-se a imperiosa necessidade de assegurar que o protagonista de tal acto está na plena posse das suas faculdades mentais. A verdadeira explicação, porém, é outra: uma gargalhada inusitada é uma fresta por onde se pode espreitar a tal natureza humana. Ora, fica bem dizer que a natureza humana nos fascina. É coisa sem encargos e que traz dividendos, em função da inocência de quem nos ouve.
A meio de uma partida a feijões, vindo do outro lado do campo, G. correu a abraçar quem acabara de marcar um golo que colocava a sua equipa a ganhar por um a zero. A corrida foi feita com um sorriso triunfante e os braços prematuramente abertos. Tal euforia, que chegou a incomodar o avançado e mais parecia festejo de goleador numa competição europeia, nunca antes tinha sido vista em G. O rapaz não voltaria a recuperar a concentração e a sua equipa perdeu o jogo por três golos de diferença. O que se teria passado?
A resposta veio uns meses depois; entretanto G. tinha voltado à normalidade. A normalidade de G. era isso mesmo, a de um aluno mediano, com hábitos sociais comuns e nenhum passatempo controverso. Encontrei-o por acaso deitado na relva do campo, escrevendo com afinco num caderno de notas, daqueles com a capa dura e manchas brancas e pretas, como a pele da vaca leiteira. Não se sentiu incomodado quando me aproximei, nem sequer fechou o caderno. Versalhada de amor não era seguramente e de relance logo confirmei: o rapaz preenchia tabelas (o que, em rigor, não é uma prova irrefutável de escrita pouco passional, mas quase). Nem precisei de arrancar a conversa. "São as minhas estatísticas", disse ele com algum orgulho. "Estou a passar tudo a limpo e a fazer uns gráficos". Estatísticas para as aulas? Das suas notas? Daqueles jogos entediantes que fazíamos nas viagens até ao Algarve, a contar as marcas de carros que connosco se cruzavam? Nada disso. Estatísticas sobre o desempenho de G. em campo. Estava lá tudo: o número de cortes, discriminados em função da parte do corpo que foi usada, as assistências, o tempo de posse de bola, os golos, as faltas cometidas, as faltas sofridas, as falhas defensivas clamorosas, os penalties provocados e os que fizeram sobre ele, os livres marcados, os lançamentos de linha lateral, enfim, tudo o que não ocorreria nem ao mais obcecado adepto de Baseball, um desporto particularmente aborrecido como se sabe e que usa a estatística para assunto de conversa. O registo surpreendia pelo volume de observações: mais de 20 parâmetros seguidos ao longo de mais de 6 anos, cobrindo cerca de 700 jogos (incluindo os jogos a sério, as peladinhas, os jogos no patamar e as horas passadas a atirar a bola contra a parede). "Se não for eu a cuidar destes dados, ninguém o fará por mim". De facto, tinha razão, mas ficava por explicar tamanha dedicação. "Eu vejo o futebol como um desporto individual, sabes? No fundo toda a gente pensa da mesma maneira, mas criou-se esta ideia dos desportos colectivos, como se as equipas tivessem alma e vontade. É tudo uma mentira; uma equipa é uma soma de vontades apenas, sem qualquer propriedade acrescida (hoje teria dito propriedade emergente). O problema é que nem todos têm estofo para aguentar estas análises e o colectivo funciona como um amortecedor de choques para o ego. Por exemplo, andei 5 anos a carregar um goal average negativo. Isto mata um tipo. Qualquer outro preferia não saber e é assim que as pessoas vivem, numa doce ignorância. Só no mês passado consegui finalmente chegar a um valor positivo, mas foi coisa efémera. Acabámos por perder esse jogo e a soma dos golos marcados pelas equipas de que fiz parte continua hoje abaixo da soma dos golos sofridos. É tramado. Eu bem tento diluir-me no colectivo, mas o colectivo não é para mim, pá."

agosto 20, 2005

Marca de nascença

Acaso do soma
Que se soma a ti
Do umbigo mais perto
O sinal tão negro
Procuras no corpo
E o sinal não está
Procuro lembrar-me
E o sinal se foi...

Dave Matthews

1 Dave Matthews.jpgO trabalho de Dave Matthews tem dois problemas que não são verdadeiramente questões de música. O primeiro é o tipo de letras que ele escreve, ora cheias de piscadelas de olho a sexo e drogas, muito ao gosto dos adolescentes, ora pesadas e depressivas, muito ao gosto de algumas pessoas. Este é um problema que não me afecta, porque geralmente não ligo às letras quando ouço pop. O segundo problema -oiço dizer- resulta do grau de excitação dos seus fãs nos concertos, sempre a gritar para o palco e com a mania de cantar os temas. Haverá talvez um terceiro problema - o facto de agora toda a gente ouvir Dave Mattews - mas seria estúpido perder tempo com esta questão. O que interessa em Dave Matthews é a forma como ele toca guitarra.

Gambozinos encapuçados

A rapaziada do Acidental anda desesperada com a saída da única mulher que fazia parte da equipa. Reparemos neste anúncio. É um texto que em vez de despertar a tal solidariedade masculina ou a cobiça, causa compaixão. É preocupante ver aqueles libidinosos rapazes vergados ao politicamente correcto e sem coragem para pedir uma simples fotografia. Ficam-se pelo tecnocrático "contacto". É ainda mais perturbador constatar que gente nova e com alguns estudos continua a ver a internet como uma espécie de génio da lâmpada, capaz de satisfazer o desejo mais impossível. Se arranjar uma mulher para rapazes de direita já é tarefa complicada, querer que a rapariga seja de direita também aproxima-se do inconcebível. Aguardemos.
Como vejo a coisa, nem a política nem o género são aqui importantes. Um transsexual do bloco de esquerda não é à partida um candidato fraco na corrida para integrar o Acidental. Tudo depende do prestígio do apelido que carrega, nem sempre redutível à ressonância heráldica (faço notar). É essa a grande marca do Acidental.

O cantinho do invejoso

Tenho pena que os meus blogues preferidos acabem. Na última semana foram dois. Vocês sabem de quem estou a falar (outra para a série de frases não-sei-o-quê). Sem querer insistir muito nos elogios post mortem, permitam-me o seguinte desabafo: o que mais me irrita sempre que alguém acaba um blogue é esta suspeita de que a pessoa tem uma vida mais interessante e movimentada do que a minha.

Perdão? Provinciano seria ler o New york Times

No outro dia quase comentaram (eu senti que poderia ter sido este o comentário, apesar da pessoa ter apenas dito "bom dia"): "Bom dia, Tulius. Tulius, tu vives em Nova Iorque mas parece que só lês o Público. Isso dá-te um ar ligeiramente provinciano, sabes?"

Vasco Pulido Valente lê a imprensa estrangeira e ilumina a populaça.

"No meio das nossas pequenas preocupações domésticas, ninguém parece reparar que tudo depende, para nós, para a Europa e para o mundo, do que se passa Bagdad, em Teerão ou na Faixa de Gaza. Mas depende." Esta devia inaugurar a série das eternas revelações.

agosto 18, 2005

Então e o nono resultado mais significativo para a pesquisa "Veronika Zemanova", hã?

O maradona acaba de criar o post potencialmente mais infeccioso da blogosfera. Numa sociedade madura a série "O X resultado mais significativo para a pesquisa "Y" no Google Images é o seguinte conjunto pictórico:" varreria todas as outras séries que por aí andam, como a "frases que já não se podem ouvir", a "coisas simples/complicadas", a "eu hoje acordei assim" e ainda aquele inquérito sobre livros de quem se esforçou mesmo na elaboração de um texto capaz de se propagar. A arte do maradona é esta: parir um meme sem dar por isso. (Momento pedante e ressabiado: não sei se estão familiarizados com o termo meme; é verdade que foi proposto por um biólogo e por isso não deve ter chegado às esferas da alta cultura). Enfim, a ideia do maradona já contagiou este bom rapaz e outros com bom gosto irão pelo mesmo caminho. Eu aplaudo mas fico de fora. Jamais me passaria pela cabeça pesquisar imagens do Pedro Mexia. O génio não é para todos. Como se não bastasse, o MI insiste em ser um espaço para toda a família, dos 8 aos 88.

Perdoai-o Senhor, ele não sabe do que fala

Visivelmente perturbado pelas paisagens estivais, EPC teoriza hoje sobre os corpos nus. Tentando o contraponto à tatuagem, diz ele:"Já o piercing é outra coisa. Ele implica violência e dor..." Talvez não ficasse mal a EPC tatuar o rosto de Derrida no lombo e depois reescrever a crónica.

BnO (76)

Os comunistas ainda não figuravam na lista das espécies em via de extinção. Mas já não se vivia a euforia do PREC e a tensão reaccionária abrandara também. Os comunistas eram então uns tipos porreiros, que organizavam uma festa catita e piquetes de greve; avivavam o telejornal, especialmente desde que a televisão passara a ser a cores. O comunista institucional e fenotipicamente mais rigoroso do prédio - era do partido e tinha a careca do Lenine - encaixou com tranquilidade e sem humor as bocas que lhe mandaram quando comprou um carro novo. Disseram-lhe que um comunista não podia acumular propriedade e ele respondeu, sorridente e sem se dar ao trabalho de argumentar: "Aí, fascista...". O terror comunista, com todos os seus detalhes sórdidos, foi algo que só viria a conhecer depois. Na época, o único comunista que eu abominava não era o Estaline, era o F.
F. não gostava de futebol. Era poeta e intelectual, e mau em ambos os papéis. Militava na JCP e passava os Verões na URSS, mas todos os anos regressava sem saber coisa alguma do Igor Belanov. Viria a tornar-se num daqueles tipos exageradamente cultos, que ficam enredados no número de associações que conseguem estabelecer e acabam involuntariamente por se transformar em forças da reacção desprovidas do humor e leveza dos conservadores de direita. Ele até sabia de futebol, como sabia de culinária. Sabia de tudo, mas gostava de quase nada.
F. não tinha por hábito assistir às nossas partidas. Era um homem afundado nas tarefas do partido e que passava o pouco tempo livre que tinha fechado no quarto. Viciara-se em cantigas de intervenção: Ibanez, Milanês, Jara, Zeca, por aí fora. Um súbito interesse por futebol só surgiu quando alguém lhe disse que iríamos defrontar a malta do prédio do lado. O prédio era de habitações sociais e na cabeça de F. só lá havia famílias de operários, gente trabalhadora e rectos, de feições nobres e o sólido antebraço das figuras dos murais. Nunca cheguei perceber muito bem quem morava naqueles prédios, mas era certo que havia por lá gandulagem. E sobre os filhos daquelas famílias não tinha dúvidas, apesar de não ter provas: muitos estavam na calha para a marginalidade. Havia pois duas lutas de classes no campo. A luta que fascinava F.: os burgueses contra a classe operária; e a nossa luta: as vítimas que desconfiavam estar a jogar contra quem de tempos a tempos lhes palmava as bolas. F. era claramente um miúdo com uma visão mais abrangente, mas nós não lhe perdóamos a simpatia que revelou pelos adversários. Vê-lo rejubilar com os golos deles era uma afronta e passar quase todo o jogo a perder e com F. a cantar em castelhano, irritou-nos. Talvez isso explique que no seguimento de uma recuperação espectacular a levar ao empate, o golo da nossa vitória, marcado já sobre o fim da partida, tivesse despertado no seu autor uma vontade desenfreada de correr na direcção de F., fazer depois uma chamada com os pés diante dele e gritar, exibindo-lhe a três dedos do seu nariz o punhado de relva que acabara de arrancar do chão: "a vitória a quem a merece, comuna de merda!"

agosto 17, 2005

Expressamente para mim

Deixei de ter acesso online à edição semanal do Expresso . A assinatura caducou e não tenho vontade de a renovar nos tempos mais próximos.
Tomei a liberdade de fazer um descarado pedido aos leitores do MI: que me enviem, se vos for pouco trabalhoso, as crónicas do JPC, os eventuais artigos no Cartaz sobre livros portugueses e as crónicas do Saraiva (a sério).
Obrigado a todos.

Provavelmente a mulher mais bonita a trabalhar em Hollywood

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Rachel Weisz

A perfeição é...

beart_ledoyen.jpg
... Apanhar a Emmanuelle Béart com a Virginie Ledoyen e deixar a Binoche fora do enquadramento.

BnO (75)

C. só se queixava de não irmos para o balneário a seguir. Da natureza não tinha ele razões de queixa. Mas cada um tomava banho em sua casa e frustrava-o o facto de não poder exibir o avantajado apetrecho sexual em todo o seu esplendor. Não era um exibicionista de se esconder atrás das moitas à espera de presa, mas o rapaz experimentava um irreprimível desejo de esmagar os egos circundantes com a visão das partes íntimas da sua anatomia. A malta defendia-se como podia, inventando piadas que trocávamos quando ele não estava presente. Coisas tolas, como: "C. não pôde fazer de poste por causa da curvatura acentuada"; ou "vendo que o defesa se escapava, C. tentou derrubá-lo com uma erecção"; ou ainda esta:"sabes por que razão ninguém quer ficar ao lado do C. na barreira? Porque ele tem sempre falta de mãos para proteger as partes baixas e por hábito crava os vizinhos". Havia outras, ainda mais boçais, que agora não ficaria bem contar.
A reputação de C. fora estabelecida numa ida em grupo à piscina municipal. Aparecera de tanga e logo começámos a gozar com aquela volumetria, que só podia ser forjada. Mas ele manteve-se sereno e nadou toda a manhã nadava num perfeito estilo costas. Foi só no balneário que nos respondeu, despindo a tanga. Quase não acreditamos no que vimos. Quando C. começou a andar, entre as suas pernas parecia baloiçar uma tromba, com total independência de movimentos. Nem depois de um banho frio ele se aproximou da normalidade. Demorámos uns dias a encaixar aquela experiência e, não sei se por trauma ou castigo imposto por C., desde então parecia que ele tinha começado a jogar com calções mais curtos e a usar umas calças de ganga justíssimas. Nem uns anos depois, quando começaram as sessões de vídeos pornográficos em casa de um de nós, perderia ele o ceptro de besta sexual. Antes pelo contrário. Nós percebemos então que tínhamos entre nós um vizinho capaz de - passe-se a expressão - ombrear com as grandes vedetas da pornografia centro-europeia. Só um núbio com honras de participação especial nos pareceu francamente acima do tamanho de C., mas ele argumentou, sempre tranquilo: "é ilusão cromática, rapazes".

DQ

Fabricius: Achas que ter vontade de namorar em inglês é um sinal de imaturidade?
Teodorico: - Não, pá; é um sinal de parvoeira.

BnO (74)

O livre directo devia ser um momento de gozo puro. Ninguém se lembra de um livre directo falhado e o golo que pode daí resultar é quase sempre belíssimo. Compare-se isto com a grande penalidade: ninguém perdoa um penalty falhado - todos nos lembramos do Veloso - e o golo de penalty não pode ser um golo bonito. Se alguém fizer algo bizarro, como marcar a falta com a cabeça ou o calcanhar, o golo será apenas espectacular, nunca bonito. Se um poeta entender cantar o penalty, percebe-se que escolheu um tema difícil, só para pôr à prova o seu talento. O contraste é óbvio: há uma leveza associada ao livre directo que nem as circunstâncias - o livre directo para lá do tempo regulamentar e que pode empatar a eliminatória - dissipam. Pensava eu.
"São tantas as opções. Posso ir por ali, como sempre fiz, ou então experimentar algo novo, percebes? Surpreendê-la... A barreira é sempre diferente. Nunca são iguais, sabes? Na essência, sim, mas depois há sempre uma mais alta, outra que nos mostra as mãos em lugares estranhos, aquela que apetece furar, de tão frágil, e a que sei que devo contornar, fazer a bola passarbem ao largo, cheia de spin, par que resista à sua atracção. Tu pensas na barreira como uma entidade homogénea e, enfim, normalizada pela soma das partes, mas cada barreira tem uma personalidade única. Há as barreiras caprichosas. Conhecem as regras, mas querem sempre chegar-se mais perto, dar mais um passinho em frente, entrar na zona proibida. A malta refila, entabula um diálogo com ela, tenta não envolver o árbitro na discussão. Prefiro ter uma relação amistosa com as barreiras. Nunca se sabe o que o jogo nos reserva. O mais provável é ela voltar a surgir-nos pela frente. O que a barreira às vezes não percebe é que nós temos interesses essencialmente opostos. A alegria do rematador não é compatível com a sensação de dever cumprido da barreira. Trivial, mas complicado ter sempre presente. Afeiçoamo-nos aos detalhes. Às vezes há umas expressões de medo que nos comovem. Outras vezes damos com o orgulho de quem se sabe superior mas tolera entrar no nosso jogo. Chega a ser sedutor, tirando os casos de insanidade, que também surgem. Há uma pulsão suicida na barreira. Enfim, aquilo está entre o mártir e o suicida. Heróis não há. Cumpre-se um desígnio, percebes? Mas não deixo de pensar nelas, de lembrar como reagem ao toque. Ao estoiro, sim, claro, o petardo que as destrói, mas sobretudo à simulação, que as destrói ainda mais. A barreira é profundamente inteligente, mas vê-se escrava da sua condição e então parece algo tonta. Aqueles saltinhos e os corpos que se contorcem em poses maneiristas... Isto não abona muito a meu favor, mas fiquei viciado, pá. Já deste conta da dispersão que surge logo a seguir, uma vez consumado o acto? De como aquelas partes se desmontam e parecem querer esquecer o que se passou? Ser actor daquele enredo é viciante, como te digo, mas trata-se de um jogo perigoso que nos consome devagar. Não há livres directos simples. Andam todos enganados."

agosto 16, 2005

Quem quer ser original?

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BnO (73)

Quando marcavam golo na televisão e minha mãe assistia ao desafio comigo, rara era a partida em que ela não dizia: "como devem ficar felizes". É verdade que a exuberância com que os golos são comemorados não passa despercebida e o exagero que alguns emprestam ao acto merece reparo, mas o comentário de minha mãe parecia um desabafo de menina a espreitar o recreio dos rapazes, como se aquela alegria lhe estivesse negada. Havia nela uma inveja sadia que jogava bem com a sua beleza e doçura. Eu era um miúdo e perante as palavras de minha mãe só via duas soluções: desacreditar a alegria alheia ou fazer com que ela, de algum modo, a partilhasse também. Depressa descartei a primeira hipótese, por me parecer pouco ambiciosa.
A oportunidade veio sem plano prévio. Jogávamos e numa das minhas incursões no ataque reparo que minha mãe espreitava lá de cima. Era uma conjugação de duas situações raras: eu ao ataque e ela à janela. Senti que o momento era especial e resolvi tentar a minha sorte, disparando de longe. O pontapé saiu enrolado, ao ponto de um dos defesas se desviar da bola para que o guarda-redes a pudesse recolher, mas um ressalto caprichoso desviou a bola da sua trajectória e deu-me um golo inesperado. Foi também um daqueles golos que se perdem sem lembrança nos marcadores de marcha já adiantada, o nono golo de um treze a oito ou qualquer coisa assim. Um golo feio e sem importância. Mas minha mãe estava à janela e eu resolvera aproveitar. O que então se seguiu foi um pastiche de todas as formas televisionadas de festejar um golo, dispensando as figuras mais acrobáticas, que não teria sido muito avisado tentar. O meu one-man-show durou mais de um minuto, ao ponto de ter aborrecido os meus companheiros. Então resolvi parar. Antes houve de tudo, da corrida desenfreada ao braço esticado, dos dois braços os ar, estáticos, ao movimento de braço tenso, em ângulo recto, como se tivesse a dar um soco no estômago de alguém, dos passos de samba ao grito de vitória de quem exulta uma multidão. Depois olhei para cima, mas minha mãe tinha desaparecido.
Nessa noite, ao jantar, puxei pelo assunto. Falei-lhe do meu golo e da alegria que fora marcá-lo. Ela apenas comentou, afagando-me a cabeça: "Não sejas tolinho. A alegria não se finge". Algum tempo depois, já após outras conversas, quando levava os pratos para a cozinha, vendo-me algo desanimado e envergonhado, teve tempo de me salvar, dizendo: "O amor também não se finge. A mãe gostou".

BnO (72)

O futebol não é um desporto absolutamente democrático. Vigora uma tirania do corpo. Não direi que o futebolista é seleccionado ou se vai deformando como o lutador de Sumo, a ginasta, o jockey das corridas de cavalo, o timoneiro dos barcos a remos, o atleta do salto em altura e o boxer da categoria de pesos-pesados, mas o futebol "de Rui Barros a Rud Gullit" é uma fórmula feita a partir de excepções. Consideremos a arte da finta, por exemplo. Um executante demasiado pequeno pode até ter alguma vantagem em fintar, mas não consegue fazê-lo com elegância. A tentação de afagar com o joelho uma bola colada à relva está sempre presente no jogador com menos de 160 cm e o gesto não é bonito. O jogador pequeno é demasiado frenético. Falta-lhe altivez e não há nada que possamos fazer senão aplaudir-lhe o esforço inglório que até resulta em golo. É verdade que contamos excepções, mas há uma diferença entre saber fintar e fintar com elegância. A finta elegante não é forçosamente a mais eficaz. O caso do calmeirão é mais fácil de expor. Um jogador grande não precisa de saber fintar, mas geralmente também não o conseguiria fazer, mesmo que domine a teoria. Um fulano com 1,95 m não tem aceleração explosiva para arrancar uma finta quando está parado. Falta-lhe também coordenação e a garra que um corpo avantajado não estimula.
O meu irmão tinha o corpo ideal. 1,85 m, ombros largos, pernas longas e finas. Fazia fintas como um bailarino preguiçoso que tem o pé de apoio sempre no mesmo sítio. As fintas dele eram tão elegantes que a imagem precisa daqueles instantes foi sendo substituída por metáforas. É um problema. Imagine-se um compasso a meio do meio-campo, com um dos ponteiros espetado e o outro controlando a bola, fazendo semicírculos, pequenos arcos, ora no sentido dos ponteiros do relógio, ora atrasando o tempo. Imagine que ao fim da tarde a relva tem o registo daqueles movimentos e o campo - enfim, aquela zona a meio do meio-campo - faz lembrar as searas com círculos concêntricos a armar aos vestígios de extraterrestres. Ou então imagine-se um Manolete no relvado, parado diante das investidas, a fazer verónicas com a bola da Adidas e a trocar os olhos aos defesas. O meu irmão fintava assim e às vezes até marcava golos. Mas dos golos dele lembro-me eu sem delírios.

agosto 15, 2005

Postais fictícios a amigos reais (1)

Caro C.,

Custa-me dizer-te isto, mas continuo sem conseguir terminar a leitura das crónicas do Bénard da Costa.

Um abraço,

V

agosto 14, 2005

BnO (71)

Há umas fotografias de África em que o meu pai aparece equipado a rigor. Na ilha da Madeira consta que jogava na dianteira, ao lado de um pescador, num campo de terra batida que todos os anos era feito sobre o calhau da praia. Divago. Não sei onde era o campo, nem sei a que posição jogava o meu pai. Nos jogos de Domingo no bairro o meu pai primava pela falta de comparência. Só a sua forma tensa de seguir um encontro pela televisão ficou bem gravada; aquele constante reajustar do corpo ao sofá, os joelhos a subirem e a ganharem tensão à medida que uma jogada perigosa se desenrolava, umas interjeições incompreensíveis e discretas. É verdade que me marcou alguns golos na praia, na fase fugaz em que me julgava guarda-redes, mas nada mais. O meu pai não me ensinou a jogar à bola, mas levou-me a pescar. É por causa dele que tenho na cabeça um aquário de água salobra, às vezes salgada, outras vezes quase doce. E os peixes que aqui nadam, estes fantasmas amistosos de um cardume em sortido, são peixes pequenos, peixes singelos, peixes sem peso nem arcaboiço, sem raridade nem a nobreza do tunídeo que nos Açores é um touro antes de estrebuchar como peixe. Falo dos 52 peixes tirados a miolo de pão de um charco lamacento numa aldeia perdida nos Pirenéus, e que foram prata viva sobre os castanhos tristes das ruas e do casario antes de acabarem em fritada. Falo das castanhetas, que com os seus violetas fizeram com que perdesse o medo dos tubarões imaginários. São os meus peixes, valiosos como os troféus de latão. O peixe mais precioso do cardume, só para que se perceba, é um simples robalo de 200 g, anzolado com isco de casulo caçado na mesma areia em que fundeei os pés e projectei a chumbada, teria eu uns 10 anos. À primeira garfada do meu avô, que comeu aquele peixe ao almoço, senti o fechara um círculo, iniciado muitos anos antes, com o paradoxo de ter sido um avô alentejano a ensinar as artes a um pai vindo das ilhas; primeiro a pesca vertiginosa nas falésias do cabo de São Vicente, mais tarde a pesca pachorrenta nas barragens espraiadas da planície, rudimentos que depois procurei aprender também, de início seguindo as pegadas do meu pai por leitos quase secos, em busca do peixe rei que servisse de isco para o achigã, depois já sozinho, entretido com os pedregulhos dos molhes algarvios, até ter ganho a coroa do reino dos cabozes e então me sentir confiante para reclamar uma cana de verdade, lançar finalmente aquela chumbada, sentir no zumbido de um carreto a largar fio uma razoável manifestação de poder e recolher o robalo que o meu avô comeria. Fechar círculos é uma forma de crescer. E descrever uma jogada em triangulação que envolvesse três gerações da minha família teria sido bonito, mas de todo inverosímil.

BnO (70)

Na Zarolha, uma taberna sob umas arcadas que ficava perto do liceu, reunia-se uma amostra parcial dos bêbados do país. Eram homens de meia-idade, muitos deles desempregados, que passavam ali os dias, com o olhar meio perdido. Bêbados calmos, portanto, que não provocavam desacatos. Viria depois a perceber que há muitos tipos de bêbados e muitas formas de tratar cada um deles, o que atira a definição de alcoólico para o confortável campo da opinião pessoal. Íamos à Zarolha por causa das raparigas. Por um acaso mais azarado do que se poderia pensar, a minha turma congregava praticamente todas as sex symbols da escola. Eram raparigas emancipadas, que fumavam, ouviam as bandas britânicas da altura e namoravam os tipos mais velhos. Os colegas de turma eram apenas isso mesmo, o que deve ter causado grandes frustrações. A romaria das raparigas à Zarolha era a única altura em que nós podíamos alimentar algumas pretensões. Uma adolescente embriagada é um animal que apenas obedece aos seus impulsos mais primários e só precisávamos de assegurar que elas não perdiam o equilíbrio até nos amanharmos com uma num vão de escada, a um canto das arcadas ou ao abrigo de um arbusto frondoso. Bebia-se umas misturadas de vinho branco e bagaço, que batiam logo e eram baratas. A rapaziada acompanhava as miúdas nos copos, para ir ganhando coragem. Aqueles corpos já perfeitamente desenhados para a prática amorosa não nos deixavam propriamente à vontade e a desinibição etílica compensava largamente a inevitável agonia dessa noite. Tudo tinha lugar a meio da tarde, sempre que um professor faltava ou cedíamos a um pico de aborrecimento colectivo.
Depois da farra, ainda havia tempo para uma peladinha. Jogava-se francamente mal, mas em nenhum outro desafio se ria tanto à custa de um passe falhado. Um pontapé de bicicleta sob o efeito do álcool, por exemplo, é uma experiência inesquecível que provavelmente não deveria detalhar, sobretudo na presença de jovens, sob pena de os corromper, mas não resisto a descrever o momento em que se aterra no chão, como se regressássemos de uma breve viagem intergaláctica. Há um reajuste das meninges, um remoer do estômago que destila um derradeiro vestígio de álcool e então uma tontura boa toma conta de nós e oferece-nos o céu como se não pertencesse a mais ninguém.
G. não se deixava levar por aquelas experiências. Era do género aplicado e um jogador disciplinado tacticamente. Encarava o futebol com um ascetismo que não tolerava borracheiras. Apesar de lhe dar um gozo especial jogar contra bêbados "por causa da diminuição da visão periférica, o que facilita as subidas pelos flancos... Ah, e pela vossa [nossa] lentidão, também, pois simplifica a finta", G. condenava as curtições vespertinas. Em tempos chegou a dizer, sem esconder algum desdém: "isso de se aproveitarem delas bêbadas é pior do que a iniciação sexual dos meus tios, que aconteceu com prostitutas. Ao menos aí elas eram pagas, caraças..." Apesar desta postura intolerante, corria sangue no corpo de G. e ele alimentava uma paixão muito pouco original pela Milú, sua colega e uma das miúdas mais cotadas do liceu. Tratava-se de uma rapariga alta e morena, com o nariz afilado e o rosto exótico, o que lhe dava uma certa nobreza e a ajudava a exibir com classe um corpo abertamente pecaminoso. A Milú tinha também uma doçura rara de encontrar nas raparigas que subitamente se apercebem do seu capital sexual e, como se não bastasse, fazia umas composições para a aula de português muito elogiadas, o que agora soa a detalhe politicamente correcto, mas é factual.
Um dia conseguimos arrastar G. connosco, atrás das raparigas que haviam já partido para a Zarolha. A Milú tinha ido com elas e talvez G. tivesse acordado particularmente libidinoso. O certo é que nos acompanhou, embora sem abdicar de manter a guarda alta. Quando chegámos à Zarolha as raparigas levavam já uns copos de avanço, o que fazia parte do plano. Começámos então a beber, mas G. apenas fingiu e foi visto por uns a verter discretamente o copo, protegendo o gesto com o corpo. O álcool perdeu-se pelo chão de mármore sujo e G. permaneceu imaculadamente sóbrio. Depois começou o deboche, as fugas e as perseguições, com os velhos bêbados a assistirem impávidos àquela Primavera. A Taberna era um espaço exíguo, com um balcão e uma fila de mesas pequenas. Entre as mesas e o balcão os clientes bebiam de pé, mas algo apertados. Constatando que o álcool tomara conta dos acontecimentos, G. preparou-se para abandonar o estabelecimento. Mas foi então que se viu entre as longas pernas da Milú, que ficara sentada numa das mesinhas e, sem se levantar, apenas apoiando os pés na parede do balcão, o aprisionara. Num ápice aquela tornou-se na experiência erótica mais intensa da até então pacata existência de G. A rapariga denotava intenções de o desencaminhar e G., preso entre as pernas delas, logo se libertou dos princípios que defendia. Foi só depois de consumado o apelo da carne que a consciência de G. voltou a marcar presença. Eram seis horas, as lojas da nova zona comercial ainda estavam abertas e G. correu levado pelo impulso, pedindo a Milú que o esperasse. Voltou com uma prenda, que ela abriu a custo, já meio indisposta da bebedeira. Ainda foi a tempo de lhe agradecer pelo colarzinho de pechisbeque, antes de cair num sono pesado. Na manhã do dia seguinte, só se falava no despontar de uma história de amor, mas apenas porque a Milú ficara em casa, caso contrário teria logo desmentido o rumor. Para quem não o conhecia, G. era o herói do dia; para os seus amigos, o hipócrita do momento. Tentando defender-se referindo-se ao colar que oferecera à Milú, ainda foi a tempo de ouvir: "G., devias ter percebido que as nossas miúdas não são como as prostitutas que os teus tios frequentavam, pá. Não precisavas de ter dado cabo da mesada..."

agosto 13, 2005

BnO (69)

A vontade de arrancar uma fachada ao prédio e ver a intimidade dos andares exposta como numa casa de bonecas deve ser pouco original, pois em breve a descobriria nos livros e nos desenhos animados. Coisa mais rara é esta ideia de escancarar a intimidade segundo uma perspectiva de planta, como se o chão - o soalho, os tacos, a carpete, os tapetes, a tinta, o betão armado e os posters de futebolistas que o A. do terceiro frente pregara ao tecto - fosse um vidro absolutamente transparente e, por um arranjo impossível de explicar, a mobília do andar de baixo, mesmo a de mogno ou nogueira, mas não cortasse a vista do andar de cima. Olhando do meu quarto até ao oitavo andar e depois para baixo até à cave, veria as vidas ligeiramente dessincronizadas dos meus vizinhos. Correndo as divisões da minha casa, poderia acompanhá-los no seu trânsito de T4, sempre que passassem de um quarto à sala. Teria então percebido que há uma força centrífuga, violentíssima na adolescência, que nos puxa para a diferença e várias forças centrípetas que nos banalizam, nomeadamente: os horários, as grandes empresas, a tirania do gosto e, claro, a televisão a dois canais. A gente que cresce em vivendas - ou em barracas, que para o caso é igual- não pode perceber esta vertical e opressora normalização da existência, em que nunca chega a dissipar-se a desconfiança de que somos cobaias numa vasta experiência arquitectada por sociólogos sem escrúpulos.
Correr as persianas não bastava. Como não bastava fechar o quarto à chave. Uma discreta paranóia levava-me a ter o quarto às escuras, a menos que quisesse ler. Cheguei a andar com uma lanterna, que usava com enorme economia; um Júlio Verne consumia 3 pilhas grandes. É claro que nunca vi propriamente através do tecto e ainda espero pela chegada dos super-poderes. Mas conhecia muitos quartos e salas, lanchara em muitas cozinhas, chegara a ver de relance alguns quartos dos pais dos meus amigos e até me escondera debaixo de algumas das grandes camas de casal, guardando para mim agora o que então vi. Ou seja, tinha o prédio razoavelmente apreendido, o suficiente para que qualquer barulho vindo de cima ou de baixo fosse logo enquadrado num enredo a que não faltava cenário.
O meu vizinho de cima costumava acordar-me de manhã e por vezes a meio da noite com um som repetido a intervalos de tempo de início constantes, mas cuja cadência tendia a precipitar-se ao fim de uns minutos. Parecia um ranger de cama e vinha em séries de 7 ou 8, cada uma com cerca de 4 minutos e espaçada da seguinte por 2 minutos ou nem tanto. O barulho era absurdamente sugestivo e eu vira já um número de filmes suficiente para associar o associar à cadência do acto sexual. É verdade que os tempos e a urgência com que o ruído depois recomeçava não cumpriam o cânone, mas tal apenas aumentava a minha admiração e curiosidade. Durante anos evitei abordar com ele este assunto ou sequer comentá-lo com outras pessoas. Só muito tempo depois, durante um reencontro fortuito num dos bares da capital quando ambos éramos já adultos, ousei inquiri-lo. Ele ouviu-me atentamente, sorriu depois com vontade e disse: "Ó meu amigo, eu devia ter vivido a minha adolescência na tua cabeça. O que fazia eram uns simples exercícios para os bíceps. Punha-me de joelhos aos pés da cama e levantava-a de um dos lados, deixando assentes no chão os dois pés do lado oposto. É verdade que a cama rangia bastante..."

BnO (68)

O Jaime era juvenil no Sporting e fora já convocado para a selecção. Crescera no bairro e começara a jogar no Olivais e Moscavide, mas cedo um olheiro deu por ele e levou-o para Alvalade. Tinha contrato e recebia um salário razoável. O Jaime passeava pelos Olivais com estatuto de vedeta. Não direi que assinava autógrafos, mas era uma celebridade local, um pouco como o músico de rock que também por ali morava e era líder de uma banda que estava nos tops. Era bem tratado nos cafés, os miúdos por vezes iam atrás dele e as raparigas enviavam-lhe bilhetinhos. Há anos que não jogava à bola na rua, porque um jogador com contrato não pode arriscar-se a contrair uma lesão e provavelmente não tem muita pachorra para jogar com amadores. Para mais, o futebol era a sua profissão e talvez o Jaime preferisse entreter-se de outra forma nos seus tempos livres, embora eu não consiga imaginar muito bem do que poderia ele gostar (o que faz um jogador de futebol nas suas intermináveis horas vagas, afinal?) Foi por isso uma surpresa vê-lo na equipa adversária, num dos jogos mais importantes do nosso campeonato de bairro. Soubemos mais tarde que Jaime apenas aceitara jogar por estar interessado na irmã mais nova do capitão da equipa deles, um tipo calculista. A rapariga era de facto adorável, com os cabelos loiros aos cachos e uma boca vagamente imoral; no lugar de Jaime qualquer um de nós teria feito o mesmo. A questão era como vencer uma equipa que tinha o Jaime. Ao intervalo o problema cifrava-se em 10 a 2. O nosso melhor jogador cumprira, mas o Jaime era de outra dimensão. O que o distinguia dos outros era a força e velocidade que imprimia a cada jogada. Tecnicamente, se não estivessem no mesmo campo, o nosso craque aparentava estar ao nível do Jaime, mas quando em confronto directo um com o outro percebia-se o abismo que os separava.
Formávamos um círculo e discutia-se a táctica para a segunda parte. "É impossível cobrir o Jaime no homem a homem". Silêncio. "É impossível anulá-lo. O gajo vai buscar as bolas à defesa e depois arranca sozinho e leva tudo à frente". Silêncio. "Posso dar-lhe uma cacetada e o gajo não se levanta mais". Quem falou assim foi um tipo franzino que tínhamos mais ou menos arrumado a defesa direito, longe do Jaime, que investia pelo outro lado. Era um jogador fraco e um tipo insignificante, se me é permitida uma expressão tão violenta. Só mesmo alguma frustração explicava aquela sugestão, que de tão assertiva era praticamente uma declaração de intenções. Ninguém comentou. A tentação de o deixarmos praticar jogo sujo foi tomando conta de nós, subindo pelas pernas como um torpor bom. Então alguém disse: "Tu não tens estaleca para aguentar uma coisa dessas. Nem penses nisso." O franzino não percebeu e retorquiu de imediato, quase parecendo um galo de luta: "Não sou capaz, é? Queres ver, hã? Tu queres ver?" Mas o outro, que era infinitamente mais esperto, respondeu com calma: "se fizeres isso vais ser destruído pelo remorso, pá. Tu não tens arcaboiço para canalha, vai por mim". Só que o franzino não percebeu de novo e continuou a ouvir apenas uma provocação. Quando foi hora alguém disse: "Vamos dar o nosso melhor, sim?". Por outras palavras, reentrámos no jogo sem um plano definido.
Aos trinta segundos da segunda parte o Jaime voava aparatosamente, depois de ter sido ceifado sem bola pelo Franzino, que ficou agarrado à perna a contorcer-se com dores. O Jaime aterrou bem, mas do choque inicial resultou uma rotura de ligamentos e o joelho dele passou a fazer um som muito pouco tranquilizador. Não se conseguiu levantar e foi então que chamámos uma ambulância. Percebeu-se depois que a lesão era mesmo muito grave e o Jaime nunca mais voltaria a jogar à bola. Começou a demorar-se muito pelas ruas do bairro (afinal, o que faz um jogador de futebol quando acaba a sua carreira?), onde era acarinhado por todos. O Franzino passou a persona non grata e desapareceu de vista. Ora, como se sabe, o estatuto de vítima dura pouco tempo ou acaba por cansar quem dele goza e quem o aplica. Em poucos anos o Jaime derraparia para o mundo das drogas duras, sem que tivesse de ir para muito longe. Depois começou a circular a história de que no momento em que se voltou a cruzar com o Franzino eles partilhavam uma seringa, mas isto deve ser melodrama.

Dos meus erros

Dou essencialmente três tipos de erros nos textos que vou escrevendo aqui. O primeiro tipo é o menos interessante: as gralhas, os erros por distracção. O segundo tipo é o mais embaraçoso: erros que reflectem a minha ignorância. O terceiro tipo é o mais divertido: os erros que resultam de ter trabalhado e revisto o texto à pressa, deixando fragmentos de frases antigas junto da expressão nova que acabei por preferir. Por vezes surgem umas quimeras acidentais fantásticas e devia pensar em repescá-las para um bestiário de sintaxe.

Diálogo entre amigos

- A única mulher insubstituível na minha vida é a minha mãe, pá.
-Levaste uma tampa de quem desta vez?

agosto 12, 2005

Coisas raras

"Mas houve livros chatos como o da Agustina Bessa Luís e o do Virgílio Ferreira que os académicos e os universitários devem achar muito bons, eu, como não sou nem académico nem universitário acho-os terrivelmente chatos."

in Jornal de Letras, Artes e Ideias, ano III, nº77, 1983/84

"Quanto à Agustina e ao Virgílio Ferreira, estou farto de Faulkners do Minho e de Sartres de Fontanelas, e ainda por cima maus."

in Jornal de Letras, Artes e Ideias, ano V, nº176, Novembro de 1985


"É muito raro a gente apreciar um livro de um escritor de quem não gosta de dizer: «eu não gosto, mas é bom!» E acontece: eu não gostava do Virgílio Ferreira, achava-o um tipo, enfim, um tipo de que eu não podia gostar, um bocadinho para o estupor. No entanto... ele tem livros mesmo bons, bons a sério. Isto é verdade, e tenho que o reconhecer."

in Ler, nº37, Inverno de 1997

BnO (67)

-Achas que nos iremos lembrar disto, daqui a uns anos?
-Do resultado do jogo de hoje?
-Não. Isso já esqueci. De estarmos aqui, desta colina, do cansaço depois do jogo e de como a relva sabe bem?
- Sim, da relva acho que sim.
- Mas vamos recordar o quê, exactamente? Que a relva nos sabia bem ou tudo sobre ela? Como a sentíamos nas pernas e nos cotovelos? Da sua cor? De como cheirava?
- Não sei. As lembranças são muito mais detalhadas do que pensamos e estão todas ligadas umas às outras, só que às vezes um tipo não as consegue puxar para fora e pode sacar as lembranças erradas. Ou então não temos paciência para ir puxando pelo fio até à ponta. Ou então temos medo. Outras vezes, não sei... Parece que são elas que nos encontram. Os cheiros, justamente.
- Os cheiros...
- Sim. São uns mobilizadores de memória do caraças. Estás no autocarro a falar com a tua miúda, passa uma matrona com o perfume da tua antiga namorada e por pouco não erras o nome dela, certo?
- Bem, eu só ainda tive uma namorada.
- E eu ainda não tive nenhuma; não espalhes, ok? Mas percebes a ideia, não?
-No outro dia, no Alentejo, estava no meio de uma seara, esmaguei os bagos de uma espiga madura e, pá, foi a primeira vez que pisei uma seara e nunca antes esmagara uma espiga, mas posso jurar que reconheci aquele cheiro. Os cheiros são pistas falsas, excepto para os cães.
-Pois eu acho que só os cheiros nos vão transportar de volta a este lugar. Isto vai tudo desaparecer. Em vinte anos tens aqui um centro comercial ou uma pista de aviões. Haverá uma via rápida que lavrou e destruiu o campo. Uma tragédia, vais ver. Se trouxeres aqui os teus putos será um novo subúrbio com o asfalto ainda fresco o que terás para lhes mostrar. É a segunda morte da aldeia, pá...
- Teremos fotografias.
- Mas as fotografias são uma espécie de mausoléu. São arquivos. Quem abre os arquivos são os estudiosos ou os desesperados. Os cheiros, não. Os cheiros são fragmentos do passado à solta por aí. São coisas incompletas, que te deixam com sede de recordar. Os cheiros não têm informação, são chaves apenas. As fotografias, não. As fotografias agridem-te com a imagem do que pensam tratar-se da tua memória. Têm um grau de detalhe absurdo e são quase sempre dogmáticas. O que interessa ter a imagem de uma fracção de segundo vista de um ponto no espaço segundo o ângulo x? É ridículo, mas uma fotografia não se presta ao diálogo e ou a rasgas ou a aceitas. Com isto do vídeo ainda vai ser pior.
- Então?
- As pessoas vão ter a sua vida toda documentada e a memória deixará de existir. Sabes, aquela zona definida pelo que aconteceu, o que tu julgas que aconteceu, o que tu gostarias que tivesse acontecido e o que receias que possa ter sucedido. A memória é isso.
-Ena. Se fosses no futebol como és a falar passaria a jogar na tua equipa.
- A sério. As memórias têm de envelhecer um pouco. As fronteiras têm de ficar esbatidas. E para isso não pode haver um registo muito detalhado. A menos que sejas biógrafo, mas quem é que quer viver uma vida a contar a vida de outra pessoa?
- Certo. Deixa ver: como já esqueci o resultado de hoje...
- Não abuses, hoje ganhámos nós. 14 a 12. Anda daí, vá. Amanhã quem se esquecerá do resultado serei eu.

agosto 11, 2005

BnO (66)

F. tinha uma bola multicolorida, que foi perdendo as cores à medida que a película foi saindo, como uma pele velha sem outra que a subtituísse. É muito fácil uma criança afeiçoar-se a uma bola. Uma bola é como um boneco de pelúcia com utilidade. Joga-se futebol e, de noite ou na intimidade das quatro paredes do quarto, abraça-se a bola, usa-se a bola como travesseiro, acaricia-se a bola. Isso, a bola é mais do que um boneco de pelúcia e apenas um pouco menos do que um animal de estimação. Tal não explica a reacção de F. naquela tarde, mas é uma aproximação.
Uma criança que não gosta de estudar quando foi o estudo que abriu os horizontes ao seu pai arrisca-se a uma infância complicada. Por isso havia entre os dois uma tensão latente. A criança não podia escapar à sua natureza irrequieta. O pai não conseguia de deixar de pensar na importância de um curso superior (e apenas três, claro: direito, medicina e engenharia). Cada um percebia o outro, daí a tensão. Porque no fundo a criança queria agradar ao pai e o pai gostaria de ser mais carinhoso. Havia um território de afecto que ambos avistavam mas a que não conseguiam chegar. São coisas complicadas. Então naquele prédio, devia haver um caso destes por andar.
Talvez assim se explique a explosão de raiva de F. O pai ia a passar na calçada e foi testemunha impotente do roubo da tal bola multicolorida por três marginais. Eram tipos grandes e com tatuagens na mão, a denunciar domicílios passados muito pouco recomendáveis. Distinguiam-se dos habituais ciganos do bairro, a quem até os mais corajosos do nosso grupo faziam frente. Depressa se afastaram, aos pontapés na bola, e foi quando estavam já a umas dezenas de metros que F. se apercebeu da presença do pai no passeio e não se conteve: "então o pai não faz nada? Tem medo deles, é?" Toda a gente ouviu; os amigos de F. que com ele brincavam e alguns vizinhos que passavam. Deve ser duro para um pai ser acusado de cobardia pelo filho, para mais em público. O homem ficou imóvel. Talvez tivesse sido medo, sim. Ou apenas prudência. Ou o desejo inconsciente que roubassem a bola ao filho e lhe cortassem mais uma fonte de distracção. As palavras do filho devem ter causado uma profunda mágoa, pois ele ficou parado no passeio durante largos minutos. Os ladrões desapareceram com a bola e todas as testemunhas foram regressando a casa, lançando um último olhar, a ver se o homem arrancava finalmente um inglório sprint de perseguição.

BnO (65)

Nele a honestidade e a decência chegavam sempre com um segundo de atraso. Não havia sarrafeiro mais consciencioso, capaz de um pedido de desculpa tão sincero e pungente. Parte do seu jogo era passada a fazer faltas maldosas e o resto a pedir desculpa. Tratava-se de uma rotina irmãmente repartida. Até que ponto um pedido de desculpa resiste? Tudo depende da sinceridade que nele se investe no momento e muito pouco do respeito que a pessoa nos merece. Daí o nosso conflito. Ninguém tinha coragem de o impedir de jogar. Ele era um sarrafeiro fenomenal, mas tinha bom coração. Sofria horrores com as dores dos outros; cinco minutos depois fazia a enésima entrada a pés juntos. Esclareço que não era um sarrafeiro por falta de técnica, daqueles que acertam na canela do adversário quando pretendem apenas chutar na bola. E tinha plena consciência do jogo que praticava. Ninguém conseguia explicar o comportamento dele, na verdade. J. chegou a avançar a hipótese de que se trataria de uma personalidade esquizóide e, com alguma malícia, J. divertia-se a pensar numa situação em que ele se agredisse e pedisse desculpa a si próprio, num loop de nonsense que depois ninguém interromperia, para que pudéssemos jogar em segurança.
"Que adulto iria dar tal criatura?" era uma pergunta que comecei a fazer por aquela altura, sempre que me cruzava com alguém que saía da norma. Em muitos casos a resposta não era difícil e agora, a uns 20 anos de distância, verifico que poucas vezes me enganei. Mas com este rapaz eu temia arriscar uma previsão. É preciso dizer isto: ele chegou a partir uma perna a um tipo, e logo a tíbia, um osso lixado de quebrar. Foi, digamos, o seu grande momento. À gravidade da lesão correspondeu um empenho na recuperação da vítima que chegou a ser constrangedor. O pobre coitado regressou com a perna engessada e ele fez questão de o levar ao colo para casa. Mas como tudo fazia com um grau de exagero adicional, carregou-o pelas escadas até ao Sexto andar em vez de usar o elevador. Havia nele um misto de penitência, sentimento de culpa e generosidade que se esgotava naqueles momentos. Ao fim da tarde podíamos vê-lo de novo no campo, destruindo jogadas e jogadores. Cheguei a pensar que ele facilmente seria um assassino em paz com a consciência. Ter-lhe-ia bastado deixar as vítimas por instantes moribundas, para que pudessem escutar o seu pedido de desculpa . O golpe fatal seria depois um simples pró-forma.

BnO (64)

Houve uma altura em que fugi do flanco esquerdo e passei a entrar pela faixa direita, apesar de ser canhoto. De início foi complicado conseguir fazer centros decentes, mas acabei por resolver o problema, passando a usar a parte de fora do pé. A bola descrevia um arco de trajectória excêntrica, literalmente excêntrica. Fiquei viciado em centrar daquela forma, mas o que importa contar é a razão da fuga. No flanco esquerdo jogava também um tipo, meu amigo, que era patologicamente sincero. O rapaz não conseguia guardar segredos e sentia necessidade de revelar tudo o que fazia. Alguns não o podiam aturar - "pá, vai ao confessionário e não me chateies." - mas eu tinha paciência para ele; excepto quando estávamos a jogar, precisamente a altura que ele insistia em fazer as declarações mais bombásticas. A bola saía de campo, ele aproximava-se e segredava-me: "copiei o teste todo"; ou então, quase a soçobrar: "masturbei-me ontem"; ou ainda esta, que era recorrente: "não deixo de pensar na imagem da minha irmã nua". Podia estar a dar-lhe indicações para que não se demorasse tanto com o a bola, e ele: "está bem, mas acho que o meu pai não gosta de mim". Se aplaudia uma intervenção dele, ele aproveitava logo o momento: "ontem roubei uma cena da casa do Hugo". Aos poucos fui perdendo a paciência. Se naquela vez não estivesse já irritado por ter falhado um corte fácil, talvez nada tivesse acontecido. Se ele não se tivesse aventurado no flanco direito, o meu novo território, tudo teria continuado na mesma. Mas quando ele confessou ter passado a noite acordado com remorsos, por ter traído a namorada, não aguentei mais e gritei-lhe, ao ponto de ter sido distintamente ouvido pelos dois guarda-redes, :"ouve lá, isto de viver é assim mesmo. Cada um tem a obrigação de guardar para si um pouco da merda que vai fazendo, percebes? Faz parte da higiene do planeta. Não tens o direito de passar a vida a atirar para o colo de toda a gente as tuas asneiras. Por acaso tenho cara de lixeira a céu aberto, hã?" No fim do jogo ele não me falou e regressou logo a casa. De noite ressaquei as palavras que lhe gritara. E quando no dia seguinte nos encontrámos fortuitamente no elevador, descemos três andares em silêncio. Foi mesmo antes de sairmos para o patamar, com ele nas minhas costas, que ouvi: "se não tivesses gritado comigo, dizia-te que ontem tive pensamentos suicidas por tua causa."

BnO (63)

7568.jpgAté então não havia memória de ele ter alguma vez falhado um penalty. Marcava-os com força, apesar do Jordão: uma corrida rápida, um tiro certeiro a fazer a bola entrar na baliza roçando a base de um dos postes, golo. Só que naquele momento hesitou. Ainda correra com confiança, mas depois parou diante da marca de grande penalidade, pediu desculpa ao guarda-redes, ajoelhou-se e ajeitou a bola com as mãos. Recuou outra vez, arrancou nova corrida, mas para voltar a parar diante da bola. Os adversários lançaram umas palavras de protesto e ele disse simplesmente que abandonava a partida e que o melhor era ser outro a marcar a grande penalidade. Foi o abandono menos dramático da história do futebol. Entrou tranquilamente no prédio e nos meses seguintes não voltaria a jogar. Tememos então que a sua carreira tivesse acabado. Tinha 15 anos e quase deixou de sair de casa. Não podíamos sequer imaginar, mas a vida dele passou a ser um compêndio de fobias e comportamentos maníacos. Certificava-se de que os bicos de gás estavam fechados umas 10 vezes antes de se deitar, não tirava as meias para dormir, passava horas na casa de banho a lavar os dentes e esfregava tantas vezes as mãos ao dia que as tinha sempre esfoladas. Na nossa inocência, tudo convergia para aquela grande penalidade e impunha-se fazer algo. Juntámos esforços. Conhecíamos um tipo com acesso aos arquivos da RTP e dois de nós tinham já vídeos. Ao longo de semanas, fomos acumulando imagens de grandes penalidades, que depois montámos artesanalmente, a tesoura e fita-cola. A cassete VHS depressa passou das duas horas. Penalties dos campeonatos do mundo, penalties no Maracanã, penalties da África Austral, penalties num campo pelado, de jogos da distrital em gravações raras e até de um desenho animado vindo do Leste (obrigado, Vasco Granja); penalties dos campeonatos nacionais e a preciosidade que era o primeiro penalty marcado no Japão. Centenas de grandes penalidades. E tudo apesar da ausência do Jordão. Porque o Jordão não falhava penalties e o que nós fizéramos fora uma colecção de penalties falhados. No momento de escrever o título na lombada da cassete, a marcador preto, alguém se lembrou "Não escrevas Penalties falhados, põe antes Todos os meus erros... Não, espera espera, fica assim: Todos os nossos erros. Isso, Todos os nossos erros". A sugestão pareceu-nos boa. A cassete foi então colocada a custo na caixa do correio. Depois esperámos. Um, dois, três dias. Ao quarto dia ele desceu. Vinha equipado e não abriu a boca. A meio do jogo surgiu um penalty. E nós ficámos a olhar uns para os outros e a olhar para o ar, evitando-o. Mas ele não hesitou. Pegou na bola, dirigiu-se para a marca de grande penalidade e rematou.

agosto 10, 2005

BnO (62)

O Dirceu chegou no final dos anos setenta. Tinha sido adoptado, já menino feito, por uma família de magistrados que emigrara para o Brasil depois do 25 de Abril ("Então não sabes? Houve uns problemas com umas terras deles no Alentejo") e que por lá ficou apenas três anos. No dia em que vimos pela primeira vez aquele mulato espigado, sentimos a excitação das grandes contratações a custo zero e fomos a correr buscar uma camisola da selecção brasileira, só mesmo pelo capricho de compor a personagem. Vestido de amarelo, o Dirceu chegava a assustar. Ninguém nas redondezas parecia tão craque como ele. O campeonato estava quase a começar e o brasileiro foi logo convidado - "mobilizado" seria o termo certo - a integrar a nossa equipa. Vozes críticas? Só T., o nosso armador de jogo, mais por sentir o seu lugar ameaçado. "Pá, mas já alguém viu o gajo a jogar?" Era lá preciso... Os caniços longos de Dirceu e o seu ar veloz eram uma garantia suficiente. Dirceu chegava, tranquilo, e nós imaginávamos logo o moço logo num Samba miudinho, a festejar o hat-trick junto a uma das linhas de fundo. Falava pouco, o Dirceu, e por vezes não nos entendíamos muito bem. Mas T. insistia: "devíamos testar o gajo". Acabou por nos convencer e lá organizámos uma audição em jeito de peladinha. No final do encontro estávamos siderados. "Eu não sou bom de bola. Tem alguém aqui que gosta de xadrez?" Dirceu não era bom de bola, nem sequer mau. Era péssimo. O capital de esperança que depositáramos no rapaz volatilizou-se no momento em que Dirceu falhou uma recepção, tropeçou no esférico e caiu. Continuar o jogo foi depois uma agonia. No campo, Dirceu não era um craque e mais parecia um gafanhoto desajeitado. Quem rejubilou foi T. Só que depois, magnânimo e dando mostras de uma presença de espírito notável, foi ele a improvisar a solução que nos daria a vantagem competitiva sobre as outras equipas e que, sobretudo, seria a cura milagrosa para tamanha desilusão. "Vamos fazer do Dirceu a nossa arma secreta. Toda a gente vai saber que temos um brasileiro na equipa, mas ele ficará no banco dos suplentes, todo amarelo-canarinho. Apresentamos o tipo como estando a recuperar de uma lesão. A sua entrada estará sempre na eminência de acontecer, mas será constantemente adiada. Se eventualmente ele acabar por entrar, simulamos outra lesão e o Dirceu sai. O Dirceu vai exercer apenas pressão psicológica sobre os adversários". Brilhante. Faltava convencer o Dirceu. Não foi difícil. Mais complicado foi assegurar que ele tivesse sempre bem dissimulado o jogo de xadrez em miniatura com que o comprámos, e que ele insistiu em trazer para a zona dos suplentes, pois só assim podia suportar o tédio daquelas tardes de futebol intermináveis. Chegou a federado, o Dirceu, coisa que nenhum de nós viria a conseguir.

agosto 09, 2005

BnO (61)

O terraço era um abrigo. A vista surgia desafogada, com o rio quase mar lá ao fundo, uma chaminé lançando as suas labaredas olímpicas e as copas das faias insinuando-se entre os telhados de prédios de quatro andares e cave, com lances de escadas a céu aberto e paredes de tijolo a lembrar uma história de Dickens, houvesse bruma, frio e uma luz menos branca e intensa. Era um lugar que ninguém reclamava: não havia cordas de estender roupa, nem uma bola esquecida a um canto ou uma beata de cigarro, uma declaração de amor riscada na pedra, nada. Se me tivesse acontecido alguma coisa ali, um desmaio, um tropeção que me deixasse inconsciente, tão cedo não teriam dado comigo. Talvez por isso tivesse subido tantas vezes, sobretudo de noite.
Deitava-me de barriga para cima e membros distendidos em simetria, como a figura circunscrita de Leonardo, espiando o céu a mudar de cor, até ao revelar das primeiras estrelas. De t-shirt no corpo e sobre o chão de pedra, gozava a inércia térmica, resistindo à brisa fresca que se levantava. Por vezes adormecia, ou ficava num estado de vigília, mas de olhos fechados. Quando acordava era noite cerrada. Numa fracção de segundo o universo parecia trespassar-me e deixar-me do lado de fora. Mas logo recuperava a consciência e abandonava o terraço, cedendo às exigências do corpo ou a outras obrigações.
Pouco fazia quando estava lá em cima. Teria sido o lugar de meditação ideal, mas nunca me lembro desses sítios, pelo que também não devo ter pensado muito por ali. Houve inclusive uns dias animados, quando passei por uma fase vagamente pirómana e me entretive a lançar no vazio modelos de caças Stuka em chamas. "Bem, até parece que usei um Spitfire...", foi o único comentário que soltei em minha defesa, quando a vizinha do quinto esquerdo me acusou de ser irresponsável. É certo que acabara de pegar fogo à sua roupa esquecida no estendal, mas duvido agora que a senhora fosse versada na aviação na Segunda Grande Guerra. Um outro momento de algum convívio foi quando procurei convencer um vizinho elitista de que o futebol não era um desporto só para a populaça. Este tontinho jogava badminton e ténis, e iniciara-se por engano no pólo aquático, porque o pai dele julgou que se tratava de uma variante mais econónica do pólo, mas igualmente nobre. A minha ideia era gozar com ele e fazer do futebol uma rotina de excêntricos, recriando-o com os elementos mais pitorescos dos desportos das elites. O jogo que praticámos durante dois dias consistia em pontapear violentamente a bola do terraço e vê-la depois cumprir aquela trajectória acrescentada por oito andares, com o objectivo de a fazer passar entre duas bandeirinhas, colocadas sobre o campo, bem longe. Para isto consegui juntar uma dúzia de bolas e assegurei que dois miúdos mais novos as recolheriam do campo e com elas subiriam pelo elevador até ao terraço, num vaivém constante. Estaríamos vestidos de branco e nas pausas beberíamos chá. Assim foi. Deixei-o ganhar, mas ele no fim percebeu a minha brincadeira e ficou ofendido. Deixou de me falar, tal como os dois miúdos, de resto, na altura em que ganharam alguma consciência crítica.
A importância que dei ao terraço teria merecido mais do que a recordação de simples brincadeiras. Acresce que o terraço oferecia todas as condições para encontros mais marcantes. Mas nem sempre podemos escolher os momentos que associamos a um lugar. Tirando estes dois episódios, o terraço continuou a ser durante muitos um local quase secreto que gozei a sós. Por vezes regressava lá no mesmo dia, já com a noite avançada. Lembro-me de ouvir os latidos de cães excitados pelo cheiro de uma cadela com cio, amplificados pelo eco das ruas desertas, que lhes juntava ressonâncias fantasmagóricas e transformava rafeiros escanzelados em bichos-de-sete-cabeças. Costumava também seguir com o olhar os transeuntes de sombra alongada, que cruzavam a calçada em passada apressada. Às vezes armava a mão e fingia dar-lhes um tiro. Depois não se via mais nada e eu deixava de espreitar a rua.

BnO (60)

Na noite de Carnaval era costume percorrermos o prédio do oitavo andar à cave, batendo a todas as portas. Havia o incontornável Zorro, a minhota, o Super-homem, um moço vestido e pintado como uma mulherzinha. E depois havia o meu irmão, trajando à jogador do Benfica: "se é para vir de palhaço, mais vale ser o maior de todos". O sportinguismo dele continuaria por muitos anos envolto em mistério. Sem exemplo na família chegada que pudesse ter accionado um fenómeno de mimetismo ou simples tentativa de demarcação, a sua opção clubística era para mim o exemplo máximo de livre arbítrio. Tudo ainda me parecia claro e não podia prever quão desconcertante a discussão sobre o livre arbítrio pode ser. No Carnaval, para não ir mais longe, não havia como esconder um rosto contrariado por ter de usar o disfarce escolhido pelos pais. Aquilo era ressaca por falta de livre arbítrio. Livre, só mesmo aquele que realizava o seu sonho. Livres e felizes, só os tímidos que arrancavam os primeiros beijos, até ao derradeiro instante protegidos pelas máscaras, na penumbra que tomava conta das caves do prédio.
Eu gozava o Carnaval com entusiasmo, coisa que provavelmente me fora passada pelo meu pai, o único a ter percorrido aquelas ruas vestido de escafandrista, apesar das dificuldades que o cinto de chumbos e o par de barbatanas colocam à locomoção. Durante uns dias, punha de lado o pacifismo emergente e recuperava a pulsão belicista da infância. No calor do entusiasmo cheguei a sugerir que jogássemos mascarados e fui fulminado com os olhares que geralmente se reservam para os blasfemos.
O meu interesse pelo Carnaval foi depois abrandando. Numa fase, digamos, já terminal, no pico dos desajustes da adolescência, a grande ideia que perseguia era aparecer mascarado de nu. Sair para a rua sem uma única peça de roupa parecia-me um acto tão corajoso quanto original, capaz de marcar uma geração. É claro que não passei além da porta de casa. E era de noite. O frio foi a desculpa que me consolou. Seria um perigo para a saúde e uma tolice, tendo em conta o efeito do frio na volumetria dos genitais. Alguns meses depois, quando numa noite de Verão vadiávamos já a altas horas da madrugada pelo bairro, vimos um fulano completamente nu a sair de um prédio. Era já um homem feito, mas ainda novo, que se deslocava com a tranquilidade de quem traz roupa no corpo. Passou por perto, sem nos dar cartão e nós, sob efeito efeito da quebra gera de sensibilidade que atinge qualquer ajuntamento de rapazes, resolvemos seguir o moço, na certeza de termos a noite ganha. O espectáculo foi depois abruptamente interrompido por uma rapariga, que saiu a correr do prédio atrás do homem e, no momento em que nos ultrapassava, pediu-nos que não o seguíssemos. "Ele tem problemas..." Nunca cheguei a perceber que problemas seriam. O nosso grupo acatou logo o pedido dela, possivelmente porque nenhum de nós estava à vontade para seguir e fazer pouco daquela criatura e só começáramos por pensar que tal seria o comportamento próprio dos rapazes. É claro que um de nós ainda gozou com os tais "problemas" e eu juntei-me àquela última manifestação alarve com um críptico: "Problemas? Problemas, ´tá bem. Mas não deixou de escolher o mês de Agosto. Assim também eu".

agosto 06, 2005

BnO (59)

Muito se aprende dentro dos elevadores. Duas pessoas que mal se conhecem, numa viagem do rés-do-chão ao oitavo andar podem não trocar uma palavra, mas o espaço exíguo e a monotonia da paisagem que desfila vão forçá-las a uma interacção silenciosa, feita de olhares que se evitam e de uma subtil redefinição do posicionamento de ambas, como se pisassem um tabuleiro de xadrez no chão e fossem pedras de um jogo em fase derradeira. A mais aguda dessas pressões viria eu a sentir quando tinha o hábito de subir até ao quarto andar à procura de um amigo e M. aparecia no último instante, não deixando que a porta se fechasse antes de se esgueirar para dentro do elevador. Nunca ninguém voltaria a entrar num elevador de forma tão graciosa e durante o percurso eu ia corando com os pensamentos pecaminosos que aquele corpo inspirava, um corpo mais velho e irrepreensivelmente cinzelado, ao ponto de não parecer dali. Aquilo nem no cinema se via, mas para minha grande pena ela tratava-me como uma criança. A minha vontade era que o elevador parasse e ficássemos presos, que a luz faltasse e eu então ganhasse coragem para lhe tocar. Iria depois ter ocasião de reparar que este delírio, julgado tão íntimo e pessoal, faz afinal parte do cânone das fantasias sexuais de adolescentes e outros, sendo esta mais uma daquelas constatações que causam primeiro alguma paranóia - como se alguém nos tivesse roubado o segredo – , depois alguma desilusão – pois não somos tão únicos como pensáramos - , e por fim algum consolo – visto percebemos que partilhamos uma perversidade universal. Como se sabe, por vezes a ordem destes estados de alma varia, podendo inclusive os três surgir ao mesmo tempo e havendo gente que experimenta apenas um e daí não chega a sair.
Pouco bafejado pela sorte, na única vez que o elevador encravou a sério, a pedir a intervenção de uma equipa de bombeiros, eu estava na companhia de D., um tipo catita e o melhor jogador do prédio, mas apenas isso. Vínhamos de uma peladinha e ainda algo animados pelo jogo. O elevador encravou precisamente entre dois andares, deixando-nos com a desagradável sensação do emparedamento, pois nenhuma das janelas das portas imediatamente acima e abaixo era visível. Não entrámos em pânico e eu consegui controlar um pico de claustrofobia. Como a campainha do alrarme estava avarida, limitámo-nos a lançar dois ou três gritos de alerta. A nossa situação não era dramática. Cedo deram por nós e sabíamos que em breve iríamos sair dali. É verdade que acabaríamos por lá ficar mais de três horas, mas estávamos acompanhados do lado de fora, por gente em dois patamares. A tentativa infrutífera de nos passarem algumas bolachas Maria pela frincha de uma das portas deve ser vista apenas como uma brincadeira. Não havia perigo iminente de passarmos fome, nem o oxigénio escasseava. Ainda assim, quando as circunstâncias forçam o convívio, há um pacto implícito que nos faz mais francos e que, uma vez reposta a normalidade, nos obriga a um voto de silêncio sobre o que se contou. Da conversa de circunstância, D. foi lentamente escorregando para zonas mais sombrias. "E se este é o meu momento de glória? E se depois acaba?". "O quê?". Ele insistiu: "Se isto é o ponto alto da minha existência... Se vou ficar para sempre como o melhor jogador do bairro e nada mais volta a acontecer na minha vida?". "Pelo menos foste o melhor do bairro. Muitos há que..." "Mas o problema é esse, pá. E se esta fama local me suga as energias e me deixa satisfeito?". "Bem, sabes que se guardares as taças tens sempre forma de provares as glórias passadas..." "Não gozes. Não quero ter o meu momento de glória demasiado cedo, percebes?" "Pá, essas coisas não se esgotam". "Achas?" "Acho". Talvez achasse. Já havia percebido que há uma certa tendência para reduzir uma pessoa de génio ao seu génio, tirar-lhe todas as outras dimensões e depois usar um juízo crítico implacável para a destruir, só porque nunca mais conseguiu chegar ao nível do passado ou entretanto apareceu alguém melhor. É esta a desforra dos medíocres. Mas nunca tinha pensado como a pessoa de génio se analisa e de que forma o génio lhe pode pesar. D., a partir da segunda hora era um tipo amargurado. Nunca mais esqueci aquele diálogo. Salvos pelos bombeiros, nos dias seguintes voltaríamos a jogar. D. continuou naturalmente a ser o melhor, só que eu passei a olhar para ele de outro modo e mal conseguia disfarçar o receio. Não havia forma de deixar de ver a tal espada de Dâmocles a pairar sobre D., sempre a apenas uns dedos de distância e ziguezaguendo com ele, mesmo durante os seus slaloms mais desconcertantes.

agosto 05, 2005

BnO (58)

As faias têm ramificações aprumadas que são armadilhas para as bolas. As árvores podem ter a altura de um prédio de quarto andares e os ramos por vezes começam acima de três metros de tronco liso. Trepar a uma faia implica alguma técnica e ousadia; é um daqueles desportos sem taça apenas ao alcance de certos corpos: gente leve, que se pode aventurar pela copa sem correr o risco de quebrar os ramos mais delgados. Havia dois miúdos franzinos mas ágeis que cumpriam bem a função de ir buscar bolas ao cimo das árvores. Um de nós cedo alertou para a necessidade de comprarmos um macaco, pois depressa os miúdos ficariam caprichosos ou reféns do medo das alturas. Quem pensava assim tinha uma certa visão, mas era um teórico muito fecundo em ideias vistosas e pouco úteis, ou sequer praticáveis. Depressa o desarmámos. "Temos sempre a opção de umas pedradas certeiras. E quem é que iria tratar do macaco? Tu?" Certo dia, um pontapé em balão, daqueles que aliviam a pressão ofensiva, deve ter chegado a um quinto andar e logo no início da trajectória descendente encontrou os ramos altos de uma faia. A bola ficou no topo da copa. Tínhamos um dos miúdos connosco, mas o puto não se aventurava acima de um segundo andar. O outro miúdo era mais audaz mas estava de férias. Durante uma hora tentámos fazer a bola cair com pedradas, mas era um tiro quase impossível, tal a altura e o encaixe da bola, presa por três ramos. Em desespero de causa o dono da bola ameaçou ir buscar o cutelo que tinha na cozinha, mas não o levámos muito a sério. As fisgas também não funcionaram. Estávamos num impasse quando H. surgiu ao fundo da rua.
O bairro estava a passar por uma onda inédita de furtos: calças de ganga nos estendais da roupa. Esta moda começara quando surgiram rumores de que nos países de leste pagavam pequenas fortunas por calças de ganga de marca, mas os roubos provavelmente só alimentavam o mercado negro local. O mais misterioso era que mesmo os estendais mais altos eram alvos fáceis. Não havia noite em que umas Lois ou Levis não desaparecessem. H. era nosso conhecido. Já nos roubara algumas bolas e todos o temiam. Tinha um corpo possante e pinta de ciganão dado à violência. Foi com surpresa que o vimos acercar-se de nós, avaliar o problema e dizer: "quanto é que me pagam se eu sacar a bola dali?" Ele vinha com um blusão largo e parecia esconder algo lá dentro. Pensámos que talvez fosse uma pistola e que a ideia dele era fazer a bola descer a tiro. Ninguém teve coragem para a graçola: "ouve lá, isto não é um caso de procura-se morto ou vivo. Queremos a bola inteirinha, ouviste?" Ninguém ousou dizer coisa alguma, na verdade. A pergunta de H. era essencialmente retórica. Se ele conseguisse sacar a bola, seria para a levar com ele. Sem perder muito tempo, abriu o blusão e de lá saltou um gato preto. Segredou-lhe algo ao ouvido, apontou-lhe o olhar para o cimo da faia e largou o bicho na base do tronco. O felino subiu pelo tronco sem dificuldade e após algumas hesitações pelos meandros da copa, que mais parecia ser uma brincadeira do que más escolhas de itinerário, chegou perto da bola e com o focinho empurrou-a facilmente para baixo. A bola caiu a pique e ficou a saltar, uma, duas vezes – com H. a olhar em redor, triunfante – quatro, cincol, seis – H. a sorrir e a aproximar-se lentamente da bola – seis, sete – o gato a descer, veloz – nove, dez, onze, doze – H. a abrigar de novo o gato dentro do blusão – dezassete ressaltos, até a bola ficar imóvel e ser recolhida por H., que se despediu com uma surpreendente vénia, coisa que não esperaríamos de um ciganão. Ficámos em silêncio durante minutos, até que alguém disse: "Ouve lá, tu não consegues ter ideias simples, hã? Tinha mesmo de ser um macaco?"

Mike Patton

patton_promo.jpgA melhor voz do rock desde Freddie Mercury.

agosto 04, 2005

BnO (57)

A superstição não parava pelo bairro. Havia uma cartomante em morada clandestina e a igreja estava a umas centenas de metros do campo, mas a primeira associação que vinha à cabeça quando pensávamos numa galinha degolada era o arroz de cabidela. No futebol funcionávamos como positivistas sem conhecimento de si. E Newton bastava. O futebol explicava-se pela lei da acção-reacção e por equações simples, como as que descrevem a trajectória dos projécteis. A tal "força anímica" não nos era estranha, mas nós sabíamos que vinha da natureza humana, do desejo de vencer, de ser reconhecido pelos outros, de saltar a fasquia cuja altura cada um tratava de fixar. Mesmo entre os católicos havia um certo pudor em invocar o nome de Deus quando estávamos a jogar, certamente pela profusão de expressões vernaculares que pontuavam cada partida e que deixariam o Senhor em má companhia. Ninguém se benzia ao entrar no campo e era este o estado natural das coisas. Certo dia, J. calçou por engano uma meia de cada cor e então tudo mudou. O rapaz estava com pressa, possuído pelo frenesim de quem chega da escola já tarde e percebe que estão a jogar. Galgou as escadas, entrou em casa, jogou a mão à gaveta da roupa interior, tirou um par de meias enroladas uma sobre a outra, despiu-se, vestiu o equipamento (FC Barcelona), descalçou-se, trocou a meia do pé esquerdo e antes de tratar do direito foi interrompido pela mãe. Seguiu-se a costumeira discussão sobre os trabalhos de casa e, não querendo perder mais tempo, já visivelmente irritado, J. calçou as sapatilhas sem mudar a segunda meia. Galgou então de novo as escadas e entrou no campo com uma meia azul no pé esquerdo e uma meia branca no direito. O rapaz era um futebolista mediano, mas naquele dia fez um grande jogo. No final da partida alguém reparou nas meias e comentou: " Estou a ver que isso de jogar com uma meia de cada cor baralha os defesas no momento da finta, não é, J.?" Ele sorriu, mas ficou algo apreensivo. No dia seguinte, apesar de ter chegado cedo a casa e da mãe dele estar ausente, J. voltou a entrar em campo com uma meia de cada cor. Uma vez mais, o jogov correu-lhe de feição.
A superstição desconhece as probabilidades e a estatística. Duas coincidências fazem uma lei e a lei depois sobrevive –e até se consolida – à custa de um efeito placebo, que reforça a autoconfiança. A superstição tem também um potencial epidémico, difícil de controlar. Aconteceu o pior. Primeiro foram os mais próximos de J., que começaram a trazer amuletos para o campo. Depois os membros da sua equipa, quando passaram a beijar a cruz que traziam ao peito. M., filho de ateus, chegou a provocar uma crise familiar ao pedir uma medalhinha de Nossa Senhora de Fátima pelos anos. A febre atingiu também as outras equipas. Havia quem trouxesse sempre a mesma camisa, que não chegava a lavar. Uns entravam no campo de costas, outros com os pé direito e um excêntrico fazia-o a pés juntos. Contava-se que alguém arrancava um punhado de relva e, sem que reparassem, enfiava-a nos calções. No pico da loucura, um cabelo autenticado de um avançado perigoso era vendido a bom preço. No território nacional, a carga de sobrenatural que subjugava cada um dos nossos jogos só viria a ser ultrapassada quando surgiu um congresso de espíritas, em Vilar de Perdizes.
Fomos salvos pela epidemia geral e por sermos novos. Se tivesse restado alguém imune àquela febre, ou se fôssemos idosos, a loucura persistiria. Quando a "lei" começa a falhar, a crendice subsiste porque não se quer dar razão às vozes críticas, nem reconhecer que se hipotecou tanto da nossa existência e bom-senso. Só que naquele campo estávamos todos possuídos e éramos crianças com uma vida pela frente. Só assim a cura foi possível. Em pouco tempo, voltámos à normalidade e aqueles dias passaram a ser assunto tabu.

agosto 03, 2005

BnO (56)

Sentado naquela colina, sempre gostei de contemplar o Mar da Palha, ao longe e bem lá em baixo. Aquele local viria a ser também um bom lugar para namorar, faltando-lhe talvez um arbusto alto que cortasse a vista da paragem de autocarro, mas eu ainda não namorava. A colina era relvada, só que a meio havia uma porção de rocha sedimentar exposta, que não tinha aprumo e extensão para formar um corte geológico didáctico e funcionava como uma espécie de pedreira, de onde retirávamos ou naturalmente se soltavam pedregulhos amarelados, óptimos para delimitar a largura das balizas. Talvez houvesse aqui algum capricho nosso. O contraste com a relva era ideal e o tamanho também, seguramente muito mais adequado que o das pedras da calçada, mas desconfio agora que alguém queria secretamente gozar aquele simulacro de efeito especial, quando a bola acertava com força na rocha e dela fazia soltar uma poeira que acrescentava potência ao remate. Eram uns pedregulhos cheios de interesse. De vez em quando aparecia um com uma amonite. Por aquela altura havia adquirido uns rudimentos de biologia e geologia; sabia da existência de fósseis, apesar de chamar amonite a qualquer caracol grande petrificado. Anos depois seria o David Attemborough a explicar-me pela televisão que o mar e a terra não tinham estado sempre no mesmo lugar, mas dei pela questão sozinho, numa daquelas tardes de contemplação. Afinal o Mar da Palha estava a uma cota pelo menos cinquenta metros mais baixa e não havia maré que pudesse ter trazido aqueles seres aquáticos para a colina. Debati-me com a questão durante uns minutos, até aparecer o P., que era o mais forte e voluntarioso do grupo, mas a quem faltava alguma agilidade mental. P. era também dos mais velhos e não havendo mais ninguém por ali, resolvi expor-lhe o problema. O rapaz não chegou a parar para pensar (era um fulano essencialmente físico e interromper uma tarefa para pensar devia parecer-lhe uma perda de tempo). Enquanto arrancava com os braços um enorme bocado de rocha já meio solta, feita de uma amálgama de conchas e com alguns bivalves maciços embutidos, disse-me apenas: "sei lá, pá, também não existem pedras destas no campo e nós vamos levá-las para lá, não é?". "Estás a dizer que foram homens como nós que as trouxeram para aqui?". E ele: "Não sejas tanso. O futebol só foi inventado uns anos mais tarde. Isto é coisa de outra gente".

BnO (55)

Perder a bola no quintal do lado protegido por um muro intransponível é uma recordação de infância clássica, mas se enfiar bolas na casa de banho dos vizinhos ainda surge nos livros como excepcional, é apenas porque o grosso das recordações da infância nos subúrbios das grandes cidades está por ser escrever. Uma das nossas balizas tinha a parede do prédio logo atrás e na parede havia dez janelas, correspondentes às casas de banho dos dez andares. Seis dessas janelas eram alvos acidentais possíveis, e o número subia para oito quando se juntava a nós S., dono de um pontapé digno de um médio de abertura federado. Reconheça-se que tomar banho no quarto andar quando estávamos a jogar era infinitamente pouco perigoso, muito menos do que escorregar no sabonete, mas alguns de nós, escravos de uma imaginação de tipo cinematográfico, deliravam com uma câmara dentro da casa de banho que nos desse o ângulo de uma bola a crescer para o vidro, a estilhaçá-lo e a provocar um susto de morte em quem estivesse a tomar duche. A sequência seguinte provocava alguma discórdia. Havia os que preferiam um desenvolvimento no âmbito da fantasia sexual: um de nós subia até ao andar para reclamar a bola e era recebido por uma rapariga em trajes menores e cabelos escorridos, que convertia a fúria e o susto em desejo (inverosímil, claro, como convém às fantasias sexuais). Outros exploravam um cenário de horror: as lascas de vidro partido na loiça da banheira, um homem em agonia, o sangue a escorrer pelo branco dos azulejos e a coagular, sem chegar a ser levado pela água que continuava a correr para o ralo, algum vapor de água, vozes sumidas vindas da rua, um corvo no parapeito, enfim, por aí fora...
Excluindo a janela da porteira, que por nossa única e exclusiva culpa se viria a tornar praticamente blindada, nenhuma das outras janelas estava protegida. Em média partíamos dois vidros por época e os incidentes eram resolvidos de forma pacata; nem rapariga fogosa, nem homem com a jugular feita num repuxo. O autor do pontapé ficava apenas com a obrigação de pagar a reparação e a bola era posta em circulação sem grande demora. Só uma vez houve trama, mas uma que não antecipáramos. Num certo Verão, em plenas férias grandes, os poucos que não tinham saído de Lisboa jogavam aos cantos. A dada altura, um remate fulminante à queima-roupa sai por cima da barra e a bola aloja-se na casa de banho do terceiro frente, com a precisão de uma tacada de snooker. O som foi seco e nenhum dos dois vidros chegou a quebrar-se, pois a janela estava entreaberta. Cedo percebemos que a casa estava deserta. Era gente de Águeda. O caso complicava-se porque a porteira seria a última pessoa com interesse - ou obrigação moral- em nos ajudar, tal o martírio a que sujeitávamos a senhora com os nossos remates. Como recuperar a nossa melhor bola ocupou-nos então as horas seguintes e ia já alta a noite quando L. ganhou coragem para sugerir que podíamos simplesmente arrombar a porta. L. era um daqueles rapazes com indiscutível talento para a gatunagem, que tivera o azar de nascer filho de magistrados. Era dos poucos que os ciganos respeitavam e não havia semana em que ele não aparecesse com indícios de marginalidade: um rádio de automóvel, um calhau de haxixe, uma ponta-e-mola. Naquela noite surpreendeu-nos com uma chave-mestra e assustou-nos com o plano alternativo: um pé-de-cabra. "Não se preocupem, está tudo pensado: tenho até um alicate, para o caso de haver corrente".
Às três da manhã, vestidos como ninjas, encontrámo-nos diante da porta do terceiro frente. Para nossa sorte, todo o terceiro piso estava desabitado naquele Verão. L. trabalhou a porta com a chave-mestra durante alguns minutos, mas não tardou a decidir-se pelo pé-de-cabra. A porta cedeu logo. "Isto é uma brincadeira de crianças, rapazes", disse L., quase a salivar. A ideia era entrar na casa, ir logo buscar a bola e sair. Só que, uma vez lá dentro, sentimos a embriaguez do delito. L. estava em êxtase, o que seria de esperar, mas só o nosso medo nos distinguia dele. O delírio era igual, ou pior, pois vinha misturado com o encanto pelas coisas novas. Devemos ter ficado uns bons 15 minutos naquela casa às escuras. Sentimos os objectos com as mãos, adivinhámos os volumes dispostos na sala, fomos atrás do cheiro que vinha da dispensa. A bola ficou esquecida no bidé e só mesmo no fim da incursão a fomos buscar. Uma vez na rua, corremos até um monte e sentámo-nos ao abrigo de um chorão. Por lá ficámos a falar até aos primeiros raios de sol. L. sacou dos bolsos um pisa papéis que brilhava e ficou a pedir meças. Ainda hesitámos, mas logo apareceu um disco dos ABBA, depois uma reprodução em miniatura da Mona Lisa, a seguir uma almofada, até então escondida sob uma T-shirt. "Uma almofada, pá?" Combinámos então que iríamos enterrar o saque em local secreto, definido por um sistema de coordenadas que usava duas das oliveiras como referencial. Coisa de piratas, só que sem arquipélago. É claro que na noite seguinte não resistimos e fomos arrombar outra porta. Durante uma semana vivemos uma trip cleptómana. Nunca chegaram a saber quem tinham sido os autores daqueles furtos e não divulgaram o montante dos roubos. O nosso tesouro ainda se encontra debaixo da terra, em local que não posso revelar. Isto - adiante-se - partindo do princípio de que o L. não teve nenhuma outra recaída entretanto, o que me parece de um optimismo descabido.

agosto 02, 2005

BnO (54)

No princípio do Verão chegavam uns homens envergando as fardas tristes dos empregados da Junta de Freguesia. Vinham com longas gadanhas, que usavam para aparar a relva do nosso campo. Anos depois estes homens seriam dispensados, reciclados, relocalizados ou sumariamente despedidos, por causa das segadoras mecânicas. Os meus amigos ficaram fascinados pelas máquinas, que eram vermelhas e pareciam uns karts lentos, mas eu desconfiei logo à primeira interacção, quando os vi a cortar a relva no sentido do comprimento do campo. Tanto o meu pedido para orientarem as máquinas no sentido da largura como a pergunta de saber se seria possível desenhar as barras de contrastantes tonalidades de verde dos campos oficiais - "ia ajudar no fora de jogo…" -, foram recebidas com enfado. Disseram-me para não os incomodar e que tinham ordens para poupar as máquinas e não abusar das curvas (se as orientassem no sentido da largura acabariam por ser obrigados a curvar mais vezes). Era gente nova e apressada, seguramente com um segundo emprego. Tive logo saudades dos segadores a força de braços, que eram homens de meia-idade e ali no nosso relvado pareciam rejuvenescer. Às vezes traziam as mulheres com eles, que colhiam a relva cortada e a punham em grandes sacos de serapilheira de plástico. Almoçavam sempre à sombra do mesmo plátano novo e comiam uma merenda preparada em casa. Impressionava-me a técnica com que cortavam a relva, os movimentos curtos, interrompidos sem cadência definida por um mais amplo, que cortava o silêncio com um silvo. A lâmina, enorme e curva como um sabre árabe, tinha já fendido inúmeras vezes a biqueira das bocas que calçavam. Um dia deixaram-me brincar com uma gadanha, sempre de olho em mim e vigiando os meus os movimentos. Mesmo assim experimentei uma irreprimível sensação de poder e no dia seguinte estava lá de novo, para brincar com eles outra vez. Creio que foi por causa daquelas tardes que depois demoraria tanto tempo a perceber a personificação da morte na forma da ceifadora de vidas. Para mim uma gadanha era, antes de mais, um brinquedo.
Brinquedos seriam também as duas das máquinas de cortar relva negligentemente abandonadas pelos técnicos durante uma pausa para umas cervejas. A oportunidade surgiu já após a minha desagradável interacção com eles e a tal justificação de evitar fazer curvas com as máquinas. O nosso plano inicial era usar as máquinas para cortar a relva no sentido da largura do campo, mas a sede de vingança acabou por tomar conta de mim e consegui convencer o meu parceiro a abusar das curvas ainda mais: "olha, pá, vamos antes começar no centro do campo e cortamos isto aos círculos concêntricos, não achas? Afinal, quando foi a última vez que alguém deixou de marcar um golo por estar fora de jogo, hã?

Tulius fere de morte o orgulho nacional e arrisca o passaporte

Aqui vos deixo o artigo que provocou moderada indignação em alguns compatriotas meus amigos. Acaba de sair na revista do campus da minha universidade e em breve estará disponível online. A segunda parte será publicada no princípio de Setembro.

A sketch of Portugal and its people - Part I

I read somewhere that Portugal is a country that has been in steady decline for the last four centuries. Allow me to correct that view. Portugal is a country in steady decline for the last eight centuries, essentially ever since its birth. Being in steady decline is part of our nature. If success were to happen to us, say, by accident, we would lose our identity. Every Portuguese struggles with this reality. The Portuguese intelligentsia is constantly analyzing the causes of our poverty and misfortune, oscillating between a paralyzing pessimism and a miraculous solution that will fix the country and the people within a generation’s time. It is not surprising that we have turned into a bipolar and self-delusional nation. The thesis I adopt here borrows very little from genetics. The Portuguese are culturally streamlined for failure. No one knows precisely why it is so, but it is inescapable.

Portugal had its first national hero centuries before we became a nation. This is not unusual, but it’s a revealing start. Meet Viriato (179-139 B.C.), a warrior chieftain of a tribe (the “Lusitanos”) from the western Iberian Peninsula, who held off the Roman invasion for several years. Viriato was so good at throwing stones from cliffs at the Roman Legions and in using guerrilla tactics that he had to be murdered in bed by three of his own people, who had been bribed by the local centurion. When Hollywood runs out of the most obvious epics, they will immortalize Viriato on the big screen. Portugal will then lobby to choose a star that is Portuguese enough. Mark Ruffalo or Danny De Vito? Tough choice. Viriato gave us national pride. From the Romans, in turn, we got a unified language, industries, military roads, bridges, administrative centers and a religion, when Rome converted to Christianity in the fourth Century AD.

Our second hero was the founder of the nation, Afonso Henriques (1109-1185 AD), son of the crusader-knight Henry, and Teresa, the illegitimate and favorite daughter of Alfonso VI, king of León. In 1096 AD Henry received from Alfonso VI a hereditary title to the province of Portucale (roughly, today’s north of Portugal). By then that land was a sort of buffer zone between Christian and Muslim territory. Muslims had moved the Iberian Peninsula in the VIII century AD, after the Germanic invasion that contributed to the decline of the Roman Empire. Henry was a loyal vassal to Alfonso VI, but upon the king’s death and the civil war that ensued between Galician, Castillan, Aragonese and Leonese barons, he wisely remained neutral and abandoned his feudal obligations. After his death, his wife Teresa pursued this policy but when the Leonese Alfonso VII ascended to the throne he forced Teresa to pay homage to the kingdom of Léon and Castilla. The nobles of Portucale, however, who had learned to appreciate their independence, rebelled against Alfonso VII and implicitly, Teresa. They were guided by Afonso Henriques, who had armed himself as a knight and managed to defeat his mother’s army. He would ultimately become an acclaimed and self-made king, by fighting the Muslims in the South and containing Alfonso´s march on Portugal.

I do not intend to bother you further by extending the list of Portuguese heroes, but Afonso Henriques’ accomplishments were worth mentioning on two grounds. First, gaining independence from our big and only neighboring kingdom (today´s Spain), left a wound that future wars and a Spanish occupation of the country from 1580 to 1640 A.D. did not help to heal. Modern relations between Portugal and Spain are excellent, that is, we no longer fear them and they continue to ignore us, a fact that our collective ego does not allow us to appreciate fully. Nevertheless, discussions over the control of the rate of streamflow in Portugal’s main rivers (unfortunately they all flow from Spain) or a mere soccer match are sufficient to unmask this hidden and mostly unidirectional tension between the two nations.

Secondly, although Afonso´s rebellion against his mother was purely political and less Freudian (hélas, his father had died) than I would like to think, it set the tone for centuries of betrayal, politically motivated marriages, illegitimate descendants, quasi-idiotic heirs to the throne, and a lethargic noble class; in short: a display of pure European monarchy. Luckily we became a Republic in 1910, but soon we smoothly transitioned to a dictatorship that lasted half a century, most of which ruled by Salazar (1898-1970). In 1974 a military coup d’ état put an end to the dictatorship and eventually paved our way to “the worst form of government except for all those others that have been tried”.

Today, Portugal has about 10 million people living within its borders and there are sizable Portuguese communities in France, the US, Brasil, Venezuela and South Africa. The country is homogenous in terms of religion, ethnicity and language, and there are no serious separatist claims, not even from the Azores and Madeira islands, two small and beautiful Portuguese archipelagoes cast away in the Atlantic ocean. Between 1886 and 1966, Portugal lost an estimated 2.6 million people to emigration, more than any West European country except Ireland. In the last two decades this understandable tendency to abandon the country has as slowed down and has been counteracted by a flow of immigrants in search of labor, from Brazil, countries of the former USSR and Africa. 400 000 migrants live today in Portugal. We have made considerable social and economic progress in the last 30 years. For instance, literacy levels have improved and this skill is widely used by the male population to read the sports press. A key event that triggered a number of structural changes in the country was our entry into the EEC (today's European Union), in 1986. European money financed a number of projects and gave us a decent roadway. Still, a recurring topic in any discussion by and about the Portuguese is the need for a “change of mentality”. No one knows exactly what this is suppose to mean and how it can be done, but we all agree that it will be more difficult to achieve than building a few kilometers of highway.

The Portuguese Discoveries remain to this day our greatest accomplishment. They were, however, a burden too heavy to carry. In fact, they still are. Let’s start with the word “Discoveries” and its two obvious problems. It is striking that two independent and similar actions, equally valid in merit, are judged differently by History, depending solely on when they occurred. “Who did what first” is an obsession well known to scientists but, unlike Science, History can be rewritten to a large part just by playing with the dates. Thus, it is just a matter of time until someone comes up with the thesis that Brazil was not discovered by Cabral in 1500, but centuries before by the Vikings (who, apparently, got to North America before Columbus), or by the Chinese, even earlier, or by extra terrestrials, no one knows precisely when but presumably before anyone else. The second problem with the word “discoveries” is that it is an example of eurocentrism and hidden paternalism (euphemistically speaking). Consider this: the Portuguese were the first Europeans to get to Japan, but even the Portuguese would not dare to say that we discovered Japan. Notice however how we talk about the arrival of Cabral to Brazil: we always refer to the discovery of Brazil as if the land was devoid of indigenous populations. This being said, what Portuguese sailors accomplished during the fourteen and fifteenth centuries was outstanding. Historians and intellectuals in Portugal should just agree, that what is difficult to explain is not why we were unable to rise to that level again, but simply how we did it in the first place.

Portugal´s empire left us with huge shoes to fill in. One of the several ways my Brazilian friends make fun of me is by repeatedly asking for the gold we took from them when Brazil was a Portuguese colony (1532-1822). Frankly, I would also like to know where that gold went. Portugal, the mother-country, remained poor and underdeveloped, even at the peak of the Empire, before the Spanish, the Dutch, the English and the French took over the world.

agosto 01, 2005

BnO (53)

Os ídolos dos outros nunca são melhores do que os nossos, excepto se forem aqueles de quem nos é imediatamente mais velho. Nós éramos do tempo do Chalana e do Jordão e os nossos craques davam baile às velhas glórias: os Travassos, os Peyroteos e até o Coluna. O Eusébio não entrava nestas comparações, porque o Eusébio é intemporal. Acreditávamos na supremacia do Chalana porque os elementos que chegavam sobre os velhos craques não nos pareciam muito credíveis: umas gravações de rádio datadas, algumas imagens de arquivo, recortes de jornal, uma efeméride, a reportagem no telejornal quando morria um deles. Havia um défice de glória no presente, uma decadência física e financeira a que não ficávamos indiferentes e que nas nossas cabecinhas funcionava como prova de que eles não tinham sido assim tão excepcionais. Os mais espertos do grupo chegaram inclusive a teorizar sobre a questão. No passado seria mais fácil ser-se o melhor, porque o profissionalismo ainda era incipiente e os treinos pouco eficazes, de modo que os talentos naturais facilmente se notabilizavam. Diziam ainda que as imagens de arquivo passavam os fotogramas a uma velocidade instável, que tendia a acelerar as jogadas; o jogo ficava artificialmente rápido, mas de uma rapidez impossível, e os pontapés fulminantes, mas de uma violência sobre-humana ou, se preferirem, só ao alcance do Eusébio. Arrumados os grandes nomes de antigamente, quem fazia sombra ao Chalana eram os craques que por pouco não apanháramos ainda a jogar. O Teófilo Cubillas e o Yasalde seduziam-nos, pelo nome e pela aura. Venerávamos estes craques, que haviam partilhado o campo com os nossos ídolos, então muito novos, e que arrancavam dos nossos amigos mais velhos – e menos dos nossos pais – comentários elogiosos. Era um tempo que nos fugira, mas mesmo ali ao pé, a uma ou duas cadernetas de distância, onde dávamos com eles, já veteranos, mas ao lado dos nossos. Alguns do grupo sabiam que aquele respeito ia além do futebol. Aquelas vidas, que nós falháramos e que para os nossos pais tinham já sido carreiras de jogadores modernos, despertando paixões moderadas, eram mais um aviso da transitoriedade da existência. Teríamos de esperar por 1986 para vermos todo o edifício teórico que ergueramos cair pelos alicerces, a história fazer-se contemporânea nos pés de Maradona, e experimentarmos não só a certeza de por uma vez estarmos no momento certo, como - e sobretudo - a sensação que é ficar suspenso no tempo.