abril 30, 2005

Fome de ler

Há em Portugal quatro equívocos sobre livros. O primeiro manifesta-se na adoração do livro e na desconfiança em relação a todos os veículos de leitura alternativos (a internet, por exemplo). O segundo faz da leitura uma espécie de jogging intelectual. Ler é fundamental, logo, é preciso virar muitas páginas por ano, pouco importando se se trata de um ensaio complexo ou de um romance histórico açucarado e espesso. O terceiro é a ausência de polémica. Nos programas sobre livros em Portugal nunca se questiona o livro, ficando-se sempre pelos aspectos mais folclóricos. O último é um problema geral: tenta-se vender a ideia de que ler é agradável e fácil. Não se pode falar em dificuldades, caso contrário os meninos fogem dos livros. Parece que foi preciso decidir entre a educação pelo prazer ou pelo esforço. Sucede que a síntese já foi feita há muito tempo e está particularmente bem ilustrada na aprendizagem de um instrumento musical. Ninguém gosta de fazer escalas ao piano ou à guitarra, mas não se pode chegar ao gozo de tocar as grandes peças sem passar por tais exercícios. Aumenta-se o prazer à custa do esforço.

abril 29, 2005

What went wrong?

Percebe-se que algo correu mal quando olhamos primeiro para o nome do pintor e só depois nos demoramos no quadro.

abril 28, 2005

Verdade a prazo

Nunca aqui mostrarei fotografias de bebés ou farei declarações de amor nominais. Não critico quem o faça. A censura não se partilha.

De um certo ponto de vista

A minha evolução como guitarrista tem consistido em aumentar o repertório de peças que não consigo tocar até ao fim.

BnO (29) (reciclado)

Há duas décadas, os oito ou nove anos que o A. leva de avanço valiam muito mais do que agora. Era um tempo marcado pelas canções de Paul Simon, Camarate e uma febre incipiente de escrita, que deixou muitos de nós em delírio. A febre deu em fartura, a julgar pelo número de jornalistas que saíram daquele prédio. Conto pelo menos cinco, que hoje são nomes conhecidos da imprensa e da rádio. Ao fundar a Cocas, uma revista de humor, crónicas e cartoons, feita de páginas A4 dobradas e agrafadas na lombada, A., que escrevia com graça e desenhava bem, não podia desconfiar ter iniciado um movimento sem paralelo nos restantes prédios dos Olivais. À Cocas seguiu-se a Lince, que contava com o talento de um futuro pintor. Veio depois a Urso. Ambas as publicações eram honestas mas nunca chegariam ao brilhantismo e impacto da Cocas. Como só consegui escrever a página de curiosidades de um dos números da Lince, guardo duas frustrações vagamente traumáticas desse período; a primeira: Bjorn Borg ganhar oito escudos por segundo no princípio dos anos oitenta; a segunda: nunca ter contribuído para as edições a preto e branco da Cocas. Não sei onde A. e os seus colegas preparavam a revista. A Lince era feita numa das caves do prédio, em clima de rivalidade, o que chegou a resultar em alguns golpes palacianos e no roubo de uma edição completa da Cocas, pronta a ser posta em circulação. Quando não estávamos a escrever, jogávamos à bola. A devoção ao futebol inglês era a segunda idiossincrasia do 484 da Avenida cidade de Luanda. A tragédia do Heisel Park ainda estava para chegar e o campeonato inglês era um bom campeonato, mas ainda hoje ninguém consegue explicar a recusa do Calcio, quando já naquela altura todas as estrelas jogavam no campeonato italiano. Mais: em 78 a Argentina havia ganho o Mundial; em 82 fora a vez da Itália, mas o Brasil brilhara. A verdade é que um núcleo duro de 4 aficionados insistia nas virtudes do futebol à inglesa: passes em profundidade, cruzamentos e golpes de cabeça. O modelo a seguir era o kick and rush. Talvez tudo tivesse começado com o rapaz que fazia tabelas à régua para preencher com todas as estatísticas do Liverpool. O Tejo entrava pela janela mas de todas as paredes do quarto dele vinha o sorriso de Kenny Dalglish. No campo, ensaiávamos cantos e um cabeceamento à Ian Rush por cima da trave valia por três golos à Gomes. Chuva miudinha e céu cinzento era o tempo desejado, por ser mais inglês, isto é, mais à ingalesa. O relvado ficava escorregadio e como o campo era bastante inclinado os cortes de carrinho à ingalesa eram irresistíveis. A lama das clareiras sujava depois os equipamentos e no fim era um gozo regressar a casa deixando rasto nos patamares. Enfim, a Dona Patrocínia, a porteira, talvez não fosse da mesma opinião, mas parecia que aqueles nacos de lama recortada pelos pitons das chuteiras tinham histórias para contar. É que a lama, que às vezes nos chegava até à boca num respingo e nos cobria a cara, tinha um cheiro que apelava a uma discreta geofagia quando o sector defensivo podia relaxar um pouco e uma textura medicinal também, que ajudava a acalmar a pele sempre que o couro da bola nos feria a cara, quando falhávamos um cabeceamento ou simplesmente levávamos com um petardo nas trombas. Estes aficionados do futebol britânico estavam bem documentados. Um deles possuía um arquivo impressionante com todas as estatísticas referentes ao campeonato inglês, que tinha algo de obsessivo tratando-se do Liverpool. Comparado com aqueles rapazes, o Rui Tovar era um amador. Para efeitos de palmarés, a entrega ao estilo inglês de pouco serviu. O quarteto britânico era extremamente perdulário e acabava por ser derrotado em quase todos os jogos. Porém, após nove jogadas falhadas surgia sempre uma que nos reconciliava com o futebol: D. no miolo do terreno desembaraça-se de dois adversários, lança V. pelo corredor direito… que vai quase até à calçada… cruza em arco para a cabeça de A. II… que remata ao tronco da faia (poste esquerdo); A. recupera, torna a distribuir para o corredor direito, V. centra de imediato, A. enquandra-se com o esférico, aplica um volley à Kenny Dalglish e -por uma vez - a bola não parte os vidros da vizinha do quinto andar mas entra em arco pelo canto superior direito da baliza da ciganada. Do grupo, o meu preferido era A. Comecei a gostar dele dentro das quatro linhas. Temperamental e com aqueles olhos claros e melenas à revolucionário, parecia mais um jogador italiano e tinha até uma camisola da Juventus, o que era uma afronta ao estilo de futebol que grupo idolatrava. Detalhes. A. era, sobretudo, justo e correcto. Em jogos que juntavam miúdos de 10 anos e adolescentes de 17 e 18, o abuso da força era uma constante, da carga de ombro ao pontapé vingativo, passando pela simples ameaça. A., que era dos mais fortes entre os mais velhos, nunca tratou mal a canalha e estas coisas ficam gravadas, agigantando-se com o passar do tempo. Como se não bastasse, de noite, quando ainda só ficávamos pelas imediações do prédio, A., regressando da cidade, trajando a preto e branco, já com toda a competência do boémio e com aquele andar naturalmente cambaleante ainda mais marcado, juntava-se a nós e demorava-se em relatos. Os bares ainda nos eram desconhecidos e ele tomava ares de mensageiro de outros mundos. Quando deixámos de ser vizinhos, os oito ou nove anos continuavam a fazer diferença. Muitos anos depois, é reconfortante saber que ele ainda anda por aí a respirar futebol, quando já ninguém joga à ingalesa, a começar pelos próprios ingleses.

abril 27, 2005

Arquivo por categorias

Aqui usa-se e abusa-se da série. Fazia falta um arquivo por categorias. Graças à diligência e competência da nossa parceira lisboeta, quem quiser ler de seguida as peladinhas do Ivan nos Olivais pode agora fazê-lo. As outras séries- Cromos, Paisagens, Arrisco um Poema, Explicação da Insónia, Folias, Posts de Lisboa (série limitada) e uma selecção de textos aqui do escriba, entre outras, estarão em breve disponíveis.

BnO (28)

Há quem veja além da clubite e se concentre nos pormenores. Há gente que não domina as estatísticas, mas tem milhares de jogadas na cabeça. Às Segundas-feiras trocávamos os detalhes da jornada como se fossem cromos raros. Havia o prazer de partilhar o mesmo gosto, quase como forma de calibração. Mas sobrava, também, o gozo de mostrar aos outros coisas que lhes haviam escapado. Os dois monumentos ao futebol nacional dos anos oitenta - a charutada de Carlos Manuel em Estugarda e o calcanhar de Madjer, na final da taça dos clubes campeões europeus*- são demasiado consensuais para que surja discussão (e o Portugal-França de 1984 é a nossa Alésia, assunto tabu; de resto, é oportuno lembrar que uns dos golos do Jordão foi um pontapé tecnicamente falhado). Despertarão talvez alguma nostalgia, aquele sorriso discreto e meio aparvalhado com um brilho no olhar, mas a sua excepcionalidade faz com que nunca venham a ser experimentados como revelações. O que nós procurávamos à Segunda-feira eram as pepitas discretas por apanhar. Falem-me de Estugarda e eu pergunto logo se alguém se lembra de uma jogada genial do Morato, a picar a bola sobre toda a defesa e a rematar de seguida, fazendo a bola rasar a barra? De resto , alguém se lembra do Morato? Morato, o homem que só estava bem onde não estava (lido nas letras garrafais da imprensa da época)? Onde está o Morato agora? Falem-me dos raides de Futre contra a Alemanha, no Estádio Nacional, e eu recordo logo um Jaime Pacheco a pisar a bola para mudar de direcção, assim se desembarançando de dois calmeirões. Nas peladas do bairro era a mesma coisa. O deslumbre pelos detalhes saturou-me a memória com gestos técnicos de amadores, pescados numa roda-bota-fora ou numa sessão de cantos. Coleccionei tralha desta em demasia. Se há um sótão para a memória, está cheio destas cadernetas sem cromos que não servem para coisa alguma.
(continua)


abril 26, 2005

O questionário que anda na boca de toda a gente

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Começo por dizer que não sabia o que era o Fahrenheit 451. Pelo sentido da pergunta julguei tratar-se de um bar sem álcool e sem gajas. Depois percebi que estava enganado. Bem, resumindo: queria muito ser uma edição de luxo da Playgirl.

2- Já alguma vez ficaste perturbado por uma personagem de ficção?

Sim, claro. Com o John Difool do Moebius e do Jodorowsky.

3- O último livro que compraste?

Foi há muitos anos. Costumo roubar livros ou então ler quando pernoito clandestinamente em bibliotecas públicas. Tenho sempre uma lanterna comigo.

4- O último livro que leste?

Li o Raio de Luar (Luiz Pacheco), onde um escritor maldito faz de conta que também é capaz de dizer bem dos outros e teoriza (com os pés) sobre o fardo de se ser maldito. Depois reli o Incal, porque sou narcisista.

5- Que livros estás a ler?

Curiosamente, a série o Incal, outra vez, pelo mesmo defeito.

6- Seis livros que levarias para uma ilha deserta?

Para reler: Os Passos em Volta (Herberto Helder).
Para ler: Crime e Castigo (Dostoiewski), Dom Quixote (Cervantes) e a biografia do Garrincha (Ruy Castro).
Para continuar a ler: um livro com ilustrações para colorir e outro sobre como construir uma jangada sem utilizar pregos.

7 – Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?

Ao Tulius e ao Ivan, caso contrário sou corrido do MI; a um pastor analfabeto meu conhecido, porque trata as vacas pelos nomes próprios e deve ter respostas um pouco mais originais do que as que produzi e tenho lido por aí.

Três décadas de democracia

Há hoje em Portugal 4 grupos de gente: os que amam o 25 de Abril, os amam o 25 de Novembro, os que amam as duas datas e os que ambas desconhecem.

Furto sem flash

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Moma, NY, 16 de Abril de 2005, circa 16:20

abril 25, 2005

BnO (27)

Então e as oliveiras? Eram paisagem, apenas paisagem, uma fileira de árvores quase paralela a uma das linhas de fundo. Atrás delas erguia-se uma colina relvada. O verde da oliveira não liga bem com a cor da relva, mas só me lembro bem é dos troncos e das azeitonas. Não deve haver árvore menos útil para o futebol do que oliveira. Os troncos são tortos e retorcidos, servindo apenas para fazer uma baliza barroca. As azeitonas tinham uma forma aproximadamente esférica, mas eram demasiado pequenas para que as usássemos. Não sei se alguma conseguiu esgueirar-se por entre duas pedras da calçada para surgir vitoriosa e rebentar com o passeio. As mais das vezes, os frutos eram semeados pelas árvores às cegas no asfalto e morriam junto ao lancil do passeio. Uma árvore seleccionada para prosperar nos Olivais produziria azeitonas grandes como ameixas e com os ressaltos de uma bola de ténis. Só mesmo um fruto apetecível de rematar salvaria aquelas oliveiras da prisão que era a impermeabilização dos solos circundantes. Não houve tempo para seleccionar tal árvore. Se um mutante acidental desses surgiu, alguém terá ficado com ele a dar toques antes da partida, ou então fizeram-no circular numa roda de amigos, sem o deixar cair. Talvez até o tivessem chutado para bem longe, mas não deve ter chegado às quintas, onde cresceria com as couves, nem caiu no cemitério, onde teria sido aceite entre os ciprestes.
Lembro-me de um rapaz que dizia querer ser enterrado no bairro. Pedia-nos para lhe fazermos uma cova sob um abrunheiro e que para lá se lançasse o seu corpo sem caixão. Nós dizíamos-lhe que as pessoas morrem de outra maneira, mas ele insistia que queria renascer como abrunho. Mais tarde, como se isso fizesse alguma diferença, passou a pedir que o pusessem a descansar ao pé de uma oliveira, árvore que o envolveria, dele faria seiva e depois azeitona. Era quase a delirar que nos dirigia a palavra: "talvez então me cuspam com zarabatanas amazónicas feitas de tubos de plástico e eu volte a ver o bairro, primeiro como luz ao fundo do túnel, depois acelerado por todos lados, a seguir cambaleando em decrescendo e por fim imóvel, quando nem vestígio de movimento animar o fruto que serei e o projéctil que por instantes fui. Talvez tenha sorte, talvez caia em terra fértil e não no asfalto nem na calçada, talvez experimente o gosto da água, fique túrgido, rebente comigo para germinar, geotrópico, fototrópico, autotrófico, paciente e eterno, e me faça oliveira, memória do bairro. Não haverá quem respeite este desejo?"

BnO (26)

Tenho familiares que foram baleados no Ultramar e de lá vieram com cicatrizes no corpo. Eu tropecei numa bola quando estava sozinho, caí e parti o antebraço. As marcas somáticas podem ser o trauma e o orgulho de uns, bem como a vergonha (pelo trauma) de outros. Marcas de heroísmo, pois claro; já naquele tempo as buscávamos. O único interesse de passar a tarde à pedrada com a ciganada era o prestígio de partir a cabeça em combate, coisa rara no futebol. Havia ali a excitação dos combates tribais e uma gestão de talentos, que passava por saber tirar proveito do aerodinamismo das lascas de tijoo recolhidas do chão, mas também pela capacidade de prever as trajectórias dos projécteis adversários, pois o céu chegava a acomodar belicismo que pedia bateria anti-aérea. Com alguma sorte, esfolava-se um joelho na peladinha e a lama ficava a realçar o vermelho do sangue (bendita vacina antitetânica). Mas a lesão mais frequente era também a menos espectacular: uma cacetada na canela. Doía que se fartava e nem nódoa fazia. Naquele tempo quase ninguém jogava com caneleiras, excepto um puto rico com pai aviador, que as usou duas tardes, até a ciganada ter dado pela coisa e insistido numa troca unilateral. A forma mais eficaz de acumular medalhas somáticas era começar à pancada durante o jogo. Embora as lutas mais frequentes fossem entre adversários, as mais violentas ocorriam entre elementos da mesma equipa. Os inimigos fora de campo empenhavam-se mais e quem lhes falar em lutas ritualizadas ainda hoje corre o risco de levar com um rotativo nos incisivos (à Bruce Lee).

O pudor e o mobiliário

Voltei a trazer mobília da rua para casa. Trata-se de uma cadeira acolchoada de costas largas e que roda, perfeita para atacar os grandes romancistas russos. Isto de trazer mobília da rua é uma coisa muito nova-iorquina. Quando gosto da peça, só a excluo se for fácil imaginar que foi palco de práticas sexuais. Já perdi colchões, sofás, pufes belíssimos e até uma bancada de cozinha. Só isto explica não ter a casa atafulhada de mobília gratuita.

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abril 24, 2005

BnO (25)

Só percebi a arte da finta quando vi o toureio de João Moura. Já me fascinava - embora não o pudesse verbalizar - a aparente contradição entre um número limitado de gestos e a capacidade de surpreender o defesa. Julgava eu que o defesa seria intransponível se estudasse todos os tipos de fintas. A tarefa nem sequer parecia muito difícil, justamente por não haver assim tantas fintas. Quantas? 10? Não mais de 20, seguramente. Pensemos, a contrapor, nas infinitas possibilidades do xadrez. Para mim, havia falta de estudo no quarteto defensivo. Até que vi o cavaleiro João Moura. O Moura fazia uns ferros absolutamente geniais. Não chegava a ser uma finta rápida, era quase uma sarabanda brevíssima, com gestos estereotipados, mas sempre eficazes. O cavalo fazia a chamada para a direita, simulando um desequilíbrio para esse lado com o cavaleiro, solidário. Quando o touro investia, Moura e o cavalo bandeavam-se para o outro lado, salvavam-se e ficavam com o dorso do touro à sua mercê. Na mesma corrida Moura repetia o movimento vezes seguidas e a besta não aprendia. Foi ali no redondel, com o requinte pedagógico do gesto recorrente e da estupidez do animal, que percebi o essencial desta arte. A finta que vale é a que não chegou a ser feita, pois foi aquela que retardou os reflexos do defesa. Daí a mesma finta poder resultar vezes sem fim, bastando que vá variando a finta que não chegou a sair. É claro que isto é uma apreciação teórica pouco útil para quem, não tendo o peso do touro, ficava com o seu papel. Os Mouras do bairro eram outros. Eu fazia cortes de carrinho e magoava o lombo.
Sobre a outra arte? Passar pelas ruas em fintas sucessivas, sem esbarrar com alguém ou algo que não me agrada? Fingir, transformar o momento, esgueirar-me pelos corredores que já conheço? Deixar o passado incólume, indiferente aos pedidos de acerto de contas que chegam do presente? Pensar numa profissão: contabilista. Não. Sou agora um conservador da infância, trabalhador por conta própria, a tempo inteiro. Nasci e vivi duas décadas e picos. Andei depois a fazer tempo durante outras duas, a ganhar distância para poder olhar para trás e tudo abarcar. O tempo que me sobra vai ser curto para viver o que já vivi. Outra profissão: vendedor de enciclopédias. Encerrei o meu presente e tornei-me um guardião da memória. Saio para a rua e recolho bocados de mim, que se ensoparam de chuva, viram demasiado sol e pó, que foram mal tratados e que já pouco se parecem com o que eram, embora conservem o bastante para os ver como gostaria, depois de os soprar, de os polir e lhes corrigir as marcas do tempo. Sou um restaurador, pleno da arte que me convém e vazio de ciência. O esforço seria absurdo se não fosse necessário. Noutro lugar, o presente tomaria conta de mim. A profissão? Delegado de propaganda médica. Um presente virgem, enxuto de memória é coisa que deveria aprender a apreciar melhor. A ter regressado ao bairro, ficaria rodeado de pretexto para recordar. Fintar todos os dias seria um cansaço. Só o sono, este meu sono livre de sonhos, que me devolve como me recebeu, me deixaria de pé. Profissão? “Empresário”. Nem sonho, nem pesadelo, só vazio. Talvez me valesse o terraço de pedra morna, um lugar de firmamento eterno e brisa carregada de maresia salubre que bebeu do Tejo. Ali, naquele local que soube poupar, é possível que voltasse a sentir o tempo suspenso.

Quando eu morrer

Espalhem-me no montado
Para renascer sobreiro
Um regresso ao Alentejo
Fim por fim, enfim, quieto

BnO (24)

O declive do campo era a forma possível de quebrar uma das leis da física. O jogo construía-se sobre uma bola em perpétuo movimento, a correr para o rio. O desequilíbrio na partida imposto por um suave declive de 1% era suficiente para fazer com que os mais calculistas preferissem começar o jogo a atacar subindo, com a motivação de que na segunda parte o ataque seria a descer. Para quem começava a atacar embalado pela gravidade, as últimas ofensivas eram sofridas como escaladas. Outros desequilíbrios eram ponderados no momento de formar as equipas. Os calculistas, de novo, preferiam ficar na equipa teoricamente mais fraca. Jogar pelos mais fracos pode parecer uma decisão nobre, mas resultava apenas de uma análise fria de ganhos e perdas. Uma derrota esperada não é propriamente uma derrota, é um desígnio que se cumpre. Uma vitória inesperada é um destino que se forja. Era uma sorte nem todos sermos calculistas e haver entre nós quem tivesse a coragem e o mau gosto de preferir as equipas mais fortes, caso contrário teríamos consumido as tardes a definir os alinhamentos.

BnO (23)

O conceito de futebol total é posterior a um outro, de alcance superior, embora menos consensual: o de futebolista total. Nos anos oitenta a noção de futebolista total estava claramente desacreditada. Com um discurso onde a palavra "portanto" surgia como uma verdadeira praga, o craque não primava pela eloquência. Era também ainda popular uma anedota sobre Eusébio, racista e revivalista, que fazia supor nunca antes ter o conceito vingado. Mas, livre de preconceitos, o que a prática nos dizia era que a qualidade futebolística não morava nas pernas, mas percorria o corpo todo e, consequentemente, só podia emanar da cabeça. Alguns dados empíricos de relevo: D. era de longe o melhor jogador do bairro. Fintava, rematava de todas as maneiras, roubava bolas e passava como mais ninguém. Os pés de D. eram mágicos. Sucede que também os pulsos de D eram magníficos, quando jogava matraquilhos. E os dedos de D. eram sublimes, quando jogava Subbuteo e, mais tarde, futebol no computador. Concretizando, D era um jogador total, e onde houvesse uma terminação nervosa, acontecia futebol. É por isso que nos custa mais assistir à degradação moral de um Garrincha ou um Maradona do que a uma tragédia que apenas atira o futebolista para uma cadeira de rodas. Um xadrexista com as duas mãos amputadas não deixa de ser um xadrezista. Com um futebolista paraplégico pode suceder o mesmo.

BnO (22)

A trave imaginária é uma ideia belíssima, a ilusão flutuante alinhada pelas paralelas da paisagem - o mar da Palha no horizonte - e aferida pelas perpendiculares - os postes dos candeeiros, os troncos das faias e N., o gigante local. Quem entrega o destino de um jogo à altura de uma trave imaginária dá uma prova de confiança suprema, como se as duas equipas de repente se deixassem desequilibrar para trás, na certeza de que cada elemento seria amparado na queda por um dos adversários: o avançado central costas com costas com o defesa central, os médios com os médios, o extremo esquerdo com defesa direito e o extremo direito com defesa esquerdo, numa simetria perfeita e sincronizada, à Jogos Olímpicos. A trave imaginária fazia a baliza à medida do guarda-redes e estimulava a estirada aparatosa, pois para cada remate, mesmo os estratosféricos, era preciso rabiscar em tempo real a trave com a luva, eliminando a dúvida. A minha fé na trave imaginária ficou documentada no dia em que, sobre a linha de golo e gozando de um tempo de salto e altura fenomenais, saltei sozinho e acusei um traumatismo craniano em pleno ar. (continua)

BnO (21)

No relvado imperava a meritocracia quase perfeita, regularmente corrompida apenas por um miúdo gordo, com pouco jeito, mas que era o dono da bola e por isso tinha lugar cativo na equipa e nem sequer entrava na rotação para guarda-redes. Outros desvios mais subtis tinham lugar ao Domingo de manhã, quando os mais velhos se juntavam a nós e a saturação das linhas de passe no binómio pai-filho passavam a reflectir mais os sonhos adiados do primeiro e menos o talento concretizador do segundo. Por vezes o pai ficava a jogar na equipa adversária e então sim, o jogo ganhava qualidade. Perante a promessa de poder matar o pai de livre directo, o filho só sossegava mesmo depois de fazer golo. Freud talvez explicasse a tal dinâmica mas só daí a uns anos ouviria falar do gigante intelectual com algum detalhe pela voz de uma professora de psicologia que não percebia a minha letra e me obrigava a ler-lhe os gatafunhos que deixava nos testes. Responder a dois tempos deixou-me com uma nota muito catita mas uma má impressão da disciplina. Anos depois, numa viagem ao Porto, impressionou-me o conforto material e a cultura de um psiquiatra que nos recebeu, fez de cicerone e nos deu a provar um Porto centenário. (continua)

abril 23, 2005

BnO (20)

De sonhos e pesadelos não reza a minha história. Esta frustração, põe em marcha mecanismos compensatórios que me fazem sonhar acordado ou com que me demore diante dos surrealistas. Cheguei ao ponto de interromper o sono a várias horas da noite, numa caça inglória ao sonho. Não é tanto a interpretação do sonho que me interessa, antes a curiosidade pelos detalhes. Quero saber se as paisagens surgem a cores e com a perfeição das superfícies do Dali. Quero confirmar que não tenho o mau gosto de pôr animais a falar. São estes pormenores que fascinam, embora sobre o único dos sonhos que saquei à minha infância o que me perturbe seja justamente a dificuldade de interpretação. Isso e uma irritante falta de originalidade. Raios, podia ser um sonho apenas, mas com um tema nobre, que reflectisse um daqueles desejos de Miss Universo ou então uma inquietação filosófica. Nada. Coube-me em sorte sonhar com o tamanho do membro viril, a mais estafada das ansiedades da rapaziada. Jogávamos futebol na praia, num campo feito pela baixa-mar. Numa disputa rija, persigo um preto até à linha de água, ficando ele com a água pelos joelhos, de costas para mim, protegendo a bola. A meia volta dele é um outro um volte-face também, pois sem nunca deixar de dominar a bola é ele que começa a perseguir-me ou, reformulando, sou eu que então fujo dele e da sua erecção descomunal - assim para um antebraço - entretanto revelada. Consigo explicar tudo neste sonho: as incertezas, os receios próprios daquelas idades e a presença do preto, que era menos fruto do estereótipo do que uma representação do Sexta-feira do Dafoe, prosa que me fascinava na altura e era motivo para os tais sonhos acordados recorrentes. Por explicar ficou, até hoje, o enredo futebolístico.

Piadas caras

Uma das marcas mais curiosas da direita lusitana - não necessariamente idiossincrática - é o fascínio pela Grã-Bretanha. Churchill, a gentlemanship, o parlamentarismo harmoniosamente fundido com a monarquia, a tradição, a Spectator, o humor britânico, enfim, leiam o João Carlos Espada para uma descrição mais exaustiva. O fascínio pelos bifes está sempre presente, da preferência por romancistas à escolha de Cambridge e Oxford para uma pós-graduação. Nada a opor, excepto à gritante ausência de espírito crítico perante o made in Britain. Por exemplo, a Charlotte gasta extensa prosa no Expresso desta semana a descrever uma experiência que terá sido feita para testar a famosa intuição feminina. A coisa foi urdida por psicólogos da Universidade de Hertfordshire e passou por desafiar um número absurdo de homens e mulheres (15 000) a distinguir sorrisos falsos de sorrisos verdadeiros. Aparentemente não há diferença significativa entre homens e mulheres. A partir daí, teoriza-se como o caraças. Ora bem, eu fico sem saber desde quando é consensual descrever a intuição feminina como a capacidade de avaliar da credibilidade de um sorriso. Mais, se a ideia era desmistificar estereótipos, não se pode esquecer os outros estereótipos, ou seja, não vale desenhar uma experiência para testar a intuição feminina que, na verdade, pode estar a revelar o celebrado romantismo feminino (a vontade de acreditar num sorriso). E aqui chegamos a um problema técnico de difícil resolução. É que não se afigura fácil testar a intuição feminina livre de influências como: a deficiente capacidade de orientação, a obsessão por sapatos, a variante do síndrome de Tourette que passa por rotinas de compulsiva aquisição de produtos, a noção completamente dissociada da realidade no que toca ao tamanho do traseiro, o mito da sacanice dos homens, etc. Mas foi giro, foi giro. Só um dado continua a martelar a minha cabeça: 15 000. 15 000 voluntários para produzir uma boa piada. Cada vez que aparece uma notícia destas as ciências sociais regridem 20 anos. É giro.

A mesa redonda da ninfofilia e arredores

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No Bombyx empresta-se fôlego ensaístico a uma discussão em que participei de forma modesta. Não percam. Mais do mesmo na Praia, no Avatares de Desejo e no Fora do Mundo. Voltarei ao tema se conseguir responder ao desafio do Bombyx.

abril 22, 2005

Congeminando uma geminação...

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Todas as geminações são
Ridículas.
Não seriam geminações se não fossem
Ridículas.

Também em meu tempo o fiz,
Como sempre,
Ridículo.

As geminações, se há vontade,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca se geminaram
E só congeminaram
É que são
Ridículas.

É oficial: Nova Iorque gemina-se com Lisboa (Av. de Roma)

Patriota adiado

Antes de ser a língua, é a certeza do lugar onde quero estar depois de morto. Os anos passam e, cada vez mais, sinto-me um vencido da pátria, numa insípida derrota por falta de comparência.

Sujeito a confirmação

Quando o Posto de Escuta resolve seleccionar um texto do MI sem pedir licença ficamos contentes. Quando um jornal resolve seleccionar um texto do MI sem pedir licença ficamos chateados. A isto chama-se solidariedade institucional.

Para acabar de vez com a autobiografia

Incomoda-me falar dos meus posts. Nunca sei se devo descrever o post ou enunciá-lo textualmente, num esforço de memória. Também não gosto de esclarecer se o que relato aconteceu mesmo. Para que conste: nada do que escrevo é autobiográfico, inclusive esta afirmação.

Elogio do gordo

MAcguffin, meu caro, deixa-me adivinhar: tu tens um Porsche, certo? Prestas uma tal vassalagem à velocidade que só podes ser um acelera. Só assim se explica teres usado a equação da energia cinética (que eleva a velocidade ao quadrado) quando seria mais avisado teres referido a quantidade de movimento (o simples produto da velocidade pela massa). A quantidade de movimento, por estimar a massa tanto quanto a velocidade, é a verdadeira medida do respeito que temos por um petroleiro a abrandar, meu amigo. Ou pelo gordo a investir, pachorrento, pelo corredor central.

abril 21, 2005

Darwiniana

Até tínhamos começado bem: tentar explicar a virtude, saber se as religiões são causa ou consequência, explicar a urgência de se estar em paz com a consciência. Ateus, agnósticos, crentes, os diferentes ângulos de uma discussão equilibrada. Até que me lembrei dos gansos verdes, em variante cromática de um argumento estafado, tantas vezes enunciado: a incerteza do resultado negativo, o "but can you say it did not happen?", a impossibilidade formal de equiparar, em veemência, a negação da existência de gansos verdes à afirmação de que existem gansos brancos. Tudo para ilustrar a importância que dou à possibilidade de haver um Deus. A existir, Deus não será tão irrelevante como um ganso verde. Porém, com base no que sabemos, discutir a existência de Deus equivale a discutir a existência de gansos verdes. Ninguém apanhou a subtileza do argumento. Mal se ouviu falar de um bicho absurdo, começámos logo a discutir sociobiologia, comportamentos altruístas e genética de formigas. Cada um tem a tara que merece. Quando suspendemos a discussão eu já tinha proferido heresias de elevado calibre, estilo " a evolução não explica a existência de Deus, mas prevê que tal existência venha a ser postulada". Por essa altura já não havia católicos na sala.

O fundo perdido

Dizias não estimar o teu sucesso
Cedi-te a minha ambição
Senti que te pesava a consciência
Sosseguei-te com mentiras
À queixa de que falta a atenção
Empenhei todo o meu tempo
Até que se acabou, e eu como que
Não sei, estranho-me agora
Bastante desocupado
Consumido por remorsos
Ando até desmotivado.

abril 20, 2005

Difool desce à terra

Anda um gajo duas semanas a penar para aprender a dizer "Ratzinger" e o homem agora muda de nome? Não gostei. Do resto até gostei. Entendamo-nos: a Igreja Católica deve ser conservadora. Trivial. Não percebo as críticas dos ateus. Também não percebo as críticas dos agnósticos. Aliás, eu não percebo o agnosticismo tout court (inglês), mas isso é outra conversa. Igreja que é Igreja deve ser conservadora. A Igreja-mete-nojo, dos ajustes permanentes, dos pedidos de desculpa, das piscadelas de olho à ciência, com a mania que é moderna, plural, ecuménica, politicamente correcta, aberta às mulheres e tolerante, não merece respeito. A Igreja não pode ceder ao espírito do tempo, não! Que cena é essa, afinal, o "espírito do tempo"? Deve ser para aquilo que passa na MTV. Ora, se o espírito do tempo é trocar os Ramones pelo Hip Hop, venha Ratzinger. Mais: Ratzinger forever! Enfim, Ratzinger durante uns tempos. Consta que o senhor tem 78 anos. É óbvio que nunca a Igreja gozou de tanto tempo de antena como com a morte do Papa. A morte de um papa é a maior operação mediática montada pela Igreja. Ratzinger tem 78 anos. Como é? É preciso fazer um boneco? Certo, não vale a pena ser deselegante, confundir maldade com esperteza. É uma falácia frequente, esta cena de pensar que somos sempre espertos ao sermos maus. Só quem não conhece a biografia dos irmãos Dalton comete este erro. Ah, a interdição do uso do preservativo, África e a Sida. Bem, este argumento já se ouviu: quem segue à letra o que a Igreja diz, não precisa de preservativo, logo, a interdição não é escandalosa. A Igreja tem uma coerência interna inquebrável. Também era o que mais faltava, se dos milhares de seminários deste mundo saíssem só anticlericalistas, romancistas, futuros pedófilos, entre outros, e não houvesse um teólogo de jeito.

Disclaimer

Apostei ontem com um amigo uma garrafa de vinho, a consumir num restaurante lisboeta de alto gabarito, em como consigo chegar às cem entradas na série "A bola no Olival". Tenho até ao fim de Agosto e não vale truques à Chico esperto, como fazer entradas de uma linha. Em todo o caso, a partir de hoje fica explicada a obsessão pela série, muito para lá do interesse que eventualmente desperta e provavelmente não justificada, sendo este um tema menor. A série ganhou também um nome de código:"Operação Barca Velha, ano 1991".

BnO (19)

Na janela da dona Patrocínia afinávamos a pontaria. Nada de vidros partidos. O alvo resistia. Influência dos Jogos sem Fronteiras? Talvez. As nossas actividades para-futebolísticas eram vagamente idiotas. A janela da Dona Patrocínia ficava na cave, que não verdade era rés-do-chão - como é próprio das porteiras- e tinha grades - como é próprio das janelas ao rés-do-chão. Para os lados só havia parede e em frente tínhamos o nosso relvado. Era impossível resistir à tentação de usar a janela como alvo, até pelo som. Quando a bola embatia na janela tudo estremecia e mesmo eu, com os meus caniços, me sentia poderoso. O poder embriaga e quem se lixava era a dona Patrocínia. Mais elaborado era o volley de pé, que cheguei a pensar ter sido inventado por nós. Uma rede imaginária, à altura da cintura, dois jogadores de cada lado, um três regras: a bola pode bater uma vez no chão, são permitidos três toques e o mesmo jogador não pode dar mais de um toque seguido na bola. Trivial? Imagine-se isto num campo com linhas futuristas, a dar para o losango e com lajes cor-de-rosa. Era um dos mistérios do bairro. Quem teria construído aquilo, um misto de passeio alargado e de praceta em descampado, uma novidade sobre a relva, que recebêramos com bastante cepticismo, para logo assimilar? Enfim, ficou um campo catita, sobretudo com o passar dos anos, quando as lajes começaram a revelar a tectónica de placas ou, mais prosaicamente, as deficiências da empreitada. De uma superfície lisa, passámos a um campo armadilhado, rico em arestas acidentais, que perturbavam o ressalto da bola de forma imprevisível, introduzindo no jogo uma aleatoriedade que fazia de um simples passatempo - sim, sim - uma metáfora da vida. Lembro-me agora que costumava perder, mas o meu serviço era feito com inabalável confiança.

BnO (18)

As bolas são cometas. Quem nunca jogou futebol de noite, com a iluminação dos candeeiros públicos, não pode perceber a tal afirmação. Uma bola branca a crescer para nós vinda da penumbra e em lenta aceleração, lá desde o alto, é coisa para perturbar o defesa central que nunca arriscará um verso. Uma bola a gozar o segundo de imponderabilidade do alívio defensivo é a segunda lua, astro que, em função do seu posicionamento com respeito ao candeeiro de iluminação pública, cada qual contempla numa certa fase do ciclo lunar. O futebol nocturno viciava. Havia, a começar, o "efeito do quarto-escuro ", a escuridão democratizante. Uma camisola do Barça com reflexos acetinados mal se distinguia da T-shirt ruçada da Robbialac . A noite tornava também tudo mais intimista, convidando à introspecção. Canto! Concentração de jogadores na grande área, grande tensão, o marca desmarca e M, de sorriso beatífico, em delírio poético sobre a marca de grande penalidade, pensando se as copas das faias perturbam a vida das estrelas. Uma inspiração infinita, se não tivesse sido interrompida pelo autogolo. (continua)

Aqui como na vida

Nos últimos dias número entradas diárias no MI foi perturbado por enlaces de blogues muito populares. Sucede que após o pico inicial em três ou quatro dias tudo volta aos valores anteriores. O MI não fideliza. Reproduz-se aqui em dias o que na vida costuma decorrer em anos.

Hipérbole dupla

Ando a organizar a minha biblioteca.

BnO (17)

As crianças olhavam incrédulas para os rapazolas libidinosos. Perante o namoro desajeitado e - como dizer? - sôfrego que tinha lugar no bancos de jardim e à sombra das oliveiras, as crianças não percebiam tamanha perda de tempo e era com um certo desprezo que tratavam aquela malta. Um caso fez história: J., guarda-redes bem-apessoado, costumava sentar a namorada perto de um dos postes. Mal a bola passava para o meio-campo adversário, J. esticava-se para perto da pequena, iniciando uma sessão de linguados. Eram beijos longos, praticados com afinco e gozados com os olhos fechados. Quem isso topou foi o defesa central adversário, que matou o encontro com um balázio flutuante de baliza a baliza. J. experimentou então a ira dos parceiros e a reprimenda do capitão, um tipo de envergadura impressionante e pai na força aérea, elementos que se combinavam de forma sinérgica naquilo que hoje diríamos ser o "carisma". A decisão foi implacável: expulsaram J. Ora, para espanto de muitos, na semana seguinte J. estava de novo à baliza, embora sem a namorada. Curiosamente, a pequena assistia ao encontro perto da linha lateral, na zona central. Durante a celebração do primeiro golo desfez-se o mistério: o linguado, igualmente longo, esteve a cargo do capitão. O caso despertou polémica. Havia aqueles que diziam ter J. defendido o lugar na equipa cedendo a namorada e os outros, que preferiram ver no episódio uma prova de liderança do seu capitão, como se ele estivesse a ensinar a todos quais as prioridades: primeiro o golo, depois as miúdas. A canalha percebe e apoiou esta interpretação, na inocência de quem não sabia ainda o que era uma verdade a prazo.

abril 19, 2005

Putain...

7.jpgNova Iorque: fascínio, trepidação, centro do universo, ritmo imparável, permanente excitação, ciclos de cinema, festas primaveris, magnólias em flor, dias longos, brisa fresca, rosas no céu, coxas ao relento, Kimberle (hum?), esplanadas, bicicletas, relva virgem e farta, Monet a 10 minutos, cottages, lagos frios, carvalhos frondosos, fine books, cabelos perfumados, mas , de súbito, de súbito, um grande tédio de fim de tarde, uma saudade enorme de Paris. Putain! Sai contra-medida:

Vasos comunicantes

Já passaram pelo Letteri Café?

Telefilme

No processo "Apito Dourado", justificarão os factos apurados, por apurar e, sobretudo, os que nunca serão apurados, a expressão: "quando a realidade ultrapassa a ficção"? Sim, mas que ficção é esta? Tudo na realidade do "Apito Dourado", a começar pelo nome dado ao processo, nos remete para um universo medíocre. As personagens são unidimensionais, os esquemas encontrados os mais óbvios. Não haverá por aí um árbitro subornado para poder pagar os estudos aos filhos? Um árbitro com a alma dilacerada entre o que é justo e a possibilidade de levar a mãe a uma clínica londrina, para tratar uma doença? Não. O árbitro vende-se por uma queca e de uma penada engana, também, a mulher. Não haverá por aí um dirigente desesperado por assegurar o pagamento aos mais humildes trabalhadores do clube, consumido pela decisão que tomou? Ninguém. Ninguém fez nada, ninguém se arrepende e o que ninguém fez resultou apenas de sede de poder, simples ganância. É impossível gostar desta malta. Como nos maus filmes.

abril 18, 2005

Há 15 anos não teria percebido este quadro

md_lovers.jpg
René Magritte, Les Amants

abril 17, 2005

Bachiana Nº 0

(Este post vai demorar mais tempo do que o inicialmente previsto)

Quem falar no Lolita leva um murro no olho

O culto sublimado das adolescentes é uma das imagens de marca do blogger trintão ( aqui, ali e acolá, entre outros exemplos possíveis). A coisa ultrapassa-me. A explicação imediata - o fascínio da virgindade - é duplamente falaciosa. Em primeiro lugar, já não há virgens entre as adolescentes mais cobiçadas. Depois, além do medíocre consolo de se poder hiperbolizar o desempenho, à custa de não haver termo de comparação, ainda ninguém conseguiu justificar a vantagem de ir para a cama com quem não domina os rudimentos mínimos. No dizer de um amigo drosofilista* versado nestas matérias: "Virgens? Só se forem moscas". Admitamos que estes dois equívocos se anulam, ou seja, que o trintão topa a milhas a marotice das catraias. Fica por esclarecer o estado de sobressalto permanente. Confrontada com uma mulher feita, a adolescente perde em todas as frentes. A única explicação que encontro é a do efeito novidade, pilar da cultura pop. É uma justificativa pífia, mas reconheço que não consigo tirar as medidas a este fenómeno.

*Podem não acreditar, mas os geneticistas que trabalham com moscas passam uma parte considerável do seu dia de trabalho a caçar fêmeas virgens.

Adenda: convém não perder a resposta do Pedro Mexia a esta provocação. Esclareço apenas que quando refiro que a "mulher feita" ganha em todas as frentes à adolescente, não penso apenas na competência sexual. Se tudo se resumisse ao coito, nem estaríamos a discutir. Um outro leitor (citado por Mexia), escreve:"o tema está envolto numa névoa de hipocrisia, e ninguém diz duas frases sobre ele a não ser em tom sempre muito circunspecto e auto-vigilante." Aqui enfio a carapuça. O meu comentário anterior é politicamente correcto e, no limite, poderá ser interpretado como moralista. Mas não demoro a retirar a carapuça. Vejamos. Refere ainda o mesmo leitor: "...o problema é delicado mas não é insolúvel: a Natalie Portman era muito atraente com 14 anos. Se algum adulto tivesse tido relações sexuais com ela na época, isso seria evidentemente crime. Mas não desmente o facto de que a Natalie Portman era uma miúda incrivelmente atraente com 14 anos." De acordo, mas o leitor apenas explica (ou nem isso, enuncia), não resolve. A solução passa, justamente, pela sublimação. Ora, existem várias formas de sublimação e nem todas se realizam pela partilha pública. Em suma, o meu espanto (ou fascínio) está menos no "problema" - a ninfofilia, como refere o Pedro, é comum- e mais no método de sublimação. Interessa-me saber se podemos entender a partilha pública como "medida da distância entre a atracção e a imaginação sexual e qualquer comportamento «impróprio»". Mexia chama-lhe abismo, o que me parece um abuso de proporções geológicas. Afinal, quem espreita à beirinha desses precipícios não prefere, em regra, fazê-lo sozinho ou em clandestina associação? Terraplenemos a coisa. A ninfofilia é hoje muito pouco imprópria, contribuindo para tal a precoce maturidade sexual (orgânica e, cada vez mais, efectiva) da mulher e - sinal dos tempos - a saturação do espaço público com práticas bem mais desviantes. Em certa medida e em certos meios, é cool suspirar pela Natalie Portman de 14 anos. Estamos no domínio do marialvismo intelectual. Como se não bastasse, a fantasia sexual a que o Pedro se refere não deve ser muito forte. Fantasias sexuais sérias não dão entrada nos blogues canónicos, certo? Raios, se calhar eu é que sou perverso...

abril 16, 2005

BnO (16)

Ignorava o que viria a acontecer ao Estádio de Alvalade Sporting, meio em ruínas mas com uma bancada ainda de pé, de flanco aberto, como um Coliseu à nossa medida, feito de betão armado; feio de betão armado, também. Nem os destroços se salvariam. Ainda bem. Antes a terraplenagem que as ruínas. Porque gozei Alvalade com privilégios de filho de magistrado: assistir aos jogos na bancada central, um olho no campo, o outro a tentar reconhecer os adeptos com lugar cativo. Dali vi as primeiras arrancadas do Futre, o Oliveira todo enlameado e a fazer-se substituir para recolher uma ovação, o Damas a desviar a bola sobre a barra com uma sapatada, o frenesim das noites de competição europeia. Tudo isso e o Jordão. O Jordão em tronco nu, depois de marcar um golo contra o Beira-Mar e de pôr o Estádio aos pulos, uma imagem que ficou porque o sol havia começado a baixar e uma luz bonita tomara conta das bancadas, realçava o torso do Jordão e o contraste do amarelo do Beira-Mar com o verde de Alvalade. Como teria Jordão visto o Estádio em ruínas? Imaginei o goleador na Alameda das Linhas de Torres, a sentir uma fraqueza nas pernas e a prostrar-se diante daquelas ruínas. Não acontecendo isto de verdade, que se forjasse uma fotografia. Já antes o Jordão havia sido fonte de inspiração para outros trabalhos visuais. Especializei-me em desenhar o seu perfil caricaturado; a testa alta, os lábios salientes e pendurados, à Lucky Luke, um queixo prolongado e o nariz levemente adunco. Toda a cara convergia naquele perfil. Nem se dava pelos olhos tranquilos. Das vezes que reduzi o Jordão a duas dimensões, a mais reveladora foi quando fiz dele um boneco articulado, capaz de erguer o braço no momento da glória. Manipular as articulações do Jordão, longe de ser um ritual de Vodu, era a minha forma de sublimar a frustração de nunca ter conseguido marcar penalties como ele, hoje ilegais, mas eternamente sublimes: a paradinha, o guarda-redes para um lado e a bola caminhando com vagar para o lado oposto. A simplicidade das coisas perfeitas. Ou das "coisas bonitas", como diria alguém que, salvo erro, nunca treinou Jordão.

Discreta passagem

Vi ontem coisas fantásticas, lá do alto: o Pico, Faial e São Jorge - todas com uma coroa de nuvens à sua medida - rivalizaram com a menina da cadeira 21B. Vi depois a sombra de uma nuvem minúscula perdida na imensidão do azul e esqueci a menina da cadeira 21B (já esquecera as ilhas). Como é possível ter medo de andar de avião? Arranjem fobias decentes, por favor: a aracnofobia, o pavor do bungee jumping. Entro num avião com a prosa do dia e uns livros de poesia. Sento-me, aperto o cinto e só o volto a desapertar quando o avião aterra. Leio a prosa do dia e destruo por acidente os cantos dos livros de poesia, que ficam sempre aos meus pés. Da janela vem uma monotonia de azul, o tédio mistura-se com o leve tremor da carlinga e lá surgem as imagens do costume - eu a passear na asa do avião, depois sentado na borda da asa, com as pernas a baloiçar -, misturadas com as imagens de circunstância - eu a ensaiar uma abordagem à menina do 21B. Às vezes durmo e raramente me perco em pensamentos. A ideia de que a alma não pode viajar mais depressa do que um cavalo (coisa de índios da América do Norte, seguramente) exerce sobre mim o fascínio das noções erradas. Transportada para a actualidade de velocidades supersónicas, qualquer homem no átrio das chegadas dos aeroportos, com a sua alma ainda a atravessar o oceano num crawl esforçado, seria presa fácil para demónios durante horas, talvez dias. Enfim, tretas. O que eu experimento é um reajustamento imediato à nova cidade, sem períodos de transição para reflexões sobre a efemeridade da vida ou a impossível busca de ubiquidade. Estou com a cabeça em Lisboa, ainda a ver o ponteiro que indica o nível de gasolina no depósito do meu carro e, de um momento para o outro, aparece na minha cabeça a chave do cadeado da bicicleta que uso em Nova Iorque. A passagem é sempre brusca e geralmente está associada a um som. Ontem, por exemplo, foi o barulho dos carimbos a serem impressos no meu passaporte pelo tipo dos serviços de imigração. Tchân, Tchân... tchân, tchân, olá cá estou eu. No átrio das chegadas, não há demónio que me possua. Porém, a ideia dos índios continua a fascinar-me: será que ao menos a minha alma conseguiria nadar num decente estilo mariposa?

abril 12, 2005

Mares do Sul

As crianças deste país não deveriam querer ser bombeiros (ainda alguém quererá ser bombeiro?), nem jogadores da bola. Num país culto qualquer puto responderia: "quero ser Francisco José Viegas". Excluindo aquele rapaz que tem por nobre função arrebitar os mamilos da Jennifer Lopez antes de qualquer apresentação pública ou gravação, o profissional que mais invejo (sadiamente, como se diz em Espanha) é o homem de Aviz. De longe.

abril 11, 2005

Um cardeal é um galgo de corrida

De súbito, eu, anticlericalista, ateu, saturado até não poder mais com as exéquias papais, começo a vibrar com a aproximação do conclave e vou batendo com o jornal na coxa da perna, num daqueles movimentos ritmados e cheios de tensão, como só se pode ver num recinto de apostas, enquanto solto, entre dentes e de forma obsessiva: "Policarpo, Policarpo, Policarpo..." No fundo, no fundo, antes de ser ateu e anti-tabagista, sou patriota ou então jogador inveterado. Em que ficamos? Aceito apostas.

Sinais dos tempos

Consta que os adolescentes dinamarqueses têm as articulações dos dedos precocemente envelhecidas. A causa? Cerca de mil mensagens SMS enviadas por mês (em média). Receio não ser bem a isto que Shakespeare se referia quando escreveu "Something is rotten in the state of Denmark".

abril 09, 2005

Uma pergunta

Sobre o aborto escrevi em tempos idos uma longa prosa. Quero agora apenas fazer uma correcção e partilhar uma perplexidade. Se o referendo avançar e se a lei não mudar, a culpa não é dos elementos atmosféricos nem da Igreja. A culpa é de quem não soube ganhar a discussão. Pelo que tenho lido e ouvido, continuamos no mesmo registo: diminuir o opositor ("postura medieval", "fanatismo", "hipocrisia") e radicalizar o discurso ("na minha barriga mando eu"). Em vez das patacoadas do costume, seria mais avisado lembrar, muito simplesmente, que, mudando a lei, a nova lei será para cumprir, ou seja, que quem pratica e/ou ajuda a praticar um aborto depois do prazo limite estabelecido deve ser julgado. Seria esta a forma óbvia de destrunfar o adversário, mas, salvo erro, nunca os líderes dos movimentos para a despenalização do aborto recorreram a este argumento. Quem também reparou nisso foi Lobo Xavier, que fez uma afirmação grotesca, até hoje (salvo erro) não rebatida de forma veemente por ninguém. O Daniel Oliveira, por exemplo, limitou-se a desconversar, perdendo-se uma óptima oportunidade para marcar pontos. Perante isto, aqui fica, de novo, a pergunta: os defensores da interrupção voluntária da gravidez até às 10-12 semanas defendem ou não a realização de julgamento para quem pratica um aborto fora do prazo legal? Se a resposta é afirmativa, temos sido ligeiramente estúpidos. Se é negativa, alguém nos (me) anda a enganar.

abril 08, 2005

Misoginia vocal PAREI AQUI

João Gilberto, Paulo de Carvalho, Elvis Costello, Morrissey, Silvio Rodriguez, Chet Baker, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Freddie Mercury, Carlos do Carmo, Jacques Brel, Thom Yorke, Duquende, Camané, Mike Patton. A lista das minhas vozes preferidas regista uma presença avassaladora de homens. As poucas vozes femininas que admiro - Amália Rodrigues, Elis Regina e Ney Matogrosso- constituem um raro exemplo de uma lei pouco credível, a da excepção que confirma a regra.

Lista exaustiva de palavras a erradicar da poesia

Diáfano.

abril 07, 2005

Arquivo maradona

Não há indicador económico que substitua certas evidências: que imprensa desportiva é a nossa para ainda não ter surgido um jornal a contratar maradona? Não há ninguém a escrever em Portugal sobre futebol com a graça do maradona. José Estebes (Herman e depois a malta das Produções Fictícias)? Poupem-me. O taxista do Benfica que funga? Poupem-me. Não discuto a qualidade do humor desses bonecos. Mas são bonecos. E, a dada altura, fartamo-nos de brincar com bonecos. O que o humor futebolístico de maradona tem de especial é a ausência de compromisso. maradona não folheou os compêndios de "Como escrever humor para televisão sem gargalhadas enlatadas". A prosa surge fresca, sem os truques do costume. É uma pena este homem apagar os posts. Piscadela de olho a publicação futura? Só os cínicos pensarão assim. maradona não se limita a apagar o post; é o próprio texto original que desaparece da superfície da Terra. O incêndio da Biblioteca de Alexandria, os textos perdidos de Aristóteles sobre o humor, a guerra e a pilhagens em Sarajevo? Bem, não tendo eu meios para resolver tais delapidações ao conhecimento universal, resta-me salvar a prosa de maradona dos impulsos de piromania platónica do seu criador. Nasce hoje o "arquivo maradona", ficheiros de texto para descarregar, imprimir e multiplicar por aí.

maradona1

abril 06, 2005

Encontro com Manuel Reyes

1974_Reyes_Negra_labe_[1].jpgChego à oficina de Manuel Reyes ainda de manhã, depois de ter andado perdido pelo labirinto que é a judiaria de Córdova. Trata-se do rés-do-chão de uma casa modesta, na Rua das Armas. Não foi a sua primeira morada, como se pode ver na etiqueta de guitarras mais antigas. Reyes abre-me a porta. Dir-me-á mais tarde que anda a passar para o filho a arte, mas eu nunca chegarei a ver o rapaz (homem crescido?). Uma Reyes é instrumento que pode custar acima de 10 000 dólares e o mestre tem uma lista de espera de 22 anos. Que ansiedade habita um homem de 70 anos com uma lista de espera de 22 anos? Viverá ele com uma sensação de incompletude ou, pelo contrário, olha a lista de espera como uma reclamação antecipada capaz de o resgatar à morte? Reyes topou-me logo: mais um curioso do flamenco, mau guitarrista certamente, à caça de autógrafo ou história para contar aos amigos. Foi cordial, porém. "Não tenho muito tempo. A família espera-me", disse-lhe eu, com algum embaraço. "Eu também não tenho muito tempo", retorquiu ele, sem acrescentar que a elite dos guitarristas vai esperar por ele até ao fim dos seus dias. Até ao fim de seus dias. Mostra-me depois umas guitarras de estudo, provavelmente umas Reyes com pouco mais de Reyes que a etiqueta. Fraude? Respeitinho, por favor. Manuel Reyes é um senhor. Fala daquelas guitarras com algum desprezo, percebe-se logo tudo. São instrumentos que receberam o toque de Reyes, suficiente para fazer das madeiras mais ordinárias o mais raro pau-santo, pelo menos na cabeça de quem as compra. Isso paga-se. É então que reparo nas mãos de Reyes, algo papudas, com unhas de guitarrista no tamanho, mas quebradas e gretadas pelas rotinas do artesão. "E Vicente Amigo, toca com uma Reyes?" Ele diz-me que sim e torna-se irresistível não lhe sacar um cumprimento, gesto que ele concede com alguma irionia e magnânimo orgulho. Nessa noite, enquanto oiço uma Soleá tocada por Amigo, não posso deixar de pensar na cadeia de ligações que só a mente de um fanático pode conceber: a minha mão direita, a mão de Reyes, a guitarra de Amigo, os dedos de Amigo e o acorde final, na palma da minha mão esquerda.

Vasos comunicantes

Tempo apenas para agradecer a José Pacheco Pereira pela simpática referência ao MI feita no Abrupto e para convidar todos os leitores, em particular os que aqui chegam pela primeira vez, a seguirem de imediato para um outro espaço, o Conta Natura.

abril 05, 2005

Nas festas Tulius fica a um canto da sala

Quando me iniciei na blogosfera não conhecia pessoalmente ninguém que tivesse um blogue. Agora, dois anos e meio depois, pouco mudou. Curiosamente, não foi por falta de oportunidade.

abril 03, 2005

Overbooking social revisitado

O overbooking social foi já aflorado no Educação Sentimental e a ocasião é oportuna para lembrar que não podemos reduzir este fenómeno a um efeito secundário da generalização do uso do telemóvel. Se é certo que a dinâmica da noite se alterou, imperando agora os arranjos de última hora, numa plasticidade boémia organizada nunca antes vista, é sobretudo o overbooking social de tipo putativo passional que importa tratar. Cada vez mais, a espécie urbana e moderna vai atafulhando a ante-câmara da paixão. Onde antes entrava uma pessoa, em recolhida solidão e ansiosa espera, estão hoje 10, em estado de excitação e descontraída cavaqueira de sala de espera. Tal descontracção, aparentemente paradoxal, explica-se facilmente: qualquer frequentador da ante-câmara da paixão tem o seu próprio estaminé, a sua própria ante-câmara, decorada com as suas revistas velhas preferidas, para entretenimento das suas 10 putativas paixões. Estamos perante um expediente arquitectónico virtual que maximiza as possibilidades de sucesso sem comprometer a fidelidade. Depois do confessionário, poucas invenções conseguiram responder de forma tão satisfatória aos anseios do homem moderno. A passagem da ante-câmara para a paixão propriamente dita está sujeita aos habituais rituais que marcam o início do namoro: o beijo, a cama, por aí fora. O essencial neste sistema é que a promiscuidade tecnicamente nunca chega a existir. Temos, se quiserem, uma promiscuidade faseada, eufemisticamente designada por monogamia seriada. A vantagem da ante-câmara é acelerar o processo de troca. O plano B (quando não até ao plano L) está sempre presente, não de um modo activo (a/o amante é aqui vista/o como uma falha do sistema), mas em estado latente. Perante isto, marcar dois jantares para a mesma noite chega a ser ternurento.

abril 02, 2005

Na hora da nossa morte

Creio que é numa das entradas do livro "Pensar" que Vergílio Ferreira faz um comentário mordaz a todos quantos não resistiram a soltar um comentário por altura do suspiro final. Do dúbio "Mais luz!", de Goethe (pedido para abrirem as portadas da janela ou revelação divina?), ao seco "levem daqui as mulheres", de Herculano, passando pelo reconfortante "Tudo está bem", de Kant, Vergílio Ferreira conclui que o mais avisado é resistir à tentação da grandiloquência terminal e nao dizer nada. No que me toca, a ideia das últimas palavras aflige-me pela impossibilidade de correcção. E se nos enganamos? E se a coisa não nos sai bem? Concordo com o escritor. A melhor solução é deixar para últimas palavras algo que não foi dito com essa intenção. Uma solução de compromisso é rematar a vida deixando um final em aberto, pouco assertivo, nada conclusivo e intrinsecamente inatacável, ao estilo de um dos romances de Agustina Bessa Luís: "Eis como se termina uma vida- deixando sempre alguma coisa por dizer." (paráfrase). Sucede que este é um luxo que o Papa Joao Paulo II não podia ter. Numa morte com relato em diferido para o mundo inteiro, era preciso reconfortar os fiéis. As palavras escolhidas terão sido: " Estou preparado. Preparem-se vocës também". Palavras corajosas, sábias e adequadas, cuja autoria ninguém se vai lembrar de pôr em causa, a menos que saia um livro sensacionalista sobre os últimos minutos do Papa, possivelmente da autoria de um enfermeiro pouco escrupuloso ou de maqueiro letrado. Verdade ou mentira, qualquer dos cenários pouco surpreenderia. Nunca uma velhice foi tanto dos outros e tão pouco do velho que a viveu.